quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

FILME: VIDA E ARTE DE GEORGIA O'KEEFFE - 2006


Direção: Bob Balaban - 2006
Duração: 78 min 
Título original: Georgia O'Keeffe 

Um filme sobre a vida da pintora Georgia O'Keeffe.

Gosto muito dos quadros dela, me remetem ao feminino.

Georgia interpretada por Joan Allen  se apaixonou pelo fotógrafo Alfred Stieglitz que no filme é interpretado por Jeremy Irons, de quem também sou fã.


E novamente vemos uma grande artista se confrontar com seu amor que lhe diz  ser por causa dele que ela é conhecida, que foi ele quem a fez, me lembrando Camille Claudel e Rodin. Só que Georgia não irá aceitar isto e responderá dizendo que se tudo aquilo que fez foi ele, então ela precisava fazer o que era ela. Ela sofre um colapso emocional ao perceber que Alfred será sempre infiel à ela,  ficando internada e só depois de 18 meses é que voltou a pintar. Irá para o deserto para repensar sua vida, aonde permanecerá.
Vários de seus quadros retratam sua própria nudez feminina. Uma vez Alfred fez fotos dela em sua nudez mais íntima, dizendo que era ela, então é este ela que surgem em seus quadros de ossos, flores que lembram o útero, a vagina, é a mulher, e é isto que me toca em sua obra.




Alfred nunca quis ter um filho com ela, mas teve um com uma mulher rica que o sustentava. A dor de Georgia é imensa, e está no mural que ela pinta, antes de sofrer o colapso.




Apesar de separados, nunca deixaram de se amar.

Georgia O'Keeffe nasceu em 1887 em Sun Prairie e faleceu em 1986 em Santa Fé - México.

Assista ao começo do filme


Bob Balaban nasceu em 1945 em Chicago, Illinois, EUA.

Trilha sonora de Jeff Beal que nasceu em 1963 em Hayward, Califórnia, EUA. 

FILME - MELANCOLIA - 2011


Direção: Lars Von Trier - 2011
Duração: 130 min
Título original: Melancholia 
País: Dinamarca 

Kirsten Dunst ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2011 e o filme ganhou o prêmio de melhor filme Europeu de 2011 nos Prêmios do Cinema Europeu. 

Inspirado num episódio depressivo do diretor Lars Von Trier. 


Comecei a assistir ao filme e me veio a sensação de algo parado, chato, um tédio, e foi quando tive a percepção que eu estava assim devido a força deste filme, ou seja, me sentindo "melancólica". 

Duas irmãs, Justine(Charlotte Gainsbourg) e Claire (Kirsten Dunst) , e de imediato me lembrei da Justine de Sade. O Prelúdio - Tristão e Isolda de Wagner, cenas em câmara lenta, imensamente lento. Começa a primeira parte - Justine. É seu casamento, uma limusine imensa que não consegue fazer as curvas da estrada que leva à mansão onde os convidados esperam para a festa. 
Permito-me o pensamento de que não conseguir fazer curvas numa estrada é como parar na vida que é repleta de curvas, e você fica ali, tentando, vai para frente, vai para trás, tenta virar um pouco, e não sai do lugar. 
Um casamento e uma festa luxuosa, que o cunhado pagou e fica a todo instante relembrando isto ao mesmo tempo que elogia seu campo de golfe. Um chefe que mesmo no dia da festa só pensa em trabalho, um pai que erra seu nome, a chama de Bety como a todas as outras e não a escuta e lhe pergunta; você está feliz? Uma mãe que não aprecia nada ali e tem horror a casamentos e uma irmã que não desgruda, chamando-a, orientando-a, lendo o cerimonial e Justine oscila entre o sorris e o apagar. 
Que teatro! ela escapa a todo instante, volta com um sorriso forçado, mas ninguém repara. Ela chega a ir tomar um banho durante a festa, talvez para tirar tudo isto, esta pele falsa.


O casamento se desfez ali mesmo. Ao chefe ela fala o que pensa dele, talvez o único momento que ela reage, e ele vai embora furioso. Assistimos a entrada na depressão de Justine.
Segunda parte - Claire. Casada com um milionário - John (Kiefer Sutherland)  que se acha um cientista. Tem um filho. Um planeta se aproxima em rota de colisão com a terra e Claire está apavorada, mas seu marido a acalma. Justine piora e vai para a casa da irmã. Sua comida preferida tem gosto de cinzas, ela não quer tomar banho, está sempre cansada, perdeu o gosto pela vida. 
Claire acompanha pela internet os movimentos do planeta, chega a comprar um veneno para suicídio. Justine parece melhorar, mas não readquire o sabor da vida e Melancolia se aproxima. 
Não há mais colorido, imaginação, a vida é má, para que viver diz Justine. Ela se banha na luz de Melancolia. 
Quando o marido nota que o planeta vai colidir ele se mata, Claire se desespera, luta, tenta fugir com o filho, mas percebe que não adianta. Justine aceita e espera, mas é neste momento que ela surpreende, pois é quem tem a imaginação da caverna mágica que constrói junto com o sobrinho onde os três se juntarão de mãos dadas.




Lars Von Trier nasceu em 1956 em Kongens Lyngby na Dinamarca. É um dos principais cineastas atuais, e seus filmes falam da angústia e depressão, do sofrimento humano, do medo da morte. Talvez um dos motivos deste lado depressivo seja pelo fato de sua mãe ter revelado em seu leito de morte que seu pai não era quem ele pensava, mas outro retirando-lhe desta forma suas referências.


Música - Tristan und Isolde - Richard Wagner 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

LIVRO: A MULHER E O DESEJO - Muito mais do que a vontade de ser querida - POLLY YOUNG-EISENDRATH


EISENDRATH-YOUNG, Polly. Rocco, 2001
Tradução: Léa Viveiros de Castro
220 páginas
Título original: Women and desire: beyond wanting to be wanted 

Algum tempo atrás eu disse ao meu analista que não queria ser desejada, eu queria ser amada. Como diria Lacan, falei sem saber o que dizia. E justamente o livro começa com uma frase que eu desconhecia de Lacan sobre isto : "as mulheres querem ser desejadas, não amadas." 
A autora inicialmente duvidou se podia aceitar esta afirmação, mas ao longo de seu trabalho como psicanalista ela percebeu que ele tinha razão, que realmente era isto que as mulheres desejavam, mas o que ela não concorda é que isto seja normal e que basta, muito pelo contrário, ela irá questionar isto, e ficara com esta frase a incomodando por muito tempo, até perceber de que apesar de correto, isto não era bom, mas era uma angústia danosa e que provinha da formação feminina em uma sociedade patriarcal, onde se espera que as mulheres agradem aos homens. 
A autora é feminista, e eu pessoalmente apesar de todo meu respeito e admiração pelo movimento que em minha opinião foi um dos mais revolucionários dos últimos tempos na questão de mudanças, prefiro atualmente ter um olhar sobre o feminino e o masculino, que são gêneros e construídos socialmente. E é justamente nesta construção que vamos encontrar esta questão que é muito atual e que apesar da ilusão de que as mulheres conquistaram sua liberdade, ainda estão longe disto, infelizmente. 
Lendo o livro percebi que eu também não poderia me vangloriar de minha declaração ao analista, apesar de ter uma ligeira percepção do que se passava, este querer ser amada ainda me colocava na condição de querer agradar ao outro, de me preocupar com o que o outro pensa de mim. 
E esta é a questão do livro, passar de objeto de desejo para Sujeito do desejo. E muitas vezes nos enganamos ao pensar que temos escolha, por que no fundo nossas escolhas são regidas justamente pelo desejo de ser objeto de desejo, o que nos leva a uma insatisfação e um conflito interno. Achamos que temos escolha quando vamos ao salão de beleza, quando vamos para a academia, quando vamos ao shopping e compramos roupas, mas no fundo estamos atendendo a este desejo de agradar ao outro, o que se formos sujeito de nosso desejo, talvez não seja tão relevante assim usar a roupa certa, estar com as unhas feitas, ou magra. Isto passa a ser uma escolha quando é feita para atender ao que nós desejamos para nós, como nós nos sentimos bem, mas não para que o outro veja e admire, mesmo que admire e seja bom, desde que possamos escolher. 

Young-Eisendrath então percorrerá um caminho através de contos de fadas, mitos e relatos de suas pacientes, além de exemplos próprios para provocar e tentar evitar a armadilha onde a maioria de nós cai. 

Ela usará  os arquétipos da musa e da bruxa megera. A musa que desperta o desejo, que atrai os olhares, que é admirada, e a bruxa megera, quando a mulher ocupa um espaço e é chamada de autoritária, mandona, controladora, nos mostrando como nós ficamos entre estas duas, sentindo vergonha e inibição e o quanto isto afeta nossa vida. Falará também da criança divina e do mito da mãe perfeita, zelosa que cuida dos seus filhos, o que acaba sendo prejudicial tanto para a mulher quanto para o filho até chegar as três patologias que a mulher acaba sofrendo.A patologia do furto em lojas, da compulsão por compras  e da orgia alimentar que pode resultar ou em anorexia ou que engordemos. A autora demonstra como isto é uma forma de poder ter escolha, mas de forma doentia, que surge por não atingirmos o ideal que desejamos para nós, para mascarar dores, para suprir um vazio imenso. O vazio e a dor de não haver construído um sentido para sua própria vida de acordo com uma escolha com autonomia. 

O maior equívoco é confundir ser sujeito de seu desejo com independência financeira ou individualidade. Ser sujeito de seu desejo é soberania, ter autonomia, mesmo que você viva com outra pessoa, que divida as despesas, ou até mesmo seja sustentada por um tempo, mas lembrando que ganhar a vida é um dos passos para a soberania. Grandes executivas, que ganham bem estão presas nesta situação, e mesmo profissionalmente sofrem, por que se afirmam suas idéias, se dão ordens, são chamadas de megeras. 

Parece algo ultrapassado? mas não é, e justamente a questão que mais chama a atenção é a anorexia, a bulimia, o consumismo desenfreado, a tentativa de preencher vazios e solidão comprando, trocando, sem nunca se satisfazer. 

Vale a pena ler o livro. Gosto muito também das psicanalistas junguianas que trabalham com as histórias, contos e mitos para ajudar a falar sobre algo. A angústia é o inefável, e muitas vezes não conseguimos ver ou compreender algo, e uma história pode iluminar e trazer as palavras necessárias, que curam. 

" A soberania pessoal é algo diferente da assertividade, da individualidade, da independência e de fazer as coisas a seu modo. A soberania pessoal ou autonomia consiste em sentir-se livre para escolher e para direcionar suas ações." 


Polly Young-Eisendrath é psicóloga e psicanalista junguiana e clínica em Burlington - Vermont, além de professora-assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermon. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A MORTE DO INIMIGO - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2013
Tradução: Luiz A. de Araújo
256 páginas

Brilhante! é o mínimo que se pode dizer a respeito deste livro de Keilson, que foi publicado pela primeira vez em 1959 e depois foi esquecido até ser resgatado e considerado obra prima, o que de fato é. 

A narrativa nos oculta nomes, lugares e anos, porém é rapidamente reconhecível seu contexto e sua alusão à Segunda Guerra, o antissemitismo, Hitler e os judeus e nos remete facilmente a outros totalitarismos, mas o brilhante na obra não é esta camuflagem, mas sim a visão que Keilson tem sobre o humano e de como reage ao mal e ao inimigo. Poderia também ser lido como uma alegoria do que se passa dentro de um único indivíduo que se depara com um inimigo interno, e eis toda a beleza do livro e sua riqueza. 

O narrador está fascinado pelo seu inimigo, sem perceber que está com medo, muito medo dele. Aos poucos vai se projetando nele e ao mesmo tempo o introjeta

"Você vê nele apenas o agressor, aquele que nos ameaça. Mas isso é enxergar apenas um lado. É superestimá-lo." 

Aos poucos vai se desvendando a alma humana diante do inimigo e vice versa, ou seja, um não existe sem o outro, pois destruir o agressor significa também uma perda, ele leva uma parte de nós junto com ele. Sua morte significaria a minha destruição, não posso viver sem ele nos diz o narrador. A partir do momento em que o inimigo faz parte, e o introjetamos, ou nos identificamos com ele, retirá-lo é o mesmo que tirar uma parte de nós, e vai ficar um vazio, é uma perda. O inimigo é a razão de viver, para ambos os lados, que procede da vontade de sofrer, do gozo da dor, do qual é difícil se libertar. 

"Mas quem há de romper a solidariedade veladamente estabelecida entre perseguidor e perseguido?" 

Transformamos em inimigo tudo aquilo que não podemos combater em nós mesmos. E é isto que temos em nós que se transforma no inimigo, nós o mantemos vivos. Por isto o narrador precisa ficar no local por onde ele passará, para se convencer de que ele existia de fato, pois ele ganhou vida graças a fantasia, algo criado dentro de nós, para onde se dirigem nosso ódio, medo e também afeição. Só há um modo de se libertar, matando-o, mas dentro de si mesmo, quando reconhecemos finalmente o medo que sentimos, ou então, seremos como alces, que não conseguem viver sem os lobos, pois são estes que os fazem viver, e que não conseguem perceber que os lobos também são mortais. 

Fazia tempo que não encontrava um livro como este. Comédia em tom menor que já postei aqui também é muito bom, mas este aqui é uma obra prima. 

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do Nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados. 

LIVRO: MEMÓRIAS DE UMA MOÇA BEM COMPORTADA - SIMONE DE BEAUVOIR



BEAUVOIR, Simone. Círculo do livro 
Tradução: Sérgio Milliet
335 paginas 

Já li e reli este livro várias vezes, em idades diferentes e a cada vez ele me causa uma nova impressão. Quando eu era jovem ela foi meu modelo, um espelho, meu desejo de estudar Filosofia nasceu devido à ela. Hoje leio suas memórias como um painel da vida intelectual francesa, mas também da guerra, da vida parisiense, e acima de tudo, a vejo como uma mulher, não mais a intelectual. 

Este é o primeiro livro de suas memórias. Trata de sua infância e juventude burguesa em Paris, de todos seus dilemas, conflitos, de como foi se rebelando. Ela tinha uma irmã, mas sempre se sentiu privilegiada, e às vezes eu penso no que esta irmã deve ter sentido ou sofrido à sombra de Simone, apesar de sua passividade diante da irmã quando criança. Elas eram diferentes, e desde cedo Simone se sente diferente dos outros, apaixona-se pela leitura e isto lhe dá um pensamento diferenciado dos demais. Rebela-se contra a fé católica questionando-se e finalmente chegando a conclusão que não acredita em Deus. É um trecho bonito, onde ela se debate entre a crença e sua consciência. 

"Mas exercitava-me o dia inteiro a refletir, a compreender, a criticar, a interrogar-me; procurava a verdade com precisão: esse crepúsculo tornava-me inapta às conversações mundanas." 

Sua melhor amiga, Zaza, irá se distanciar dela justamente por causa da religião, irão tomar caminhos diferentes, mas um final triste aguarda sua amiga. E isto tocará profundamente Simone. 

Seu primeiro amor foi um primo, Jacques. Ele lhe passou muitas leituras que não conhecia, mas foi um amor que não deu certo, ao fim Jacques não era tão diferente de todos. 

Estas memórias irão até ela entrar para a Universidade para estudar Filosofia onde encontrará Sartre

"Sartre correspondia exatamente aos meus sonhos de quinze anos: era o duplo, em quem eu encontrava, elevadas ao extremo, todas as minhas manias. Com ele, poderia sempre tudo partilhar. Quando o deixei, no princípio de agosto, sabia que nunca mais sairia de minha vida."

E assim foi! 


Simone de Beauvoir nasceu em 1908 em Paris, França e faleceu em 1986 na mesma cidade. Foi uma filosofa existencialista, escritora e feminista. Uma mulher que lutou pelo direito de pensar e que não recuou diante das polêmicas que causaram a publicação de O Segundo Sexo

FILME: LE HÉRISSON - 2009 - O PORCO ESPINHO

Direção: Mona Achache - 2009 
Duração: 100 min 
Título Original: Le Hérisson 
País: França 

Como acabo de postar o livro que deu origem ao filme "A Elegância do Ouriço" de Muriel Barbery, aproveito para falar do filme que assisti recentemente.

O filme retrata duas mulheres em diferentes idades, mas que questionam o que é a vida e seus absurdos. Renée (Josiane Balasko) é uma zeladora de um prédio, extremamente séria, de poucas palavras, tratada por alguns dos moradores com a arrogância típica burguesa que se acredita superior e mais culta. O que eles não sabem é que Renée tem um segredo que somente seu gato Léon conhece. Atrás de uma porta que está sempre fechada se encontra sua verdadeira vida, uma biblioteca.

Paloma (Garance Le Guillermic) é uma menina de onze anos que se apercebe do absurdo da vida e resolve se suicidar no dia do seu aniversário se nada ocorrer que lhe mostre que vale a pena viver.

É do encontro destas duas que veremos de um lado Renée que se redescobre como mulher e Paloma que ainda se pergunta o que é ser uma mulher. A mãe da menina lhe dá pouca atenção, sua irmã se acha a melhor em tudo, o que deixa pouco espaço para a menina que não encontra um lugar. Entre as duas irá surgir o Sr. Ozu (Togo Igawa), um novo morador no prédio.




Como toda vez que se tenta colocar um livro extremamente rico em idéias e reflexões ,se torna difícil transpor isto para um filme.



É uma condensação, um resumo do livro, mas se perde muito da riqueza do livro em todos os seus detalhes, diálogos e reflexões. 
No que se refere ao contexto geral o filme o retrata bem, mas falta a riqueza da filosofia, e senti muita falta dos diários de Paloma, apesar da tentativa de expressá-los através das filmagens que ela faz.



Mona Achache nasceu em 1981 na França.

Trilha sonora de Gabriel Yared 

LIVRO: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO - MURIEL BARBERY



BARBERY, Muriel. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
352 páginas
Título original: L'élégance du hérisson 

Descobri o livro numa livraria no aeroporto enquanto aguardava meu voo, obviamente não resisti e o comprei de imediato e não me arrependi, o livro é maravilhoso.
Um prédio em Paris, número 7 da Rue de Grenelle, apartamentos de luxo onde vivem além dos proprietários a zeladora Renée, uma mulher séria, que nos parece de mal com a vida, cumpre com seus deveres e sabe seu lugar em relação aos moradores do prédio. Mas atenção, as aparências podem enganar, enquanto os moradores que são considerados distintos e cultos mas vivem na mediocridade do esnobismo, de serem algo devido sua classe social, Renée, que nos parece uma pessoa simples e ignorante pode revelar que é muito mais que isto. 
Ela vive no térreo, com seu gato, Leon, e isto já poderia ser uma pista, seria Leon Tolstoi? O que ela esconde que não conseguimos perceber? Ela é uma amante dos livros, tem uma biblioteca oculta em seu apartamento. Encontra nos livros o que a vida não lhe oferece, puro deleite e amor às artes. 
Mas neste prédio temos também Paloma, uma adolescente que vive com sua família, um pai ausente, um figurão, a mãe uma dondoca formada em Letras e a irmã que se considera uma filosofa. Ela decide que a vida não vale a pena ser vivida e que irá se suicidar no dia do seu aniversário de treze anos, a menos que descubra um sentido para a vida. Pelo menos ela tenta, escreve dois diários que denomina: Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo. Encantei-me tanto com estes diários que acabei criando os meus. 
Tanto Renée como Paloma vivem camufladas, não mostram o que são e desejam, enquanto os outros vivem com suas máscaras. Mas ambas acabam se aproximando e se descobrindo, passam a trocar reflexões, pensamentos, conversam, aqui sim, duas filosofas que duvidam e se encantam. 
Eis então que surge um novo morador, o Sr Kakuro Ozu, que é o oposto de todos ali, um oriental bem humorado, que parece ter a sabedoria da vida. Ele logo percebe que Renée e Paloma se escondem por baixo de uma capa de proteção e se aproxima, principalmente de Renée. Ele lentamente saberá como trazê-las à vida e mostrar que ela realmente vale a pena ser vivida, mesmo que nisto tenha a dor, sofrimento e muitos espinhos. Ele saberá como se aproximar dos ouriços o suficiente para lhes transmitir calor, me lembrando dos porcos espinhos de Schopenhauer

Recomendo. 

Muriel Barbery nasceu em 1969 em Casablanca, Marrocos é formada em Filosofia. Ex aluna da École Normale Supérieure, atualmente vive no Japão

LIVRO: VASOS SAGRADOS - Mitos indígenas brasileiros e o encontro com o feminino - MARIA INEZ DO ESPÍRITO SANTO


ESPÍRITO SANTO, Maria Inez do. Rocco, 2010
240 páginas.

Encantei-me ao encontrar este livro em umas de minhas andanças pelas livrarias. Já conhecemos vários livros maravilhosos que nos falam dos Contos e lendas em relação ao feminino, sendo o mais conhecido o "Mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Pinkola Estés, alias um excelente livro, mas este trabalha com os nossos mitos indígenas, valorizando o que temos de mais rico na nossa cultura e que normalmente ou não conhecemos ou esquecemos. 

Maria Inez trabalha com relatos de mitos indígenas e as histórias de suas pacientes enriquecendo seu imaginário, mas ao mesmo tempo encontrando nestes mitos uma possível resposta, uma possível alternativa, uma possível compreensão. A leitura dos mitos se relacionando com o momento atual de uma paciente abre caminhos. 

Após a leitura do livro me senti diferente, algo dentro de mim se iluminou, esclareceu, abriu uma porta. Maria Inez nos mostra como aplicar este conhecimento a questões terapêuticas, mas acima de tudo ao nosso dia a dia. 

Sempre acreditei na sabedoria dos contos, mitos e lendas. Eles existem para explicar, colocar ordem no caos e nos ensinar. Quando não estão manipulados para atender à moral ou ao patriarcalismo, são riquíssimos e nos trazem sabedoria para a vida. 

Recomendo. 

Maria Inez do Espírito Santo é educadora , psicanalista e terapeuta cultural, com formação em Pedagogia, Psicanálise, Psicologia e Culturas Brasileiras. Atualmente vive no Sítio Retiro, RJ, coordena grupos de leitura e reflexão. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVRO: O MONGE E A PSICANALISTA - MARIE BALMARY



BALMARY, Marie. Editora Vozes, 2007
135 páginas
Título Original: Le moine et la psychanalyste

Uma ficção autobiográfica do encontro de uma psicanalista agnóstica que está com uma doença grave e um monge beneditino, irmão de Jacques Lacan. São diálogos sobre a vida, a religião, o sofrimento a luz da psicanálise, filosofia e dos textos bíblicos.

Marie Balmary é uma psicanalista francesa, estudiosa da Bíblia e da mitologia grega.

LIVRO: A LUZ DO FAROL - COLM TÓIBÍN



TÓIBIN, Colm. Companhia das Letras, 2004
Tradução: Alexandre Hubner
280 páginas.

Este livro eu o li no ano passado, mas ainda não havia escrito sobre ele no meu blog. Helen, sua mãe e sua avó mantém distância, vivem no desencontro, culpas, medo, solidão, raivas que não conseguem enfrentar. A doença do irmão de Helen, que está com AIDS  irá fazer com que elas tenham que se reencontrar e viver na casa da avó por um tempo , que fica na beira de um penhasco com o mar abaixo e um farol, para onde o irmão quis ir após ter a doença fatal diagnosticada.
Aos poucos vão ter que se confrontar, descobrir que no fundo se amam, mas não conseguem viver juntas apesar de que a separação é impossível, pois não é uma questão física e sim psíquica, de laços afetivos. 

Colm Tóibín nasceu em 1955 em Enniscorthy, Irlanda. É escritor, jornalista e crítico literário. 

LIVRO: A BELA VELHICE - MIRIAN GOLDENBERG




GOLDENBERG, Mirian. Record, 2013
128 páginas

Mirian nos fala de uma velhice bonita, saudável, cheia de vida, de prazeres, ao contrário do que normalmente se julga ser ficar velho, uma pessoa que terá doenças, não conseguirá mais se locomover com liberdade, que terá limitações. Sim, haverá limitações, assim como a criança que não consegue andar ainda, a pessoa após certa idade já não consegue escalar o Everest, mas isto em momento algum lhe tira o prazer de viver e desejar e de ter autonomia e liberdade sobre sua vida.
Muito bom, apesar de que fico triste por ver quantos preconceitos ainda existem e como a sociedade, principalmente as mulheres, são cruéis com elas mesmas. É interessante porque a criança e o adolescente sempre se projeta na vida adulta e se interessa por isto, mas o adulto nega que vai ficar velho. Não é com ele isto. E gostei muito da posição de que não existe isto de melhor idade, melhor idade pode ser em qualquer época da vida.

LIVRO: W OU A MEMÓRIA DA INFÂNCIA - GEORGES PEREC


PEREC, George. Companhia das Letras, 1995
Tradução: Paulo Neves
196 paginas
Título original: W, ou , le souvenir d'enfance 

Um livro de memórias, mas memórias que não existem, que precisam ser resgatadas, recuperadas, e que se apresentam sempre misturadas a outros eventos, imaginárias, sem muita confirmação. Perec era criança quando a Segunda Guerra começou, ficou órfão. 
Ele começa nos dizendo que não tem nenhuma memória de infância, e se lança na escrita na tentativa de recuperá-las. Nem sempre é possível ou fácil colocar em palavras o que se viveu, e paralelamente ele escreve uma história, a história de W, uma narrativa fantasiada pelo autor aos doze anos. Mas qual será a mais verdadeira? 
Nossa memória sempre reconstitui um romance, pega pedaços do que vivemos e condensa, formando uma história coesa, mas quando não se tem esta possibilidade de coesão e se está no caos, pode-se também inventar, imaginar, criar uma história. 
Ele irá alternar pedaços de sua vida, do que consegue se lembrar ou pensa ter sido assim, com a história de W. 
W, a terra do esporte, um Estado-máquina. Ao ler estes trechos me vieram duas versões. A primeira seria a maneira de poder falar, contar e ser ouvido sobre o Holocausto, sobre os campos de concentração, pois temos um retrato deles de forma fantasiada, e a outra seria como as pessoas passam a acreditar numa ideologia, mesmo que maléfica, como  seguem as regras e não se rebelam contra. 
Talvez por que no real da guerra haviam inimigos, mas entre eles também havia seres humanos. Ao vencedor cabe os privilégios, e ao perdedor os castigos, a derrota, a humilhação, mas o vencedor de hoje é o perdedor de amanhã. E no dia a dia sempre há os que protegem os mais fracos e mais novos, mesmo entre os que são os vencedores, talvez principalmente entre eles, para que possamos sobreviver. 

Perec escreve, escreve para poder viver. Para lembrar e esquecer, ou esquecer para lembrar. E sua fábula da Terra de W nos serve para compreendermos todos os totalitarismos e por ironia ou uma coincidência que ninguém pode compreender, esta terra está na América Latina, onde tantas ditaduras viraram a Terra de W. 

George Perec nasceu em 1936 em Bordeaux, França e morreu em Paris em 1982. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LIVRO: DEZ MULHERES - MARCELA SERRANO



SERRANO, Marcela. Alfaguara/ Editora Objetiva - 2012
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
267 páginas
Título Original: Diez Mujeres

Primeiro livro da escritora chilena Marcela Serrano que leio, e gostei muito. Natasha, uma terapeuta reúne por um dia nove de suas pacientes para que falem, contem suas histórias. Idades diferentes, classes sociais diferentes, origens diferentes e cada uma com seu drama pessoal, mas que ao ler a sensação que temos é que poderia ser uma história só.
Vamos nos identificando com um aspecto de uma, depois de outra, e ao final não fui capaz de dizer com qual eu me identifico mais, pois em cada uma das histórias encontrei algo que se parece com a minha.
Francisca que fala de sua mãe, Mané sobre a velhice, Juana sobre a dor e o viver para o outro, Simona sobre o prazer da solitude, do viver para si, Layla sobre a violência, o estupro que sofreu e que irá afetar sua vida sem que ela se dê conta, Luisa que nos fala sobre os desaparecidos, Guadalupe nos conta o como é descobrir sua homossexualidade e enfrentar os preconceitos, Andrea que tenta se encontrar no deserto, dar um sentido a sua vida, Ana Rosa que nos fala da morte e da culpa, e do incesto e suas consequências e a história de Natascha contada por uma amiga e colaboradora. Por mais que cada uma foque em algo, na soma de sua história ela nos falou muito mais.

Fiquei imaginando a cena inicial, estas nove mulheres se olhando sem saber o que aconteceu à outra, sem saber as dores, as dificuldades, as alegrias, qual desejo tem cada uma para quando chegam ao final do dia terem descoberto que todas, inclusive aquelas que umas invejam por terem tudo e imaginam que com isto não podem se deprimir, e nem passam por dificuldades, também tem dores e sofrimentos.

Mas, Serrano consegue nos falar de tudo isto de uma forma que me lembram as histórias contadas pelos antigos para ensinar sobre a vida, os contos que ainda não haviam sofrido a manipulação para se tornarem os "felizes para sempre" que tanto nos iludem, por que a vida não é assim, ela é feita de momentos, e entre estes momentos temos o trágico, mas também temos a alegria e o prazer. A cada relato nos refletimos, pensamos, aprendemos e descobrimos que não somos a única a passar por coisas difíceis, e que cada uma tenta a seu modo viver a vida que tem com tudo que isto significa.

No final do livro temos uma frase: " É que a literatura, como a psicanálise, luta com a complexa relação entre o saber e o não saber."

Quando contamos uma história, e principalmente se é a nossa história, nos ouvimos contar, mas também somos escutados por outros, e é nesta interação que surge o que não sabemos e não falamos, mas que o outro ouviu dentro de si. Sempre haverá mais palavras a serem ditas e ouvidas.

O livro é uma colcha de retalhos, retalhos que se costuram para nos aquecer.

Marcela Serrano nasceu em Santiago, no Chile, em 1951. Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973 exilou-se na Itália até 1977. Formou-se em Belas Artes.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

LIVRO: O SAL DA VIDA - FRANÇOISE HÉRITIER


HÉRITIER, Françoise. Valentina, 2013 
Tradução: Maria Alice A. de Sampaio Dória
108 páginas
Título original: Le sel de la vie 

Não poderia ter havido melhor escolha para começar um novo ano do que este saboroso livro de Héritier.

O que é viver afinal? o que faz a vida valer a pena? como é que percebemos que estamos vivos? o que é existir afinal?

Não se trata de nossas realizações pessoais, profissionais, intelectuais, mas do simples sabor de viver, aquelas pequenas coisas, aquele momento, aquele instante que nos emociona a não poder mais, que nos faz rir, que nos deixa com raiva, que provoca ódio, que nos enoja, que causa medo, fascínio, pavor.

É impossível colocar sal na boca e não ter uma reação. Pode ser agradável para alguns como desagradável para outros, mas este sentir, esta percepção é que nos mostra que existimos, estamos vivos!

E este existir está ao alcance de todos, sem exceção.

Lendo este livro compreendi por que eu sentia uma nostalgia dolorosa às vezes, esta saudade melancólica, de um prazer imenso em algo tão frugal e banal, apenas uma lembrança rápida, sem muito contexto. Compreendi porque às vezes tenho sensações que chegam a ser uma angústia prazerosa. E fico fixa e presa a algo que me causa pavor, mas fascínio ao mesmo tempo, como uma tempestade, ou uma onda gigantesca.

Nosso corpo registra, é através dos sentidos que captamos a vida, aquele pequeno instante que faz valer ter vivido. É através da sensualidade do corpo, destes registros, destas marcas, que ficam e que nos movem que podemos seguir em frente, e que sabemos o caminho, que conhecemos as emoções que somos capazes de sentir.

Héritier se lança nesta aventura da escrita ao receber uma carta de um professor que ela admira muito e que pede desculpas por estar de férias, mas que na verdade estava se desculpando por roubar sua própria vida, não aceitando que se pode e se deve viver sem ser engolido pelo dia a dia, pelos compromissos assumidos, pelas aparências, pelas obrigações, pelo dever, pelo trabalho, pela obsessão de ser perfeito e atender a tudo e a todos. Temos nossa vida a qual respondemos da melhor forma que podemos, seja em nossos relacionamentos, trabalho, amizades, engajamentos, mas temos que viver também, e não se deixar sufocar por tudo isto que também é importante, mas não menos ou mais que este tempero que encontramos nas pequenas coisas do dia a dia em toda nossa vida.

Como é bom estar no mundo ! basta isto, sim, poder sentir o existir.

Um livro de cabeceira! E no espaço que o livro nos traz para preenchermos com o que representa o sal da vida para cada um de nós, colocarmos diariamente este tempero.

Françoise Héritier, nasceu em 1933, é uma antropóloga e etnóloga francesa, professora honorária do Collège de France, onde dirigiu o Laboratório de Antropologia Social e sucedeu a Claude Lévi-Strauss, a pedido do próprio. Foi diretora da École des Hautes Études em Ciências Sociais e presidente do Conselho Nacional de combate à AIDS.
Publicou entre outras obras; Deux soeurs et leur mère e Masculin/Féminin, editado no Brasil pela Editora Piaget como Masculino e Feminino.