terça-feira, 24 de março de 2015

TEATRO: INCÊNDIOS



Direção: Aderbal Freire-Filho - 2013
De: Wajdi Mouawad


Recentemente assisti ao filme de Denis Villeneuve e considerei um dos melhores filmes que vi em 2014. Agora tive o privilégio de assistir a peça de teatro sob a direção de Aderbal Freire-Filho com Marieta Severo no papel de Navval.

Incêndios faz parte de uma tetralogia - Sangue das Promessas composta por Litoral, Floresta, Incêndios e Céus. Infelizmente não localizei no Brasil as outras três partes. 

A peça pode ser considerada por três aspectos: pelo viés da história de Navval (Marieta Severo) e sua vida à qual ela tenta dar um sentido , pelo viés dos gêmeos, Simon ( Felipe de Carolis) e Jeanne (Keli Freitas) que partem em busca de sua origem após receberem cada um uma carta de sua mãe para ser entregue ao pai e ao irmão do tabelião Hermile Lebel ( Márcio Vito) , ou ainda pelo viés da história da guerra civil no Líbano, onde teríamos uma história de resistência. 

A peça foca pouco no aspecto do conflito religioso da guerra civil do Líbano se atendo mais a Navval e seus filhos. Um drama, uma tragédia que é universal pois poderia ocorrer em qualquer lugar ou contexto, não necessariamente uma guerra civil, um contexto com violência, mas que não deixa de mostrar o que uma guerra pode provocar. A história seria outra sem o conflito que gerou ódios e mortes. Talvez Navval tivesse podido viver seu grande amor e criar seu filho, e sua vida teria tido um suposto sentido, mas como em toda tragédia, desde os gregos, não é assim que se passa. 

"AQUELE QUE TENTA ENCONTRAR SUAS ORIGENS É COMO O ANDARILHO NO MEIO DO DESERTO QUE ESPERA ENCONTRAR, ATRÁS DE CADA DUNA, UMA CIDADE. MAS CADA DUNA ESCONDE UMA OUTRA E NÃO SE TEM POR ONDE ESCAPAR." Vvajdi Mouavvad

Buscar as origens, buscar quem eu sou? Navval diz várias vezes durante a peça: a infância é uma faca enfiada na garganta." Como tirá-la sem abrir uma ferida que não irá parar de sangrar? 
O silêncio. Navval ficou durante 05 anos em silêncio. Por que? o que a calou? o indizível, o inefável. Ela deixa aos filhos a missão de descobrir o que não pode ser revelado e depois com isto poder ser falado. Mas será? Simon que criticou tanto o silêncio da mãe, se vê silenciado ao final. Está sem palavras. Talvez somente o teatro seja capaz da catarse. 

O passado, o presente e o futuro estão ali no palco, simultâneos, reduzindo tudo ao presente, como um inconsciente atemporal. As cenas se sobrepõem, o passado passa por trás do presente, ou vice-versa. 

O túmulo. Escrever o nome de sua avó no túmulo. Somente ter seu nome no túmulo quando a promessa se cumprisse, quando seus filhos encontrassem o irmão. A morte não encerra uma história, ela continua. 

Voltarei a Incêndios após a leitura do livro.


Veja um trecho da peça:








Aderbal Freire Filho nasceu em 1941 em Fortaleza - Ceará. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

FILME: FORÇA MAIOR - 2014


Direção: Ruben Östlund - 2014
Duração: 119 min
Título Original: Force Majeure
País: Suécia 

Venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un certain regard do Festival de Cannes de 2014

Um casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) e seus dois filhos vão passar 05 dias numa estação de esqui para que ele possa descansar, uma vez que segundo sua esposa ele trabalha muito. Logo no início do filme temos a tradicional foto da família na neve em roupas de esqui. Uma família aparentemente feliz. 

O que ninguém pode prever são as contingências que as vezes revelam facetas nossas que não conhecíamos e não poderíamos prever. No segundo dia eles almoçam num restaurante com uma vista para as montanhas de neve. Desde que chegaram Tomas havia tranquilizado Ebba que se incomodava com os estouros que ouvia, que seriam as equipes do lugar que sob controle fazem a neve descer a montanha justamente para manter a segurança dos esquiadores. Durante o almoço de repente vemos uma avalanche vindo em direção ao restaurante. Tomas diz que ele está sob controle e que não há risco nenhum, mas de repente ela se aproxima demais, e todos começam a gritar e a correr. Ebba segura seus filhos e grita por Tomas para ajudá-la, mas eis que Tomas saiu correndo e deixou sua família para trás.


A avalanche não atinge o restaurante, ela para antes, mas há uma névoa forte causada pela neve em movimento que por um momento deixa tudo envolto no branco. Em seguida o céu fica azul novamente e Tomas está de volta, senta e recomeça o almoço como se nada tivesse acontecido, porém esta família não será mais a mesma. 

Tomas teve uma reação de sobrevivência e tentou se salvar e com isto deixou sua família para trás, mas ele não toca no assunto. Ebba fica com isto engasgado, mas também não fala nada para ele, pelo contrário, vai contar aos outros colocando Tomas numa situação constrangedora e ele acaba negando que tenha feito isto. Eis então que se revela também a questão de um casamento que já não andava muito bem. As crianças ao perceberem que algo vai mal começam a ter crises de choro e a se tornarem mal criadas como forma de chamar a atenção, até que o menor deles diz que não quer que eles se divorciem. 

É impossível não nos colocar a questão. O que será que faríamos no lugar deles? Dizer que uma mãe nunca abandona seus filhos, mas que o homem pensa somente em se salvar? Mas, quantos relatos já vimos de pais que também arriscam tudo para salvar um filho? Não, não acredito que seja por aí a resposta. A questão é que todos nós temos um sentido de sobrevivência, há uma pulsão de vida em nós e a prova disto é que qualquer motorista sempre tenta tirar seu lado num acidente e o faz automaticamente e sem consciência. Tomas foi surpreendido por esta reação que ele teve, mas depois se viu cobrado pelo o que se espera dele, o que a sociedade espera, a mulher, os outros esperam de um homem, de um pai, de um marido. 

Um casal de amigos que ouve a história ao estarem sós depois a mulher também lhe diz que ele poderia agir assim e isto o deixa também mexido. O que a cultura impõe ao homem, a mulher, ao ser humano. 

Tomas se sente cobrado por todos, mas como responder a isto? dizer que sentiu medo, pavor e correu? Sua esposa o despreza cada vez mais, ele não corresponde as suas expectativas como homem, como pai. Até o dia que o diálogo acontece e Tomás confessa todos seus erros inclusive ter sido infiel, e que não quer ser esta pessoa. Ebba vai exigir dele uma prova que não é covarde e que pode agir para protegê-la e a seus filhos o que fará no dia seguinte na pista de esqui. 

Não leia abaixo caso não queira saber o final do filme. 


No caminho de volta, no ônibus que desce a montanha por uma estrada na beira dos penhascos, o motorista começa a demonstrar que não sabe bem dirigir o ônibus e começa a se criar uma situação tensa. Novamente é Ebba quem toma a frente e o manda abrir a porta, neste momento o amigo do casal diz: sem pânico, primeiro as mulheres e crianças. Todos descem e o motorista vai embora com o ônibus os deixando ali. É um final um tanto estranho, mas pode se refletir a respeito, pois todos ali estavam com medo e cada um teve uma reação o que mostra claramente que o ser humano é complexo e pode reagir a situações drásticas de formas diferentes. Inclusive neste momento é Ebba a primeira a descer deixando os filhos no ônibus. Todos nós temos um ponto onde reagimos de uma maneira a nos salvar sem pensar em mais nada. Entre o medo de ser soterrado por uma avalanche e o medo de cair no vazio de um penhasco, qual medo é o mais forte? depende da pessoa.


Ruben Östlund nasceu em 1974 em Styrsö, Gotemburgo, Suécia. 

FILME: WINTER SLEEP - 2014


Direção: Nuri Bilge Ceylan - 2014
Duração: 196 min
Título em português: Sono de Inverno
Título original: Kis Uykusu
País:Turquia

Ganhou o Palma de Ouro do Festival de Cannes 2014 

Inspirado em novelas de Anton Tchekhov

O filme é longo, tem 3hs de duração, mas valeu todo seu tempo. Não serão todos que apreciarão, é um filme lento, com muitos diálogos, mas densos e que nos fazem pensar muito e mostram as diferenças entre as pessoas e o que elas sentem em relação ao mesmo tema. Um filme para rever muitas vezes. 

Aydin (Haluk Bilginer) é um ator de comédias aposentado que tem um pequeno hotel na região da Capadócia na Turquia e escreve artigos para um pequeno jornal local e também se dedica a escrever um livro sobre o teatro turco. Ele vive com sua esposa Nihal (Melisa Sözen) que é bem mais jovem do que ele e se dedica a obras de ajuda para as escolas da região e sua irmã Necla (Demet Akbag) que se divorciou recentemente.



O filme também foca nas diferenças religiosas pois a região é habitada por muçulmanos e um deles mora numa das casas que pertencem a Aydin e são locatários desde a época do pai dele, mas estão passando por momentos difíceis e não conseguem pagar o aluguel. O belo do filme é que ele nos mostra não uma guerra religiosa, mas como os comportamentos morais são diferentes, e uma das cenas fala da culpa e do perdão, sendo que para eles é importante ver e sentir que foi perdoado e beijar a mão daquele a quem se pede perdão e que se o outro negar isto relegará o que pede perdão a se sentir culpado para sempre, o que coloca Aydin numa situação difícil a qual ele adere para não deixar o outro com esta culpa, porém é visível que ele não está perdoando ninguém, até porque para ele a situação é risível e não séria como o é considerado pelo outro. 

Há um diálogo fantástico sobre o amor e a resistência à violência onde Necla defende que se não resistirmos ao agressor ele acabará percebendo que está fazendo mal ao outro e sentindo remorso pelo o que fez, ela se questiona se agiu corretamente ao resistir ao marido e fica pensando se não poderia ter sido diferente, já Aydin e Nihal colocam uma opinião contrária a esta postura. Necla chega a dizer que a beleza do gesto é por ela não ter feito nada para ele a agredir. Muito se pode refletir e pensar a respeito desta questão.

Aydin é o centro do filme. Ele mantém um domínio sobre as pessoas ao seu redor tanto financeiro como intelectual, a falta de diálogos anteriores culmina no que vemos no filme onde ressentimentos, fragilidades, desejos acabam vindo a tona nos diálogos do filme que nos mostram a complexidade do ser humano, daquilo que ele aparente ser e o que é, inclusive simbolizado no filme num momento onde Aydin aparece usando uma máscara de teatro. A vida é um palco onde as pessoas atuam, mas nem sempre somos espectadores dos que nos são mais próximos, não vemos e não conseguimos captar o que realmente os move, e muitas vezes nem eles mesmos sabem. E é através dos diálogos entre os personagens do filme que ele nos toca a cada um de nós, são diálogos com vários argumentos e por sinal muito bons, que nos faz refletir, nos levando a dialogar com o filme e eles com nós. 



As relações se constroem muitas vezes sobre enganos, não apenas em relação aos outros, mas no nosso auto-engano, nos recusamos a ver muitas vezes e nos recusamos a ouvir também. Não que seja intencional, pelo contrário, muitas vezes não conseguimos ver nem ouvir. Mas há cenas no filme que coloca cada um diante de si mesmo também, e uma das mais bonitas já no final do filme é quando Nihal decide ajudar com dinheiro a família que mora no imóvel e não consegue pagar o aluguel. O que se passa ali choca, desloca, provoca, muda algo. 

Altamente recomendado! 
Nuri Bilge Ceylan nasceu em 1959 em Istambul, Turquia 

domingo, 8 de março de 2015

FILME: ATTILA MARCEL - 2013


Direção: Sylvain Chomet - 2013
Duração: 102 min

" Achamos tudo em nossa memória, ela é uma espécie de farmácia, de laboratório de química, onde encontramos sem querer, ora um calmante, ora um veneno perigoso." 
Marcel Proust 

Paul (Guillaume Gouix) vive com suas duas tias Annie (Bernadette Lafont) e Anna ( Hélène Vincent), professoras de dança. Ele tem 33 anos e deixou de falar aos dois anos quando presenciou a morte de seus pais o que lhe causou um trauma. 

O filme nos mostra de forma delicada esta dolorosa história. Suas tias o protegem ao excesso, o que não lhe permite ter sua própria vida, elas controlam tudo. São duas figuras que se refletem uma à outra, e num dado momento cômico são chamadas de Dupont Dupont referência a dupla das aventuras de Timtim, pois se vestem sempre igual, andam juntas, se complementam. 


Paul sofre de pesadelos, ele tem uma imagem do pai como cruel e ruim, e o recorta de todas as fotos que tem onde está junto, mantendo somente sua mãe. As tias e amigos não falam do assunto o que permite que Paul construa suas idéias sobre o que aconteceu. 

Um dia ele conhece sua vizinha Madame Proust ( Anne Le Ny), clara referência à Marcel Proust, e com ela Paul inicia sua busca pelo tempo perdido através de chás que o fazem entrar num estado de inconsciência, onde tem visões, como se estivesse sonhando e ele começa a ter lembranças até chegar o dia em que verá a cena que recalcou e compreenderá o que realmente aconteceu. 


O filme é muito interessante para vermos em termos psicanalíticos como um trauma se instala e atua na vida de uma pessoa. Na falta de palavras e de capacidade de compreensão de um fato, no caso a morte de seus pais de forma violenta na sua frente, há um recalque do ocorrido. Madame Proust é como uma psicanalista que lentamente vai acompanhando esta recuperação de lembranças, enquanto as tias parecem fazer o papel do psiquismo que recalca tudo e impedem que a verdade surja, são como uma censura. Um trauma não pode ser lembrado de uma só vez, ele precisa ser recuperado aos poucos, de acordo com o tempo de cada um. Com seus bolinhos, músicas, Madame Proust acolhe Paul e ele confia nela podendo relaxar e permitir que as lembranças venham. Isto ocorre em várias sessões da mesma forma que um processo de análise.



Antes da rememoração está paralisado, congelado. A cena fica, e vai se repetir constantemente de alguma maneira. Não há como voltar ao antes, não se avança, é eterno presente. Paul não fala porque ele não falava aos dois anos, ali ele ficou, apesar de ter crescido, aprendido coisas, tocar piano maravilhosamente bem, ele continua lá no momento do trauma. Quando ele fala ele parte exatamente de sua última palavra antes de se calar. 
Sylvain Chomet nasceu em 1963 em Maisons-Laffitte, França 

sexta-feira, 6 de março de 2015

FESTIVAL DE TEATRO 2015


Entre tantas boas opções que me colocaram diante da castração tive que optar por algumas peças e espetáculos que irei assistir e depois postar aqui no Blog.





quarta-feira, 4 de março de 2015

FILME: WHIPLASH - Em busca da perfeição - 2014


Direção: Damien Chazelle - 2014
Duração: 107 min
Título original: Whiplash

Estamos numa fase de filmes sadomasoquistas, mas este Whiplash é bem superior à Cinquenta tons de cinza ao tratar igualmente de fantasias deste tipo. 

A relação entre Andrew Neiman (Miles Teller) e seu professor de música Terrence Fletcher (J.K. Simmons) é sadomasoquista. 

Andrew foi abandonado pela mãe e tem como maior desejo, o ideal de eu, ser o melhor baterista de sua geração. Por um lado ele busca compreender porque foi abandonado, porque não foi amado o suficiente, se há algo errado com ele, se fez algo errado para ser abandonado. Por outro ele quer este amor do qual foi privado, o que provavelmente transfere para seu professor que é um verdadeiro carrasco. Este ideal de eu normalmente vem do outro, da cultura, haja visto o jantar no filme onde eles discutem o que é ser o melhor, o que é ser lembrado para sempre (e não esquecido e relegado como ele foi pela mãe). Para atingir isto vale tudo, qualquer sacrifício. Andrew abre mão de tudo em sua vida, inclusive da namorada onde ele prevê o que será a vida deles sem ao menos tentar vivê-la, pois irá se dedicar totalmente ao seu ideal. 

Fletcher é impiedoso em nome da arte. Ele acredita que somente aqueles que são pressionados ao limite é que conseguem e para isto humilha seus alunos, os desacredita, esperando que reajam e lhe mostrem que são os melhores, que podem aguentar tudo e vencer. Mas e ele? porque nunca foi o melhor? então ele projeta no outro o que deseja para si, mas ao mesmo tempo parece que torce para o outro nunca o consiga. Ele mente aos alunos sobre a morte de um dos alunos dizendo que foi um acidente de carro sendo que o aluno se suicidou. 

Ele massacra Andrew e ao final este é excluído da escola. Neste momento será procurado por agentes sociais que querem mostrar a culpa de Fletcher no suicídio do outro ex-aluno. Ele vai colaborar na condição de que seu nome não seja revelado, mas o professor sabe que foi ele e armará sua vingança para destruí-lo definitivamente. É neste momento, quando ele está derrotado, e seu pai o acolhe com um abraço convidando-o para ir para casa, passivo e anti-conflitos, provavelmente como foi em tudo em sua vida, que Andrew irá reagir e enfrentar Fletcher. 

A relação se impõe sobre a questão do ideal, do melhor. Andrew quer ser o melhor e Fletcher explora isto. Ambos estão sob a servidão de ser o melhor, só que um é o senhor e o outro é o escravo, um é o masoquista e o outro é o sádico. Mas sempre há o momento da virada, e então a vítima se transforma no carrasco. Inconscientemente vemos uma questão de potência sexual colocada na música, na arte, uma sexualidade excessiva e não apenas uma pulsão, um transbordamento. O abusado quando não consegue sair disto, ultrapassar se transforma no agressor. É a relação do mais frágil com o mais forte, mas em algum momento isto se inverte.

No filme, no final após Andrew vencer o carrasco e passar a dominar vemos Fletcher recuar e retornar, agora fazendo exatamente o que Andrew quer. Não é bom se iludir que ele venceu, ambos continuam na mesma relação, só que invertem seus lugares. 

A pergunta que fica é: precisa disto tudo para ser o melhor? para ser brilhante? para se sobressair e ser lembrado para sempre? Aqui temos uma questão que também é cultural e social. Como o mundo nos cobra estes ideais que cada um tem, e como chegar lá. Num mundo capitalista e extremamente competitivo onde vale tudo, exceto perder. Onde perder é fracasso e você é humilhado e esquecido. Vale a pena pensar se é realmente isto que faz alguém feliz e realizado. E se realmente é este o caminho para chegar ao ideal de eu, para ser o melhor. 

O ideal de eu é algo que fantasiamos e que na maioria das vezes não iremos alcançar, ou se o fizermos, ele requer um caminho, aos poucos, dentro do que é possível. Tem que ser um desejo da pessoa e não algo imposto por outro ou Outro, e requer sim persistência, dedicação e esforço, mas não o sofrimento e muito menos uma relação de opressor-oprimido ou vítima-carrasco, isto é doentio, apesar de dar um prazer, um gozo aos que estão envolvidos o preço disto é alto demais. No filme Andrew perde a namorada que encontra outro mais comum, não tem amigos, seu corpo padece do esforço exigido. 

A perfeição é uma ilusão, logo que se pensa ter atingido sempre virá outro melhor, e a que atingiu sempre achará que ainda não chegou lá. E o ideal de eu deve ser um motor propulsor, algo que move a pessoa, em constante movimento para tentar alcançar o que fantasiou para si mesma, mas não um fim em si mesmo. 

Damien Chazelle nasceu em Providence, Rhode Island, EUA

FILME: O QUE OS HOMENS FALAM - 2014



Direção: Cesc Gay - 2014
Duração: 95 min
Título original: Una pistola em cada mano

É uma comédia tragicômica. São oito homens que enfrentam a crise de meia-idade e que nos são apresentados em pequenos episódios. Há um dito comum que diz que os homens sempre falam de mulher e futebol, há um impressão errônea de que os homens não se afetam com questões amorosas da mesma maneira que as mulheres e também não choram facilmente, que são unidos, mas tudo isto é puro engano, e este filme nos mostra o quanto os homens são humanos, muito humanos.  

O primeiro episódio nos mostra E. (Eduardo Fernandez) que encontra por acaso, o que já se diz de imediato, nada é por acaso, com J. (Leonardo Sbaraglia) ao entrar num elevador. J. está chorando, teve uma sessão difícil com o seu psicanalista alemão, já E. encontra-se numa situação difícil, perdeu tudo e teve que voltar a morar com sua mãe levando com ele seu inseparável gato. J. aparentemente é um homem que devia estar feliz, está numa boa situação financeira, tem uma esposa e filhos, mas não, ele está deprimido. 

S. (Javier Cámara) está com o filho e o leva para casa de sua mãe. Ali ele tenta entabular uma conversa com a ex-mulher que ele traiu e que o deixou, buscando reatar o casamento. 

Vemos então um homem G. (Ricardo Darín) sentado num banco em um parque. Ali ele encontra um amigo que faz tempo não vê, L. (Luis Tosar) que está levando seu cachorro Asko (nome sugestivo) dar uma volta.  Ele confessa ao suposto amigo L. que está seguindo sua mulher Laura, que ela o está traindo. Ele quer reconquistá-la e por isto nunca falou com ela sobre suas desconfianças. O bom amigo lhe aconselha a falar com ela, a facilitar as coisas para ela (???). Mas G. decide fazer o contrário, ao invés de falar com Laura ele diz que vai falar com o amante e eis que ele irá descobrir quem é este, e provavelmente sente asco. 

P. (Eduardo Noriega) está em seu trabalho e tenta seduzir uma colega que ele sempre desprezou pois ela era gorda e agora emagreceu. Será que ela vai aceitar? A cena do banheiro é hilária. 

A caminho de uma festa A. (Alberto San Juan) ouve uma amiga falando de seu relacionamento e de tudo pelo o que passou com o marido e fica pasmo. Enquanto isto M. (Jordi Mollà) que é o marido mencionado encontra a esposa de A. e também ouve uma confissão dos problemas que abalam o casamento dos dois. O terrível é o encontro dos dois, ambos olhando um para o outro, sem saber se sentem pena ou raiva, e sem saber que o outro sabe dele mesmo. 

O que este filme retrata é a humanidade dos homens e não os estereótipos, e o que não os diferencia das mulheres, todos com suas questões, fragilidades, dificuldades, bloqueios, medos, dúvidas, inseguranças, enfim, todos humanos. Vemos que eles não são tão unidos assim, e que também se desconhecem, mas sentem dúvidas, se perdem também na ambiguidade, não sabem o que fazer, como fazer ou quando fazer, tem desejos, e também sentem vergonha. 

Também é bom ver no filme a atuação conjunta de atores espanhóis e argentinos. O filme é ambientado em Barcelona, na Espanha. 

Cesc Gay nasceu em 1967 em Barcelona, Espanha. 

FILME - SILS MARIA - ACIMA DAS NUVENS - 2014


Direção: Olivier Assayas - 2014
Duração: 124 min
Título Original: Clouds of Sils Maria
País: Estados Unidos - França 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem

Para os que não assistiram ainda recomendo não ler, pois pode ser considerado spoiler. 

O filme trata de uma atriz que está no auge de sua carreira, Maria Enders (Juliette Binoche) que iniciou sua carreira representando Sigrid, uma jovem que leva ao suicídio sua chefe Helena. Agora ela é convidada a fazer o papel inverso. Após relutar ela acaba aceitando, irá contracenar com Joan (Chloë Moretz) que fará Sigrid, e isto a deixa perturbada. Maria vai para Sils Maria com sua assistente Valentine (Kristen Stewart) para ensaiar o papel o que a leva a confrontar seu passado. O filme tem uma reviravolta no final que surpreende, mas não tenho como falar do que senti e percebi sem tocar neste ponto. 

Durante os ensaios nos Alpes em determinados momentos já não sabemos se elas estão ensaiando ou se são Maria e Valentine. Um outro ponto é que vemos no início do filme uma Maria muito feminina que aos poucos parece ir se masculinizando, em seus gestos, no corte de cabelo, nas roupas que passa a usar, no tom de voz, na expressão. É sutil o processo.

A história de Sigrid é que ela é contratada como assistente de Helena, uma empresária, que acaba se apaixonando por ela o que a leva ao suicídio. Valentine também é a assistente de Maria, e é uma mulher forte, determinada e que tem seus próprios pontos de vista, que diferem de Maria sobre a história de Sigrid e Helena. 

Maria vê Sigrid como ela mesma era quando jovem e a revê no espelho de Valentina, uma projeção de si mesma jovem, mas agora ela não é mais esta jovem, amadureceu, é famosa, ou seja, está no lugar de Helena em sua vida também e tem que enfrentar que ela também se encanta com Sigrid, seja como Joan ou Valentine. 

A passagem de Sigrid para Helena é para Maria o que lhe ocorre em sua vida e ela precisa se confrontar com isto. Precisa se confrontar com seus fantasmas e desejos. O final surpreendente é justamente quando ela fica acima das nuvens. Em Sils Maria há um fenômeno climático chamado de Serpente de Maloja. Nuvens entram no vale cedo de manhã serpenteando causando um belo efeito e cobrindo o vale, porém abaixo delas o tempo fica ruim com chuvas e intempéries, como a própria vida de Maria. É no momento que ela está acima da Serpente, que ela faz a passagem e ultrapassa seus fantasmas e pode se assumir e ser a Helena. 

Vejo duas questões, a primeira é a dificuldade de aceitar que se cresceu, amadureceu e que lhe cabe agora interpretar a mulher mais velha e abrir mão do papel que lhe deu o estrelato, mas a outra na minha opinião é a mais importante, é o desprezo que Maria sente por Helena e isto é uma projeção que ela tem que enfrentar. Sempre odiamos no outro o que trazemos em nós mesmos e nos desagrada, não aceitamos ou não sabemos como lidar com isto. É disto que se trata, lidar com este outro lado do espelho. Ao longo do filme Valentine mostrará outra faceta de Helena, outra possibilidade para esta mulher. É Maria quem encarna ela mesma, Sigrid e Helena, as três são ela mesma, até o momento onde se faz a passagem e ela consegue lidar com estas três facetas de si mesma. 

É a jornada do crescimento e amadurecimento de Maria, da aceitação que a vida anda, se movimenta e muda, mas sempre trazendo os traços de antes. 

Olivier Assayas nasceu em 1955 em Paris, França

segunda-feira, 2 de março de 2015

LIVRO: REZE PELAS MULHERES ROUBADAS - JENNIFER CLEMENT


Clement, Jennifer. 1ªed. Rocco, 2015
237 páginas
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Título Original: Prayers for the stolen

O livro da jornalista Jennifer Clement é escrito em forma de ficção para dar conta de mostrar e denunciar  o que ocorre no Estado de Guerrero, ao sul do México, dominado pelo narcotráfico

O relato é poderoso e impactante, mas consegue também mostrar como estas mulheres conseguem viver neste mundo que as rodeia sem vermos um pingo de autocompaixão, mas sim de aceitação de como é suas vidas e do que devem fazer para sobreviver a isto. 

As mães rezam para que nasça um menino, mas quando é uma menina elas tratam de divulgar a todos que foi um menino e mantém a criança de cabelos curtos vestidas como meninos. Quando elas crescem é a hora de enfeia-las, cabelos curtos, sujam os dentes para que pareçam podres, jamais pintam as unhas. Um buraco cavado perto de suas casas é onde se escondem ao menor sinal de aproximação de uma SUV com os traficantes que vem roubar as meninas para vender. 

Uma vida miserável, sem nenhuma expectativa de futuro, mas ainda assim as quatro garotas da história onde a principal personagem é Ladidy, não em homenagem à princesa, mas como um ato de vingança de sua mãe às traições do marido, conseguem ir a escola (quando tem professor) e são unidas por uma forte amizade. O salão de Rute chama-se "Ilusão", um local não para o embelezamento da mulher, mas sim para a feiura. 

A montanha onde vivem já foi uma comunidade, mas hoje, após a construção da estrada que liga a Cidade do México à Acupulco é um local onde vivem poucas mulheres, pois seus homens foram embora para os Estados Unidos, a estrada dividiu a comunidade e muitos morreram. A única coisa que a mãe de Ladidy faz é assistir TV graças a antena parabólica que ganhou do marido que nunca mais voltou, e esta também é a única abertura para o mundo, uma cultura de televisão. O local é cheio de insetos, formigas e também escorpiões, a casa de Ladidy tem dois cômodos e o chão é de terra batida, o calor é insuportável.

Uma das garotas, a mais bonita, Paula, um dia foi roubada. Ela vai conseguir voltar mas nunca mais será a mesma. Ladidy terá a oportunidade de ir trabalhar em Acapulco, o que também não irá melhorar sua vida, pelo contrário, se verá envolvida num crime. Qual a única esperança destas pessoas? ir para os Estados Unidos.

A autora entrevistou por mais de dez anos mulheres nas regiões mais violentas do México. Baseada nisto ela criou este livro em forma de ficção para colocar palavras nisto que é inefável para as protagonistas e com isto fazer mais uma denúncia. Até quando?


Jennifer Clement nasceu em 1960 em Connecticut, EUA. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

FILME: RELATOS SELVAGENS - 2014


Direção: Damián Szifron - 2014
Duração: 122 min
Título Original: Relatos Salvajes
Produzido por Pedro Almodóvar
País: Argentina - Espanha

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem 

Impactante! São seis pequenas histórias curtas sobre um momento que devido a alguma ocorrência seja cotidiana ou de surpresa acaba em descontrole das pessoas. É apenas o momento que o filme retrata, diferente do filme Um dia de fúria. 
O que vem a tona é o que muitas vezes desejamos fazer, é o desejo de vingança, a pulsão agressiva que sai do controle e atua ao invés de falar ou se voltar contra nós mesmos em muitos casos, ou se transformar em algo mais criativo. 

A primeira história se passa num avião onde de repente todos descobrem que conhecem Pasternak, que sem eles saberem reuniu naquele avião todos seus desafetos, todos aqueles que um dia o traíram, não lhe atenderam ao desejo e pior, o disseram e ainda zombaram dele como sua ex-namorada que o traiu com seu amigo e Salgado (Dario Grandinetti), um crítico musical, que lhe disse o que pensava de sua música. É o dia da vingança. 

A segunda - Las Ratas, se passa num restaurante a beira da estrada num dia chuvoso. Um homem entra no local, Moza (Julieta Zylberberg) o reconhece de imediato, é um agiota que emprestou dinheiro a seu pai que não conseguiu pagar e que por isto se suicidou, em seguida o agiota flerta com sua mãe e agora para o cúmulo ele é candidato a um cargo no governo. A cozinheira Cocinera (Rita Cortese) sugere colocar veneno de ratos em sua comida. 

A terceira tem inicio numa estrada vazia com um belo carro, Diego (Leonardo Sbaraglia) o dirige, ouve música. Em seu caminho surge um carro velho, o motorista parece bêbado ou está provocando, pois dança na pista de um lado para outro impedindo a ultrapassagem. Quando Diego consegue ele abre o vidro e o xinga. Mais adiante o pneu do carro de Diego fura e ele será alcançado pelo outro. 

A quarta - La Bombita - traz Simon (Ricardo Darín), um engenheiro especialista em explosivos, que tem seu carro guinchado por supostamente ter estacionado em local errado. Ele está atrasado para o aniversário de sua filha, mas vai retirar o carro, tenta alegar que não havia nenhuma faixa pintada no local, mas é ignorado. Sua esposa se cansa do que ela diz ser seu pouco interesse pela família e se separa dele, no tribunal ele está perdendo a possibilidade de ver a filha, perde o emprego. O dia de um azarão. Mas vemos que ele tem razão, e percebemos a corrupção do sistema de trânsito, o pouco caso. No dia em que ele vai se candidatar a um novo emprego é tratado como se fosse um idiota, e quanto retorna seu carro foi novamente guinchado. Esta armado o cenário para sua total perda de controle, mas ele o fará com calma e estratégia. 

A quinta história - La propuesta nos mostra uma família rica tentando proteger um filho de responder pelo seu crime, seu pai Mauricio (Oscar Martinez) irá tentar comprar a liberdade do filho, e com isto irá despertar a ganância em seu jardineiro, seu advogado e o inspetor da polícia. 

E por fim a sexta história - Hasta que la muerte nos separe - é sobre uma festa de casamento onde a noiva   Romina (Erica Rivas) descobre que seu noivo convidou uma amante que está ali. É o estopim para uma crise onde ela não sabe o que fazer, o desejo de se vingar que a leva a assumir sua raiva e loucura do momento. 

Muito bom! Um humor negro que nos mostra a faceta das pulsões agressivas e vingativas, mas também deixa claro que em duas histórias temos realmente um bom motivo para estar com raiva e desejar fazer algo, e nas outras quatro há um lado infantil que atua. Seja a moça que culpa o agiota pela morte de seu pai e por terem que se mudar, mas se esquece que foi seu pai quem procurou um agiota e não conseguiu pagar. O belo homem rico que debocha do pobre e o xinga o que não justifica a ação do ofendido que também o havia provocado antes. Pasternak que não aceita que lhe digam Não e um pai e mãe que retiram do filho a responsabilidade por seus atos o protegendo, mesmo que ele queira assumir o que fez, e com sua proposta despertando a ganância de todos o que não terá um bom final. 
No caso de Simon é revoltante ver a corrupção e o roubo, e fica visível que não há o que fazer, uma vez que ele tenta, procura os responsáveis, quer fazer uma queixa, quer provar que está certo. Lembrou muito o Brasil também. E a noiva, bom, qualquer um que descubra que foi traído está sujeito a ter reações inesperadas. 

Estamos diante do Humano, demasiadamente humano, como diria Nietzsche. Aqui não há redenção, provações, aprendizado interior. Aqui temos o dia a dia onde algo vem a ocorrer e eis que de dentro de nós mesmos surge este personagem que muitas vezes nem conhecíamos, o vingador! o que deseja descontar no outro o que sofreu, muitas vezes devido suas próprias fraquezas e erros. 

Damián Szifron nasceu em 1975 em Ramos Mejía, Argentina 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FILME: CAKE uma razão para viver - 2014


Direção: Daniel Barnz - 2014
Duração: 102 min
Título original: Cake

Claire (Jennifer Aniston) frequenta um grupo de terapia, percebe-se logo que ela sofre, está traumatizada, a sua dor é grande e também percebe-se que sofreu um acidente devido sua situação física. Mas será somente ao longo do filme que iremos descobrir o que aconteceu com ela. 

O grupo de terapia está reunido, uma das integrantes se suicidou e a terapeuta se coloca no papel da morta para que todas possam lhe dizer o que sentem e ela tenta responder. Claire não foi gentil, o que na minha opinião é bem mais real do que tentar ser solidária com uma suicida, pois ninguém consegue compreender este ato que nos coloca numa posição de culpa, de impotência, e sem poder explicar, não há o que dizer, nem mesmo "Deus quis assim" não cabe neste caso. Claire é convidada a deixar o grupo, ela se tornou inconveniente ali. 

Claire faz uso de muitos remédios, ela não consegue enfrentar sua dor e ninguém consegue ajudá-la, ela expulsou o marido de casa, se desentende com sua fisioterapeuta, mente para sua médica. Somente Silvana (Adriana Barraza), sua empregada, permanece ao seu lado e a ajuda. Ela não consegue se desligar do ocorrido e fica obcecada pelo o que poderia ter levado Nina (Anna Kendrick) a se suicidar. Se aproxima de seu marido Roy (Sam Worthington) e filho e se tornam amigos, ambos com sua dor. 

Há algo mais difícil do que enfrentar uma dor muito forte? Sim, talvez o suicídio tenha sido uma saída mais fácil para Nina, apesar de que no filme não se revela o motivo dela, mas Claire começa a ter alucinações e vê Nina que conversa com ela, é uma tentativa de compreender. Ela vai ao local onde Nina se matou, tenta se imaginar fazendo a mesma coisa, mas ela não consegue, o que Claire busca é uma razão para viver. 

Um belo filme sobre a dor de uma tragédia e de como reagimos a isto e lidamos com a situação. Claire consegue, ela vai se levantar e olhar a vida de frente novamente ao perceber que é incapaz do suicídio. 

Daniel Barnz nasceu em 1970 em Gladwyne, EUA.

FILME: CINQUENTA TONS DE CINZA - 2015


Direção: Sam Taylor-Johnson - 2015 
Duração: 107 min
Título Original: Fifty shades of grey

Adaptação literária do livro homônimo de E L James. 

Não era minha intenção assistir a este filme, mas instigada por pessoas que o assistiram acabei me rendendo. Diziam haver uma charada e isto me atrai. Assisti e fiquei me perguntando qual era a charada, seria o óbvio? que Christian Grey (Jamie Dornan) tinha problemas e traumas de infância? que havia se transformado em um agressor? Sim, porque uma relação sadomasoquista só pode ser patológica. Mas e ela? a paixão seria suficiente para levar uma jovem a se submeter inclusive a dores físicas? 

E foi então que me retirei do filme em si e pensei na autora do livro e do por que de sua escrita. Deixo claro aqui que não li a trilogia, mas que o que me veio é uma opinião pessoal que eu pensei assistindo ao filme. Trata-se da fantasia erótica, até mesmo pornográfica de uma mulher e não de um homem sádico. Estaria diante de uma versão feminina de Sade moderna? 

O filme é leve nas cenas de sexo e de sadomasoquismo, muito diferente do que escreveu Sade. Mas não pude deixar de ver uma mulher fantasiando tudo isto o que me foi ficando mais claro em certas cenas, como a que ela discute com ele os parágrafos do contrato onde retira o que a incomoda e ele aceita numa boa, quando ele leva gelo para a cama, e todo o contexto do filme de Cinderela, um príncipe encantado que é rico, poderoso, e que lhe dá presentes, a apresenta à família, mas esconde dela o trágico de sua vida. Ora, isto existe na vida real? tudo de acordo com um sonho que de repente vai além e passa ao erótico e pornográfico, mas com o homem que ela ama e que aceita suas restrições? 

Quando chegamos ao final do filme, deste primeiro da trilogia, Anastacia (Dakota Johnson) percebe o que vai ter que passar, e pergunta por que ele é assim, o que o levou a ser assim e lhe diz que está apaixonada. Ela era virgem, sem nenhuma experiência em sexo, e entra nesta relação doentia por paixão, onde podemos perceber que a paixão também é algo doentio, que retira da pessoa seu ego e o transfere para outro, é estar a-mando! de alguém . Todos nos apaixonamos e passamos por um momento assim, mas daí a se envolver numa relação que cause abusos e submissão física e psíquica é outra coisa. Normalmente a paixão ou se transforma em amor ou acaba, e todos nós desejamos uma relação saudável, companheira, de amor. 

Não há relação sadomasoquista que seja saudável, ela sempre termina mal, e os envolvidos tem questões a serem resolvidas e curadas, e não é numa relação assim que isto acontece, e principalmente, amor não cura isto. Se Grey sofreu abusos na infância ele precisa se tratar para poder amar uma mulher  e quanto à Anastácia há também questões inconscientes nela, a começar por uma mãe que não comparece em sua formatura, que foi a única deixa do filme sobre ela. Mesmo que se trate de fantasias eróticas estamos diante de alguém que quer se autorizar a ser um objeto de outro. 

O que me preocupa é a reação das meninas e mulheres à este filme que ao invés de saírem indignadas ficam extasiadas com este homem doente, o que me leva a pensar no que é que este filme mexe inconscientemente? O que ele ativa? em qual desejo ele está tocando? o que está recalcado que é tocado? 

Ouvi de mulheres que ficaram com raiva dele quando ele bate nela, eu neste momento fiquei indignada com ela, por se submeter à isto. Sim, ela estava ali porque quis, e foi uma péssima escolha e não há carro, helicóptero ou beleza de um homem que justifique isto, não há paixão que justifique e aqui neste não existe amor, seria uma triste ilusão pensar isto. Para todo sádico há um masoquista, e ambos tem problemas, isto é importante frisar, não é apenas ele o que tem problemas neste filme e que precisa ser curado, ela também. 

Sam Taylor-Johnson nasceu em 1967 em Craydon, Reino Unido. 

FILME: INVENCÍVEL - 2014




Direção: Angelina Jolie - 2014
Duração: 137 min
Título original: Unbroken

Cinebiografia de Louis Zamperini - herói de guerra

Baseado no livro de Laura Hillenbrand - Invencível - Uma história de coragem.


O filme é sobre a história de Louis Zamperini que sobreviveu a Segunda Guerra Mundial após passar por provações extremamente difíceis. 

Zamperini (Jack O'Connell) quando jovem tendia a uma delinquência por ser excluído pelos outros meninos provavelmente pelo preconceito, ele vivia nos Estados Unidos, mas era filho de italianos. Como sempre o diferente assusta. Foi graças a seu irmão mais velho que ao notar que ele era muito bom em correr dos outros que ele se tornou um atleta olímpico em corridas. Isto lhe deu um lugar e um sentido em sua vida. Ele devia correr em Tóquio nas Olimpíadas mas a Segunda Guerra se iniciou. 

Em uma missão de busca de companheiros desaparecidos no Havaí, o avião onde ele estava cai no mar, e é o início de sua odisséia. Foram 47 dias no mar, dos três que se salvaram no acidente, sobreviveram dois. Mas as suas dificuldades estavam apenas começando, eles foram resgatados pela marinha japonesa e eram inimigos.

Zamperini ficou nas mãos dos japoneses durante dois anos e teve um carrasco em especial, Mutsuhiro Watanabe (Miyavi), que fez de tudo para derrotá-lo ao perceber seu grau de determinação. 

Todos os prisioneiros passaram por momentos difíceis e de extrema provação. Alguns não resistiram, outros desistiram e acabaram colaborando para ter uma situação melhor e outros conseguiram. Zamperini é um deles, com uma coragem imensa, um desejo de viver fortíssimo, e muita determinação ele supera todas as provas e situações inimagináveis para nós que não passamos por uma guerra.

A guerra é algo difícil de emitir qualquer julgamento. Os americanos sofreram muito nas mãos dos japoneses, por outro lado também se conscientizaram da destruição que seu país provocou entre os civis no Japão, e isto antes das bombas atômicas serem lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki. Há um outro filme que fala do mesmo assunto que já postei aqui no Blog - Uma longa viagem.

Após a guerra Zamperini sofreu de stress pós-traumático, mas se recuperou. Ele morreu aos 97 anos. Watanabe foi julgado e condenado como criminoso de guerra pelos maus tratos que infligiu aos prisioneiros, porém ele fugiu. Ele era de uma família rica proprietária de hotéis e minas, estudou literatura francesa. Depois ele retornou a uma vida normal e quando Zamperini foi a Tóquio em 1998 ele declarou em uma entrevista que nunca se arrependeu e que tratou os americanos estritamente como inimigos do Japão e se recusou a receber Zamperini.

Esta é a grande diferença do que ocorreu com Lomax do filme Uma longa viagem que reencontrou seu torturador - Nagase Takashi e que após os dois falarem tudo que sentiam acabaram se tornando grandes amigos.

Louis Zamperini

Louis Zamperini

Mutsuhiro Watanabe

Mutsuhiro Watanabe

Angelina Jolie nasceu em 1975 em Los Angeles, Califórnia, EUA

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

LIVRO: LIVRE - A jornada de uma mulher em busca do recomeço - CHERYL STRAYED



Strayed, Cheryl. Objetiva, 2013
375 páginas
Tradução: Débora Chaves
Título Original: Wild 

Assisti ao filme recentemente e já postei no Blog. Ontem terminei a leitura do livro. 

O filme condensa todo o percurso de Cheryl pela PCT - Pacific Crest Trail, por 1770 quilômetros partindo do deserto de Mojave no sul da Califórnia até a Ponte dos Deuses no Estado de Washington, mas no livro podemos acompanhá-la mais vagarosamente em suas dificuldades, obstáculos, momentos especiais, alegrias, conquistas, e toda a transformação que se processa nela mesma. 

Após a morte de sua mãe aos 45 anos de idade de um câncer Cheryl não se recupera e cada vez se perde mais de si mesma até o dia que ao descobrir que está grávida, sem ao menos saber quem seria o pai, ela faz um aborto e reconhece que virou algo horrível, que não é mais possível continuar assim. Ela se divorcia do marido, e começa os preparativos para sua caminhada sozinha pela PCT.

O livro relata esta jornada, e apesar de termos a impressão de que nada ocorre internamente, uma vez que ela está focada no externo, na atenção que tem que ter na trilha devido cascavéis, animais, buracos, obstáculos, o cansaço físico, a constatação de seu despreparo para fazer isto, o tamanho de sua mochila que ela apelida de "a monstra", o descuido de que poderia haver vários imprevistos o que a coloca em situações difíceis como a falta de água, ter que fazer um desvio devido a neve excepcional naquele ano que a tira de sua rota e acaba deixando-a sem dinheiro em alguns momentos, aos poucos algo dentro dela vai se transformando, como se tudo o que ocorre no externo seja apenas uma metáfora de sua transformação interna, até o momento em que ela dá o salto psíquico.

Era o dia que sua mãe deveria completar 50 anos, e neste dia Cheryl consegue gritar e colocar em palavras tudo que sente, é o momento de sua libertação interna que irá possibilitar um renascimento. Lamento que o filme não tenha colocado este momento por completo como está no livro. Ao assistir senti falta deste momento, onde ocorreu a cura? a ultrapassagem? o momento decisivo para toda sua mudança? e o encontrei no livro.

Confesso que adoraria ter a coragem dela, é uma caminhada de crescimento, de percepção de si mesma, de enfrentamento, de superação. Eu prefiro fazer isto no divã de um analista. O processo interno ocorre da mesma forma, mas leva mais tempo. Eu não superaria o medo da noite, o medo do outro, de sofrer algum tipo de agressão, nunca faria isto sozinha como ela fez, mas adoraria fazê-lo.


Com sua família que constituiu após a trilha

Cheryl na trilha 

Mapa da PCT

PCT
PCT
PCT