domingo, 8 de março de 2015

FILME: ATTILA MARCEL - 2013


Direção: Sylvain Chomet - 2013
Duração: 102 min

" Achamos tudo em nossa memória, ela é uma espécie de farmácia, de laboratório de química, onde encontramos sem querer, ora um calmante, ora um veneno perigoso." 
Marcel Proust 

Paul (Guillaume Gouix) vive com suas duas tias Annie (Bernadette Lafont) e Anna ( Hélène Vincent), professoras de dança. Ele tem 33 anos e deixou de falar aos dois anos quando presenciou a morte de seus pais o que lhe causou um trauma. 

O filme nos mostra de forma delicada esta dolorosa história. Suas tias o protegem ao excesso, o que não lhe permite ter sua própria vida, elas controlam tudo. São duas figuras que se refletem uma à outra, e num dado momento cômico são chamadas de Dupont Dupont referência a dupla das aventuras de Timtim, pois se vestem sempre igual, andam juntas, se complementam. 


Paul sofre de pesadelos, ele tem uma imagem do pai como cruel e ruim, e o recorta de todas as fotos que tem onde está junto, mantendo somente sua mãe. As tias e amigos não falam do assunto o que permite que Paul construa suas idéias sobre o que aconteceu. 

Um dia ele conhece sua vizinha Madame Proust ( Anne Le Ny), clara referência à Marcel Proust, e com ela Paul inicia sua busca pelo tempo perdido através de chás que o fazem entrar num estado de inconsciência, onde tem visões, como se estivesse sonhando e ele começa a ter lembranças até chegar o dia em que verá a cena que recalcou e compreenderá o que realmente aconteceu. 


O filme é muito interessante para vermos em termos psicanalíticos como um trauma se instala e atua na vida de uma pessoa. Na falta de palavras e de capacidade de compreensão de um fato, no caso a morte de seus pais de forma violenta na sua frente, há um recalque do ocorrido. Madame Proust é como uma psicanalista que lentamente vai acompanhando esta recuperação de lembranças, enquanto as tias parecem fazer o papel do psiquismo que recalca tudo e impedem que a verdade surja, são como uma censura. Um trauma não pode ser lembrado de uma só vez, ele precisa ser recuperado aos poucos, de acordo com o tempo de cada um. Com seus bolinhos, músicas, Madame Proust acolhe Paul e ele confia nela podendo relaxar e permitir que as lembranças venham. Isto ocorre em várias sessões da mesma forma que um processo de análise.



Antes da rememoração está paralisado, congelado. A cena fica, e vai se repetir constantemente de alguma maneira. Não há como voltar ao antes, não se avança, é eterno presente. Paul não fala porque ele não falava aos dois anos, ali ele ficou, apesar de ter crescido, aprendido coisas, tocar piano maravilhosamente bem, ele continua lá no momento do trauma. Quando ele fala ele parte exatamente de sua última palavra antes de se calar. 
Sylvain Chomet nasceu em 1963 em Maisons-Laffitte, França