terça-feira, 14 de abril de 2015

LIVRO: DA MINHA TERRA À TERRA - SEBASTIÃO SALGADO



Salgado, Sebastião; Francq, Isabelle. 1ª. Paralela, 2014
152 páginas
Tradução: Julia da Rosa Simões
Título Original: De ma terre à la terre

Depois que vi a exposição "Genesis" no MON em Curitiba estou fascinada pelo trabalho de Sebastião Salgado. Assisti ao documentário O Sal da Terra e agora terminei de ler o livro Da minha terra à terra onde ele nos conta sua história pessoal e o que significa fotografar para ele. Vai além, fala sobre o que aprendeu com este trabalho para sua vida, para sua maneira de ver o mundo. 

Comecei a leitura ontem e não consegui largar até finalizar o livro. Fui envolvida e desejei que o livro continuasse. O que dizer de uma pessoa que percorreu mais de 120 países, viu coisas atrozes, tristes, dilacerantes a ponto de adoecer fisicamente e psiquicamente, que aprendeu a arte da paciência necessária para poder fotografar e que fotografou o que sentia mantendo sempre a dignidade do outro, mesmo nas piores situações? O que Sebastião nos transmite é uma lição de vida, de viver, sem fechar os olhos ao que pior o ser humano tem, suas misérias, sua crueldade, sua ganância, mas também nos levando aos mais belos lugares deste planeta, onde o homem ainda vive em harmonia com a natureza, com os animais. Ele nos ensina a poder viver neste lado do planeta mais bonito, sem fechar ignorar o outro lado, uma vez que somos responsáveis por tudo que ocorre neste mundo, de maneira direta ou indireta, pois quando compramos produtos fabricados por crianças, por escravos, ou produzidos através da destruição da natureza, estamos colaborando com a tristeza do mundo. 

Suas fotos são um despertar, uma conscientização, não são tiradas para produzir pena ou compaixão e com isto apaziguar a consciência de Salgado ou para dar lições. Para ele as fotos são sua vida, são subjetivas, captam o que ele está vivendo e sentindo. 

Ele constata que os migrantes, mesmo tendo que deixar suas terras por causa da pobreza, buscam algo de melhor, acreditam que irão ter uma vida melhor e por isto inventam uma nova vida longe de sua terra natal, já os refugiados não fazem isto, eles foram obrigados a deixar suas terras pelo medo, para fugir das atrocidades, da morte, e não tem o desejo de uma vida melhor, querem apenas sobreviver quando o conseguem. Os relatos de Salgado sobre os Balcãs e Ruanda são fortes, e ainda ficam muito longe do que ele viveu ali, por mais que as fotos retratem isto como um espelho. 

Há uma tendência a pensar que o Holocausto foi o maior genocídio e que isto não se repetirá, mas ou estamos cegos ou não queremos ver. O genocídio que ocorreu na África e nos Balcãs é atroz, cruel, o pior lado do ser humano. 

Lendo Salgado, vendo o documentário, olhando suas fotos o que vejo é que estou diante da humanidade com o que ela tem de pior e com o que ela tem de melhor. 

Sebastião Salgado 









segunda-feira, 13 de abril de 2015

FILME: GABBEH - 1995


Direção: Mohsen Makhmalbaf - 1995
Duração: 76 min

Que filme lindo! pura arte.

Um casal de idosos (Rogheih e Hossein Moharami) lavam seu gabbeh, um tapete tecido pelas mulheres que registra os acontecimentos de uma vida. Uma jovem surge, ela se chama Gabbeh (Shaghayeh Djodat) e os três contam a história que está escrita no gabbeh. É a história do casal de idosos e do quanto foi complicado eles poderem ficar juntos, pois sempre tinham que esperar. Primeiro pelo pai que havia viajado, depois o casamento do tio (Abbas Sayah), e mais uma vez tem que esperar pelo parto da mãe, e depois é o luto e assim vai. Gabbeh é ao mesmo tempo o espírito do tapete e a que o teceu contando nele sua vida, seus sonhos, desejos, dores e suas fantasias.



O diretor viajou até as remotas estepes do sudeste do Irã para documentar a vida de uma tribo nômade, os ghashghai. São eles que tecem este tipo de tapete que é tanto uma forma de arte como um registro autobiográfico. O diretor então quis fazer um filme sobre as tecelãs dos gabbeh. Ele além de viajar pela região também estudou vários documentos sobre o gabbeh. Os motivos e as cores destes tapetes são inspirados pelos acontecimentos. Há um momento no filme que o Tio fala para as crianças sobre as cores, e encantei-me quando ele diz: o azul do céu mais o amarelo do sol resulta no verde das plantas. E sim, misturando azul e amarelo, teremos verde. Então é assim que as tecelãs escolhem suas cores, como na hora da morte é o negro, o deserto é o amarelo, o azul para o rio.



A poesia também está presente. Quando a mãe dá a luz as pessoas cantam e gritam: Vida é cor! Amor é cor! Também na morte quando o Tio grita: Vida é cor! Morte é.. e mostram a lã negra.

É interessante porque no Irã a mulher não tem voz, mas me lembrando as Arpilleras do Chile, elas encontram uma forma de se expressar. 

Tecer é entrelaçar os fios uns nos outros, como na vida entrelaçamos as relações, o passado, o presente e o futuro. Vamos construindo nossa história. O tapete não conta apenas a história do casal de idosos, mas também a do tio, a vida da tribo, tudo isto formando a trama do tapete.


Mohsen Makhmalbaf nasceu em 1957 em Teerã, Irã

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: DIÁLOGO DE SOMBRAS - 2014


Direção: Jean-Marie Straub e Danièle Huillet - 2014
Duração: 28 min
Título Original: Dialogue d'ombres 

Baseado na novela Diálogo de sombras de George Bernanos de 1928. 

Um diálogo entre um homem e uma mulher sobre o amor, Deus, a herança familiar, o desejo, o orgulho e o exílio. Uma tentativa de se aproximar, de transpor o que os separa. Pensamos que estão longe um do outro, mas não estão, fisicamente não estão, mas há um imenso abismo ali, por mais que haja promessas.

A tentativa de se falar do amor, do possível e do impossível, do peso do passado que é uma sombra que se coloca ali entre eles e neles.

Cinema experimental, de mostrar de outra forma o que muitas vezes se tenta mostrar num filme mais longo.


Danièle Huillet nasceu em 1936 em Paris e faleceu em 2006 em Cholet, França e Jean-Marie Straub nasceu em 1933 em Metz, França. Eram casados.

FILME: FOR THOSE WHO CAN TELL NO TALES - 2014




Direção: Jasmila Zbanic - 2014
Duração: 69 min

País de Origem: Bósnia-Herzegovina

Kym (Kym Vercoe) mora na Austrália e viaja para a Bósnia-Herzegovina em suas férias, se diferenciando dos outros que preferem outras opções. Antes de viajar ela leu o livro de Ivo Andric - A ponte sobre o rio Drina, e segue um guia de viagens para percorrer a região, além de sempre gravar seu dia a dia, como se fosse um diário. 




Por causa do livro que leu resolve visitar Visigrad, que é onde fica a ponte. Faz reserva  em um hotel indicado pelo guia como um local romântico.Até este momento tudo está indo muito bem e ela está feliz com sua viagem, mas na noite que passa no hotel ela sente um mal estar, não consegue dormir. Ao retornar à Austrália ela irá procurar no Google mais informações e é quando descobre que o Hotel foi usado como campo de concentração de mulheres que eram estupradas e mortas, durante a guerra.



Kym se sente chocada com isto e não consegue aceitar que tenha dormido ali, naquele quarto onde algum tempo antes havia ocorrido o horror. Ela volta para lá 6 meses depois para tentar compreender, encontrar respostas e então vai descobrir como as cidades se reerguem após uma guerra, porém sem nunca deixar para trás seu passado sangrento. 

Ela tira fotos de tudo, das marcas nas paredes, na ponte, buracos de tiros, ruínas, tudo que a guerra deixou. Com isto chama a atenção da polícia e acabará interrogada e terá que deixar o país, mas não sem antes prestar uma homenagem às mulheres mortas no hotel e desta forma conseguir elaborar seu mal estar.

Em um determinado momento ela anda pelas ruas da cidade acompanhada de um professor de história e ele diz o que talvez ela não estivesse conseguindo compreender por vir de um lugar onde não havia ocorrido algo assim. Ele fala que "os que viram e viveram se perderam no dom da palavra e os que estão mortos não podem contar histórias. E completa ... essas são coisas que não são contadas e sim esquecidas, mas onde elas não são esquecidas como podem ser contadas? As vezes a ignorância é uma benção.

É o retrato do que acontece nos lugares que passaram pelo horror da guerra. São necessário anos para que se possa falar sobre o que aconteceu. Muitos não querem ouvir e outros não querem falar. É por isto que somente agora vemos uma explosão de livros escritos por sobreviventes do holocausto na Segunda Guerra, estão se aproximando da morte, é talvez a última geração que viu a guerra, e então sentem a necessidade de falar finalmente, para que não seja esquecido.

Este filme me remete a um momento em minha vida quando fui pela primeira vez no local do desembarque na Normandie na França. Eu olhei a praia, pisei nela e não suportei, era como pisar em sangue. Mas a areia estava branca, o mar e a chuva haviam retirados os vestígios, mas eu sentia que estava lá, ainda estava lá.

Jasmila Zbanic nasceu em 1974 em Sarajevo, Bósnia 

FILME: HISTÓRIA DE GUERRA - 2014




Direção: Mark Jackson - 2014
Duração: 88 min
Título Original: War Story

Lee (Catherine Keener) chega à Sicília e vai para um hotel onde já esteve antes. Ela está atormentada, angustiada. Em seguida vamos perceber que ela está machucada, tem uma costela quebrada, mas não quer tirar radiografias como recomenda o médico, quer apenas um remédio para dor. Tem um comportamento estranho, não quer que ninguém entre em seu quarto, nem a camareira, muda a posição dos móveis, coloca um colchão no chão, não atende ao telefone. 

Ela é uma jornalista e fotógrafa de guerra que foi afetada por um trauma e que ao invés de retornar para os Estados Unidos onde todos a esperam, resolve tentar superar isto sozinha. E sua maneira de fazê-lo é tirar fotos de um local onde estão refugiados da Líbia. Neste local ela vê uma jovem que é muito parecida com outra da qual ela tirou uma foto antes, e a partir deste momento ela decide ajudá-la. Hafsia (Hafsia Herzi) está grávida e precisa fazer um aborto. Ela também quer ir para a França, e então Lee a ajuda em tudo isto como uma forma de exorcizar o seu trauma.



A participação de Ben Kingsley como Albert um ex amante de Lee é muito pequena, apenas um momento onde ele tenta trazê-la de volta para sua vida e realidade antes de lhe emprestar o carro para que pudesse levar Hafsia para a fronteira com a França. Mas o conselho de Albert acabará prevalecendo.



 Um filme que poderia ter sido melhor explorado, mas que vale pelas cenas iniciais onde se pode visualizar toda a angústia, dor, o sentimento de estar perdida, sem rumo, que acomete uma pessoa que passou por algo extremamente traumático. 

Mark Jackson 

FILME: MOMMY - 2014




Direção: Xavier Dolan - 2014
Duração: 139 min
País: Canadá 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014

O filme se passa no Canadá. Diane Després (Anne Dorval) está indo buscar seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) em uma instituição para jovens problemáticos de onde foi expulso por haver ateado fogo na cafeteria local e com isto um garoto sofreu queimaduras de terceiro grau. Diane acredita que é capaz de cuidar dele sozinha.

Steve é hiperativo e muitas vezes se torna agressivo. Em uma das cenas por haver sido contrariado em seu desejo de ofertar um presente à mãe que sabe que se trata de um objeto furtado ele a agride e ela tem que se refugiar em outro cômodo. É quando a vizinha da frente se aproxima e irá tentar ajudar Diane.

Um filme que é tocante e terno por um lado e que nos angustia por outro. Uma relação limite entre mãe e filho. Steve em certos momentos é terno e doce como um bebê, mas em outros agressivo e hiperativo. A presença de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha, traz alguns momentos de alegria, e um fará bem ao outro, mas quando se vive em situações limites alguém terá que fazer uma escolha e tentar que ela seja a melhor, acreditar e ter esperança.


O que notamos é que após a morte do pai o filho se agarra à mãe, há algo até mesmo de incestuoso na relação dos dois, fusional, sem espaço para que um terceiro entre. Steve tem ciúmes de sua mãe e se torna agressivo. Por outro lado a mãe o superprotege dos outros. Não admite que ninguém fale algo dele, ou queira colocá-lo em seu lugar. Ela tenta ser rigorosa com ele, mas acaba não conseguindo, seja porque ele a cativa e seduz, ou porque ele se torna agressivo e neste momento ela não dá conta.



Para Steve talvez seja muito difícil ter uma mãe bonita e sexy, uma mãe sexuada, e na falta do pai para ser o objeto de desejo dela, ele não aceita que outro venha ocupar este lugar, então ele tenta suprir a falta da mãe de todas as maneiras. Kyla por um momento é uma interrupção disto, um terceiro que entra para afastar um pouco esta fusão. 


Xavier Dolan nasceu em 1989 em Montreal, Canadá 

LIVRO: O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO - RAIMUNDO CARRERO



Carrero, Raimundo. 1ª ed. Record, 2015
111 páginas

Na madrugada de 18 para 19 de outubro de 2010 o escritor Raimundo Carrero sofreu um AVC, que o deixaria com o lado esquerdo comprometido. Após sair do hospital o que mais o atormentava era se ainda conseguiria ser um escritor, se conseguiria escrever. E conseguiu. 

Mas este livro sobre o que lhe aconteceu demorou mais. Ele escreveu três versões e não se satisfez com nenhuma delas. Ele não conseguia escrever na primeira pessoa, então optou por escrever na terceira pessoa e através de metáforas, e o resultado é este pequeno imenso livro. 

Belíssimo! a medida que vamos lendo sentimos em nós mesmos a angústia que ele sentiu, o medo, mas junto a isto tudo também as recordações da vida, do antes, e novamente a angústia, do agora. São sonhos e pesadelos, a verdade e a invenção. 

Mudar de corpo, mas como o autor nos diz, o corpo está sempre mudando, desde que nascemos. Por outro lado costumamos imaginar que a vida se passa fora do corpo, não o sentimos ali junto vivendo junto com nossos pensamentos, sensações, dores, por mais paradoxal que seja, uma vez que a dor e as sensações só as conseguimos captar e sentir através do corpo. 

Fiquei emocionada, me tocou profundamente este livro. 

Raimundo Carrero nasceu em 1947 em Salgueiro, Pernambuco, Brasil

LIVRO:O TOM AUSENTE DE AZUL - Uma aventura filosófica - JENNIE ERDAL


JENNIE ERDAL 
BERTRAND BRASIL, 1ª ED. 2015
378 páginas
Tradução: Pierre Menard
Título Original: The missing shade of blue

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ESCÓCIA 

O enredo é simples. Edgar viaja para Edimburgo para fazer uma trabalho de tradução dos manuscritos do filósofo David Hume. Ao chegar lá ele conhece por acaso o filósofo Harry Sanderson que é casado com uma pintora, Carrie. A partir daí tudo muda para Edgar a começar do seu jeito de viver que é programado e sistemático até um mergulho em seu passado. 

Edgar passou por um colapso nervoso na Universidade e desde então procura se manter longe de emoções e da desordem, mas Sanderson é o oposto, anárquico, paranoico e está passando por uma crise autodestrutiva. O encontro destes dois é o que há de brilhante no livro, principalmente Sanderson que irá questionar o que é ser feliz? se a felicidade existe? 

Será diante das atitudes, comportamento e do que diz Sanderson que Edgar terá que enfrentar seus próprios conflitos. Ele é mais velho e mais vivido que Edgar e traz toda uma gama de experiência de vida que traz para o real o que costumamos romancear, transformar em ficção ou algo belo, na tentativa de não se confrontar com a velhice, com as frustrações, com as perdas e faltas. Sanderson revela como nos valemos de consolos e da imaginação para escapar ao real da vida. 

O final deixa claro que o "vivemos felizes para sempre" é algo ilusório, mas ao chegar ao fim do livro percebemos em nós mesmos como torcemos para que isto aconteça, como desejamos continuar dentro deste imaginário. O quanto estamos sempre criando o tom ausente de azul. 

Recomendo!

Jennie Erdal é uma escritora escocesa

sexta-feira, 10 de abril de 2015

FILME: PROMESSAS DE GUERRA - 2014



Direção: Russel Crowe - 2014
Duração: 105 min
Título Original: The Water Diviner

Filme dirigido por Russel Crowe que faz o papel do protagonista. Joshua Connor (Russel Crowe) vive na Austrália com sua esposa Ayshe (Olga Kurylenko). Ao regressar para casa à noite ela está limpando as botas de um dos filhos e lhe pede para ler para eles alegando que é o melhor momento do dia. Logo percebemos que os filhos não estão ali. Eles morreram na guerra, na Batalha de Gallipoli em 1919 na Turquia. Ayshe o acusa de nunca os ter trazido de volta. A dor de uma mãe que perde os três filhos é muito forte e ela acaba se suicidando. Diante disto Joshua promete em seu túmulo que vai buscá-los para que sejam enterrados ao lado da mãe.



A partir daqui não leia se pretende assistir ao filme.

Joshua consegue localizar os corpos de dois de seus filhos, porém o mais velho escapou vivo da batalha. Começa então a procura por ele que acabará sendo encontrado. A grande questão do filme é porque ele não voltou? Aqui vou falar em termos psicanalíticos. Quando eram crianças o pai sempre dizia ao mais velho para que não voltasse para casa sem os irmãos. E isto ficou gravado. Como ele poderia voltar? sem os irmãos? Na infância diante de uma tempestade de areia ele havia cumprido sua promessa, e permanecido com os  irmãos até a chegada do pai, mas na guerra ele acredita que falhou. 


O que o filme deixa muito evidente é a força de uma palavra, de uma frase dita seja pelo pai ou pela mãe na infância que fica registrada e não permite modificações, mesmo quando já somos adultos, a menos que consigamos falar disto e encontrar possibilidades de mudar. É o que acontece quando ele o diz para o pai, mas mesmo assim não quer voltar e só o fará quando o pai disser outra frase para ele. 

A Batalha de Gallipoli foi terrível, um massacre, e o filme também relembra um pouco deste triste episódio. 

Russel Crowe nasceu em 1964 em Wellington, Austrália. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DOCUMENTÁRIO: O SAL DA TERRA - 2014


Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Duração: 110 mim
Título Original: Le sel de la terre
País: Brasil - França - Itália 

Indicado ao Festival de Cannes 2014 como Un certain regard

Estou encantada com o trabalho de Sebastião Salgado, é muito especial.

O Documentário realizado por Wim Wenders e pelo filho de Sebastião, Juliano Ribeiro Salgado nos mostra muito mais do que as fotos que ele tirou, nos fala de sua vida e do que o levou a tirar as fotos, mas além disto também o que este trabalho trouxe para ele mesmo, o que modificou nele mesmo na sua maneira de ver o mundo. 

Há fotos impactantes, duras, difíceis de olhar, feitas justamente para chocar e sacudir as pessoas que estão acomodadas em sua vida de conforto longe das tragédias e misérias do mundo, mas o que mais elas fazem é nos lembrar que se hoje estamos no conforto nada nos garante que amanhã seja assim. Isto fica evidente quando após mostrar uma série de fotos da África e suas guerras civis e deslocamentos de população e sobre a América Latina ele nos lembra que é bom não pensar exatamente isto: isto é na África, é na América Latina, porque em seguida ele retorna à Europa e uma Europa já atual, pós segunda guerra mundial para fotografar a Bósnia, a Croácia, a ex-Iugoslávia e tudo o que aconteceu por lá. 

Sebastião viveu exilado por muitos anos até que pode finalmente retornar ao Brasil com a anistia para os refugiados políticos. Pode rever sua família, seus pais, o lugar onde nasceu. Neste momento ele faz uma viagem pelo Brasil que retrata, principalmente a seca do sertão, a morte. 

Finalmente, já próximo dos 70 anos em 2004 ele inicia um novo projeto e se lança numa viagem por mais de 30 países em busca do belo, do que não foi destruído, do que ainda está intocado pela dita modernidade, pelo suposto progresso, ou seja, onde a crueldade do homem ainda não chegou. E o resultado é Genesis que vi no MON em Curitiba e postei aqui no Blog. 

Vale a pena assistir!

Wim Wenders
Juliano Ribeiro Salgado
Sebastião Salgado

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME: MIL VEZES BOA NOITE - 2013


Direção: Erik Poppe - 2013
Duração: 112 min
Título Original: Tusen ganger got natt

Filme belíssimo. Rebecca (Juliette Binoche) é uma fotógrafa de guerra. Ela está no Afeganistão tirando fotos de mulheres bombas quando é atingida por uma explosão. Seu marido (Nikolaj Coster-Waldau) lhe dá um ultimato pois nem ele, nem suas filhas aguentam viver sob a tensão de nunca saber se ela está viva ou morta, que é impossível viver assim. Rebecca acaba aceitando e desiste de sua profissão. No entanto sua filha mais velha parece lhe seguir os passos participando de um projeto sobre a África e quando surge a oportunidade de ir ao Quênia tirar fotos de um campo de refugiados que é considerado um local seguro ela pede a mãe que aceite e que a leve junto.





Elas partirão, mas enquanto estão no acampamento há um ataque e elas precisam sair imediatamente, porém Rebecca não parte, pede que levem sua filha para um local seguro e fica para fotografar tudo. Com suas fotos consegue que a ONU mande reforços. Sua filha lhe pede que não conte nada para o pai, mas ela fica traumatizada pelo que ocorreu. Numa conversa com a mãe ela mostra que filmou tudo, o momento em que ela fica e pede para a levarem. O medo, estar sozinha num país estranho, não saber o que iria acontecer, tudo isto foi forte para a jovem adolescente. É então que o pai descobre a filmagem e é a gota d'água. Eles se separam, e Rebecca pensa em retomar sua vida, porém desiste no aeroporto e volta. Vai à apresentação da filha sobre a África e a ouve falar do seu orgulho da mãe e que o mundo e as crianças que sofrem precisam dela e dos fotógrafos para denunciar o que está acontecendo.







Rebecca retoma sua vida de fotógrafa e volta ao Afeganistão. Só que desta vez quem está sendo preparado para explodir é uma criança. O final do filme é um soco no estômago, quando ficam a mãe da criança que se foi ajoelhada no chão e Rebecca que também cai ali ajoelhada. 

Durante o filme acabamos julgando Rebecca como mãe, por ter uma profissão de alto risco e com isto deixar suas filhas sempre num estado de tensão e sofrendo com sua ausência, e mais ainda a julgamos quando ela fica no acampamento e manda levar sua filha para um lugar seguro. Mas e agora? diante desta outra mãe que acaba de entregar seu filho para explodir, uma criança bomba? Ambas agiram de acordo com o que acreditam, de acordo com uma fé, de acordo com aquilo que as move. Só que uma pela paixão de seu trabalho e do que pode conseguir com isto, salvando pessoas, ajudando, e a outra pelo o que acredita ser correto para salvar seu povo, mesmo que seja através de atos terroristas. Ambas são fanáticas de alguma maneira. E ambas são mães. 

Não me arrisco a julgar pelos padrões ocidentais. Obvio que não concordo de forma alguma com a violência, com o ato de matar, mas o que não julgo é a crença delas e que as levam a certas ações. Fiquei aturdida no final do filme, sem saber o que pensar, sentindo uma angustia forte. Que força é esta que move estas duas mães? estas duas mulheres? Sim, eu considero um crime fazer de uma criança um objeto que vai explodir com as bombas, a criança não tem opção de escolha, ela está sob o jugo dos adultos. Notamos o quanto o ser humano tem em si mesmo a vida e a morte. Eros que nos leva ao desejo e à vida e Tânatos que nos leva à morte, a destruição. Rebecca é movida por Eros, pelo desejo, mesmo que seja fotografando a morte, a destruição, a miséria, a guerra. O que ela quer é chocar o mundo, sacudir, tentar fazer com que as pessoas acordem. A outra mãe está movida por Tânatos, pela morte. Mas segundo suas ideias é uma morte necessária para se atingir algo. Como encarar isto? Para mim é um crime, um absurdo, inconcebível, mas não para ela. A criança bomba vai morrer e com ela outros. 

Rebecca fica com um sentimento de culpa após a primeira explosão por ter descido do carro e atraído a atenção da polícia levando a mulher a detonar a bomba ali mesmo, onde havia crianças, mulheres, velhos. E esta mãe do menino? tem culpa? qual o tamanho da dor dela ali ajoelhada e rezando?

Erik Poppe nasceu em 1960 em Oslo, Noruega. Ele foi fotógrafo de guerra antes de ser cineasta.

FILME: TANGERINES - 2013



Direção: Zaza Urushadze - 2013
Duração: 87 min
Título Original: Mandariinid

País de Origem: Geórgia

Um filme sensível sobre a guerra onde a humanidade ainda se faz presente através de Ivo (Lembit Ulfsak). É a guerra na Abcásia, 1992, que quer se tornar independente da Geórgia. Os estonianos deixaram a aldeia, mas Ivo e Margus (Elmo Nüganen) ficam. O primeiro por motivos pessoais que iremos compreender no final do filme e Margus para cuidar de sua plantação de tangerinas. Os dois são amigos, e Ivo faz as caixas de madeira para Margus colocar as tangerinas. Estão com um problema pois não encontram ninguém para ajudar na colheita.





Ahmed (Giorgi Nakashidze) aparece na casa de Ivo com seu companheiro, ele é um mercenário que está lutando por dinheiro. Depois de pegar comida vai embora. Logo em seguida vai haver um ataque na porta da casa de Margus e Ahmed está ferido, os outros estão mortos. Ivo o leva para sua casa para tratá-lo e com Margus vão enterrar os outros, porém descobrem que há mais um sobrevivente, Niko (Misha Meskhi), um georgiano, que está gravemente ferido na cabeça. Ivo também o socorre.



A partir daí serão os quatro, sendo que Ahmed jura que vai matar Niko para vingar a morte de seu amigo, mas acaba dando sua palavra de honra que não o fará na casa de Ivo. São quatro pessoas de diferentes nacionalidades, religião, idade, cada um com sua visão de mundo que terão que conviver ali. Aos poucos as questões surgem, por que lutam? que direito eles tem de matar? trazendo a tona o absurdo da guerra onde as pessoas se tornam inimigas, se odeiam, muitas vezes sem motivo algum, e que se não fosse a guerra poderiam inclusive ser bons amigos. É disto que o filme trata.



Zaza Urushadze nasceu em 1965 na Geórgia. 

LIVRO: O SINTOMA Variações Freudianas 1 - ANTONIO QUINET



Quinet, Antonio. Giostri, 2014
58 páginas

Quinet apresenta em forma de teatro o sintoma que se manifesta no corpo, nos atos, como uma forma de falar da verdade do sujeito. Temos a histérica interpretada por uma estudante de psicologia na época (Aline Deluna), e o homem dos ratos analisado por Freud como o sintoma obsessivo. Quinet participa ele mesmo da peça no papel tanto da peça como o é na vida real, de psicanalista

"O sintoma é uma realização de um desejo. Se ele faz sofrer é porque realiza um desejo conflituoso, do qual você não quer nem saber." O sintoma é de nossa própria autoria, e dele somos os atores, mas a pergunta é: quem é seu espectador? e para quem você fez seu sintoma? A impossibilidade da relação sexual faz do sintoma o parceiro sexual do sujeito. 

Não se deve calar o sintoma e sim fazê-lo falar para se aproximar da verdade do sujeito. Como uma crítica aos que receitam remédios para calá-lo o autor nos diz: Persistindo o médico, consulte o sintoma!

O livro é o roteiro da peça de teatro. 



Antonio Quinet é psicanalista, psiquiatra e doutor em filosofia pela Universidade de Paris VIII

segunda-feira, 30 de março de 2015

LIVRO: O TODOMEU - ANDREA CAMILLERI



Camilleri, Andrea. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
140 páginas
Tradução: Ana Maria Chiarini
Título Original: Il Tuttomio

Estou impressionada com este livro. Não sei dizer se o que ocorre no Todomeu, um lugar oculto no sotão da casa de Giulio e Ariadne que ela usa como um refúgio secreto onde mantém uma boneca como sua única amiga e confidente, é fantasia, realizações inconscientes do desejo de vingança ou se é real. 

A história de Ariadne nos é apresentada em vários tempos, o passado e o presente, e aos poucos vemos que ela sofreu abusos sexuais em sua infância e adolescência. Quando criança ela tinha uma caverna para se refugiar que chamava de Todomeu que recriou depois no sótão da casa onde vivia com Giulio, seu marido, bem mais velho do que ela e que havia sofrido um grave acidente transformando-o num eunuco. 

É uma brilhante descrição do psiquismo de uma mulher que sofreu abusos na infância e que permanece aquela criança apesar de haver crescido e se tornado uma bela mulher. Ela ainda faz xixi na cama, faz manhas, adora ver desenhos na TV, como Tomy e Jerry, se lambuza para comer. Giulio se encanta com este lado. Devido ao acidente ele não pode satisfazê-la sexualmente e por isto decide que todas as quinta-feiras ela irá se encontrar com um homem. Um jogo muito perigoso, ainda mais que Ariadne traz marcas da infância de abusos, o que Giulio não sabe e que lhe deixa um desejo de ser amada sem poder sê-lo, mas também o desejo de vingança, é o ódio-amor. 


LIVRO: CEM ANOS DE SOLIDÃO - GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ



Márquez, Gabriel García. 35ª ed. Record, 1967
394 páginas
Tradução: Eliane Zagury
Título Original: Cien Años de Soledad

Muitos anos se passaram desde que li o livro a primeira vez e mais uma vez se comprova que a cada leitura lemos um outro livro, relembramos o que vimos na primeira vez e reinterpretamos outros momentos. Havia me ficado uma impressão de que a chuva praticamente dominava o livro todo e não foi assim. Interessante o que nos marca na leitura e cada um de nós irá ver algo que talvez o outro não perceba.

Quando o li a primeira vez eu ainda não tinha nenhum conhecimento da psicanálise e portanto foi uma leitura bem diferente que fiz agora. Não há como escapar, depois que passamos pela experiência de uma análise queiramos ou não adquirimos um olhar diferente e uma percepção analítica seja da vida, seja de filmes, livros, teatros, arte, passamos a olhar a entrelinhas, a ouvir mais, a perceber as associações, o romance familiar, enfim, tudo que envolve uma vida. 

A história da família Buendía que perdura cem anos desde o primeiro até o último e o final da estirpe. Cem anos de solidão. Por que solidão? Afinal não vivem todos ali, na mesma casa em Macondo? sob a tutela da matriarca Úrsula? A solidão nem sempre se dá quando estamos sós e mais uma vez comprovamos que solidão é algo que trazemos em nós mesmos e não está no entorno. 

Tudo começa com o casamento entre primos - José Arcádio Buendía e Úrsula. O temor de que possam ter um filho com rabo de porco devido o incesto entre primos se apodera de Úrsula que irá continuamente repetir isto, sobre este perigo, frase que marcará a todos na família. A força de uma palavra, de uma frase, principalmente de uma mãe sobre sua prole e descendentes é terrível, marca a ferro e fogo, e como se libertar disto? 

Tudo que se recalca ou omite, os segredos, o que se esconde de alguma maneira retorna, tudo que se nega, de alguma maneira retorna, e o que vemos ao longo do livro é a eterna repetição, de casamentos incestuosos, de amores incestuosos, que se marca pela repetição inclusive dos nomes a tal ponto que em dado momento já não sabemos de que José Arcárdio ou de que Aureliano se fala. 

O destino prescrito pela matriarca irá se repetir por não ter sido rompido, por não ter sido falado, o mau dito que não se transforma em bem dito. O destino prescrito e escrito pelo cigano Melquíades que não foi decifrado a tempo, nem mesmo quando o último Aureliano quase o consegue, mas é tarde, a repetição já havia se dado. 

Ao longo do livro vamos notando várias repetições, no modo de ser conforme o nome, na maneira de agir que alguns chamam de vício, o silêncio que se abate sobre alguns, a presença de insetos, as formigas, a destruição lenta da casa que parece acompanhar a destruição da família. 

O livro é uma obra de arte, o realismo mágico, as situações que se apresentam que mesmo sendo irreais se tornam verossímeis na história. 

Gabriel García Márquez