segunda-feira, 22 de junho de 2015

DOCUMENTÁRIO: ANGANO... ANGANO... CONTOS DE MADAGASCAR - 1989


Direção: César Paes e Marie-Clémence Paes Blanc - 1989
Duração: 63 min 
Título Original: Angano... Angano...
País: Madagascar 

Recebeu o Grand Prix 30º Festival dei Popoli Florence - 1989 e o Prix des Bibliotheques - 11º Cinema du réel - Paris - 1989

Angano... significa história, contos.
Contos... Contos...
nada além de um conto
Não sou eu quem conta mentiras
mas os ancestrais
...  e é assim que eles ouviram também. 

O filme documentário mostra a cultura viva do povo Malgaxe que resistiu desde a independência formal em 1960, a regime neocolonialista, um governo autárquico de esquerda e dificuldades econômicas que se mesclam com depredação ecológica. 
A colonização francesa tentou suplantar a cultura local, mas a história oral é que é a verdadeira história deste povo, e esta resistiu e sobreviveu. 
Através de vários narradores as histórias são contadas, a tradição, os rituais, o parentesco, os rituais fúnebres, festas e a divisão social entre homens e mulheres. 


Seu principal alimento é o arroz. A Ilha sofre com a situação econômica, e com a crise ecológica provocada pela remoção de suas florestas para plantio, uma prática que se generalizou durante a ocupação francesa. 



Os contos são para educar as crianças e explicam as origens das coisas. O arroz surge devido um rapaz que pede a Deus uma companheira, como ela não gosta da terra e sente fome decide voltar para o céu levando ele junto. Deus se recusa a fornecer o arroz, eles então dão arroz para várias aves e partem com elas, matando-as para recuperar os grãos que estão nas aves e plantá-los. O conto sobre o sacrifício dos zebus é um alerta sobre a ganância e falta de reverência. A questão da divisão social é explicada por um casal que o marido dormia sempre e um dia a esposa muito zangada joga um balde de pedras em cima dele que se transforma em dinheiro. Como ambos queriam o dinheiro Deus interviu e disse que cada um poderia levar o que conseguisse carregar da forma tradicional. Ocorre que a mulher carrega tudo na cabeça, e o homem nos ombros com o auxílio de uma vara, o que resultou que o homem pode carregar o dobro da mulher. Então a divisão ficou sendo 2/3 para o homem e 1/3 para a mulher. 



Além disto os malgaxes devem ser enterrados junto aos seus ancestrais, diferente dos ocidentais que não dão importância á isto, enterrando normalmente na cidade onde a pessoa morreu. Mas o que mais me chamou a atenção é o ritual de desenterrar os mortos. Eles fazem isto na estação do frio, retiram os mortos da sepultura em esteiras, e o envolvem numa mortalha de seda. Antes passeiam com ele por entre a multidão dançando, e todos estão muito alegres. 

Um dos narradores nos diz que o homem é um estrangeiro de passagem, e que por isto pertencer a uma nação é uma ilusão. Interessante e que nos faz pensar sobre a questão atual do racismo. Somos todos estrangeiros.

Madagascar - República de Madagascar, anteriormente conhecida por República Malgaxe é um país insular no Oceano Índico que ocupa a maior ilha do continente Africano. 

Marie-Clémence Paes Blanc nasceu em Madagascar de mãe Malgaxe e pai francês e César Paes nasceu em 1955 no Rio de Janeiro, Brasil. São casados

FILME: DIVERTIDA MENTE - 2015


Direção: Pete Docter - 2015
Duração: 83 min
Produção: Pixar Animations Studios 
Título Original: Inside Out 
País de Origem: Estados Unidos

Uma animação mais voltada para adultos. Trata-se da mente de uma garotinha, Riley, que vive com seus pais em Minnesota e se muda para San Francisco, o que traz enormes mudanças em sua vida. 

O filme retrata sua mente onde convivem várias emoções diferentes: alegria, tristeza, nojo, medo e raiva. 


Alegria é a líder e ela se esforça muito para que Riley seja feliz, mas as coisas nem sempre saem como ela deseja, e com a mudança chega um momento em que Alegria não consegue mais manter as coisas como eram, a tristeza domina e é necessário ir em busca de memórias bases para reativar a alegria. Enquanto ela e tristeza se vêem em confusões para recuperar estas memórias, a raiva assume o comando na sala de controle. A medida que as coisas vão acontecendo vemos as ilhas referentes a amizade, família, esportes caindo aos pedaços. Alegria e tristeza andam pelos "porões" da mente, passam pelos sonhos, pelo imaginário, pelo subconsciente, fazendo de tudo para poder levar as memórias bases de volta, enquanto Riley vai mudando completamente de uma menina feliz e alegre para uma menina triste, com raiva, revoltada. 

O que é interessante é que não será Alegria quem conseguirá mudar isto. Há momentos em que a tristeza precisa existir, e será através dela, chorando, que Riley poderá recuperar sua alegria de viver. Neste momento aparecem novas ilhas, pois as coisas mudaram. Uma boa crítica ao mundo moderno que visa sucesso e felicidade excluindo a tristeza o que acaba levando as pessoas aos anti-depressivos para manter esta alegria. Mas a vida não é feita apenas de alegria e felicidade. Também a raiva, o nojo e o medo estão presentes. 

Podemos acompanhar também como é difícil quando somos dominados por certos pensamentos e sensações, como o medo, a raiva e o nojo, para que a tristeza ou alegria possam assumir o "controle" - uso esta palavra para me referir ao filme onde há um painel de controle na mente. 


Pete Docter nasceu em 1968 em Bloomington, Minnesota, EUA. 

domingo, 21 de junho de 2015

MUSICAL: O FANTASMA DA ÓPERA - 2012 - ROYAL ALBERT HALL


Produtor: Cameron Mackintosch - 2012
Diretor: Nick Morris 
Duração: 158 min

Celebração dos 25 anos do Fantasma da Ópera no Royal Albert Hall - Londres


Inspirado no romance de Gaston Leroux .

A estréia do espetáculo foi em Londres no Her Majesty's Theatre em 09 de outubro de 1986, criado pelo compositor inglês Andrew Lloyd Webber.

Conta a história do desfigurado e atormentado gênio da música (Ramin Karimloo) que assombra a Ópera de Paris no século XIX. Ele se apaixona pela corista Christine (Sierra Boggess) e decide ser seu anjo da música e transformá-la na maior cantora de ópera, porém ela está apaixonada por Raoul (Hadley Fraser).

O espetáculo é belíssimo, e como se trata dos 25 anos houve um investimento em luzes, efeitos, ainda mais que foi transmitido para vários locais. 



O pai de Christine lhe disse que após morrer lhe enviaria o anjo da música no que ela acredita. Quando se vê diante do Fantasma da Ópera acredita que ele é o anjo que seu pai enviou, pois ele lhe diz que foi ele quem lhe deu a música, a capacitou para cantar e que agora fara dela uma estrela, desde que ela lhe seja fiel e fique com ele. Dividida entre o amor por Raoul e seu pai, ela não sabe o que fazer. Será preciso que Raoul descubra quem é o fantasma e porque ele está ali. Ele lutará para libertar Christine do desejo de seu pai que ela transfere para o fantasma. 



As músicas são belíssimas. 

A apresentação também terá em seu final a presença de Andrew Webber e dos cantores que já atuaram na ópera além de Sarah Brightman que cantou. 

Andrew Webber com Sierra Borggess e Ramin Karimloo 

Cameron Mackintosch 

Veja abaixo as músicas:




O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,festa-pelos-25-anos-do-fantasma-da-opera-e-lancada-em-dvd-e-blu-ray-imp-,866839
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sexta-feira, 19 de junho de 2015

TEATRO: A TARADA DO BOQUEIRÃO


Direção: João Luiz Fiani

Uma comédia e tanto. Trata-se de uma prostituta que sai para trabalhar, mas detalhe, é feriado em Curitiba, e todos viajaram, a cidade está vazia, e não tem clientes. Então ela passa a contar sua história. 

Ela interage com a platéia, e obviamente o que mais se tem são boas gargalhadas. A peça também não deixa de ter seu lado crítico, seja sobre política ou sobre a cidade.




Vale a pena assistir.

João Luiz Fiani 

LIVRO: A HORA DA HISTÓRIA - THRITY UMRIGAR




Umrigar, Thrity. 1ª ed. Globo Livros, 2015
333 páginas
Tradução: Amanda Orlando
Título Original: The Story Hour

Trata-se da história do encontro entre Maggie, uma psicanalista e Lakshmi, uma jovem indiana que tentou o suicídio. Para liberar Lakshmi do hospital, Maggie convence o marido desta a permitir que ela faça análise.

É deste encontro entre duas pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo parecidas que se tece a Hora da História. Sobre as dificuldades de ser um estrangeiro, um imigrante ou de outra cultura num país. Maggie é negra e casada com um indiano, mas tem uma boa situação financeira. Lakshmi veio para os Estados Unidos por causa do marido, mas é sozinha, não tem amigos, e sente falta da família e de seus costumes. 

Maggie por sua vez, apesar de ser casada com um homem que a ama, gentil, atencioso, também sente falta de algo e acaba se envolvendo com Peter, um fotógrafo free lancer que vive viajando pelo mundo e jamais ficaria ao lado dela para sempre, e mesmo assim Maggie arrisca seu casamento. 

Uma história que aborda de maneira leve o conflito dos que estão em outro país e se sentem excluídos, não aceitos, e sentem falta de reconhecimento. Mas também sobre os conflitos das relações humanas e dos casamentos. 

Thrity Umrigar nasceu em Bombaim, Índia 

FILME: THE BUTTERFLY'S DREAM - 2013

Direção: Yilmaz Erdogan - 2013
Duração: 138 min
Título traduzido para o português: O sonho da borboleta
País de Origem: Turquia 

1940 - Turquia. - Cidade do Mar Negro de Zonguldak . Todos os homens a partir de 15 anos eram obrigados a trabalhar nas minas de carvão. Os dois amigos Rustu Onur (Mert Firat) e Muzaffer Tayyip Uslu (Kivanç Tatlituq) também estiveram nas minas e acabaram tuberculosos. A história dos dois nos é contado pelo professor de literatura (Yilmaz Erdogan). Ambos eram poetas e desejavam ver seus poemas editados. Irão inicialmente se apaixonar pela mesma mulher, mas depois Rustu irá para o sanatório onde conhecerá um novo amor. 



É um filme triste, sobre a realidade da Segunda Guerra na Turquia, as minas de carvão e a tuberculose. Também enfoca as diferenças de classe e o medo que as pessoas tinham dos tuberculosos, pois naquela época não havia cura, além de a entrada num sanatório não ser algo fácil. 

Yilmaz Erdogan nasceu em 1967 em Hakkâri, Turquia 

domingo, 14 de junho de 2015

FILME: CET AMOUR-LÀ - 2001


Direção: Josèe Dayan - 2001
Duração: 94 min
País de Origem: França 

Adaptação livre do romance Cet Amour-là de Yann Andréa de 1999, editora Pauvert. 

Yann Andréa (Aymeric Demarigny) leu os livros de Marguerite Duras (Jeanne Moreau) e passou a ter uma admiração incondicional por ela. Durante cinco anos ele escreveu para ela todos os dias. Ela não lhe respondia, e ele não esperava, mas esperava uma carta, até que um dia houve uma resposta. Em julho de 1980 ele decide ir vê-la em Trouville, onde ela vive sozinha, uma solidão feliz como ela diz, e reclusa. Ela o conquista com seu charme e ele se encanta por esta velha mulher caprichosa e tirânica que é alcoólica, bebendo cada vez mais para afogar suas angústias. 
Yann se transforma em seu secretário, datilografa seus escritos, passam a viver juntos. A relação que irá durar até a morte de Duras é de amor e ódio, veneração e repulsa. Yann deseja partir, volta. 



Este filme mexeu muito comigo. Duras tem a capacidade de se mostrar de um lado frágil, apaixonada e entregue como uma mulher, mas de outro é o real que ela fala, não mede palavras para expressar o que realmente é. Luta para se libertar e não consegue. Há um momento onde ela diz à ele- são meus livros que você ama, é a escritora que você ama, não eu. 

Ela é cruel. Será? ou absolutamente real? Uma mulher que viveu muito, teve muitos amantes, que conhece seu corpo, mas também tem consciência de sua idade, da velhice, e da idade do jovem. O contraste. Sua música preferida é Capri c'est fini de Hervé Villard, cuja letra diz que é acabado, que não volta. O que não volta é sua juventude, sua vida que se passou. 


Em um momento Duras é internada, sofre de alucinações. Retorna para sua casa. Quando Yann encontrou Duras ela vivia um momento de total falta de inspiração para a escrita, fazia apenas pequenos textos, mas a relação despertou novamente nela o desejo da escrita. Yann se viu frente a mulher que ele fantasiou durante anos, mas ficou, e sem ambições, ele foi o companheiro que Duras precisava nesta época de sua vida. E desta relação nasceram "filhos", ou seja, a criação literária, livros. 




Marguerite Duras e Yann Andréa

Josèe Dayan nasceu em 1943 em Toulouse, França 

FILME: KAMOME DINER - 2006



Direção: Naoko Ogigami - 2006
Duração: 102 min
Título Original: Kamome Shokudo
País de Origem: Japão 
Filmado na Finlândia. 

Sachie (Satomi Kobayashi) é uma japonesa que abriu um café em Helsinki na Finlândia, para servir comida japonesa esperando com isto apresentar sua culinária ao povo filandês, o que acaba não dando muito certo. Seu único cliente é Tommi (Jarkko Niemi) que é fã da cultura nipônica. Justamente para ajudar Tommi com a letra de uma música, visitando uma livraria ela vê outra japonesa ali e puxa conversa. Ela acaba indo ajudar Sachie no café, e mais tarde também outra que ao visitar a Finlândia espera por suas malas que foram perdidas pela Cia Aérea. 


Aos poucos elas irão se dar conta que para os finlandeses elas são estranhas, e mais ainda a comida. Resolvem então tentar com comidas locais. Fazem um bolinho de canela que imediatamente atrai as pessoas. 
Então surge a ideia de começarem a fazer comida japonesa com ingredientes locais como o salmão, arenque, camarão. E isto dá certo. 




Esta é a primeira lição do filme, que é preciso misturar as coisas, nem o totalmente finlandês, mas nem o nipônico, para começar a aproximação, desfazer o estranho. Mas o filme vai além, porque cada uma destas pessoas e também outros clientes tem seus problemas, e elas acabam envolvidas nisto, como uma forma terapêutica de ajuda. Afinal a comida é sempre uma forma de cura e de aproximação. 


Nakao Ogigami nasceu em 1972 em Chiba, Japão 

FILME: LA VALLÉE DES LARMES - 2012


Direção: Maryanne Zéhil - 2012
Duração: 95 min
País de Origem: Canadá
Filmado no Canadá e Líbano

Marie Simard (Nathalie Coupal) é uma editora que vive em Québec. Ela passa a receber diariamente envelopes que são deixados embaixo da porta da editora de alguém que conta sua história do que aconteceu no Líbano, os massacres que assistiu inclusive de sua família em dois campos de refugiados palestinos - Sabra e Chatila. Ela logo vai descobrir que quem lhe envia os envelopes é Joseph (Joseph Antaki) , um pintor que trabalha na editora. Ela quer publicar o testemunho, mas algo acontece que a faz ir pessoalmente ao Líbano para poder compreender finalmente esta história. 

Por outro lado Marie também vive um momento difícil, sua mãe está em coma no hospital. Ela tem uma mágoa profunda e não consegue perdoá-la. Quando jovem a mãe a fez abortar o filho de um namorado e ela acabou estéril o que mais tarde destruiu seu casamento com um homem que ela amava por não poder ter filhos. Há um jogo aqui, pois se realmente o marido a amasse não a teria deixado por outra mais jovem que lhe deu filhos, mas é assim que ele a responsabiliza pelo fim do casamento e ela aceita. Marie bebe muito para esquecer. 

Joseph aceita trabalhar com Marie para a publicação de seu testemunho, aos poucos vamos vendo o passado dele, o massacre, a morte de deu pai e irmãos por cristãos vizinhos, a fuga dele, da mãe e uma irmã até se esconderem num convento que os acolheu. Mas há algo que Joseph não pode contar. É o final desta história que irá se produzir a seguir quando Joseph efetua a vingança pedida pela sua mãe e mata os assassinos de sua família que agora também vivem no Canadá. É após isto que Marie parte para o Líbano, para compreender este ato. 

Lá os cristãos mortos por Joseph são considerados mártires. Suas fotos estão nas paredes. Marie vai até o convento onde a freira lhe conta a história do que se passou anos atrás com mais detalhes. Finalmente Marie vai procurar a mãe de Joseph e será dela que ouvirá que se trata de vingança para manter a honra e a dignidade de sua família e de seu povo. 

Ao retornar para Québec há um último envelope de Joseph. Ele então relata seu ato, mas deixa uma mensagem de esperança e perdão. Diz que o fez para que ocorra uma ruptura neste círculo de vinganças, para que seus filhos não precisem matar ninguém e possam ser felizes. Joseph se suicidou. 

A questão que o filme também enfoca, mas de forma infelizmente superficial é a questão da Mãe. A de Marie que lhe impôs um aborto se colocando como responsável por sua fertilidade e feminilidade, a de Joseph o instrumento da vingança que obriga o filho a cumpri-la.  

O filme me lembrou outro - Abril Despedaçado - onde sempre há a vingança e se espera por ela, que ocorre no Nordeste Brasileiro, mas também a mensagem do amor, de encerrar o círculo como neste filme quando Rodrigo Santoro o ator do filme toma um caminho diferente e no filme Incêndios, também  no Líbano, quando a mãe escreve as duas cartas. 

É um belo filme, mas menos profundo e intenso do que estes dois que acabo de citar, mas vale a pena assistir. 

Maryanne Zédhil nasceu em Beirute, Líbano

segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: JE VEUX VOIRE - 2008


Direção: Joana Hadjithomas e Khalil Joreige - 2008
Duração: 68 min
País de origem: França e Líbano
Filmado no Líbano

Em julho de 2006 uma guerra estoura no Líbano, os produtores do filme são pegos de surpresa fora do país e não podem retornar. Para eles e libaneses não é apenas mais uma guerra, mas a que vem quebrar as esperanças de paz e o ânimo das pessoas. Não há mais o que escrever, o que dizer, o que mostrar, então os produtores pensam num encontro, o encontro de Catherine Deneuve com um ator libanes, Rabih Mroué, que após olhar por uma janela para Beirute, se vira e diz: Eu quero ver!

Os atores representam a si mesmos. São apresentados, é Rabih quem conduzirá o carro, irão os dois neste carro, aos poucos vão se conhecendo. No sul de Beirute, a região mais atingida são impedidos de filmar, são bairros controlados pelas milícias xiitas. Vão para o sul, onde a guerra começou visitar a vila natal de Rabih, onde morava sua avó. Chegam e só encontram escombros, tudo destruído, a tal ponto que ele se sente incapaz de encontrar onde ficava a casa de sua avó. Ela olha para tudo isto sem compreender, ele se sente totalmente desamparado. 

Pegam uma estrada que não estava previsto e são impedidos pela equipe de segurança de prosseguir. Há minas espalhadas por todo o território, não podem ir por ali, mesmo que a paisagem seja mais bonita. Os cartazes com os mártires do Hezbollah nos postes a beira da estrada.  

Não se trata de um documentário, é um filme, um filme onde os atores atuam eles mesmos, como eles estão vendo tudo aquilo, o sentimento de cada um. Uma outra forma de mostrar, revelar o que são os destroços de uma guerra. 

Na vila ao sul 

O sul de Beirute 
No final do filme vemos uma outra Beirute, a que não foi atingida e que acompanha a globalização, o mundo, no fundo, as duas faces de uma mesma moeda. 



A guerra do Líbano de 2006 foi um episódio do conflito árabe-israelense, ocorrendo no norte de Israel e sul do Líbano tendo começado em 12 de julho de 2006 após o sequestro de dois espiões israelenses pelo Hezbollah, e envolveu as forças de defesa de Israel e o braço armado do Hezbollah, e em menor grau, o exército libanês. O Líbano passou por uma guerra civil de 1975 à 1990, depois a Primeira Guerra do Líbano em 1982 e esta Segunda Guerra em 2006. 

O filme foi rodado em uma semana. 

Joana Hadjithomas  e Khalil Joreige nasceram em 1969, ambos em Beirute. São casados.

LIVRO: A TERAPEUTA - Um romance sobre a ansiedade - GASPAR HERNÁNDEZ


Hernández, Gaspar. 1ª ed.Casa da Palavra, 2014
208 páginas
Tradução: Marcelo Barbão
Título Original: La terapeuta


O livro é uma ficção sobre a ansiedade, principalmente a que se desencadeia após um stress pós-traumático. Uma forma mais leve e compreensível de abordar uma questão importante e que atualmente vem acometendo a muitos. Através da  história de Héctor, um ator de teatro, que assistiu a um assassinato e que procura a ajuda de uma psicóloga, Eugênia, vamos vendo o desenrolar da ansiedade, seus efeitos, como atua, o que causa. O trauma na verdade é apenas o gatilho de algo mais profundo, ou seja, a pessoa já tem questões anteriores, e quando ocorre algo mais grave, que causa um choque, a ansiedade dispara e aparece com todos seus sintomas. 

A história também fala da transferência e contratransferência de uma relação terapêutica, mas é algo bem superficial, não se aprofunda nisto e nem demonstra como isto faz parte da terapia e deve ser trabalhado, mas não é este o foco da história, mas sim, através de uma ficção trazer informações sobre a ansiedade, e para um início  cumpre seu papel de uma forma mais leve do que ler um livro científico, tornando assim mais acessível o tema. Mas não se trata de um livro que vai a fundo no assunto que é muito mais sério e duradouro do que nos mostra a história. 

Além disto é escrito de uma forma que aguça a curiosidade. 

FILME: PHOTO - 2013


Direção: Carlos Saboga - 2013
Duração: 75 min
País de origem: Portugal e França 

Um filme que nos fala da busca de suas origens. Elisa (Anna Mouglagis) acaba de perder a mãe. Pilar (Marisa Paredes) não cumpriu o desejo dela e guardou todas as fotos e escritos, e é assim que Elisa descobre que seu pai não é quem ela pensava. Ela então parte para Portugal em busca de sua história, mas também para dar um tempo a si mesma, uma vez que foi surpreendida por um pedido de casamento de seu companheiro italiano, com quem vive há 07 anos, e não sabe se deseja se casar. 

Chegando lá ela conhece Davi (Simão Cayatte) que é filho de um dos amigos de sua mãe. Ele acaba de voltar do Marrocos onde se envolveu com o islamismo. A história da mãe de Elisa se passa nos anos 60-70, durante o fascismo, e o filme é um resgate desta história, mas com um olhar atual. Davi procura ajudá-la em sua busca, levando-a até as pessoas e servindo de tradutor. Mas ele esconde dela que sua mãe voltou a se casar e com um dos companheiros da turma da mãe dela. 

O filme na realidade é uma espécie de biografia de Saboga, uma catarse de sua própria história pelo viés da ficção. O que se conclui é o fim da ilusão de que através de um combate se podia modificar o mundo, e hoje todos aqueles que se envolveram na luta vivem uma vida de burguês. O inspetor do PIDE (polícia internacional e de defesa do Estado) nega a realidade, diz que não matavam. É a dificuldade de fazer o ajuste de contas que os países tem, e as pessoas também. A vida continua e uma pessoa que surge para remexer o passado nem sempre é bem vinda, mas Elisa acaba sabendo de tudo e pode finalmente voltar e tomar uma decisão quanto ao casamento. 


Carlos Saboga nasceu em 1936 em Figueira da Foz, Portugal.

FILME: MANGE, CECI EST MON CORPS - 2007



Direção: Michelange Quay - 2007
Duração: 99 min

País de origem: Haïti 

Um filme diferente que irá agradar a poucos. É um filme que representa um transe, fora da compreensão e do racional. É uma experiência cinematográfica, que nos leva ao mais profundo do sofrimento espiritual e material do Haïti. 

Vou falar sobre o que senti. Logo no início do filme vemos uma senhora branca num leito (Catherine Samie) que fala palavras ditas por Jesus, mas ela completa dizendo que ela é a abundância incompreendida por eles (haitianos) que cospem nela em sua ignorância. Ela alimenta este mundo canibal, coma, este é meu corpo. Ela diz perdoe-os, eles não sabem o que fazem. Mas ela mesma se alimenta deles, ao ponto de se ver neles e diz que eles pegam, mas não retribuem. 

Alguns meninos se dirigem em fila para a casa colonial. São lavados, vestidos de terno, sapatos, para o ritual da refeição. Uma mesa posta, tigelas e colheres. Surge Madame (Sylvie Testud), ela se senta com os meninos à mesa, mas não há comida, o que não desobriga o obrigado!, repetido à exaustão. Ela sugere que eles devem fechar os olhos e imaginar que estão comendo. Mas quando eles finalmente tem um bolo para dividir, eles se empanturram, e fazem guerra com o bolo. 

O filme retrata o branco comendo o negro. É um jogo de espelhos, o negro se olha no espelho, ele espia a mulher branca. Uma busca de identidade. A mulher branca acaba tomando consciência do outro, mas para isto sua mãe tem que morrer. 

É como um mergulho no inconsciente, poucas palavras, imagens, vemos as duas senhoras brancas, que representam a colonização. Vemos os negros habitantes e originários dali. Um se olha no outro, e por mais que o branco tente se manter afastado ele acaba assimilando também. Então já temos dois lados diferentes. Além disto há uma crítica a colonização, a situação da casa colonial diante do restante do povo. O branco acredita que ele está levando algo de bom para eles e os haitianos não agradecem, e porque teriam que agradecer? Eles é quem estão sendo explorados pelo branco. Então ao contrário do que diz a senhora no começo do filme, é ela quem se alimenta deles e não o contrário. 

Um filme que possibilita muitas interpretações. 

O filme foi realizado antes do terremoto de 2010 que arrasou o país que até hoje não se recuperou. 





Michelange Quay é haitiano

FILME - LOREAK - 2013


Direção: Jon Garaño e José Mari Goenaga - 2013
Duração: 96 min
País de origem: Espanha - País Basco 

Loreak significa flores em basco. É um filme basco, inclusive falado nesta língua que difere do espanhol. O país basco fica no território da Espanha, mas tem uma cultura muito diferente e fala outra língua. 

Ane (Nagore Aranburu) trabalha numa construção, vive com seu marido, um casamento morno,  ele normalmente passa seu tempo vendo TV. Ela começa a receber flores de um desconhecido. Belos buques, o que acaba deixando seu marido enciumado. Ela está na menopausa, e as flores que recebem acabam fazendo com que sua auto-estima melhore, ela começa a se arrumar mais. 

Para não aborrecê-lo e ter que responder suas perguntas para as quais ela não tem respostas, passa a levar as flores para seu escritório na obra. Um dia ela perde sua corrente, presente de noivado do marido, e não consegue mais encontrá-la. Na obra trabalha Benãt (Josean Bengoetxea) como operador do guindaste. Ele é casado com Lourdes (Itziar Ituño). A relação desta com sua sogra Tere (Itziar Aizpuru) não é boa, a mãe de Beñat é autoritária, gosta de dar palpites em tudo, e desaprova a nora. 

Uma noite de chuva Beñat está indo para a casa de sua mãe, mas irá se atrasar, liga para ela, que como sempre não é nada gentil, chantagista emocional, desliga na cara dele. Logo em seguida ele sofre um acidente do qual virá a falecer no hospital. É então que Ane para de receber flores, e quando o novo operador encontra sua corrente na cabine do guindaste ela associa as coisas e percebe que era ele quem enviava as flores. Ela então passa a levar um buque de flores no local do acidente, ritual que também a mãe dele faz. Lourdes nunca foi lá e se afastou da família. 

Mas estas flores continuam causando indagações, como o marido de Ane, a mãe de Beñat também fica intrigada e quer descobrir quem leva as flores. Ela deixa um bilhete e Ane responde vindo a conhecer Tere, que acaba criando mais intrigas com Lourdes insinuando que ela era amante de Benãt. 

As flores são o centro do filme, e é por causa delas que estas três mulheres acabam se ligando entre si, pelo menos por um tempo, e tem que enfrentar suas questões. Ane o seu casamento, Lourdes sua relação com os outros, Tere sua forma possessiva de amar. 

Jon Garaño (em primeiro plano) nasceu em 1974 em San Sebastián, Espanha e José Marí Goenaga nasceu em 1976 em Ordizia, Espanha.