terça-feira, 29 de abril de 2014

FILME: ACUSADOS - 1988


Direção: Jonathan Kaplan - 1988
Duração: 111 min 
Título original: The Accused 
Roteiro: Tom Topor
País: Estados Unidos 

Baseado em fatos reais: o estupro ocorreu em 06 de março de 1983 no bar Big Dan em New Bedford no estado de Massachusetts. 

O filme relata a forma como o sistema penal e jurídico, assim como a sociedade trata um caso de estupro. Sarah Tobias (Jodie Foster) é estuprada por vários homens em um bar e irá buscar justiça, mas isto não é tão fácil quanto parece.



Logo após o estupro ela passa pela situação constrangedora do exame médico, a assistente social e a promotora Kathryn (Kelly McGillis) que irão lhe fazer perguntas e dar orientação. Quando a câmara foca em seus olhos neste momento a leitura é como se ela estivesse tatuada para sempre, como se as imagens do que sofreu jamais se apagassem. A maneira como as pessoas olham para a vítima, seja com piedade ou com acusação velada, ou pura indiferença, num momento que ela mais precisa de apoio, compreensão. É muito diferente daquele que foi agredido num assalto, numa briga, em qualquer outro ato de violência. O Estupro carrega em si mesmo a condenação da vítima pelo olhar da sociedade. O que ela fez para isto lhe acontecer? onde estava? que roupas usava? ela provocou? É um total absurdo, mas é a realidade.



O filme retrata  como são tratadas as vítimas de estupro, seja nos Estados Unidos ou na maioria dos países, quando não é pior ainda, expulsas de casa, mortas, consideradas apátridas.



Kathryn decide ajudá-la, e vai ter que lutar muito, inclusive contra outros advogados, com o sistema penal e judicial, uma vez que o que importa é não perder uma causa em função do prestígio da justiça e dos seus defensores ou acusadores. É um caso muito difícil, até mesmo a amiga de Sarah acaba depondo de uma forma desfavorável à vítima, uma vez que se leva em conta não o que ocorreu, mas quem ela é, e portanto, pressupondo de início que ela provocou isto.

Sarah é jovem, usa roupas provocantes, fuma, usa drogas, bebe, não tem uma boa relação com seu companheiro, mas apesar de tentar se levar isto em conta para defender os agressores, isto não justifica jamais um estupro.

A cena na loja de fitas cassetes, é extremamente cruel, e representa o que sente uma pessoa que foi estuprada perante a sociedade. O homem ri, zomba, faz gestos obscenos e a trata como um objeto. O ódio dela, a raiva, a vergonha.

Ela não consegue relatar o estupro, falar, é necessário que uma testemunha resolva falar e contar cruamente o que presenciou. Os homens incentivavam os outros, mesmo aqueles que não iriam estuprá-la, se sentem intimados para garantir seu lado viril. Eles fizeram fila de espera. Ela gritava Não! Não! e depois foi questionada no julgamento se falou para pararem, é um absurdo.Os agressores se defendem dizendo que ela provocou, flertou, dançou de forma provocando e que era óbvio o que ela queria. Se não fosse o testemunho de um irmão de um dos agressores a causa não teria sido ganha.

Um filme cru, real que lança um olhar forte mas verdadeiro sobre o crime de estupro e de como a sociedade e a justiça reage à ele. Um filme que convida a uma reflexão sobre a consciência moral das pessoas.

E deixa uma questão: Por que as pessoas reagem desta forma ao estupro?

Assista ao trailer em inglês


Jonathan Kaplan nasceu em 1947 em Paris, França. Estudou cinema na Universidade de New York. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: PAULA - ISABEL ALLENDE


Allende, Isabel. 2ª ed. Bertrand Brasil, 1995
Tradução: Irene Moutinho
472 páginas

Em 1991 Paula, a filha de Isabel Allende adoeceu gravemente e logo entrou em coma. Estavam na Espanha. Isabel vai para lá e sua mãe também, e começam a longa vigília na esperança que Paula acordasse.

Para vencer a angústia do tempo que não passa Isabel começa a escrever para sua filha este livro, onde conta a história da família, pensando que quando ela acordar poderá lhe oferecer estes escritos.

A maior dor de um ser humano é perder um filho. É tão brutal que não nem nomeação para este estado, dizemos que quem perdeu o cônjuge é viúvo, quem perdeu os pais é órfão, mas e quem perdeu um filho, o que é? Já não pode nem dizer sou mãe, teria que dizer fui mãe de ... pois este filho nunca será substituído, mesmo havendo outros.

O livro é o relato da dor desta mãe, das suas esperanças e angústias, medos, mas é também o relato de sua família e da história do Chile. A dedicação do marido de Paula, todo seu amor a sua jovem esposa que nos toca profundamente.

Foram meses, longos meses, enquanto este livro era escrito com a dor, mas também a força desta mãe, que precisava continuar a viver, é uma evocação à vida e uma linda homenagem à sua filha.

Isabel Allende com seus filhos Nicolas e Paula 

Isabel Allende Llona nasceu em 1942 na cidade de Lima - Peru, apesar de ter nascido em Lima é considerada Chilena, e atualmente vive nos Estados Unidos.





LIVRO: AMOR, DE NOVO - DORIS LESSING



Lessing, Doris. Companhia das Letras, 1996
Tradução: José Rubens Siqueira
362 páginas

Li este livro em 2011, mas nunca me esqueço dele por me tocar fundo. O Amor, tema de tantos livros, filmes e da vida. Talvez me seja mais inquietante ainda por eu também estar na meia-idade e sozinha.

Logo no início: Estou amando outra vez,
                       Coisa que nunca quis...

Sarah Durham tem 65 anos, fundou uma companhia de teatro com outros três amigos e dedica sua vida à companhia. Sua família, ou seja, seus filhos, não lhe dão atenção, exceto quando precisam dela, mas Sarah acredita que sabe lidar com isto, apesar de muitas vezes não conseguir se desvencilhar destas demandas, o que a leva a acolher sua sobrinha problemática, Joyce.

Há muito tempo, vinte anos, ela abdicou da vida amorosa e segue trabalhando com afinco e dedicação. Sua companhia resolve montar uma peça sobre uma mulher - Julie Vairon, que era da Martinica, uma pintora e musicista que viveu seus amores proibidos no Sul da França. É escrevendo sobre esta mulher que Sarah se verá novamente diante do amor.

A Companhia parte para a França onde serão encenadas as primeiras apresentações de Julie Varon. Sarah irá se apaixonar, primeiro por Bill, um jovem ator, mas também por Henry, o diretor do espetáculo e apesar deste ser mais maduro que Bill, ambos são mais jovens do que ela.

Lessing se detém sobre a mulher madura que de repente se vê apaixonada, com desejos sexuais, mas que não sabe o que fazer, sua angústia, sua indecisão, os medos, e a moral. Todo amor busca reviver a infância, tem suas raízes ali, nos amores objetais, os primeiros de nossas vidas, e ela irá analisar justamente as privações da infância que se refletem na vida adulta da mulher.

Ao se apaixonar nesta idade Sarah revive sua adolescência, percebe que nada muda, é a mesma loucura, a mesma intensidade, o mesmo desejo. Mas há a experiência passada que a faz temer este sentimento. De qualquer maneira o amor a faz reviver com intensidade, a sentir, a desejar. Seu amor por Bill a fará reviver uma fase mais infantil e por Henry uma fase mais madura.

Doris Lessing nasceu em 1919 em kermanshah no Curdistão Iraniano, então parte do Reino da Pérsia e faleceu em 2013 em Londres.

LIVRO: O ENIGMA DE ESPINOSA - IRVIN D. YALOM



Yalom, Irvin D. 1ª ed. Agir, 2013
Tradução: Maria Helena Rouanet
400 páginas
Título original: The Spinoza problen

A história do filósofo judeu que influenciou uma das maiores mentes nazistas.

Yalom é um terapeuta e psiquiatra que escreveu vários livros, entre eles alguns se utilizam dos filósofos como Niestzsche e Schopenhauer e agora Espinosa para nos ajudar a compreender a mente e o psiquismo do ser humano, além de proporcionar através de uma leitura gostosa uma introdução a estes que são considerados grandes filósofos e para muitos difíceis de compreender ao se ler os livros que eles mesmos escreveram.

Neste aqui é Espinosa, o filósofo judeu holandês que é mais conhecido pela sua excomunhão do que pela sua filosofia, até porque ler A Ética não é tarefa fácil. Yalom desejava escrever sobre ele mas não encontrava a maneira de fazê-lo até que foi à Holanda e visitou o museu do filósofo, com a esperança de encontrar lá algo que pudesse lhe permitir escrever sobre ele, mas foi ao ouvir seus acompanhantes falarem sobre o problema de Espinosa e sobre o nazismo que ele acabou encontrando seu material para a escrita.

Soube nesta ocasião que a ERR, a força tarefa nazista que se incumbiu de saquear as obras de arte para o Reich havia ido lá especialmente para pegar os livros de Espinosa. Yalom então recria esta história misturando história e ficção, e tentando imaginar porque Alfred Rosenberg, que chefiava a ERR poderia querer estes livros e qual era o problema.

Trabalhando com dois tempos, o de Espinosa no ano de 1656 e com Alfred no tempo antes e durante a Segunda Guerra Mundial ele traça um panorama da história dos judeus e também do racismo e antissemitismo, além da filosofia de Espinosa que neste livro se torna acessível.

Yalom vai além pois é um psiquiatra, e tenta desvendar a mente e o psiquismo destas duas figuras históricas, e para isto cria dois personagens fictícios, Franco no caso de Espinosa e Friedrich Pfister para Alfred.

Um livro que recomendo a leitura.

Irving D. Yalom nasceu em 1931 em Washington D.C. Filho de imigrantes russos formou-se em psiquiatria há 47 anos em Stanford. 

FILME: ENCONTROS E DESENCONTROS - 2003



Direção: Sofia Coppola - 2003 
Duração: 104 min 
Título Original: Lost in Translation 
Roteiro: Sofia Coppola
País: Estados Unidos 

Ganhou o Oscar de melhor roteiro original.

Bob Harris (Bill Murray), um ator que já fez muito sucesso chega à Tóquio para filmar um comercial de uísque. Ao ser levado para o Hotel num táxi ele fica olhando Tóquio com todas as suas luzes, out doors, e cartazes em uma língua que ele não compreende. Passou-me uma sensação de claustrofobia neste momento, de ser esmagado por tantas luzes, propagandas que impossibilitam de ver realmente os prédios, a rua, as pessoas. Bob fica impressionado com tudo isto, e procura tentar se adaptar, mas tem dificuldades até com o fuso horário e não consegue dormir.



No bar do Hotel ele conhece Charlotte (Scarlett Johansson) que como ele se sente só, pois seu marido está sempre muito ocupado. Juntos eles irão passear por Tóquio e falar de suas questões.

O filme mostra claramente, mas sem críticas, as diferenças culturais e as situações que isto pode acarretar. Bob enfrenta um momento de desencanto com a vida, está ali para fazer um comercial ao invés de estar atuando como ator, em troca de uma soma considerável. Sua relação com a esposa é fria e distanciada, ela não se preocupa com ele, apenas com a reforma da casa, e o mais triste é quando ela percebe que ele está triste e se limita a perguntar se deveria se preocupar com ele. Como responder a isto? Ele diz - só se você quiser, e claro que ela não quer.

Charlote é formada em filosofia e não gosta do superficial que tanto atrai seu marido, há diferenças entre eles e ela se sente atraída pela experiência que Bob transmite, ele topa seus programas, vai com ela aos lugares que ela deseja ir. Aos poucos cria-se uma tensão sexual entre os dois, mas o que realmente conta é o elo entre os dois por estarem juntos ali vivendo.



Mas chega o dia em que Bob deve partir e eles se despedem rapidamente, porém no caminho para o aeroporto ele a vê caminhar entre a multidão e pede ao taxista que pare o carro, vai até ela e lhe sussurra algo ao ouvido.

A vida é feita de encontros e desencontros, não há um final feliz no filme, mas um final que pode ser real, verdadeiro. Ninguém fica sabendo o que ele lhe diz, isto pertence aos dois.

Tóquio é high Tech demais, um excesso, em contrapartida com seus templos e o silêncio. Como se os personagens do filme também se refletissem nisto, os que estão a mil, envolvidos em seus trabalhos, em sucesso, ganhar dinheiro, e os que estão sentindo um vazio, uma falta de dimensão em suas vidas. Mas a visão de Bob ao chegar e ao partir são diferentes, algo mudou, e ela não se torna mais um rosto na multidão a partir do momento que ele a identifica ali e vai até ela para lhe dizer algo que só aos dois interessa.


Sofia Coppola nasceu em 1971 em New York, EUA. É filha do cineasta Francis Ford Coppola e prima do ator Nicolas Cage. 

FILME: TREM NOTURNO PARA LISBOA - 2013



Direção: Bille August - 2013 
Duração: 111 min 
Título original: Night train to Lisbon
Roteiro: Ulrich Herrmann e Greg Latter
País: Suíça - Portugal - Alemanha 


Baseado no livro homônimo de Pascal Mercier, pseudônimo de Peter Bieri, escritor e filósofo suíço. 

Um livro difícil de transpor para a tela uma vez que se baseia muito nas leituras que o professor Raimund Gregorius (Jeremy Irons) faz do livro de Amadeu do Prado (Jack Huston), um português que escreve sobre a Revolução dos Cravos em Portugal mas também faz uma introspecção filosófica sobre sua vida.

Raimund é um professor suíço que vive só e dá aulas de grego e latim. Uma manhã chuvosa ao se encaminhar para a escola ele se depara com uma mulher que está para se atirar de uma ponte em Berna. Ele corre e a impede de fazer isto. Ela o acompanha até a escola, assiste um pouco de sua aula e se retira, deixando para trás seu casaco. É o suficiente para Raimund ficar interessado e tentar descobrir algo sobre ela. No bolso do casaco ele encontra um livro em português de Amadeu Prado e um bilhete de trem para este mesmo dia. Ele toma uma decisão e corre até a estação de trem e embarca em direção à Lisboa.



Raimund deixa para trás sua vida monótona, determinada e metódica, o que surpreende a todos que o conhecem. É o início de sua jornada por um mundo diferente daquele que sempre conheceu. No rastro de Amadeu irá conhecer várias pessoas e tentar compreender Amadeu e conhecer a história de Portugal, mas não será apenas isto, o livro irá mudar sua vida.



Um de seus principais encontros é com Adriana (Charlotte Rampling) irmã do escritor e médico Amadeu e o outro é com Jorge (Bruno Ganz) que lhe fala sobre a ditadura. Ele também reencontrara Estefânia (Lena Olin e Mélanie Laurent quando jovem) que foi o grande amor de Amadeu e de Jorge e conhecerá Mariana (Martina Gedeck) que é sobrinha de Jorge e o levará até ele.



Recomendo a leitura do livro, pois o filme, apesar de ser bom, não consegue abarcar todo o conteúdo filosófico e vivencial do livro e acaba deixando a desejar, principalmente para quem leu o livro antes de ver o filme.


Bille August nasceu em 1948 em Brede, Dinamarca. 

Musica de Annette Focks 

Annette Focks nasceu em 1964 em Thuine, Alemanha. É música e compositora

FILME: ANNA KARENINA - 2012



Direção: Joe Wright - 2012 
Duração: 129 min 
País: Reino Unido 

Adaptação do romance homônimo de Leon Tolstoy 

O filme é uma adaptação do romance de Tolstoy e o interessante é que ele é feito em forma de teatro, com os cenários sendo erguidos e os atores circulando para sair e entrar em cena.

A história se passa no século XIX. Anna Karenina (Keira Knightley) é casada com Alexei Karenin (Jude Law). Sua cunhada passa por uma crise no casamento devido a infidelidade do marido e Anna decide ir vê-la para conversarem e tentar acalmá-la. Nesta viagem ela conhece o conde Vronsky (Aaron Johnson) que passa a cortejá-la. Anna inicialmente resiste, mas depois irá se entregar e apaixonada pede o divórcio. Porém seu marido não aceita e a irá impedir de ver o filho, mas Anna não desiste de sua paixão.

O filme traz um pequeno apanhado do que é o grande livro de Tolstoy. Como é encenado como um palco falta muito do campo que está muito presente no livro, e de todo o entorno e história da Rússia e como era sua sociedade naqueles tempos. Mas ainda assim é válido, me recordou o livro, e para os que não o leram é um perfeito apanhado do livro. Mas falta muito para que se possa realmente compreender Anna Karenina e o que a leva ao seu desfecho trágico.




Joe Wright nasceu em 1972 em Londres, Inglaterra.

Trilha Sonora de Dario Marianelli 

FILME: BARBARA - 2012


Direção: Christian Petzold - 2012
Duração: 105 min 
Roteiro: Christian Petzold e Harun Farocki
País: Alemanha

Barbara (Nina Hoss) é uma cirurgiã pediátrica em um hospital a leste de Berlim que em 1980 estava dividida pelo murro, sendo que seu namorado está do lado oeste. Ela é transferida para uma pequena clínica no interior por suspeita pelas autoridades de que está se preparando para fugir e ir ao encontro do namorado. Na clínica conhece André (Ronald Zehrfeld) que é seu chefe e responsável por sua permanência ali. Será que ela pode confiar nele?

O filme mostra o outro lado do murro, de como os suspeitos de desejarem fugir são tratados de forma humilhante pelas autoridades. Senti um incomodo forte ao ver as revistas em seu corpo feitas sem o menor escrúpulo para ver se ela escondia algo e a sua sujeição obrigatória a isto. Também há campos de reeducação, e uma das detentas é levada para a clínica e Barbara se afeiçoa à ela.

Ela se arriscará e muito, indo de bicicleta a todos os lugares, e se encontrando clandestinamente com seu namorado até que a fuga esteja planejada e marcada.

Um retrato da paranoia da Alemanha Oriental e comunista. Barbara fica obcecada pelo medo de estar sendo vigiada o que a impede de aceitar a amizade de André, pois desconfia que ele a está vigiando. O filme é seco, cru, sem muitas cores e nos transmite realmente a sensação de mal estar, de estar constantemente sob o olhar do outro.



Christian Petzold nasceu em 1960 em Hilden, Alemanha. 

FILME: COCO ANTES DE CHANEL - 2008



Direção: Anne Fontaine - 2008 
Duração: 110 min 
Título original: Coco avant Chanel 
Roteiro: Anne Fontaine e Camille Fontaine
País: França 

O filme conta a história de Gabrielle "Coco" Chanel de sua infância até a criação do seu império da indústria da moda em Paris na França.

Órfã de mãe Gabrielle (Audrey Tatou)  é deixada junto com a irmã Adrienne (Marie Gillain) em um orfanato pelo pai.Ela passara anos esperando aos domingos a visita de seu pai que nunca foi.  Mais tarde ela passa a costurar durante o dia e a cantar em um cabaré à noite. Étienne Balsan (Benoìt Poelvoorde) se encanta com ela e passa a ser seu protetor.



Coco vai viver na mansão de Étienne e lá conhece a sociedade francesa da época. Mas ela é uma mulher que deseja a independência e a liberdade, e irá colocar isto em suas criações de moda, que até hoje são atuais. Ela observa os movimentos das mulheres com aqueles vestidos longos, espartilhos e não aceita isto. Começa a criar roupas baseadas nas roupas masculinas visando a liberdade de movimentos. Ela irá usar calça comprida para andar a cavalo, o famoso tubo preto para ter mais movimentos para dançar e andar. Emilienne (Emmanuelle Devos) será uma das que apreciará e muito esta liberdade.



Conhecerá Boy - Arthur Capel - (Alessandro Nivola)  por quem se apaixonará, porém ele é comprometido com outra mulher. Assim mesmo viverá uma grande paixão com ele, mas se recusará a se casar. Ele irá morrer em um acidente de carro.



O que mais me cativa em Coco não é a moda, mas a criação de uma roupa que permita a elegância da mulher, sua feminilidade sem lhe tolher a liberdade de movimentos e expressão. Foi assim que ela encontrou sua independência, não apenas financeira, mas também de expressão numa época onde a mulher ainda era submissa e presa a inúmeros grilhões. E também sua determinação em não se deixar arrebatar por um início de vida com tantas tristezas e dor.

O filme trata apenas de uma parte da vida desta grande mulher. Há outro filme que trata da sequência de sua vida, de outro diretor.



Anne Fontaine nasceu em 1959 em Luxemburgo. 

Trilha Sonora - Alexandre Desplat 

Alexandre Desplat nasceu em 1961 em Paris, é um compositor francês

Ouça Audrey Tatou cantando no filme 

FILME: TARA ROAD - APRENDENDO A VIVER - 2005


Direção: Gillies Mackinnon - 2005
Duração: 107 min 
País: Irlanda 

Baseado no livro Tara Road de Maeve Binchy. 

Marilyn (Andie MacDowell) é uma americana que perdeu seu filho e não consegue lidar com esta perda. Ria (Olivia Williams) é uma irlandesa que vê seu casamento acabar de repente ao descobrir que o marido tinha uma amante. Ambas decidem mudar de ares por uns tempos e fazem uma troca de casas.

A perda de um filho é algo extremamente doloroso e difícil e a traição atinge o narcisismo da pessoa de uma forma destruidora além da perda da confiança e da desvalorização que se impõe à pessoa traída. São questões que muitos tem que enfrentar. Mas ambas decidem fazer algo, tentam se dar uma segunda chance para continuar a vida.

Elas irão se defrontar com as questões da outra, irão ter que aprender a viver em um país diferente com outros costumes, descobrirão que os problemas existem e que todos passam por eles e irão aprender a se conhecer melhor, pois é sempre no outro que podemos encontrar a nós mesmos.


Gillies Mackinnon nasceu em 1948 em Glasgow, Escócia 

FILME: CONVERSAS COM MEU JARDINEIRO - 2007


Direção: Jean Becker - 2007
Duração: 109 min 
Título Original: Dialogues avec mon jardinier 
Roteiro: Jean Becker - Jean Cosmos - Jacques Monnet 
País: França 

Roteiro baseado no livro de memórias do pintor Henri Cueco. 

Um pintor (Daniel Auteuil) que vivia em Paris e está se separando de sua mulher Hélene (Fanny Conttençon). Resolve então retornar ao vilarejo onde nasceu há 50 anos e morar na casa da infância que se encontra um tanto abandonada. Ele contrata então um jardineiro (Jean-Pierre Darroussin) para cuidar do jardim.



O jardineiro é um velho amigo de infância, estudaram juntos e logo se estabelecerá uma sólida amizade entre os dois que partilharão as experiências de suas vidas, que neste caso, é a vida em Paris e a vida no campo, deixando a mostra as diferenças entre a dita "civilização" e o dito "primitivo".

Ficam evidentes as diferenças entre os dois e justamente aí está a beleza do filme, que demonstra que a amizade não é feita de iguais, mas que saber lidar com a diferença leva a uma relação muito mais enriquecedora e forte. Eles se nomeia de Dupincel - o pintor e Dujardin - o jardineiro. Muito mais do que uma divisão social, uma visão econômica o filme trabalha com o simbólico e o subjetivo, o que a nomeação dos dois já demonstra, para trabalhar com as diferenças das classes sociais, entre a burguesia e o operário e o abismo que normalmente há entre os dois.



É na voz do jardineiro que teremos uma crítica social, para ele a escola existe até quando não temos que trabalhar, depois é ganhar a vida. Ele fará várias observações sobre a atual situação social da França, mas que também encontramos em vários outros lugares. O pintor que sempre teve uma vida boa, sem preocupações financeiras, mas que não enxerga as questões sociais, aos poucos irá abrindo seus olhos para tudo isto, e verá que seu amigo, que tem um passado comum, ou pelo menos próximo, não teve e não tem as mesmas chances e condições que ele, inclusive médicas.

O filme consegue abordar uma situação que geralmente resulta em debates calorosos, críticas ácidas, protestos e revolta de uma forma mais humana, através do diálogo, da troca e do que cada um pode ensinar ao outro.


Jean Becker 

sábado, 26 de abril de 2014

FILME: ADEUS, MINHA RAINHA - 2012



Direção: Benoît Jacquot - 2012 
Duração: 100 min 
Título original: les adieux à la reine. 
Roteiro: Benoît Jacquot e Gilles Taurand
País: França 

Baseado no livro de Chantal Thomas 

No início da Revolução Francesa o dia a dia no palácio de Versailles onde vivem os reis Maria Antonieta (Diane Kruger) e Luis XVI (Xavier Beauvois). Sidonie Laborde (Léa Seydoux) é a leitora da rainha e totalmente devotada à ela, porém não mantém um relacionamento próximo juntos aos outros serviçais do palácio e nunca fala de si mesma. A Bastilha é tomada e muitos começam a fugir e a abandonar o palácio. Sidonie será incumbida pela rainha a ajudar a mulher pela qual se apaixonou, a Duquesa Gabrielle de Pontignac (Virginie Ledoyen) a fugir do país.

Inicialmente a vida não se altera no palácio com a queda da Bastilha, mas será por muito pouco tempo. O filme não mostra o desfecho dos reis que foram guilhotinados, mas foca principalmente na vida do palácio, nas intrigas, amores, desejos, cobiças, invejas, não apenas entre os nobres, mas entre os serviçais também, deixando bem a mostra um estilo de vida palaciano, onde uma rainha não abre sequer uma porta e os que os servem apesar de todas as formalidades como nunca se virar de costa para sua majestade, também são espertos, roubam, se aproveitam da situação.

Nada é secreto, nada é íntimo, não há nada que se faça num palácio assim que outros não vejam ou não saibam, há olhos e ouvidos em todos os lugares.

O filme foi rodado quase que inteiro no Palácio de Versailles. É a visão de Sidonie que aparece no filme, e também é o seu final que conta, quando ela deixa de ser a leitora da rainha e volta a não ser nada, ou seja, ser do povo, daquele povo que passava fome e necessidades, e que estava desprotegido e foi levado pela burguesia a lutar na Revolução Francesa, e depois, como Sidonie, retornou ao seu lugar.


Benoît Jacquot nasceu em 1947 em Paris, França. 

Trilha sonora de Bruno Coulais. 

Bruno Coulais nasceu em 1954 em Paris, França. É um compositor francês. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DE UMA VIÚVA - JOYCE CAROL OATES



Oates, Joyce Carol. Objetiva, 2013 - Selo Alfaguara
Tradução: Débora Landsberg
453 páginas
Título original: A Widow's Story

Joyce Smith, esposa de Raymond Smith, casados por 47 anos, uma vida, e de repente, ela está viúva, sem esperar por isto apesar de ter havido o que ela supos serem sinais que isto iria ocorrer, mas não era previsível. Ela retorna de uma viagem e Ray está com uma gripe forte, ela o leva para o Hospital de Princeton que é o mais perto, pneumonia, ele fica internado, mas melhora, e já há a previsão para a alta quando ele sucumbe a uma infecção secundária e vem a falecer.

Choque, culpa, vazio, raiva, solidão, perder o sentido de viver, os sintomas do luto, tudo que vivemos nestes momentos de perda Oates irá nos relatar com franqueza neste livro. Toda sua dor, sua desorientação, as noites insones, a falta de energia, os amigos, as burocracias necessárias neste momento. Ela está exaurida, sofrendo, mas tem que continuar a vida.

Para quem passa uma vida ao lado de outra se ver de repente só é algo que desorienta totalmente ao que fica, ele não compreende, não sabe o que fazer, e irá a todo momento pensar: Ray faria isto, Ray faria aquilo, ele diria isto ou aquilo, o fantasma ronda, fica ali. O desejo de morrer junto, do suicídio, que Oates nos relata sob a forma de um basilisco que a persegue, aquele espécie de lagarto que zomba dela. Todo lugar onde se vai há dor e culpa: na última vez que estive aqui Ray estava junto, é estranho estar ali sem ele, ou, nunca estive aqui sem Ray, é horrível pensar que ele nunca conhecerá aquele lugar, pior ainda se ele desejava conhecer e agora não pode mais.

Ouvir condolências, ouvir as pessoas falando dele, dizendo que sentem muito, é horrível, mas se não ouvir também será horrível. Ficar em casa é ruim, mas não estar em casa também. Tudo na casa o recorda, onde compraram um quadro, a música que costumavam ouvir, ele estaria sentado ali, mas não está mais.

Sua culpa, ela se acusa de não ter feito mais, de não ter levado Ray para outro hospital, e pior, de ter sido ela a levá-lo àquele, e vê sua culpa projetada nos gatos que a estranham e se afastam como se eles soubessem que foi por culpa dela que Ray não está mais ali.

Um relato pungente sobre como realmente se sente uma pessoa de luto, o processo de separação daquele que perdemos, a parte que ele leva com ele e que não recuperamos mais, e teremos que construir algo novo no lugar. Até chegar um tempo em que as coisas se ajeitam, a separação ocorre, e a pessoa que perdemos poderá morrer, mas será sempre lembrada e amada.

Me chamou a atenção as questões culturais também, de como nos Estados Unidos após o falecimento de uma pessoa ela recebeu inúmeras cartas de condolências e presentes como flores, cestas de comida, de sucos, e como se desesperava com tudo isto. E depois ter que responder a todas estas cartas. E no caso de Oates a dificuldade que ela tinha de ouvir as pessoas falarem do marido, perguntarem dele ou falarem de sua perda, sendo que muitas vezes as pessoas anseiam por isto, por serem acolhidas, o que mostra que cada um tem sua forma de viver o luto.

Uma bela homenagem ao seu marido e a si mesma, assumindo sua dor e todas as dificuldades e desorientações, culpas e raivas que se sente no hora da perda de alguém que amamos muito, e de como aos poucos ela irá voltar a vida. Sofra por Ray, ele merece. Não só ele merece, ela também, pois é necessário viver o luto, chorar, sofrer, passar por ele para poder continuar depois.

Joyce e Raymond

Joyce Carol nasceu em 1938 em Lockport, New Your, EUA

quinta-feira, 24 de abril de 2014

FILME - JANE EYRE - 2011



Direção: Cary Fukunaga - 2011
Duração: 120 min 
Roteiro: Moira Buffini
País: Estados Unidos - Reino Unido 

Versão mais atual baseado no livro homônimo de Charlotte Brontë. 

Jane Eyre (Mia Wasikowska) é uma jovem órfã que ao procurar sua independência e esquecer os fatos tristes de sua vida consegue um emprego de governanta no castelo de Mr. Rochester (Michael Fassbender), que é um tanto perturbado e primitivo. Irão se apaixonar e ele a pedirá em casamento o que será aceito, porém no dia do casamento Jane irá descobrir que ele já é casado e que sua primeira mulher ainda vive, e no Castelo, enclausurada por estar louca. Ela foge dali, desesperada e sem rumo. Após alguns dias caminhando assim irá encontrar uma casa onde será acolhida por um rapaz e suas irmãs.

Ela recomeça sua vida nesta nova casa até o dia em que recebe a notícia que um tio lhe deixou uma herança tornando-a rica. O rapaz que a acolheu lhe propõe casamento, mas ela deseja antes de aceitar ver mais uma vez o homem que tanto amou, e retorna ao Castelo para encontrá-lo praticamente demolido por um incêndio, mas Rochester está vivo porém cego. Sua primeira esposa ateou fogo e se suicidou pulando pela janela. Ele está livre.

Nos flashbacks de sua vida antes de chegar ao Castelo de Mr. Rochester, Jane (Amélia Clarkson) era uma órfã que vivia coms seu tio materno. Sua tia Sarah (Sally Hawkins) não gosta dela e é muito cruel com a criança, além de seus filhos também o serem. Ela acaba sendo enviada para um colégio de moças. Somente depois é que irá para o Castelo, onde a Sra. Fairfax (Judi Dench) é a governanta.

Destaco Amélia Clarkson que fez Jane quando criança, está brilhante no papel.


Cary Fukunaga nasceu em 1977 em Oakland , Califórnia, EUA.


Trilha sonora de Dario Marianelli

Dario Marianelli nasceu em 1963 em Pisa, Itália. É um compositor 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: UM SKINHEAD NO DIVÃ - 1992



Direção: Suzanne Osten e Niklas Radström - 1992 
Duração: 83 min
Título original: Tala! Det är sa mörkt // Speak up! it's so dark 
País: Suécia 


O filme é uma reflexão sobre a onda neonazista que assola a Europa nos anos 90.


Jacob (Etienne Glaser) é um psicanalista judeu cuja família morreu em Auchswitz, sendo que ele e a mãe conseguiram sobreviver por fugirem para a Suécia. Sören (Simon Norrthon) é um jovem skinhead que Jacob socorre após uma manifestação. Ele resolve então oferecer sua escuta ao jovem.

As sessões entre os dois se transforma numa reflexão sobre os aspectos políticos e psicológicos do racismo. Aos poucos vai se delineando os aspectos do indivíduo que adere aos grupos, e este aspecto ao meu ver é o brilhante do filme, pois em grupo somos capazes de fazer coisas que jamais faríamos sozinhos, e analisar o grupo é diferente das motivações pessoais.

Vamos descobrindo como era o pai e mãe deste jovem que sente tanto ódio. A mãe é super protetora e se nega a enxergar o óbvio, diz que os cartazes nazistas no quarto do filho são apenas decoração. O pai é ausente e violento, e dentro de seu individualismo diz que os problemas do filho são dele, mas durante a infância deste sempre abusou de sua força com o garoto. O grupo ao qual ele pertence que são mostrados entre as sessões, são todos bêbados, violentos, sem nenhuma razão de ser. Sörer admira o nazismo, afirma que Auschwitz é uma invenção dos judeus e a compara com Hollywood. Ao invés de namorar, ele direciona seu desejo sexual para o ódio e a violência. Sua mãe em nada ajuda para que ele se interesse por mulheres, pois prefere ter o filho com ela, ou deseja que volte a ser assim.

O psicanalista também se confronta com suas questões, ele é um imigrante, que fez da Suécia seu lar, mas é judeu e apesar de possuir a cidadania, não nasceu ali. Ele também sentiu muito medo quando criança, é um sobrevivente. Mas ele não teme o confronto com o jovem, e se propõe a compreender a alguém que age como os que mataram sua família. Para isto além das sessões ele irá também adentrando o universo de Sören.

Jacob diz que por baixo do ódio está a dor, e embaixo desta o medo.

Há um medo que se generaliza, de um lado eles tem medo dos emigrantes, que se apossem de seu país, os consideram culpados por todos os problemas que ocorrem, e estes temem os ataques dos Skinheads. E ao invés de considerá-los uns loucos que precisam ser combatidos o que Jacob se propõe é a compreender o porque disto, e para isto apesar do medo não irá demonstrá-lo e não se deixará intimidar mesmo diante das ameaças do outro. E este ponto é importante, pois como dirá Sören no filme, eles precisam do medo do outro para serem fortes e poderem agir.



Niklas Radstrom nasceu em 1953 em Estocolmo, Suécia. 

Suzanne Osten nasceu em 1944 em Estocolmo, Suécia.