segunda-feira, 5 de maio de 2014

FILME: O HOMEM DUPLICADO - ENEMY - 2014


Direção: Denis Villeneuve - 2014 
Duração: 90 min 
Título original: Enemy 
Roteiro: Javier Gullón
País: Canadá - Espanha 

Baseado no livro O Homem duplicado de José Saramago 

Não li o livro e vou fazer uma interpretação deste filme que talvez não seja condizente com outras opiniões e visões, mas prefiro falar o que eu senti e percebi no filme.

O protagonista é interpretado por Jake Gyllenhall. Adam é um professor de história que passa por uma crise e está deprimido. Suas aulas falam de ditadura e da eterna repetição de tudo. Logo no início do filme temos uma visão da cidade onde ele mora, poucas cores, algo claustrofóbico. Seu celular toca e é sua mãe (Isabella Rossellini) que diz que está preocupada com ele por morar ali sozinho, que quer reatar com ele. Ele não atende.

Ao seguir uma dica de um colega ele acaba assistindo um filme para se distrair, e é ali que verá seu sósia. Ficará obcecado com isto e irá atrás deste outro. A primeira coisa que pensei foi: como é difícil enxergar a si mesmo no outro.

Ele tem uma namorada (Mélanie Laurent), mas que sempre vai embora, não fica ali com ele, mesmo ele morando sozinho. No início do filme vemos uma mulher grávida e depois vários homens voyeurs vendo uma encenação erótica. Adam encontra seu sócia Anthony. Um ator de pouca relevância que vive com sua esposa grávida. Os dois irão se encontrar, mas antes disto a mulher de Anthony, Helen (Sarah Gadon)  o vê na faculdade. Ela está enciumada, e quer que o marido se afaste de uma amante.



Aparece novamente a cidade e agora com uma imensa aranha sobre ela, uma referência à aranha Maman de Louise Bourgeois? nada é dito no filme, mas de imediato foi o que pensei, me remetendo também à Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.



Adam irá se encontrar com sua mãe e lhe fala disto, ela lhe responde que ele é seu único filho, ela é sua única mãe e acrescenta que é para ele deixar de querer ser um ator de terceira categoria.

Adam e Anthony trocarão de lugar por imposição deste último que então se veste com as roupas de Adam, pega seu carro e vai buscar sua namorada para um passeio romântico. Adam vai para o apartamento de Anthony. A namorada de Adam verá uma marca de aliança no dedo de Anthony que diz que sempre esteve ali e ela diz que não, eles saem, discutem, um acidente de carro e morrem os dois. Adam fica no apartamento com a mulher grávida que lhe pergunta como foi na faculdade. No dia seguinte ele abre a carta que era para Anthony, confidencial, e dentro tem a nova chave para o local onde se passam as encenações eróticas. Ele pergunta à esposa se quer fazer algo à noite, porque ele precisa sair, ela não responde e ele vai até o quarto, na cama uma imensa aranha.

Adam e Anthony são a mesma pessoa, um duplo, aquele que faz tudo que o outro deseja fazer mas não consegue por estar preso na teia de aranha de sua mãe, o retorno do desejo de Bourgeois, onde a mãe é a desejada mas proibida, a mulher grávida, mãe. Ele não consegue se relacionar com uma mulher, a namorada que parte, que descobre que ele é casado, mas não com outra mulher. A mãe protetora mas também a que sufoca o desejo, que não o liberta para viver sua vida e seu desejo. O duplo que temos em nós, aquilo que sonhamos e desejamos e não podemos fazer por estarmos presos de alguma forma dentro de um contexto social, mas também preso ao desejo do outro.



O duplo é um reflexo de si mesmo, mas nem sempre pelo lado que amamos, a questão é quando este duplo nos assusta, é nosso lado perverso, é o lado que queremos negar, que não suportamos, o inimigo, um estranho familiar que nos apavora.

A questão que fica é se aquela aranha na cama irá impedi-lo de sair ou não. Ele poderá finalmente viver sua sexualidade? assumir seu desejo? ou continuará sendo o pacato, metódico e deprimido professor?

Um filme que causa um mal estar que leva à reflexão sobre o que fazemos de nós mesmos, e onde estamos presos. Como a frase inicial do filme o caos está onde ainda não se colocou ordem.


Denis Villeneuve nasceu em 1967 em Québec, Canadá.

Trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans

domingo, 4 de maio de 2014

FILME: CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS - 2014



Direção: George Clooney - 2014
Duração: 118 min 
Título original: The monuments men 
Roteiro: George Clooney e Grant Heslov 
País: Estados Unidos 

Baseado em fatos reais e no livro de Robert M. Edsel.

O nazismo roubou obras de arte em todos os países invadidos. Algumas foram salvas e escondidas, mas principalmente as de coleções particulares desapareceram. A intenção não era apenas colecionar e fundar um museu do führer, mas o mais importante era destruir a história e as criações dos países que estavam submetidos ao nazismo. Apagar a simbolização de uma tradição, expressão, idéias, que encontramos na arte, a significação que isto tem para um povo.

Já no final da guerra um grupo de 13 especialistas em arte de vários países se reúnem para tentar salvar as obras, comandados por George Stout (George Clooney) um conservador de obras de arte.

O grupo formado por curadores, museólogos, arquitetos e historiadores é interpretado por Matt Damon, Bill Murray,  John Goodman, Jean Dujardin e Bob Baladan além de Cate Blanchett como Claire.

O filme é bom, porém não retrata o que realmente foi a recuperação destas obras e todo o simbolismo delas, apesar da tentativa ao se falar disto durante o filme. Há uma cena em que um especialista começa a olhar telas legítimas e não as reconhece de imediato, mas somente após verificar à qual coleção pertencia, o que não ocorreria com um connaisseur de arte. O filme também anda devagar, mas ao mesmo tempo parece correr contra o tempo, para que se consiga recuperar o máximo de obras, que estavam em sua maioria escondidas em minas de sal e cobre. Além disto havia uma ordem para que se Hitler morresse todas fossem destruídas.

Os russos também estavam em busca destas obras, mas com a intenção de utilizá-las para pagar indenizações e não para devolvê-las aos seus legítimos donos.

Espero que desperte o interesse, pois trata-se de um aspecto da guerra que ainda foi pouco tratado e levado ao conhecimento das pessoas.


George Clooney nasceu em 1961 em Lexington, Kentucky, EUA. É um ator e diretor de cinema e televisão.

Trilha sonora de Alexandre Desplat 

sábado, 3 de maio de 2014

FILME: MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA - 2003



Direção: Peter Webber - 2003 
Duração: 95 min 
Título Original: Girl with a Pearl Earring 
País: Reino Unido 

Adaptação do romance homônimo de Tracy Chevalier, uma história fictícia sobre como o pintor Vermeer teria pintado o quadro com o mesmo nome.

Século XVII, Griet (Scarlett Johansson) é uma jovem holandesa que vive em Delft e que devido dificuldades financeiras de sua família tem que ir trabalhar como criada da família do pintor Johannes Vermeer (Colin Firth).

Griet é sensível à beleza e às cores, seu pai pintava azulejos mas ficou cego, e admira o trabalho de seu patrão. Ele irá notar sua beleza mas principalmente seu entendimento sobre a pintura e as cores e fará dela sua auxiliar e depois musa inspiradora para seu quadro Moça com brinco de pérola. Dois momentos que demonstram o conhecimento de Griet, quando ela pergunta se deve lavar os vidros pois isto mudaria a lua no ateliê, e quando ao olhar as nuvens o pintor lhe pergunta de cor são, ela inicialmente dirá que são brancas, mas então perceberá que são amarelas, azuis, brancas, cinzas.



O filme retrata a vida do pintor e a forma como os quadros eram encomendados pelo seu Mecenas, mas também é uma mostra da vida da época, do mercado, dos camponeses e dos criados. A questão dos católicos e dos protestantes.

Para pintar Griet o pintor precisa dos brincos de pérolas de sua esposa, se será sua sogra quem os pegará escondido, num dia que sua filha não estará em casa, porém desde o início Griet terá uma inimiga em Cornélia (Alakina Mann) que tudo fará para que a moça seja despedida, e surge a oportunidade quando ela vê Griet devolver os brincos para sua avó. A esposa do pintor tem uma crise histérica ao ver o quadro, o chama de obsceno. Griet é despedida mas o pintor lhe enviará os brincos como uma forma de pagamento.


Johannes Vermeer nasceu em 1632 em Delft , na Holanda e faleceu em 1675 no mesmo local. Foi casado com Catharina Bolenes e teve 15 filhos. Morreu muito pobre e a viúva teve que vender os quadros que lhe restavam. Só foi reconhecido em 1866. 


Peter Weber nasceu em 1960

Trilha Sonora - Alexandre Desplat

sexta-feira, 2 de maio de 2014

FILME: FLORBELA - Perdidamente Florbela - 2012


Direção: Vicente Alves do Ó - 2012 
Duração: 119 min 
Roteiro: Vicente Alves do Ó
País: Portugal 

O filme chega apenas agora no Brasil. Um belíssimo retrato de Florbela Espanca, a poetisa portuguesa, tida como o feminino de Fernando Pessoa.

Florbela nasceu em 1894 em Vila Viçosa, Portugal. Era filha de Antónia Conceição lobo e de João Mayra Espanca, porém este era casado com Mariana do Carmo Toscano. Seu irmão Apeles também é filho de Antónia, e João tirou os filhos de sua mãe e os levou para serem criados em sua casa. A esposa era estéril e os recebe com amor, tornando-se a madrinha deles. João nunca reconheceu o filho como seu, e Florbela somente 18 anos após sua morte foi reconhecida e recebeu o sobrenome Espanca.

Florbela (Dalila Carmo) tem uma imensa sede de viver, de ir mais longe, mas seu primeiro marido Alberto não compreende isto, e ela se divorcia dele indo para Lisboa. Casa-se novamente com Antonio, mas também não dura este casamento, e então casa-se com Mario (Albano Jerónimo), um médico e vai viver em Matosinhos.



Seus primeiros poemas da época de seu primeiro casamento são publicados nos jornais, ela também edita um livro de poemas, mas depois entra num longo período em que não consegue escrever, voltando a fazê-lo somente após a morte do irmão.

O filme foca principalmente neste período de improdutividade, e em seus três casamentos, passando levemente por sua vida intensa em Lisboa, sua sexualidade, tentativas de suicídio e suas questões psíquicas. Sua relação incestuosa com o irmão Apeles (Ivo Canelas) é uma questão controversa entre seus biógrafos, mas no filme ela é visível, a ponto do irmão não suportar seu terceiro marido, a intromissão dele entre os dois.

O que se percebe pelo filme como mais forte é sua eterna insatisfação, ela diz que não sabe viver, suas buscas, a melancolia, a angústia. Florbela carrega um excesso dentro dela, e não encontra onde colocar, nem mesmo a escrita pode suprir isto.  Segue somente suas regras, não leva muito em conta o que os outros sentem, deixa seus maridos apaixonados sem se preocupar com isto, o que importa é sua necessidade de algo novo, diferente, da eterna busca da vida, de viver que não se sacia.

Uma mulher que nasceu em uma época errada, que não teve o que fazer com tudo que tinha dentro de si mesma e com isto se perdeu em si mesma.

Florbela Espanca

Vicente Alves do Ó nasceu em 1972 em Sétubal, Portugal. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

FILME: ONDE ESTÁ A NOITE - OÙ VAS LA NUIT - 2011



Direção: Martin Provost - 2011 
Duração: 102 min
Título original: Où vas la nuit 
País: França 

Baseado no livro "The long Falling" do escritor irlandês Keith Ridgway

No meio da noite uma jovem é atropelada ao pedir carona e morre. O culpado é o marido de Rose (Yolande Moureau) que é condenado a 06 meses de prisão. Eles vivem numa fazenda e o filho deles Thomas (Pierre Moure) saiu de casa com 16 anos. Ele é um homem violento, e que fica pior ainda quando bebe. Rose é agredida por ele com socos e pontapés. Ela ensaia sua partida preparando a mala, colocando um sobretudo, desce as escadas, dá a volta e retorna ao quarto onde guarda tudo de novo. Porém uma noite quando ele sai para beber ela pega o carro e o aguarda no mesmo local onde a jovem foi atropelada e faz o mesmo com ele.

No enterro ela parece alheia, vai até um túmulo de uma criança e depois vai embora junto com o filho que veio para o enterro do pai. Permanece ainda alguns dias na fazenda, responde as perguntas dos policiais e decide partir para Bruxelas onde vive o filho com seu companheiro para iniciar uma vida nova.



Inicialmente ela olhara para um mundo novo, admirando obras de arte, caminhando pela cidade, mas a sombra do marido permanece, não exatamente culpa pelo o que fez, mas é como se ele se perpetuasse até mesmo no filho, que em algumas cenas com seu companheiro se torna também sádico, chegando a queimá-lo com o cigarro.

O filme discute a questão da violência doméstica e familiar. O inspetor já sabia que tinha sido ela e iria se calar se ela não tivesse desaparecido, o que o deixou numa saia justa sem poder responder onde ela estava, e ao mesmo tempo não pode mais impedir a perícia em seu carro que ficou na fazenda.

O filme nos mostra a ambiguidade das pessoas, pois por se tratar de um crime ela teria que ser responsabilizada por ele, mas esta moral não atua tão objetivamente, e muitos ficarão do lado dela, e até tentarão ajudá-la, e outros, como seu filho, que também odiava o pai, irá culpá-la.

O que leva uma pessoa a não agir de forma que não chegue a este ato, ao crime? Por que ela não foi embora antes? apenas ensaiava sua partida. O que a retinha? Por que não pediu ajuda?

E Thomas, que a culpa, por que nada fez para ajudar sua mãe? por que ele não enfrentou seu pai e socorreu sua mãe?

Questões que nos colocamos, mas cada um faz o que pode quando consegue. Rose deseja reiniciar uma vida nova, mas também resgatar sua relação com o filho, tem esperanças de que tudo poderá ser diferente agora. Num momento do filme ela relatará que nem sempre foi ruim, que houve bons momentos, mas que seu outro filho morreu afogado ao brincar ao lado dela e ela não percebeu. Seu marido nunca a perdoou do acidente, passando a culpá-la por isto, e também nunca aceitou a homossexualidade do outro filho.

Os dramas familiares que se redundam e que acabam transformando as vidas em sofrimento.


Martin Provost 

FILME: AS CINZAS DE ANGELA - 1999



Direção: Alan Parker - 1999
Duração: 139 min 
Título original: Angela's Ashes 
País: Estados Unidos 

Baseado no livro auto-biográfico de Frank McCourt. 

1935 - uma família irlandesa vive nos Estados Unidos com dificuldades. Após a morte de sua filha bebê eles retornam para a Irlanda justamente num momento onde os irlandeses estão indo para a América fugindo da fome e da falta de trabalho. Angela (Emily Watson) e seu marido Malachy (Robert Carlyle) com seus filhos chegam à Irlanda e são recebidos pela mãe de Angela e sua tia e tio. Porém o marido de Angela é protestante e a família dela é católica o que logo de início já coloca uma situação delicada com a avó e a tia se recusando a lhe dar a mão.

Um filme sobre a dura realidade as famílias pobres na Irlanda onde apesar de todo o catolicismo não há muito misericórdia ou bondade, mesmo quando a igreja ajuda é em tom de deboche, mas ela também bate a porta na cara das pessoas, contradizendo seu belo discurso de amor a Deus e aos próximos.



Para complicar tudo o pai não consegue emprego e não para de beber, e quando consegue um trabalho vai comemorar logo no primeiro dia gastando tudo que ganhou ao invés de levar para a família. Com toda a dificuldade que passam ainda tentam manter um orgulho, como o pai se recusando a pegar carvão no chão como um mendigo, preferindo deixar a família passar frio, ou Angela que ao conseguir ajuda para comprar móveis reclama que serão de segunda mão.

A vida é dura, logo eles perdem um dos filhos gêmeos, Oliver, e não demora morre também o segundo gêmeo, Eugene. Mas, apesar de toda esta dor, tristezas e dificuldades o filho mais velho Frank (Joe Breen (5-8anos; Ciaram Owens - 10 anos e Michael Legge - adolescente)  e seu irmão conseguem ainda manter a alegria de criança, com as brincadeiras, aprontações, mas não deixam de perceber tudo que se passa, e se por um lado amam o pai que conta histórias, odeiam o pai que bebe.



Angela engravida novamente e mais uma vez, mas ela se cansa de um marido que ela chama de inútil, que nunca arruma um trabalho e não consegue ajudar em nada para sustentar os filhos. Um dia ele parte para a Inglaterra como muitos faziam prometendo mudar e parar de beber, mas obviamente isto não acontece, até que no Natal ela o recebe friamente e ele parte de vez e nunca mais voltou ou deu notícias.

Frank irá trabalhar como entregador de carvão e acabará tendo uma conjuntivite extremamente séria. Serão expulsos do quarto onde moravam e terão que morar com um primo onde este os transforma em seus serviçais em troca da moradia de graça, sendo tarefa de Frank esvaziar o urinol e sua mãe deve cozinhar, mas não só isto, os meninos irão perceber que toda noite ela sobe e não volta, e Frank logo perceberá o que acontece. Um dia ele perderá a cabeça e agredirá o homem que é muito mais forte que ele. Nesta noite, após sua mãe nem lhe agradecer e subir direto ao quarto dele, Frank arruma suas coisas e parte. Vai viver na casa de seu tio e começa a trabalhar no Correio para juntar dinheiro e partir para a América.

Ele também aceita trabalhar para a odiada agiota escrevendo cartas de cobrança assustadoras e as entregando, mas um dia quando chega ela está morta e ele então pega o dinheiro que ela guardava e o livro onde estavam anotados todos os nomes de quem lhe devia, inclusive sua mãe e sua tia, e o joga no rio, apagando para sempre estas dívidas, e vai comprar sua passagem para a América para onde segue num navio e retornando ao ponto de partida, só que desta vez é dando alô à Estátua da Liberdade e não adeus como no começo do filme.

Um filme sobre uma vida difícil, cheia de dor, fome, luta pela sobrevivência, retratando a Irlanda daquele tempo, onde muitos morriam de fome e doenças, devido à umidade, sempre chovia ali. A questão dos católicos e protestantes, aqui é retratado mais no aspecto das questões familiares, e perante a igreja católica. A discrepância com o que se prega e o que se faz, os preconceitos. A bebida como forma de fuga.

Apesar de Frank parecer repetir seu pai quando chega em casa bêbado pela primeira vez e cantando as mesmas músicas que ele o que exaspera sua mãe que o acusa de ser igual, não será assim. Ele neste momento irá dar um tapa no rosto da mãe e a chamará de prostituta, mas depois ele irá rezar para São Francisco e um padre novo lhe dirá que ele tem que amar a Deus e a si mesmo primeiro, para depois amar aos outros, e ele então segue adiante com sua vida. No caso da mãe não devemos julgar, o que poderia fazer na situação que estava com 04 filhos, não tendo dinheiro nem onde morar, abandonada pelo marido, se viu numa situação difícil e precisava proteger os filhos que lhe restavam, ela já havia perdido três. Mas para o filho, perceber isto foi tremendamente doloroso, ele também precisava por isto para fora. Ele a vira se negar ao pai para não ter mais filhos e agora a via ir para a cama com aquele homem asqueroso, e de qualquer maneira um filho não consegue aceitar isto, e ele tentou defendê-la, assumindo o lugar do pai, mas não pode. Mas o que Angela quis fazer ela também conseguiu, seu segundo filho também segue a vida, e com certeza os dois menores também.

Provavelmente o título do livro e filme é uma homenagem à esta mãe.


Alan Parker nasceu em 1944 em Islington, Reino Unido, mas fez a maioria de seus filmes nos Estados Unidos.


MÚSICA DE JOHN WILLIAMS

John Williams nasceu em 1932 em Floral Park, New York, EUA. É um compositor.  

LIVRO: HANNS & RUDOLF - O judeu-alemão e a caçada ao Kommandant de Auschwitz - THOMAS HARDING


Harding, Thomas. Rocco, 2014
Tradução: Ângela Lobo
302 páginas
Título Original: Hanns and Rudolf - the german jew and the hunt for the kommandant of Auschwitz

Thomas Harding comparece ao velório de seu tio-avô Hanns e durante a leitura do elogio fúnebre, uma retrospectiva da vida do falecido, ouve pela primeira vez que Hanns foi o responsável pela busca e prisão de Rudolf Hoss, o Kommandant de Auschwitz. Surpreendido pela revelação decide empreender a busca  desta história, documentos, relatos, para poder reconstruir esta fato da história de sua família.

O livro começa nos falando da infância de Hanns que tinha um irmão gêmeo Paul em Berlim e de sua predileção por pregar peças nos outros nos termos de um Pimentinha ou Max und Moritz. Viviam uma vida feliz, uma família judia que respeitava sua religião mas também eram seculares. O pai Alfred era médico e tinha uma excelente posição na sociedade. Já a infância de Rudolf foi triste e solitária, sua mãe vivia ocupada com seus afazeres e o pai era fanático e intolerante em termos religiosos. Ele não tinha com quem brincar, uma vez foi sequestrado por ciganos, mas graças a um fazendeiro que o reconheceu foi salvo. Após ter se confessado a um padre que contou o segredo confessional ao seu pai e sendo castigado por isto perdeu a vontade de seguir a vocação de ser padre.

A juventude deles é relatada, sendo que Hanns teve que fugir para Londres com sua família, uma vez que o nacional-socialismo estava crescendo na Alemanha e quando o nome de seu pai apareceu na lista dos próximos a serem presos a decisão foi tomada. Alfred que estava em Londres neste momento não mais retornou, e todos foram uma após outro conseguindo chegar à Inglaterra. Já Rudolf se alistará e participará da Primeira Guerra Mundial. Ao retornar encontrou tudo mudado, sua mãe havia falecido, seu tio e tutor havia enviado suas irmãs para um convento e vendido a casa da família e dado fim a todos os pertences pessoais de Rudolf. Ele então se juntou ao Freikorps que eram unidade paramilitares independentes do controle do governo de homens armados que seguiam doutrinas de nacionalismo e disciplina. Foi neste grupo que ele teve um contato real com a violência e brutalidade, muito maior do que durante a guerra, e onde se jurava lealdade incondicional a uma causa e principalmente a um líder. Quando Martin Bormann assassinou um considerado traidor Rudolf assumiu a autoria para proteger seu amigo e ao contrário de sua expectativa acabou preso e ficou 04 anos na cadeia. Quando saiu ele quis voltar para o campo, seguir seu sonho, cuidar de terras e animais. Através da Liga dos Artamanen foi para a Pomerânia trabalhar numa fazenda onde conheceu Hedwig e com quem se casou. Seu supervisor sugeriu a SS que mantivessem um estábulo para cavalos na Pomerânia, e Rudolf amava os cavalos e poderia cuidar disto, só que teria que se filiar à SS e assim foi. Começa seu caminho que irá trilhar dentro do nazismo até chegar a comandante do campo de Auschwitz.

O que chama a atenção no livro, além do relato biográfico de Hanns e Rudolf que nos conta paralelamente a história de tudo que ocorreu naqueles anos, são duas coisas: a primeira é a versão de um líder nazista que foi responsável pela morte de mais de três milhões de pessoas, de como ele não tinha emoções em relação à isto, era uma ordem e tinha que ser cumprida da melhor forma, com eficácia, este era seu papel. A ideia de que o responsável é apenas aquele que dá a ordem, no caso Himmler. A necessidade de agradar ao líder, de obedecer, de não discutir uma ordem. Percebe-se que a maioria dos que se envolveram nisto tudo seguia este padrão, a obediência cega. E sequer era por medo de represálias ou ser morto, eles eram cegos, literalmente, tinham que obedecer por que era assim. E ao mesmo tempo vemos um pai carinhoso, que ama seus filhos, que se preocupa com seus filhos, que tem um coração, é humano. Um psicólogo e um psiquiatra avaliram Rudolf após sua prisão, e ambos chegaram ao quadro de apático.

De outro lado, a segunda questão relevante do livro que raramente é falada é sobre o legado dos descendentes destes criminosos, seus filhos, netos. Eles precisaram apagar tudo que houve antes de durante a guerra, desaparecer literalmente, não podiam falar de sua infância, de seus pais, de nada. Uma das filhas de Rudolf mudou até o nome, seus filhos nada sabem de seu passado. Seu neto decidiu ir atrás da história, e ficou horrorizado, chegando a dizer que se soubesse onde estava enterrado iria até o túmulo do avô para urinar em cima. Os que sobreviveram carregam um fardo pesado e precisaram aprender a se calar, esquecer o que foram, de onde vêm e isto é algo terrível também. Que culpa pode ter uma criança que vivia com seus pais numa villa ao lado de Auschwitz? Ter que negar seu nome, o nome do pai.

A questão da obediência cega, imposta muitas vezes desde a infância aos filhos, não permitir que questionem algo, ou exponham seu desejo. A hiper valorização da disciplina e lealdada ao líder. O livro nos leva muito além da guerra e do holocausto, levanta questões psicológicas e atuais. A negação, a falta de remorso, a crença absoluta de ter feito o correto, de ser necessário tudo aquilo. E admitir apenas que o erro foi admitir a morte nos campos, que isto atraiu o ódio do mundo para a Alemanha.

Não se pode esquecer tudo isto, não apenas o horror que foi, mas principalmente é necessário compreender o lado psico-social que leva à isto, somente assim será possível evitar que isto continue se repetindo, como ocorre.
E uma coisa que chama muito a atenção é o fato de que a maioria deles precisava de um pai, e Hitler ou o chefe ao qual respondiam ocupava este lugar.


Rudolf Hoss nasceu em 1900 em Baden-Baden, na Alemanha e faleceu em 1947 em Birkenau-Auschwitz, na Polônia por enforcamento após ser julgado por seus crimes de guerra.

Alexander Howard Harvey, mais conhecido como Hanns nasceu em 1917 em Berlim e faleceu em 2006 em Londres.

Thomas Harding nasceu em 1968 e estudou Antropologia e Ciência Política na Westminster School.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

FILME: FLORES RARAS - 2013


Direção: Bruno Barreto - 2013 
Duração: 118 min 
País: Brasil 

Baseado no livro Flores raras e Banalíssimas de Carmem Lúcia de Oliveira e em fatos verídicos sobre a relação de Lota e Bishop entre o período de 1950 e 1960. 

Em 1951 Elizabeth Bishop (Miranda Otto) está diante de uma crise, sente-se cansada, solitária e não consegue escrever seus poemas, decide então viajar e passar uns dias no Rio de Janeiro onde tem uma amiga da faculdade Mary (Tracy Middendorf) que vive com a arquiteta e paisagista Lota de Macedo Soares (Glória Pires).



Elizabeth chega ao Rio e defronta-se com uma cultura muito diferente da sua, ela estranha e se comporta como se estivesse num país atrasado, chegando a temer beber a água da fonte, perguntando se era mineral. Apesar dela viver mais de 20 anos no Brasil ela nunca irá se acostumar totalmente. Lota em princípio não simpatiza muito com ela, principalmente diante destes comportamentos, mas acabará se apaixonando por ela e fazendo um acordo com Mary que permanece vivendo na casa chamada Samambaia em Petrópolis e adota uma menina, da qual Lota se considera a avó.



O filme nos relata então o relacionamento de Elizabeth e Lota principalmente entre os anos 50 e 60, que apesar de conturbado foi algo forte, e que contribuiu para a produção artística das duas. Bishop escreverá poemas e irá ganhar o prêmio Pulitzer pelo seu livro North & South e Lota será a responsável pelo projeto e construção do aterro do Flamengo.



Apesar do filme não mostrar toda sua permanência no Brasil, inclusive o tempo em que residiu em Ouro Preto em MG, consegue relatar de uma maneira bela a relação das duas, que irá terminar com o suicídio de Lota em Nova York muitos anos depois.

Glória Pires está brilhante como Lota, uma mulher determinada, que está acostumada a fazer o que quer e ter o que deseja. Bishop é seu oposto, tímida, alcoólatra, sente ciúmes e insegurança pela relação de Lota com Mary, mas será Lota quem irá sucumbir, envolvida em questões políticas e com a partida de Bishop ela entrará em depressão, e quando finalmente melhora e vai visitar Elizabeth ela se suicida no apartamento desta após tomar uma dose alta de remédios, entrando em coma e falecendo alguns dias depois.

A delicadeza com que o filme retrata o amor das duas já vale o mesmo, pois até pouco tempo atrás não se veria um filme brasileiro sobre a homossexualidade feminina tratado como um sentimento, um laço forte, como qualquer outra relação de amor.

Ambas tiveram infâncias sem muito amor, Lota tem dificuldades com o pai e Bishop com a mãe que foi internada em um hospital psiquiátrico onde passou o resto de sua vida e nunca mais viu a filha. Elizabeth tinha dificuldades em se dar à alguém.

Li o livro "Uma arte - as cartas de Elizabeth Bishop" da Companhia das Letras onde ela relata todo este período.



(Maria Carlota) Lota de Macedo Soares nasceu em 1910 em Paris e faleceu em 1967 em Nova York. Foi paisagista, urbanista e arquiteta autodidata. Durante o governo no Rio de Janeiro de seu amigo Carlos Lacerda projeta o Aterro do Flamengo, retirando-se da obra após a perda do governo por seu amigo. Apoiou o governo militar temendo que o Brasil se tornasse comunista. 


Elizabeth Bishop nasceu em 1911 em Worcester, Massachusetts e faleceu em 1979 em Boston. Considerada uma das maiores poetisas da língua inglesa do século XX. Robert Lowell foi um dos seus melhores amigos até o fim de sua vida. 


Bruno Barreto nasceu em 1955 no Rio de Janeiro. 

Trilha sonora de Marcelo Zarvos 

Kalu - para lembrar 

Marcelo Zarvos nasceu em 1969 em São Paulo, SP. É um compositor brasileiro radicado nos Estados Unidos

terça-feira, 29 de abril de 2014

FILME: ACUSADOS - 1988


Direção: Jonathan Kaplan - 1988
Duração: 111 min 
Título original: The Accused 
Roteiro: Tom Topor
País: Estados Unidos 

Baseado em fatos reais: o estupro ocorreu em 06 de março de 1983 no bar Big Dan em New Bedford no estado de Massachusetts. 

O filme relata a forma como o sistema penal e jurídico, assim como a sociedade trata um caso de estupro. Sarah Tobias (Jodie Foster) é estuprada por vários homens em um bar e irá buscar justiça, mas isto não é tão fácil quanto parece.



Logo após o estupro ela passa pela situação constrangedora do exame médico, a assistente social e a promotora Kathryn (Kelly McGillis) que irão lhe fazer perguntas e dar orientação. Quando a câmara foca em seus olhos neste momento a leitura é como se ela estivesse tatuada para sempre, como se as imagens do que sofreu jamais se apagassem. A maneira como as pessoas olham para a vítima, seja com piedade ou com acusação velada, ou pura indiferença, num momento que ela mais precisa de apoio, compreensão. É muito diferente daquele que foi agredido num assalto, numa briga, em qualquer outro ato de violência. O Estupro carrega em si mesmo a condenação da vítima pelo olhar da sociedade. O que ela fez para isto lhe acontecer? onde estava? que roupas usava? ela provocou? É um total absurdo, mas é a realidade.



O filme retrata  como são tratadas as vítimas de estupro, seja nos Estados Unidos ou na maioria dos países, quando não é pior ainda, expulsas de casa, mortas, consideradas apátridas.



Kathryn decide ajudá-la, e vai ter que lutar muito, inclusive contra outros advogados, com o sistema penal e judicial, uma vez que o que importa é não perder uma causa em função do prestígio da justiça e dos seus defensores ou acusadores. É um caso muito difícil, até mesmo a amiga de Sarah acaba depondo de uma forma desfavorável à vítima, uma vez que se leva em conta não o que ocorreu, mas quem ela é, e portanto, pressupondo de início que ela provocou isto.

Sarah é jovem, usa roupas provocantes, fuma, usa drogas, bebe, não tem uma boa relação com seu companheiro, mas apesar de tentar se levar isto em conta para defender os agressores, isto não justifica jamais um estupro.

A cena na loja de fitas cassetes, é extremamente cruel, e representa o que sente uma pessoa que foi estuprada perante a sociedade. O homem ri, zomba, faz gestos obscenos e a trata como um objeto. O ódio dela, a raiva, a vergonha.

Ela não consegue relatar o estupro, falar, é necessário que uma testemunha resolva falar e contar cruamente o que presenciou. Os homens incentivavam os outros, mesmo aqueles que não iriam estuprá-la, se sentem intimados para garantir seu lado viril. Eles fizeram fila de espera. Ela gritava Não! Não! e depois foi questionada no julgamento se falou para pararem, é um absurdo.Os agressores se defendem dizendo que ela provocou, flertou, dançou de forma provocando e que era óbvio o que ela queria. Se não fosse o testemunho de um irmão de um dos agressores a causa não teria sido ganha.

Um filme cru, real que lança um olhar forte mas verdadeiro sobre o crime de estupro e de como a sociedade e a justiça reage à ele. Um filme que convida a uma reflexão sobre a consciência moral das pessoas.

E deixa uma questão: Por que as pessoas reagem desta forma ao estupro?

Assista ao trailer em inglês


Jonathan Kaplan nasceu em 1947 em Paris, França. Estudou cinema na Universidade de New York. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: PAULA - ISABEL ALLENDE


Allende, Isabel. 2ª ed. Bertrand Brasil, 1995
Tradução: Irene Moutinho
472 páginas

Em 1991 Paula, a filha de Isabel Allende adoeceu gravemente e logo entrou em coma. Estavam na Espanha. Isabel vai para lá e sua mãe também, e começam a longa vigília na esperança que Paula acordasse.

Para vencer a angústia do tempo que não passa Isabel começa a escrever para sua filha este livro, onde conta a história da família, pensando que quando ela acordar poderá lhe oferecer estes escritos.

A maior dor de um ser humano é perder um filho. É tão brutal que não nem nomeação para este estado, dizemos que quem perdeu o cônjuge é viúvo, quem perdeu os pais é órfão, mas e quem perdeu um filho, o que é? Já não pode nem dizer sou mãe, teria que dizer fui mãe de ... pois este filho nunca será substituído, mesmo havendo outros.

O livro é o relato da dor desta mãe, das suas esperanças e angústias, medos, mas é também o relato de sua família e da história do Chile. A dedicação do marido de Paula, todo seu amor a sua jovem esposa que nos toca profundamente.

Foram meses, longos meses, enquanto este livro era escrito com a dor, mas também a força desta mãe, que precisava continuar a viver, é uma evocação à vida e uma linda homenagem à sua filha.

Isabel Allende com seus filhos Nicolas e Paula 

Isabel Allende Llona nasceu em 1942 na cidade de Lima - Peru, apesar de ter nascido em Lima é considerada Chilena, e atualmente vive nos Estados Unidos.





LIVRO: AMOR, DE NOVO - DORIS LESSING



Lessing, Doris. Companhia das Letras, 1996
Tradução: José Rubens Siqueira
362 páginas

Li este livro em 2011, mas nunca me esqueço dele por me tocar fundo. O Amor, tema de tantos livros, filmes e da vida. Talvez me seja mais inquietante ainda por eu também estar na meia-idade e sozinha.

Logo no início: Estou amando outra vez,
                       Coisa que nunca quis...

Sarah Durham tem 65 anos, fundou uma companhia de teatro com outros três amigos e dedica sua vida à companhia. Sua família, ou seja, seus filhos, não lhe dão atenção, exceto quando precisam dela, mas Sarah acredita que sabe lidar com isto, apesar de muitas vezes não conseguir se desvencilhar destas demandas, o que a leva a acolher sua sobrinha problemática, Joyce.

Há muito tempo, vinte anos, ela abdicou da vida amorosa e segue trabalhando com afinco e dedicação. Sua companhia resolve montar uma peça sobre uma mulher - Julie Vairon, que era da Martinica, uma pintora e musicista que viveu seus amores proibidos no Sul da França. É escrevendo sobre esta mulher que Sarah se verá novamente diante do amor.

A Companhia parte para a França onde serão encenadas as primeiras apresentações de Julie Varon. Sarah irá se apaixonar, primeiro por Bill, um jovem ator, mas também por Henry, o diretor do espetáculo e apesar deste ser mais maduro que Bill, ambos são mais jovens do que ela.

Lessing se detém sobre a mulher madura que de repente se vê apaixonada, com desejos sexuais, mas que não sabe o que fazer, sua angústia, sua indecisão, os medos, e a moral. Todo amor busca reviver a infância, tem suas raízes ali, nos amores objetais, os primeiros de nossas vidas, e ela irá analisar justamente as privações da infância que se refletem na vida adulta da mulher.

Ao se apaixonar nesta idade Sarah revive sua adolescência, percebe que nada muda, é a mesma loucura, a mesma intensidade, o mesmo desejo. Mas há a experiência passada que a faz temer este sentimento. De qualquer maneira o amor a faz reviver com intensidade, a sentir, a desejar. Seu amor por Bill a fará reviver uma fase mais infantil e por Henry uma fase mais madura.

Doris Lessing nasceu em 1919 em kermanshah no Curdistão Iraniano, então parte do Reino da Pérsia e faleceu em 2013 em Londres.

LIVRO: O ENIGMA DE ESPINOSA - IRVIN D. YALOM



Yalom, Irvin D. 1ª ed. Agir, 2013
Tradução: Maria Helena Rouanet
400 páginas
Título original: The Spinoza problen

A história do filósofo judeu que influenciou uma das maiores mentes nazistas.

Yalom é um terapeuta e psiquiatra que escreveu vários livros, entre eles alguns se utilizam dos filósofos como Niestzsche e Schopenhauer e agora Espinosa para nos ajudar a compreender a mente e o psiquismo do ser humano, além de proporcionar através de uma leitura gostosa uma introdução a estes que são considerados grandes filósofos e para muitos difíceis de compreender ao se ler os livros que eles mesmos escreveram.

Neste aqui é Espinosa, o filósofo judeu holandês que é mais conhecido pela sua excomunhão do que pela sua filosofia, até porque ler A Ética não é tarefa fácil. Yalom desejava escrever sobre ele mas não encontrava a maneira de fazê-lo até que foi à Holanda e visitou o museu do filósofo, com a esperança de encontrar lá algo que pudesse lhe permitir escrever sobre ele, mas foi ao ouvir seus acompanhantes falarem sobre o problema de Espinosa e sobre o nazismo que ele acabou encontrando seu material para a escrita.

Soube nesta ocasião que a ERR, a força tarefa nazista que se incumbiu de saquear as obras de arte para o Reich havia ido lá especialmente para pegar os livros de Espinosa. Yalom então recria esta história misturando história e ficção, e tentando imaginar porque Alfred Rosenberg, que chefiava a ERR poderia querer estes livros e qual era o problema.

Trabalhando com dois tempos, o de Espinosa no ano de 1656 e com Alfred no tempo antes e durante a Segunda Guerra Mundial ele traça um panorama da história dos judeus e também do racismo e antissemitismo, além da filosofia de Espinosa que neste livro se torna acessível.

Yalom vai além pois é um psiquiatra, e tenta desvendar a mente e o psiquismo destas duas figuras históricas, e para isto cria dois personagens fictícios, Franco no caso de Espinosa e Friedrich Pfister para Alfred.

Um livro que recomendo a leitura.

Irving D. Yalom nasceu em 1931 em Washington D.C. Filho de imigrantes russos formou-se em psiquiatria há 47 anos em Stanford. 

FILME: ENCONTROS E DESENCONTROS - 2003



Direção: Sofia Coppola - 2003 
Duração: 104 min 
Título Original: Lost in Translation 
Roteiro: Sofia Coppola
País: Estados Unidos 

Ganhou o Oscar de melhor roteiro original.

Bob Harris (Bill Murray), um ator que já fez muito sucesso chega à Tóquio para filmar um comercial de uísque. Ao ser levado para o Hotel num táxi ele fica olhando Tóquio com todas as suas luzes, out doors, e cartazes em uma língua que ele não compreende. Passou-me uma sensação de claustrofobia neste momento, de ser esmagado por tantas luzes, propagandas que impossibilitam de ver realmente os prédios, a rua, as pessoas. Bob fica impressionado com tudo isto, e procura tentar se adaptar, mas tem dificuldades até com o fuso horário e não consegue dormir.



No bar do Hotel ele conhece Charlotte (Scarlett Johansson) que como ele se sente só, pois seu marido está sempre muito ocupado. Juntos eles irão passear por Tóquio e falar de suas questões.

O filme mostra claramente, mas sem críticas, as diferenças culturais e as situações que isto pode acarretar. Bob enfrenta um momento de desencanto com a vida, está ali para fazer um comercial ao invés de estar atuando como ator, em troca de uma soma considerável. Sua relação com a esposa é fria e distanciada, ela não se preocupa com ele, apenas com a reforma da casa, e o mais triste é quando ela percebe que ele está triste e se limita a perguntar se deveria se preocupar com ele. Como responder a isto? Ele diz - só se você quiser, e claro que ela não quer.

Charlote é formada em filosofia e não gosta do superficial que tanto atrai seu marido, há diferenças entre eles e ela se sente atraída pela experiência que Bob transmite, ele topa seus programas, vai com ela aos lugares que ela deseja ir. Aos poucos cria-se uma tensão sexual entre os dois, mas o que realmente conta é o elo entre os dois por estarem juntos ali vivendo.



Mas chega o dia em que Bob deve partir e eles se despedem rapidamente, porém no caminho para o aeroporto ele a vê caminhar entre a multidão e pede ao taxista que pare o carro, vai até ela e lhe sussurra algo ao ouvido.

A vida é feita de encontros e desencontros, não há um final feliz no filme, mas um final que pode ser real, verdadeiro. Ninguém fica sabendo o que ele lhe diz, isto pertence aos dois.

Tóquio é high Tech demais, um excesso, em contrapartida com seus templos e o silêncio. Como se os personagens do filme também se refletissem nisto, os que estão a mil, envolvidos em seus trabalhos, em sucesso, ganhar dinheiro, e os que estão sentindo um vazio, uma falta de dimensão em suas vidas. Mas a visão de Bob ao chegar e ao partir são diferentes, algo mudou, e ela não se torna mais um rosto na multidão a partir do momento que ele a identifica ali e vai até ela para lhe dizer algo que só aos dois interessa.


Sofia Coppola nasceu em 1971 em New York, EUA. É filha do cineasta Francis Ford Coppola e prima do ator Nicolas Cage.