Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Naoko Ogigami - 2006 Duração: 102 min Título Original: Kamome Shokudo País de Origem: Japão Filmado na Finlândia.
Sachie (Satomi Kobayashi) é uma japonesa que abriu um café em Helsinki na Finlândia, para servir comida japonesa esperando com isto apresentar sua culinária ao povo filandês, o que acaba não dando muito certo. Seu único cliente é Tommi (Jarkko Niemi) que é fã da cultura nipônica. Justamente para ajudar Tommi com a letra de uma música, visitando uma livraria ela vê outra japonesa ali e puxa conversa. Ela acaba indo ajudar Sachie no café, e mais tarde também outra que ao visitar a Finlândia espera por suas malas que foram perdidas pela Cia Aérea.
Aos poucos elas irão se dar conta que para os finlandeses elas são estranhas, e mais ainda a comida. Resolvem então tentar com comidas locais. Fazem um bolinho de canela que imediatamente atrai as pessoas.
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Então surge a ideia de começarem a fazer comida japonesa com ingredientes locais como o salmão, arenque, camarão. E isto dá certo.
Esta é a primeira lição do filme, que é preciso misturar as coisas, nem o totalmente finlandês, mas nem o nipônico, para começar a aproximação, desfazer o estranho. Mas o filme vai além, porque cada uma destas pessoas e também outros clientes tem seus problemas, e elas acabam envolvidas nisto, como uma forma terapêutica de ajuda. Afinal a comida é sempre uma forma de cura e de aproximação.
Direção: Maryanne Zéhil - 2012 Duração: 95 min País de Origem: Canadá Filmado no Canadá e Líbano
Marie Simard (Nathalie Coupal) é uma editora que vive em Québec. Ela passa a receber diariamente envelopes que são deixados embaixo da porta da editora de alguém que conta sua história do que aconteceu no Líbano, os massacres que assistiu inclusive de sua família em dois campos de refugiados palestinos - Sabra e Chatila. Ela logo vai descobrir que quem lhe envia os envelopes é Joseph (Joseph Antaki) , um pintor que trabalha na editora. Ela quer publicar o testemunho, mas algo acontece que a faz ir pessoalmente ao Líbano para poder compreender finalmente esta história.
Por outro lado Marie também vive um momento difícil, sua mãe está em coma no hospital. Ela tem uma mágoa profunda e não consegue perdoá-la. Quando jovem a mãe a fez abortar o filho de um namorado e ela acabou estéril o que mais tarde destruiu seu casamento com um homem que ela amava por não poder ter filhos. Há um jogo aqui, pois se realmente o marido a amasse não a teria deixado por outra mais jovem que lhe deu filhos, mas é assim que ele a responsabiliza pelo fim do casamento e ela aceita. Marie bebe muito para esquecer.
Joseph aceita trabalhar com Marie para a publicação de seu testemunho, aos poucos vamos vendo o passado dele, o massacre, a morte de deu pai e irmãos por cristãos vizinhos, a fuga dele, da mãe e uma irmã até se esconderem num convento que os acolheu. Mas há algo que Joseph não pode contar. É o final desta história que irá se produzir a seguir quando Joseph efetua a vingança pedida pela sua mãe e mata os assassinos de sua família que agora também vivem no Canadá. É após isto que Marie parte para o Líbano, para compreender este ato.
Lá os cristãos mortos por Joseph são considerados mártires. Suas fotos estão nas paredes. Marie vai até o convento onde a freira lhe conta a história do que se passou anos atrás com mais detalhes. Finalmente Marie vai procurar a mãe de Joseph e será dela que ouvirá que se trata de vingança para manter a honra e a dignidade de sua família e de seu povo.
Ao retornar para Québec há um último envelope de Joseph. Ele então relata seu ato, mas deixa uma mensagem de esperança e perdão. Diz que o fez para que ocorra uma ruptura neste círculo de vinganças, para que seus filhos não precisem matar ninguém e possam ser felizes. Joseph se suicidou.
A questão que o filme também enfoca, mas de forma infelizmente superficial é a questão da Mãe. A de Marie que lhe impôs um aborto se colocando como responsável por sua fertilidade e feminilidade, a de Joseph o instrumento da vingança que obriga o filho a cumpri-la.
O filme me lembrou outro - Abril Despedaçado - onde sempre há a vingança e se espera por ela, que ocorre no Nordeste Brasileiro, mas também a mensagem do amor, de encerrar o círculo como neste filme quando Rodrigo Santoro o ator do filme toma um caminho diferente e no filme Incêndios, também no Líbano, quando a mãe escreve as duas cartas.
É um belo filme, mas menos profundo e intenso do que estes dois que acabo de citar, mas vale a pena assistir.
Direção: Joana Hadjithomas e Khalil Joreige - 2008 Duração: 68 min País de origem: França e Líbano Filmado no Líbano
Em julho de 2006 uma guerra estoura no Líbano, os produtores do filme são pegos de surpresa fora do país e não podem retornar. Para eles e libaneses não é apenas mais uma guerra, mas a que vem quebrar as esperanças de paz e o ânimo das pessoas. Não há mais o que escrever, o que dizer, o que mostrar, então os produtores pensam num encontro, o encontro de Catherine Deneuve com um ator libanes, Rabih Mroué, que após olhar por uma janela para Beirute, se vira e diz: Eu quero ver!
Os atores representam a si mesmos. São apresentados, é Rabih quem conduzirá o carro, irão os dois neste carro, aos poucos vão se conhecendo. No sul de Beirute, a região mais atingida são impedidos de filmar, são bairros controlados pelas milícias xiitas. Vão para o sul, onde a guerra começou visitar a vila natal de Rabih, onde morava sua avó. Chegam e só encontram escombros, tudo destruído, a tal ponto que ele se sente incapaz de encontrar onde ficava a casa de sua avó. Ela olha para tudo isto sem compreender, ele se sente totalmente desamparado.
Pegam uma estrada que não estava previsto e são impedidos pela equipe de segurança de prosseguir. Há minas espalhadas por todo o território, não podem ir por ali, mesmo que a paisagem seja mais bonita. Os cartazes com os mártires do Hezbollah nos postes a beira da estrada.
Não se trata de um documentário, é um filme, um filme onde os atores atuam eles mesmos, como eles estão vendo tudo aquilo, o sentimento de cada um. Uma outra forma de mostrar, revelar o que são os destroços de uma guerra.
Na vila ao sul
O sul de Beirute
No final do filme vemos uma outra Beirute, a que não foi atingida e que acompanha a globalização, o mundo, no fundo, as duas faces de uma mesma moeda.
A guerra do Líbano de 2006 foi um episódio do conflito árabe-israelense, ocorrendo no norte de Israel e sul do Líbano tendo começado em 12 de julho de 2006 após o sequestro de dois espiões israelenses pelo Hezbollah, e envolveu as forças de defesa de Israel e o braço armado do Hezbollah, e em menor grau, o exército libanês. O Líbano passou por uma guerra civil de 1975 à 1990, depois a Primeira Guerra do Líbano em 1982 e esta Segunda Guerra em 2006.
O filme foi rodado em uma semana.
Joana Hadjithomas e Khalil Joreige nasceram em 1969, ambos em Beirute. São casados.
Hernández, Gaspar. 1ª ed.Casa da Palavra, 2014 208 páginas Tradução: Marcelo Barbão Título Original: La terapeuta
O livro é uma ficção sobre a ansiedade, principalmente a que se desencadeia após um stress pós-traumático. Uma forma mais leve e compreensível de abordar uma questão importante e que atualmente vem acometendo a muitos. Através da história de Héctor, um ator de teatro, que assistiu a um assassinato e que procura a ajuda de uma psicóloga, Eugênia, vamos vendo o desenrolar da ansiedade, seus efeitos, como atua, o que causa. O trauma na verdade é apenas o gatilho de algo mais profundo, ou seja, a pessoa já tem questões anteriores, e quando ocorre algo mais grave, que causa um choque, a ansiedade dispara e aparece com todos seus sintomas.
A história também fala da transferência e contratransferência de uma relação terapêutica, mas é algo bem superficial, não se aprofunda nisto e nem demonstra como isto faz parte da terapia e deve ser trabalhado, mas não é este o foco da história, mas sim, através de uma ficção trazer informações sobre a ansiedade, e para um início cumpre seu papel de uma forma mais leve do que ler um livro científico, tornando assim mais acessível o tema. Mas não se trata de um livro que vai a fundo no assunto que é muito mais sério e duradouro do que nos mostra a história.
Além disto é escrito de uma forma que aguça a curiosidade.
Um filme que nos fala da busca de suas origens. Elisa (Anna Mouglagis) acaba de perder a mãe. Pilar (Marisa Paredes) não cumpriu o desejo dela e guardou todas as fotos e escritos, e é assim que Elisa descobre que seu pai não é quem ela pensava. Ela então parte para Portugal em busca de sua história, mas também para dar um tempo a si mesma, uma vez que foi surpreendida por um pedido de casamento de seu companheiro italiano, com quem vive há 07 anos, e não sabe se deseja se casar.
Chegando lá ela conhece Davi (Simão Cayatte) que é filho de um dos amigos de sua mãe. Ele acaba de voltar do Marrocos onde se envolveu com o islamismo. A história da mãe de Elisa se passa nos anos 60-70, durante o fascismo, e o filme é um resgate desta história, mas com um olhar atual. Davi procura ajudá-la em sua busca, levando-a até as pessoas e servindo de tradutor. Mas ele esconde dela que sua mãe voltou a se casar e com um dos companheiros da turma da mãe dela.
O filme na realidade é uma espécie de biografia de Saboga, uma catarse de sua própria história pelo viés da ficção. O que se conclui é o fim da ilusão de que através de um combate se podia modificar o mundo, e hoje todos aqueles que se envolveram na luta vivem uma vida de burguês. O inspetor do PIDE (polícia internacional e de defesa do Estado) nega a realidade, diz que não matavam. É a dificuldade de fazer o ajuste de contas que os países tem, e as pessoas também. A vida continua e uma pessoa que surge para remexer o passado nem sempre é bem vinda, mas Elisa acaba sabendo de tudo e pode finalmente voltar e tomar uma decisão quanto ao casamento.
Direção: Michelange Quay - 2007 Duração: 99 min País de origem: Haïti
Um filme diferente que irá agradar a poucos. É um filme que representa um transe, fora da compreensão e do racional. É uma experiência cinematográfica, que nos leva ao mais profundo do sofrimento espiritual e material do Haïti.
Vou falar sobre o que senti. Logo no início do filme vemos uma senhora branca num leito (Catherine Samie) que fala palavras ditas por Jesus, mas ela completa dizendo que ela é a abundância incompreendida por eles (haitianos) que cospem nela em sua ignorância. Ela alimenta este mundo canibal, coma, este é meu corpo. Ela diz perdoe-os, eles não sabem o que fazem. Mas ela mesma se alimenta deles, ao ponto de se ver neles e diz que eles pegam, mas não retribuem.
Alguns meninos se dirigem em fila para a casa colonial. São lavados, vestidos de terno, sapatos, para o ritual da refeição. Uma mesa posta, tigelas e colheres. Surge Madame (Sylvie Testud), ela se senta com os meninos à mesa, mas não há comida, o que não desobriga o obrigado!, repetido à exaustão. Ela sugere que eles devem fechar os olhos e imaginar que estão comendo. Mas quando eles finalmente tem um bolo para dividir, eles se empanturram, e fazem guerra com o bolo.
O filme retrata o branco comendo o negro. É um jogo de espelhos, o negro se olha no espelho, ele espia a mulher branca. Uma busca de identidade. A mulher branca acaba tomando consciência do outro, mas para isto sua mãe tem que morrer.
É como um mergulho no inconsciente, poucas palavras, imagens, vemos as duas senhoras brancas, que representam a colonização. Vemos os negros habitantes e originários dali. Um se olha no outro, e por mais que o branco tente se manter afastado ele acaba assimilando também. Então já temos dois lados diferentes. Além disto há uma crítica a colonização, a situação da casa colonial diante do restante do povo. O branco acredita que ele está levando algo de bom para eles e os haitianos não agradecem, e porque teriam que agradecer? Eles é quem estão sendo explorados pelo branco. Então ao contrário do que diz a senhora no começo do filme, é ela quem se alimenta deles e não o contrário.
Um filme que possibilita muitas interpretações.
O filme foi realizado antes do terremoto de 2010 que arrasou o país que até hoje não se recuperou.
Direção: Jon Garaño e José Mari Goenaga - 2013 Duração: 96 min País de origem: Espanha - País Basco
Loreak significa flores em basco. É um filme basco, inclusive falado nesta língua que difere do espanhol. O país basco fica no território da Espanha, mas tem uma cultura muito diferente e fala outra língua.
Ane (Nagore Aranburu) trabalha numa construção, vive com seu marido, um casamento morno, ele normalmente passa seu tempo vendo TV. Ela começa a receber flores de um desconhecido. Belos buques, o que acaba deixando seu marido enciumado. Ela está na menopausa, e as flores que recebem acabam fazendo com que sua auto-estima melhore, ela começa a se arrumar mais.
Para não aborrecê-lo e ter que responder suas perguntas para as quais ela não tem respostas, passa a levar as flores para seu escritório na obra. Um dia ela perde sua corrente, presente de noivado do marido, e não consegue mais encontrá-la. Na obra trabalha Benãt (Josean Bengoetxea) como operador do guindaste. Ele é casado com Lourdes (Itziar Ituño). A relação desta com sua sogra Tere (Itziar Aizpuru) não é boa, a mãe de Beñat é autoritária, gosta de dar palpites em tudo, e desaprova a nora.
Uma noite de chuva Beñat está indo para a casa de sua mãe, mas irá se atrasar, liga para ela, que como sempre não é nada gentil, chantagista emocional, desliga na cara dele. Logo em seguida ele sofre um acidente do qual virá a falecer no hospital. É então que Ane para de receber flores, e quando o novo operador encontra sua corrente na cabine do guindaste ela associa as coisas e percebe que era ele quem enviava as flores. Ela então passa a levar um buque de flores no local do acidente, ritual que também a mãe dele faz. Lourdes nunca foi lá e se afastou da família.
Mas estas flores continuam causando indagações, como o marido de Ane, a mãe de Beñat também fica intrigada e quer descobrir quem leva as flores. Ela deixa um bilhete e Ane responde vindo a conhecer Tere, que acaba criando mais intrigas com Lourdes insinuando que ela era amante de Benãt.
As flores são o centro do filme, e é por causa delas que estas três mulheres acabam se ligando entre si, pelo menos por um tempo, e tem que enfrentar suas questões. Ane o seu casamento, Lourdes sua relação com os outros, Tere sua forma possessiva de amar.
Jon Garaño (em primeiro plano) nasceu em 1974 em San Sebastián, Espanha e José Marí Goenaga nasceu em 1976 em Ordizia, Espanha.
Direção: Philippe Muyl - 2014 Duração: 96 min Título Original: Ye Ying, le promeneur d'oiseau País de origem: China
Outro belo filme que encanta. Este especialmente é recomendado para pais que tenham filhos que são super ligados na tecnologia e são solitários.
Zhigen é um homem idoso que vive sozinho com seu passarinho. Na casa ele fica solto, mas ele o leva passear também, no parque, onde pendura a gaiola. Percebe-se que trata-se de um costume, pois há outros no local com seus passarinhos. Ele ganhou este pássaro de sua esposa quando teve que partir para Pequim à trabalho. Ela morreu enquanto ele estava lá, mas ele fez uma promessa quando o ganhou, de voltar a sua vila e levar o passarinho de volta para cantar e soltá-lo.
O filho de Zhigen é um famoso arquiteto que vive em Pequim com sua esposa e filha Renxing. A menina é mimada, e no começo do filme ela chega a ser insuportável, mas seu avô é uma paciência infinita. Na verdade é a reação típica da criança solitária que deseja chamar a atenção e ser amada. No passado Zhigen perdeu de vista a menina no mercado de pássaros e isto causou uma ruptura de relações com seu filho. Mas agora ele vai viajar e sua esposa também, e tinham esquecido que a babá também. Então a saída é deixar Zhigen levar a neta junto em sua viagem de retorno a sua vila, Yangshuo no Guangxi, sul da china.
Ela não gosta muito no começo, mas depois aos poucos ela vai se divertindo, vendo coisas que nunca viu, ouvindo histórias. Seu avô é dedicado à ela, e isto faz uma diferença enorme pois seus pais estão sempre ocupados com seus trabalhos e não tem tempo para nada. Ela vivia no computador.
Os imprevistos surgem no caminho, pegam o ônibus errado que depois quebra na estrada, passam uma noite numa fazenda, depois se aventuram por uma floresta e acabam dormindo numa gruta. Um pescador os resgata a beira do rio e os leva para uma cidade. Aos poucos Renxing se aproxima do avô, da vida simples. Ela faz amigas, aprende a brincar na natureza, subir em árvores, nadar na cachoeira. E com isto vai aprender que há outras coisas boas na vida além de uma bela casa e uma conta bancária excelente.
As paisagens são belíssimas. O filme foi rodado na província de Guangxi, em Yangshuo, Guilin, nas aldeias dos Dong.
Direção: Mahsun Kirmizigül - 2014 Duração: 136 min País de origem: Turquia Baseado em fatos reais.
Belíssimo filme, poético, paisagem deslumbrante. Em tempos onde o que mais vemos é violência, conflitos, insegurança, doenças, um filme como este é uma dádiva.
Um professor (Talat Bulut) na Turquia é transferido para uma aldeia. Sua esposa se recusa a acompanha-lo. Ele então parte, primeiro de trem, depois de ônibus até o ponto final. Mas ali não tem nada, então o motorista lhe explica que atrás daquela montanha que ele aponta, há outra, e depois fica a aldeia. O professor então parte e chegando à aldeia é inicialmente recebido por vários homens que lhe apontam um rifle, até descobrirem que é o professor.
Após ser recebido com alegria, o professor descobre que ali não tem nenhuma escola. Eles então vão à cidade para pedir a construção da mesma, o que não é possível. Na ida eles encontram os bandidos das montanhas, um grupo armado, mas que não é violento, eles são os leões da montanha. O professor então decide que tem que voltar para tristeza do chefe da aldeia que o acompanhou. A noite é difícil, o professor pensa nas crianças que ficaram tão felizes com sua chegada. Ele então toma uma decisão e liga para sua esposa dizendo que foi sequestrado pelos bandidos da montanha e que ela precisa lhe enviar uma soma urgente, o que ela acaba fazendo. De posse do dinheiro para a construção da escola eles compram o material e retornam. Os bandidos da montanha chegam para ajudar na construção.
Na aldeia vive Aziz (Mert Turak) , que é filho do chefe da aldeia. Ele tem problemas, não consegue falar, não anda direito, seu corpo é torto, ele baba. Seu único amigo é seu cavalo que está sempre com ele. O professor se interessa por ele, e quando percebe que Aziz tem interesse na escola o convida para participar. É o primeiro passo na direção de uma recuperação dele.
Os casamentos são acertados entre as famílias, é a mãe, mulher do chefe da aldeia que faz a escolha, mas tem todo um ritual para isto. E quando ela parte o filho corre em sua direção para expor seu desejo. O primeiro deseja uma mulher com dentes bonitos e uma silhueta fina. Os outros riem, e dizem que no fim será a escolha da mãe que prevalecerá. E a esposa não tem dentes bonitos. O segundo pede olhos azuis, e a esposa é estrábica.
Um dos filhos do chefe da aldeia vive nas montanhas pois cometeu um assassinato para defender a honra de seu pai. Faz 10 anos e sua esposa e filho já não aguentam isto e lhe pedem para se entregar, o que ele acaba fazendo. No dia do julgamento os homens da aldeia estão presentes e na saída na calçada um homem tira uma arma mirando outro, o chefe da aldeia impede que o tiro acerte e o homem lhe fica eternamente grato. Tenta lhe retribuir e a única forma que encontra é dar sua filha (Seda Tosun) em casamento para o único filho solteiro dele, ou seja, Aziz.
Não vou continuar pois é um filme que precisa ser experienciado, eu me deixei levar por ele.
O filme é maravilhoso, daqueles filmes que te faz rir, chorar, torcer. Não há tragédias, mas tem tristezas, não tem violência, mas tem atos criminosos, ele retrata a vida, sem extremos. Apesar de haver a presença da religião, o milagre (mucize é milagre) que se opera no filme não vem de Deus, é terreno mesmo. Um filme que fala do amor e do que ele pode fazer pelo ser humano, de sua força, desde que seja uma doação, não uma cobrança ou troca.
Rituais, roupas lindas, montanhas, a velhice, os jovens e as crianças. As mulheres, sua união, mas também sua maledicência.
Recomendo!
Veja o trailer:
O ritual do pedido do filho à mãe sobre sua esposa
Mahsum Kirmizigül nasceu em 1969 em Diarbaquir, Turquia
Direção: Steven Silver - 2010 Duração: 106 min Título Original: The bang bang club País de Origem: Canadá e África do Sul Baseado no livro The Bang Bang Club escrito por Marinovich e João Silva.
Um filme que nos mostra a realidade dos repórteres de guerra. Baseado em fatos reais, é a história de um grupo conhecido como Bang Bang Club, formado por Greg Marinovich (Ryan Phillipe), João Silva ( Neels Van Jaarsveld), Kevin Carter (Taylor Kitsch) e Ken Oosterbroek (Frank Rautenbach).
O grupo se formou na África do Sul, juntos para maior segurança, mas também unidos pela amizade, eles arriscam suas vidas para contar ao mundo toda a violência, brutalidade, fome, horrores que acontecem ao nosso redor. São as primeiras eleições livres da África do Sul após o fim do regime de Apartheid e a violência étnica impera. Greg ganhou um Pulitzer por suas fotos do confronto, mas o preço que pagaram foi muito alto.
Foto de Greg Marinovich que ganhou o Pulitzer em 1991, um assassinato brutal cometido por apoiadores do Congresso Nacional Africano a um homem que acreditavam ser um espião do Partido da Liberdade Inkatha.
Estes repórteres são obcecados por tirar suas fotos, mas o preço emocional, psíquico, psicológico que pagam é extremamente alto. Eles tiram fotos, mas não interveem, não fazem nada.
Greg Marinovich
A noite eles tentam se divertir, bebem, mulheres, tentam apagar as imagens, mas não é possível. A questão ética se impõe, a consciência cobra seu preço. Eles reagem dizendo que tiram as fotos para que elas sejam divulgadas e desta forma algo aconteça para mudar. Mas não é o que acontece.
Kevin Carter se drogava para suportar. Ao ser afastado do conflito na África partindo para o Sudão, ele tira uma das fotos mais famosas no mundo, mas que foi o seu fim. Ele suicidou-se um tempo depois por não suportar as perguntas, ele foi cobrado por não ter feito nada pela menina, exceto espantar o abutre. E somado a isto ainda houve a morte de Ken Oosterbroek.
Foto de Kevin Carter que ganhou o Pulitzer
Ken Oosterbroek foi atingido por um tiro durante as últimas manifestações antes da eleição. Ele morreu no local. Gren também foi atingido, mas sobreviveu.
Ken Oosterbroek
João da Silva continuou fotografando, em outubro de 2010 ficou gravemente ferido num acidente com uma mina no sul do Afeganistão e teve suas duas pernas amputadas, mas ele voltou a fotografar.
E como, e todos nós temos que prepará-lo. Um belo livro sobre a família, com tudo que ela contém, amores, apoios, desavenças, ciúmes, inveja, arrogância, humildade, acordos, desacordos, e muito mais.
Tudo começa em Portugal no ano de 1908 numa aldeia chamada Viana do Castelo. Os pais de Antonio, José Custódio e Maria Romana, se casam e ao sair da igreja recebem a tradicional chuva de arroz. Palma, irmã de Antonio ao ver todo aquele arroz no chão resolve recolhê-lo e o oferece como presente aos noivos com os seguintes dizeres:
" Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido na pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma "
José Custódio, orgulhoso, se sente ofendido, mas Maria Romana vê nisto um belo gesto de amor e guarda o arroz, arroz este que permeará a vida desta família por muitos anos, até o aniversário de 88 anos de Antonio, ou melhor, dois infinitos.
Vamos acompanhar toda a trajetória desta família. A vinda para o Brasil, o nascimento dos filhos, a partida deles para outras cidades, os casamentos, o nascimento dos netos. Mas é Antonio quem nos conta a história, é do ponto de vista dele que acompanhamos tudo, e também a história do arroz.
Um belíssimo livro sobre família, sem ser piegas, sem ser romântico, sem ser só desavenças, mas tendo tudo isto, porque família é assim, família é um prato difícil de preparar!
O Pe. Fábio de Melo escreve esta ficção em forma de romance para dar conta de expressar o que compreendeu sobre o Velho Testamento e a vinda de Jesus.
O meu interesse pelo livro não é religioso, porém ele tem uma mensagem muito interessante para questões de posicionamento perante a vida e principalmente sobre a questão do trair-se a si mesmo, quando somos subjugados pela sociedade e acabamos não fazendo aquilo que realmente gostaríamos de fazer. O percurso do discípulo da madrugada é justamente se libertar deste social que impera em sua vida, sem precisar renegar suas origens judias e nem ao texto sagrado, mas retirando dele uma nova visão e interpretação.
E este é o ensinamento que o livro traz, conseguir extrair uma nova visão de sua vida e valores, sem se renegar, mas também sem se trair. Ele também nos fala do medo, das projeções que fazemos, do pavor que temos daquilo que está em nós, mas que não conseguimos aceitar.
Através de uma história, podemos aprender um pouco mais sobre si mesmo.
Direção: Pavel Lungin - 2006 Duração: 112 min Título Original: Ostrov País de origem: Rússia
1942, Segunda Guerra Mundial uma embarcação soviética que carrega carvão é capturada pelos nazistas. Um jovem marinheiro em pânico acaba atirando em seu amigo por ordem do inimigo, a seguir a embarcação explode, mas não sem antes o jovem marinheiro comemorar por estar vivo.
Em seguida vemos monges que socorrem um jovem numa pequena praia, é o marinheiro.
1976 - uma ilha no Mar Branco da antiga União Soviética, um monastério de monges ortodoxos. Várias pessoas aguardam, desejam falar com um velho monge, Anatoly (Pyotr Nikolayevich Mamonov), conhecido por seu poder de cura e visões. É um velho estranho, ele vive afastado dos outros numa cabana onde se aquece com fogo abastecido de carvão que ele vai buscar diariamente, enquanto os outros vivem em outras cabanas com aquecimento. São pequenas ilhas ligadas por pontes de madeira. Se chamam de irmãos e são chamados por pai. O pai Filaret (Viktor Sukhorukov) é o abade. Ele se dedica a pintar a iconografia ortodoxa.
Anatoly nunca cumpre as regras do monastério o que deixa o pai Iov (Dmitri Dyushev) indignado, mas não há o que ele possa fazer, pois até mesmo o abade aceita Anatoly como é. Agora porque este velho monge é assim tão estranho? Pela culpa que carrega, pelo remorso, por não conseguir esquecer sequer um dia o que fez por medo em sua juventude, atirar em Tikhon (Yuri Kuznetsov). Ele buscou refúgio no monastério e com Deus para tentar aplacar sua culpa, mas não conseguiu. Talvez apenas um milagre posso fazer isto e ele possa então morrer em paz.
É um filme sobre a culpa e o peso de carregar isto por toda uma vida, por não conseguir se libertar de seu passado.
Direção: Christian Wagner - 1989 Duração: 95 min Título Original: Wallers Letzter gang País de origem: Alemanha
Waller (Rolf Illig) passou sua vida trabalhando para a Estrada de ferro fazendo a ronda nos trilhos, e mesmo estando desativada ele continua diariamente percorrendo os trilhos, mas agora ele terá que deixar de fazer isto pois a Ferrovia não quer mais que ele continue.
Ele parte para sua última ronda e a medida que avança vai se lembrando de sua vida, a cada estação, em certos locais, uma vez que aqueles trilhos são como os trilhos de sua vida, o passado e o presente, sempre os trilhos, mas como ele, a estrada de ferro também foi envelhecendo, sem uso, se no começo ainda está preservada depois ela se enche de capim, pontes estão caídas, até que se chega a um ponto onde não há mais nem os trilhos.
Suas lembranças aparecem em preto e branco, desde sua infância, quando começou a trabalhar na ferrovia (Herbert Knaup) a morte de seu amigo na guerra, seu amor por Angelika (Crescentia Dünber) com quem teve uma filha, Rosina (Sibylle Canonica), a morte de Angelika no parto, e a dor que ele carregou por toda sua vida por isto. Sua luta para ficar com a filha e criá-la. A medida que caminha as lembranças lhe vem até que chega ao fim dos trilhos.
Como a vida as coisas também mudam, e se por um lado pode-se se falar em progresso, de outro é a velhice que surge e deixa atrás de si os trilhos percorridos na vida.
Um filme contemplativo, melancólico, mas que ao mesmo tempo demonstra a riqueza da vida.