terça-feira, 22 de julho de 2014

FILME: A MELHOR OFERTA - 2013


Direção: Giuseppe Tornatore - 2013
Duração: 125 min
Título Original: La Migliore Offerta

Virgil Oldman (Geoffrey Rush) é um bem sucedido leiloeiro de obras de arte e antiguidades. É um homem só, com manias como usar luvas para não se contaminar, tem um armário repleto de luvas, e as usa inclusive para comer, ele não toca em nada nem em ninguém. Vive alheio aos outros, sem amigos, sem convívio social. Sai para jantar só, e no dia do seu aniversário o restaurante de onde é um cliente fiel lhe ofertam uma torta com uma vela acesa que Virgil fica olhando queimar, até explicar ao garçom que é supersticioso, e que seu aniversário é só no dia seguinte e ainda são 22:35hs. Ele se levanta e vai embora.

Sua grande paixão são as obras de arte, pinturas e as antiguidades, mas principalmente ele coleciona quadros de mulheres que ele guarda num cofre atrás do armário de luvas. Ele tem um colega, Billy, um pintor frustrado, que nunca foi reconhecido por Virgil que o ajuda na compra destas obras nos leilões que ele dirige.

Um dia ele é contatado por uma jovem órfã, Claire Ibetson (Sylvia Koeks)  que vive num velho casarão repleto de obras de arte e que deseja que ele seja o leiloeiro. A relação inicial é difícil, ele finge que é o assistente, mas acaba indo e fica intrigado porque a jovem que liga nunca aparece até que descobre que ela sofre de agorafobia. Ele será sensibilizado por isto, e tentará se aproximar dela.

Ir adiante tiraria o prazer de quem vai assistir ao filme e de seu desfecho que irá surpreender, mas o filme nos mostra o quanto pode ser cruel a solidão humana. Virgil sempre teve medo das mulheres, não sabia como se relacionar com elas, e ao mesmo tempo desconfiava de todos que se aproximavam dele. Claire irá mudar isto, mas a mesma sensibilidade e conhecimento que ele tem para ver se uma obra de arte é verdadeira ou não, será que ele terá com os sentimentos e com as pessoas?

A identificação entre eles, Virgil um solitário obsessivo, Claire sofre de agorafobia, ambos vivem sós e como que isolados do mundo e dos outros. Ele se dedica a colecionar quadros de mulheres que ficam num cofre onde somente ele pode admirá-las, ela uma escritora que usa um pseudônimo , tudo isto leva a uma transferência e projeção que cria representações e ilusões também. Quando a paixão se instala vem a idealização e a cegueira, pequenos detalhes passam desapercebidos, e somente depois serão notados.

Giuseppe Tornatore nasceu em 1956 em Bagheria, Itália. 


Trilha Sonora de Ennio Morricone 

Ennio Morricone nasceu em 1928 em Roma, Itália. É um compositor, arranjador e maestro

LIVRO: INVERNO DE PRAGA - Uma história pessoal de recordação e guerra, 1937 - 1948 - MADELEINE ALBRIGHT



Albright, Madeleine. 1ª ed. Objetiva, 2014
479 páginas
Tradução: Ivo Korytowski
Título original: Prague Winter: a personal Story of remembrance and war, 1937-1948

"ÀQUELES QUE NÃO SOBREVIVERAM, MAS NOS ENSINARAM COMO VIVER E POR QUÊ."

Madeleine Albright foi Secretária de Estado dos EUA e neste livro ela nos relata a história de sua família durante a Segunda Guerra Mundial, mas muito mais, ela nos conta a história da Tchecoslováquia e do Leste Europeu durante a guerra e também sobre o que ocorreu na Europa.

Albright era uma criança quando a guerra começou e somente muitos anos depois, quando seus pais já não viviam, ela tomou conhecimento do seu lado judaico e do destino de muitos de seus familiares. O livro é um relato sobre a guerra baseado numa extensa pesquisa, mas é também o relato pessoal de Madeleine e de sua família.

Achei interessantíssimo, pois temos muitas informações sobre os países da Europa Ocidental, mas pouco sobre o que ocorreu no Leste Europeu em países como Hungria, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, a antiga Ioguslávia entre outros.

O livro inicia com um relato sobre a história da Tchecoslováquia, de sua formação inicial, Boemia, Morávia, Eslavos, ainda sob o Império Austro-Húngaro. Conta as lendas e costumes, os principais heróis. Algo que eu pessoalmente desconhecia e me enriqueceu muito, me levando a assistir o filme "A Avó" que já postei aqui no Blog. São muitas informações interessantes e que enriquecem.

O relato inclui toda a diplomacia que não surtiu nenhum efeito sobre Hitler, nos ensina a ser mais perceptivos, a ter mais cuidado. Tanto Hitler como Stálin mentiam, enganavam, não cumpriam com sua palavra, mas os outros países também visavam seus interesses e neste jogo não perceberam diante do que estavam e o que poderia vir a ocorrer.

A família de Madeleine consegue se exilar na Inglaterra, mas muitos de seus familiares ficaram e depois morreram de fome, doenças ou nas câmaras de gás. Ela relata o bombardeio de Londres, e a luta para voltar à democracia e liberdade. Acompanha principalmente Benes no exílio e suas tentativas para manter a Tchecoslováquia como um país e livre após a guerra, o que infelizmente não ocorreu. Este país que havia atingido sua independência e se formado logo após o fim da Primeira Guerra teve curta duração.

Após o fim da Segunda Guerra o Leste Europeu passou a ser um satélite da Rússia, estavam atrás da Cortina de Ferro, e apesar de toda a luta a Tchecoslováquia também ficou ali. Neste momento a família de Madeleine que havia retornado à Praga e depois ido para Belgrado, numa Iugoslávia já sob a ditadura de Tito, acabou pedindo exílio aos Estados Unidos.

Um livro que trata da história, mas também de pessoas, de todas que arriscaram suas vidas, das que morreram, das que sobreviveram, que nos traz as decisões terríveis que tiveram que tomar, onde o contexto não permite decisões morais, e sim de sobrevivência. Não há como julgar, pois somos incapazes de responder o que faríamos na mesma situação. A guerra trouxe a tona o que há de pior no ser humano, mas também o que há de melhor.

Recomendo a leitura, um livro belíssimo, sobre uma vida , sobre várias vidas e sobre um momento trágico da história do mundo.

Madeleine Albright nasceu em 1937 em Smíchov, República Tcheca foi a 64ª Secretária de Estado dos Estados Unidos, tendo sido a primeira mulher no cargo. 

sábado, 19 de julho de 2014

FILME: ANNA - 2014



Direção: Jorge Dorado - 2014 
Duração: 99 min
Título Original: Mindscape 

Anna (Taissa Farmiga) é uma jovem de 16 anos muito inteligente e brilhante, que se recusa a comer. Sua mãe e seu padrasto procuram ajuda e um detetive John (Mark Strong) que trabalha com a memória assume o caso.

John consegue adentrar a memória das pessoas e estando lá ele observa o que acontece. Porém ele acaba de passar por uma situação difícil particular com sua esposa que por terem perdido o filho quis retornar ao passado quando ele ainda estava vivo o que acaba a desestruturando levando-a se suicidar em uma banheira.

Anna é problemática, já esteve envolvida em várias situações difíceis, inclusive com um professor de artes que foi preso por tirar fotos impróprias de Anna, com um amiga que foi envenenada e até a enfermeira que foi jogada da escada a culpa recai sobre ela que alega que querem acusá-la para se livrarem dela por causa da herança. Seu padrasto, caso ela fosse afastada, seria quem iria gerir sua fortuna.

Aos poucos John vai entrando na memória de Anna, mas ela é astuta, e sabe o que quer, manipulando inclusive sua memória e utilizando-se dos pontos fracos de John, o que ele descobre tarde demais. Mas ela gosta dele e acaba lhe dando a prova necessária para inocentá-lo quando ele se vê envolvido num crime que não cometeu. John aposta em abuso sexual infantil e nos traumas provenientes deste ato, mas estaria ele correto?

O filme é um suspense que abusa um pouco de cenas assustadoras, parecendo que vemos assombrações e vultos, mas ele reflete bem o que ocorre em uma terapia, de qualquer linha, onde há sempre transferência e contratransferência e quando um terapeuta está com problemas próprios isto acaba interferindo, uma vez que é o seu trauma que assume muitas vezes o que ele acredita ser do paciente.

A memória nem sempre é confiável, ela se cria, se recria, mas o que John aprende é que é preciso enfrentar a verdade, e neste caso, a sua verdade, em relação a sua esposa, o que no filme é simbolizado quando ele finalmente põe a venda a casa onde ocorreu sua tragédia pessoal.


Jorge Dorado nasceu em 1976 em Madrid, Espanha. 

FILME: DUAS VIDAS - 2013


Direção: Georg Maas - 2013
Duração: 97 min

Título original: Zwein Leben 

1990 - o murro de Berlin acabou de cair. Katrine (Juliane köhler) vive na Noruega há mais de 20 anos, casada com Bjarte (Sven Nordin),  tem uma filha e uma neta. Ela é uma das "filhas da guerra" que foram as crianças que nasceram de relações entre alemães e norueguesas durante a ocupação da Noruega na Segunda Guerra Mundial. Estas crianças foram retiradas de suas mães pelos nazistas e enviadas para serem arianos, acabaram em orfanatos.

Tudo ia muito bem até que um advogado lhe pede para testemunhar e a sua mãe Ase Evensen (Liv Ullmann)  num julgamento contra o Estado Norueguês a favor das crianças da guerra. A partir deste momento muitos segredos virão à tona.

Katrine teria fugido da Alemanha Oriental para encontrar sua mãe, Ase Evensen, mas ela carrega um segredo imenso. Num papel tanto de vítima como de culpada, não há como julgar Katrine.

O filme fala destas crianças que foram tiradas de suas mães e depois que a Alemanha perdeu a guerra foram discriminadas, pois também não eram bem vistas pela Noruega. Além disto trata da guerra fria e da espionagem, a Stasi - Serviço secreto da Alemanha Ocidental,  e agentes infiltrados em famílias norueguesas que até hoje não foram todos descobertos.

Um filme denso, que trata de vários temas em volta da Segunda Guerra e suas consequências seguida pela Guerra Fria. As escolhas, decisões tomadas durante uma guerra podem ser julgadas como os atos fora deste contexto? há realmente escolha em alguns momentos? e é triste ver que o que aconteceria à Katrine se sua escolha tivesse sido outra no começo de tudo o seu fim seria o mesmo que anos depois.


Georg Maas nasceu em 1960 em Aachen, Alemanha

sexta-feira, 18 de julho de 2014

FILME: ANTES DO INVERNO - 2014


Direção: Philippe Claudel - 2014 
Duração: 98 min
Título Original: Avant L'hiver. 

Paul (Daniel Auteuil) é casado com Lucie (Kristin Scott Thomas) e é um neurocirurgião e professor extremamente conceituado em sua profissão. Eles estão casados há muitos anos e tem um filho casado e uma neta. O dia a dia é monótono. Lucie cuida do jardim que é visitado pela sua beleza e ele se dedica totalmente a seu trabalho.Ambos tem um amigo, o psiquiatra Gérard (Richard Berry) que é apaixonado por Lucie e joga partidas de tênis com Paul onde sempre perde.

Um dia ele cruza com uma moça, Lou (Leila Bekhti) que lhe diz que o conhece, que ele operou sua apendicite quando ela era criança, o que ele não se recorda, mas a partir deste momento ele irá sempre se cruzar com esta moça. Ao mesmo tempo ele começa a receber buques de flores na clínica e em casa.

Os buques desencadeiam suspeitas e começam a surgir as questões de uma vida em comum onde o dia a dia e a monotonia acabou afastando o casal. Eles não conversam mais, há um vazio ali. Paul começa a pensar no que poderia ter sido sua vida, e Lou é algo que o comove e o faz pensar no antes, no passado, na vida como ele diz. O que ele não sabe é quem é realmente Lou.

Ele inicialmente desconfia desta moça, acha bizarro ela estar sempre onde ele está, e isto o tira de sua zona de conforto onde vivia. Aos poucos ele se aproxima dela, mas não da forma como ela espera, ele não a procura como mulher, para o sexo, mas sim, para tentar olhar para si mesmo e ao mesmo tempo o faz perceber que a velhice se aproxima, que seu casamento é frio, que o desejo sexual está morto.

Mas nem sempre tudo é o que parece e uma surpresa aguarda Paul em relação à Lou, apesar de que ele parece tê-la tocado uma vez que acabará tendo uma saída drástica para evitar que se concretize o planejado em relação à ele.

Há uma bela cena no filme, uma senhora que será operada de um tumor, ela pede à Paul que guarde os nomes de sua família, todos mortos no holocausto, com receio de se morrer estes nomes nunca tenham sido pronunciados, e se viver, eles podem desaparecer pois pode ser que o tumor que ela carrega seja eles.


Philippe Claudel 

FILME: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - 2008


Direção: Fernando Meirelles - 2008
Duração: 120 min
Título original: Blindness 

Baseado no romance homônimo de José Saramago

Aos poucos uma estranha cegueira chamada "cegueira branca" por deixar as pessoas vendo apenas uma superfície leitosa vai tomando conta de todos os moradores de uma cidade. Inicia com um motorista no trânsito e vai avançando e se espalhando.

O medo toma conta, a paranoia e começam a isolar as pessoas afetadas que acabam sendo deixadas à própria sorte. Porém, uma única mulher (Julianne Moore), esposa do médico oftalmologista (Mark Rufallo) não fica cega, mas para não deixar seu marido sozinho, ela finge estar cega.

Ao se darem conta que estão abandonados os internos começam a lutar por suas necessidades básicas, e os piores instintos e pulsões irão aparecer. As máscaras civilizatórias caem, e tudo aquilo que uma cultura e educação reprime surge. Um dos internos se proclama rei e é ajudado pelo único ali que é realmente cego, irão exigir dos outros que seus desejos sejam realizados.

A cegueira branca, ou seja, o que não enxergamos na vida, ou o que não queremos enxergar, o pior de cada um de nós que só vemos no outro. A mulher que enxerga ainda é uma representante da luz, da civilização, mas até ela, ao ver o que não quer sucumbe. É preciso reaprender a viver, a enxergar as coisas como elas são e não como desejamos que sejam.

É um viver sem moral o que acontece no sanatório, mas é justamente quando se defrontam com o real é que surge a possibilidade de reconstruir algo. Talvez seja otimismo demais, mas não deixa de ser uma tentativa.


A reação de Saramago ao filme 

Fernando Meirelles nasceu em 1955 em São Paulo, Capital. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

FILME: BORDADEIRAS - 2004



Direção: Éléonore Faucher - 2004 
Duração: 89 min
Título original: Brodeuses

Recebeu o grande prêmio da semana da crítica no Festival de Cinema de Cannes 2004. Foi nomeado para 03 Césares - Melhor atriz secundária - Ariane Ascaride, Melhor esperança feminina - Lola Naymark e melhor Primeira Obra.

Uma jovem de 17 anos Claire (Lola Naymark) está grávida e esconde isto de todos, inclusive dos pais com os quais não vive mais. Ela pretende dar a luz como anônima e dar a criança para adoção, mas precisa sair do supermercado onde trabalha e para isto inventa que está doente e tem um câncer, obtendo uma licença médica.

É uma jovem trabalhadora que também borda, mas que no fundo está desesperada com seu estado e sem apoio, e que precisa trabalhar. Para isto ela procura uma bordadeira Mme. Melikian (Ariane Ascaride) que acaba de perder seu filho num acidente de moto e lhe pede trabalho.

Aos poucos entre um ponto e outro estas duas mulheres irão se aproximando como tecendo uma teia de afetos em cada gesto de cada uma, e se estabelecerá uma relação de mãe e filha, o que Claire não tinha, uma vez que sua mãe nem mesmo percebe que ela está grávida quando a vai ver por saber que ela está doente. É na medida que os bordados também evoluem, ficam mais requintados que a relação também se aprimora, assim como a bariga cresce e aquele bebe que como diz Claire durante o dia se esconde, mas que à noite aparece e encontra seu conforto, vai também ganhando um espaço no afeto destas mulheres.

Éléonore Faucher é francesa 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

FILME: A VIDA DURANTE A GUERRA - 2009


Diretor: Todd Solondz - 2009
Duração: 94 min
Título original: Life during Wartime.

Minha primeira experiência com o cinema de Todd Solondz, e não sabia que havia o filme Felicidade ao qual este dá continuidade, mas é possível assistir A vida durante a guerra separadamente.

A família "normal" com tudo que ela tem de anormal, de problemas, passado, dificuldades, traumas, mas que apesar de tudo tenta viver e viver bem e ser feliz. Três irmãs, Joy, Trish e Helen, cada uma com seus problemas.

Joy (Shirley Henderson) me parece desejar salvar o mundo, há um momento em que ela diz que nem todos os terroristas e estupradores são maus, mas os dois homens com quem se relacionou se suicidam. Trish (Allison Janney) tenta reconstruir sua vida com outro homem anos depois de Bill (Ciarán Hinds), seu marido e pai de seus três filhos ter sido preso por pedofilia e Helen (Ally Sheedy)que se afastou de todos e se sente pressionada pela família e por sua carreira e sucesso.

E a grande questão: perdoar ou esquecer? perdoar para poder esquecer? ou esquecer e não perdoar?

Bill ao sair da cadeia procura seu filho mais velho, quer ter certeza de que ele não será como ele. Seu filho do meio vive a angústia de descobrir que seu pai não morreu e que é pedófilo. Trish havia dito que ele havia morrido e Bill acha que é o melhor. Tem um encontro breve com uma mulher (Charlotte Rampling) com quem consegue um pouco de dinheiro para ir até onde está o filho e depois desaparece.

Vários temas num mesmo filme que poderiam ser mais explorados, mas mesmo assim é um retrato deste mundo meio caótico, sem muito sentido onde todos tentam de alguma forma levar uma vida normal, mesmo diante de questões que não são nada normais.

A questão da pedofilia não é explorada a fundo, mas não deixa de transparecer as consequências, neste caso na família do pedófilo. O filho mais velho que lida com isto estudando antropologia e a questão da homossexualidade em animais, o filho do meio que quando se defronta com a verdade tem que obter respostas e que no fundo só desejava um pai. O medo da mãe que faz com que o filho tenha que gritar a qualquer toque de outro homem, o que causa um constrangimento e mal entendido com seu namorado, que só abraça o menino carinhosamente. O pai que tem medo que seu filho siga pelo mesmo caminho. Por que no fundo a pedofilia, apesar de ser um crime também precisa ser tratada, e o pai pagou pelo seu crime dentro da lei, mas assim mesmo as consequências ficam.


Todd Solondz nasceu em 1959 em Newark, New Jersey, EUA. 

FILME: A AVÓ - 1940

´
Direção: Frantisek Cáp - 1940 
Duração: 90 min 
Título Original: Babicka The grandmother 
Filme em preto e branco

Baseado no livro A Avó: uma história da vida rural na Boêmia, 1852 de Bozena Nemcová.

Eu já havia selecionado este filme para assistir, porém ontem iniciei a leitura de Inverno de Praga, de Madeleine Albrigth e logo no início ela fala do livro no qual o filme é baseado, e isto me inspirou a ver o filme hoje.

O livro A Avó foi uma das primeiras obras literárias sérias publicadas em tcheco. É a história de uma avó (Theresa Brzková)  que vai morar com uma filha e os netos que vivem no campo. Uma história singela, mas que traz muito dos costumes e tradições locais além das histórias desta avó maravilhosa que ensina muito sobre o viver.

Entre as tradições e lendas vemos no filme a avó acordar a neta com tapinhas na testa, para que a alma acordasse primeiro. O pão era sagrado, e pisar em uma única migalha faria as almas do purgatório chorarem. As visitas eram recebidas com o pão e sal.

A avó que todos desejamos é o que vemos no filme, a sabedoria, o amor, a ternura, e as histórias que elas contam.


Frantisek Cáp também conhecido como Franz Cap, nasceu em 1913 em Celákovice, Boêmia, na época Império Austro-Húngaro e faleceu em 1972 em Piran, atual Eslovênia (na época Iugoslávia). 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: CONSOLAÇÃO - BETTY MILAN



Milan, Betty. Record, 2009
165 páginas

Laura vive em Paris com seu filho e o marido Jacques que vive a agonia terminal de um câncer, levando-o a reviver os fantasmas da segunda guerra mundial, dentro de uma semi-consciência.

Após a morte de Jacques ela retorna ao Brasil, sua terra natal, mas ao chegar ao aeroporto não se dirige de imediato para sua família, mas antes ela vai para o centro de São Paulo e ao cemitério Consolação.

O título consolação adquire a ambivalência do nome do cemitério como também a significação do consolo, da aceitação, da consolação não apenas pela morte do marido, mas pelas misérias da vida.

Caminha pelo cemitério e conversa com os mortos, depois segue o conselho de seu pai, e vagueia pelas ruas, conversa com moradores de rua. É uma errância, um perder-se para se reencontrar. Ao ouvir os mortos e os que nunca são ouvidos se dá conta de que ninguém deixa realmente de existir porque morre.

A pessoa que partiu continua viva, ela vive em nós, nas nossas lembranças, memórias, nas coisas que deixou, que fez, ela continua sendo o que foi. É esta a consolação para a perda, e isto é o saber viver.

Betty Milan 

LIVRO: A VIAGEM DE THÉO - Romance das Religiões - Catherine Clément


Clément, Catherine. Companhia das Letras, 1998
625 páginas
Tradução: Eduardo Brandão
Título Original: Le voyage de Théo

Théo sofre de uma doença grave e sua tia Marthe se propõe a levá-lo em uma viagem que pode se transformar em sua cura. Esta viagem será pelos locais sagrados de todas as religiões e seus rituais, além de Théo ter que descobrir sempre qual será a nova etapa da viagem através de pistas, como num jogo.

Marthe e Théo viajarão pelo mundo passando pelos locais sagrados do catolicismo, hinduísmo, judaísmo, protestantismo, budismo, islamismo entre outras. Ele sempre gostou muito de livros e lia muito sobre religião, se perguntava como os homens criaram deuses e como estes podem influenciar na história dos homens. Então, é a oportunidade de ir aos locais que ele só conhecia pelos livros e vivenciar o sagrado.

Um romance sobre as religiões, sua história, fundamentos, crenças, rituais.

Catherine Clément nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, França. É autora de obras de filosofia, psicanálise e antropologia. Amiga de Claude-Levi Strauss que sempre lia seus romances antes que ela os publicasse. 

LIVRO: AMOR PARA SEMPRE - IAN McEWAN


McEwan, Ian. Rocco, 1999
259 páginas
Tradução: Paulo Reis
Título Original: Enduring Love

O que era para ser um belo momento de reencontro, amor de Joe com sua mulher que acabava de retornar de uma viagem acaba transformando para sempre a vida dos dois.

No momento em que está abrindo uma garrafa de vinho nas colinas de Chiltern onde estavam fazendo um piquenique eles ouvem um grito desesperado. Joe sai correndo e não ouve sua mulher alertando-o para ser cauteloso. Um balão a deriva, um homem e uma criança estão nele. Outros homens que estão por perto também correm. O homem se solta, mas a criança permanece no balão que começa a subir, todos ficam pendurados tentando segurá-lo até o instante que um deles o solta e os outros também, exceto um que permanece e terá um final trágico.

Um dos homens que segurou era Jed Parry, e no instante que eles cruzam o olhar a vida de Joe irá mudar. Jed se apaixona por Joe, é algo imediato, instantâneo, e se transforma numa obsessão que leva a loucura e perseguição.

O que fazer quando alguém se apaixona de uma forma patológica e encontra desculpas para toda e qualquer recusa do outro alegando que não é porque o outro não o ama, mas porque está sendo impedido, não pode? E como agir com sua esposa que não acredita em toda esta loucura?

A vida de Joe se transforma num inferno, uma loucura, ao ponto dele já não saber se está louco ou não. Se o que ele vê e percebe é real ou não. Nem nós leitores sabemos.

A história se desenvolve segundo os estágios da erotomania: a esperança, o despeito e o rancor.

Joe inicialmente se sente atraído pelo que está acontecendo, mas também sente repulsa. Como lidar com estes sentimentos? Quando Jed se torna violento é a vida de Joe e sua esposa que estão em risco, mas a polícia não acredita nele, nem sua esposa.

Como a vida pode mudar em questões de minutos, as contingências, algo não previsto, e o que fazer então?

O amor patológico, a obsessão, a incapacidade de agir na realidade, a erotomania, onde se cria um mundo e razões para tudo e não se escuta o outro. McEwan consegue nos levar junto, vamos vivendo o que se passa ao ponto de também não sabermos mais quem está dentro da realidade.


Ian McEwan nasceu em 1948 em Aldershot, Inglaterra

sexta-feira, 11 de julho de 2014

FILME: A MULHER CANHOTA - 1978



Direção: Peter Hadke 
Duração: 119 min 
Título original: Die Linkshändige Frau 

Baseado no livro homônimo de Peter Hadke 

Marianne (Edith Clever) é casada com Bruno (Bruno Ganz) e tem um filho Stephan. Sem expor nenhum motivo Marianne pede que Bruno vá embora após passarem a noite juntos, ela não quer mais viver com ele. Durante todo o filme não haverá uma explicação por parte dela sobre isto.

O que dizer sobre o filme? Fui tomada por uma sensação de monótono, de dia a dia, de melancolia. Estamos no pós-guerra, as paisagens são melancólicas, poucas pessoas nas ruas, bosques com árvores caídas, sem folhas, tudo é cinza com pouco colorido.

Bruno fica pasmo, não quer acreditar e tem dificuldade em aceitar. Ela não se incomoda. O filho parece sentir tudo isto, diz em um momento que ele também está triste, mas permanece em sua rotina, exceto pelo fato que toma o lugar do pai para proteger a mãe do editor que vem fazer uma visita. O pai escreve para o filho, e quando vai à casa não há cenas dele com o Stephan.

Marianne olha tudo e parece sempre estar fazendo uma reflexão, mas nada que altere sua vida de forma notória. Os outros não compreendem e insistem para que ela volte para o marido, o que ela não faz.

O filme mostra uma realidade, sem grandes feitos, o que ocorre no dia a dia. Nada de grandes encontros, festas, sonhos e ilusões, mas simplesmente o vazio inicial de uma separação, as dúvidas, os medos, mas também as descobertas que se faz pouco a pouco. Não concordo com alguns comentários sobre o filme que Marianne se torna independente,uma vez que permanece no seu conforto de sua casa e com uma conta bancária conjunta que lhe proporciona o que precisa, mas ela pode finalmente ocupar este espaço de forma independente, mudando as coisas de lugar, jogando fora o que não lhe interessa, mas há algo que me toca, ela sempre olha para fora, como se buscasse algo lá fora.

Ela passa a trabalhar como tradutora, e acaba se afastando das pessoas uma vez que elas a julgam e insistem para que volte para o marido. Ela passará pelo momento de reavaliar quando percebe outros casais juntos, famílias, sejam os vizinhos, na rua ou num filme que assiste. Mas permanecerá determinada em sua decisão.

É um filme que trata do real dentro da realidade, uma vez que não se trata da busca de uma ilusão de felicidade, mas apenas de uma decisão de uma mulher que precisa estar consigo mesma, sentir uma certa liberdade, poder fazer o que deseja, o que não significa o paraíso que muitos fantasiosamente buscam.

Talvez por isto seja um filme difícil de assistir e que causa incomodo, não nos vemos diante projeções de felicidade e sucesso, mas simplesmente diante da realidade sem fogos de artifício.

Gerard Depardieu faz uma pequena aparição no filme.



Peter Handke nasceu em 1942 em Griffen, Caríntia, Áustria. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

FILME: UMA CARTA AO PAI - 2009


Direção: Johnny Remo - 2009 
Duração: 90 min
Título original: A letter to dad

Baseado em fatos reais

Dan (Thom Mathews) está prestes a se casar e percebe que há algo não resolvido em relação a si mesmo que interfere na sua relação e casamento e que precisa se libertar do passado para poder continuar sua vida e ser feliz. Resolve então escrever uma carta ao seu pai Mike (John Ashton)  falando sobre tudo que sente, do abandono na infância e de suas dores em relação à isto.

Um filme que nos mostra que não se livra do passado tão facilmente, que ele permanece ali atuando de alguma forma e que é preciso enfrentar isto para se libertar.


Johnny Remo 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

FILME: OS BELOS DIAS - 2013


Direção: Marion Vernoux 
Duração: 94 min 
Título original: Les beaux jours 

Baseado no livro Une jeune fille aux cheveux blancs (Uma jovem mulher de cabelos brancos) de Fanny Chesnel

Dunquerque - França. Caroline (Fanny Ardant) se aposenta aos 60 anos logo após perder uma de suas melhores amigas. Fica meio perdida, não sabe o que fazer de seu tempo. Pensa em várias coisas que desejaria fazer, mas não o faz. Então suas filhas lhe oferecem de presente para participar de um clube - Les Beaux Jours, que se ocupa de pessoas de meia idade com cursos, aulas, palestras, teatro. É lá que ela conhecerá Julien (Laurent Laffite) que é um professor de informática e acabará tendo um caso com ele o que renovará sua vida, dando mais prazer ao seu cotidiano.

Caroline é casada com Philippe (Patrick Chesnais) e apesar de se darem muito bem é um casamento que já enfrenta os anos de convivência. Suas filhas se preocupam com a mãe lhe impondo coisas para fazer através de sugestões e o clube. Porém Julien que tem a idade de suas filhas lhe oferece muito mais neste momento de sua vida.

Não há julgamentos morais, Julien quer uma aventura, Caroline precisa de algo que mude sua vida, e Philippe terá que rever também sua vida e seu relacionamento com a mulher. O filme retrata o desgaste da relação conjugal, a busca de algo novo quando já se passou para uma idade onde muitos desistem e não acreditam mais ser possível uma paixão, uma aventura, fazer coisas novas e diferentes.

É notório a forma como os professores e instrutores do clube, todos jovens, tratam aos que são mais velhos como eles como se falassem com crianças ao invés de se dirigir a um adulto que já viveu muito mais do que eles. Há uma visão da cultura sobre a velhice que precisa ser contestada. Os participantes do clube, homens e mulheres querem encontrar formas de combater a solidão e o tédio, não precisam ser ensinados como se fossem crianças. Caroline o percebe e o diz, mas continua indo lá por causa de Julien, mas não se deixa levar por esta forma de ver o mundo.

Caroline irá demonstrar em seu corpo, no sorriso, sua alegria e felicidade após conhecer Julien. Ela terá outro olhar, outra maneira de olhar o mundo e o que tem pela frente ainda. A vida não se encerra na aposentadoria, e o exemplo vivo disto é quando encontra uma mulher no aeroporto que diz que ela é jovem, e ela retruca dizendo que tem 60 anos, e a outra responde que tem 84 anos, e ainda quer ir para a Islândia.

Pessoalmente me emocionei com a cena onde Caroline está sentada num banco tendo uma filha de cada lado, e ela se destaca ali, é uma bela mulher, cheia de vida, tem muito mais força e presença do que as filhas, que são jovens e sendo que uma delas não aceita muito bem esta mãe sexuada e que buscar algo novo para si.

Vale a pena assistir, um belo filme que nos mostra que a vida sempre tem algo a nos oferecer se estivermos dispostos a arriscar e mudar algo.

Fanny Ardant é viúva do cineasta François Truffaut


Marion Vernoux nasceu em 1966 na França. 

Shopie Hunger - Le vent nous portera 

Trilha sonora de Quentin Sirjacq