sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO, DEMASIADO HUMANO - MARTIN HEIDEGGER - PENSAR O IMPENSÁVEL - 1999



II - Martin Heidegger - Pensar o impensável 

"Aquele que pensa grande amiúde comete grandes erros".


Martin Heidegger nasceu em 1889 em Messkirch onde também está sepultado. Foi um filosofo simultaneamente muito admirado e execrado. Admirado pela sua mente brilhante e sua produção intelectual, execrado por seu lado político, aderindo ao nacional-socialismo e se tornando um nazista fanático. 

Foi somente após sua morte que surgiram documentos que se tivessem aparecido antes não teriam possibilitado seu retorno ao lugar de professor de filosofia na Universidade, sem contar que teria que ter respondido pelo o que fez. Que ele pensasse que Hitler era a salvação da Alemanha, isto a maioria dos alemães pensaram, mas o que não se aceita é que depois de todos saberem do Holocausto foi ele declarar que nunca teve nada a ver com isto e que nada tinha a dizer ou algo do tipo. Morreu sem pronunciar uma palavra sobre isto, sem dizer que errou, ou qualquer outra menção. 

Seus pais eram camponeses, mas viviam bem. Seu pai era sacristão e ele foi coroinha e antes dos 10 anos decidiu que queria ser padre. Em 1909 após terminar a escola secundária custeado a maior parte pela igreja católica, inscreveu-se na Universidade de Freiburg. Iniciou seus estudos em teologia católica, mas foi perdendo a fé, mudou para matemática e finalmente para filosofia influenciado por um professor que admirava - Edmund Husserl - que iniciou a fenomenologia que oferecia uma nova maneira de entender a consciência humana. Husserl tomou Heidegger sob sua proteção e muito fez para incentivar e possibilitar sua carreira, ao que seria retribuído de forma cruel por seu discípulo durante a Segunda Guerra. 

Na Primeira Guerra Heidegger muito se gabou, mas na verdade ele evitou o front, mantendo-se sempre atrás. Durante a guerra casou-se com Elfriede Petri com quem teve dois filhos. Em 1923 mudaram-se para Marburg no centro da Alemanha onde Husserl havia ajudado a encontrar um lugar como professor de filosofia. Ele nunca se acostumou ao lugar e sempre voltava à floresta negra onde construiu ele mesmo uma cabana de madeira na subida da Montanha Todtnauberg. Era seu retiro espiritual e onde escrevia seus livros.

Sua grande obra - Ser e Tempo, que tem em seu âmago uma pergunta aparentemente simples: o que realmente significa o verbo "ser". O tempo e a existência humana estão inextricavelmente ligados. Nosso ser é o processo de "tornar-se", Rechaça a ideia de que haja algum tipo de essência humana fixa. O que vem em primeiro é a própria existência do homem. A existência é o ato de "expansão" pelo qual estamos projetando-nos constantemente para o futuro, sempre na expectativa, esperando coisas. 

A maioria das pessoas, principalmente as que vivem em cidades grandes, tende a perder o contato com a sua individualidade. forçados a conformarem-se com os padrões de comportamento das massas. Experimentamos fortes sentimentos de ansiedade o que nos leva ao que ele chama de "vidas inautênticas". A maioria vive "a vida da gente", Nós somos um - a gente faz isso, a gente pensa assim. Ele diz - o "eu" não é "a gente". E tudo isto nos anos 20 como uma premonição do que viria pela frente, antes do que temos atualmente com a vida e a morte padronizados. 

Em 1924 Hanah Arendt torna-se sua anula e envolvem amorosamente. Quando Hitler sobe ao poder esta relação há havia acabado. 

O documentário mostra bem todo o envolvimento de Heidegger com o nazismo, seu comportamento, sua influência sobre os estudantes. Hermann Staudinger, professor de química foi perseguido por Heidegger que fazia denúncias infundadas sobre ele para a polícia e para a Gestapo. Posteriormente ele recebeu o prêmio nobel. Mas o pior foi sua postura diante de Edmund Husserl que tanto fez por ele. Husserl era judeu e foi proibido de ter acesso as salas da Universidade. Heidegger assumiu a reitoria e poderia ter revogado esta ordem, mas não o fez, pelo contrário, a executou o que dilacerou por dentro Husserl. 

Ao final Heidegger acreditou que o nacional-socialismo era sua teoria na realidade, aproximava a vida rural, sem grandes avanços tecnológicos, e privilegiava a vida em comunidade. Seu anti-semitismo era algo arraigado na cultura alemã da época. Mas ele pensa que Hitler precisa de um guia, e quem mais além dele próprio? Ele sucumbiu à ilusão de que poderia desempenhar o papel de um rei filósofo. Virou um nazista fanático e megalomaníaco. 

Após o fim da Guerra ele se esconde durante um tempo e retorna para enfrentar a questão, mas desmente todas as acusações. Tentou o suicídio e foi internado por um tempo. Depois recolheu-se à sua cabana de madeira e voltou a se ocupar dos assuntos da mente. E novamente vai se sobressair. 

Não somos nós que falamos, mas é a língua que nos fala. Ela estrutura nosso mundo, estrutura nosso sentido de tempo, da identidade e das relações humanas, do amor, da violência. Novamente é o filosofo. 

Encontrara-se com Arendt que acaba por ajudá-lo divulgando sua obra nos Estados Unidos. Também será apoiado por Sartre. Volta a brilhar. 

Morreu em 1976. 

A questão é agora, diante de todos os documentos que foram encontrados se ele vai continuar sendo tão admirado.

Participaram do documentário:

- Andrew Benjamin - Filósofo
- George Steiner - Escritor
- Thomas Sheehan - Filósofo
- Hans-Georg Gadamer - Filósofo
- Hugo Ott - Historiador
- Miguel de Beistegui - Filósofo
- Elizabeth Young-Bruehl - Biógrafa
- Richard Wolin - Historiador
- Raymond Klibansky - Filósofo
- Richard Rorty - Filósofo
- Tom Rockmore - Filósofo

Assista: