sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: AUGUSTINE - 2012


Direção: Alice Winocour - 2012
Duração: 102 min 
Roteiro: Alice Winocour 
País: França 

Um filme sobre Charcot e a histeria. - 1885 

É bem conhecido o quadro retratando Charcot e seus histéricos na Salpêtriere. Foi onde Freud que foi seu aluno começou a questionar que nem tudo era físico, neurológico e que havia somatização, e que aquilo não era uma farsa ou chilique de mulheres.

O que caracteriza a crise histérica é o arco, a insensibilidade no corpo. Mas o que provoca isto? Foi o que Charcot buscava descobrir e mostrar que era real e que poderia ser curado pela hipnose.



Augustine (Stéphanie Sokolinski)  é uma jovem de 19 anos que sofre ataques histéricos, e acaba colaborando com Charcot ( Vincent Lindon) para as demonstrações aos pares para que fosse possível demonstrar que não se tratava de uma farsa. Outra versão afirmava que eram ataques demoníacos, que a pessoa estava possuída.



Augustine se cura ao final, mas Charcot tem uma relação sexual rápida com ela ao final. Fiquei me perguntando o por que desta cena, seria por que retrata o desejo, a insatisfação sexual, e significa justamente o aspecto da sexualidade da histeria? ou estamos diante do que ocorre na vida, um homem com poder, rico, famoso e uma jovem bonita e um corpo bem feito?

Gostei, Alice Winocour retira a áurea imaculada e nos mostra corajosamente o que de fato deveria ocorrer nestes hospitais.

Trailer:



Alice Winocour nasceu em 1976 em Paris, França 

FILME: OS AMANTES DO CAFE FLORE - 2006




Direção: IIan Duran Cohen - 2006
Duração: 104 min 
Título original: Les amants du Flore
País: França 

Sartre e Simone de Beauvoir.

Como já li toda a autobiografia de Simone, me vi diante da condensação de tudo isto. Toca em pontos principais e foca a relação dos dois. Há aspectos que são diferentes em seus livros que os retratados no filme.

Simone (Anna Mouglalis) é muito conhecida pelo O Segundo Sexo, e considerada feminista, mas eu me pergunto muitas vezes até onde foi esta tão alardeada liberdade? ou até que ponto ela se submetia muitas vezes aos caprichos de Sartre? Um amor absoluto e os outros contingentes. Sim, na teoria isto é maravilhoso, mas viver isto?
Ela sentiu desejo de se casar com Algren (Kal Weber), ter uma família, este homem que a amou e não tinha medo disto. Sartre deslizava.



Sartre (Lorànt Deutsch)  nunca deixou de ser um pequeno burgues, e dizia que Simone pensava como um homem. Mas ela vivia na sua sombra, mesmo com toda sua inteligência e saberes. Entendiam-se, é óbvio, não sabiam viver um sem o outro, precisavam-se, mas ela pagou um preço altíssimo pelo que chamou de liberdade.



Mas continuo admirando-a profundamente. Ela foi um modelo para mim em minha juventude. Eu dizia que gostava do existencialismo sob a ótica de Simone.

Assista ao filme legendado: http://www.youtube.com/watch?v=556Em7Z6Nl8 ou no site: http://filosofiaemvideo.com.br/filme-os-amantes-do-cafe-flores-legendado-portugues/


SIMONE DE BEAUVOIR E JEAN PAUL SARTRE 

IIan Duran Cohen nasceu em 1963 em Israel. Cresceu em Paris, na França. 

FILME: O QUARTO DO FILHO - 2001



Direção: Nanni Moretti - 2001 
Duração: 99 min
Título Original: La stanza del figlio 
País: Itália 

Ganhador do Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2001 

Giovanni (Nanni Moretti) é um psicanalista, seu filho Andrea (Giuseppe Sanfelice) morre num acidente.

No dia do acidente ao invés dele ir correr com o filho foi atender ao chamado de um paciente em sua casa que estava mal. Era domingo. Ele irá se culpar, acreditar que se tivesse ido correr poderia ter contido a vida, impedido a morte do filho. Começa a ter problemas com sua profissão, não consegue mais ouvir os pacientes, e sente raiva daquele que o chamou.



O quarto do filho onde ele era ele, Giovanni tenta recuperar o filho pelas coisas que ele gostava, fazia, tem uma imensa dificuldade em lidar com o luto e aceitar a morte. Deixa de ser analista. Não procura ajuda com outro profissional, o paciente de quem sente raiva deixa ele mesmo a análise, pois ele não tem coragem de dizer o que sente e assumir que não podia mais ouvi-lo.



Um filme sobre a dificuldade de aceitar, de compreender que a vida e a morte são faces da mesma moeda, e que não somos Deus, não podemos evitar o que não pode ser evitado. Não somos onipotentes.



Assista ao trailer: está em inglês


Nanni Moretti


Trilha sonora de Nicola Piovani

Nicola Piovani nasceu em 1946 em Roma, Itália. É compositor 

FILME: MÁ EDUCAÇÃO - 2004




Direção: Pedro Almodóvar - 2004
Duração: 106 min 
Título original: La mala educación 
Roteiro: Pedro Almodóvar
País: Espanha 

Durante uma crise criativa um cineasta recebe a visita de um rapaz que se identifica como seu amigo de infância e lhe traz um roteiro baseado nas experiências que ambos tiveram na infância num colégio. Ignácio (Gael García Bernal)  foi o primeiro amor do cineasta - Enrique (Fele Martínez) , que aceita fazer o filme, mas haverá revelações surpreendentes no decorrer do filme que trata do homossexualismo, mas também da pedofilia.



Revela a hipocrisia da sociedade em relação ao abuso sexual de menores, e ao mesmo tempo mostra o que ocorre dentro da igreja católica, tantas vezes envolvida em escândalos deste tipo.



A cena que mais me marcou foi o abuso na infância e quando ele corre e cai, um filete de sangue lhe desce dividindo seu rosto ao meio, dividindo sua vida no antes e no depois, cisão traumática.

A partir daí, nunca mais será a vida que ele poderia ter tido.

Assista ao trailer em espanhol






Pedro Almodóvar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha. É um dos cineastas mais premiados na história do cinema. 

Pequenos Cantores da Catalunia

Trilha Sonora de Alberto Iglesias

FILME: DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM - 2001


Direção: Julio Bressane - 2001
Duração: 90 min 
Roteiro: Júlio Bressane e Rosa Dias 
País: Brasil 

Um filme nacional que retrata o período de 1988/1989 em que Nietzsche viveu em Turim, quando escreveu seus textos mais famosos.
O filme é um monólogo de Nietzsche (Fernando Eiras) que fala de seus pensamentos, escritos e filosofia.



Para quem gosta de Nietzsche.

Veja o trailer:



Julio Bressane nasceu em 1946 no Rio de Janeiro 

FILME: A ESTRANHA PASSAGEIRA - 1942



Direção: Irving Rapper - 1942
Duração: 117 min 
Título original: Now, Voyager 
Roteiro: Olive Higgins e Casey Robinson 
País: Estados Unidos 

Adaptação da novela homônima de Olive Higgins Prouty. 

Filme selecionado para preservação pela biblioteca do Congresso Nacional dos EUA. 



É um filme antigo (1942) .Uma mãe perversa (Gladys Cooper) que quase destrói a filha Charlotte ( Bette Davis) . Só não o faz por que a cunhada percebe e leva um amigo psiquiatra para vê-la, Dr. Jaquith (Claude Rains). Ele aconselha o internamento dela, mas com o intuito de afastá-la da mãe. Ela não fica internada muito tempo. E depois vai fazer uma viagem e conhece Jerry ( Paul Henreid) por quem se apaixona . A mudança que se opera é enorme. A mãe de Charlote é autoritária, possessiva, não permite a filha ter escolhas, critica tudo nela, chantagista, e só quer o seu desejo sendo atendido. Foi a última filha e ela diz que o filho caçula vem ao mundo para cuidar da mãe. E que ela vai fazer o que ela quer. Ainda bem que a cunhada entra no meio destas duas. Depois ela retorna, mas nunca mais será como antes. Como a mãe percebe elas se confrontam, e neste momento sua chantagem funciona no real, ela morre. A mãe chega a se jogar da escada de propósito para se fazer de vítima e prender a filha. Há outra mãe que não aparece, mas que ouvimos falar dela, a mãe de Tina, uma menina, e esta é pior ainda, a rivalidade em relação ao pai é tão grande que ela quer se livrar da filha.
O quadro é típico: baixa auto-estima, medo, crises, afastamento e isolamento, revolta. O filme não chega a mostrar a psicose, não há delírios, nem alucinações, nem a percepção de que sou culpada, eu causei. Isto fica claro quando a mãe morre, no começo ela se sente culpada, mas depois aos poucos, voltando para a clínica, ela se liberta. E passa a trabalhar lá, e depois fica com Tina. No meio disto tudo uma história de amor impossível.





Irving Rapper nasceu em 1898 em Londres, Inglaterra e faleceu em 1999 em Los Angeles, EUA

Trilha sonora de Max Steiner 

Max Steiner nasceu em 1888 em Viena, Àustria e faleceu em 1971 em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi um compositor do cinema americano. 

FILME: MÃE E FILHA - 2011


Direção: Petrus Caryri - 2011
Duração: 80 min 
País: Brasil 

Prêmio melhor filme e roteiro no Cine Ceará



O filme nacional do cineasta Petrus Caryri me lembrou muito Lars Van Tries. Inclusive uma cena no filme de uma mulher num rio, muito parecido com Melancolia. 
Fátima (Juliana Carvalho) retorna ao sertão do Ceará com um filho natimorto para que receba a benção da avó (Zezita Matos), que assim o desejava, e para enterrá-lo perto da avó. O filme não tem música, ele é todo com os sons do lugar, vento, passos no chão de terra e pedras, os bichos, a rede que range, e a Rosa dos ventos que parece marcar o tempo com aquele pêndulo que bate, bate, bate. Tudo muito parado. 

A mãe mora ali, é uma vila abandonada, e ela ficou, não tem mais ninguém, só passantes. Ela espera ainda o marido que se foi há 20 anos, e ninguém sabe dele, se está vivo ou morto. Os rituais, cobrir o espelho, que depois a filha descobre para se olhar, velas, a avó dá um banho no natimorto com ervas, batiza-o com o nome do avô. Mas não o enterra. Nina-o, e diz para a filha que tudo tem seu tempo, que ela está apressada demais para ir embora. Aparecem 04 sertanejos, que num ritual almoçam, tomam vinho. Eu me lembrei dos quatro cavaleiros do apocalipse, mas pode ser que haja alguma tradição no Ceará que eu não conheço, uma crença, lenda.  Finalmente a filha se cansa, pega o natimorto enquanto a mãe dorme, e o leva para enterrar no altar da igreja destruída, onde tem o nicho da santa com ela lá. Coloca o natimorto neste nicho e o cobre com barro, ficando a santa junto. E vai embora, no caminho encontra os quatro sertanejos, começa a correr como se quisesse passar por eles. O filme termina. 

Solidão, falta de vida, de entorno, tudo parado, morto, marcado por um tempo que parece que não passa. Uma espera que não acaba mais, destinos entrelaçados. Pura melancolia. Apenas se espera morrer.
A mãe que não quer enterrar o filho, um morto insepulto, uma filha que quer enterrá-lo. Um morto insepulto me faz pensar num morto vivo ou numa vida morta. O neto está tão morto quanto a avó, pode ficar ali com ela. Ele seria uma possibilidade de continuar a viver para ela, mas já nasceu morto.  

Assista ao trailer:





Petrus Caryri nasceu em 1977 em Fortaleza, Ceará. 

FILME: SOMBRAS DE GOYA - 2006




Direção: Milos Forman - 2006
Duração: 118 min 
Título original: Goya's Ghosts / Los fantasmas de Goya 
Roteiro: Milos Forman e Jean-Claude Carrière
País: Espanha e Estados Unidos 


O filme não é exatamente sobre a vida do pintor Goya, apesar de retratar uma fase de sua vida, mas sobre sua arte dentro do contexto da época - 1792 - 1809.
O que se passa no filme, o que é filmado é o que está nas Gravuras de Goya, o que ele viu e retratou, pintou. É um filme sobre sua arte.
Goya pinta, retrata, desenha o real, não o que se espera que ele veja ou pinte. O quadro da rainha, por exemplo, ele não consegue fazer dela uma mulher mais bonita, pinta o que vê, e claro que a rainha não gostou.



O filme também nos mostra a época, a inquisição, o Santo Ofício, o jogo do poder, a igreja, a miséria, as prisões e hospícios. A revolução, as guerras e Napoleão e a revolta dos espanhóis contra este.



Tudo isto, a dor, a miséria, o poder, a loucura alimenta a pintura de Goya, são seus fantasmas.






Goya (Stellan Skarsgard) é reconhecido pela corte espanhola. É a época da invasão de Napoleão e da Inquisição. Sua musa Inés (Natalie Portman) é presa pela inquisição sob falsas acusações de heresia e nem mesmo Frei Lorenzo (Javier Bardem) consegue libertá-la, mas ele irá visitá-la e acabará por engravidá-la. Quando finalmente sai da prisão ela irá atrás de seu filho, todos a consideram louca, mas Goya irá acreditar nela.




Assista ao trailer:


Milos Forman nasceu em 1932 em Caslav, República Tcheca. Mudou-se para o Estados Unidos em 1968 e em 1977 naturalizou-se.

Trilha Sonora Varhan Orchestrovich Bauer de Praga


FILME: ELSA E FRED Um amor de paixão - 2005


Direção: Marcos Carnevale - 2005
Duração: 108 min
Título original: Elsa Y Fred 
Roteiro: Marcos Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin 
País: Argentina - Espanha 

Condor de Prata de melhor atriz para China Zorilla 

Dois octogenários. Fred (Manuel Alexandre)  viúvo há 7 meses, sempre teve uma vida muito organizada, trabalhou 40 anos na Telefônica, tudo sempre muito certinho e correto. Elsa (China Zorilla) , bom não é possível saber ao certo, ela tem uma imaginação febril, conta histórias, inventa. Ao final se descobre que tudo que contou é ao contrário.
Os filhos querem cuidar dos pais, mas são como Elsa chama o filho: a policia! controladores.



Nossa cultura ocidental vê os idosos como seres incapazes, que voltaram a ser crianças, que precisam ficar quietos, vendo TV, tricotando etc, ao contrário da oriental que respeita os idosos por sua sabedoria e experiência. Os idosos no ocidente não sabem mais nada, não desejam mais, e não podem andar por si mesmos. Ou então, pior, são totalmente abandonados para não terem que zelar, não disse cuidar, disse zelar, amor, carinho, deles. A relação saudável inexiste, ou são controlados ou abandonados.



Na realidade Elsa tem pouco tempo de vida, faz hemodiálise. Tem um sonho, ir a Roma e viver a cena do filme La Dolce Vita. Fred acha que não consegue fazer mais nada, acha que está doente e velho. Ela se apaixona por ele que aos poucos é conquistado, e ambos começam a se divertir e muito.

Os filhos? ficam pasmos! como? Quando Elsa apresenta Fred como seu namorado, sua nora nitidamente a reprova, como se isto fosse um total absurdo.

Elsa cria seu mundo, ela quer fugir do controle, do organizado, do previsível da vida. É divertida, seu carro é vermelho, ela ouve música enquanto dirige, seu celular é pink, dá calotes, fala muito. Talvez uma forma de lidar com a desilusão da vida. Ele que vivia na tristeza é capaz de se abrir novamente, ou talvez, pela primeira vez, à vida.

Ao final, contrariando os planos de seu genro que precisava de dinheiro para abrir mais um negócio que ele estava idealizando, Fred leva Elsa à Roma e realiza seu sonho.



Um belo filme sobre como nunca envelhecemos no espírito, no inconsciente, mas apenas no corpo, e que a qualquer tempo podemos viver e fazer coisas, realizar desejos, e desejar.



Recomendo.

Assista ao trailer:





Marcos Carnevale nasceu em 1963 em Córdoba, Argentina

Trilha sonora de Lito Vitale

Lito Vitale nasceu em 1961 em Villa Adelina, Argentina. É um músico, arranjador e pianista

LIVRO: HANNA E SUAS FILHAS - MARIANNE FREDRIKSSON




Objetiva, 1998
Tradução: Myriam Campello
312 páginas



O livro fala sobre três gerações fictícias de mulheres que viveram na Suécia entre o final do Séc.XIX até o final do Séc. XX. São elas: Hanna, a avó, Johanna, a mãe e Anna, a filha e que é quem nos conta a história.

A mãe de Anna está com Alzheimer, e ela encontra na casa dos pais uma foto de sua avó Hanna, vindo a se interessar pela história desta mulher, quem foi ela?

O livro nos mostra a história destas três mulheres, em suas épocas, e como se parecem com as nossas, no mundo de hoje. Os amores, filhos, o trabalho, a luta, a profissão, a família. Levanta a questão de ser mulher e de como isto muitas vezes pode ser difícil, doloroso, mas também prazeroso. Fala das relações entre as mulheres - avó, mãe, filha, neta, mas também mostra a força que é esta teia de ancestrais.

Ao mesmo tempo relata os acontecimentos de cada época, a política, a vida, os costumes, nos mostrando também o caminho percorrido pela mulher em sua busca por liberdade e poder viver de acordo com o que deseja.

Marianne Fredriksson é uma escritora sueca nascida em 1927 em Gotemburgo e que faleceu em 2007 na cidade de Estocolmo. Foi jornalista e somente em 1980 devido uma crise pessoal iniciou sua bem sucedida carreira de escritora. 

FILME: BIUTIFUL - 2010





Direção: Alejandro González Inárritu - 2010 
Duração: 147 min 
Roteiro: Alejandro Gonzáles Inárritu , Nicolás Giacobone e Armando Bo 
País: Espanha e México 

Prêmio de melhor ator para Javier Bardem no Festival de Cannes 2010 


É um filme que mostra a cidade do outro lado do espelho reluzente que todos adoram ver, principalmente Barcelona. O lado considerado negro por alguns e criminoso, marginal por outros, mas alto lá, o que o filme mostra é a realidade, a vida de milhares de pessoas é assim em muitas cidades. Para os que não se atrevem a chegar perto deste lado de uma cidade, é pavoroso, é crime e haverá muitas críticas. Imigrantes, o que vieram fazer aqui? Esquecem que no país deles há fome, guerra, falta de trabalho, e que são seres humanos e a terra lhes pertence tanto quanto. 

Ao saber que vai morrer, Uxbal ( Javier Bardem)  parece que continua com sua vida sem que isto se faça presente. Pode-se dizer que é o véu que temos para a morte. Só quando caímos e o corpo não reage mais a morte se faz presente para si mesmo. Enquanto ainda podemos comer, caminhar, falar...

Ele vive no meio da miséria, onde todos lutam para sobreviver, imigrados presos num porão, que trabalham por uma miséria explorados por outros de seu país. O filme é escuro, não há alegria, festas cheias de droga e sexo, bebida. A mulher dele Marambra (Maricel Álvarez)  é doente, e no final é internada novamente. Prostituição, corrupção.
Que vazio de palavras, de ouvir, de procurar ver o lado do outro, mas ao mesmo tempo ele tenta ajudar os outros, dentro do sistema em que vivem. Pode-se dizer que ele também explora, mas se arrisca junto, apesar de que ganha mais. Ali todos sabem o risco que correm ao vender produtos de contrabando. Não são bandidos, são seres humanos lutando para sobreviver, num mundo onde não conseguem um bom trabalho, um bom lugar para morar. Somente uma vez aparece a catedral de Barcelona em meio às brumas. Ela não pertence a este mundo. Temos uma Barcelona feia, triste, suja, com sofrimento. Tão diferente daquela que se vende ao mundo, aos turistas e aos que podem morar e viver nela em outros locais.

Mas temos Ige, acho que é assim seu nome, que ao final volta, poderia ter ido embora, e volta, vem cuidar dos filhos dele. Ela tinha dinheiro e poderia ter seguido seu caminho, mas como lidar com a culpa deste dinheiro. Seria suficiente a raiva que ela sentia dele, por culpá-lo de seu marido ter sido preso? Mas ele avisou, mas eles tinham alternativa, era só lá que vendia?

 A mãe deixa o filho de castigo. Este castigo é para o filho ou para ele? Que não foi e não disse por que. Que não lhe contou que estava morrendo de câncer? que não confiou nela. Que voltou para ela quando precisava dela, mas não moveu um dedo para reatar com ela. Ele queria ficar em paz para ter com quem deixar as crianças. Ninguém dá muita atenção a este menino, logo no começo ele fala ao pai que nem o ouve, sobre a roupa do astronauta. A filha tem que assumir um lugar que não é o dela. O anel que lhe passa ao dedo.

 E a morte. Ele sabe que vai morrer, será que tenta então melhorar algumas coisas para os outros para se sentir melhor? E compra aqueles aquecedores que quando vi entrando naquele porão adivinhei na hora o que iria ocorrer. Ele escolheu os mais baratos, para ficar com dinheiro, para deixar aos filhos. E seus filhos teriam ficado sem nada se Ige não volta. Iriam ficar sozinhos, a mãe internada, o pai morto. Igual a ele? que também perdeu o pai e a mãe? Pede a filha que nunca esqueça seu rosto. O rosto que ele precisou ver na exumação do corpo do pai. Um pai que não tinha rosto e passa a ter.

 O filme é a vida, o que ela é, sem enfeites, sem colorido, não há final feliz. O final é a morte. Sim, poderia haver uma certa alegria ali, mesmo com todas as dificuldades, mas só quem vive nesta situação sabe o quanto é difícil ser alegre e contente vivendo assim. Só tem duas cenas de alegria: Ana, sua filha, sorrindo para um bebê. O primeiro morre asfixiado, o segundo, é o filho de Ige. Não há prazer, pois até a viagem que era para ser algo alegre, prazeroso, perde seu encanto, quando ele não vai e a mãe deixa o filho. Não é mais a Disneylandia que a mãe desejava. Um mundo de sonho.   
Vidas onde não há o desejo, onde não há a paixão e o amor, nem mesmo na declaração de amor que ele fez a ela, quando conta aos filhos, e diz que ele enfiou o dedo no nariz dela. O desejo existe, mas não se realiza. E é a vida da maioria das pessoas.
O filme começa e termina no pós morte. O pai jovem, que o encontra, vai buscá-lo quando ele morre. Nem mesmo aí temos o paraíso. Mas temos uma coruja que expele uma bola de pelos, aquela, que nós carregamos dentro de nós a vida toda. E então ele pergunta: o que temos lá? precisamos morrer para saber.

Ele que passou a vida com medo do fundo, do escuro, da morte, e falava com os mortos, se encontra com ela, como todos nós, pois a morte está na vida e a vida na morte. Viver é beautiful, mas a vida não é beautiful, é no máximo, biautiful, uma aproximação, uma tentativa, de acertar. 

Trailer do filme:


Alejandro González Inárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México.

Música de Gustavo Santaolalla

Gustavo Santaolalla nasceu em 1951 em El Palomar, Argentina. É músico e compositor.