terça-feira, 21 de abril de 2015

FILME - BAGDA CAFÉ - 1987


Direção: Percy Adlon - 1987
Duração: 108 min
Título Original: Out of Rosenheim - Bagda Café


Perto de Las Vegas no deserto de Mojave, Jasmim (Marianne Sägebrecht) briga com o marido e ele a deixa ali. Empertigada, digna, ela com seus sapatos de salto, uma roupa que não tem nada a ver com o local que está, puxa sua mala e caminha pela beira da estrada. O marido ainda lhe deixa uma garrafa de café que ela ignora. Ele se arrepende, retorna, mas ela se esconde.



Um café a beira da estrada, com um posto de gasolina e um motel, chamado Bagda Café, lá vemos Brenda (CCH Pounder) brigando com seu marido Sal, que é folgado demais, devagar e se esquece de tudo. Ela o manda embora. Brenda é amargurada e briguenta. Está sentada numa cadeira desolada quando vê Jasmim chegando com sua mala. 


A relação inicial das duas mulheres não é das melhores. Brenda desconfia desta alemã perdida ali no meio do nada, e mais ainda quando vai fazer a limpeza do quarto e vê roupas masculinas e itens de higiene masculinos. Ela chama o xerife que nada pode fazer uma vez que os documentos de Jasmim estão em ordem. O caso é que Jasmim pegou a mala do marido na hora da briga, e então ao invés de ter uma crise ela simplesmente aceita aquilo e trata de se virar com isto. 

Hostilizada por Brenda a princípio Jasmim vai se aproximando das pessoas que por ali vivem tocando nos pontos que são mais importantes para cada um, como a música para o filho de Brenda, a pintura para Rudi Coxx (Jack Palance), as roupas para a filha de Brenda. Ela consegue captar o que há de melhor em cada um deles. Jasmim também começa a por ordem em tudo ali, limpar, organizar o que inicialmente deixa Brenda furiosa, mas depois ela reconhece que ficou bem melhor.

Jasmim e Brenda são mulheres que no começo do filme nos parecem um tanto "masculinizadas", mas o trabalho e a convivência irá aproximá-las e transformá-las e as perdas que ambas sofreram lhes dá a oportunidade de fruir de uma nova liberdade e de construir uma vida nova onde o homem se torna uma figura pífia, logo eles que no início do filme nos parecem os responsáveis por todas as dificuldades que ambas enfrentam. 

Brenda é um tanto neurótica, mas se explica através de todas as dificuldades que enfrenta. O filho que tem um bebê e que passa o dia tocando piano, a filha que vive com rapazes para cima e para baixo, toda a responsabilidade é dela, o marido era um inútil que não a ajudava em nada, o funcionário vive dormindo em sua rede.  A desordem de sua vida se reflete no ambiente ao seu redor. É onde justamente Jasmim irá mexer, organizando este caos.

Jasmim apesar de estar passando pelo mesmo problema que Brenda, o marido a deixou, e ela ainda está num país estrangeiro, reage de outra forma, ela lida com os problemas de forma criativa, e isto fica explícito no filme em sua reação ao abrir a mala trocada, ou o que fazer com aquele jogo de mágicas que inicialmente não lhe interessava e que foi justamente uma das formas que ela usou para abrir mais espaço e conquistar as pessoas, com a mágica, que metaforicamente podemos dizer que foi com um toque de mágica, de amor, de compreensão que ela transformou o Bagda Café num lugar alegre, cheio de vida e música.



Mas notamos que Brenda é uma pessoa que precisa do outro para a incentivar, uma vez que quando Jasmim tem que ir embora pois seu visto no país venceu, ela se entrega novamente a desordem, e tudo fica apático novamente. Por outro lado quando Jasmim retorna, tudo se reacende, e todos estão alegres de novo.

Percy Adlon nasceu em 1935 em Munique, Alemanha. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

FILME: QUAL É O NOME DO BEBÊ - 2011


Direção: Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte - 2011
Duração: 105 min
Título Original: Le prénom

Uma comédia inteligente que nos faz rir, mas ao mesmo tempo revela o que se oculta sob a máscara da civilidade burguesa e nas relações de família, que vejo bem retratado na expressão que Vincent faz a cada vez que para ser sociável e amável ele diz algo que não é exatamente o que ele pensa ou sente.

Elisabeth (Valérie Benguigui) e Pierre (Charles Berling) são casados, tem dois filhos e ambos são professores, só que ela numa pequena escola enquanto ele na Sorbone. Eles convidaram o irmão de Elisabeth, Vincent (Patrick Bruel) e sua eposa Ana (Judith El Zein) e o melhor amigo de Baboue, apelido de Elisabeth, Claude (Guillaume De Tonquédec) para jantar.

Vincent e Ana esperam um filho que após uma ecografia sabem que é um menino e o encontro começa com a questão do nome do bebê. Vincent faz uma brincadeira que acaba esquentando os ânimos uma vez que escolheu Adolphe e isto lembra Adolf de Hitler, o que é inconcebível para eles. A brincadeira irá realmente perder os contornos com a chegada de Ana que acreditando que Vincent disse o nome realmente escolhido, ou seja, Henri, o nome do avô, se sente ofendida pelo o que é dito pelos outros e acaba desabafando o que pensa dos nomes dos filhos de Babou e Pierre. 

A partir daí as máscaras vão caindo uma atrás da outra e todos irão expressar suas mágoas, raivas, incongruências, que terá seu clímax com a revelação de Claude, após ter ouvido que todos pensam que ele é homossexual, que ele e a mãe de Baboue e Vincent estão juntos e se amam. 

O chiste acaba sempre revelando verdades e é assim que o filme começa, com uma brincadeira e que irá levar ao desmascaramento de todos, a retirada do verniz da boa educação e cultura revelando o que há por baixo. Por outro lado fiquei pensando no que seria desta criança se realmente recebesse este nome Adolphe após tudo isto que acarretou em sua família, seria um nome que já viria carregado de muitos significantes. Mas parece que algo conspirou para que não fosse assim, tanto que a ecografia deu uma informação errada, não se trata de um menino, mas será uma menina que vai nascer, e estará sem nome escolhido o que acabará por reunir a família novamente. Bem melhor signo este para seu nome. 

Alexandre de La Patellière nasceu em 1971 na França e Matthieu Delaporte nasceu no mesmo ano também na França

LIVRO: NO CINEMA COM LACAN - o que os filmes nos ensinam sobre os conceitos e a topologia Lacaniana - STELLA JIMENEZ


Jimenez, Stella e colaboradores. 1ª ed. Ponteio, 2014
240 páginas

Um livro muito interessante para os que se interessam pela psicanálise e pelo cinema. A psicanalista Stella Jimenez com a colaboração de outros profissionais analisam vários filmes e na segunda parte do livro encontramos a fundamentação teórica. 

Os filmes analisados são:

- A pele que habito de Pedro Almodóvar. Este filme já postei aqui no blog. Um filme que tem muitas questões, mas a principal é a identidade sexual.

- Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual de Gustavo Taretto. Também já postei no blog. Fala do amor no mundo atual.

- Time - o amor contra a passagem do tempo de Kim Ki-Duk. Pretendo assistir. Fala sobre a mulher, o tempo e a devastação.

- A primeira coisa bela de Paolo Virzi - A questão da mãe

- Vincere de Marco Bellochio - o amor louco

- A história de Adèle H. de François Truffaut - Também postado aqui no blog. Fala da erotomania e do amor patológico.

- O homem do lado de Gastón Duprat e Mariano Cohn

- Gattaca de Andrew Niccol sobre as impossibilidades da ciência

- Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola

- A viagem do Capitão Tornado de Ettore Scola - sobre o fracasso

- Nome de família de Mira Nair sobre a nomeação

- Habemus papam? de Nanni Moretti - também já postado. Fala da derrocada do semblante da impostura à loucura

O cinema é uma das vias privilegiadas da psicanálise. É onde o diretor(a) pode projetar ou dizer algo, mas também o espectador se vê ali, sente em si mesmo a angústia, se encontra, e principalmente muitas vezes encontra as palavras que lhe faltam. É uma das vias da compreensão para o que muitas vezes não conseguimos falar. Também permite vermos e percebermos na tela situações com as quais temos dificuldades de lidar. 

Stella Jimenez é formada em Medicina pela Universidade Nacional de Buenos Aires e fez Mestrado em Psicanálise na UFRJ.

terça-feira, 14 de abril de 2015

FILME: TIMBUKTU - 2014




Direção: Abderrahmane Sissako - 2014 
Duração: 95 min

País de Origem: Mauritânia 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem


Baseado no caso real ocorrido em Aguelhok no Mali em 2012 - Um casal com dois filhos foi apedrejado até a morte por serem casados no papel. O ambiente ficou turbulento, os tuaregues fizeram uma rebelião e declararam independência da parte norte do país, os militares deram um golpe de Estado, e os grupos islâmicos tomaram o controle de partes do território com o objetivo de implantar a sharia. Em 2013 tropas francesas interferiram e recuperaram algumas áreas. Sissako não faz uma adaptação literal do fato.


Nunca um filme me provocou tamanha angústia. Sissako é brilhante!

Estamos em 2012 em uma pequena aldeia ao norte de Mali. Os extremistas religiosos estão no controle do lugar. Nada de cigarros, nada de música, nada de futebol, tudo é proibido. As mulheres tem que cobrir não só o corpo e os cabelos, mas também os pés e as mãos com meias e luvas. 

O que antes era uma aldeia alegre, cheia de vida, colorida, passa a ser seco e árido como o deserto, as pessoas se retraem, outras fugiram. Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) vive com sua mulher Satima (Toulou Kiki) e sua filha em uma tenda afastado da aldeia. Todos foram embora, só eles ficaram. Ali eles conseguem ainda viver como antes até o dia que um pescador mata uma de suas vacas e ao tirar satisfações com ele a arma que Kidame levava dispara acidentalmente e mata o pescador. Então Kadime se vê nas mãos deste grupo de fundamentalistas.


O filme tem cenas fortes mas mostradas com cortes, e também nos traz Zabou (Kettly Noël) que aparentemente seria meio doida o que a coloca fora das interdições, sendo a única a manter a cor, a alegria no local. Seria necessário ser louco para ser livre numa situação assim? Até as mulas que andam pela aldeia tem mais liberdade. O futebol que é proibido, a bola descendo as escadas e a prisão do jogador. Em seguida vemos uma cena antológica de um grupo de rapazes e homens jogando futebol, mas detalhe, não há bola, mas o jogo acontece.



Uma mulher canta e é presa, julgada é condenada a chibatadas. Durante o castigo ela canta em lágrimas. Duas pessoas estão enterradas na areia e são apedrejadas. Uma jovem é dada em casamento a um dos extremistas sem o consentimento de sua família. Ela chora.




Onde está Deus nisto tudo? Não há piedade, nem misericórdia, há apenas o desejo do grupo que quer ser o Outro das pessoas que ali vivem. 

Um grupo fundamentalista que se apodera do lugar de Deus, do lugar da cultura e passa a ditar as regras e normas, mas as transgride, pois vemos um dos líderes (Abel Jadri) assediando a mulher de Kidane e este mesmo se esconde no deserto para fumar. 

O que sentimos surge das imagens do filme, da nossa percepção e do que nos toca como seres humanos, e no meu caso, como mulher diante de uma situação onde a mulher é um objeto e não um sujeito. Mas elas lindamente resistem, como a mulher que canta enquanto recebe chibatadas, como Zabou que penso se finge de louca, como Satima que dribla o que o líder esperava com a morte de seu marido, indo até ele e morrendo junto.



O que Sissako consegue é através da beleza e arte criar um impacto que é muito maior do que se ele filmasse apenas o horror, a violência de forma explicíta. Ele o faz, mas com cortes entremeados de cenas ontológicas. 

Abderrahmane Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, Mauritânia

LIVRO: DA MINHA TERRA À TERRA - SEBASTIÃO SALGADO



Salgado, Sebastião; Francq, Isabelle. 1ª. Paralela, 2014
152 páginas
Tradução: Julia da Rosa Simões
Título Original: De ma terre à la terre

Depois que vi a exposição "Genesis" no MON em Curitiba estou fascinada pelo trabalho de Sebastião Salgado. Assisti ao documentário O Sal da Terra e agora terminei de ler o livro Da minha terra à terra onde ele nos conta sua história pessoal e o que significa fotografar para ele. Vai além, fala sobre o que aprendeu com este trabalho para sua vida, para sua maneira de ver o mundo. 

Comecei a leitura ontem e não consegui largar até finalizar o livro. Fui envolvida e desejei que o livro continuasse. O que dizer de uma pessoa que percorreu mais de 120 países, viu coisas atrozes, tristes, dilacerantes a ponto de adoecer fisicamente e psiquicamente, que aprendeu a arte da paciência necessária para poder fotografar e que fotografou o que sentia mantendo sempre a dignidade do outro, mesmo nas piores situações? O que Sebastião nos transmite é uma lição de vida, de viver, sem fechar os olhos ao que pior o ser humano tem, suas misérias, sua crueldade, sua ganância, mas também nos levando aos mais belos lugares deste planeta, onde o homem ainda vive em harmonia com a natureza, com os animais. Ele nos ensina a poder viver neste lado do planeta mais bonito, sem fechar ignorar o outro lado, uma vez que somos responsáveis por tudo que ocorre neste mundo, de maneira direta ou indireta, pois quando compramos produtos fabricados por crianças, por escravos, ou produzidos através da destruição da natureza, estamos colaborando com a tristeza do mundo. 

Suas fotos são um despertar, uma conscientização, não são tiradas para produzir pena ou compaixão e com isto apaziguar a consciência de Salgado ou para dar lições. Para ele as fotos são sua vida, são subjetivas, captam o que ele está vivendo e sentindo. 

Ele constata que os migrantes, mesmo tendo que deixar suas terras por causa da pobreza, buscam algo de melhor, acreditam que irão ter uma vida melhor e por isto inventam uma nova vida longe de sua terra natal, já os refugiados não fazem isto, eles foram obrigados a deixar suas terras pelo medo, para fugir das atrocidades, da morte, e não tem o desejo de uma vida melhor, querem apenas sobreviver quando o conseguem. Os relatos de Salgado sobre os Balcãs e Ruanda são fortes, e ainda ficam muito longe do que ele viveu ali, por mais que as fotos retratem isto como um espelho. 

Há uma tendência a pensar que o Holocausto foi o maior genocídio e que isto não se repetirá, mas ou estamos cegos ou não queremos ver. O genocídio que ocorreu na África e nos Balcãs é atroz, cruel, o pior lado do ser humano. 

Lendo Salgado, vendo o documentário, olhando suas fotos o que vejo é que estou diante da humanidade com o que ela tem de pior e com o que ela tem de melhor. 

Sebastião Salgado 









segunda-feira, 13 de abril de 2015

FILME: GABBEH - 1995


Direção: Mohsen Makhmalbaf - 1995
Duração: 76 min

Que filme lindo! pura arte.

Um casal de idosos (Rogheih e Hossein Moharami) lavam seu gabbeh, um tapete tecido pelas mulheres que registra os acontecimentos de uma vida. Uma jovem surge, ela se chama Gabbeh (Shaghayeh Djodat) e os três contam a história que está escrita no gabbeh. É a história do casal de idosos e do quanto foi complicado eles poderem ficar juntos, pois sempre tinham que esperar. Primeiro pelo pai que havia viajado, depois o casamento do tio (Abbas Sayah), e mais uma vez tem que esperar pelo parto da mãe, e depois é o luto e assim vai. Gabbeh é ao mesmo tempo o espírito do tapete e a que o teceu contando nele sua vida, seus sonhos, desejos, dores e suas fantasias.



O diretor viajou até as remotas estepes do sudeste do Irã para documentar a vida de uma tribo nômade, os ghashghai. São eles que tecem este tipo de tapete que é tanto uma forma de arte como um registro autobiográfico. O diretor então quis fazer um filme sobre as tecelãs dos gabbeh. Ele além de viajar pela região também estudou vários documentos sobre o gabbeh. Os motivos e as cores destes tapetes são inspirados pelos acontecimentos. Há um momento no filme que o Tio fala para as crianças sobre as cores, e encantei-me quando ele diz: o azul do céu mais o amarelo do sol resulta no verde das plantas. E sim, misturando azul e amarelo, teremos verde. Então é assim que as tecelãs escolhem suas cores, como na hora da morte é o negro, o deserto é o amarelo, o azul para o rio.



A poesia também está presente. Quando a mãe dá a luz as pessoas cantam e gritam: Vida é cor! Amor é cor! Também na morte quando o Tio grita: Vida é cor! Morte é.. e mostram a lã negra.

É interessante porque no Irã a mulher não tem voz, mas me lembrando as Arpilleras do Chile, elas encontram uma forma de se expressar. 

Tecer é entrelaçar os fios uns nos outros, como na vida entrelaçamos as relações, o passado, o presente e o futuro. Vamos construindo nossa história. O tapete não conta apenas a história do casal de idosos, mas também a do tio, a vida da tribo, tudo isto formando a trama do tapete.


Mohsen Makhmalbaf nasceu em 1957 em Teerã, Irã

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: DIÁLOGO DE SOMBRAS - 2014


Direção: Jean-Marie Straub e Danièle Huillet - 2014
Duração: 28 min
Título Original: Dialogue d'ombres 

Baseado na novela Diálogo de sombras de George Bernanos de 1928. 

Um diálogo entre um homem e uma mulher sobre o amor, Deus, a herança familiar, o desejo, o orgulho e o exílio. Uma tentativa de se aproximar, de transpor o que os separa. Pensamos que estão longe um do outro, mas não estão, fisicamente não estão, mas há um imenso abismo ali, por mais que haja promessas.

A tentativa de se falar do amor, do possível e do impossível, do peso do passado que é uma sombra que se coloca ali entre eles e neles.

Cinema experimental, de mostrar de outra forma o que muitas vezes se tenta mostrar num filme mais longo.


Danièle Huillet nasceu em 1936 em Paris e faleceu em 2006 em Cholet, França e Jean-Marie Straub nasceu em 1933 em Metz, França. Eram casados.

FILME: FOR THOSE WHO CAN TELL NO TALES - 2014




Direção: Jasmila Zbanic - 2014
Duração: 69 min

País de Origem: Bósnia-Herzegovina

Kym (Kym Vercoe) mora na Austrália e viaja para a Bósnia-Herzegovina em suas férias, se diferenciando dos outros que preferem outras opções. Antes de viajar ela leu o livro de Ivo Andric - A ponte sobre o rio Drina, e segue um guia de viagens para percorrer a região, além de sempre gravar seu dia a dia, como se fosse um diário. 




Por causa do livro que leu resolve visitar Visigrad, que é onde fica a ponte. Faz reserva  em um hotel indicado pelo guia como um local romântico.Até este momento tudo está indo muito bem e ela está feliz com sua viagem, mas na noite que passa no hotel ela sente um mal estar, não consegue dormir. Ao retornar à Austrália ela irá procurar no Google mais informações e é quando descobre que o Hotel foi usado como campo de concentração de mulheres que eram estupradas e mortas, durante a guerra.



Kym se sente chocada com isto e não consegue aceitar que tenha dormido ali, naquele quarto onde algum tempo antes havia ocorrido o horror. Ela volta para lá 6 meses depois para tentar compreender, encontrar respostas e então vai descobrir como as cidades se reerguem após uma guerra, porém sem nunca deixar para trás seu passado sangrento. 

Ela tira fotos de tudo, das marcas nas paredes, na ponte, buracos de tiros, ruínas, tudo que a guerra deixou. Com isto chama a atenção da polícia e acabará interrogada e terá que deixar o país, mas não sem antes prestar uma homenagem às mulheres mortas no hotel e desta forma conseguir elaborar seu mal estar.

Em um determinado momento ela anda pelas ruas da cidade acompanhada de um professor de história e ele diz o que talvez ela não estivesse conseguindo compreender por vir de um lugar onde não havia ocorrido algo assim. Ele fala que "os que viram e viveram se perderam no dom da palavra e os que estão mortos não podem contar histórias. E completa ... essas são coisas que não são contadas e sim esquecidas, mas onde elas não são esquecidas como podem ser contadas? As vezes a ignorância é uma benção.

É o retrato do que acontece nos lugares que passaram pelo horror da guerra. São necessário anos para que se possa falar sobre o que aconteceu. Muitos não querem ouvir e outros não querem falar. É por isto que somente agora vemos uma explosão de livros escritos por sobreviventes do holocausto na Segunda Guerra, estão se aproximando da morte, é talvez a última geração que viu a guerra, e então sentem a necessidade de falar finalmente, para que não seja esquecido.

Este filme me remete a um momento em minha vida quando fui pela primeira vez no local do desembarque na Normandie na França. Eu olhei a praia, pisei nela e não suportei, era como pisar em sangue. Mas a areia estava branca, o mar e a chuva haviam retirados os vestígios, mas eu sentia que estava lá, ainda estava lá.

Jasmila Zbanic nasceu em 1974 em Sarajevo, Bósnia 

FILME: HISTÓRIA DE GUERRA - 2014




Direção: Mark Jackson - 2014
Duração: 88 min
Título Original: War Story

Lee (Catherine Keener) chega à Sicília e vai para um hotel onde já esteve antes. Ela está atormentada, angustiada. Em seguida vamos perceber que ela está machucada, tem uma costela quebrada, mas não quer tirar radiografias como recomenda o médico, quer apenas um remédio para dor. Tem um comportamento estranho, não quer que ninguém entre em seu quarto, nem a camareira, muda a posição dos móveis, coloca um colchão no chão, não atende ao telefone. 

Ela é uma jornalista e fotógrafa de guerra que foi afetada por um trauma e que ao invés de retornar para os Estados Unidos onde todos a esperam, resolve tentar superar isto sozinha. E sua maneira de fazê-lo é tirar fotos de um local onde estão refugiados da Líbia. Neste local ela vê uma jovem que é muito parecida com outra da qual ela tirou uma foto antes, e a partir deste momento ela decide ajudá-la. Hafsia (Hafsia Herzi) está grávida e precisa fazer um aborto. Ela também quer ir para a França, e então Lee a ajuda em tudo isto como uma forma de exorcizar o seu trauma.



A participação de Ben Kingsley como Albert um ex amante de Lee é muito pequena, apenas um momento onde ele tenta trazê-la de volta para sua vida e realidade antes de lhe emprestar o carro para que pudesse levar Hafsia para a fronteira com a França. Mas o conselho de Albert acabará prevalecendo.



 Um filme que poderia ter sido melhor explorado, mas que vale pelas cenas iniciais onde se pode visualizar toda a angústia, dor, o sentimento de estar perdida, sem rumo, que acomete uma pessoa que passou por algo extremamente traumático. 

Mark Jackson 

FILME: MOMMY - 2014




Direção: Xavier Dolan - 2014
Duração: 139 min
País: Canadá 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014

O filme se passa no Canadá. Diane Després (Anne Dorval) está indo buscar seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) em uma instituição para jovens problemáticos de onde foi expulso por haver ateado fogo na cafeteria local e com isto um garoto sofreu queimaduras de terceiro grau. Diane acredita que é capaz de cuidar dele sozinha.

Steve é hiperativo e muitas vezes se torna agressivo. Em uma das cenas por haver sido contrariado em seu desejo de ofertar um presente à mãe que sabe que se trata de um objeto furtado ele a agride e ela tem que se refugiar em outro cômodo. É quando a vizinha da frente se aproxima e irá tentar ajudar Diane.

Um filme que é tocante e terno por um lado e que nos angustia por outro. Uma relação limite entre mãe e filho. Steve em certos momentos é terno e doce como um bebê, mas em outros agressivo e hiperativo. A presença de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha, traz alguns momentos de alegria, e um fará bem ao outro, mas quando se vive em situações limites alguém terá que fazer uma escolha e tentar que ela seja a melhor, acreditar e ter esperança.


O que notamos é que após a morte do pai o filho se agarra à mãe, há algo até mesmo de incestuoso na relação dos dois, fusional, sem espaço para que um terceiro entre. Steve tem ciúmes de sua mãe e se torna agressivo. Por outro lado a mãe o superprotege dos outros. Não admite que ninguém fale algo dele, ou queira colocá-lo em seu lugar. Ela tenta ser rigorosa com ele, mas acaba não conseguindo, seja porque ele a cativa e seduz, ou porque ele se torna agressivo e neste momento ela não dá conta.



Para Steve talvez seja muito difícil ter uma mãe bonita e sexy, uma mãe sexuada, e na falta do pai para ser o objeto de desejo dela, ele não aceita que outro venha ocupar este lugar, então ele tenta suprir a falta da mãe de todas as maneiras. Kyla por um momento é uma interrupção disto, um terceiro que entra para afastar um pouco esta fusão. 


Xavier Dolan nasceu em 1989 em Montreal, Canadá 

LIVRO: O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO - RAIMUNDO CARRERO



Carrero, Raimundo. 1ª ed. Record, 2015
111 páginas

Na madrugada de 18 para 19 de outubro de 2010 o escritor Raimundo Carrero sofreu um AVC, que o deixaria com o lado esquerdo comprometido. Após sair do hospital o que mais o atormentava era se ainda conseguiria ser um escritor, se conseguiria escrever. E conseguiu. 

Mas este livro sobre o que lhe aconteceu demorou mais. Ele escreveu três versões e não se satisfez com nenhuma delas. Ele não conseguia escrever na primeira pessoa, então optou por escrever na terceira pessoa e através de metáforas, e o resultado é este pequeno imenso livro. 

Belíssimo! a medida que vamos lendo sentimos em nós mesmos a angústia que ele sentiu, o medo, mas junto a isto tudo também as recordações da vida, do antes, e novamente a angústia, do agora. São sonhos e pesadelos, a verdade e a invenção. 

Mudar de corpo, mas como o autor nos diz, o corpo está sempre mudando, desde que nascemos. Por outro lado costumamos imaginar que a vida se passa fora do corpo, não o sentimos ali junto vivendo junto com nossos pensamentos, sensações, dores, por mais paradoxal que seja, uma vez que a dor e as sensações só as conseguimos captar e sentir através do corpo. 

Fiquei emocionada, me tocou profundamente este livro. 

Raimundo Carrero nasceu em 1947 em Salgueiro, Pernambuco, Brasil

LIVRO:O TOM AUSENTE DE AZUL - Uma aventura filosófica - JENNIE ERDAL


JENNIE ERDAL 
BERTRAND BRASIL, 1ª ED. 2015
378 páginas
Tradução: Pierre Menard
Título Original: The missing shade of blue

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ESCÓCIA 

O enredo é simples. Edgar viaja para Edimburgo para fazer uma trabalho de tradução dos manuscritos do filósofo David Hume. Ao chegar lá ele conhece por acaso o filósofo Harry Sanderson que é casado com uma pintora, Carrie. A partir daí tudo muda para Edgar a começar do seu jeito de viver que é programado e sistemático até um mergulho em seu passado. 

Edgar passou por um colapso nervoso na Universidade e desde então procura se manter longe de emoções e da desordem, mas Sanderson é o oposto, anárquico, paranoico e está passando por uma crise autodestrutiva. O encontro destes dois é o que há de brilhante no livro, principalmente Sanderson que irá questionar o que é ser feliz? se a felicidade existe? 

Será diante das atitudes, comportamento e do que diz Sanderson que Edgar terá que enfrentar seus próprios conflitos. Ele é mais velho e mais vivido que Edgar e traz toda uma gama de experiência de vida que traz para o real o que costumamos romancear, transformar em ficção ou algo belo, na tentativa de não se confrontar com a velhice, com as frustrações, com as perdas e faltas. Sanderson revela como nos valemos de consolos e da imaginação para escapar ao real da vida. 

O final deixa claro que o "vivemos felizes para sempre" é algo ilusório, mas ao chegar ao fim do livro percebemos em nós mesmos como torcemos para que isto aconteça, como desejamos continuar dentro deste imaginário. O quanto estamos sempre criando o tom ausente de azul. 

Recomendo!

Jennie Erdal é uma escritora escocesa

sexta-feira, 10 de abril de 2015

FILME: PROMESSAS DE GUERRA - 2014



Direção: Russel Crowe - 2014
Duração: 105 min
Título Original: The Water Diviner

Filme dirigido por Russel Crowe que faz o papel do protagonista. Joshua Connor (Russel Crowe) vive na Austrália com sua esposa Ayshe (Olga Kurylenko). Ao regressar para casa à noite ela está limpando as botas de um dos filhos e lhe pede para ler para eles alegando que é o melhor momento do dia. Logo percebemos que os filhos não estão ali. Eles morreram na guerra, na Batalha de Gallipoli em 1919 na Turquia. Ayshe o acusa de nunca os ter trazido de volta. A dor de uma mãe que perde os três filhos é muito forte e ela acaba se suicidando. Diante disto Joshua promete em seu túmulo que vai buscá-los para que sejam enterrados ao lado da mãe.



A partir daqui não leia se pretende assistir ao filme.

Joshua consegue localizar os corpos de dois de seus filhos, porém o mais velho escapou vivo da batalha. Começa então a procura por ele que acabará sendo encontrado. A grande questão do filme é porque ele não voltou? Aqui vou falar em termos psicanalíticos. Quando eram crianças o pai sempre dizia ao mais velho para que não voltasse para casa sem os irmãos. E isto ficou gravado. Como ele poderia voltar? sem os irmãos? Na infância diante de uma tempestade de areia ele havia cumprido sua promessa, e permanecido com os  irmãos até a chegada do pai, mas na guerra ele acredita que falhou. 


O que o filme deixa muito evidente é a força de uma palavra, de uma frase dita seja pelo pai ou pela mãe na infância que fica registrada e não permite modificações, mesmo quando já somos adultos, a menos que consigamos falar disto e encontrar possibilidades de mudar. É o que acontece quando ele o diz para o pai, mas mesmo assim não quer voltar e só o fará quando o pai disser outra frase para ele. 

A Batalha de Gallipoli foi terrível, um massacre, e o filme também relembra um pouco deste triste episódio. 

Russel Crowe nasceu em 1964 em Wellington, Austrália. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DOCUMENTÁRIO: O SAL DA TERRA - 2014


Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Duração: 110 mim
Título Original: Le sel de la terre
País: Brasil - França - Itália 

Indicado ao Festival de Cannes 2014 como Un certain regard

Estou encantada com o trabalho de Sebastião Salgado, é muito especial.

O Documentário realizado por Wim Wenders e pelo filho de Sebastião, Juliano Ribeiro Salgado nos mostra muito mais do que as fotos que ele tirou, nos fala de sua vida e do que o levou a tirar as fotos, mas além disto também o que este trabalho trouxe para ele mesmo, o que modificou nele mesmo na sua maneira de ver o mundo. 

Há fotos impactantes, duras, difíceis de olhar, feitas justamente para chocar e sacudir as pessoas que estão acomodadas em sua vida de conforto longe das tragédias e misérias do mundo, mas o que mais elas fazem é nos lembrar que se hoje estamos no conforto nada nos garante que amanhã seja assim. Isto fica evidente quando após mostrar uma série de fotos da África e suas guerras civis e deslocamentos de população e sobre a América Latina ele nos lembra que é bom não pensar exatamente isto: isto é na África, é na América Latina, porque em seguida ele retorna à Europa e uma Europa já atual, pós segunda guerra mundial para fotografar a Bósnia, a Croácia, a ex-Iugoslávia e tudo o que aconteceu por lá. 

Sebastião viveu exilado por muitos anos até que pode finalmente retornar ao Brasil com a anistia para os refugiados políticos. Pode rever sua família, seus pais, o lugar onde nasceu. Neste momento ele faz uma viagem pelo Brasil que retrata, principalmente a seca do sertão, a morte. 

Finalmente, já próximo dos 70 anos em 2004 ele inicia um novo projeto e se lança numa viagem por mais de 30 países em busca do belo, do que não foi destruído, do que ainda está intocado pela dita modernidade, pelo suposto progresso, ou seja, onde a crueldade do homem ainda não chegou. E o resultado é Genesis que vi no MON em Curitiba e postei aqui no Blog. 

Vale a pena assistir!

Wim Wenders
Juliano Ribeiro Salgado
Sebastião Salgado