sexta-feira, 27 de novembro de 2015

FILME: CHRISTINA NOBLE - 2014


Direção: Stephen Bradley - 2014
Duração: 100 min
País de Origem: Irlanda

Cinebiografia de Christina Noble

O filme retrata a vida de Christina Noble desde sua infância pobre e difícil na Irlanda, quando sua mãe faleceu e o pai um alcoólatra não consegue cuidar dos filhos. A pequena Christina (Gloria Cramer Curtis) cantava muito bem, e isto a ajudava a ganhar um pouco de dinheiro para comprar comida. Porém o inspetor da escola que sempre quis pegá-la nestes momentos a denuncia e a polícia vai buscar todos. O tribunal decide que cada um irá para um orfanato diferente, demonstrando a total falta de sensibilidade da justiça irlandesa. A criança não se dará por vencida, tenta uma fuga mas não é bem sucedida, depois acaba aceitando sua situação.

Quando jovem ( Sarah Greene) ela sai do orfanato e vai ao encontro do pai que a engana para ficar com o único dinheiro que tinha dado pelas freiras para iniciar sua vida. Ela acaba dormindo em um parque que fecha a noite e consegue um trabalho numa lavanderia. Em uma das noites que retorna o parque é estuprada. Desta violência nascerá Tomas, num abrigo para jovens dirigido por freiras. Como é conhecido esta questão, inclusive é do que trata o filme Philomena, as freiras dão a criança para adoção. Christina nunca mais encontrará este filho.

Ela parte para Londres com uma amiga onde conhece seu futuro marido, porém este casamento que parecia finalmente ser um porto seguro, um lugar de paz, se transformará em violência doméstica. Finalmente ela se separa e vai embora com os dois filhos. 

O filme nos mostra simultaneamente a vida de Christina (Deirdre O'Kane)  já uma mulher madura, que vai para o Vietnã por causa de um sonho que teve. Ela não sabe o porque desta viagem, até que se dá conta de inúmeras crianças na rua, abandonadas, com fome. Principalmente o encontro com duas meninas órfãs que procuram comida no lixo a remeterá ao seu passado. Ela acolherá as meninas e cuidará delas. É então que percebe o que lhe reserva a vida, a mão que lhe faltou na infância ela decide dar aos outros, e desta forma dá início a um trabalho imenso onde se transformará na Mama Tina para milhares de crianças.



Ao conhecer um orfanato particular Christina irá se empenhar em conseguir verbas para melhorar e aumentar o mesmo. Não será uma tarefa fácil, ela terá que conseguir uma permissão de trabalho que lhe é concedida por 03 meses, e neste tempo mostrar que foi capaz de fazer algo. No último dia ao ir para o aeroporto Gerry ( Brendan Coyle), empresário de uma petroleira,  lhe avisa que ela conseguiu a verba.

É o início de um imenso trabalho que Christina fará pelas crianças abandonadas. Ela desenvolverá mais de 100 projetos no Vietnã e na Mongólia. Hoje são seus filhos que administram isto. 

Um exemplo de coragem, determinação e amor.

Christina Noble 

Stephen Bradley é um diretor, roteirista e produtor irlandês

terça-feira, 24 de novembro de 2015

FILME: PHOENIX - 2014


Direção: Christian Petzold - 2014
Duração: 98 min
País de Origem: Alemanha

Nelly Lenz (Nina Hoss) é uma sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ajudada por sua única parente viva, Lene (Nina Kunzendorf) ela passa por uma cirurgia, pois seu rosto está desfigurado. Após retirar as bandagens ela não se reconhece no espelho o que a angustia. 

Com a morte de seus parentes Nelly é herdeira de uma grande quantia de dinheiro, e foi isto que possibilitou a cirurgia de reconstrução de seu rosto. Lene quer ir embora, ir para Israel e tenta convencer Nelly a ir também, porém esta deseja reencontrar seu marido Johnny (Ronald Zehrfeld) ao que Lene se opõe alegando que ele esteve envolvido em sua captura pelos nazistas. 

Porém Nelly não se convence e parte em busca do marido, encontrando-o trabalhando na boate Phoenix. Ele não a reconhece, mas percebe uma semelhança com sua esposa e faz um proposta de transformá-la em Nelly para poder ter acesso a herança que ela tem direito, mas para isto tem que estar viva o que Johnny pensa não ser possível. 

Nelly era uma cantora, e agora em meio aos escombros e diante de um marido que não a reconhece e do qual se suspeita a tenha entregue aos nazistas para se safar quando foi preso, ela tem que reconstruir sua identidade. É o se recriar, e se recuperar diante do trauma. 

O que ela tenta é voltar ao passado, é recuperar sua vida, ao contrário do que Lene lhe fala, em criar uma nova vida, em outro lugar, ela quer de volta o que era. O filme trata de traumas, de não se saber mais quem se é, de perceber de que se está morta para aqueles que se ama, que não tem mais identidade, de que não é mais quem era. 

Sobreviver a um campo de concentração, ter vivido o horror, e se encontrar com a desolação, com um não-lugar, com a destruição, e ainda ter que construir algo novo para si mesmo, ao invés de ser acolhido após tantos traumas. Aos poucos vamos assistindo ao mergulho de Nelly em seus medos enquanto tenta mentir para si mesma. É difícil enfrentar o real que se impõe, estar ao lado do homem que foi seu marido, e que agora é um estranho que não a reconhece, até chegarmos ao momento final do filme, de sua libertação, a partir do momento em que ela desce do trem, de uma beleza sensível e indescritível. 


Christian Petzold nasceu em 1960 em Hilden, Alemanha

DOCUMENTÁRIO: IRIS - 2015


Direção: Albert Maysles - 2015
Duração: 76 min
País de origem: Estados Unidos

Documentário sobre Iris Apfel

O documentário nos fala da vida de Iris Apfel, designer e um ícone de estilo na moda, mas o que realmente é interessante é ver esta mulher de 93 anos ativa, criando e vivendo. 

Ela criou um estilo próprio, chamado de fashion atualmente, excêntrico antes, mas que no fundo nos mostra que a moda é algo que se cria para si mesmo, é ter um estilo do qual você gosta e se sente bem, ou seja, é usar roupas que são sua pele, sua cara. 



Utilizando um pouco de tudo que ela garimpa em vários lugares ela vai compondo um visual, mistura, compõe, é pura arte. Uma colecionadora, possui muitas roupas de época, trajes, e objetos que aos poucos vai doando a museus em sua velhice. 



Pouco conhecida no Brasil é um ícone fora daqui, casou-se com Carl Apfel em 1948 e que completou 100 anos durante a filmagem, vindo a falecer em agosto deste ano, eterno companheiro, sempre juntos. 

Mas o filme vai além deste enfoque de moda e estilo, ela nos fala sobre o que pensa da vida, do que é considerado belo, e mostra que é possível sim criar e ter uma vida ativa e inspiradora aos 93 anos, mesmo levando em conta as limitações que o corpo nos coloca. 


Albert Maysles nasceu em 1926 em Dorchester, Boston, Massachusetts, EUA e faleceu em 2015 em Manhattan, Nova Iorque, EUA após as filmagens do documentário. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

LIVRO: IDENTIDADE E VIOLÊNCIA a ilusão do destino - AMARTYA SEN


Sen, Amartya. 1ª ed. Iluminuras, 2015
208 páginas
Tradução: José Antonio Arantes
Título Original: Identity and violence: the illusion of destiny

Um livro muito atual. O que Amartya defende é que não devemos considerar o outro por uma única identidade aglutinadora, uma vez que as pessoas são muito mais do que uma única identidade. Ao fazer isto, por exemplo, considerar os muçulmanos todos como terroristas, estamos alimentando um discurso de ódio que acaba levando à violência, sendo que a realidade é que alguns terroristas são muçulmanos. 

Um outro ponto extremamente importante é a questão de confusões conceituais que também leva à violência. Ele cita a globalização como um dos exemplos. Há uma ideia generalizada de que a globalização é algo ruim, e que acaba empobrecendo muitas pessoas além de explorá-las. É um fato que realmente isto ocorre, porém a globalização é muito mais do que isto, uma vez que sem ela não haveria a troca de ideias, a troca da ciência, da literatura, do saber. Então a questão não é a globalização em si, mas em como ela opera em diferentes setores. Ele também levanta a questão da ideia falsa de que a democracia seria algo ocidental. Se pensarmos a democracia como a possibilidade de todos participarem não é possível dizer que o Oriente não foi e não pode ser democrático, pelo contrário, é possível ver que a democracia neste sentido surgiu lá muito antes do que na Grécia. 

A questão nisto tudo é que acabamos cristalizando certas ideias e conceitos sem ampliar nosso pensamento o que nos leva infelizmente à pré-conceitos. 

Amartya cita o exemplo da Índia, um país considerado hindu e que tem um número maior de muçulmanos no país. Mas as pessoas são muito mais do que isto, se identificam com sua profissão, com sua situação social, com sua família, com sua língua e muito mais.

Um dos pontos forte do livro é a questão da falsa oposição entre Ocidente e Antiocidente que acaba sendo utilizado para criar ressentimentos que permitem os atos terroristas. É fato que certas atitudes e comportamentos de alguns países ocidentais acabaram criando este ressentimento, porém, é a insistência nesta divisão que alimenta o ódio, e não é apenas do lado do Oriente que isto é utilizado, pois quando os Estados Unidos alega ser difícil ou impossível "impor" a democracia no Iraque está fazendo a mesma coisa. Quando se pensa desta forma, agindo contra o outro, não se está se libertando do outro, pelo contrário, é uma mentalidade de colonizado.

Vale a pena ler o livro, aprendi muito com ele e sacudi um pouco minhas ideias e isto é sempre muito bom.

Amartya Sen nasceu em 1933 em Santiniketan, Índia. É economista e recebeu o Prêmio Nobel de 1998 pelas suas contribuições à teoria da decisão social e do "welfare state".

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

FILME: BABEL - 2006


Diretor: Alejandro González-Iñárritu - 2006
Duração: 142 min
País: Estados Unidos - México - França
Roteiro: Guillermo Arriaga

Babel é um filme denso e extremamente atual que pode ser visto sob várias perspectivas. Um ônibus com turistas travessa uma região do Marrocos, nele estão Richard (Brad Pitt) e sua esposa Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos, e outros europeus. Eles fazem esta viagem numa tentativa de reconciliação. No alto das montanhas estão dois garotos, Ahmed e Youssef que são pastores de cabras. Eles acabam de ganhar um rifle do pai para proteger os animais dos chacais. Eles competem entre si para ser o melhor atirador e duvidam do alcance do tiro da arma, para tirar a dúvida atiram primeiro contra um carro que passa na estrada, não acerta, e depois contra o ônibus. Susan é atingida.

Os filhos de Richard e Susan ficaram nos Estados Unidos aos cuidados de Amélia ( Adriana Barraza) que é a babá dos dois desde pequenos. Ocorre que é o dia do casamento de seu filho e não há ninguém para cuidar das crianças. Richard lhe diz que sente muito, mas que ela não poderá ir. Amélia porém não quer deixar de ir ao casamento que é numa cidade no México, e decide levar as crianças junto. Seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) vem buscá-la de carro.

No Japão um homem tenta superar a morte trágica de sua esposa que se suicidou e ajudar sua filha (Rinko Kinkuchi) que foi a primeira a encontrar a mãe e é surda. Ela é jovem, e vive a adolescência com toda a efervescência da sexualidade.

Partindo deste roteiro estas vidas irão se entrecruzar de alguma maneira, e o tiro dado nas distantes montanhas do Marrocos de alguma maneira afetará a todos. O interessante é que isto nos leva a pensar justamente no fato de vivermos num mundo global, onde algo que ocorre num lugar distante afeta a vários outros lugares e pessoas, mas o paradoxo é que se por uma lado tudo parece ligado e próximo, o isolamento é cada vez maior. Podemos também ver a história em dois planos familiares, dos pais e dos filhos. O casal americano que tenta se reconciliar no Marrocos e seus filhos que estão nos Estados Unidos e que com a babá irão para o México. O japonês que deu a arma a um guia marroquino que é o pai da jovem que é surda, e a família marroquina e seus filhos de onde parte o tiro inicial da trama.

Há também todos os aspectos culturais e do medo do estranho e os preconceitos. Aqui também novamente vemos também a falta de comunicação em função seja de ideias preconcebidas em relação ao outro ou pela própria língua falada, onde quando um marroquino fala a um americano, não há muita diferença da surdez da jovem em Tóquio. 

O comportamento dos europeus no Marrocos e do casal americano. Eles sentem medo das pessoas, se sentem em perigo na aldeia marroquina, estranham tudo e querem ir embora. Susan antes de ser atingida tem um gesto com o gelo quando almoçam jogando fora, dizendo que não se sabe de onde vem a água. Já os Marroquinos estão curiosos com o que está acontecendo, é uma vila do interior, algo de diferente está ocorrendo. Eles são prestativos, mas com sua aproximação assustam ao estrangeiro. Porém serão eles que serão solidários com Richard e seu drama, pois os europeus irão embora com o ônibus abandonando-os a sua sorte. O guia marroquino fará de tudo que for possível para ajudar e eles serão acolhidos na casa dele. 

Nos Estados Unidos o sobrinho de Amélia não se agrada dela levar as crianças, mas aceita. O menino diz que sua mãe lhe falou que o México é perigoso. Mas apesar do receio inicial, dos sustos, como crianças, acabam brincando com as outras crianças e se divertem muito na festa de casamento. O problema é na volta, quando o sobrinho embriagado cria confusão na alfandega diante da desconfiança do policial que ali está. Aqui vemos nitidamente os dois lados, o policial que desconfia dos mexicanos e os considera de alguma maneira um problema, e o mexicano que por saber que são vistos assim não é nada simpático e inclusive um tanto revoltado. Ele fura a barreira e se dá início uma perseguição que o levará a abandonar a tia e as crianças em pleno deserto. Amélia tenta encontrar ajuda, mas é presa. Apesar disto as crianças são encontradas, mas afastadas do perigo chamado Amélia, que ao ver da polícia é perigosa para elas, justo ela que as criou desde pequenas. O resultado é sua deportação para o México. A lei é fria e não leva em conta nada, as relações humanas que existiam ali, os 16 anos de vida de Amélia nos Estados Unidos, tudo isto é desconsiderado.

Os meninos marroquinos logo no início percebemos a rivalidade dos irmãos e que se acentua quando o pai designa o menor para dar o primeiro tiro o que faz com que o mais velho reaja. Ele pode dar o primeiro tiro, mas erra e isto é comentado. Youssef também observa a irmã se trocando, e depois acaba se masturbando nas montanhas. É esta rivalidade que irá levar ao tiro que dá início ao que ocorre no filme, é o gatilho. Youssef ainda é uma criança, mas que já se interessa por seu corpo e pelo o que sente. Seu irmão que é mais velho se contém, mas provavelmente também desejaria ver a irmã nua, que por sua vez é conivente com o irmão. Isto virá a tona quando o pai descobrir o que eles fizeram e que foram responsáveis pelo tiro, e ao inquiri-los Ahmed falará tudo, inclusive sobre isto, onde percebemos a raiva e a inveja que sentia de seu irmão mais novo e entregando-o se ilude ao acreditar que agora será o bom filho amado.

O tiro irá se transformar num atentado terrorista, principalmente com o incentivo da imprensa. De um acidente, de uma rivalidade entre irmãos que acabam cometendo um grande erro, chegamos ao terrorismo, e a polícia procura os terroristas. Um absurdo neste contexto, mas que demonstra a paranoia que é muito atual em relação ao outro, e principalmente do Ocidente em relação aos muçulmanos  confundindo pessoas que tem uma religião com pessoas desta mesma religião, mas que são terroristas. 

Enquanto isto a jovem no Japão se defronta com suas questões de sexualidade, ela tem dificuldades em lidar com isto, e acaba apelando para formas simbólicas ou gestuais para sinalizar seu desejo, de uma forma errônea, sem saber como agir. Como isto é recebido ou com risadas ou com rejeição ela se sente cada vez mais só em seu mundo. Ela tenta chamar a atenção, ser desejada, ser amada. Apesar de seu pai tentar ajudá-la há uma distância entre eles, primeiramente a típica de jovens em relação aos pais, mas também há uma frieza, uma falta de afetos, de aproximação maior, até que finalmente diante de algo que talvez desperte em seu pai um medo do suicídio, ele se rende a abraçá-la com amor. 

Poderíamos questionar o que leva um pai a dar uma arma a duas crianças? Ali trata-se de um ritual masculinizante, e para proteger o rebanho, matar os chacais que atacam as cabras. Mas a imaturidade dos dois os leva a competir entre si para dar tiros. A jovem no Japão apesar de surda tem um grupo, ela é inserida socialmente, mas lhe falta a mãe e outra mulher mais velha para lhe servir de espelho em sua feminilidade e como atuar com ela. Eles vivem num belíssimo apartamento com conforto, mas este espaço é frio e silencioso. 

Há também a questão do enfoque do filme. Em alguns momentos senti que o Marrocos e o México estariam sendo enfocados por um ângulo de muita pobreza, promiscuidade, como por exemplo, alimentos cheio de moscas em cima, mas se pararmos para analisar o filme veremos que o enfoque do europeu e dos americanos nos mostra uma suposta demonstração de superioridade , que estão amedrontados, são preconceituosos, tentando preservar-se longe de tudo que eles consideram uma civilização inferior, mas são tão sozinhos e desamparados quanto os outros. O Japão e sua bela cidade moderna, belos apartamentos, e a solidão, o vazio das vidas. Já o Marrocos com sua aparência de pobreza, não se esquecendo que as vilas de montanhas são assim, nos mostra um povo muito mais caloroso e hospitaleiro. Assim como os mexicanos e toda sua festa em torno do casamento. Como poderia uma mãe mexicana deixar de ir ao casamento de seu filho? A cena que mais me tocou foi quando Richard ao ir embora abre a carteira e retira dinheiro para pagar ao guia, que por sua vez recusa. Há uma incapacidade do americano em ver no outro alguém que foi solidário e que o acolheu em seu momento de dor e dificuldade, é como se ele considerasse que o outro lhe prestava um serviço e que teria que ser pago, e com isto também não há uma dádiva ali, mas ele quitaria sua dívida pagando.

Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive. 

Ao final o que vemos são acontecimentos da vida, não há nenhum terrorismo, nenhum sequestro de crianças, nenhum tráfego de drogas nem de armas, exceto os criados pela mente humana dentro de seus preconceitos, medos, intolerância ao outro, dificuldades em lidar com o diferente, e a arrogância de alguns de se considerarem superiores ao outro e os efeitos que isto provoca. E é muito válida a crítica à imprensa que sempre sensacionaliza tudo, apelando para estes jargões e deduzindo em tudo um ato terrorista. 



Alejandro González Iñárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México. 

LIVRO: MINHA PARIS MINHA MEMÓRIA - EDGAR MORIN



Morin, Edgar. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
224 páginas
Tradução: Clóvis Marques
Título Original: Mon Paris, Ma Mémoire

Neste livro Morin nos traz uma autobiografia de sua vida através dos endereços onde morou em Paris, uma vez que foi nesta cidade que ele viveu seus momentos mais importantes, confundindo suas memórias com as da cidade e todos os eventos ocorridos ao longo dos anos, desde seu nascimento até os dias atuais. 

Mas Morin não nos fala apenas sobre eventos públicos, mas principalmente sobre ele mesmo diante destes acontecimentos, assim como sobre o que ocorria em sua vida pessoal. Sua infância, sua adolescência, seus amores, sua vida acadêmica, seus aprendizados com a vida e suas lutas.

Lendo as memórias de Morin nos damos conta de como ele formou seu pensamento complexo. Ele nos relata a história de seu país e de sua cidade através de sua história passando pela Resistência durante a Segunda Guerra, sua adesão ao comunismo e depois sua saída, suas amizades, e  me interessei especialmente pela amizade com Marguerite Duras.

Morin é também um grande cinéfilo e no livro nos fala dos principais filmes que marcaram sua vida. Agora o mais impressionante é seu desejo de viver, e mesmo agora, nonagenário continua ativo e vivendo o que o mundo oferece de bom e de ruim, sempre aprendendo e buscando compreender.

Este livro nasceu de seu desejo de escrever sobre Paris como palco de suas memórias após pronunciar o discurso de agradecimento ao receber em 05 de junho de 2012 das mãos do Prefeito Bertrand Delanoë a Médaille de Vermeil de la Ville de Paris.

Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris, França.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DOCUMENTÁRIO: UM ENCONTRO COM LACAN - 2011


Diretor: Gérard Miller - 2011
Duração: 60 min
Título Original: Rendez-vous chez Lacan 
País: França 

Documentário sobre Jacques Lacan com a participação de psicanalistas - Eric Laurent, Jacques-Alain Miller e a filha de Lacan - Judith Miller entre outros e depoimentos de antigos analisandos.

Jacques-Alain Miller, genro de Lacan e que é o responsável pela publicação dos Seminários. 


Judith Miller na clínica de Lacan 

Trata-se de uma apresentação de quem foi Jacques Lacan principalmente através de vários depoimentos de analisandos e de como ele era como psicanalista. Um dos depoimentos que mais me tocam é de uma mulher que sendo judia tinha um trauma sobre a Gestapo. Após um sonho com isto ela o relata à Lacan que ao ouvir a palavra Gestapo se levanta e com sua mão toca o rosto dela, toca a pele, o que resignifica o significante Gestapo por "geste à peau" gesto na pele. 

O documentário foca o cotidiano e a prática clínica de Lacan. e também sobre seus seminários. Cada análise é uma e isto o documentário nos mostra em relação ao tempo, as questões que surgem e até mesmo sobre o pagamento, onde um dos pacientes ficou sem pagar durante um tempo, o que contraria a fama de Lacan só se interessar por dinheiro. O que movia Lacan era a psicanálise, o inconsciente.

Assisti novamente na sequência "A reinvenção da psicanálise" já postado aqui no blog.



Gérard Miller nasceu em 1948 em Neuilly-sur-Seine, Nanterre, França. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: DIANTE DA DOR DOS OUTROS - SUSAN SONTAG


Sontag, Susan. Companhia das Letras, 2003
107 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo
Título Original: Regarding the pain of others

Trata-se de um ensaio sobre a questão da fotografia sobre temas que chocam, fotos de guerra,conflitos, e sobre a questão ética e efeitos de suas publicações. 

Sontag nos traz um percurso histórico desde o tempo dos desenhos como Goya em relação a invasão da Espanha pelos franceses até os dias atuais. Os primeiros fotógrafos de guerra, as fotos tiradas no local e as que são encenadas. Ela se questiona qual seria a função e a necessidade de mostrar ao público estas fotos. 

Com a recente publicação da foto do garotinho sírio morto numa praia que foi veiculada em todos os jornais e redes sociais, é uma questão importante. Sontag levanta a questão também do direito da família, mas sem deixar de frisar que estas questões normalmente surgem quando se trata de alguém branco e ocidental, por que ninguém questiona isto quando se trata de uma foto de uma menina morrendo de fome na Etiópia, por exemplo. 

Como reagimos diante da dor do outro? estaremos realmente insensibilizados devido ao excesso de veiculação de imagens? ou as imagens ainda podem chocar e levar a ação? A foto das crianças fugindo de uma aldeia no Vietnã resultou num protesto maior contra esta guerra e acelerou seu final. 

Eu pessoalmente acho que é necessário que a verdade surja, que seja veiculada, para nos tirar do comodismo, apesar de que sei que quando se está em segurança o efeito não é o mesmo do que para aquele que está vendo ou vivendo o que a foto nos traz. Mas o ocultamento dos fatos também não é bom. Por outro lado um dos pontos é que muitas vezes mudamos de canal ou deletamos a foto porque não podemos fazer nada a respeito. O que eu não concordo é que nos ocultemos sob a ilusão de que isto primeiro só acontece lá longe, e segundo que ignoremos estes fatos tristes e dolorosos. Concordo que provavelmente a foto não traga grandes mudanças, mas eticamente falando, você já não pode se desresponsabilizar sob a ignorância do fato. 

A foto do pequeno sírio resultou em vários protestos na Europa para que os países acolhessem os emigrados, refugiados. 

Um outro ponto importante levantado por Sontag é a questão do reconhecimento pelo outro da dor que se sente. Quem sofre quer ser reconhecido, e não consolado pelo fato de outro sofrer tanto ou mais que ele, precisa do crédito disto pelo outro. Que seu sofrimento não seja banalizado, exemplificado, mas visto e reconhecido. 

Quem não está numa guerra e nunca passou por ela não consegue nem mesmo pela imaginação saber o que é isto, e na maioria das vezes nada podemos fazer, mas não podemos nos ocultar sob isto. 

Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, EUA e faleceu em 2004 na mesma cidade. foi uma escritora, crítica de arte e ativista. Recebeu o prêmio National Book Award de 2000 pela ficção e em 2003 o Prêmio Princesa das Astúrias

LIVRO: A CERIMÔNIA DO ADEUS seguido de Entrevistas com Jean-Paul Sartre (Agosto - Setembro1974) - SIMONE DE BEUAVOIR


Beauvoir, Simone. Nova Fronteira, 1982
578 páginas
Tradução: Rita Braga
Título Original: La Cérémonie des adieux suivi de entrètiens avec Jean-Paul Sartre (Auôt-septembre 1974)

Na primeira parte deste livro Simone de Beauvoir relata os últimos dez anos de sua vida com Sartre antes de sua morte. É um relato pungente e belíssimo, onde corajosamente ela fala sobre o que sentiu, como assistiu ao fim de seu companheiro de mais de 45 anos. É corajoso porque poucos são os que realmente olham de frente a finitude da vida e tudo que isto acarreta, principalmente ao corpo, a degradação deste corpo, mas um corpo que sustenta uma mente lúcida, apesar de que Sartre sofreu de problemas de esquecimentos e delírios em determinados momentos. Sua cegueira que o impedia de ler, ele até escrevia, mas já não podia ler o que escreveu, e obviamente a letra já não era como antes. O cansaço que sentia, as crises. O medo que ela sentia, suas preocupações e ter que finalmente enfrentar o momento onde ele já não estaria ao seu lado como foi durante toda sua vida desde a juventude, pois mesmo não morando juntos, e mantendo amores que eles chamavam de necessários, nunca se largaram. Após a morte de Sartre ela chegou a ser hospitalizada. 

A segunda parte são as entrevistas que Simone fez com Sartre para que ele falasse sobre sua vida, suas idéias, seus livros e seu engajamento político. Simone desejava com isto dar voz a Sartre, inclusive para que mal entendidos se dissolvessem, e também para ter a garantia deste relato, pois há um filme com entrevistas com Sartre já no final de sua vida que já assisti e postei aqui no Blog, mas ela na época não tinha certeza de que o mesmo seria exibido. De minha parte, apesar de ter gostado muito do documentário, prefiro o relato impresso neste livro, é mais íntimo, mais delicado e ao mesmo tempo mais profundo. A inteligência de ambos é notória, e Simone não deixa muito espaço para que Sartre possa se enganar a si mesmo, ou fazer uso da má-fé, ela o interroga, o questiona, e volta a carga. Acompanhamos desta forma como surge o Sartre escritor, filósofo, político e também o homem, e também as mudanças que ocorreram que o fizeram em alguns pontos mudar ou ampliar seus pensamentos. 

Vale a pena ler para quem se interessa pelos dois assim como pela filosofia. Recomendo!

Simone e Sartre 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

terça-feira, 15 de setembro de 2015

LIVRO: DIÁRIO DE UM ANALISANDO EM PARIS - CLAUDIO PFEIL



Pfeil, Claudio. 1ª ed. Zagodoni, 2013
192 páginas

Um bom livro para quem quer compreender o básico da psicanálise. De uma forma leve e até mesmo divertida o autor nos conta sobre sua passagem por Paris como estudante de Filosofia e depois de Psicanálise e sobre sua análise.

O livro é leve e apesar de se utilizar dos termos psicanalíticos, Pfeil os traduz, seja através de exemplos do cotidiano e de sua vivência na análise ou através de uma explicação que é viável para quem é leigo no assunto. 

Um bom livro introdutório no assunto e que acho muito bom ter sido escrito, pois muitas vezes para quem está iniciando seu percurso é difícil se confrontar com termos que são usados na linguagem cotidiana, mas que para a psicanálise tem outro significado. Pfeil nos conduz através destes termos e também fornece uma pequena ideia do que seja uma análise lacaniana

Outro mérito do livro é mostrar que uma análise é algo que liberta, como ele mesmo diz o divã não é para se deitar e dormir, mas ao contrário, é para despertar. Um percurso profundo que mesmo que seja doloroso nos possibilita melhor viver. 


Claudio Pfeil é doutor em filosofia pela Sorbonne e mestre em Psicanálise pela Université de Paris 8

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: MINHA MÃE - 2015



Direção: Nanni Moretti - 2015
Duração: 107 min
Título Original: Mia Madre
País: Itália - França

Um filme sensível sobre uma mulher, Margherita (Margherita Buy) diante de todos os desafios que uma vida impõe. Diretora de cinema está iniciando as filmagens de um filme que tem como protagonista um astro americano, Barry Hughins (John Turturro). Por outro lado sua vida pessoal não está fácil. Acaba de se separar de seu companheiro, tem uma filha adolescente, e sua mãe (Giulia Lazzarini) está internada no hospital. O contrapeso é seu irmão Giovanni (Nanni Moretti) que está ao seu lado diante de todas estas situações difíceis, principalmente a questão da mãe.

Margherita me parece viver em conflito com o que deseja e o que faz, tem dificuldades em se relacionar com os outros afastando-os, mas ao mesmo tempo se sente só. Ela está tão focada em si mesma que nem toma conhecimento que sua filha esteve perdidamente apaixonada e que sofreu muito com isto, o que acabou interferindo em seus estudos. Quando fica sabendo disto através de sua mãe, ela reage mais preocupada com o fato dela não ter se apercebido do que com o sofrimento que a filha enfrentou. 

Sua mãe é uma doente terminal, ela está morrendo. Margherita não consegue lidar com isto. Através de suas lembranças ela vai se culpando ao mesmo tempo que não consegue aceitar a velhice e a doença de sua mãe. Isto fica nítido na cena onde sua mãe que quer ir ao banheiro e deseja fazê-lo sem a ajuda de enfermeiras ou o uso da cadeira de rodas não ultrapassa os três primeiros passos e é vencida pelo cansaço. Margherita não consegue aceitar isto. O ambíguo é a recordação de uma cena onde sua mãe insiste em dirigir seu carro e ao estacionar acaba esbarrando no da frente levando Margherita a ter uma atitude autoritária, rasgando a carteira de habilitação da mãe, com isto considerando-a inapta para continuar a dirigir. Não lhe passa pela cabeça que sua mãe é um sujeito e que pode arcar com este pequeno incidente. Para encerrar de vez com isto Margherita simplesmente destrói o carro jogando-o várias vezes contra a parede.

O filme é sobre o crescimento desta mulher que confrontada com várias questões difíceis ao mesmo tempo, seja no trabalho onde ela deve lidar com um ator que não se deixa dominar por ela, como sua equipe que acaba sempre abaixando a cabeça, seja com a doença da mãe, seja com seus relacionamentos amorosos, seja com uma filha adolescente. 

Giovanni está ali para que tudo não fique trágico demais, apesar de que ele também sofre com a questão de sua mãe, e tem que fazer escolhas em sua vida, mas ele as faz. Ada,a mãe, é justamente o oposto da filha, sempre soube estar próximas as pessoas e ser amada por elas. Parece-me que a identificação da filha com a mãe é pelo seu oposto, como se ela tentasse ser diferente, mas ao final ela irá perceber o quanto as lições de sua mãe foram fundamentais para que ela possa viver melhor, sem precisar ser igual a sua mãe. 



Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália 

DOCUMENTÁRIO: FOUCAULT X FOUCAULT - 2014



Direção: François Caillat  2014
Duração: 53 min
Título Original: Foucault contre lui-même
País: França

Muito bom este documentário para nos dar um panorama geral sobre quem foi Michel Foucault. Foi professor do College de France o que lhe dava uma posição e status, porém soube utilizar-se desta posição para ir muito além e sair daquele lugar que requeria uma certa postura. Um homem complexo, que através da sua obra foi se contradizendo, o que pessoalmente acho extremamente rico uma vez que as coisas mudam, e nós mudamos, porque então se fixar em um único pensamento ou forma de ver o mundo? 

O documentário é uma coletânea de entrevistas com críticos e filósofos contemporâneos que reclassificam o legado de Foucault, numa tentativa de construir novas formas de pensar sobre a luta contra os mecanismos de dominação da sociedade. 

Sempre trazendo para o considerado digno e permitido aquilo que estava à margem: os loucos, os detentos, a sexualidade, estuda o passado mas é lido como se fosse o presente, sempre atual, ele se desdobra sobre si mesmo. Um ativista que ao lado de Sartre e Genet ia para as ruas, e isto me chamou a atenção sobre o que vivemos hoje  onde os intelectuais analisam e falam sobre as manifestações, mas não os vejo lá, junto ao povo, trazendo o povo para perto de si mesmos, apoiando. Foucault fala justamente disto, que é preciso ir lá, ver com seus olhos, viver a situação. 

Um eterno insatisfeito com suas próprias conclusões, sempre em busca de algo mais. Encantou-se com a Califórnia e seus jovens, a liberdade que viu ali. Vindo da França, onde supõe sempre ser o país da liberdade, mas que contraditoriamente a isto, o que vemos mesmo são os "flics", a polícia sempre na rua e contendo as manifestações, batendo e prendendo, nos EUA ele encontra um outro mundo, pelo menos para seus olhos naquela época. 

Que sirva de grande exemplo contra o conformismo e o que vou chamar de "confortismo".


François Caillat estudou filosofia. Dirigiu curtas e se voltou para os documentários.