Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Robert Guédiguian - 2014 Duração: 92 min Título original: Au fil d'Ariane País: França
O filme é um sonho mas sem se desprover de lógica apesar de cenas oníricas como uma tartaruga falante. Mas quem já não conversou com animais? e lhes colocou uma resposta sendo dada?
É o dia do aniversário de Ariane (Ariane Ascaride), ela está em sua moderna casa preparando um bolo enquanto chegam flores e o telefone não para com sua família e amigos lhe desejando um Feliz Aniversário, porém todos eles alegam que infelizmente estão impossibilitados de comparecerem para lhe dar os parabéns pessoalmente.
Assisti o filme na véspera do meu aniversário, já me preparando para justamente passá-lo sozinha. Porém como no filme isto acabou não acontecendo. Mas voltando a Ariane, quando ela percebe que ninguém virá ela deixa o bolo com as velas acesas e sai, decide comemorar sozinha seu aniversário. Na ponte levadiça enquanto espera a passagem de um navio acaba conversando com um jovem que se oferece para levá-la até um lugar muito bom para comer, o restaurante Café L'Olympique onde diariamente vão excursões de idosos para comer. Quando decide ir embora tem que chamar um táxi pois o rapaz da moto saiu com uma garota. Ela não sabe direito o endereço de onde deixou o carro, mas no caminho vê seu carro sendo guinchado, eles voltam, vão atrás mas quando chegam ao local o portão é fechado na cara dela. Bom ela saca dinheiro para pagar o taxista ( Jean-Pierre Darrousin) e neste momento é roubada por dois que passam numa moto. O taxista a leva de volta ao Café.
Ariane vive a realização de seus desejos, ela se reencontra. Ao relembrar seus sonhos que foram apagados ou deixados de lado diante do dia a dia de sua vida de casada, mãe de dois filhos, ela revive. E o que nos mostra o filme é que temos que manter a capacidade de sonhar, de desejar, e que mesmo que não seja possível realizar os desejos na realidade ainda assim podemos sonhar. Ao final Ariane terá que retornar, como no mito, ela segue seu fio de volta a sua realidade. Acorda quando tocam a campainha e eis que chegam todos para lhe fazer uma surpresa após enganá-la dizendo que não poderiam ir.
Robert Guédiguian nasceu em 1953 em Marselha, França. É casado com Ariane Ascaride.
Musica cantada no filme por Ariane - Comme on fait son lit.
Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014 252 páginas Tradução: Laura Janina Hosiasson Título Original: El viaje vertical País: Espanha
Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou.
Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.
Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.
É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.
Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015 251 páginas Tradução: Rosa Freire D'Aguiar Título Original: Soumission
É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais.
Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio.
É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família.
François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família.
O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto.
A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.
Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.
Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.
O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.
A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.
Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.
O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.
Napoleoni, Loretta. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015 154 páginas Tradução: Milton Chaves de Almeida Título Original: The Islamist Phoenix: the Islamic State and the redrawing of the middle east
O livro de Napoleoni é um grande alerta. De forma acessível, mesmo para os que não entendem muito de políticas e de geopolítica e menos ainda da situação no Oriente Médio, ela nos fornece um panorama sobre o que acontece por lá e de como as coisas funcionam, mas acima de tudo é um alerta para o descaso e a cegueira ocidental e sua maneira de tratar do assunto.
O Estado Islâmico está crescendo. Ele adentra territórios desestabilizados, que estão no caos e para a população acaba sendo a única maneira de encontrar um pouco de ordem em meio a tantas guerras, obviamente desde que se converta ao islã. Por outro lado ao contrário de outros grupos terroristas o EI faz pleno uso da tecnologia virtual para se auto-divulgar e desta forma conseguir novos adeptos além de infligir o terror e o medo através de seus atos afetando psicologicamente as pessoas.
O EI quer recriar o Califado e refazer as antigas fronteiras que a colonização européia desfez. O povo da região se sente humilhado com isto e assim o Califado é um sonho de todos. A questão é que o EI não é um grupo retrógrado, pelo contrário, é moderno e tem plena compreensão da situação local. Eles sabem como manipular a opinião pública e acabam fazendo uso da tecnologia para isto, da mesma forma que o governo dos Estados Unidos utilizou para justificar a invasão do Iraque, e o mais importante é o alerta para como as pessoas acabam acreditando nisto sem parar um segundo para pensar no que está sendo dito.
O que diferencia o EI de todos os outros grupos é que ele está conseguindo formar um Estado, não reconhecido, mas aceito pelo povo, e eles sabem que as pessoas precisam estar contentes, e para isto eles investem no social, fornecendo água, energia, alimentos, ajudando o comércio, nestas regiões onde tudo estava um caos. A imposição da xaria é algo que as pessoas no lugar aceitam, e com exceção dos xiitas que eles querem exterminar eles oferecem a chance para os que moram no local de se converterem e serem aceitos, ou cair fora.
Fica claro pela leitura do livro que foi a colonização europeia assim como as guerras e invasões dos Estados Unidos que propiciaram o terreno fértil para que o EI surgisse e se mantivesse. Com a compreensão moderna dos dirigentes do EI, diferente de um Talibã ou Al Qaeda, e evitando toda forma de corrupção interna como ocorreu na OLP, eles deixam de ser apenas um grupo terrorista como a mídia do Ocidente costuma apresentá-los e se tornam muito mais perigosos do que imaginamos. Eles querem construir um Estado e tem uma visão moderna disto.
Loretta Napoleoni nasceu em 1955 em Roma, Itália.É jornalista e analista política.
Direção: Martin Campbell - 2003 Duração: 127 min Título original: Beyond borders País: Estados Unidos - Alemanha
O filme fala sobre a luta dos que buscam ajudar aos refugiados nos países em guerra ou que passam por situações de fome e doenças.
Sarah (Angelina Jolie) conhece Nick (Clive Owen) numa recepção em homenagem ao seu sogro, pai de Henry (Linus Roache) com quem é casada. Ele está sendo homenageado por suas doações a pessoas necessitadas. Nick irrompe no meio da comemoração para expor a realidade da África que está bem longe daquele mundo de luxo e sofisticação onde vivem Sarah e o marido. Nick vem acompanhado de uma criança e lhe jogam uma banana. Eles acabam presos e a criança foge sendo encontrada morta no dia seguinte. Tudo isto afeta Sarah que se dispõe a ajudar Nick.
Ela parte para a Etiópia com um carregamento de medicamentos e comida e começa a descobrir a realidade disto tudo. A corrupção, as negociações para que algo consiga chegar ao campo, ela verá cenas terríveis de morte e fome e isto faz com que mude de vida e passe a trabalhar nas Nações Unidas.
O filme nos mostra além da Etiópia e a fome, o Camboja e depois a Chechênia. Paralelamente vemos o desenrolar da vida de Sarah junto ao marido, um casamento que vai se acabando.
Martin Campbell nasceu em 1943 em Hastings, Nova Zelândia.
Direção: Radu Mihaileanu - 2005 Duração: 143 min Título em português: Um herói do nosso tempo País: Israel - França Ganhador de nove prêmios e teve outras seis indicações. No Festival de Berlim ganhou três prêmios. Na França ganhou o César de melhor roteiro. Filme em co-produção - França, Bélgica, Israel e Itália. Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. Chorei, ri e torci.
O título em português não é ruim, mas a tradução do título seria: Vá, viva e venha a ser.
O filme inicia com um narrador que nos fala sobre acontecimentos recentes mas que poucos conhecem. Vemos fotos reais ao fundo enquanto ele introduz a história dos judeus etíopes negros, os falashas que segundo a tradição são descendentes do Rei Salomão e da Rainha de Sabá. Milhares saíram da Etiópia a pé e buscaram refugio no Sudão, um país muçulmano apegado as regras rígidas da sharia. No trajeto até ali morreram em torno de 4 mil pessoas de fome, doenças, assassinados, torturados. Em 1985 o governo de Israel com a ajuda dos Estados Unidos organizou uma operação para retirá-los que foi efetuada pelo Mossad, a polícia secreta de Israel com aviões. Eles conseguiram retirar em torno de 8 mil pessoas levando-os para Jerusalém. Tudo isto nos lembra o êxodo dos judeus do Egito até a terra santa, e a operação recebeu o nome de Moisés.
Após a contextualização histórica o filme começa num campo de refugiados. Uma mulher acaba de perder seu filho de 09 anos, é Hana (Mimi Abonesh Kebede), ele morre em seus braços de fome. Naquela noite há um avião, e Hana é uma das escolhidas para ir. Vemos então uma mãe (Meskie Shibru Sivan) que acorda seu filho e ordena que ele vá. Ele não quer ir, não quer deixar sua mãe, mas ela é taxativa - Vá, viva e venha a ser!
Ele então vai com Hana. Na hora do embarque eles perguntam que garoto é aquele se seu filho morreu naquela manhã, mas o médico a socorre e diz que não, que ele conseguiu salvar a criança. Ele embaca com Hana rumo a Jerusalém. A questão é que este menino não é judeu, é cristão, mas terá que se passar por um judeu. Adota o nome do filho morto de Hana, Salomão - Schlomo (Moshe Agazai). O filme irá acompanhar a vida dele até a vida adulta, já nos anos 2000.
É tocante, é belo, é triste, mas é um hino à vida, exatamente o que sua mãe lhe desejou - Vá, viva e venha a ser!, mas ele nunca esquecerá sua mãe, e sempre olhará para a lua, sempre se direciona para o sul onde fica o Sudão, tem um olhar profundamente triste, de dor. Um dia ele sai do lugar onde está acolhido e se encaminha em direção ao Sul, e todos decidem que ele não pode ficar ali, mas é o psicólogo que diz: ele vai para o Sul, onde está sua mãe. Resolvem então que ele tem que ir para adoção.
Ele será adotado por um casal Yaël (Yaël Abecassis) e Yoram (Roschdy Zem) que já tem dois filhos. Há uma cena onde Yaël é comunicada pela escola que terá que encontrar outra para o menino porque os pais tem medo que Schlomo transmita doenças aos seus filhos. Ela reage, fala o que precisa ser dito e beija, abraça, lambe o menino mostrando que é um ser humano, uma criança e que não oferece nenhum perigo.
Se apaixonará por Sara (Roni Hadar) e ela por ele e ambos terão que enfrentar o preconceito da família dela.
O filme além de mostrar a vida de Schlomo tem como pano de fundo a história de Israel também, como atentados suicidas em Jerusalém, o medo dos ataques com bombas venenosas, a assinatura dos Acordos de Oslo com Bill Clinton entre Yasser Araft e Yitzhak Rabin em 1993, e o assassinato deste último.
O final do filme é extremamente emocionante, dolorido e belíssimo.
Schlomo teve que viver sua vida carregando o segredo de sua origem, de sua família, usando o nome de um garoto morto com 09 anos no campo de refugiados. Ele terá que mentir, aprender sobre o judaísmo, tudo isto para viver. Enfrentará o preconceito racista entre os judeus. Até o dia que vai se abrir e dizer a verdade, então saberemos mais sobre sua história e da culpa que ele também carregava, achando que havia sido castigado pela mãe. Somente então ele vai perceber que ela o mandou embora por amor, para lhe salvar a vida. Mas apesar da dor, da separação, das lembranças traumáticas Schlomo irá aos poucos vivendo e finalmente ele poderá vir a ser, ele mesmo.
É triste vermos que o preconceito, o racismo está no humano, inclusive no meio de um povo que foi um dos mais vitimados por isto, que também teve que fugir, adotar nomes falsos, teve que se converter forçosamente ao cristianismo para salvar a vida, e infelizmente o que vemos é que tudo se repete, mesmo entre aqueles que sofreram a mesma coisa.
A trilha sonora é belíssima.
Radu Mhaileanu nasceu em 1958 em Bucareste, Romênia. É judeu e está radicado na França
Direção: Mike Nichols - 1986 Duração: 108 min Título Original: Heartburn País: Estados Unidos
Após assistir a Villa Amalia este filme parece vim complementar com a outra faceta feminina diante uma infidelidade.
Rachel (Meryl Streep) conhece Mark (Jack Nicholson) em uma festa e logo eles estarão casados apesar de Rachel não acreditar no casamento alegando que nunca dá certo. Mas após estar casada ela logo se acomoda na situação deixando seu trabalho de escritora de matérias culinárias para ser uma perfeita dona de casa, esposa e mãe de sua filha. Tudo parece perfeito, ela engravida de um segundo filho e é então que descobre que Mark está tendo um caso.
Ela parte com a filha para a casa de seu pai. Mas esta decisão não é definitiva para ela que espera que Mark venha atrás dela, que se arrependa, que lhe diga que a ama. Aqui temos o primeiro ponto divergente com o filme Villa Amalia onde Ann após descobrir a traição e seu marido lhe dizer que a ama não aceita mais isto pois perdeu todo o sentido para ela.
Rachel volta com o marido, nasceu mais uma filha, porém ela não vai demorar a descobrir que ele não deixou a outra mulher, levando-a a uma nova separação.
Rachel assumiu um lugar de mulher de Mark, dA mulher de Mark, deixando para trás o que ela era, inclusive sua certeza de que casamentos não dão certo e aceitando se casar com ele. Se transformou na esposa e depois em mãe. Passou a cuidar de uma casa, cozinhar e ser mãe. Mark chega um momento que não suporta mais esta vida, ele que sempre foi o solteirão. Não é que não ame Rachel, mas ele não consegue viver neste cotidiano de um casamento.
O filme Villa Amalia é muito mais profundo e nos fala muito mais da subjetividade de uma mulher diante da perda do amor, da infidelidade, do lugar da mulher. Aqui Rachel ainda sonha com o amor, acredita que ao sair de casa ele vera que a ama e o quanto ela faz falta e com isto irá restabelecer o pacto ilusório. Mas Rachel irá descobrir que isto é impossível. Ao voltar ela nunca mais confiará nele, e passa a se angustiar, olhando os bolsos das roupas, sentindo o cheiro a procura da prova do suposto crime. Ele também não vai abrir mão do que deseja, mesmo que queira a família.
Há um momento no filme que Mark diz a Rachel o lugar que ela está ocupando: - Se não estamos na casa de minha mãe porque você fala comigo como se fosse minha mãe. Este não é o lugar de mulher que Ann ocupa em Villa Amalia.
Mike Nichols nasceu em 1931 em Berlim, Alemanha e faleceu em 2014 em Manhattan, Nova Iorque, EUA
Direção: Benoît Jacquot - 2008 Duração: 90 min País: França
Adaptação do livro homônimo de Pascal Quignard (1916).
O filme nos mostra os efeitos devastadores em Ann (Isabelle Huppert) ao descobrir a infidelidade de seu companheiro de 15 anos, Thomas (Xavier Beauvois).
O filme começa com ela seguindo o carro dele e depois ela o vê entrando num jardim com rosas, uma mulher abre a porta e o beija. Ela sufoca um grito. Mesmo encontrando neste mesmo instante um amigo de infância, Georges (Jean-Huques Anglade) e ele tendo visto tudo ela não consegue falar sobre o que viu e sobre o que sente. Ao contrário, ela ao invés de falar, chorar, gritar, se volta contra si mesma num processo de autodestruição e também de destruir tudo que seja de sua vida até o presente, vendendo o apartamento, jogando fora roupas, objetos, os pianos, ela é uma pianista famosa. Queima as fotos, as partituras, escritos, composições. O que ela quer é desaparecer.
Thomas tenta lhe dizer que é ela que ele ama,mas mais nada disto tem sentido para ela. A ruptura da relação de exclusividade que ela acreditava ter com ele se desfez.
Ao perder o amor Ann se perde e o filme nos mostra através de seus atos, sua expressão, sua dor toda a subjetividade desta mulher. Ela parte apenas com uma bolsa de viagem e se desloca por várias cidades europeias. No percurso ela vai ainda se livrando das coisas, primeiro se desfaz do celular, depois joga a bolsa e compra um mochila, mais adiante também se desfaz da mochila, corta o cabelo curto e usa vários nomes. Até que ela chega a uma ilha no mar Mediterrâneo, Ischia.
Lá ela conhece uma velha senhora e deseja alugar a casa que seu pai construiu para sua Tia Amalia. As duas acabam amigas, e a partir deste momento ela se apresenta como Anna. É com este nome que ela começa a reconstruir uma identidade para ela.
Na modernidade tudo isto pode parecer um exagero, mas estamos diante da feminilidade. A falta do amor de um homem pode levar uma mulher a perder a si mesma. No mundo de hoje diante de um rompimento assim é comum o consumismo desenfreado e ter vários parceiros, ou a depressão. Anna vive sua perda, inclusive a sua própria. Ela precisa se reconstruir agora como mulher, uma outra mulher.
Direção: Anaïs Barbeau-Lavalette - 2011 Duração: 101 min País: Canadá - França
Chloe (Evelyne Brochu) é uma médica canadense que trabalha para as Nações Unidas e vive na Cisjordânia ocupada por Israel atendendo palestinas que vivem do outro lado do murro que separa os palestinos dos israelenses. Ela se sensibiliza com a situação as pessoas que vivem ali e acaba se envolvendo mais do que seu chefe acha que deva fazer lhe lembrando que deve ser fria.
Ela é amiga de Ava (Sivan Levy), uma israelense que trabalha no posto de controle para a passagem entre o campo de refugiados onde vivem os palestinos e o lado israelense. Acaba se aproximando de Rand (Sabrina Ouazani) uma de suas pacientes e com ela convive mais de perto com os refugiados conhecendo seu drama.
O filme retrata o conflito entre israelenses e palestinos sob a ótica de uma mulher, tanto a diretora do filme como a médica Chloe. Apesar de mostrar o conflito e o drama das pessoas o foco do filme é o olhar da médica, uma estrangeira ocidental e como ela reage a tudo isto.
Chloe acaba se envolvendo com o irmão de Rand, Faysal (Yousef Sweid) que faz parte da resistência Palestina, ou como alguns chamariam, de grupo terrorista. Se no início do filme Chloe procura se manter neutra transitando entre os dois lados sem tomar partido, é após ver um jipe israelense atropelar e matar uma criança de forma proposital que ela repensa sua posição e tende mais para o lado palestino.
Não vou entrar aqui na questão deste conflito, de quem está certo ou não, fato é que Israel tomou posse do território e deslocou inúmeros palestinos de suas casas, construindo o murro que divide a cidade. Mas vou focar na questão de uma estrangeira no meio disto tudo. Da dificuldade de se olhar para um outro ser humano e ter que ser fria com ela, o que Chloe não consegue mais ser após a morte do menino envolvendo-se com a família. Ela consegue inclusive uma permissão para que eles possam ir ver onde moravam antes, os escombros da casa, onde nasceram e viveram em paz durante anos antes do conflito.
Porém quando Rand dá a luz, Chloe está em Tel Aviv, e demora para chegar. Eles não conseguem transpor a barreira israelense para chegar ao hospital e a criança nasce no carro vindo a morrer em seguida por falta de oxigênio. Neste momento Rand se volta contra Chloe alegando que foi devido sua demora que a criança morreu, dizendo que quem está dos dois lados não está de nenhum lado. Rand acaba se transformando numa mulher bomba.
Se por uma lado temos a humanidade, e estamos diante de outro ser humano que sofre, de outro há toda uma questão cultural, histórica e de guerra que separa, e isto faz com que Chloe não possa se aproximar de Rand como uma amiga. É a dificuldade e o drama que enfrentam os que trabalham nestes campos de refugiados em todo o mundo. Até que ponto posso me aproximar e me envolver, se é que posso? Até que ponto vai minha humanidade neste caso diante de outro ser humano? Uma linha tênue, tão tênue quanto o murro construído para separar os dois lados.
Anaïs Barbeau-Lavalette nasceu em 1979 em Quebec, Canadá
Duração: 118 min País: França Festival Varilux de cinema francês 2015
Samba (Omar Sy) está na França há 10 anos, mas não tem o visto permanente. Ele veio do Senegal e vive com seu tio que já conseguiu a permanência no país. Ele vai a uma ONG que procura ajudar estas pessoas e lá conhece Alice (Charlotte Gainsbourg) que está ali como parte de sua recuperação após surtar em seu trabalho durante uma reunião. Apesar de sua colega Manu (Izïa Higelin) lhe avisar que é preciso manter distância e não se envolver não é o que acontece e Alice se sente atraída por Samba.
O filme retrata o que é a vida de um imigrado clandestino que precisa viver e comer e para isto se disponibiliza para os trabalhos mais simples ou perigosos que outros não querem fazer. Há toda uma conivência da sociedade nisto, pois eles são procurados pelos contratadores para os trabalhos temporários que fazem. Estão sempre usando uma carteira falsa, e mudam de nome constantemente, e isto é sabido pelo que contrata. Até o momento em que a polícia chega para uma averiguação e começa a corrida para se safarem e não serem presos.
Samba em sua tentativa para obter o visto não consegue, ele não tem família na França, não é casado, não tem filhos. Ele teria que deixar o país, mas nenhum deles faz isto. Continuam nesta vida. Ele acaba conhecendo Wilson (Tahar Rahim) que se faz passar por um brasileiro, mas que é árabe e se ajudam. Apesar de tudo eles também tem momentos de diversão, e a ONG também promove festas onde uma das que lá trabalham se diverte muito (Hélène Vincent).
O Brasil aparece sutilmente durante o filme de várias formas, em músicas que são tocadas, em uma frase dita em português, e no nome do protagonista se referindo ao samba.
O assunto é sério, porém o filme o trata mais com humor, não tem a intenção de ser político nem de fazer denúncias, apesar de ser um tema polêmico, principalmente na França e também neste momento com a questão na Itália.
Direção: John Curran - 2013 Duração: 112 min Baseado na biografia homônima de Robyn Davidson
Em 1995 Robyn Davidson (Mia Wasikowska) decide atravessar o deserto da Austrália por 2700 quilômetros partindo de Alice Springs. Para conseguir o dinheiro para a travessia ela aceita ser patrocinada pela National Geographic, mas para isto terá que ir acompanhada do fotógrafo Rick Smolan (Adam Driver) que irá documentar a viagem para a revista. Ela parte em 1997 com sua cachorra e mais quatro camelos em direção ao Oceano Índico.
Robyn é uma pessoa solitária que prefere mesmo se manter afastada e ao longo do filme vemos algumas lembranças de sua infância traumática com o suicídio da mãe, sua cachorra que teve que ser sacrificada por não terem onde deixá-la, a Tia que vai buscá-la para ficar com ela após a morte de sua mãe. Compreendemos que esta vida se arriscando, indo as vezes à exaustão nas caminhadas, passando por obstáculos, mas ao mesmo tempo podendo estar consigo mesma, em contato com a natureza é uma maneira de lidar com esta infância difícil.
As paisagens são belas, o deserto é sempre algo que me cativa.
Roby Davidson nasceu em 1950 em Miles, Austrália
Roby Davidson e sua cachorra e Mia Wasikowska com a cachorra do filme.
Capa da National Geographic
Roby Davidson e Rick Smolan
John Curran nasceu em 1960 em Utica, Nova Yorque, EUA.
Direção: Julian Roman Pölsler - 2014 Duração: 108 min Título Original: The wall Adaptação do livro homônimo de Marlen Haushofer
Após assistir o filme fiquei chocada e num estado de angústia por um bom tempo. Precisei de alguns dias para conseguir escrever sobre ele. Sim, é uma ode à natureza, mas ele tem uma cena absolutamente chocante, real e cruel, e fiquei me perguntando porque? e analisando o fato do livro ter sido escrito por uma mulher. Retorno a isto no relato abaixo.
Um mulher (Martina Gedeck) vai para os Alpes Austríacos junto com um casal de amigos e seu cachorro. Assim que chegam o casal vai para o vilarejo a pé e o cachorro não os acompanha. No dia seguinte ao acordar ela percebe que eles não voltaram então segue pela estradinha com o cachorro para descobrir o que houve e se depara com um murro invisível, como uma imensa parede de vidro transparente, que ela nota tocando. Retorna e vai até uma casa nas proximidades e lá também o murro está, finalmente ela se dá conta que está presa dentro de um espaço circundado por este murro.
Não há explicação para isto, nem o saberemos no filme que passa a focar na questão da mulher que precisa se adaptar a viver na natureza, sozinha, somente com o cachorro e depois os gatos e uma vaca que dará a luz a um bezerro. Ela começa a escrever um diário para manter sua sanidade mental.
Até aí temos um belo filme, as paisagens são belíssimas, os sons da floresta, as mudanças de estação. Ela aprende a caçar apesar de não ser algo que lhe agrade. Um dia um de seus gatos é morto por uma raposa que depois ela terá a chance de matar, mas não o faz, compreendendo que é a lei da natureza, e que matar a raposa não trará o gato de volta e irá tirar da natureza este belo animal. A mulher deve deixar para trás uma vida na dita civilização, com todo seu stress e voltar a se ligar à natureza, ao planeta terra, e ao amor, o amor pelas plantas, pelos animais, pelo vento, pelo frio e pelo calor, a alegria de estar viva.
A questão do filme que choca é quando aparece um homem e que irá matar seus animais, a cena é horrível e crua. Ela então vai assassiná-lo e jogará seu corpo nas pedras. A partir deste momento ela estará mais só ainda, sem a companhia do cachorro que havia se transformado em seu amigo.
O filme termina quando acaba o papel e ela não pode mais escrever.
A questão é do porque desta cena? esta intromissão deste homem surgido não se sabe de onde, dentro do círculo do murro invisível e que comete uma barbárie. Tentei encontrar uma resposta por um lado psicanalítico, mas também pelo lado místico.
Há dentro de nós um lado masculino e feminino, independentemente do sexo biológico. A natureza apesar de nos parecer muitas vezes violenta e cruel é equilibrada, não há o premeditado ou a maldade e vingança. A raposa mata o gato por instinto. Mas o ser humano mata por prazer, por desespero, por vingança, por fome. Matar o bezerro pode ser por fome, mas o cachorro? porque ele defendeu a sua dona? não sabemos porque isto o filme não mostra. A cena da matança é cruel, não é matar para comer, é despedaçar, é destruir. A vaca Bela é encontrada depois enlouquecida na floresta. Ela mata o homem. Isto pode ser interpretado como ela matando este lado dentro de si mesma, ou eliminando de seu círculo dentro dos murros o que não se harmoniza com a natureza que seria então mais feminina. É o feminino que se liga à terra, aos animais, às plantas, às florestas, isto desde tempos imemoriais.
Como o livro foi escrito por uma mulher foi o que pude pensar sobre esta cena. O que levaria uma mulher a colocar uma cena tão brutal? Esta intromissão na natureza? É quase que um alerta sobre o que o ser humano faz ao planeta através da destruição.
Fui mais atingida porque amo os animais e principalmente os cachorros.
Julian Roman Pölsler e seu cachorro que foi o que estava no filme. Nasceu em 1954 em Estíria, Áustria.
Direção: Adam Elliot - 2009 Duração: 92 min Título Original: Mary and Max Animação. Narrado por Dame Edna Everage
Mary Dinkle é uma garotinha gordinha que vive na Austrália, seus pais estão separados e sua mãe é alcoólatra. Ela sofre por não ter amigos. Max Horovitz tem 44 anos e vive em Nova York, é judeu, obeso e também solitário, ele sofre da Síndrome de Asperger. Duas pessoas que nos parecem tão distantes e diferentes, mas será?
Tudo começa quando Mary sentindo um desejo de ter alguém que pudesse lhe responder suas inúmeras perguntas sobre o mundo que a cerca pega ao acaso um endereço numa lista de endereços, rasgando o papel ao ser puxada por sua mãe e escreve para a pessoa, que é Max.
Esta dado o pontapé inicial de uma singular amizade que durará alguns anos até a morte de Max. Não será sempre simples, ambos terão que aprender a lidar com as diferenças e principalmente serem capazes de manter um laço com o outro. Ambos tentam dar sentido ao seu mundo incompreensível e onde se sentem inadequados, fora do contexto. Haverá desencontros como em toda relação, haverá momentos tristes e de humor negro, mas estamos vivenciando uma amizade real, onde tudo isto acontece e só será mantida se os envolvidos puderem manter o laço.
Por outro lado vemos a possibilidade da amizade mesmo para aqueles que não seguem o comum, a massa, e são diferentes, sempre há um outro que também é assim e que está solitário em algum lugar no mundo, mas para se chegar a ele é preciso que alguém faça alguma coisa.
As cartas trocadas entre ambos abrangerá uma série de assuntos como o alcoolismo, de onde vêm os bebês, a obesidade, a diferença sexual, as diferenças religiosas, o fato das pessoas não serem perfeitas, a depressão, o suicídio.
Meruane, Lina. Cosac Naify, 2015 192 páginas Tradução: Josely Vianna Baptista Título Original: Sangre en el ojo
Lucina está numa festa quando sente que explodiu uma veia em seu olho e o encheu de sangue. Ela não consegue mais enxergar, exceto vultos e sombras. Ela estava em tratamento com um oftalmologista e já era algo que ela sabia possível de ocorrer e que ela temia. Agora ela passa a depender dos olhos de Ignácio, seu companheiro.
O livro trata de como se sente uma pessoa que enxergava e de repente fica cega e de como ela pode reagir à isto, se submetendo ou não. Um outro ponto forte no livro é a questão de como os outros vêem isto, como os amigos de Ignácio que lhe dizem que ele não tem uma namorada, mas um fardo.
Lucina, ou Lina Meruane, é chilena e vive nos Estados Unidos, é escritora e interrompe seu trabalho com a cegueira apesar da insistência de sua professora que lhe recorda o grande escritor cego, que apesar de não ter seu nome citado sabemos se tratar de Borges.
Vamos acompanhando o drama de Lucina, inclusive visualmente, pois o livro tem as páginas que vão se escurecendo a medida que avançamos na leitura. A que ponto podemos chegar para não ficarmos cegas? Lucina vai ao extremo em sua luta por enxergar, abandonando a ética. Também luta contra toda superioridade médica que lhe impõe um quadro de cegueira que ela não aceita. Por outro lado ela o diz no livro que está aprendendo a ser cega .
A autora que tem o mesmo nome da protagonista do livro também passou por uma experiência com seus olhos, não tão drástica, e talvez se trate de expressar isto que ela faz escrevendo o livro, como uma espécie de autobiografia. A expressão sangue no olho em espanhol significa desejo de vingança. Ao acompanharmos o decorrer dos dias de Lucina podemos perceber como se sente uma pessoa que fica nesta situação e o que é possível ou não fazer.
Oz, Amós. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014 362 páginas Tradução: Paulo Geiger Título Original: Habssorá al pi Iehudá Ish Keraiot
Shmuel Ash é um jovem israelense que vive em Jerusalém e está fazendo uma pós graduação cujo tema é Jesus na visão dos judeus e quem foi Judas. Mas de repente tudo muda, sua namorada o deixa para se casar com outro e seu pai após perder uma causa no tribunal lhe avisa que está falido e não pode mais sustentá-lo o que requer que ele vá trabalhar para pagar os estudos, a moradia e a alimentação como fez sua irmã na Itália que arrumou dois empregos para fazer o mesmo. Porém Shmuel desiste dos estudos e pensa em ir viver em outro local, mas ele vê um pequeno anúncio sobre um senhor inválido que procura alguém para conversar e oferece um modesto salário com moradia.
Shmuel se candidata e consegue o trabalho, passa então a viver numa casa num bairro afastado numa água furtada. Na casa além do velho Gershom Wald, vive Atalia cujo pai Shaltiel Abravanel foi um militante expulso do movimento sionista por ser contra a transformação de Israel num Estado independente e considerado um traidor por ser amigo de árabes.
A questão que o livro nos traz entre discussões filosóficas e históricas é a do traidor, não o traidor por dinheiro, mas aquele que é considerado um traidor pelos outros por não ter sido compreendido, por ter ideias diferentes do outro, inclusive avançadas demais às vezes para uma determinada época. Judas era rico, não precisava se vender por tão pouco, então porque o teria feito? se não foi pelo dinheiro? e se realmente o vendeu porque se enforcou? e porque teria que entregar Jesus se este não se escondia? Amós Oz levanta outra hipótese enquanto paralelamente nos conta a história de Abravanel. Ele nos mostra um Judas como o único que realmente acreditou em Jesus e o viu como o filho de Deus, e ele tinha certeza de que ele desceria da cruz mostrando a todos quem ele era de fato. Judas foi o primeiro cristão e talvez o único. É polêmico principalmente para os católicos, uma vez que a hipótese de que Judas não traiu leva a conclusão que Jesus não era capaz de milagres e que era apenas mais um dos inúmeros profetas que vagavam pela Palestina na época. Por outro lado falar de Abravanel também é polêmico entre os israelenses. Ele queria que os judeus e os árabes convivessem em paz na mesma terra, a terra que já era e não criar um novo Estado, que era óbvio que isto só traria a guerra o que de fato ocorreu.
Para Amós a figura de Judas é simbólica no antissemitismo contra os judeus. E tocar na questão de Abravanel é uma maneira de dizer que a questão Israel-Palestina poderia ter sido resolvida de outra forma se houvesse mais "traidores" corajosos o suficiente para fazer diferente do que todos pensam.
Na casa, durante o inverno, cada um dos moradores, com todas as suas diferenças e mágoas, acabam se aproximando e rompem a muralha que criaram em torno de si mesmos passando a gostar um pouco do outro. Wald perdeu seu único filho na guerra pela independência, numa morte atroz. Ele era casado com Atalia que é amargurada e considera os homens idiotas por pensarem da maneira que o fazem. E Shmuel é um solitário que deseja muito um tempo para si mesmo, para escrever, mas que acaba se apaixonando por Atalia.
O livro é uma espécie de catarse do autor devido suas posições contrárias as da maioria muitas vezes também considerado um traidor. Amós Oz deseja o Estado de Israel dividido entre judeus e árabes. Ambos são desta terra, ela é de ambos e nenhum tem outro lugar para ir. Mas a questão do traidor acompanha Amós desde a juventude quando ele também foi chamado assim por ter feito amizade com um sargento britânico.
Um livro para refletir sobre as condições do mundo e também sobre o que é realmente um traidor. Vale a leitura.