sábado, 28 de dezembro de 2013

FILME: HABEMUS PAPAM - 2011


Direção: Nanni Moretti - 2011
Duração: 102 min
País: Itália e França
Roteiro: Nanni Moretti - Francesco Piccolo e Federica Pontremoli
País: Itália - França 

Seleção Oficial de Cannes 2011 longa-metragem

Quando o papa (Michel Piccoli)  é eleito ele sofre uma crise de ansiedade, pânico na hora de falar ao público no balcão do Vaticano. Chamam um psicanalista (Nanni Moretti), mas ele irá ficar retido dentro do Vaticano, pois ninguém pode saber o que está acontecendo. Ele é separado de sua mulher, que também é psicanalista.


Ao tentar ouvir o Papa, isto se torna impossível, pois todos os cardeais ficam em volta, inviabilizando uma escuta e fala de analista/analisando. O papa tem sua vida cercada por todos, e tudo tem que ser de acordo com eles e com o protocolo.


Mas há um tom cômico no filme. O psicanalista e sua mulher também tem lá seus problemas. Ele diz que ela se separou dele por não suportar que ele fosse melhor que ela e que agora para ela tudo é negligência parental, mas grita com os filhos e esconde deles que tem um namorado. 
O Papa então em conluio com seu secretária vai a uma sessão com a esposa do analista, mas neste caminho, ele foge e desaparece. Porém, ele vai à consulta.


Seu sonho quando jovem era ter sido ator, mas não conseguiu, sua irmã foi aprovada, mas não ele. Ele é sozinho, cercado, não tem vida própria, não lembra de ninguém, a insatisfação e ausência de si mesmo, tudo isto colaborou para sua crise de ansiedade. 
Ao final ele retorna ao Vaticano mas renuncia ao cargo, diz que não nasceu para ser líder, mas para ser liderado. Ele não pode mais assumir seu desejo. 

Um fato interessante sobre este filme é que foi lançado pouco antes da renúncia de Bento XVI.

Assista ao trailer


Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália.

Trilha Sonora de Franco Piersanti

Franco Piersanti nasceu em 1950 em Roma, Itália. É um compositor e maestro. 

FILME: A GUERRA DO FOGO - 1981



Direção: Jean-Jacques Annaud - 1981
Duração: 100 min 
Título original: La guerre du feu
Roteiro: Gérard Brach 
País: França - Canadá 


Este filme me foi indicado em Filosofia, em Antropologia e em Psicanálise. Acabei assistindo sob estes viés, e não o biológico ou da evolução.

No início um grupo que não tem linguagem, solta sons, grunhidos, respondem às pulsões de imediato, o único sinal de cultura é o fogo, e que é roubado por outros. Começa a perseguição a quem roubou o fogo, pois se trata de uma questão de vida ou morte para eles.


Partem em três e o encontram com um grupo de canibais. Duas mulheres estão presas e uma delas foge. Ela os segue. Já fala mais. Onde ela vive, ao contrário do primeiro grupo onde tudo é rudimentar, já encontramos cabanas, tem um líder, artefatos de cerâmica e sabem como fazer fogo. Enquanto no primeiro grupo o sexo é animal, ocorrendo a qualquer momento e sempre com o homem por trás, neste grupo eles se olham.
Um dos que partiu em busca do fogo começa a sentir algo muito estranho para ele em relação a mulher. Ela vai embora e ele fica desesperado, quer que os companheiros entendam, não tem palavras, e uma das cenas mais bonitas do filme é justamente quando ele pega mato com as mãos e acaricia, abraça, tentando dizer que estava amando.
Um fato marcante, o primeiro grupo não sabe rir e estranham muito quando a mulher dá risada. O riso, o choro, é cultural, é social.



O filme se desenvolve na luta pelo fogo, mas ele retrata também a entrada na cultura e o surgimento do inconsciente estruturado pela linguagem. Pelo viés da biologia e da história seria a história da evolução do homem, o instinto de luta, de preservação, do sexo pela reprodução.

Assista ao trailer


Jean-Jacques Annaud nasceu em 1943 em Draveil, França. Teve sua entrada na China proibida por causa do filme Sete anos no Tibet. 

FILME: RENOIR - 2012




Direção: Gilles Bourdos - 2012
Duração: 112 min 
País: França

 Festival de Cannes 2012 - filme de encerramento

Uma cinebiografia dos últimos anos de vida do pintor Renoir (Michel Bouquet)  em 1915 quando ele vive na Côte D'Azur, já sofrendo de muitas dores devido a artrite, junto ao seu filho mais jovem e o outro, Jean (Vincent Rottiers) ,  volta ferido da guerra.


O filme vai tratar de um último alento que ele sente quando Andrée ( Christa Theret) entra em sua vida como modelo, rejuvenescendo-o. Seu filho Jean irá se apaixonar por ela.



Mas como acabo de ver Séraphine, não pude deixar de observar algumas diferenças entre os dois que me chamaram a atenção. Renoir pinta o externo, o que ele vê, ele precisa do modelo ou da paisagem, mesmo que ao pintar ele não siga isto de forma objetiva, pelo contrário. Quando ele olha uma paisagem no filme vemos que ele vê tudo em cores, como se a vista estivesse nublada, ele vê o verde das plantas e árvores se misturando ao vermelho do vestido. Ele diz: a estrutura não é o desenho, são as cores.

Renoir gosta de pintar coisas bonitas, que dão prazer. De ruim já basta a vida. Iniciou a vida como pintor de porcelanas, e considera a pintura um métier, prática, não se considera um artista.



O que me tocou no filme, fora a vida de Renoir, é seu filho caçula, sozinho, tem ódio do pai e de tudo ali. Culpa o pai por se envolver com suas modelos e ter feito sua mãe sofrer. O filme não trabalha isto, deixa apenas entrever, mas é difícil para um filho viver sob a sombra de um pai grande e famoso e que faz da pintura sua vida.



Assista ao trailer:



Pierre-Auguste Renoir

Gilles Bourdos nasceu em 1963 em Nice, França.

Trilha Sonora Alexandre Desplat 

FILME: SÉRAPHINE - 2008




Direção: Martin Provost - 2008
Duração: 125 min
Roteiro: Martin Provost e Marc Abdelnour 
País: França 

O filme é uma cineobiografia de Séraphine Louis (1864-1942) mais conhecida como Séraphine de Senlis que foi descoberta pelo marchand e colecionador Wilhelm Uhde que foi um dos primeiros a ver em Picasso o grande pintor que ele foi.



Séraphine (Yolande Moreau)  é uma doméstica, uma simples mulher do povo, órfã foi criada num convento. Um dia tem uma visão, seu anjo da guarda lhe diz que tem que pintar.
Ela cria obras maravilhosas, pinta com os dedos no chão, em telas que ela mesma faz, prepara suas tintas com o material que consegue, em seu pequeno quarto que aluga na vila onde mora na França.


Ela passa a trabalhar para Uhde (Ulrich Tukur)  que vem morar na vila e ele descobre suas obras, porém com a Primeira Guerra ele tem que fugir, pois é alemão. Quando a guerra termina, ele retorna e então investe nela, vende seus quadros, lhe dá dinheiro a sustentando, compra material para ela e Séraphine passa a se dedicar a sua arte.
1929 - a quebra da bolsa nos Estados Unidos balançam o mercado das artes, Uhde já não consegue mais vender obras e não tem como mantê-la da maneira que fazia. Ela volta a ouvir vozes e segue o que lhe dizem, se veste de noiva e sai pelas ruas distribuindo objetos nas casas, a polícia é chamada e ela é levada, considerada louca é internada. Uhde irá lhe dar todo apoio material de que necessita, terá um quarto só para ela no qual a janela tem uma vista para um bela árvore, o que ela adora, mas nunca mais pintará, diz que ali não é um lugar para isto, queria voltar para casa, mas não lhe permitem. Terminará seus dias no asilo para doentes mentais.



Suas telas são vivas, quem as olha sente algo se mexendo, é forte, é sensual, é a natureza.Ela pinta de memória, não precisa de uma paisagem à sua frente. É uma pintura perturbadora onde há o inconsciente se manifestando. Uma mulher ao olhar para um dos seus quadros dirá: parece que mexem tuas flores, é como se houvessem insetos ali.




 Ela é muito sensível a qualquer coisa que o outro lhe diga. Ela não teve mãe para se espelhar e se definir, e recebe o nome de um anjo - serafim, e é um anjo que lhe fala, sua mãe? As mulheres da vila são intrigueiras, riem dela, e a invejam também. Quem será que é melhor? mais normal? E eu me pergunto, é possível pintar como ela fez sem ter um pouco de loucura? E que loucura ruim é esta que leva uma pessoa a pintar e não fazer mal a ninguém?



Yolande Moreau está deslumbrante no papel de Séraphine.




Trailer em francês com legendas em inglês




Martin Provost nasceu em 1957 em Brest, França. 



Trilha sonora de Michael Galasso 

Johann Sebastian Bach - Die Kunst der Fuge 

Michael Galasso nasceu em 1949 em Hammond, Louisiana, EUA e faleceu em 2009 em Paris. Foi um compositor

Johann Sebastian Bach nasceu em 1685 em Eisenach, Alemanha e faleceu em 1750 em Leipzig, Alemanha. 

FILME: VOLVER - 2006


Direção: Pedro Almodóvar - 2006
Duração: 121 min 
Roteiro: Pedro Almodóvar
País: Espanha 

Ganhou vários prêmios entre eles: European Film Awards, Prêmio Goya, Festival de Cannes, Festival de San Sebastián, César entre outros.

Volver - Retornar - repetir

Um filme de Pedro Almodóvar que enfoca o feminino e o materno, dentro de uma repetição patológica do trauma.



A avó, a mãe e a filha. Raimunda ( Penélope Cruz) foi estuprada quando adolescente pelo pai, e deste incesto nasceu sua filha. Agora ela vive com um homem que assumiu a paternidade da garota, sem que esta saiba que ele não é seu pai. Mas a história se repete, e este tenta abusar da jovem, que para se defender o mata.

Raimunda assume este assassinato, porém há algo que vai muito além do que se poderia pensar, ou seja, que fosse uma mãe protegendo a filha e sendo generosa e altruísta com ela. O que ela realmente faz assumindo a morte do companheiro é se vingar do pai que a violou. Seu pai e o pai da adolescente que matou de fato.



Este pai assassinado de forma inconsciente pelo ato real da morte do padrasto na verdade foi realmente assassinado, pela mãe de Raimunda, sua mulher que se cansou de suas infidelidades.

O filme mostra como um trauma se repete por várias gerações, até que num determinado momento se coloque um fim nisto, e a melhor forma é falando a verdade. Os segredos criam seus fantasmas e sempre aparecem de novo. Somente quando fantasmas não choram é que se pode acessar a verdade.

Mas também fala da morte, e daquela que é social, que se divide. O ritual de lavar os túmulos para o dia de finados que se repete todos os anos e que é sempre feito por mulheres. Mas lavar túmulos também se associa a limpar, tirar as manchas, eliminar o sujo. Elas limpam obsessivamente, é um ritual de purificação.

Assista ao trailer em espanhol





Pedro Almódovar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha.

Música de Estrella Morente

Estrella Morente nasceu em 1980 em Las Gabias, Granada, Espanha. É uma cantora de flamenco. 

LIVRO: O SERMÃO SOBRE A QUEDA DE ROMA - JÉRÔME FERRARI



Ferrari, Jérôme. Editora 34, 2013 - 1ª Edição
Tradução: Samuel Titan Jr.
208 páginas

Prêmio Goncourt 2012

POR ONDE ANDA NOSSO DESEJO?

Belo livro sobre quando o destino altera o desejo, não o permite e quando nós mesmos abrimos mão dele.
Por um lado a Guerra. Contingência? Imposição do destino? Escolha de poucos! A guerra, este grande Outro
O livro trata do avô e do neto. O avô que luta pelos seus desejos e a vida os destrói. O neto perde os seus, se instala calmamente num mundo pequeno, restrito, que ele constrói e de onde ele não quer mais sair. Não aceita que nada interfira ou mude isto. Mesmo com as piores ocorrências, seu pai morrendo, seu melhor amigo assassinando outro, ele não se move. 
Descrição belíssima do que acomete o ser humano no seu egoísmo, quando outros o chateiam, odiar ter seu dia, sua agenda alterada por que outro adoeceu, sofreu um acidente, morreu! 
A ausência! não só do outro, a ausência da vida, do realizar, do criar. 
A mediocridade da vida, nascer, viver, morrer. E quantas vezes ter sua vida alterada por outro? Até mesmo um funcionário da aduana que para gozar do poder de autoridade destrói os sonhos de outro. 
Estamos sempre sujeitos ao gozo do Outro? e ao desejo do Outro?

Jérôme Ferrari nasceu em Paris, França,  em 1968. Formado em Filosofia pela Universidade de Paris atualmente é professor em de filosofia em Abu Dabi. 

FILME: INTOCÁVEIS - 2011




Direção: Eric Toledano, Olivier Nakache - 2011
Duração: 112 min 
Título original: Intouchables 
País: França 

Baseado no livro autobiográfico de Philippe Pozzo di Borgo - Le second souffle.

Philippe (François Cluzet) precisa de um auxiliar de enfermagem para ajudá-lo em sua rotina e escolhe Driss (Omar Sy) que acaba de sair da prisão e é senegalês e nunca foi enfermeiro antes.
Mas, não é apenas Driss que irá mostrar a Philippe uma nova maneira de olhar a vida, o inverso também ocorre, pois esta foi uma oportunidade para Driss também encontrar seu caminho, e desta forma poder escapar de um destino que provavelmente se repetiria ao longo de sua vida, pequenos furtos, prisão, drogas.
O que conta é a qualidade de vida e não a piedade ou cuidados exagerados, é acreditar que uma pessoa, mesmo tetraplégica ainda é um sujeito, com desejos, sentimentos e não é um intocável.



A cena que mais me tocou foi a do prazer na orelha, e a cena na ópera é hilária, rompe barreiras e o que se espera do outro, o comportamento correto e socialmente aceito.



Um filme sobre o desejo de viver, de arriscar, de tentar pelo menos. Mesmo com nossas limitações, impossibilidades há sempre outro caminho, outra via, e outras possibilidades, basta desejar e arriscar, por que viver é perigoso, mas também é prazeroso.

Assista ao trailer


Olivier Nakache nasceu em 1973 em Suresnes, Haustes-de-Seine, França e Eric Toledano nasceu em 1971 em Paris.

Trilha sonora de Ludovico Einaudi.

Ludovico Einaudi nasceu em 1955 em Turim, Itália. É um pianista e compositor de música erudita. 

FILME: AS AVENTURAS DE PI - 2012




Direção: Ang Lee - 2012
Duração: 127 min 
Título original: Life of Pi 
Roteiro: David Magee
País: Estados Unidos 

Venceu o Oscar de melhor diretor em 2013 

Adaptação do livro A vida de Pi de Yann Martel 

Talvez o melhor filme que assisti para abordar o trauma. Pi ( Suraj Sharma/Irrfan Khan)  se utiliza de uma metáfora para falar o que não consegue contar de outra forma e com isto superar um trauma.
A viagem ao inferno se transforma numa aventura, e Richard Parker não precisa ser vencido, ele se torna um aliado, que ajuda-o a sobreviver, após ser domado. Mas não esqueçamos que isto se passa dentro de Pi, é uma luta interior com este lado tigre que todos nós temos e que às vezes vem á tona e nos assusta.




Quando assisti ao filme senti que havia algo em mim que se angustiava, e eu não compreendia o que. Cheguei a sentir vontade de sair do cinema, o que nunca me ocorreu antes. O que era isto? Somente uma semana após ver o filme as coisas foram se acomodando e revelando a imensa riqueza do filme, onde ao não podermos falar de algo, no caso de PI, sobre sua mãe e tudo que ele viu e sentiu, e também o confronto com o agressor introjetado ou aquele que todos temos e aparece, é que pude perceber o motivo do meu mal estar inicial.

O filme oferece várias versões de compreensão, e cada um pode escolher a sua. Há a religião, há o pensar positivo e seguir em frente, e quantas se desejar mais. Porém, a minha foi esta, a metáfora para falar de algo e poder tirar de si toda a dor e o ódio que ele por um momento carregou dentro dele mesmo. A viagem de Pi é no fundo uma grande luta com ele mesmo, até que o Tigre se vá, e ainda assim, ele deixa um resto, um pequeno traço em Pi.



Assista ao trailer





Ang Lee nasceu em 1954 em Chaojhou , Pingtung - Taiwan. Primeiro de origem asiática a ganhar o Oscar de Melhor Diretor. Vive nos Estados Unidos. 


TRILHA SONORA 


MÚSICA DE MYCHAEL DANNA - trilha sonora 


Mychael Danna nasceu em 1958. É um compositor canadense

LIVRO: CARTA AO MEU FILHO - Ninguém ensina a ser mãe - BETTY MILAN



Milan, Betty .Record, 2013
160 páginas

SER MÃE É APRENDER A CADA DIA QUE PASSA.

Milan é corajosa, expõe a mulher e a mãe como ser humano. Mesmo sendo uma psicanalista, isto não implica que ela saiba tudo, e como agir. Pelo contrário, é tão humana quanto qualquer um. Ela percebe, mas no aprés-coup.
Milan nos fala de sua vida, de seus ancestrais, origem e de seu filho. Sobre ser mãe e da separação necessária. Um filho não é algo que nos pertença. Saramago diz que são emprestados por um tempo.E ela precisou aprender isto, a lidar com isto, deixar o filho ir e atender ao seu próprio desejo. E é aí que se mostra que mesmo sendo psicanalista e a análise sendo uma via de se chegar ao desejo e saber mantê-lo e suportá-lo, somos todos aprendizes, e quando se trata de um filho, queremos o melhor para ele, mas segundo o que nós achamos, e não o que este filho acha e deseja. Caminho difícil porém necessário.

Ela escreve este livro para dizer ao filho o que não pode dizer antes, e ele sai de casa para seguir sua vida. Um relato belo, delicado, mas também aberto, na tentativa de dizer que ser mãe é algo que aprendemos, e ser filho também.

Recomendo a todas as mães e a todos os filhos.

Betty Milan nasceu em 1944 em São Paulo. Formou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo e fez sua formação em psicanálise com Jacques Lacan na França. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: A VONTADE E A FORTUNA - CARLOS FUENTES



Fuentes, Carlos. Rocco, 2008
Tradução: Carlos Nougué
448 páginas


Começa pelo narrador estar morto, é sua cabeça cortada e lançada numa praia que conta sua história. Estamos diante do realismo mágico, fantástico latino americano. Um imaginário que existe devido as crenças, histórias, lendas, mitos, pois a ciência e a razão  ainda não se apoderaram  de nós totalmente.
O destino ou a roda da fortuna de um lado e a vontade e o necessário do outro.

Por ignorar o destino capitulam à ele. O poder do dinheiro e o poder político. Quem escolhe, é herege, como o Pe. Filápater ou Espinosa. Alguns conseguem transitar no meio como o advogado que serve aos dois lados. Uma alegoria do México moderno.

Carlos Fuentes nasceu em 1928 na Cidade do Panamá e faleceu em 2012 na Cidade do México. Foi um escritor e diplomata mexicano.

DOCUMENTÁRIO: O LONGO CAMINHO PARA CASA - 1997


Direção: Mark Jonathan Harris - 1997 
Duração: 120 min 
Título original: The Long way home. 

Narração de Morgan Freeman 

Oscar de melhor documentário de 1977. 

Examina o período após a Segunda Guerra Mundial de 1945 à 1948, o drama de milhares de sobreviventes do Holocausto que foram abandonados à sua própria sorte. 

Um documentário doloroso. Apesar dos aspectos guerra, política, cultura estarem ali, quero falar do lado humano, psicológico, pois a guerra é feita por pessoas.

Do início do século XX até sua metade tivemos a Primeira Grande Guerra, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Mas, nem o mundo, nem a história começam aí. A história dos judeus e do anti-semitismo é antiquíssimo. Povos oprimidos, explorados e subjugados faz parte da história humana.

A política do pós-guerra visava reconstruir e recuperar o poder. A Palestina existe há séculos, antes mesmo da Europa. Judeu não é uma nacionalidade, o judeu é francês, polonês, alemão, inglês etc. O muçulmano é árabe, iraniano, africano, e o católico também está presente em quantas nacionalidades. O ódio ao judeu está disseminado pela cultura, pelo social e pela palavra.

No filme um judeu diz: " é melhor ser um alemão derrotado do que um judeu libertado." E era verdade.

Os deslocados de guerra, quem tinha família, uma casa, aos poucos iam voltando, mas os judeus não tinham mais nada, nem casa, nem lugar, nem família. Só tinham a Palestina, com os árabes lá e sob domínio Britânico.

Quando os aliados entraram nos campos ficaram em choque, não estava preparados para o que viram. Mesmo tendo visto os horrores da guerra, mortes, mutilados, doenças, tendo que matar e morrer, não era pior que aquilo. Sentem repulsa, nojo, vomitam. Os judeus percebem e se afastam. Neste momento eles tomam consciência de seu estado. É sempre através do outro que nos vemos.

A falta de preparo, de médicos, ao serem libertados eles comem muito, desesperados, e morrem. O estômago explode. Sua imagem é terrível, são pele e ossos, olhos fundos, olheiras profundas e roxas. Quem presenciou disse que nunca mais eles poderiam ser normais, ter uma mente sadia.

Porém, sua luta ainda não tinha acabado, eles precisam de um lugar. Tentam ir para a Palestina, são impedidos, há cotas, o governo Britânico controla, não quer desagradar aos árabes que detém o petróleo. Muitos países também colocam cotas para a entrada de judeus. Eles são colocados novamente em campos. Fogem, tentativas de ir pelas montanhas, mulheres, crianças, velhos. Tentativas de ir pelo mar. Navios são bombardeados, levados de volta.

Estavam vivos, "livres" mas não tinham para onde ir ou o que fazer. Ficam apáticos, não recebem ajuda.

Quando chegavam aos EUA os americanos eram incapazes de compreender. Diziam que também sofreram, tiveram que entrar em filas para comprar cigarros. Ninguém quer ouvir e eles queriam falar. Aos poucos o silêncio se impôs, e o trauma ficou dentro de cada um, para ser transmitido aos descendentes.

Eles casam entre si para não ficarem sozinhos, querem filhos para dar continuidade e valer ter sobrevivido e renascido, é uma dívida.

No documentário a violência, a guerra, o sexo, e todas as emoções humanas de egoísmo, repulsa, inveja, mas também de bondade, generosidade e amor á vida aparecem. Os judeus sabiam que a vida não tinha sentido, era preciso construir um. O problema foi construí-lo sobre um trauma silenciado. O horror! A sensação de que o outro não quer ouvir, não acredita é terrível para o traumatizado. Ele mesmo não consegue acreditar que sobreviveu, não sabe nem por que sobreviveu.

Acho que até hoje não se compreende, nem os sobreviventes judeus, nem os alemães, só que ambos demonstram o real, o ser humano no que ele tem de pior e de melhor, do que é capaz. Nos depoimentos no filme percebe-se a força da voz, a entonação, daquele que quer falar, mas será que somos capazes de ouvir? Temos medo, horror e não conseguimos captar, então banalizamos e deletamos e com isto não aprendemos nada, nem podemos ajudar. Resta ignorar, criticar, julgar, apartar.

Talvez por isto que agora estão surgindo tantos livros e relatos de sobreviventes, eles precisaram deste tempo para conseguir falar e os outros para poder ouvir.


Mark Jonathan Harris nasceu em 1941 e é americano.