quarta-feira, 16 de julho de 2014

FILME: A AVÓ - 1940

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Direção: Frantisek Cáp - 1940 
Duração: 90 min 
Título Original: Babicka The grandmother 
Filme em preto e branco

Baseado no livro A Avó: uma história da vida rural na Boêmia, 1852 de Bozena Nemcová.

Eu já havia selecionado este filme para assistir, porém ontem iniciei a leitura de Inverno de Praga, de Madeleine Albrigth e logo no início ela fala do livro no qual o filme é baseado, e isto me inspirou a ver o filme hoje.

O livro A Avó foi uma das primeiras obras literárias sérias publicadas em tcheco. É a história de uma avó (Theresa Brzková)  que vai morar com uma filha e os netos que vivem no campo. Uma história singela, mas que traz muito dos costumes e tradições locais além das histórias desta avó maravilhosa que ensina muito sobre o viver.

Entre as tradições e lendas vemos no filme a avó acordar a neta com tapinhas na testa, para que a alma acordasse primeiro. O pão era sagrado, e pisar em uma única migalha faria as almas do purgatório chorarem. As visitas eram recebidas com o pão e sal.

A avó que todos desejamos é o que vemos no filme, a sabedoria, o amor, a ternura, e as histórias que elas contam.


Frantisek Cáp também conhecido como Franz Cap, nasceu em 1913 em Celákovice, Boêmia, na época Império Austro-Húngaro e faleceu em 1972 em Piran, atual Eslovênia (na época Iugoslávia). 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: CONSOLAÇÃO - BETTY MILAN



Milan, Betty. Record, 2009
165 páginas

Laura vive em Paris com seu filho e o marido Jacques que vive a agonia terminal de um câncer, levando-o a reviver os fantasmas da segunda guerra mundial, dentro de uma semi-consciência.

Após a morte de Jacques ela retorna ao Brasil, sua terra natal, mas ao chegar ao aeroporto não se dirige de imediato para sua família, mas antes ela vai para o centro de São Paulo e ao cemitério Consolação.

O título consolação adquire a ambivalência do nome do cemitério como também a significação do consolo, da aceitação, da consolação não apenas pela morte do marido, mas pelas misérias da vida.

Caminha pelo cemitério e conversa com os mortos, depois segue o conselho de seu pai, e vagueia pelas ruas, conversa com moradores de rua. É uma errância, um perder-se para se reencontrar. Ao ouvir os mortos e os que nunca são ouvidos se dá conta de que ninguém deixa realmente de existir porque morre.

A pessoa que partiu continua viva, ela vive em nós, nas nossas lembranças, memórias, nas coisas que deixou, que fez, ela continua sendo o que foi. É esta a consolação para a perda, e isto é o saber viver.

Betty Milan 

LIVRO: A VIAGEM DE THÉO - Romance das Religiões - Catherine Clément


Clément, Catherine. Companhia das Letras, 1998
625 páginas
Tradução: Eduardo Brandão
Título Original: Le voyage de Théo

Théo sofre de uma doença grave e sua tia Marthe se propõe a levá-lo em uma viagem que pode se transformar em sua cura. Esta viagem será pelos locais sagrados de todas as religiões e seus rituais, além de Théo ter que descobrir sempre qual será a nova etapa da viagem através de pistas, como num jogo.

Marthe e Théo viajarão pelo mundo passando pelos locais sagrados do catolicismo, hinduísmo, judaísmo, protestantismo, budismo, islamismo entre outras. Ele sempre gostou muito de livros e lia muito sobre religião, se perguntava como os homens criaram deuses e como estes podem influenciar na história dos homens. Então, é a oportunidade de ir aos locais que ele só conhecia pelos livros e vivenciar o sagrado.

Um romance sobre as religiões, sua história, fundamentos, crenças, rituais.

Catherine Clément nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, França. É autora de obras de filosofia, psicanálise e antropologia. Amiga de Claude-Levi Strauss que sempre lia seus romances antes que ela os publicasse. 

LIVRO: AMOR PARA SEMPRE - IAN McEWAN


McEwan, Ian. Rocco, 1999
259 páginas
Tradução: Paulo Reis
Título Original: Enduring Love

O que era para ser um belo momento de reencontro, amor de Joe com sua mulher que acabava de retornar de uma viagem acaba transformando para sempre a vida dos dois.

No momento em que está abrindo uma garrafa de vinho nas colinas de Chiltern onde estavam fazendo um piquenique eles ouvem um grito desesperado. Joe sai correndo e não ouve sua mulher alertando-o para ser cauteloso. Um balão a deriva, um homem e uma criança estão nele. Outros homens que estão por perto também correm. O homem se solta, mas a criança permanece no balão que começa a subir, todos ficam pendurados tentando segurá-lo até o instante que um deles o solta e os outros também, exceto um que permanece e terá um final trágico.

Um dos homens que segurou era Jed Parry, e no instante que eles cruzam o olhar a vida de Joe irá mudar. Jed se apaixona por Joe, é algo imediato, instantâneo, e se transforma numa obsessão que leva a loucura e perseguição.

O que fazer quando alguém se apaixona de uma forma patológica e encontra desculpas para toda e qualquer recusa do outro alegando que não é porque o outro não o ama, mas porque está sendo impedido, não pode? E como agir com sua esposa que não acredita em toda esta loucura?

A vida de Joe se transforma num inferno, uma loucura, ao ponto dele já não saber se está louco ou não. Se o que ele vê e percebe é real ou não. Nem nós leitores sabemos.

A história se desenvolve segundo os estágios da erotomania: a esperança, o despeito e o rancor.

Joe inicialmente se sente atraído pelo que está acontecendo, mas também sente repulsa. Como lidar com estes sentimentos? Quando Jed se torna violento é a vida de Joe e sua esposa que estão em risco, mas a polícia não acredita nele, nem sua esposa.

Como a vida pode mudar em questões de minutos, as contingências, algo não previsto, e o que fazer então?

O amor patológico, a obsessão, a incapacidade de agir na realidade, a erotomania, onde se cria um mundo e razões para tudo e não se escuta o outro. McEwan consegue nos levar junto, vamos vivendo o que se passa ao ponto de também não sabermos mais quem está dentro da realidade.


Ian McEwan nasceu em 1948 em Aldershot, Inglaterra

sexta-feira, 11 de julho de 2014

FILME: A MULHER CANHOTA - 1978



Direção: Peter Hadke 
Duração: 119 min 
Título original: Die Linkshändige Frau 

Baseado no livro homônimo de Peter Hadke 

Marianne (Edith Clever) é casada com Bruno (Bruno Ganz) e tem um filho Stephan. Sem expor nenhum motivo Marianne pede que Bruno vá embora após passarem a noite juntos, ela não quer mais viver com ele. Durante todo o filme não haverá uma explicação por parte dela sobre isto.

O que dizer sobre o filme? Fui tomada por uma sensação de monótono, de dia a dia, de melancolia. Estamos no pós-guerra, as paisagens são melancólicas, poucas pessoas nas ruas, bosques com árvores caídas, sem folhas, tudo é cinza com pouco colorido.

Bruno fica pasmo, não quer acreditar e tem dificuldade em aceitar. Ela não se incomoda. O filho parece sentir tudo isto, diz em um momento que ele também está triste, mas permanece em sua rotina, exceto pelo fato que toma o lugar do pai para proteger a mãe do editor que vem fazer uma visita. O pai escreve para o filho, e quando vai à casa não há cenas dele com o Stephan.

Marianne olha tudo e parece sempre estar fazendo uma reflexão, mas nada que altere sua vida de forma notória. Os outros não compreendem e insistem para que ela volte para o marido, o que ela não faz.

O filme mostra uma realidade, sem grandes feitos, o que ocorre no dia a dia. Nada de grandes encontros, festas, sonhos e ilusões, mas simplesmente o vazio inicial de uma separação, as dúvidas, os medos, mas também as descobertas que se faz pouco a pouco. Não concordo com alguns comentários sobre o filme que Marianne se torna independente,uma vez que permanece no seu conforto de sua casa e com uma conta bancária conjunta que lhe proporciona o que precisa, mas ela pode finalmente ocupar este espaço de forma independente, mudando as coisas de lugar, jogando fora o que não lhe interessa, mas há algo que me toca, ela sempre olha para fora, como se buscasse algo lá fora.

Ela passa a trabalhar como tradutora, e acaba se afastando das pessoas uma vez que elas a julgam e insistem para que volte para o marido. Ela passará pelo momento de reavaliar quando percebe outros casais juntos, famílias, sejam os vizinhos, na rua ou num filme que assiste. Mas permanecerá determinada em sua decisão.

É um filme que trata do real dentro da realidade, uma vez que não se trata da busca de uma ilusão de felicidade, mas apenas de uma decisão de uma mulher que precisa estar consigo mesma, sentir uma certa liberdade, poder fazer o que deseja, o que não significa o paraíso que muitos fantasiosamente buscam.

Talvez por isto seja um filme difícil de assistir e que causa incomodo, não nos vemos diante projeções de felicidade e sucesso, mas simplesmente diante da realidade sem fogos de artifício.

Gerard Depardieu faz uma pequena aparição no filme.



Peter Handke nasceu em 1942 em Griffen, Caríntia, Áustria. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

FILME: UMA CARTA AO PAI - 2009


Direção: Johnny Remo - 2009 
Duração: 90 min
Título original: A letter to dad

Baseado em fatos reais

Dan (Thom Mathews) está prestes a se casar e percebe que há algo não resolvido em relação a si mesmo que interfere na sua relação e casamento e que precisa se libertar do passado para poder continuar sua vida e ser feliz. Resolve então escrever uma carta ao seu pai Mike (John Ashton)  falando sobre tudo que sente, do abandono na infância e de suas dores em relação à isto.

Um filme que nos mostra que não se livra do passado tão facilmente, que ele permanece ali atuando de alguma forma e que é preciso enfrentar isto para se libertar.


Johnny Remo 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

FILME: OS BELOS DIAS - 2013


Direção: Marion Vernoux 
Duração: 94 min 
Título original: Les beaux jours 

Baseado no livro Une jeune fille aux cheveux blancs (Uma jovem mulher de cabelos brancos) de Fanny Chesnel

Dunquerque - França. Caroline (Fanny Ardant) se aposenta aos 60 anos logo após perder uma de suas melhores amigas. Fica meio perdida, não sabe o que fazer de seu tempo. Pensa em várias coisas que desejaria fazer, mas não o faz. Então suas filhas lhe oferecem de presente para participar de um clube - Les Beaux Jours, que se ocupa de pessoas de meia idade com cursos, aulas, palestras, teatro. É lá que ela conhecerá Julien (Laurent Laffite) que é um professor de informática e acabará tendo um caso com ele o que renovará sua vida, dando mais prazer ao seu cotidiano.

Caroline é casada com Philippe (Patrick Chesnais) e apesar de se darem muito bem é um casamento que já enfrenta os anos de convivência. Suas filhas se preocupam com a mãe lhe impondo coisas para fazer através de sugestões e o clube. Porém Julien que tem a idade de suas filhas lhe oferece muito mais neste momento de sua vida.

Não há julgamentos morais, Julien quer uma aventura, Caroline precisa de algo que mude sua vida, e Philippe terá que rever também sua vida e seu relacionamento com a mulher. O filme retrata o desgaste da relação conjugal, a busca de algo novo quando já se passou para uma idade onde muitos desistem e não acreditam mais ser possível uma paixão, uma aventura, fazer coisas novas e diferentes.

É notório a forma como os professores e instrutores do clube, todos jovens, tratam aos que são mais velhos como eles como se falassem com crianças ao invés de se dirigir a um adulto que já viveu muito mais do que eles. Há uma visão da cultura sobre a velhice que precisa ser contestada. Os participantes do clube, homens e mulheres querem encontrar formas de combater a solidão e o tédio, não precisam ser ensinados como se fossem crianças. Caroline o percebe e o diz, mas continua indo lá por causa de Julien, mas não se deixa levar por esta forma de ver o mundo.

Caroline irá demonstrar em seu corpo, no sorriso, sua alegria e felicidade após conhecer Julien. Ela terá outro olhar, outra maneira de olhar o mundo e o que tem pela frente ainda. A vida não se encerra na aposentadoria, e o exemplo vivo disto é quando encontra uma mulher no aeroporto que diz que ela é jovem, e ela retruca dizendo que tem 60 anos, e a outra responde que tem 84 anos, e ainda quer ir para a Islândia.

Pessoalmente me emocionei com a cena onde Caroline está sentada num banco tendo uma filha de cada lado, e ela se destaca ali, é uma bela mulher, cheia de vida, tem muito mais força e presença do que as filhas, que são jovens e sendo que uma delas não aceita muito bem esta mãe sexuada e que buscar algo novo para si.

Vale a pena assistir, um belo filme que nos mostra que a vida sempre tem algo a nos oferecer se estivermos dispostos a arriscar e mudar algo.

Fanny Ardant é viúva do cineasta François Truffaut


Marion Vernoux nasceu em 1966 na França. 

Shopie Hunger - Le vent nous portera 

Trilha sonora de Quentin Sirjacq 

LIVRO: MADAME FREUD - Um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa - NICOLLE ROSEN


Rosen, Nicolle. Verus Editora , 2008
210 páginas
Tradução: Marisa Rossetto
Título original: Martha F.

Nicolle Rosen, uma psicanalista, interessa-se por Martha Freud. Afinal quem seria esta mulher que viveu ao lado de Sigmund Freud e que parece não existir, exceto pelo fato de elogios sobre a vida doméstica, assegurando à Freud o sossego necessário para criar sua grande obra.

Rosen então resolve dar a palavra à Martha, e para que ela fale precisa de um interlocutor e assim surge Mary que ela conhece no dia do sepultamento de Freud e com quem irá manter uma correspondência assídua falando sobre sua vida e o que pensava.

É um romance porém está baseado em relatos, cartas, biografias, fotos, vários livros sobre a história da psicanálise, mas obviamente que os vazios serão preenchidos por palavras que poderiam ter sido de Martha.

Penso que se trate de um livro que deveria ser lido para se compreender o que é viver à sombra de alguém com tanto reconhecimento e que estava sempre rodeado de admiradores, discípulos e ocupava o lugar do pai, mestre, e também o de homem através de todas as transferências amorosas que suscitou. E Martha? o que ela fez de sua vida? de seu desejo?

Há passagens no livro que nos faz refletir sobre esta questão de amar e se sacrificar ao objeto amado, abrindo mão daquilo que somos e desejamos. Martha era judia e seguia a tradição e rituais em sua família, mas teve que abrir mão de tudo isto porque Freud não queria isto. Nunca era consultada para as grandes decisões e sofreu com a rivalidade com sua irmã Minna e com sua filha Anna Freud. Além de ter que lidar com a mãe autoritária de Freud a quem este era totalmente dedicado.

Freud cresceu sendo o preferido, adorado, com tudo correndo conforme sua vontade e assim permaneceu tendo grande dificuldade de lidar com aqueles que não aceitavam se submeter, como foi o caso de Jung. Até mesmo suas irmãs tinham que abrir mão de seus desejos por ele,como Anna que teve que desistir de seu piano pois o incomodava.

Ele era excessivamente ciumento e possessivo, afastou de Martha todos aqueles que ele considerava como rivais, seu irmão Eli, sua mãe, seus amigos. Mas por que ela aceitou isto? O amor? para agradá-lo? para ser amada por ele?

Mas a questão é Martha, na verdade nunca saberemos o que realmente ia em seu íntimo, mas será que foi feliz? Uma mulher que aos 35 anos tem que enfrentar a decisão de abstinência sexual por parte de seu marido, uma mulher que não participava de nada de sua vida profissional onde tantas outras mulheres estavam, que não acompanhava Freud em suas viagens, que não podia emitir nenhuma opinião.

Mas por que ela aceitou tudo isto? por que não se impôs, não lutou por seu desejo? É este o questionamento no livro quando ela está sozinha após a morte de Freud aos 85 anos. Pode uma mulher ser feliz apenas por ser casada com um homem notável?

A questão é até que ponto Martha sentiu o que a maioria das mulheres sentiria hoje, ou isto não foi uma questão no tempo em que ela viveu. Mas é válido tentar dar voz a esta mulher, uma vez que ela nunca pode falar enquanto esteve viva, tentar pelo menos dar a ela um reconhecimento após ter permanecido na obscuridade por toda sua vida.

Há passagens no livro onde é perceptível a interpretação dos fatos por Nicolle Rosen, uma visão sua sobre determinado assunto ou fato, mas que também são válidos para que se processe uma reflexão.


Nicolle Rosen é psicanalista e vive em Paris. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

FILME: A VIDA É BELA - 1997


Direção: Roberto Benigni - 1997
Duração: 116 min
Título original: La vita è bella 

Ganhou três Oscar de melhor ator, melhor filme estrangeiro e melhor trilha sonora

O Filme é dedicado à memória do pai de Roberto Benigni que foi para um campo de concentração e ao relatar sua experiência procurava amenizar as coisas para que os filhos não sentissem o que ele passou.

Anos 30/40, Guido (Roberto Benigni) é um judeu que se muda do campo para a cidade. Apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi)  e se casam tendo um filho chamado Josué Guido. Esta primeira parte do filme é leve, gostosa, cômica. Guido é alegre e brincalhão e diverte a todos. Porém a segunda guerra começa.

Guido e seu filho são capturados e levados para um campo de concentração, a mãe decide ir junto, mas será separada deles. Guido então decide amenizar esta dura realidade para seu filho e lhe diz que é tudo um jogo e que quem fizer 1000 pontos levará para casa um tanque de guerra.

Com isto ele muda a realidade vivenciada para seu filho do horror para a fantasia, da realidade para um jogo. Mas para Guido é o confronto com o Real indizível e que ele leva para a fantasia dentro de um quadro de horror e total desamparo, para que tanto ele quanto seu filho possam ainda de alguma maneira viver, o que ele conseguirá para seu filho.

Fico pensando no que ocorre a um sujeito em uma situação extrema como um campo de concentração, onde tudo que ele tinha antes, onde se sentia seguro, onde havia o familiar, desaparece. Ele não tem mais nenhum poder sobre si mesmo, está totalmente à merce do outro e de sua vontade. A realidade que se transforma num real terrível. Ele perde toda a ilusão que possuía e que dá colorido à vida e se vê diante do total desamparo. Como proteger seu psiquismo disto? a si mesmo e aos que ama?

E Josué? que viveu uma fantasia, onde ao final do filme ele se ilude achando que o tanque dos aliados que libertam o campo é seu prêmio? Mas por outro lado, qual seria o efeito devastador da crueza e o real do campo para uma criança? e quantas passaram por isto.

A questão é que Josué ao crescer irá se defrontar com a história e os relatos dos campos e irá perceber que viveu uma fantasia e pensará em seu pai. Há como escapar apesar de tudo a esta herança psíquica? principalmente quando se viveu ali? Mas ele poderá transformar esta fantasia em uma maneira de dar sentido ao que não tem sentido, ou seja, a vida. Quando se escolhe viver é preciso construir esta vida, é o desejo, e não o por que?.

Podemos tirar uma lição importante do filme, de como tentar sempre construir algo simbólico em torno do real, por pior que seja.

A atriz Marisa Paredes faz o papel de mãe da Dora.

Roberto Benigni nasceu em 1952 em Castiglion, Fiorentino, Itália. 


Trilha sonora de Nicola Piovani 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

FILME: QUANDO FALA O CORAÇÃO - 1945


Direção: Alfred Hitchcock - 1945
Duração: 118 min
Título original: Spellbound 

Filme Preto e branco 

Constance (Ingrid Bergman) é uma psicanalista em uma clínica. Sua vida é toda voltada ao trabalho e aos estudos até que chega o Dr. Edwardes (Gregory Peck) que vem substituir o atual diretor Dr. Alexander Brulov (Michael Chekhov) que sofreu um colapso e apesar de estar bem novamente terá que deixar o cargo.

Todos estranham o fato de Dr. Edwardes ser bem jovem, uma vez que já publicou um livro e é reconhecido com um grande profissional, mas não será apenas isto o estranho, ele tem algo com listras em tecidos brancos e também com tudo que é branco.

Constance se apaixona por ele, mas logo notará que há algo que não vai bem e então larga tudo para se ocupar apenas dele, e tentar curá-lo.

O filme irá tratar da psicanálise pela primeira vez com destaque uma vez que será ela quem possibilitará esclarecer o mistério no filme. E esta também é uma diferença nos filmes de Hitchcock onde sempre se trata de suspense e não de um mistério, e não há fatos ou dados para desvendar o crime, é preciso que o Dr. Edwardes, ou melhor John Ballentyne, se lembre do que ele se recusa a lembrar e bloqueia em seu inconsciente. Não há como descobrir nada antes que ele fale, e isto é a psicanálise. É um quebra-cabeça não de fatos ou pistas variadas encontradas ou observadas durante o filme, e sim das palavras, lembranças, sonhos de Ballentyne.

Há uma frase do analista de Constance que diz: as mulheres são as melhores analistas, até que se apaixonem e então se tornam as melhores pacientes. No livro As mulheres de Freud a autora complementa a frase dizendo que as melhores pacientes é que são as melhores analistas.

E o sonho de Ballentyne tem as imagens oníricas criadas por Salvador Dalí.


Alfred Hitchcock nasceu em 1899 em Leytonstone, Londres, Inglaterra e faleceu em 1980 em Bel Air, Los Angeles, EUA. É considerado o mestre dos filmes de suspense

Trilha sonora de Miklos Rozsa 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILME: A NEGOCIAÇÃO - 2012


Direção: Nicholas Jarecki - 2012
Duração: 107 min
Título original: Arbitrage

Robert Miller (Richard Gere) é um milionário que está com problemas em sua empresa e a está vendendo, mas às vésperas de fechar o negócio ele envolve-se em uma acidente de carro que mata sua amante. Para não atrapalhar seu negócio e manter sua imagem ele não assume a responsabilidade e foge do local, porém um investigador Michael (Tim Roth) não o deixará em paz.

Robert é casado com Ellen (Susan Sarandon) mas tem um caso com outra mulher, a que morre no acidente. Tudo parece perfeito, perfeito demais, uma vida em família, uma bela casa, são ricos, mas tudo isto é apenas a fachada. Robert não mede esforços para manter sua imagem custe o que custar.

Filme sobre moral, o que se faria no lugar de Robert? e de Ellen? é possível condenar?

Nicholas Jarecki nasceu em 1979 em Nova York, EUA.

Trilha sonora Cliff Martinez

Cliff Martinez nasceu em 1954 no Bronx, New York, EUA. É compositor e baterista

FILME: A ANTROPÓLOGA - 2011


Direção: Zeca Pires - 2011 
Duração: 90 min 

Na Costa da Lagoa em Florianópolis, num reduto açoriano Malu (Larissa Bracher) realiza sua pesquisa de doutorado em etnobotânica. Dona Ritinha (Sandra Ouriques), uma benzedeira local inicia Malu no aprendizado de uma cultura mística que os descendentes do açorianos mantém no local.

Ao acompanhar o tratamento de Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos) , filha do médico local, Malu entrará em contato com o sobrenatural que desafiará suas crenças científicas. Malu se verá entre a razão e a imaginação, o efeito do simbólico, das crenças, e também da magia. Malu irá se enfrentar e tomará um caminho do qual não há retorno e que a transformará.

Um filme sobre crenças e seus efeitos.


Zeca Pires (José Henrique Nunes Pires ) nasceu em 1961 em Florianópolis- SC. Realizou vários documentários e curtas sempre sobre a cultura de Santa Catarina, focando principalmente nos habitantes da Ilha de Florianópolis. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

FILME: O ÚLTIMO AMOR DE MR. MORGAN - 2013


Direção: Sandra Nettelbeck - 2013
Duração: 115 min
Título original: Mr. Morgan's last love. 

Baseado no romance "La doucer assassine" de Françoise Dorner.

Matthew Morgan (Michael Caine)  mora há alguns anos em Paris, nunca aprendeu a falar francês e acaba de perder sua esposa Joan (Jane Alexander). Três anos depois ele continua a viver em Paris, solitário, triste quando conhece Pauline (Clémence Poésy) num ônibus onde ela o ajuda. Tornam-se amigos. Pauline é uma professora de dança e ele começa a ir ao local e até tenta um passos de dança. Mas um dia ele não suporta a dor da perda de Joan e tenta o suicídio.

Morgan tem dois filhos que surgem neste momento. A filha karen (Gillian Anderson) não está preocupada com o pai, e o filho Miles (Justin Kirk) num primeiro momento não aceita Pauline, imagina coisas, mas tudo isto vai mudar.

Pauline perdeu seu pai muito cedo e tenta reencontrá-lo em Mattew e este por sua vez vê nela sua esposa, nos gestos, na luz que ela traz para os lugares onde está. Ambos são solitários e apesar da grande diferença de idade se entendem, o que já não ocorre entre Mattew e seus filhos. Há mágoas, culpas.

Ele sempre foi apaixonado por Joan, sua vida era ela, e nunca conseguiu se expressar para os filhos, ser amoroso com eles o que deixou um vazio,uma falta, principalmente para o filho.

Ambos se apoiam e buscam uma razão para viver no meio da solidão. Os conflitos familiares, os problemas que surgem, o silêncio que deixa restos que precisam ser falados para que haja uma chance de mudança, de restabelecer ou construir algo novo.

Um filme sobre família e seus desencontros, a solidão e o luto. Confesso que o final não me agradou muito, uma vez que após tentar o suicídio Matthew morre, de que? e então passa a fazer falta para Pauline como Joan fazia para ele. Parece um desfecho para dar um final à ele e resolver a questão de Pauline e Miles, mas então ele vai ver o filho e promete voltar.

O belo do filme é a relação entre Matthew e Pauline, um amor platônico, mas onde há o desejo dele, muito sutil, e ela que vê nele o pai, que também não deixa de ser o primeiro objeto de desejo da filha.

Sandra Nettelbeck nasceu em 1966 em Hamburgo, Alemanha.

Trilha Sonora de Hans Zimmer 

FILME: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE - 2014


Direção: Wes Anderson - 2014
Duração: 100 min 
Título original: The grand Budapeste Hotel 

Baseado em livros de Stefan Zweig.

No período entre guerras na fictícia República de Zubrowka encontramos Gustave (Ralph Fiennes), um célebre concierge que se tornou famoso pela forma como atendia seus hóspedes, principalmente as mulheres, idosas e ricas. Zero (Tony Revolori) é contratado como mensageiro e Gustave o toma sob sua proteção fazendo dele um aliado e futuro sucessor, além de obter sua admiração incondicional.

Uma de suas hóspedes, Madame D.(Tilda Swinton) tem uma premonição ao deixar o hotel, e pouco depois ela aparece morta, deixando um quadro famoso para Gustave o que ocasiona a raiva e perseguição de seu filho Dmitri (Adrien Brody) e familiares. Gustave irá roubar o quadro, mas será acusado injustamente de homicídio e terá que provar sua inocência com a ajuda de Zero.

Quem  conta a história é Zero, ou Moustapha (F. Murray Abraham), muitos anos depois quando o Grande Hotel já está em declínio e praticamente vazio e abandonado, a um escritor (Jude Law /Tom Wilfinson) , um alter-ego de Stefan Zweig, em cujos livros o filme é baseado.

A história se passa no século XX em torno dos anos 30 e o começo do fascismo na Europa. É o fim de uma época de glamour e sofisticação o que se percebe no filme com o início do relato de Zero até o momento, onde ele conta a história.

Como trabalhei na hotelaria por anos também gostei do filme por este lado.

Wes Anderson nasceu em 1969 em Houston, Texas, EUA.

Trilha Sonora - Alexandre Desplat 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

FILME: JULIA - 1977


Direção: Fred Zinnemann - 1977 
Duração: 117 min

Baseado no relato autobiográfico Peentimento de Lilian Hellman que se baseou na vida de Muriel Gardiner, uma militante do antifascismo e dos direitos da mulher, especialista em crianças criminosas, que foi analisada por  Ruth Mack-Brunswick e se tornou também uma psicanalista para criar uma suposta amiga que se chama Julia.

Julia (Vanessa Redgrave) e Lilian Hellman (Jane Fonda) eram amigas de infância. Julia era de uma família muito rica, mas era pouco amada. Vai estudar medicina em Viena. Lilian se torna uma escritora e vive com o escritor e intelectual Dashiell Hammett (Jason Robards).

Julia irá militar contra o fascismo e acabará sendo violentamente agredida perdendo uma perna. Ficarão anos sem se ver, mas quando Lilian vai à Moscou sua amiga lhe pede um enorme favor, transportar dinheiro que será usado contra o nazismo.

O filme é a história de duas mulheres diferentes, mas que permaneceram amigas até a morte. Durante o filme Lilian irá se recordar de momentos passados juntas na infância, de seus medos, inseguranças ao lado de Julia que era determinada, corajosa. Aos poucos Lilian irá enfrentando estes medos, mas sempre permanecerá por baixo aqueles sinais originários, como numa tela de pintura onde com o passar do tempo surgem por baixo da tinta que se apaga os traços que não foram seguidos pelo pintor, mas que assim mesmo, ficaram ali.

Meryl Streep faz o papel de Anne Marie.

Fred Zinnemann nasceu em 1907 em Rzeszów, Polônia e faleceu em 1997 em Londres, Inglaterra.