quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

FILME: LIVRE - 2014



Direção: Jean-Marc Vallée - 2014
Duração: 115 Min
Título Original: Wild 

Baseado na autobiografia homônima de Cheryl Strayed

Cheryl (Reese Witherspoon) perdeu sua mãe (Laura Dern) que morreu de câncer aos 45 anos e entra num luto patológico e selvagem, entregando-se ás drogas e a sexo descontrolado. Com isto acaba com seu casamento e se divorciando. Após um aborto, sem nem saber quem era o pai,  ela percebe que se transformou em algo ruim, se tornou autodestrutiva e que precisa fazer algo, pois estava longe de ser a mulher que sua mãe criou para ser. 

Sem saber porque quando ela foi à farmácia comprar um teste de gravidez um livro sobre a trilha Pacific Crest Trail, um percurso na costa do Oceano Pacífico, atraiu seu olhar, fazendo com que ela retornasse para comprá-lo. Ela decide então que é preciso mudar e resolve fazer o percurso, uma trilha de 1770 quilômetros, partindo do deserto de Mojave na Califórnia.  

O filme retrata esta caminhada ao mesmo tempo que traz as lembranças de Cheryl e de tudo que ela passou. Aos poucos ela vai se reencontrando, superando seus traumas. Enfrenta vários obstáculos e dificuldades como a falta de água, ter que comer comida fria, o medo, a solidão, os animais selvagens, e também vai encontrando várias pessoas diferentes pelo caminho, muitos que a acolhem. Ao terminar a trilha ela terá apenas vinte centavos e terá que recomeçar sua vida, o que me lembra o que sua mãe sempre lhe dizia, que eram ricos, eram ricos em amor, quando não tinham boas condições financeiras. 

Comprei o livro, mas apenas iniciei sua leitura. No livro sua mãe está casada novamente e ela também tem uma irmã, o que não aparece no filme. O que penso que faltou dizer no filme foi o que ela frisou no livro, que sua decisão de fazer esta caminhada havia sido tomada inconscientemente no dia que sua mãe foi diagnosticada com câncer e lhe foi dado um ano de vida. Um mês e pouco depois ela havia morrido.

É uma caminhada que é a metáfora de um percurso de crescimento enfrentando sozinha os obstáculos, sem sua mãe, é uma caminhada de libertação, de passagem para a vida adulta, de rompimento do cordão umbilical, sem o uso de muletas como a droga ou o sexo. Uma caminhada que também é o enfrentamento da dor, do luto, sentir esta dor, aceitar e continuar. 

Alguns falam da semelhança de sua busca com o filme Na Natureza Selvagem. Ela também troca seu sobrenome, para Strayed, que tem vários significados como não ter pai ou mãe, se desviar da rota certa, perder-se. É uma caminhada longa, mas diferente de Na Natureza Selvagem ela não se afasta tanto da civilização, apesar de grandes trechos solitários onde não cruza com ninguém, e das dificuldades que enfrenta, mas sempre surge alguém ou um saída. Ela também não se alimenta da natureza, não caça, ela está bem munida do que precisa, e mesmo para a água ela possui filtro e purificador para poder usar a água que encontra na natureza. De tempos em tempos ela faz uma parada, descansa, se alimenta e retoma a caminhada. Recebe os pacotes com a reposição do que precisa nestas paradas. Se no filme Natureza Selvagem há uma contestação dos valores dos pais e da sociedade, em Livre é a dor da perda da mãe, a dificuldade de viver sem ela, e a incapacidade de estar a altura do que lhe ensinou a mãe que a faz percorrer a trilha. Em ambos é necessário crescer, se desprender, mas felizmente Cheryl sai renovada desta caminhada para poder retomar sua vida, o que não ocorre com Christopher McCandless que ao tentar regressar já não o consegue e acaba morrendo. 

Jean-Marc Vallée 

LIVRO: UMA VOZ FEMININA CALADA PELA INQUISIÇÃO - A religiosidade no final da Idade Média, As Beguinas e Margarida Porete - RUTE SALVIANO ALMEIDA


Almeida, Rute Salviano. Hagnos, 2011
218 páginas

O projeto que venho desenvolvendo em busca da voz feminina, do pensar feminino me levou às Beguinas, e entre elas Marguerite Porete que escreveu "O espelho das almas simples e Aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do amor". Se inicialmente pensei que havia pouca informação aos poucos vou encontrando livros, teses, estudos sobre estas mulheres que entre a opção de casar ou entrar para um convento encontraram uma alternativa, a de criar uma comunidade onde viviam e trabalhavam sem prestar votos ou serem ligadas à uma instituição religiosa, o que obviamente acabou desagradando o clero que as oprimiu obrigando-as a se tornarem ligadas à igreja. 

Algumas resistiram e entre elas Marguerite Porete que acabou condenada como herege relapsa, ou seja, reincidente na heresia, e condenada à fogueira sendo queimada viva junto com seu livro. Para nossa sorte alguns volumes escaparam, mas levou um longo tempo para que viessem à luz novamente. 

Antes de iniciar a leitura do livro de Marguerite estou lendo um pouco sobre seu contexto, sobre a situação da mulher na idade média, e este pequeno livro de Rute Salviano Almeida está sendo muito bom.

Inicia dando um panorama da Idade Média, da espiritualidade e do secular, a luta entre o clero e os reis pelo poder. Em seguida nos traz uma visão misógina dos homens sobre as mulheres. Nesta época o casamento não era valorizado, apenas o primogênito buscava o casamento em função de preservação de riquezas e descendência, os outros filhos preferencialmente iam para a igreja, eram monges. O casamento era realizado na porta das igrejas, e não dentro delas. Em torno de 1268 se defendeu que era essencial uma cerimônia religiosa para o casamento e foi apenas depois do Concílio de Trento em 1563 que se exigiu a presença de um sacerdote para a cerimônia. Apenas pelo casamento um mulher tinha acesso a existência social, porque antes como moça era designada como "mesquinha", porque antes de casar ela não era nada, o que significa que fora do casamento ela estava numa posição perigosa.

O interessante é que antes do Concílio de Trento o que validava um casamento era a relação sexual entre os noivos que desde que fosse completa validava o casamento como autêntico, para o direito canônico. Era o pai quem entregava a noiva ao noivo e que normalmente oficializava a união, e não o sacerdote.

A mulher na idade média possuía apenas dois espaços: sua casa ou o convento, mas algumas delas não desejavam isto, possuíam uma vocação cristã que queria exercer no mundo e não na clausura. Na época existiam dois movimentos em quais elas criam: o misticismo de Bernard de Clairvaux e a vida apostólica de São Francisco de Assis.

O místico Bernard de Clairvaux declarou na época: " O amor não requer nenhum outro motivo, além de si mesmo, e não busca frutos. Seu fruto é o gozo de si próprio." Ele foi um dos responsáveis pela mudança da concepção do amor.

A partir dos anos 1200 "a devoção feminina que não foi mera cópia da masculina, evoluiu de modo discreto, mas crescente, ao ligar salvação ao amor, à contrição e partindo, então, para uma busca profunda de comunhão com Deus."

O livro traz um breve relato dos principais místicos da Idade Média e depois temos um capítulo sobre as Beguinas. A diferença delas para com as religiosas é que não vivem no mundo mas também não fora dele. O principal objetivo era permanecer neste mundo para fazer nele uma diferença, cuidando das pessoas, mas não apenas do físico, mas também dando um alimento espiritual. Elas se colocam no liminar, e como todos os que estão na margem acabam sendo marginalizadas. As freiras viviam no claustro, no convento, as esposas estavam submissas aos seus maridos e família, mas as beguinas não estavam submissas a ninguém e isto incomodava a sociedade medieval e principalmente a igreja católica.

As beguinas são mulheres cultas, elas escrevem e falam ao público, e isto não era admitido. A igreja tem medo de perder seu poder. Elas atacam o clero devido sua ganância e desejo de poder.

Marguerite de Porette é uma beguina errante, ela não vive nas comunidades. Ela prega e escreve um livro, suprema heresia, ainda mais para uma mulher. É condenada, mas não obedece. Seu destino é a fogueira. Temos um relato no livro sobre a inquisição.

O livro serve como uma introdução ao tema. Não falo muito aqui de Marguerite de Porette pois vou ler o livro dela antes.

Rute Salviano Almeida nasceu em Belo Jardim, PE. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

FILME: PLUS TARD TU COMPRENDRAS - 2008


Direção: Amos Gitaï - 2008
Duração: 89 min
Título em português: Mais tarde, você compreenderá

Cinebiografia sobre a mãe de Catherine Clément

Comecei a ler o livro de Memórias de Catherine Clément e logo nas primeiras páginas ela fala de sua infância e de sua mãe, Rivka, judia, que teve seus pais deportados e mortos na Segunda Guerra. Seu irmão Jérôme Clément escreve sobre a história de sua mãe e é este relato que se transformou neste filme. Interessada procurei o filme, mas só o encontrei na internet em francês, que é minha língua materna. Assisti ao filme. 

No filme logo no início quando Victor visita o memorial em Paris aos judeus mortos na Shoah, vemos ao fundo a própria Catherine Clément e seu irmão Jérôme que fazem esta pequena aparição no filme. 

O filme mudará os nomes dos personagens, sendo que Victor (Hippolyte Girardot) será o irmão, e Tania (Dominique Blanc) é Catherine. 

Jeanne Moreau é Rivka, maravilhosa como sempre. O filme começa com a televisão mostrando o início do processo de Klaus Barbie, Rivka não suporta ouvir. Victor chega para jantar com ela, ele está buscando a história de sua família judia, tenta lhe fazer perguntas, mas Rivka desliza, ela não responde. Ele acaba de encontrar uma carta onde seu pai se declara ariano, assim como à filha Tania, mas a mãe como judia, o que o revolta. Ele ainda não havia nascido nesta época. Tania lhe mostra que seus pais fizeram o que todos fizeram, acreditavam no governo Francês, não imaginavam o que iria acontecer, mas ainda assim ele protegeu a filha declarando-a católica e ariana, e que com certeza Rivka sabia disto e esteve de acordo. 

Rivka está muito doente e em breve vai morrer. Ela nunca falou de sua família judia, do que aconteceu com seus pais, o que ocorreu com a maioria das pessoas após a guerra, a negação, ela acreditava que não contando protegia o filho, que era seu predileto, com o qual tinha maior ligação. Com isto o filme também reflete as relações de mãe-filho. 

Victor ficará indignado ao descobrir que o apartamento onde moravam seus avós paternos era o de seus avós maternos, ele foi lá durante anos e nunca lhe foi dito nada sobre isto. Ao final Rivka fala aos seus netos, filhos de Victor, os leva à Sinagoga e entrega ao garoto a estrela amarela que guardou durante anos e lhe pede para nunca esquecer. 

Quando Rivka morre é o tempo que a França reconhece sua culpa pelo colaboracionismo sob o governo de Vichy e por não ter protegido seus judeus franceses. Victor vai até a comissão onde é feito o levantamento dos bens para uma compensação financeira aos familiares, numa tentativa de reparar, principalmente pelo lado simbólico deste ato é necessário. Não mudará a história, mas simbolicamente há o reconhecimento da culpa e do erro. 

Há muitos detalhes neste filme que também remetem à Catherine Clément, que percebemos de onde vem, como por exemplo, ela gosta de falar das vacas sagradas da Índia, foi viver na Índia, mas sua mãe já era uma Hinduísta e dizia que queria renascer como uma vaca, mas uma vaca indiana, sagrada, pois assim não teria que ter medo de ser morta. 

Também a questão de não falar, de acreditar que assim se protege o outro, mas não é possível, a herança psíquica está ali, e vai vir a tona, o recalcado sempre retorna. 
  


Amos Gitaï nasceu em 1950 em Haifa, Israel. 

Jerome Clément 
Catherine Clément 

LIVRO: A LOUCA E O SANTO - CATHERINE CLÉMENT E SUDHIR KAKAR



Clément, Catherine; Kakar, Sudhir. Relume-Dumará, 1997
272 páginas
Tradução: Renato Aguiar
Título Original: La folle et le saint

Catherine é uma filósofa, historiadora, escritora francesa e Sudhir um psicanalista indiano que resolvem estudar e comparar uma louca internada em Paris no Salpêtrière sob os cuidados do psiquiatra Pierre Janet e o grande místico indiano Ramakrishna

Ambos viveram no século XIX, porém o fato de estarem em lugares diferentes e inseridos em culturas diferentes acaba por fazer com que um seja um santo e a outra uma louca.

Em Paris, Madeleine após ser presas várias vezes pelo que era considerado vadiagem, e tendo acrescido a sua ficha na polícia outros delitos, inclusive prostituição, pelo simples motivo destes delitos se enquadrarem no motivo, acaba sendo internada no Hospital Psiquiátrico Salpêtrière. Pode-se dizer que sua sorte foi ter tido como médico Pierre Janet que cuidou dela, mas por outro lado, o fato dela ser uma mística como foram outras mulheres na Idade Média como Santa Teresa D'Ávila, consideradas santas pela igreja, apesar do médico até o perceber e chegar a dizer que ela nasceu no lugar errado e na época errado, não é levado em conta, Janet quer curá-la e devolvê-la ao mundo como uma pessoa normal, normal mas infeliz, e ele o consegue.

Já na Índia temos Ramakrishna que mesmo tendo os mesmos "sintomas" que Madeleine, por viver num país com uma cultura muito diferente, vira um santo, guru.

O livro faz o percurso de análise de ambos os comparando e os diferenciando, demonstrando que loucura é algo que tem a ver com o lugar e o tempo, com a cultura. Clément nos faz o relato de Madeleine e Kakar de Ramakrishna, depois eles unirão seus comentários e análises e levando em conta a psicanálise poderão nos mostrar um quadro diferente do que normalmente teríamos ao ler a vida de ambos, mas separadamente e sem juntá-los. Há pontos comuns na infância de ambos, relação com a natureza e principalmente Clément e Kakar falam da bissexualidade envolvida no misticismo, que não tem nenhuma relação com a sexualidade genital, mas é psíquica. Na infância o psicanalista Winnicott fala do espaço transicional, que ocorre quando a criança após ser "afastada" da mãe, saindo da fusão inicial, busca o substituto através da ilusão, seja com um pano, um ursinho, um objeto que ela elege, até conseguir se separar e ter seu eu.

O êxtase místico ocorre neste mesmo espaço,  espaço este que ainda é bissexual, uma vez que a criança ainda não tem noção de seu sexo, nem fez a escolha, mesmo que já seja determinado biologicamente, mas em psicanálise a sexualidade não é isto, mas sim a escolha que fazemos por um sexo, feminino ou masculino, a constituição deste sexo. É um espaço de vazio que se preenche com o êxtase. Madeleine atinge o êxtase espontaneamente, enquanto que Ramakrishna o faz quando o deseja, ele se preparou para isto, apesar de que no início sua primeira visão também foi espontânea.

Há diferenças entre o que chamam de visão e alucinação, apesar de ser muito próximo, mas os místicos tem visões. Apesar de ser um surto psicótico, não é o mesmo, eles não são loucos, nem doentes mentais. O êxtase é vivido com todo o coração, com a alma e com toda força, há um gozo, volúpia, ao contrário da loucura que na sua pobreza precisa criar alucinações e delírios para preencher o vazio, para restituir algo.

Ao final do livro também temos uma análise da transferência e do papel do médico, do psicanalista e do guru.

 Catherine Clément é filosofa,  historiadora e escritora de ficção. Nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, na França. Irei falar mais dela pois é uma das mulheres do meu projeto. 

Sudhir Kakar é um psicologo e psicanalista. Nasceu em 1938 em Nainital, Índia. Começou sua formação psicanalítica no Instituto Sigmund Freud em Frankfurt, Alemanha. Atua como psicanalista na Índia e estuda a psicologia cultural e psicologia das religiões

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DOCUMENTÁRIO: OS ANIMAIS TAMBÉM SÃO SERES HUMANOS - 1974



Direção: Jamie Uys - 1974
Duração: 92 min
Título Original: Animals are beautiful people

País: África do Sul

Um dos melhores documentários que assisti sobre os animais e o único que vi até hoje que não foca na caça de outro animal para a alimentação. 

O documentário chega a ser hilário, e há um narrador que nos conta a história obviamente pelo viés do ser humano, acompanhando os atos e costumes dos animais como se fossem humanos. As paisagens são belíssimas, o documentário é filmado no deserto vermelho da Namíbia, deserto branco, Okavango e deserto de Kahalari. 

Foram necessários quatro anos para fazer o filme e percorreram 200 mil Km do território da África, do grande deserto na Namíbia até o vale do rio Zambesi captando expressões, gestos, o dia a dia dos animais desde aves, répteis, felinos, mamíferos e outros animais selvagens, demonstrando o quanto nos parecemos com eles.

O ser humano mantém mesmo na dita modernidade ou pós-modernidade os aspectos antropomórficos sempre humanizando sejam os deuses, a natureza ou objetos inanimados. Toda narração deste filme foge ao real, uma vez que se supõe que o animal esteja fazendo algo que estaria muito mais próximo do humano do que do mundo dele, apesar que sim, alguns aspectos são realmente parecidos ou até mesmo iguais, afinal nós também somos animais, nos diferenciando justamente pela linguagem, pela fala, que nos permite então criar todo este mundo imaginário onde um javali ao se jogar na lama está tomando seu banho nupcial, por exemplo. 

Recomendo!

Jamie Uys nasceu em 1921 em Boksburg, África do Sul e faleceu em 1996 em Joanesburgo. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

FILME: CAMELOS TAMBÉM CHORAM - 2003


Direção: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni - 2003
Duração: 87 min
Título original: Die Geschichte vom weinenden Kamel

País: Mongólia

Belíssimo! No deserto de Gobi, Sul da Mongólia, Primavera de 2002, uma família de nômades de sheperds que vivem em tendas e criam camelos e ovelhas. É o momento dos camelos terem seus filhotes, mas uma delas, a última a parir, rejeita sua cria, após um parto muito complicado onde a família tem que ajudar, puxando o filhote para fora. É um belo potro branco, muito raro.



A família fara de tudo para que ela aceite seu filhote, mas nada a convence e ela se afasta a cada vez que ele se aproxima. Quando a seguram para que ele mame, ela bate as pernas, gira. É comovente ver o olhar do pequeno, abandonado, sem o afeto de sua mãe. A filha erá alimentá-lo, mas chegará um ponto onde ele não aceitará mais. Neste momento o avô diz que é preciso fazer um ritual, mas para isto precisam de um músico. Os garotos vão até uma cidade buscar o músico. Após o ritual a mãe chora, e finalmente aceita seu filhote. 


Esta comunidade que vive de forma tão diferente do que nós conhecemos, ainda integrada à natureza, com rituais, lendas e mitos que o avô conta para seus netos. Quando os garotos viajam o menor entra em contato pela primeira vez com uma cidade maior e com isto com a TV e os jogos eletrônicos, o que o deixa encantado, mas será que dentro desta cultura, se for preservada, há a possibilidade disto desvirtuar o que de tão belo os une e move? O filme não nos responde isto. O que ele mostra é a beleza da vida possível entre os seres humanos e a natureza que os envolve, sejam as tempestades de areia ou o parto do pequeno camelo, que só é aceito quando sua mãe se emociona com a música, o que nos leva a pensar que os animais também são seres vivos e que tem sentimentos, eles choram.



O filme além de trazer uma bela história, nos mostra um pouco da cultura deste povo, da Mongólia, onde a maioria são nômades. As tendas deles tem portas de madeira, e dentro são muito aconchegantes. Durante o filme vemos vários outros rituais. A religião deles é o budismo tibetano. 


Byambasuren Daava nasceu em 1971 em Ulan Bator, Mongólia. 

Luigi Falorni nasceu em 1971 em Florença, Itália. 


FILME: E BUDA DESABOU DE VERGONHA - 2007



Direção: Hana Makhmalbaf - 2007
Duração: 76 min
Título Original: Buda as sharm foru rikht

País: Afeganistão - Neste caso coloco o filme para este país apesar da diretora ser Iraniana porque o filme se passa se neste país e trata da cultura deste povo. 

Um filme que me tocou muito, não sei nem dizer tudo a que este filme me remete. O filme se passa no vale de Bamyan no Afeganistão, exatamente onde o Taliban destruiu as imensas estátuas de Buda em 2001, e vemos então os nichos onde eles ficavam. É a este fato que o título do filme se remete, que eles não teriam sido destruídos, mas que desabaram de vergonha.



Apesar das dificuldades e da miséria, assim mesmo vemos um povo pacífico, que luta para viver. Bakhtai é uma menina de 06 anos da etnia hazara, ela vive nas cavernas como a maioria da população. Seu vizinho, um menino Abbas, lê em voz alta e isto lhe chama a atenção, ela não sabe ler e como ele a desafia a ler e ela não sabe, apesar de tentar fingir que sabe, decide então que deseja ir para a escola para aprender a ler, mas mais que isto, como Abbas lê um trecho para ela de seu caderno, ela quer ir a escola aprender histórias divertidas. O problema é que ela não tem um caderno nem um lápis. E eis que começa a odisseia de Bakhtai para conseguir estes dois objetos tão desejados e finalmente poder ir a escola, porque ela não tem dinheiro e não consegue encontrar sua mãe para pedir. 

Abbas sugere que ela venda ovos no mercado, e lá vai ela com seus quatro ovos. Finalmente ela consegue pelo menos o caderno, mas não o lápis, então ela pega o batom de sua mãe para escrever e vai para a escola.



Até aqui vemos toda inocência de uma criança, seu olhar meigo, seu desejo, suas peripécias para conseguir o que quer. Porém ela vive num país marcado por anos de opressão do Taliban, machista, que segrega as mulheres dos homens, ela mesma com 06 anos já cobre a cabeça, e no caminho para a escola ela encontra um grupo de meninos que brincam de guerra, os talibans contra os americanos, eles a prendem porque batom é algo que não pode, eles dizem que vão apedrejá-la, rasgam seu tão precioso caderno para fazer aviões de papel, colocam um saco de papel em sua cabeça deixando apenas buracos para os olhos, nariz e boca e a levam até uma caverna onde estão outras meninas pequenas.

Me comove ver esta pequena menina não ter medo. Para ela que ainda não tem consciência do que se passou em seu país, os meninos estão apenas brincando. Ela vai embora da caverna, enquanto as outras com medo lhe pedem para buscar a polícia. Os meninos refletem a história de seu país, mas ao mesmo tempo eu não pude deixar de pensar que as crianças ocidentais também faziam isto brincando de Forte Apache combatendo os índios. Estes mesmos meninos depois irão reaparecer, desta vez no papel de americanos prendendo os do Taliban.


Bakhtai após conseguir sair da caverna continua sua caminhada para a escola. Finalmente ela vai encontrar um lugar onde meninas estudam. Ali ao descobrirem o batom as meninas começam a  brincar, se pintar, como toda criança faz, mas quando a professora vê isto, ela é expulsa dali.

Voltando para casa é que reencontra os meninos, e Abbas também, que na brincadeira se finge de morto, ela não, ela corre e eles atrás dela. Abbas grita: morre! morre que você se liberta! Ela ainda resiste. Só a morte liberta grita seu amigo, e ela finalmente se joga no chão fingindo de morta.


Através de brincadeiras de crianças o filme nos mostra uma sociedade que limita a liberdade da mulher, o que Bakhtai ainda vai descobrir, mas no filme esta pequena menina simboliza a resistência, ela não tem medo, como as outras, e isto me comoveu e me remete ao fato de que o medo gera violência, é o medo que leva as pessoas a desejarem o poder. Os meninos reproduzem sua cultura e sua história, porém, diferente do Forte Apache, que aqui no Ocidente foi mudando a situação e apesar de ainda não se respeitar o índio, pelos menos já temos quem os defendam e livremente, sem falar que eles mesmos o fazem, no Afeganistão esta pequena menina terá que se render à sua cultura que continua se propagando já nas brincadeiras infantis, ela terá que se jogar ao chão, e isto tudo difere muito do budismo.
  
Hana Makhmalbaf nasceu em 1988 em Teerã, Irã 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

LIVRO: O MONGE E A PSICANALISTA - MARIE BALMARY



Balmary, Marie. Vozes, 2007
179 páginas
Tradução: Karin Andrea de Guise
Título Original: Le moine et la Psychanalyste

Acabo de reler este livro, aliás pela terceira vez. A cada vez me aprofundo mais e descubro novas interpretações pessoais sobre este pequeno livro, mas que diz tanto. 

Marie Balmary é uma psicanalista francesa que teve sua tese recusada na Sorbone por um dos antigos alunos de Jacques Lacan. Surpreendendo-a ele a convida para um encontro ao qual ela comparece. Lacan a recebe como um mestre, lhe oferece um lugar que ela recusa pois teria que se submeter a uma lealdade incondicional que os discípulos de Lacan exigiam e ela desejava a liberdade de pesquisa. Mas Lacan a encorajou a seguir em frente. Ela então sente o desejo de falar com Marc-François Lacan, monge beneditino e irmão caçula de Lacan. Será destes encontros que surgirá este livro, porém no livro é o encontro entre Ruth, uma psicanalista judia e agnóstica e o monge Simon. O diálogo entre os dois procura repetir e trazer para o livro o que resultou os diálogos que ela manteve com Marc e outros monges, portanto é uma ficção criada a partir destes encontros. 

O que mais me toca neste livro é a compreensão de Deus não como um pai celestial, nem como uma criação que fazemos como diria Freud, mas sim, Deus como relação. "aquilo que é à imagem de Deus em Gênesis é o homem e a mulher em relação."

Esta frase em particular me chama a atenção uma vez que justamente estou desenvolvendo um projeto sobre as mulheres, todas as que foram subjugadas, ocultadas por uma sociedade patriarcal e machista, mas o resgate que pretendo fazer não é uma ação feminista, o que busco é justamente o homem e a mulher juntos, o Yang e o Yin. Há lugares onde um sozinho não pode alcançar, alguém tem que abrir a porta sem o perceber e o outro a verá e ambos passarão por ela. Aqui é claro que vemos uma sessão de análise, onde um fala e não percebe e o outro escuta e pontua, mas ambos estão num não-saber e irão descobrir algo juntos. No meio do analista e do paciente há um espaço, e é este "entre" que me chama a atenção, pois é capaz de novas criações e é um lugar de encontro, encontro de dois seres humanos, e isto ocorre seja pela escuta psicanalítica ou pela escuta espiritual.

Outro ponto importante é a questão de que nos estruturamos quando somos reconhecidos. Quando falamos ao outro o mais importante é o fato dele acreditar em nós, isto nos estrutura, passamos a existir. Quando acreditamos no outro "aquele em quem se acredita não é passivamente tomado na ação do outro, ele é um sujeito que recebe a confirmação de sua existência por meio de um outro sujeito." e mais adiante "Aquele que não foi reconhecido como outro se encontra devorado enquanto ser falante."

Eles irão fazer uma leitura dos textos da Bíblia de um maneira inversa, ouvindo as palavras como se fosse a primeira vez, e não dentro daquilo que nos foi inculcado por uma religião ou pela catequese.

É um belo livro que nos faz repensar Deus fora do contexto religioso, mas também refuta Freud para quem Deus era uma criação do ser humano que como a criança precisa de um pai.

Valeu a pena reler, é um livro para ler muitas vezes tamanha a riqueza do que está nele.

Marie Balmary 

FILME: IRMÃ DULCE - 2014


Direção: Vicentem Amorim - 2014
Duração: 90 min

Cinebiografia de Irmã Dulce

O filme nos mostra um pouco da vida de Irmã Dulce (Bianca Comparato/Regina Braga)  e de toda sua dedicação aos pobres e doentes tendo para isto que enfrentar obstáculos dentro da própria igreja que como instituição defendia o claustro e não aceitava  a vida que ela levava andando pelas ruas no meio do povo socorrendo os necessitados, exatamente a mensagem que o Papa Francisco transmite hoje para a igreja, dizendo que a igreja tem que ir à rua, ao povo, aos que precisam. 


Uma das cenas que mais me tocou foi quando ao pedir ajuda para seus pobres um homem lhe cospe na mão, e ela responde limpando a mão no hábito que este foi para ela, e agora ao estender a mão novamente, ela diz: agora para meus pobres.



Uma mulher corajosa, determinada e que dedicou sua vida ao outro, aos que precisavam de acolhimento. 

Vicente Amorim nasceu em 1966 em Viena, Áustria. É um cineasta austro-brasileiro. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

FILME: BABA AZIZ - O príncipe que contemplava sua alma - 2006


Direção: Nascer Khemir - 2006 
Duração: 96 min
Título Original: Bab' Aziz, le prince qui contemplait son âme 

País: Tunísia 

Baba Aziz (Pariz Shahinkhou) é um dervixe que caminha junto com sua neta Ishtar (Maryam Hamid) para o encontro dos dervixes que ocorre a cada 30 anos. Para guiá-los apenas a fé. O percurso é longo e pelo deserto e Baba Aziz vai contando a história de um príncipe que passou anos contemplando sua alma até se transformar num dervixe. A medida que caminham vão encontrando outras pessoas e cada uma conta sua história.





Um filme de rara beleza poética e visual, as imagens do deserto, as danças, a música, os cantos, sem falar no contato que temos com a vida no deserto, as construções que surgem de repente no meio do nada, da areia, eles se limpam com a areia, as noites frias.





"Quem está em paz não perde-se no caminho"

Nascer Khemir nasceu em 1948 em Korba, Tunísia 

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILME: O CHEIRO DO PAPAIA VERDE - 1993



Direção: Tran Anh Hung  - 1993
Duração: 104 min
Título Original: Mùi Du Dû Xanh 

País: Vietnã

Filme dedicado à Chau A Long e Phan Thi Hông Hanh

Um belo filme sobre o Vietnã.

1951 em uma casa em Saigon uma menina vem do interior para ser serviçal em uma casa, é Mui (Man San Lu). Apesar da guerra colonial que percebemos pelo toque de recolher e o som dos aviões, o que o filme retrata é um cotidiano, nada mais banal e tranquilo, bem ao ritmo oriental. Mui cresce e anos mais tarde (Tran Nu Yên-Khê) é uma bela jovem que agora terá que deixar a casa onde cresceu pois a família se encontra em dificuldades financeiras e ir trabalhar para um compositor amigo do filho mais velho da família que acaba se apaixonando por ela e a engravida, finalizando o filme numa história de amor.



Apesar do filme mostrar sutilmente a exploração do trabalho dos menores, analfabetos e pobres, que trabalham da manhã à noite, ele nos mostra principalmente a vida no Vietnã com toda a riqueza dos detalhes. As casas, a decoração destas, muitas plantas e toda variedade de insetos e pequenos animais, rituais, e principalmente a culinária. Estamos acostumados a ver filmes sobre a guerra do Vietnã, mas este nos mostra a vida e a cultura deste país, e sem se referir a divisão de Norte ou Sul, ao comunismo ou democracia.



O diretor buscou recriar o Vietnã de sua infância que chegou a retornar ao país, mas descobriu que a guerra havia destruído tudo, então recriou tudo num estúdio para filmar. O papai lhe traz as lembranças pois os gestos e os sons do preparo do papaia era algo conhecido e que todos faziam. 



O filme tem uma rica estética, é encantador os detalhes e o preparo das refeições, além dos sons do dia a dia que sugerem uma poesia. 
Tran Anh Hung nasceu em 1962 em Da Nang, Vietnã. Mudou-se para a França onde estudou cinema. A atriz deste filme é sua esposa. 

FILME: A ENTREVISTA - 2014




Direção: Seth Rogen e Evan Goldberg - 2014
Duração: 112 min
Titulo Original: The Interview

Com toda a polêmica que este filme causou resolvi assistir para ver o que havia nele e realmente, a mídia funciona, eu talvez nunca tivesse assistido à este filme e só o fiz por causa das notícias sobre ele. 

Coréia do Norte à parte o que este filme retrata é o Estados Unidos e suas neuroses. O que vemos no filme são os desejos e os recalques dos americanos e sua maneira de lidar com o Outro. Exceto por isto o filme é ruim, de um mau gosto e que se utiliza de uma linguagem vulgar que não é necessária e é deplorável. O tipo de comédia que não agrada nem faz rir. 

Skylark (James Franco) é um apresentador de um programa de TV que explora a fofoca, os lados fracos, as intrigas. Aaron (Seth Rogen) é seu produtor. Por ocasião de uma comemoração ao produtor ele ouve de um outro produtor que o que produz são mentiras e besteiras e Aaron se sente indignado com isto. Coincidentemente chega a informação que o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un (Randall Park) é fã do apresentador e para acalmar seu produtor Skylark tem a ideia de propor uma entrevista, o que é aceito. A Cia não perde a oportunidade para bolar um plano para assassinar o líder e usar os dois para isto. 

Até aí um filme mais do que comum e banal, não fosse a controvérsia e polêmica causada em cima dele e o a história de um assassinato fictício de um líder vivo e no poder. 

Seth Rogen nasceu em 1982 em Vancouver, Canadá

Evan Goldeberg nasceu em 1982 em Vancouver, Canadá 

FILME: IDA - 2013


Direção: Pawel Pawlikowski - 2013
Duração: 82 min

Polônia - 1962. Anna (Agata Trzebuchowska) é uma jovem noviça que em breve vai fazer os votos para se tornar freira no convento onde vive desde pequena, porém a Madre obriga-a a conhecer seu único parente vivo antes disto, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Anna não sabe nada de sua história e origem e sua primeira descoberta é que se chama Ida e é judia.



Wanda é uma mulher amargurada, uma promotora e membro do partido comunista. Ambas partem então em busca do passado e terão que enfrentar seus fantasmas e suas origens. 

A católica Anna terá que aceitar a Ida que ela conscientemente desconhecia, e para fazer isto ela irá se identificar com a tia imitando-a em determinado momento do filme, a identificação com sua família, sua história, ao lado da que construiu no convento que fez dela a Anna, ela terá que fazer uma escolha, mas somente após experienciar seu outro lado, como um ser dividido que é.




O filme recupera um momento triste da história da Polônia e da Segunda Guerra, especialmente na Polônia onde houve um antissemitismo forte por parte dos poloneses aos judeus, o que vemos retratado no filme na história dos pais de Anna e da posse da casa deles por um casal polonês que agora teme que as duas Tia e sobrinha queiram tomar posse novamente do que é delas. Isto ocorreu muito quando judeus sobreviventes retornaram e encontraram suas casas com novos moradores que nem os recebiam, ou fechavam a porta em suas caras. 

Tanto Anna quanto Wanda terão que se ver com o passado que até o momento estava oculto e arcar com isto. Tudo que fica reprimido acaba voltando e com mais força. E o filme talvez traga esta mensagem, que é necessário trazer a tona e colocar em palavras aquilo que muitos tentam esquecer. 


Pawel Pawlikowski nasceu em 1957 em Varsóvia, Polônia

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

AS MELHORES LEITURAS DE 2014

Escolha difícil entre tantos livros maravilhosos, interessantes, que me ensinaram muito, me informaram, atualizaram e entreteram. Alguns pelo simples prazer da leitura, outros em busca de algo que me ajudasse, e outros ainda para me ensinar algo, uma pesquisa ou estudo.

Escolho não pela publicação em 2014, mas pelos que eu li neste ano, e os cito por ordem alfabética do autor, não é por relevância ou preferência.

- A morte do inimigo - Hans Keilson - brilhante

- Cidade Aberta - Teju Cole - me impressionou o relato

- A lebre com olhos de âmbar - Edmund de Waal - uma viagem história e pela arte

- O Silêncio do algoz - François Bizot

- Não há silêncio que não termine - Ingrid Betancourt

- Sem medo de falar - Marcelo Ribeiro - relato corajoso que denunciou um pedófilo que ao final de 2014 foi finalmente preso.

- Hambre del alma - Carla Cristina Garcia

- Idiopatia - Sam Byers

- Um ano de viagens - Frances Mayes - um regalo

- A origem do Mundo - Jorge Edwards

- A Mulher perdida - Tim Winton

- O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação - Haruki Murakami

- Inês de Castro - Gondin da Fonseca


FELIZ 2015

DESEJO A TODOS UM FELIZ 2015 

QUE SEJA UM ANO DE MUITAS LEITURAS E FILMES