domingo, 23 de fevereiro de 2014

FILME: JIMMY P. Psicoterapia de um índio das planícies - 2013


Direção: Arnaud Desplechin - 2013 
Duração: 117 min 
Título original: Jimmy P. Psychothérapie d'un indien des planes. 
País: França

Indicado no Festival de Cannes 2013 para longa-metragem

Baseado em fatos reais e no Estudo de Georges Devereux - Realidades e Sonhos 

Jimmy Piccard (Benecio del Toro) é um índio americano da etnia Blackfoot que lutou na Segunda Guerra Mundial na França. Ele sofre de dores de cabeça muito fortes, vertigens e perda de audição que inicialmente são atribuídas ao acidente que sofreu na Guerra quando teve uma fratura no cérebro. Sua irmã o leva para o melhor hospital sob os cuidados do exército, em Kansas, nos Estados Unidos.

Chegando lá ele passará por uma bateria de exames que nada revelarão de anormal em seu físico e por uma avaliação psicológica pensando nos traumas de guerra que levará o psicólogo a pensar numa esquizofrenia. Mas a equipe é competente, e não acreditam de imediato num diagnóstico de psicose. Chamam então um colega, o antropólogo Georges Devereux (Mathieu Amalric) que faz análise e espera poder ser também um psicanalista. Georges é divertido e de bem com a vida, viveu entre os índios, mas oculta que na verdade ele é húngaro e não francês como faz crer a todos.



Aos poucos vamos vendo a antropologia se unir à psicanálise e desvendar os traumas deste sujeito, mostrando inclusive que a psicanálise é aplicável aos índios desde que se possa compreender que eles tem outros costumes, parentesco, linguagem, rituais, o que não requer que o psicanalista seja um deles. Devereux irá trabalhar com as duas ciências e acabara percebendo que os traumas de Jimmy não são da guerra como todos acreditavam, mas sim de sua infância.

O filme demonstra bem como um trauma psíquico se reativa pelos traços e geralmente a causa, o fato que causou o trauma está oculto, e nem mesmo o paciente sabe qual é. O trauma se forma no momento em que se vê pela primeira vez o traço e não no momento do ocorrido. Nunca é o real, mas sim sua representação que causa o trauma. E será através dos sonhos de Jimmy que o recalcado surgirá.



O que será que Jimmy percebia ou via no momento que dava inicio em sequência às suas insuportáveis dores de cabeça? o que causou o acidente dele na guerra? Aos poucos as respostas vão surgindo e sua alma vai se curando.

Recomendo a todos que se interessam pela psicanálise e principalmente àqueles que como eu acreditam que a Antropologia e a psicanálise devem trabalhar juntas, não apenas por ser um índio neste caso, mas porque todos nós somos formados pela linguagem e pela cultura.

Também vale ressaltar que há os traumas de guerra, mas Jimmy não participou da guerra, quando ele chegou os alemães já haviam ido embora. Ele fez parte dos soldados que foram para ajudar a libertação e limpeza do terreno.



Georges Devereux nasceu em 1908 na Hungria e faleceu em 1985. Estudou no Instituto de Etnologia de Paris e fez estudos de campo na América do Norte, Melanésia, Nova Guiné e no Vietname. Nos Estados Unidos fez doutoramento em Filosofia e se especializou em Psicologia e Psicanálise onde lecionou por muitos anos. Retornou à França em 1963 onde dirigiu a Escola Prática de Altos Estudos à convite de Claude Lévi-Strauss. É considerado um dos fundadores da Etnopsiquiatria. Ele foi aluno de Marcel Mauss. Foi durante sua temporada entre os índios Mohave que Devereux aprendeu com eles a dar importância aos sonhos levando-o para a psicanálise.
Foi analisado por Marc Schlumberger e por Robert Jokl e completou sua formação analítica em 1952 na clínica Menninger, em Topeka, Kansas onde se passa o filme.


Arnaud Desplechin nasceu em 1960 em Roubaix, Nord de France, França.

Trilha sonora de Howard Shore

Howard Shore nasceu em 1946 em Toronto, Canadá. É um compositor e já compôs mais de 40 trilhas para filmes. 

LIVRO: O OPOSTO DO DESTINO - AMY TAN



Tan, Amy. Rocco, 2006
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
388 páginas

Trata-se de uma biografia composta por ensaios diversos sobre sua vida onde Amy Tan irá falar sobre sua mãe, sua família, sua vida nos Estados Unidos e também suas impressões sobre a China, sobre seu trabalho como escritora.

Amy Tan dirá que a escrita se faz pela imaginação que se alimenta da memória e que resulta nos livros que escreveu. Um deles, O Clube da felicidade e da sorte, que já assisti, é totalmente baseado em sua vida e sua família.
Também falará de seu doutorado onde estavam todos os enfeites de seu ego, sua noção de valor e seu lugar no mundo. A preocupação com coisas que não se pode controlar e as suas perguntas: O que é real? o que é importante? o que ganho acreditando em uma realidade a favor de outra? o que perco? Questões existenciais que também nos fazem pensar.

Ela se utiliza algumas vezes de um humor ácido para falar de si mesma, da adolescência e de tudo aquilo que nos envergonha, constrange, inibe na infância, na adolescência.

Sua mãe foi presa por adultério na China e assistiu ao suicídio da sua mãe, avó de Amy e estava ela mesma sempre ameaçando se matar. Seu pai e seu irmão morreram um após o outro de um tumor no cérebro. Teve seu melhor amigo assassinado e teve que reconhecer seu corpo. Poderia se dizer: que destino este, tanta desgraça, mas para Amy há sempre o oposto do destino, onde é possível acreditar que algo melhor vai ocorrer.

Ele fará uso de todas estas experiências de sua vida para escrever seus livros e acompanhará pessoalmente a produção do filme O Clube da felicidade e da sorte. Sorte esta que podemos remeter à roda da fortuna, nem sempre ela fica na tristeza, ela também tem sua parte de sorte ou felicidade, e cabe a nós, apesar da fortuna ser uma contingência, aprender a lidar com ela e transformá-la.

Amy Tan nasceu em 1952 em Oakland, Califórnia, Estados Unidos, filha de pais chineses.

FILME: MEIA NOITE EM PARIS - 2011



Direção: Woody Allen - 2011 
Duração: 100 min
Título original: Midnight in Paris 
Roteiro: Woody Allen 
País: Estados Unidos 

Gil (Owen Wilson) é um americano que escreve roteiros para Hollywood que vai para Paris com sua noiva Inez e os pais dela. Ele está encantado, sempre idolatrou os escritores e a vida intelectual, e nada melhor que a capital francesa para isto, onde a maioria deles viveu ou passou uma temporada por lá.
O casal não está muito de acordo com suas preferências e estilo de vida. Inez (Rachel McAdams) deseja uma vida prática,com luxo e conforto em Malibu nos Estados Unidos, ele sonha em escrever um livro e viver em Paris onde pode se inspirar nos grandes escritores.



Quando desejamos muito algo teríamos a capacidade de transformar isto em realidade? O caso é que Gil ao caminhar sozinho por Paris regressará no tempo e irá conhecer estes grandes escritores em sua época e se apaixonará por uma moça do passado, Adriana (Marion Cotillard), e isto mudará sua vida levando-o a repensar em tudo que tem feito e o que realmente deseja para sua vida.



Para Inez e seus amigos americanos tudo isto é incompreensível, eles não conseguem ver a beleza de Paris e sua arte e literatura, já Gil fica encantado e desejaria ter vivido ali em outras épocas. A  insatisfação que temos com o presente e o desejo de ter vivido em outras épocas.

Este mergulho na imaginação e fantasia da Paris até os anos 20 é também um mergulho em si mesmo, daquilo que ele realmente deseja, mas com muita descontração e até mesmo comédia. Um filme gostoso de assistir, mas que ao mesmo tempo nos faz refletir sobre nossos anseios e o que estamos fazendo com nossa vida.


Woody Allen nasceu em 1935 no Bronx, Nova Iorque, EUA. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

FILME: SAGAN - 2008



Direção: Diane Kurys - 2008
Duração: 180 min 
País: França 

Uma cineobiografia da escritora francesa Françoise Sagan desde o lançamento do seu primeiro livro Bonjour Tristesse aos 18 anos até sua morte aos 69 anos.

Françoise Sagan (Sylvie Testud) escreve um livro em 07 semanas que lhe dá o sucesso e fama, é o seu primeiro livro - Bonjour Tristésse - Bom dia Tristeza.



Era uma jovem mimada, fazia sempre o que queria. Ganhou muito dinheiro e perdeu tudo. Não dava nenhum valor ao dinheiro. Dois casamentos, um filho, algumas relações homossexuais, álcool, drogas - cocaína. Devia muito dinheiro ao fisco sendo condenada a um ano de prisão, quando um amigo escreveu: "ela deve ao Estado, mas a França lhe deve muito mais."


Sagan viveu a primeira parte de sua vida no entre-guerras e depois do fim da Segunda Guerra o que se buscava em um certo clima de euforia era a liberdade, onde tudo era permitido, drogas, sexo, relações livres, álcool. Ela não é diferente da maior parte de sua geração, mas sabia escrever. Uma época onde o importante era negar aqueles anos de guerra, e não ter castração depois de tantas privações, tudo era permitido. O que eu me pergunto é se somos capazes de suportar tal liberdade ou ela acaba nos destruindo?


Ela dizia que escrever era uma pulsão sexual e que não havia idade para aprender a viver. Morreu sozinha, sem dinheiro e não quis ver seu filho no leito de morte. Dizia que não foram feitos um para o outro.

Sagan foi uma mulher do seu tempo, solitária apesar de rodeada de pessoas. Muitos a bajularam e se aproveitaram para curtir a vida com o dinheiro dela e depois desapareceram. E ela reconhecia que quando se está mal as pessoas desaparecem, que a dor afasta as pessoas.


FRANÇOISE SAGAN nasceu em 1935 em Cajarc, França e faleceu em 2004 em Honfleur, França


Diane Kurys nasceu em 1948 em Lyon, França 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

FILME: A PARTIDA - 2008



Direção: Yojiro Takita - 2008 
Duração: 130 min 
Título Original: Okuribito
Roteiro: Kundo Koyama
País: Japão  

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009 

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) adora tocar violoncelo e sonha em tocar como profissão. Para participar de uma pequena orquestra ele precisa do instrumento e o adquire se endividando, porém a orquestra acaba por falta de público. Ele tem que devolver o instrumento e parte com sua esposa Mika (Ryoko Hirosue) para sua terra natal onde consegue um emprego numa "agência de viagens" que é bem remunerado, mas ele descobre que é uma funerária. Ele terá que ajudar a banhar, vestir e maquiar os mortos para a cerimônia fúnebre.



Algo que antigamente era feito pelos familiares e hoje se contrata um profissional para fazê-lo. É um trabalho que é visto com preconceito pela sociedade moderna que renega a morte e quer se manter o mais distante dela possível. No início ele esconde onde trabalha até de sua esposa.



 Mas Daigo descobre que este ritual é uma arte e requer cuidados e delicadeza. Cada morto é um e tem sua história, mas este preparo é na verdade para os que ficaram, os vivos, para não se confrontarem com a morte no real, e sim com um corpo com uma feição serena e dentro do possível, bonita.



A metáfora da agência de viagens é interessante porque é uma passagem, a do vivo para a morte e sua viagem para o além, a última viagem, sua partida.

Mas lidar com a morte diariamente é algo que (re) significa a vida, e a forma mais evidente de a enfrentar é buscar esta vida muito bem representado no filme com a busca do sexo e da comida. Aos poucos ele vai refletir sobre a vida e a morte, sua existência.



A morte é tratada com sensibilidade e pertencendo à vida, que é o nascer e o morrer.

Yojiro Takita nasceu em 1955 em Fukuoka, Japão. 

FILME: DESEJO E REPARAÇÃO - 2007


Direção: Joe Wright - 2007
Duração: 123 min. 
Título original: Atonement 
Roteiro: Christopher Hampton
País: Reino Unido

Venceu o Oscar de melhor trilha sonora e Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme dramático e de melhor trilha sonora. 

Baseado no livro Reparação de Ian McEwan 

Briony Talles (Romola Garai) tinha 13 anos quando viu algo que não compreendeu da forma correta e isto irá desencadear mudanças radicais na vida de várias pessoas, e principalmente de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) e de seu amante Robbie Turner (James McAvoy). Ela acusará Robbie de um crime que ele não cometeu.

Robbie era filho do caseiro onde moravam as irmãs e tinha muito carinho por Briony que era uma criança solitária, imaginativa e que escrevia. Ao ver de sua janela uma cena na fonte com sua irmã e Robbie ela vai interpretá-la como uma violência, mas também veremos a cena pelo olhar dos dois onde há um flerte, um jogo de sedução. Para a criança, pois nos anos 40 ter 13 anos é ainda ser bem infantil, a sexualidade lhe surge aos olhos como uma agressão, ao contrário do que ocorre com sua irmã.

Podemos deduzir que Briony tem uma paixão infantil por Robbie ou até mesmo ciúmes de sua irmã ou dele. Ela também os surpreendera em uma relação sexual o que a chocará profundamente, além de uma carta infeliz com palavras mais vulgares que Robbie escreve sobre o que sente por Cecilia. Tudo isto se somará para ter o desfecho que teve quando uma das convidadas da casa é estuprada e não quer dizer quem foi. Talvez Briony deseje realmente defender sua irmã, mas pode ser também sua vingança, e ela contará para sua mãe tudo o que imagina ter visto o que resultara na prisão de Robbie acusado de estupro.

Inicia-se a Segunda Guerra mundial, Robbie terá que lutar e morrerá e sua irmã após deixar a casa dos pais busca refúgio em um túnel para se esconder das bombas e também morrerá ali. Mas também veremos o casal Robbie e Cecília vivendo juntos e quando Briony já adulta, uma enfermeira vai visitá-los terá que enfrentar o ódio dele e será expulsa dali.

Muitos anos depois Briony é uma mulher idosa (Vanessa Redgrave) , escritora, e esta segunda versão faz parte de um livro que ela escreveu onde procura reparar o mal que causou fazendo com que os dois vivam juntos e ela seja tratada como pensa merecer devido sua culpa. Na realidade os dois morreram.

Não foi Robbie que estuprou a convidada e ele pagou por isto por causa do que Briony contou à sua mãe, assim como sua irmã.

Claro que escrever uma nova versão para os dois não os traz de volta nem muda o que lhes aconteceu, mas para ela é uma forma de lidar com isto. Ela cometeu um erro, enxergou algo de acordo com o que lhe era possível ou desejado ver naquele momento, e quantas vezes não fazemos isto? eu diria que quase diariamente vemos cenas na rua, em casa, no trabalho e pensamos algo a respeito que nada garante ser a realidade que está ocorrendo ali. O erro foi falar sobre isto causando com isto a prisão de alguém. Mas como julgar uma menina de 13 anos que se vê no meio de um tumulto, com policiais, diante de uma violência, de um suposto crime de estupro? E se ela não falasse e ele realmente fosse tudo aquilo que ela pensou dele? Mas, quando fazemos uma escolha temos que assumir a responsabilidade por ela.

A escrita é uma forma que temos de lidar com os fantasmas e também de se redimir de algo, reparar algo, de dizer que não havíamos feito antes. Quantos relatos temos de sobreviventes, de traumatizados? que justamente buscam desta forma dar um destino e um lugar para o que carregam dentro de si? E esta foi a forma que Briony encontrou de reparar o que ocorreu antes antes e de amenizar a culpa que carregou por toda sua vida. Porém, há um detalhe, quem poderia ter evitado tudo isto, a suposta vítima de estupro, se calou.

Joe Wright nasceu em 1972 em Londres, Inglaterra.

Trilha Sonora de Dario Marianelli 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FILME: O PIANISTA - 2002


Direção: Roman Polanski - 2002 
Duração: 150 min. 
Título original: The pianist
Roteiro: Ronald Harwood
País: Polônia 


Baseado na autobiografia com o mesmo título de Wladyslaw Szpilman, um músico polonês. 

Indicado a sete oscars, ganhando o de melhor ator, melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Também ganhou 02 Baftas, 06 Césars e a Palma de Ouro. 

O pianista Wladyslaw (Adrien Brody)  quando ocorre a ocupação alemã da Polônia é enviado para os campos de concentração junto com sua família, porém no último momento antes do embarque é salvo por um amigo que não é judeu e que o retira da fila que segue para o vagão de trem.

Wladyslaw vivia com sua família e tocava piano em uma rádio quando começam as primeiras restrições aos judeus, tendo que usar a estrela que identificava os judeus é obrigado a se mudar com sua família para o gueto de Varsóvia. Após a deportação de sua família ele se vê sozinho, vivendo escondido e tendo ajuda no início de resistentes, mas ele se verá sozinho e após o bombardeamento terá que se esconder em casas destruídas, passará fome e frio. Será descoberto no final da guerra por um oficial alemão que ao saber que ele era um pianista vai protegê-lo.

Após a libertação o oficial estará preso em um campo e pedirá que peçam a Wladyslaw que testemunhe a seu favor por tê-lo protegido. Quando fica sabendo ele vai até o campo, mas já não há mais ninguém.

O filme retrata o que se passou em Varsóvia quando os nazistas entraram, como enganavam os judeus com promessas falsas fazendo com que não acordassem a tempo e terminassem num trem com destino para o extermínio. Wladyslaw assistiu de sua janela a cenas chocantes quando os alemães chegavam após terem recebidos denúncias e entravam nos apartamentos onde havia judeus matando a todos ou levando-os para serem deportados.O filme também tem relações com o diretor Roman Polanski que escapou do Gueto de Varsóvia após a morte de sua mãe. 

Ele volta a tocar após o fim da guerra e viveu em Varsóvia até morrer em 2000.

Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Iniciou sua carreira na Polônia. O filme O Pianista se passa no Gueto de Varsóvia onde o diretor esteve na infância por ser judeu.

Wladyslaw Szpilman nasceu em 1911 em Sosnowiec, Polônia e faleceu em 2000 em Varsóvia.

Trilha Sonora de Wojciech Kilar


Wojciech Kilar nasceu em 1932 em Lviv, Ucrânia e faleceu em 2013 em Katowice, Polônia. Foi um compositor. 

FILME: O LIVRO DE CABECEIRA - 1996


Direção: Peter Greenaway - 1996
Duração: 126 min
Título original: The Pillow Book  
Roteiro: Peter Greenaway e Sei Shonagon 
País: Reino Unido 

Baseado no livro Notas de Cabeceira da escritora medieval japonesa Sei Shõnagon

Quando criança Nagiko (Vivian Wu)  recebe de seu pai uma escrita em seu rosto a cada aniversário como um presente. Ele é um escritor e recita versos enquanto escreve em seu rosto. Isto lhe cria uma marca e ao mesmo tempo um prazer que ela irá procurar repetir em sua vida sexual adulta.






Porém, quando tinha 04 anos Nagiko verá algo que a marcará talvez até mais, ela vê seu pai tendo relações sexuais com o editor de seus livros, sua submissão à isto.

Um filha que se espelha em seu pai e que sofre a intromissão de um outro nesta relação e que não é uma mulher, como sua mãe. Ela crescerá e buscará em todos os homens com quem se relaciona a repetição do gozo inicial da escrita em seu corpo, mas também se tornará escritora só que escreverá na pele de homens e os enviará ao editor de seu pai para que ele leia o que está escrito e para que deseje estes homens que se apresentam nus para ele, só que desta vez é ela quem tem o controle.

Ela quer destruir este terceiro e vingar seu pai por aquilo que  ele tenha sido forçado a fazer para ter seus livros editados, humilhando-o.


Peter Greenaway nasceu em 1942 em Newport, País de Gales.

Trilha Sonora 

FILME: A TETA ASSUSTADA - 2009


Direção: Claudia Llosa - 2009
Duração: 95 min
Título original: La teta asustada 
Roteiro: Claudia Llosa
País: Peru 

Venceu o Urso de Ouro em Berlin em 2009 e o Festival de Cinema de Havana

No Peru existe uma lenda que diz que as mulheres que foram estupradas transferem para suas filhas através do leite materno a doença do medo "a teta assustada" que rouba a alma. Estes estupros ocorreram durante a guerra do terrorismo no país.
Fausta ( Magaly Solier) é filha de uma destas mulheres  e quando sua mãe falece ela terá que enfrentar esta situação e também um segredo que guarda, uma batata em sua vagina para protegê-la dos estupros e assim evitar a repetição do destino trágico de sua mãe. A batata, uma planta que não dá flores.

Um lenda que lida com a herança psíquica de filhas de mães violentadas. O medo de sair à rua, o medo do outro. Fausta após a morte de sua mãe vai viver com os tios no subúrbio de Lima. Ela deseja dar um enterro à sua mãe, mas para isto precisa de dinheiro e seu tio não pode ajudá-la, ele está casando sua filha e todas suas economias são para isto. Fausta terá que trabalhar para conseguir o dinheiro, mas para isto ela terá que sair de casa.

O filme se inicia com a mãe em seu leito de morte cantando, e ela canta a dor e o horror do que sofreu, ver o marido ser assassinado e ser estuprada estando grávida de Fausta. O olhar de sua mãe reflete isto, e é neste olhar que Fausta se constitui, um olhar de medo, pavor e dor.



Mas quando sai para a rua para ir trabalhar ela terá que enfrentar isto de alguma maneira. Seus primos sempre iam buscá-la ao final do dia para que não retornasse sozinha, porém um dia eles não podem ir e o jardineiro da casa onde trabalha se oferece para acompanhá-la. Ela desconfia de todos que não são parentes, mas acaba aceitando e aos poucos vai criando confiança neste outro.

Ela usará as canções como uma proteção a cada vez que se vê em uma situação que cria ansiedade e medo, ou seja, a cada vez que se vê frente a uma pessoa que não conhece, seu nariz sangra, ela tem sangramentos vaginais. Sua patroa, Aída (Susi Sánchez)  uma musicista se interessa por suas canções, ela está numa fase de pouca criatividade, e para fazer com que Fausta cante ela lhe oferece pérolas em troca.


Um dia no carro sua patroa a expulsa deste, e ela se vê sozinha na rua e sem ter recebido suas pérolas, é a primeira vez que caminha sozinha na rua. Ela retorna à casa de sua patroa para buscar as pérolas, que precisa para o enterro de sua mãe, e na volta para a casa de seu tio ela desmaia na rua e é socorrida pelo jardineiro.

Finalmente ela pede que lhe retirem a batata. Irá levar sua mãe para ser enterrada, mas no caminho para para lhe mostrar o mar, a imensidão de possibilidade que uma vida pode oferecer.

Ela está curada, livre do medo e pode finalmente receber do jardineiro um pequeno vaso com uma batata plantada e que tem uma pequena flor.


Ouça a canção de sua mãe no leito de morte



Claudia Llosa nasceu em 1976 em Lima, Peru. É sobrinha do escritor Mário Vargas Llosa.

Musica de Selma Mutal - La Sirena 

Selma Mutal nasceu em 1968 em Lima, Peru. É uma pianista 

FILME- O CÉU DE LISBOA - 1995



Direção: Wim Wenders - 1995
Duração: 99 min 
País: Alemanha 

Um dos meus filmes preferidos, infelizmente não consegui encontrar o DVD para comprar, está esgotado.

Phillip Winter (Rüdiger Vogler)  é um engenheiro de som alemão, ele recebe um cartão de seu amigo Friedrich (Patrick Bauchau) que está em Lisboa filmando e pede sua ajuda. Ele parte ao encontro do amigo em seu velho carro. Inicia-se um percurso pela Europa atual e enquanto se encaminha para Lisboa Phillip vai ouvindo o rádio em várias línguas e ele vai tentando falar português. Vários países, várias línguas.

Já de início nos deparamos com o bom humor de Winter e cenas cômicas. Ele está com o pé engessado e dirigindo, fura um pneu e ao tentar trocá-lo o estepe cai de uma ponte, ele tenta continuar e o carro não aguenta, então pede carona chegando à Lisboa em uma carroça. Após tudo isto ele descobre que seu amigo desapareceu. Instala-se então em seu apartamento na Lisboa antiga.



No apartamento ele encontra um filme sobre Lisboa, mas sem som e um livro de Fernando Pessoa. Winter decide então colocar som naquelas imagens e ao andar por esta cidade aos poucos vai se apaixonando por ela e também por Teresa Salgueiro, a vocalista do grupo Madredeus e suas canções.



As belas imagens de Lisboa associadas aos sons locais, sua música e seu maior poeta Fernando Pessoa fazem deste filme algo encantador e belo.



Wim Wenders nasceu em 1945 em Düsseldorf, Alemanha. 

LIVRO: UMA VONTADE LOUCA DE DANÇAR - ÉLIE WIESEL


Wiesel, Élie. Bertrand Brasil, 2008
Tradução: Jorge Bastos
308 páginas

Doriel procura uma psicanalista para ajudá-lo a vencer o que ele considera sua loucura. Órfão de pais, seus irmãos foram mortos na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, foi acolhido pelo seu tio que o levou para os Estados Unidos, mas carregou consigo todas as marcas e traumas do que lhe aconteceu.

Um vazio imenso ao lado de um excesso de memória, transborda mas para onde? a sensação de estar enlouquecendo como se isto pudesse salvá-lo de suas lembranças e marcas, protegê-lo. Nunca quis se casar e ter filhos, não queria colocar filhos no mundo para um outro matá-los. Aprofunda-se no estudo, busca respostas que não encontra.

Mas se ele tem um excesso de memória, tem também uma cripta traumática, algo que ele não consegue acessar, inefável, obscuro. Thérèse Goldschmidt uma renomada psicanalista fará de tudo para ajudá-lo a entrar neste lugar obscuro e apesar de achar que não o conseguiu o resultado como ocorre nas análises surge quando menos se espera e sem compreensão de como ocorreu.

Doriel tem medo de amar, tem medo da perda e levará anos para poder se entregar e finalmente sentir uma vontade louca de dançar.

Um livro que trata dos sobreviventes do nazismo, de seus traumas e marcas profundas, da culpa que sentem por terem sobrevivido diante da perda de seus entes queridos, das rupturas que sofreram, das marcas no corpo e na mente. Não é possível ultrapassar isto, é preciso aceitar e transformar.


Élie Wiesel nasceu em 1928 em Shiguetu Marmatiei na Romênia, localidade que fez parte da Hungria entre 1941 e 1945. Judeu, sobreviveu aos campos de concentração. Foi deportado junto com sua família para Auschwitz-Birkenau, onde sua mãe e irmã mais nova morreram. Foi enviado junto com o pai para Buchenwald onde perdeu o pai. Somente depois de libertado soube que duas irmãs mais velhas também sobreviveram. Inicialmente guardou silêncio, mas após uma entrevista com François Mauriac que insistiu que relatasse sua experiência escreveu Noite e sua obra foi então dedicada a resgatar a memória do Holocausto. Recebeu o prêmio nobel da paz em 1986 pelo conjunto de sua obra.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: TRISTANA - UMA PAIXÃO MÓRBIDA - 1970


Direção: Luis Buñuel - 1970 
Duração: 95 min 
Título original: Tristana una pasion morbosa 
Roteiro: Luis Buñuel e Julio Alejandro
País: Espanha 

Baseado em romance homônimo de Benito Pérez Galdós

Trist(Ana) - triste Ana, um filme que pode ser olhado pelo viés do desejo e do abuso.

Tristana (Catherine Deneuve)  é uma orfã que é entregue aos cuidados de Dom Lope (Fernando Rey). Dom Lope é como um pai, mas é também um homem que não nega seus desejos e acaba tornando sua pupila sua amante.

Um sociedade hipócrita, moralista, católica onde um beijo na rua é um atentado ao pudor. Lope mantém Tristana em casa onde ela sufoca, vai à missa para poder respirar. Sai escondida e um dia conhece um pintor italiano Horácio (Franco Nero) com quem irá fugir, mas retorna dois anos depois doente. É levada a seu pedido para a casa de Lope. Tem sua perna amputada e está amarga e rancorosa, com ódio. Dom Lope dizia que a mulher correta era a que ficava em casa com a perna quebrada.

Tristana acusa Horácio de tê-la levado para lá, que um homem que amasse sua mulher não a levaria para outro. Ele disse que aguardaria até ela se curar, mas ele partiu após sua amputação. Ela se casa com Dom Lope, o padre estava certo, era uma forma de aplacar sua culpa e ser olhada de outra forma pela sociedade. Só que isto não acabou com seu rancor.

Tristana não conseguiu lidar com seu desejo inconsciente, ela desejou Dom Lope, mas não aceitava isto. No início do filme o sonho que se dá com os meninos, o despertar da sexualidade, ela meio que se defendendo, porque tem que ser assim, mas não efetivamente, o jogo da adolescência, do deixar tocar e afastar, eles sobem uma escada nesta brincadeira e quando chegam em cima Tristana vê a cabeça de Dom Lope no badalo do sino. Assustada acorda.

Por outro lado Dom Lope ocupa o lugar de pai, há um incesto aí pois ocupa simbolicamente este lugar apesar de não ser seu pai. Ela se deixa levar por ele, não resiste, entre o asco e o desejo, ela o quer mas não suporta isto.

Este ódio que se volta contra si mesma por ter permitido algo que não se suporta mas se deseja ao mesmo tempo ou contra quem o provoca.  Se ele tivesse se comportado como um pai ela poderia tê-lo amado. Na psicanálise desejamos o pai, mas ele castra a filha levando-a a desejar um outro homem, mas continua a amá-la com carinho paternal, ele não pode ser o objeto de desejo dela que é transferido para outro, e Tristana não o transferiu, apesar de tentar com Horácio, mas ela tem que ficar doente para retornar e ter sua perna amputada para não poder ir embora. Só matando ela vai se livrar disto, vai aplacar seu desejo, simbolicamente ou de fato. Ela não o mata, mas o deixa morrer fingindo ter solicitado socorro médico.


Luis Buñuel nasceu em 1900 em Calanda, Espanha e faleceu em 1983 na Cidade do México, México. Trabalhou com Salvador Dalí . Estudou com os Jesuítas em Saragoça e em 1917 foi para Madri onde conheceu Federico Garcia Lorca e Dalí, depois formou-se em Filosofia e Letras em 1924. Seu filme "Um cão Andaluz" é um marco do cinema surrealista. Com a Guerra Civil na Espanha mudou-se para os Estados Unidos e depois foi para o México naturalizando-se em 1949. Morreu aos 83 anos vítima de câncer.