sábado, 6 de dezembro de 2014

PERFIL: - MULHERES - AGUSTINA BESSA-LUÍS


Agustina Bessa-Luís é o pseudónimo literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa. Ela nasceu em 15 de outubro de 1922 em  Vila Meã, Amarante. 

É uma escritora portuguesa. Em 2004 aos 81 anos recebeu o prêmio Camões. Possui uma produção extensa em literatura, teatro, literatura infantil. Desde julho de 2006 ela se retirou da vida pública por razões de saúde e deixou de escrever. 

Para falar dela aqui no blog lerei os dois livros que tenho: A Sibila e O Mosteiro. A Sibila foi publicado em 1954 e foi o livro que a consagrou. Também vou postar a adaptação para o cinema de O Convento e Ronda da Noite. Após estas leituras e ver estes filmes retorno a este perfil. 






sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: CLOSET LAND - 1991



Direção: Radha Bharadwaj - 1991
Duração: 89 min
Título original: Closet Land (Terra de Armários)

Um filme sobre a tortura

Um filme com apenas dois atores, ela uma escritora de histórias infantis (Madeleine Stowe), ele o grande inquisidor e torturador (Alan Rickman). 

Ela é presa a noite e levada com os olhos vendados para um lugar desconhecido para ser interrogada. É acusada de ocultar na sua escrita de histórias infantis recados para subversivos ao governo. Quem a vigia durante um ano e a prende é o governo. 

Durante o filme todo assistimos a uma pressão psicológica imensa sobre a escritora que não se rende, sua mente é mais forte. Passam então a tentar dobrar seu corpo, destruir o corpo para atingir a  mente, mas também não conseguem. Ela tem algo poderoso, sua mente e sua imaginação que a retira dali nos piores momentos e lhe permite manter a sanidade. 

O que possibilitou isto foi um fato trágico de sua infância que ocorria num armário quando ele se utilizava de sua imaginação para poder escapar. Durante o filme nas falas de seu torturador percebemos sinais de algo havia ocorrido em sua infância, naquilo que gravaram de suas conversas com sua mãe antes de sua morte, na questão de sua sexualidade. 

O que mais choca no filme é que sabemos que isto ocorre, e o pior, não são aqueles que a sociedade considera como bandidos, mas trata-se do governo, aquele escolhido por suas futuras vítimas. A parte que mais toca é quando ela fala sobre o quanto somos cegos e nos recusamos a ver e compreender. Aceitamos as explicações sem sentido para alguém que subitamente desapareceu e isto basta. Ela sabe que a sociedade que está lá fora nada fará em relação ao seu desaparecimento, está condenada a viver reclusa naquele antro de loucos, sim, loucos, porque a obsessão, a paranoia do governo é inacreditável, e muito bem representada pelo inquisidor que no mínimo é alguém muito doente para se propor a fazer o que faz, ele mesmo teve sua mente atingida e sofreu uma lavagem cerebral.

O que vemos é a forma como uma mente pode ser atingida e também o emocional de uma pessoa, principalmente quando ela está vendada e só escuta, podendo ser ludibriada, enganada pelos sons, imitações, e como isto se reflete em seu interior. O que ela sente é o que pode imaginar daqueles sons, independentes de serem reais ou não. 

O filme choca por sua verdade e realidade. Mas fingimos que isto não acontece. 

Radha Bharadwaj nasceu na Índia. 

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FILME: DE OLHOS BEM FECHADOS - 1999


Direção: Stanley Kubrick - 1999
Duração: 159 min
Título original: Eyes Wide Shut

Baseado no livro "Romance do sonho" de Arthur Schnitzler

Alice (Nicole Kidman) e Bill (Tom Cruise) são casados e tem uma filha de 7 anos. Vivem uma vida tranquila e se amam, até o dia em que Alice instigada talvez por ter sido cortejada numa festa por um homem e ter visto seu marido com duas belas mulheres inicia uma conversa provocadora com ele sobre o que ele sente em relação à mulheres, se sente desejo sexual por elas, inclusive em seu consultório, uma vez que ele é médico, o que ele nega alegando que por ter uma mulher que ama e com quem é casado isto não lhe passa pela cabeça, e quando ela o provoca mais sobre ela, ele lhe diz que confia nela. Algo neste momento faz com que Alice lhe confidencie que um ano atrás se sentiu muito atraída por um homem com quem trocou apenas um olhar e que se este homem a quisesse ela teria abandonado tudo, ele, sua filha e ficado com ele, nem que fosse para apenas uma noite de sexo. 

Bill leva um choque, algo dentro dele se desloca, mas no mesmo momento ele é chamado porque um de seus pacientes acaba de falecer. Ele sai para a rua e começa a imaginar a cena de Alice com este oficial da marinha transando, e isto não lhe sai mais da mente. Após sair do apartamento do falecido ele vaga pelas ruas desnorteado, e começa uma jornada desconexa para ele, totalmente diferente do que ele já viveu ou conheceu levando-o a contato com um mundo sexual que ele desconhecia, como prostitutas, uma mansão onde se realizam orgias, um pai que explora a filha sexualmente. 

Alice tem um sonho onde está nua no meio de muitos homens e o oficial da marinha faz sexo com ela e depois ela faz com muitos homens. 

O que aflora em Alice é o desejo recalcado, aquele inconsciente, das fantasias, que apesar de trazer um desejo não é algo que se faça, até porque somos coibidos pela educação, pela moral, pelo amor, pela sociedade, mas isto não impede que imaginemos algo, que fantasiemos. O porque dela contar ao marido pode ter várias respostas. Já Bill sofre um choque psíquico e com isto desnorteia, passa a agir de forma desconexa e busca algo para compreender tudo isto, só que no caso dele no real. 

Somente quando ele conta para Alice tudo que fez e ela ou ouve e eles conversam é que podem retomar sua vida de antes. Interessante ver neste filme os três conceitos de Lacan - O real, o imaginário e o simbólico. Os três estão sempre implicados um com o outro, mas é o simbólico que consegue dar conta de estabelecer uma realidade viável, é através da palavra que o real e o imaginário se tornam compreensíveis. 

Os sonhos podem ser tão fortes, assim como o imaginário, a ponto de não conseguirmos lidar com eles acordados. Os sonhos sempre trazem o que temos de mais oculto, recalcado, mas que mesmo assim somos nós, e talvez o mais verdadeiro de nós. Os sonhos são reais, não é algo para não se levar em conta como se fosse algo apenas sem sentido. E nossa imaginação produz efeitos. O que não conseguimos lidar é o Real, que é possível acessar justamente pelos sonhos e simbolizar. 

Stanley Kubrick nasceu em 1928 em Manhattan, New York, EUA e faleceu em 1999 em St Albans, Reino Unido. 

domingo, 30 de novembro de 2014

FILME: CRIAÇÃO - 2009


Direção: Jon Amiel - 2009
Duração: 108 min
Título original: Creation

Cinebiografia sobre Charles Darwin - baseado na biografia de Darwin escrita por Randal Keynes - A caixa de Annie -  que era tataraneto de Darwin. 

O filme é parte biográfico e parte ficcional. Trata-se do período após seu retorno à Inglaterra quando se vê as voltas da escrita do seu livro "A origem das espécies". Nesta fase Darwin enfrenta crises de ansiedade e tem transtornos alimentares, além de carregar uma imensa culpa pela morte de sua filha Annie, a mais velha, e a que era mais próxima do pai, inclusive em ideias. 

Darwin (Paul Bettany) é casado com Ema (Jennifer Connelly) e vive numa casa rural na Inglaterra. O filme inicia quando ele já está sofrendo de transtornos alimentares e não consegue escrever seu livro, ao mesmo tempo que nos remete ao passado quando sua filha Annie ainda vivia. Darwin sempre vê o fantasma da filha com quem conversa. 

Ema é muito religiosa e um dos grandes conflitos de Darwin é justamente ter desmontado a criação conforme nos conta a Bíblia. Em sua viagem e pesquisas ele percebe que tudo evolui e sobrevive o mais forte, além de que caracteres que se tornam inúteis tendem a desaparecer na espécie. Ele vai perdendo a fé e deixa de acreditar em Deus, mas sabe bem a repercussão que seu livro pode ter, não apenas um escândalo, mas ele será um divisor, provocará uma ruptura, e que fazer quando as pessoas perceberam que estão sós no mundo sem um Deus que lhes dê um sentido e as proteja? 

Mas em minha opinião o que mais acomete Darwin é a morte de sua filha que ele acredita que sua esposa o culpa. Quando ele sofre um colapso após saber que outro cientista está chegando às mesmas conclusões que ele,  finalmente parte em busca de ajuda em uma cura pela água, no mesmo lugar onde sua filha foi levada por ele e onde faleceu. Darwin terá que enfrentar seus fantasmas. Ele nunca aceitou a morte dela, e o médico fazendo às vezes de um precursor de psicanalista o irá interrogar e confrontar com suas questões e lhe dirá que sem fé, e isto não depende de Deus, mas que sem fé a água nunca poderá curá-lo. Será nesta viagem que Darwin irá aceitar a morte de sua filha e ao retornar para casa ele finalmente falará sobre isto com Ema e se surpreenderá ao ouvi-la dizer que ela se culpou e não à ele. Finalmente o que os separava é removido, assim como em relação aos seus filhos que ansiavam pelo amor do pai como Annie tivera antes. 

Ele então escreverá o livro e dará a Ema para ler e lhe dirá que ela pode fazer o que achar o certo. No dia seguinte ele pensa que ela está queimando o livro, mas ao contrário, ela o havia preparado para ser levado pelo correio até a editora. Ela se tornou sua cúmplice neste livro que naquela época foi devastador, tanto que se diz até hoje que houve três grandes rupturas na forma de ver o mundo, quando Copérnico disse que a terra girava ao torno do sol e não era o centro de tudo, quando Darwin disse que descendemos dos macacos e quando Freud disse que não somos senhores em nossa própria casa, pois o inconsciente rege. 

Jon Amiel nasceu em 1948 em Londres - Inglaterra - Reino Unido

FILME: COMER BEBER E VIVER - 1994



Direção: Ang Lee - 1994
Duração: 123 min
Título Original: Yin Shi nan nu

País de Origem: Taiwan

Um pai viúvo que é chef de cozinha, Chu (Sihung Lung) e suas três filhas - Jia-Jen, Jia-Chien e Jia-Ning. Ele apesar de cozinhar muito bem perdeu o paladar, não sente mais nada ao provar a comida. Aos domingos ele prepara um jantar onde reúne a família, o que nem sempre agrada à filhas. Uma delas desejava ser como o pai, cozinheira, mas ele a afastou da cozinha a enviando para a faculdade, pois dizia que não queria sua filha numa cozinha gordurenta. 

As relações entre eles não é as mais afetuosas, os conflitos familiares estão latentes, e mesmo com todo o amor e dedicação com que Chun prepara a comida, isto não os aproxima. Aos poucos as coisas vão se destrinchando, algumas verdades vem a tona. O eterno problema de pensar que se sabe o que o outro pensa e quando se fala descobre-se que é exatamente o contrário. 

O que mais encanta no filme é a arte gastronômica de Chun, que esconde em suas belas criações na cozinha tudo que sente por dentro. Somente no dia em que ele finalmente revela seu segredo é que acaba recuperando o paladar, e por coincidência justo num dia em que sua filha que ele não queria ver cozinheira prepara o jantar para ambos. 

Pode ser no ocidente ou no oriente as relações familiares são sempre complicadas e na falta de um diálogo as pessoas se ressentem e se afastam. Mas o amor pode aproximar as pessoas. 

Ang Lee 

FILME: O SEGREDO DOS SEUS OLHOS - 2010



Direção: Juan José Campanella - 2010
Duração: 129 min
Título Original: El secreto de sus ojos

País de Origem: Argentina

Benjamín Espósito (Ricardo Darín) se aposenta após trabalhar a vida todo no Tribunal Penal em Buenos Aires. Para preencher seu tempo ele começa a escrever um romance sobre um fato verídico que se passou 25 anos antes, quando em 1974 foi encarregado de investigar um violento estupro seguido de assassinato de uma bela mulher, Liliana Calotto (Carla Quevedo) casada há um ano com Ricardo Morales (Pablo Rago). 

O filme se passa entre digressões entre o presente e o passado e aos poucos vamos conhecendo toda a trama do que ocorreu naqueles anos. Somos então apresentados à Irene (Soledad Villamil), que iniciava sua carreira jurídica e à Sandoval (Guillermo Francella), assistente de Espósito que sofre de alcoolismo, mas é brilhante em solucionar casos. Este é o enredo policial do filme. 

Espósito é apaixonado por Irene, mas nunca ousa lhe dizer nada e ao investigar o caso de Liliana se envolve cada vez mais com a vida da vítima, pelo marido apaixonado, que alega não desejar a morte do assassino, mas sim, que ele passe a vida toda preso e tenha que se haver com o nada. Logo no início do filme Espósito anota num papel "Temo", ao acordar. Ao escrever sobre a investigação ele procura Irene para lhe falar sobre isto, sobre tudo que aconteceu naqueles tempos, sobre o que nunca mais falaram. 

A escrita de Espósito é uma história real com fatos, mas nas entrelinhas deste romance há todo o aspecto psicológico dele, de tudo que se passou dentro de ele e que nunca foi expressado. Após solucionarem o caso e prenderem o assassino, a Argentina entra num momento político difícil, e um desafeto de Espósito libertará o assassino e o colocará numa posição dentro do executivo do país, e a justiça nada poderá fazer. Agora todos correm risco de vida. Espósito irá embora e deixará para trás Irene, mas levará consigo um amor represado dentro de si, pelo simples motivo que ele teme amar. E é isto que o fascina em Morales, o amor que ele sente por Liliana e como pode ter vivido 25 anos sozinho, no nada? 

Sandoval irá dizer num momento que há algo que nunca podemos nos livrar, podemos mudar de rosto, de religião, de emprego,de casa, mas a paixão, esta permanece, e é assim que eles chegam ao assassino. Como viver com uma paixão assim? como Morales sem  Liliana, como Espósito sem Irene? Como preencher uma vida e lhe construir um sentido com este imenso vazio dentro de si? 

Tudo o que não se diz o olhar expressa, e é brilhante a atuação dos olhares no filme, que falam mais que qualquer palavras. Ambos sabem do amor que nutrem um pelo outro, mas estão ali, a espera que algo aconteça, um milagre talvez? Também será pelo olhar que Espósito através de fotografias irá descobrir o assassino de Liliana. Dizem que os olhos são o espelho da alma, mas o que eles com certeza fazem é falar, os olhos falam, e deletam nossos segredos. 

Já Ricardo tem um olhar perdido, um olhar de quem não pode mais realizar o que deseja, mas que acalenta a vingança. Ele quer encontrar o assassino que lhe tirou o grande amor de sua vida. Seu olhar de amor é um olhar de puro amor, mas sem objeto palpável, ela já não existe. Ricardo não pode mais amar porque a morte se interpôs, mas Espósito pode, não é a morte que o impede, é o temor, o medo. 

Durante o filme várias vezes há a questão da máquina de escrever que falha na letra "A", justo a letra que falta, a letra que impede Espósito de escrever o seu amor, o Temo em Te A Mo. 

Morales ficará no passado, preenchendo o vazio com o nada, nem mesmo falando, já Espósito consegue encontrar a letra que falta e a falar. 
Juan José Campanella 

sábado, 29 de novembro de 2014

FILME: UMA NOVA CHANCE PARA AMAR - 2013


Direção: Arie Posin - 2013 
Duração: 92 min 
Título Original: The face of love 

O Luto patológico 

Durante uma viagem de férias ao México Nikki (Annette Bening) perde seu marido Garret  (Ed Harris) que morre afogado. Sua única filha sai de casa na mesma época para viver com o namorado. A vida de Nikki perde todo o sentido e exceto pela companhia de Roger (Robin Williams) em sua última participação no cinema antes de sua morte neste ano, que também é viúvo e vai nadar na piscina de Nikki e costumam fazer algumas refeições juntos, ela vive das lembranças de seu marido. 

Até que um dia ela resolve voltar a visitar um museu, local onde ia muito com Garret que gostava de arte, e lá vê um homem extremamente parecido com seu falecido marido. Nikki passa a segui-lo até que consegue se aproximar e eles iniciam um relacionamento. A questão é que Nikki não esqueceu Garret, e não consegue abrir espaços para novos relacionamentos, e vê em Tom o marido que morreu e não a pessoa que está diante de si. Ela o leva aos mesmos lugares onde costumava ir, numa tentativa de manter o marido vivo. 

Quando perdemos alguém muito próximo a sensação é de que algo nosso foi junto, e por isto é necessário o luto para que ocorra a separação, para que o desejo se desligue deste objeto e possa se voltar para outros. Nikki não se separou de Garret, seu desejo continuou ligado à ele, ela não está disponível para amar Tom. É a Garret que ela vê e ama. Ela permanece fixada no passado, o psiquismo se cristaliza e idealiza a pessoa que partiu, e acaba introjetando este objeto ao invés de se separar dele e com isto poder continuar a viver e ter possibilidades de novos objetos amorosos ou outros atrativos na vida. 

Ela não aceitou a morte dele, não a enfrenta. Guarda tudo que era dele em caixas e mantém uma foto dos três, ela, o marido e a filha. Normalmente quando alguém morre guardamos algumas lembranças, mas nos desfazemos da maior parte das coisas, doando, vendendo, dando de presente aos outros. 

Nikki é melancólica, ela busca o passado, quer se livrar da dor e manter a ilusão de que nada disto tudo aconteceu. Há uma cena na praia com Tom onde ela lhe fala como se fosse Garret dando a compreender que nada daquilo aconteceu, que graças a Deus ele está vivo. E no entanto, é Tom quem está ali. 

Ela não consegue pintar e Tom lhe diz que pintar e seu olhar, olhar para algo, a percepção do que se vê, e então isto se expressa na tela. Nikki não consegue olhar para fora, está presa dentro de si, até que após conseguir se libertar ela pode novamente olhar e se expressar. 

Gostei muito do quadro de Tom que ele nomeia - A face do amor. Interessante porque ele olhar pela janela para Nikki na piscina, mas ao mesmo tempo há o seu reflexo no vidro. A face do amor é sempre o que buscamos no outro, aquilo que nos completa, que nos falta, o que não deixa de ser uma ilusão também, mas que possibilita muitas vezes criar, como fez Tom, e como fará Nikki depois. 

Um belo filme sobre o luto, a melancolia, e do quanto é necessário viver este momento com toda sua dor para depois se separar e continuar a viver, sem nunca esquecer ou deixar de amar quem partiu, mas podendo abrir espaço em seu desejo e em sua vida para outras coisas.

Infelizmente o filme deixa a desejar quanto à recuperação de Nikki, em qual momento ela rompe com seu passado e consegue finalmente seguir sua vida? A última cena antes é ela dizendo a Tom que o ama, e depois passa um ano e a vemos sendo capaz de seguir sua vida. 

Arie Posin nasceu em Israel 

FILME: WAKING LIFE - 2001



Direção: Richard Linklater
Duração: 97 min 


Acordar para a vida

O filme é uma bela animação. Um jovem não consegue acordar de um sonho e começa a encontrar várias pessoas que lhe falarão sobre a vida, religião, ciência, filosofia, antropologia, psicologia, arte. 

O filme explora o mundo onírico, dos sonhos, nos levando ao inconsciente e demonstrando o quanto o sonho também é real, é uma viagem, e não algo para ser considerado sem sentido, muito pelo contrário, é nos sonhos que o que temos de mais nosso vem a tona e nos possibilita nos conhecer, saber aquilo que não sabemos de nós mesmos. O sonho permite saber quem somos e porque agimos de determinada maneira, o que nos rege e conduz nossas vidas. 

O filme é uma viagem, assim como nossa vida. 

A cada encontro algo é falado, vivido, e não há como falar disto aqui, inclusive porque a cada um sua maneira de interpretar. Um filme para ser visto muitas vezes. 


Assista ao trailer:



Richard Linklater nasceu em 1960 em Houston, Texas, EUA. 

FILME: MOMENTOS ETERNOS DE MARIA LARSSONS - 2008


Direção: Jan Troell - 2008
Duração: 131 Min
Título Original: Maria Larssons Eviga Ögonblick

País de origem: Suécia 

Baseado na vida da avó da mulher do diretor, a primeira fotógrafa profissional da Suécia

Suécia - 1907

Maria Larssons (Maria Heiskanen)  ganha num bilhete de loteria uma câmera fotográfica. Seu noivo diz que ela devia dar para ele já que o dinheiro com que comprou o bilhete era dele, ela lhe responde que só a dará se ele se casar com ela, e eles se casam. Quem nos conta a história é uma de suas filhas, Maja. 

Esta história de amor logo logo se defrontará com a dura realidade da vida pobre e com um marido que começa a chegar bêbado em casa e se envolve com outras mulheres. Além disto ele é violento e várias vezes baterá em Maria que procura a ajuda de seu pai, mas tem que voltar para casa em função da moral da época que não permitia que uma mulher se separasse e ela teria que viver com Sigfrid ( Mikael Persbrandt) até que a morte os separe. 

Será uma vida difícil, mas Maria não desanima e lutará para manter seus sete filhos alimentados e tendo onde morar. Em determinado momento diante de uma situação difícil Maria tenta vender sua câmera ao fotógrafo da cidade, Sebastian (Jesper Christensen) , que ao invés de comprá-la a ensina a usá-la, e lhe dá o material que precisa dizendo que é uma penhora. Maria aceita. 

A partir deste momento ela olha o mundo pela lente da câmera e descobrirá coisas que não via antes. Este mundo lhe pertence e nada de toda tristeza, violência e pobreza pode invadir, nem mesmo seu marido. 

O filme retrata a vida das mulheres no início do século XX, sempre grávidas, trabalhando, limpando, criando filhos e sofrendo com as bebedeiras e violência dos maridos. Maria encontra em Sebastian um amigo, alguém que a ouve e que a compreende. 

Um dia Sigfrid perde a cabeça e tenta matá-la e acaba preso. Ao contrário do que todos esperavam, inclusive seus filhos, Maria não o deixa e faz de tudo para sobreviver. É quando ela começa a tirar fotos para ganhar algum dinheiro e assim acabará se tornando uma das maiores fotógrafas da Suécia, e a primeira mulher a sê-lo. 

Aos poucos a vida deles melhora, Sigfrid consegue abrir um negócio e seus filhos poderão realizar seus desejos de estudar. Eles mudarão para uma casa no campo. Maja também começará a tirar fotos. 

A vida de Maria não foi fácil, era cheia de tristezas e muita luta, mas ela conseguiu fazer o que era possível, e dentro disto achar algo que lhe permitia olhar o mundo de outra forma, e lhe dar alegrias e prazer. E isto é uma grande lição, ao invés de sonhar com o impossível, fazer aquilo que se pode, e transformar a vida em algo mais do que sofrimento. 


Jan Troell nasceu em 1931 em Limhamn, Suécia. 

Fotos de Maria Larssons 

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA DO MUNDO EM DUAS HORAS - 2011


Produção: History Channel - 2011 
Duração: 88 min
Título Original: History of the world in two hours 
País de origem: EUA 

Este documentário faz um tour geral pela história de nosso planeta e do surgimento do ser humano e das civilizações, partindo do Big Bam há 14 bilhões de anos atrás, nos mostrando como se formaram as estrelas, galáxias e finalmente o planeta terra. 
O início da vida no planeta e de como se desenvolveu até chegar ao mundo de hoje. De onde vieram todas as possibilidades tecnológicas e também o surgimento do fogo. As invenções que tornaram possíveis a civilização que conhecemos hoje. 

Há um foco científico principalmente sobre as questões de energia e da tecnologia, desde a mais antiga até o mundo atual. 

Uma maneira rápida e interessante de recordar nossa história com um apanhado geral, mas acho que o documentário é bem vindo no sentido de nos trazer mais humildade e principalmente maior respeito por este planeta que é vivo e por tudo que há nele, desde os minerais, as plantas, animais até o ser humano. Quando acompanhamos todo este processo não há como não parar para pensar em quantas vezes o planeta sofreu mudanças radicais, e que várias formas de vidas foram extintas, e então, o que nos garante que não somos a próxima? 

A força, a energia que existe no universo se por um lado nos proporcionou a possibilidade de estar aqui também não deixa de ser algo que pode literalmente nos destruir. Não estamos zelando por nosso planeta o suficiente, e quando cooperamos por destruir camadas de ozônio, quando poluímos o ar com inúmeros componentes químicos, não estamos pensando nos efeitos disto. 

Por outro lado é muito bom ver de onde viemos, de simples bactérias, isto nos traz um pouco de humildade. Quando os nossos ancestrais viviam eles não imaginavam o viria a ser a terra no futuro ou o ser humano, e todas as possibilidades que ele teria, mas da mesma forma que os dinossauros também viviam dominando a terra, podemos acabar como eles. 

Claro, isto pode levar milhões de anos, mas não é impossível. Por mais tecnologia que temos não somos capazes de deter a natureza, e muitas vezes não somos capazes sequer de prever a tempo catástrofes como um tsunami ou até mesmo uma simples chuva de granizo. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FILME: A PELE - 2006



Direção: Steven Shainberg - 2006
Duração: 121 min
Título Original: Fur: An imaginary portrait of Diane Arbus


Um retrato imaginário de Diane Arbus

Não se trata de uma história biográfica, mas sim uma tentativa de refletir o mundo interior da fotógrafa Diane Arbus (1923-1971) considerada uma das maiores artistas do século XX, apesar de pouco conhecida na Brasil. 

Diane (Nicole Kidman) é a única filha de um casal de peleteiros (Harris Yulim e Jane Alexander) casada com um fotógrafo, Allan (Ty Burrell) e mãe de duas meninas. Ela é assistente de seu marido, uma mulher reprimida pelo ego fortíssimo da mãe que a intimida, não lhe permitindo ser um sujeito. Numa festa de apresentação das peles e do estúdio de fotografia de seu marido ela vê pela janela a chegada de um novo morador, Lionel (Robert Downey) que usa uma máscara no rosto o que a atrai enormemente. 

Aos poucos ela começa a reviver fatos de sua infância e de sua sexualidade inconsciente, onde é voyeur e gosta de se exibir. Um dia ela vai ao apartamento de Lionel e descobre que ele sofre de uma doença - hipertricose - e tem o corpo todo coberto de pelos. 

Diane é atraída por tudo que é diferente, estranho, e que atiça seu olhar. Lionel a introduz neste mundo apresentando-a a pessoas diferentes, anões, portadores de deficiências físicas, obsessões sexuais, ou seja, os outsiders, que sua família se choca ao ter contato. 

O interessante é o fascínio que ela sente em olhar, não conseguir desviar os olhos, e pela fotografia ela irá capturar estes momentos, enquadrá-los. A associação entre o homem peludo e seu pai um peleteiro é óbvia psicanaliticamente falando. Seu pai cobre as mulheres de pelos de animais com suas peles, e ela termina o filme se cobrindo com um manto feito dos pelos de Lionel. 

Allan em dado momento ao perceber que tem um rival no homem peludo deixa a barba crescer, mas isto não é suficiente. Diane não é atraída pelo o que é considerado normal, ela busca o estranho. 

Interessante o uso de uma chave que Diane encontra no encanamento entupido de pelos. A chave que abre as portas do inconsciente, a chave que abre a porta do quarto de Barba Azul. Ela abre a porta para sair de seu mundo de aparências e do que é considerado belo para entrar em um mundo de estranhos e que costuma chocar à massa, mas por outro lado o estranho também é belo e atrai o olhar acima de tudo. 

Steven Shainberg nasceu em 1963 nos Estados Unidos. 

Diane Arbus nasceu em 1923 em New York - EUA e faleceu em 1971 na mesma cidade. Foi uma fotógrafa e escritora conhecida por suas fotos em preto e branco de pessoas marginalizadas. Ela acabou suicidando-se após várias crises depressivas. 

Foto de Lionel 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

LIVRO: A BALADA DE ADAM HENRY - IAN McEWAN


McEwan, Ian. 1ª. Companhia das Letras, 2014
196 páginas
Tradução: Jorio Dauster
Título Original: The Children Act

Ian McEwan trabalha com profundo conhecimento da alma humana naquilo que mais escondemos de nós mesmos ou não queremos ver. Este é o terceiro livro que leio dele e também assisti a dois filmes baseados em seus romances: Desejo e Reparação e Amor sem fim

Desta vez é o universo feminino e o amor. A que ponto uma mulher madura, com sessenta anos, profissional bem sucedida de repente se perde no torvelinho das emoções quando seu marido Jack lhe diz que deseja viver, e que talvez seja sua última chance, pretendendo ter um caso com uma mulher mais jovem, mas ainda assim afirmando que a amava. 

Fiona é juíza na vara de família e com isto se defronta diariamente com questões como divórcios, guarda de filhos, ou seja, tudo aquilo que um dia foi só promessas de pura felicidade e que se destrói, desmancha, transformando-se em disputas judiciais pelo dinheiro e pela guarda dos filhos, isto quando estes não são o joguete dos interesses e vinganças dos pais. 

Agora de repente ela se vê frente a uma situação de crise em seu casamento. O choque foi tal que ela não consegue pensar, acaba tendo atitudes que vê as mulheres terem e que normalmente condenaria como imaturas, mas quando a emoção está a tona somos capazes de muitos atos que jamais faríamos. 

Entrega-se totalmente ao trabalho, mas não consegue afastar de si o que se passa em sua vida pessoal. Pensa muito no fato de não ter tidos filhos. Relembra sua vida de casada, sua juventude e seus planos. No meio desta crise ela tem que julgar um caso de um rapaz prestes a completar 18 anos, testemunha de Jeová, cujos pais se recusam a dar autorização para uma transfusão de sangue o que salvaria sua vida. O rapaz, Adam, também concorda com os pais. Fiona então resolve visitar o rapaz no hospital antes de se pronunciar e tomar uma decisão. 

McEwan elabora bem o que é um jovem e como ele pensa e se sente, o que realmente busca e deseja com suas atitudes e toda a fragilidade e carência da juventude. Por outro lado Fiona se deixa levar sem um controle sobre sua posição na situação. Talvez por pensar que poderia ser seu filho, talvez por se sentir não desejada e buscar isto, por suas faltas e carências, por sua crise pessoal. 

Jack, o marido de Fiona também é surpreendente quando deseja a aprovação e conivência de Fiona para seu caso com outra mulher. Ao invés de fazer isto as escondidas ele precisa que ela saiba e o aprove, o que demonstra também uma imaturidade, um lado infantil, o homem que ainda busca sua mãe. Ao invés de enfrentar a questão de frente com sua mulher sobre sua insatisfação sexual ele opta por uma saída que às vezes parece uma ameaça, o que Fiona pressente. Ela se sente pressionada. 

A modernidade pode trazer opções variadas do viver a dois, mas por mais que se deseje uma vida livre, isto não funciona no amor, vejam os casos de Simone de Beauvoir e Sartre, Frida e Diego, resultou em dores, ciúmes, sofrimento não só para eles como para outros. 

Um livro para refletir sobre o amor, a família, filhos e também sobre os efeitos de uma religião que se fecha numa comunidade sem abrir horizontes diferentes para os jovens que vivendo no mundo atual podem acabar se perdendo dentro de tudo isto. Adam esperou o apoio de Fiona para sua decisão, ele não tinha maturidade suficiente para sustentar o que escolheu. Ela não conseguiu ocupar um lugar de mãe substituta, e nem mesmo de uma amiga mais velha que pudesse ajudar. 

No fundo o que vemos são jovens e adultos sem saber direito o que fazem, quase que perdidos e sem orientação. Adam ainda procura ajuda em Fiona,  mas ela se recusa a falar com alguém sobre a crise no seu casamento, e Jack, bom não se fala dele sobre isto, mas parece que também não o fez. Talvez por isto o título original seja mais apropriado ao livro, não apenas para pensar na lei e na justiça em relação às crianças, mas sobre nossos atos infantis onde não conseguimos nos distanciar e tomar decisões ou fazer escolhas mais elaboradas, nos deixando levar pela emoção, pelas faltas, e pela culpa. 


Ian McEwan 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC - HUMANO, DEMASIADO HUMANO - JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE - 1999



III- JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE

Sartre diz: Nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã. Perdemos todos os direitos, a livre expressão, éramos insultados e tínhamos que nos calar, e é por isto que éramos livres. Enquanto o veneno alemão adoecia nossas mentes éramos constantemente vigiados, cada gesto que fazíamos era um compromisso.

A liberdade para Sartre era um senso fisiológico de liberdade de modo que a liberdade se incorporasse, se tornasse corpo.

Após a Segunda Guerra os valores do passado entraram em colapso. Sartre recusa tudo - casamento - família - filhos - religião e é feliz. Torna-se uma referência para as pessoas que buscavam algo novo naquele momento e já não podiam mais se referenciar nos valores antigos. 

Não é o passado que nos dirige, é o que nós fazemos, temos que assumir a responsabilidade por nossas ações e de um jeito novo. "Você tem não apenas o direito de escolher, mas também a culpa pela escolha."
"O que importa é o que você escolhe ser no futuro."

Tudo isto caia perfeitamente no momento que a Europa vivia após a guerra. Transformou-se numa esperança e possibilidade de reconstruir a vida e um futuro. Todos queriam esquecer a guerra, havia uma negação do que ocorreu, e poder negar o passado dentro desta filosofia da existência era perfeito.

Sartre nasceu em 1905 em uma família de classe média alta. A morte de seu pai e o ódio ao seu padrasto levou a criança precoce a se reinventar com uma personalidade desconectada de tudo ao seu redor. A morte do pai o livrou de ter um modelo e ele teve que inventar um. 
Quando lhe tiraram as roupas de bebê descobriu-se diferente no espelho. Era feio e o pior, descobriu que as pessoas não mais reagiam a ele como antes. Diante disto seu cérebro passa a valer ouro.

Foi estudar na Ecole Normale Supérieure em Paris onde conhece Simone de Beauvoir. 

Foi professor e interessou-se pela fenomenologia. Em 1933 foi estudar em Berlim com Edmund Husserl. 

Estar consciente de algo é ter relação com algo no mundo, de modo que relacione este algo a uma representação mental. Ele pensou sobre a autoconsciência como uma ideia que temos do mundo. A ideia que nós temos do EU como um caráter essencialmente como de fato é. Não há caráter predeterminado que faz com que você seja quem você é. Você é aquilo que você está tentando fazer. 

Amava o cinema, principalmente filmes de suspense. À diferença dos personagens, lá fora não há roteiro. Escreve o artigo " A contingência da existência" e o romance "A náusea" - a falta de sentido na existência. 

O fato que a vida não tem sentido é o que nos dá a oportunidade de lhe dar um significado. Por não ter significado anterior é que estamos justificados ao criar um. 

Escreve sua principal obra - "O ser e o nada" com influência de Martin Heidegger. 

Foi como prisioneiro de guerra que percebeu que sua filosofia era individualista e precisava relacioná-la ao social. 
Após a guerra fundou a revista Tempos Modernos, deu uma conferência - "Existencialismo é um humanismo". Publicou "Os caminhos da liberdade" e estreou a peça "Entre quatro paredes". 

Foi acusado pela mídia por suas ideias ateístas corromperem os jovens, como um Sócrates. Ele dizia que se Deus existe o homem não é livre. Eu sou a minha liberdade. 

Isolou-se indo morar com a mãe na Rue Bonaparte. 

Da infância em diante era alguém que sofria quando não podia ter o controle da imagem que os outros formavam dele. Isto era para ele o inferno. Era profundamente aflitivo quando pensava sobre o que os outros pensavam quando olhavam para ele. A aprovação. O olhar eterno sobre ele das outras pessoas, sentiu a existência real da vergonha. Parou de pensar no "EU" como um objeto único. Constrói uma ideia de "NÓS" como um outro mundo. Como uma entidade como o "EU" surge? Isto implica que não é possível as pessoas sentirem-se confortáveis umas com a outras. É impossível pensar em vários "EUs" simultanemente. O seu "EU" sempre será um objeto para o outro observador. Todo "EU" está sempre em conflito. Não podemos escapar destes jogos terríveis das pessoas conosco o tempo todo. 

Ao perceber nas pessoas as semelhanças, o uso dos mesmos códigos, isto vai contra o "isto é milha escolha." "EU" prefiro fazer isto. Exagero de liberdade. É a destruição dos outros valores, sob os quais vivemos a maior parte do tempo. 

Um mundo existencialista em que tomamos decisões por nós mesmos seria um mundo socialista em que todos nós nos trataríamos como iguais, mas é difícil ver se este não seria um mundo de maníacos tratando-se da mesma maneira. 

Em 1964 ganhou o prêmio Nobel, mas recusou-o. Não quer ser inserido no sistema. Pensa que se foi escolhido é porque agora o sistema o aceita, e se coloca contra isto. 

Como ele concebe a liberdade sempre fora uma fantasia, mas se tornou claro que a liberdade individual não existe. 

"Eu penso contra eu mesmo. Contra tudo que lhe foi inculcado pela educação. Você tem que criticar tudo o que foi "dado" à você.

Faleceu em 19 de abril de 1980. 

Participaram deste documentário:

- Bernard- Henry Levy - Filósofo
- Annie Cohen-Solal - Biógrafa
- Michele Vian - Amiga
- Jonathan Rée - Filósofo
- Ronald Hayman - Biógrafo
- Baroness Mary Warnock - Filósofa
- Olivier Todd - Escritor
- Patrick Vauday - Filósofo
- Jean Pouillon - Amigo
- Michel Contat - Amigo
- Mary Warnock - Filósofa

Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=jDHnW6U0Tk4
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ts-fcq6ZNHk
Parte 3: https://www.youtube.com/watch?v=8Hu2mW20pes
Parte 4: https://www.youtube.com/watch?v=rHeUm5W00mY&spfreload=10




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO, DEMASIADO HUMANO - MARTIN HEIDEGGER - PENSAR O IMPENSÁVEL - 1999



II - Martin Heidegger - Pensar o impensável 

"Aquele que pensa grande amiúde comete grandes erros".


Martin Heidegger nasceu em 1889 em Messkirch onde também está sepultado. Foi um filosofo simultaneamente muito admirado e execrado. Admirado pela sua mente brilhante e sua produção intelectual, execrado por seu lado político, aderindo ao nacional-socialismo e se tornando um nazista fanático. 

Foi somente após sua morte que surgiram documentos que se tivessem aparecido antes não teriam possibilitado seu retorno ao lugar de professor de filosofia na Universidade, sem contar que teria que ter respondido pelo o que fez. Que ele pensasse que Hitler era a salvação da Alemanha, isto a maioria dos alemães pensaram, mas o que não se aceita é que depois de todos saberem do Holocausto foi ele declarar que nunca teve nada a ver com isto e que nada tinha a dizer ou algo do tipo. Morreu sem pronunciar uma palavra sobre isto, sem dizer que errou, ou qualquer outra menção. 

Seus pais eram camponeses, mas viviam bem. Seu pai era sacristão e ele foi coroinha e antes dos 10 anos decidiu que queria ser padre. Em 1909 após terminar a escola secundária custeado a maior parte pela igreja católica, inscreveu-se na Universidade de Freiburg. Iniciou seus estudos em teologia católica, mas foi perdendo a fé, mudou para matemática e finalmente para filosofia influenciado por um professor que admirava - Edmund Husserl - que iniciou a fenomenologia que oferecia uma nova maneira de entender a consciência humana. Husserl tomou Heidegger sob sua proteção e muito fez para incentivar e possibilitar sua carreira, ao que seria retribuído de forma cruel por seu discípulo durante a Segunda Guerra. 

Na Primeira Guerra Heidegger muito se gabou, mas na verdade ele evitou o front, mantendo-se sempre atrás. Durante a guerra casou-se com Elfriede Petri com quem teve dois filhos. Em 1923 mudaram-se para Marburg no centro da Alemanha onde Husserl havia ajudado a encontrar um lugar como professor de filosofia. Ele nunca se acostumou ao lugar e sempre voltava à floresta negra onde construiu ele mesmo uma cabana de madeira na subida da Montanha Todtnauberg. Era seu retiro espiritual e onde escrevia seus livros.

Sua grande obra - Ser e Tempo, que tem em seu âmago uma pergunta aparentemente simples: o que realmente significa o verbo "ser". O tempo e a existência humana estão inextricavelmente ligados. Nosso ser é o processo de "tornar-se", Rechaça a ideia de que haja algum tipo de essência humana fixa. O que vem em primeiro é a própria existência do homem. A existência é o ato de "expansão" pelo qual estamos projetando-nos constantemente para o futuro, sempre na expectativa, esperando coisas. 

A maioria das pessoas, principalmente as que vivem em cidades grandes, tende a perder o contato com a sua individualidade. forçados a conformarem-se com os padrões de comportamento das massas. Experimentamos fortes sentimentos de ansiedade o que nos leva ao que ele chama de "vidas inautênticas". A maioria vive "a vida da gente", Nós somos um - a gente faz isso, a gente pensa assim. Ele diz - o "eu" não é "a gente". E tudo isto nos anos 20 como uma premonição do que viria pela frente, antes do que temos atualmente com a vida e a morte padronizados. 

Em 1924 Hanah Arendt torna-se sua anula e envolvem amorosamente. Quando Hitler sobe ao poder esta relação há havia acabado. 

O documentário mostra bem todo o envolvimento de Heidegger com o nazismo, seu comportamento, sua influência sobre os estudantes. Hermann Staudinger, professor de química foi perseguido por Heidegger que fazia denúncias infundadas sobre ele para a polícia e para a Gestapo. Posteriormente ele recebeu o prêmio nobel. Mas o pior foi sua postura diante de Edmund Husserl que tanto fez por ele. Husserl era judeu e foi proibido de ter acesso as salas da Universidade. Heidegger assumiu a reitoria e poderia ter revogado esta ordem, mas não o fez, pelo contrário, a executou o que dilacerou por dentro Husserl. 

Ao final Heidegger acreditou que o nacional-socialismo era sua teoria na realidade, aproximava a vida rural, sem grandes avanços tecnológicos, e privilegiava a vida em comunidade. Seu anti-semitismo era algo arraigado na cultura alemã da época. Mas ele pensa que Hitler precisa de um guia, e quem mais além dele próprio? Ele sucumbiu à ilusão de que poderia desempenhar o papel de um rei filósofo. Virou um nazista fanático e megalomaníaco. 

Após o fim da Guerra ele se esconde durante um tempo e retorna para enfrentar a questão, mas desmente todas as acusações. Tentou o suicídio e foi internado por um tempo. Depois recolheu-se à sua cabana de madeira e voltou a se ocupar dos assuntos da mente. E novamente vai se sobressair. 

Não somos nós que falamos, mas é a língua que nos fala. Ela estrutura nosso mundo, estrutura nosso sentido de tempo, da identidade e das relações humanas, do amor, da violência. Novamente é o filosofo. 

Encontrara-se com Arendt que acaba por ajudá-lo divulgando sua obra nos Estados Unidos. Também será apoiado por Sartre. Volta a brilhar. 

Morreu em 1976. 

A questão é agora, diante de todos os documentos que foram encontrados se ele vai continuar sendo tão admirado.

Participaram do documentário:

- Andrew Benjamin - Filósofo
- George Steiner - Escritor
- Thomas Sheehan - Filósofo
- Hans-Georg Gadamer - Filósofo
- Hugo Ott - Historiador
- Miguel de Beistegui - Filósofo
- Elizabeth Young-Bruehl - Biógrafa
- Richard Wolin - Historiador
- Raymond Klibansky - Filósofo
- Richard Rorty - Filósofo
- Tom Rockmore - Filósofo

Assista: