segunda-feira, 19 de maio de 2014

FILME: A QUEDA - AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER - 2004


Direção: Oliver Hirschbiegel - 2004
Duração: 158min. 
Título original: Der Untergang 

Baseado nos livros escritos pelo historiador Joachim Fest, pela secretária pessoal de Hitler - Traudl Junge, e por Gerhardt Boldt, Ernst Günter Schenck e Siegfried Knappe. 

A secretária de Hitler (Bruno Ganz), Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) narra como se tornou secretária do führer e os seus  últimos dez dias no bunker em Berlim antes da rendição da Alemanha em 1945.



O filme retrata tanto a frieza de Hitler como seu lado esquizofrênico, seus ataques histéricos. Se por um lado é capaz de imensa cortesia, por outro toma decisões que ninguém tem coragem de contestar, mas que demonstram sua loucura.



Ele exige fidelidade cega e máxima de todos, e diz que não irá se render, que irá vencer os soviéticos que a estas alturas já estão a 12km do local. No final irá se suicidar junto com Eva Braun (Juliane Köhler). Seus restos mortais serão queimados conforme suas ordens.



Um das cenas mais difíceis é quando Joseph (Ulrich Matthes) e Magda Goebbels (Corinna Harfouch)  envenenam seus seis filhos, e uma delas percebe o que está para ocorrer. Ela quer viver, mas sua mãe não o permitirá. Em seguida os pais também cometerão suicídio.



Olivier Hirschbiegel nasceu em 1957 em Hamburgo, Alemanha. Foi o primeiro cineasta alemão a fazer um filme sobre o nazismo gerando grande polêmica na Alemanha. 



Trilha Sonora de Stephan Zacharias 

Stephan Zacharias nasceu em 1956 em Hamburgo, Alemanha. É compositor

FILME: UM HOMEM SÉRIO - 2009



Direção: Joel Coen e Ethan Coen - 2009
Duração: 105 min
Título Original: A serious man 
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
País: Estados Unidos 

Excelente filme. Larry (Michael Stuhlberg) é um professor de física na Universidade e leva uma vida metódica até que sua esposa, Judith (Sari Lennick)  resolve trocá-lo por Sy Ableman (Fred Melamed). Paralelamente ele sofre ameaças na Universidade por causa de notas de um aluno, seu irmão mora em sua casa e dorme no sofá, seu filho é problemático e rebelde e sua filha surrupia dinheiro em sua carteira para fazer uma cirurgia plástica. Sem saber o que fazer ele procura a ajuda de três rabinos. Parece Jó com tudo lhe caindo na cabeça, desmoronando, vai perdendo tudo e não faz nada.



Não sei se fico com raiva dele ou das pessoas que estão em sua volta. Ele não reage, fazem o que querem com ele. Por achar que não consegue ou não pode, ele não age e fica sem saber o que fazer. Os outros parecem tão seguros de si, parecem que sabem tudo e estão certos, mas são egocêntricos, devoradores, aproveitadores, e claro, temos a tampa e a caçarola. Por que os outros só agem assim porque ele o permite, não reage, deseja ser amado, ser correto, e acaba permitindo que os outros façam dele o que querem e assim alimentem também suas neuroses.

Estão sempre a lhe dizer: não aja como criança, seja adulto. Mas quem será que é infantil no filme? serão tão adultos assim? E lhe dizem: desta vez você foi adulto. E ele acaba repetindo o que os outros lhe falam.

Um filme que recomendo, pois quantas vezes nos vemos enrodilhados em tramas assim? Desejando ser aceitos e amados acabamos fazendo o que não desejamos, ou não fazendo nada, se deixando levar e ainda se sentindo péssimo. E vem a pergunta: o que fiz para merecer isto? ou será que é: o que será que não fiz para merecer isto?

Os irmãos Coen. Ethan nasceu em 1957 e Joel em 1954.

Trilha sonora de Carter Burwell

Carter Burwell nasceu em 1954 em New York, EUA. É um compositor. 

FILME: UM DIVÃ PARA DOIS - 2012


Direção: David Frankel - 2012
Duração: 100 min 
Título original: Hope Springs 
Roteiro: Vanessa Taylor
País: Estados Unidos 

Kay (Meryl Streep) e Arnold (Tommy Lee Jones) estão casados há trinta anos. Porém, o casamento já perdeu todo seu romantismo e caiu na rotina, já não há mais erotismo, namoro e Kay faz várias tentativas para estimular e cativar novamente Arnold que não funcionam. Ela compra livros para ver se descobre algo novo até que chega a um terapeuta de casais que parece ter a fórmula mágica.

Ela então compra as passagens e marca a sessão com o terapeuta Dr. Feld ( Steve Carell) e consegue "arrastar" Arnold para lá.

Apesar do cômico do filme ele trata de um assunto sério, pois são muitos os casais nesta situação e a insatisfação se instala, porém conformam-se e passam a viver com este vazio e falta. Não será fácil reavivar a chama da paixão, mas para quem pelo menos tenta, há sempre uma possibilidade.

O importante é não se deixar levar pela rotina e se acomodar, e principalmente não acreditar nos estereótipos de que o desejo acaba com a idade. Ele pode ser mais tranquilo do que a fogosa juventude, porém está ali, e a qualquer momento ele se acende, em qualquer idade. Um filme importante para casais que perderam a magia da união, do erótico, do prazer.



David Frankel nasceu em 1959 em New York, EUA.

Musica do filme: I don't want to be your mother - Rachael Yamagata 

FILME: NOITES DE TORMENTA - 2008



Direção: George C. Wolfe - 2008 
Duração: 97 min 
Título original: Nights in Rodanthe 
Roteiro: John Romano e Ann Peacock
País: Estados Unidos 

Baseado no romance de Nicholas Sparks 

Adrienne (Diane Lane) está com sua vida virada do avesso, separada do marido que agora quer voltar e descobriu que a ama, sua filha que se volta contra ela criticando-a e o filho que silencia. Ela então busca refúgio e um pouco de paz em Rodanthe onde se propõe a cuidar da pousada de uma amiga, Jean (Viola Davis) que irá viajar, para poder pensar sobre tudo isto.



Dr. Paul Flanner (Richard Gere) também vive um momento tumultuado. Perfeccionista com sua profissão de médico a qual se dedica totalmente ele acaba de perder uma paciente numa cirurgia. Sua esposa o deixou e o filho foi embora. O marido da paciente o está processando pela morte da esposa. Ele então vai para a Pousada, pois o marido da paciente lhe enviou uma carta pedindo para falar com ele, e mora neste local.

Porém uma tempestade de aproxima e todos estão alertas no local. Adrienne e Paul irão se conhecendo ali e ao enfrentar a tempestade juntos se aproximam mais ainda. Aos poucos algo irá mudando em cada um deles, levando Paul a compreender que precisa ser menos egocêntrico e olhar para o outro e Adrienne descobre que pode valorizar-se e viver uma vida diferente, onde seus desejos podem se realizar.

Estas mudanças levam Paul a se reconciliar com seu filho e Adrienne a tomar as decisões que precisava.


George C. Wolfe nasceu em 1954 em Frankfort, Kentucky, EUA.

Trilha Sonora de Jeanine Tesori

Jeanine Terosi nasceu em 1961. É uma compositora americana. 

LIVRO: A DAMA DOURADA -A extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer - ANNE-MARIE O'CONNOR



O'Connor, Anne-Marie. 1ª ed. José Olympio Editora. 2013
Tradução: Mario Pontes
474 páginas.
Título original: The lady in gold: the extraordinary tale of Gustav Klimt's masterpiece, Portrait of Adele Bloch-Bauer .

Viena, final do século XIX, um momento extremamente rico quando Freud criava a psicanálise, Wittengestein e seu pensamento, as artes com seus pintores e músicos, mas que condenava as mulheres que desejassem ir para a Universidade ou votar. Adele Bloch-Bauer casada com Ferdinand Bloch-Bauer irá ignorar estas convenções e posar para Gustav Klimt que era considerado um sedutor, dizia-se que tinha casos com todas suas modelos.

Com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazismo a família de Adele, que era judia, terá que fugir, ir para o exílio, e para isto muitas vezes eram forçados a vender suas obras de arte ou doá-las para pagar a taxa para sair do país. Tudo que ficou para trás foi roubado pelos nazistas ou até mesmo por aqueles que eram antissemitas e colaboracionistas e ficaram no país. Adele já havia falecido, aos 44 anos de uma meningite, antes da guerra, e havia deixado em testamento ao seu marido seu desejo de que as telas fossem doadas ao Belvedere em Viena, um museu de arte. Com sua morte as telas passaram ao marido que com a guerra teve que fugir e perdeu tudo.

O livro nos relata a história de Adele e sua família, a guerra, e o pós-guerra. Maria Altmann filha da irmã de Adele é uma das herdeiras, e irá lutar para recuperar as telas no pós-guerra levando 50 anos para conseguir. Assim que a guerra terminou tudo que foi roubado não foi devolvido e isto foi criando processos de restituição aos seus legítimos donos, uma vez que eles foram forçados a vender ou a doar.

Normalmente numa guerra estes roubos são considerados butim de guerra, mas a questão do nazismo e do extermínio dos judeus, por terem sido forçados a fugir e entregar seus bens, pela apropriação inclusive dos imóveis por pessoas que não eram soldados, o que ocorreu em quase todos os locais onde haviam judeus que foram deportados ou fugiram, os sobreviventes iniciaram processos para recuperar pelo menos uma parte de seus bens. A Áustria se posicionava como vítima do nazismo, porém a situação real não era bem esta, eles festejaram quando foram anexados à Alemanha e receberam com aplausos os nazistas que acreditavam lhes devolveriam o esplendor de antes da Primeira Guerra. O país se negou a devolver as obras alegando que pertenciam a cultura local, e que no caso do quadro de Adele ele fora doado por ela ao museu.

A questão era, Adele o doaria se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceu? o que houve com sua família? Legalmente o quadro pertencia ao seu marido, e este não o doou. O quadro foi considerado arte degenerada, porém ele exercia um fascínio tão grande que lhe foi roubado a identidade também, passando a ser identificado como A dama dourada, e não mais como um retrato de Adele, que era judia.

Um livro interessante, que além da história da família Bloch-Bauer, de um retrato da segunda guerra na Áustria, no fala principalmente do saque das obras de arte efetuada pelos nazistas para atender ao desejo de Hitler de ter um museu do führer e à ganância de outros.

Uma pequena ressalva, há momentos no livro que se divaga um pouco, trazendo informações muito superficiais sobre Freud, por exemplo, que seriam dispensáveis, uma vez que não fazem muita conexão ao assunto e ficam como que perdidas no relato. É como uma demonstração excessiva de cultura que é desnecessária dentro do relato que por si só já é rico o suficiente e interessante.

ANNE-MARIE O'CONNOR - correspondente de guerra, repórter cultural que se interessa pela criação e destino das obras de arte. 

GUSTAV KLIMT 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

LIVRO: FREUD COM OS ESCRITORES - J.-B. PONTALIS E EDMUNDO GÓMEZ MANGO



Pontalis, J.-B.; Mango, Edmundo Gómez . Três Estrelas, 2013
Tradução: André Telles
303 páginas
Título original: Freud avec les écrivains.

O livro trata do diálogo de Freud com a literatura e os principais escritores que fizeram parte de suas leituras.

Freud reconhece que o poeta conhecia por intuição o que ele precisa de muito tempo para compreender cientificamente, porém defende a primazia na psicanálise em termos científicos. Grande leitor de Shakespeare, Goethe, Schiller, Hoffmann, Heine, Dostoiévski, Thomas Mann entre outros. Além da leitura atenciosa de seus livros com alguns deles Freud manteve correspondência e encontros.

Freud também era um escritor que muitas vezes se utilizou do lado poético para falar do onírico, uma vez que o inconsciente é linguagem e precisa desta forma para se expressar, o que não seria possível com uma linguagem cientifica e objetiva. Muitos liam seus relatos de análises como um romance psicanalítico.

Além disto Freud incorpora alguns personagens à psicanálise como é o caso de Édipo de Sófocles, e Hamlet de Shakespeare.

Os autores colocam neste livro seu desejo de lançar uma luz sobre os laços da psicanálise e a literatura.

Edmundo Mango e Pontalis 

Jean-Bertrand Lefebvre Pontalis nasceu em 1924 em Paris e faleceu em 2013 na mesma cidade, psicanalista, filósofo e escritor. Foi aluno de Sartre e fez sua análise com Lacan

Edmundo Goméz Mango nasceu em 1940 em Montevidéu, Uruguai, psiquiatra, psicanalista e professor de literatura. 





terça-feira, 6 de maio de 2014

FILME: O JULGAMENTO DE DEUS - 2008



Direção: Andy De Emmony - 2008
Duração: 85 min
Título Original: God on trial 
País: Reino Unido 

A pergunta que muitos fizeram e se fazem: Por que Deus permite que certas atrocidades ocorram? O filme se passa em Auschwitz, um grupo de judeus que passou pela seleção e sabe que metade dele irá para a morte no dia seguinte para dar lugar a outros que estão chegando.

Como Deus benevolente e todo poderoso pode abandonar seu povo eleito no momento em que ele mais precisa? para tentar dar um sentido a tudo isto eles colocam Deus no banco dos réus e fazem seu julgamento diante do rompimento desta promessa de proteger seu povo, seguindo os moldes de julgamento previsto no livro dos juízes da Bíblia/Torá.



Um filme não aconselhado para os crentes, mas que é de uma racionalidade, lógica porém baseado totalmente no que diz a Torá e acrescido de algumas experiências vividas para questionar a lei de Deus.

A profundidade dos argumentos e dos valores é impressionante.

Uma das cenas que mais me tocou foi sobre o livre arbítrio. Na defesa deste um dos prisioneiros se levanta e diz: não existe o livre arbítrio. Eu viva em uma vila com minha família e meus três filhos e os nazistas chegaram e pegaram meus filhos. Eu implorei que os soltassem, então o responsável disse: você pode escolher um deles. Como eu poderia ter escolha? como eu poderia escolher um deles? Não escolhi nenhum e levaram os três. Nunca mais soube deles.



Sempre ouvimos que podemos escolher, e realmente ele poderia escolher, mas é possível? E ele escolheu não escolher, mas como é difícil suportar esta escolha, ou qualquer outra que ele tivesse feito. E o que devem ter sentido seus filhos?

O interessante é que o julgamento se baseia totalmente no que diz a Torá, portanto não há argumentos ateus, ou agnósticos, ou de outras maneiras. Segue totalmente o que está escrito no livro sagrado e isto mexe, faz com que pensemos. O filme não retrata apenas o lado amoroso e benevolente, ele irá também mostrar que os judeus cometeram atrocidades, e isto levantará a questão sobre o de ser o povo escolhido.

Elenco: Joseph Muir, Joseph Altin, Ashley Artus.

Veja um pequeno trecho:



Andy De Emmony 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

FILME: O HOMEM DUPLICADO - ENEMY - 2014


Direção: Denis Villeneuve - 2014 
Duração: 90 min 
Título original: Enemy 
Roteiro: Javier Gullón
País: Canadá - Espanha 

Baseado no livro O Homem duplicado de José Saramago 

Não li o livro e vou fazer uma interpretação deste filme que talvez não seja condizente com outras opiniões e visões, mas prefiro falar o que eu senti e percebi no filme.

O protagonista é interpretado por Jake Gyllenhall. Adam é um professor de história que passa por uma crise e está deprimido. Suas aulas falam de ditadura e da eterna repetição de tudo. Logo no início do filme temos uma visão da cidade onde ele mora, poucas cores, algo claustrofóbico. Seu celular toca e é sua mãe (Isabella Rossellini) que diz que está preocupada com ele por morar ali sozinho, que quer reatar com ele. Ele não atende.

Ao seguir uma dica de um colega ele acaba assistindo um filme para se distrair, e é ali que verá seu sósia. Ficará obcecado com isto e irá atrás deste outro. A primeira coisa que pensei foi: como é difícil enxergar a si mesmo no outro.

Ele tem uma namorada (Mélanie Laurent), mas que sempre vai embora, não fica ali com ele, mesmo ele morando sozinho. No início do filme vemos uma mulher grávida e depois vários homens voyeurs vendo uma encenação erótica. Adam encontra seu sócia Anthony. Um ator de pouca relevância que vive com sua esposa grávida. Os dois irão se encontrar, mas antes disto a mulher de Anthony, Helen (Sarah Gadon)  o vê na faculdade. Ela está enciumada, e quer que o marido se afaste de uma amante.



Aparece novamente a cidade e agora com uma imensa aranha sobre ela, uma referência à aranha Maman de Louise Bourgeois? nada é dito no filme, mas de imediato foi o que pensei, me remetendo também à Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.



Adam irá se encontrar com sua mãe e lhe fala disto, ela lhe responde que ele é seu único filho, ela é sua única mãe e acrescenta que é para ele deixar de querer ser um ator de terceira categoria.

Adam e Anthony trocarão de lugar por imposição deste último que então se veste com as roupas de Adam, pega seu carro e vai buscar sua namorada para um passeio romântico. Adam vai para o apartamento de Anthony. A namorada de Adam verá uma marca de aliança no dedo de Anthony que diz que sempre esteve ali e ela diz que não, eles saem, discutem, um acidente de carro e morrem os dois. Adam fica no apartamento com a mulher grávida que lhe pergunta como foi na faculdade. No dia seguinte ele abre a carta que era para Anthony, confidencial, e dentro tem a nova chave para o local onde se passam as encenações eróticas. Ele pergunta à esposa se quer fazer algo à noite, porque ele precisa sair, ela não responde e ele vai até o quarto, na cama uma imensa aranha.

Adam e Anthony são a mesma pessoa, um duplo, aquele que faz tudo que o outro deseja fazer mas não consegue por estar preso na teia de aranha de sua mãe, o retorno do desejo de Bourgeois, onde a mãe é a desejada mas proibida, a mulher grávida, mãe. Ele não consegue se relacionar com uma mulher, a namorada que parte, que descobre que ele é casado, mas não com outra mulher. A mãe protetora mas também a que sufoca o desejo, que não o liberta para viver sua vida e seu desejo. O duplo que temos em nós, aquilo que sonhamos e desejamos e não podemos fazer por estarmos presos de alguma forma dentro de um contexto social, mas também preso ao desejo do outro.



O duplo é um reflexo de si mesmo, mas nem sempre pelo lado que amamos, a questão é quando este duplo nos assusta, é nosso lado perverso, é o lado que queremos negar, que não suportamos, o inimigo, um estranho familiar que nos apavora.

A questão que fica é se aquela aranha na cama irá impedi-lo de sair ou não. Ele poderá finalmente viver sua sexualidade? assumir seu desejo? ou continuará sendo o pacato, metódico e deprimido professor?

Um filme que causa um mal estar que leva à reflexão sobre o que fazemos de nós mesmos, e onde estamos presos. Como a frase inicial do filme o caos está onde ainda não se colocou ordem.


Denis Villeneuve nasceu em 1967 em Québec, Canadá.

Trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans

domingo, 4 de maio de 2014

FILME: CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS - 2014



Direção: George Clooney - 2014
Duração: 118 min 
Título original: The monuments men 
Roteiro: George Clooney e Grant Heslov 
País: Estados Unidos 

Baseado em fatos reais e no livro de Robert M. Edsel.

O nazismo roubou obras de arte em todos os países invadidos. Algumas foram salvas e escondidas, mas principalmente as de coleções particulares desapareceram. A intenção não era apenas colecionar e fundar um museu do führer, mas o mais importante era destruir a história e as criações dos países que estavam submetidos ao nazismo. Apagar a simbolização de uma tradição, expressão, idéias, que encontramos na arte, a significação que isto tem para um povo.

Já no final da guerra um grupo de 13 especialistas em arte de vários países se reúnem para tentar salvar as obras, comandados por George Stout (George Clooney) um conservador de obras de arte.

O grupo formado por curadores, museólogos, arquitetos e historiadores é interpretado por Matt Damon, Bill Murray,  John Goodman, Jean Dujardin e Bob Baladan além de Cate Blanchett como Claire.

O filme é bom, porém não retrata o que realmente foi a recuperação destas obras e todo o simbolismo delas, apesar da tentativa ao se falar disto durante o filme. Há uma cena em que um especialista começa a olhar telas legítimas e não as reconhece de imediato, mas somente após verificar à qual coleção pertencia, o que não ocorreria com um connaisseur de arte. O filme também anda devagar, mas ao mesmo tempo parece correr contra o tempo, para que se consiga recuperar o máximo de obras, que estavam em sua maioria escondidas em minas de sal e cobre. Além disto havia uma ordem para que se Hitler morresse todas fossem destruídas.

Os russos também estavam em busca destas obras, mas com a intenção de utilizá-las para pagar indenizações e não para devolvê-las aos seus legítimos donos.

Espero que desperte o interesse, pois trata-se de um aspecto da guerra que ainda foi pouco tratado e levado ao conhecimento das pessoas.


George Clooney nasceu em 1961 em Lexington, Kentucky, EUA. É um ator e diretor de cinema e televisão.

Trilha sonora de Alexandre Desplat 

sábado, 3 de maio de 2014

FILME: MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA - 2003



Direção: Peter Webber - 2003 
Duração: 95 min 
Título Original: Girl with a Pearl Earring 
País: Reino Unido 

Adaptação do romance homônimo de Tracy Chevalier, uma história fictícia sobre como o pintor Vermeer teria pintado o quadro com o mesmo nome.

Século XVII, Griet (Scarlett Johansson) é uma jovem holandesa que vive em Delft e que devido dificuldades financeiras de sua família tem que ir trabalhar como criada da família do pintor Johannes Vermeer (Colin Firth).

Griet é sensível à beleza e às cores, seu pai pintava azulejos mas ficou cego, e admira o trabalho de seu patrão. Ele irá notar sua beleza mas principalmente seu entendimento sobre a pintura e as cores e fará dela sua auxiliar e depois musa inspiradora para seu quadro Moça com brinco de pérola. Dois momentos que demonstram o conhecimento de Griet, quando ela pergunta se deve lavar os vidros pois isto mudaria a lua no ateliê, e quando ao olhar as nuvens o pintor lhe pergunta de cor são, ela inicialmente dirá que são brancas, mas então perceberá que são amarelas, azuis, brancas, cinzas.



O filme retrata a vida do pintor e a forma como os quadros eram encomendados pelo seu Mecenas, mas também é uma mostra da vida da época, do mercado, dos camponeses e dos criados. A questão dos católicos e dos protestantes.

Para pintar Griet o pintor precisa dos brincos de pérolas de sua esposa, se será sua sogra quem os pegará escondido, num dia que sua filha não estará em casa, porém desde o início Griet terá uma inimiga em Cornélia (Alakina Mann) que tudo fará para que a moça seja despedida, e surge a oportunidade quando ela vê Griet devolver os brincos para sua avó. A esposa do pintor tem uma crise histérica ao ver o quadro, o chama de obsceno. Griet é despedida mas o pintor lhe enviará os brincos como uma forma de pagamento.


Johannes Vermeer nasceu em 1632 em Delft , na Holanda e faleceu em 1675 no mesmo local. Foi casado com Catharina Bolenes e teve 15 filhos. Morreu muito pobre e a viúva teve que vender os quadros que lhe restavam. Só foi reconhecido em 1866. 


Peter Weber nasceu em 1960

Trilha Sonora - Alexandre Desplat

sexta-feira, 2 de maio de 2014

FILME: FLORBELA - Perdidamente Florbela - 2012


Direção: Vicente Alves do Ó - 2012 
Duração: 119 min 
Roteiro: Vicente Alves do Ó
País: Portugal 

O filme chega apenas agora no Brasil. Um belíssimo retrato de Florbela Espanca, a poetisa portuguesa, tida como o feminino de Fernando Pessoa.

Florbela nasceu em 1894 em Vila Viçosa, Portugal. Era filha de Antónia Conceição lobo e de João Mayra Espanca, porém este era casado com Mariana do Carmo Toscano. Seu irmão Apeles também é filho de Antónia, e João tirou os filhos de sua mãe e os levou para serem criados em sua casa. A esposa era estéril e os recebe com amor, tornando-se a madrinha deles. João nunca reconheceu o filho como seu, e Florbela somente 18 anos após sua morte foi reconhecida e recebeu o sobrenome Espanca.

Florbela (Dalila Carmo) tem uma imensa sede de viver, de ir mais longe, mas seu primeiro marido Alberto não compreende isto, e ela se divorcia dele indo para Lisboa. Casa-se novamente com Antonio, mas também não dura este casamento, e então casa-se com Mario (Albano Jerónimo), um médico e vai viver em Matosinhos.



Seus primeiros poemas da época de seu primeiro casamento são publicados nos jornais, ela também edita um livro de poemas, mas depois entra num longo período em que não consegue escrever, voltando a fazê-lo somente após a morte do irmão.

O filme foca principalmente neste período de improdutividade, e em seus três casamentos, passando levemente por sua vida intensa em Lisboa, sua sexualidade, tentativas de suicídio e suas questões psíquicas. Sua relação incestuosa com o irmão Apeles (Ivo Canelas) é uma questão controversa entre seus biógrafos, mas no filme ela é visível, a ponto do irmão não suportar seu terceiro marido, a intromissão dele entre os dois.

O que se percebe pelo filme como mais forte é sua eterna insatisfação, ela diz que não sabe viver, suas buscas, a melancolia, a angústia. Florbela carrega um excesso dentro dela, e não encontra onde colocar, nem mesmo a escrita pode suprir isto.  Segue somente suas regras, não leva muito em conta o que os outros sentem, deixa seus maridos apaixonados sem se preocupar com isto, o que importa é sua necessidade de algo novo, diferente, da eterna busca da vida, de viver que não se sacia.

Uma mulher que nasceu em uma época errada, que não teve o que fazer com tudo que tinha dentro de si mesma e com isto se perdeu em si mesma.

Florbela Espanca

Vicente Alves do Ó nasceu em 1972 em Sétubal, Portugal. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

FILME: ONDE ESTÁ A NOITE - OÙ VAS LA NUIT - 2011



Direção: Martin Provost - 2011 
Duração: 102 min
Título original: Où vas la nuit 
País: França 

Baseado no livro "The long Falling" do escritor irlandês Keith Ridgway

No meio da noite uma jovem é atropelada ao pedir carona e morre. O culpado é o marido de Rose (Yolande Moureau) que é condenado a 06 meses de prisão. Eles vivem numa fazenda e o filho deles Thomas (Pierre Moure) saiu de casa com 16 anos. Ele é um homem violento, e que fica pior ainda quando bebe. Rose é agredida por ele com socos e pontapés. Ela ensaia sua partida preparando a mala, colocando um sobretudo, desce as escadas, dá a volta e retorna ao quarto onde guarda tudo de novo. Porém uma noite quando ele sai para beber ela pega o carro e o aguarda no mesmo local onde a jovem foi atropelada e faz o mesmo com ele.

No enterro ela parece alheia, vai até um túmulo de uma criança e depois vai embora junto com o filho que veio para o enterro do pai. Permanece ainda alguns dias na fazenda, responde as perguntas dos policiais e decide partir para Bruxelas onde vive o filho com seu companheiro para iniciar uma vida nova.



Inicialmente ela olhara para um mundo novo, admirando obras de arte, caminhando pela cidade, mas a sombra do marido permanece, não exatamente culpa pelo o que fez, mas é como se ele se perpetuasse até mesmo no filho, que em algumas cenas com seu companheiro se torna também sádico, chegando a queimá-lo com o cigarro.

O filme discute a questão da violência doméstica e familiar. O inspetor já sabia que tinha sido ela e iria se calar se ela não tivesse desaparecido, o que o deixou numa saia justa sem poder responder onde ela estava, e ao mesmo tempo não pode mais impedir a perícia em seu carro que ficou na fazenda.

O filme nos mostra a ambiguidade das pessoas, pois por se tratar de um crime ela teria que ser responsabilizada por ele, mas esta moral não atua tão objetivamente, e muitos ficarão do lado dela, e até tentarão ajudá-la, e outros, como seu filho, que também odiava o pai, irá culpá-la.

O que leva uma pessoa a não agir de forma que não chegue a este ato, ao crime? Por que ela não foi embora antes? apenas ensaiava sua partida. O que a retinha? Por que não pediu ajuda?

E Thomas, que a culpa, por que nada fez para ajudar sua mãe? por que ele não enfrentou seu pai e socorreu sua mãe?

Questões que nos colocamos, mas cada um faz o que pode quando consegue. Rose deseja reiniciar uma vida nova, mas também resgatar sua relação com o filho, tem esperanças de que tudo poderá ser diferente agora. Num momento do filme ela relatará que nem sempre foi ruim, que houve bons momentos, mas que seu outro filho morreu afogado ao brincar ao lado dela e ela não percebeu. Seu marido nunca a perdoou do acidente, passando a culpá-la por isto, e também nunca aceitou a homossexualidade do outro filho.

Os dramas familiares que se redundam e que acabam transformando as vidas em sofrimento.


Martin Provost 

FILME: AS CINZAS DE ANGELA - 1999



Direção: Alan Parker - 1999
Duração: 139 min 
Título original: Angela's Ashes 
País: Estados Unidos 

Baseado no livro auto-biográfico de Frank McCourt. 

1935 - uma família irlandesa vive nos Estados Unidos com dificuldades. Após a morte de sua filha bebê eles retornam para a Irlanda justamente num momento onde os irlandeses estão indo para a América fugindo da fome e da falta de trabalho. Angela (Emily Watson) e seu marido Malachy (Robert Carlyle) com seus filhos chegam à Irlanda e são recebidos pela mãe de Angela e sua tia e tio. Porém o marido de Angela é protestante e a família dela é católica o que logo de início já coloca uma situação delicada com a avó e a tia se recusando a lhe dar a mão.

Um filme sobre a dura realidade as famílias pobres na Irlanda onde apesar de todo o catolicismo não há muito misericórdia ou bondade, mesmo quando a igreja ajuda é em tom de deboche, mas ela também bate a porta na cara das pessoas, contradizendo seu belo discurso de amor a Deus e aos próximos.



Para complicar tudo o pai não consegue emprego e não para de beber, e quando consegue um trabalho vai comemorar logo no primeiro dia gastando tudo que ganhou ao invés de levar para a família. Com toda a dificuldade que passam ainda tentam manter um orgulho, como o pai se recusando a pegar carvão no chão como um mendigo, preferindo deixar a família passar frio, ou Angela que ao conseguir ajuda para comprar móveis reclama que serão de segunda mão.

A vida é dura, logo eles perdem um dos filhos gêmeos, Oliver, e não demora morre também o segundo gêmeo, Eugene. Mas, apesar de toda esta dor, tristezas e dificuldades o filho mais velho Frank (Joe Breen (5-8anos; Ciaram Owens - 10 anos e Michael Legge - adolescente)  e seu irmão conseguem ainda manter a alegria de criança, com as brincadeiras, aprontações, mas não deixam de perceber tudo que se passa, e se por um lado amam o pai que conta histórias, odeiam o pai que bebe.



Angela engravida novamente e mais uma vez, mas ela se cansa de um marido que ela chama de inútil, que nunca arruma um trabalho e não consegue ajudar em nada para sustentar os filhos. Um dia ele parte para a Inglaterra como muitos faziam prometendo mudar e parar de beber, mas obviamente isto não acontece, até que no Natal ela o recebe friamente e ele parte de vez e nunca mais voltou ou deu notícias.

Frank irá trabalhar como entregador de carvão e acabará tendo uma conjuntivite extremamente séria. Serão expulsos do quarto onde moravam e terão que morar com um primo onde este os transforma em seus serviçais em troca da moradia de graça, sendo tarefa de Frank esvaziar o urinol e sua mãe deve cozinhar, mas não só isto, os meninos irão perceber que toda noite ela sobe e não volta, e Frank logo perceberá o que acontece. Um dia ele perderá a cabeça e agredirá o homem que é muito mais forte que ele. Nesta noite, após sua mãe nem lhe agradecer e subir direto ao quarto dele, Frank arruma suas coisas e parte. Vai viver na casa de seu tio e começa a trabalhar no Correio para juntar dinheiro e partir para a América.

Ele também aceita trabalhar para a odiada agiota escrevendo cartas de cobrança assustadoras e as entregando, mas um dia quando chega ela está morta e ele então pega o dinheiro que ela guardava e o livro onde estavam anotados todos os nomes de quem lhe devia, inclusive sua mãe e sua tia, e o joga no rio, apagando para sempre estas dívidas, e vai comprar sua passagem para a América para onde segue num navio e retornando ao ponto de partida, só que desta vez é dando alô à Estátua da Liberdade e não adeus como no começo do filme.

Um filme sobre uma vida difícil, cheia de dor, fome, luta pela sobrevivência, retratando a Irlanda daquele tempo, onde muitos morriam de fome e doenças, devido à umidade, sempre chovia ali. A questão dos católicos e protestantes, aqui é retratado mais no aspecto das questões familiares, e perante a igreja católica. A discrepância com o que se prega e o que se faz, os preconceitos. A bebida como forma de fuga.

Apesar de Frank parecer repetir seu pai quando chega em casa bêbado pela primeira vez e cantando as mesmas músicas que ele o que exaspera sua mãe que o acusa de ser igual, não será assim. Ele neste momento irá dar um tapa no rosto da mãe e a chamará de prostituta, mas depois ele irá rezar para São Francisco e um padre novo lhe dirá que ele tem que amar a Deus e a si mesmo primeiro, para depois amar aos outros, e ele então segue adiante com sua vida. No caso da mãe não devemos julgar, o que poderia fazer na situação que estava com 04 filhos, não tendo dinheiro nem onde morar, abandonada pelo marido, se viu numa situação difícil e precisava proteger os filhos que lhe restavam, ela já havia perdido três. Mas para o filho, perceber isto foi tremendamente doloroso, ele também precisava por isto para fora. Ele a vira se negar ao pai para não ter mais filhos e agora a via ir para a cama com aquele homem asqueroso, e de qualquer maneira um filho não consegue aceitar isto, e ele tentou defendê-la, assumindo o lugar do pai, mas não pode. Mas o que Angela quis fazer ela também conseguiu, seu segundo filho também segue a vida, e com certeza os dois menores também.

Provavelmente o título do livro e filme é uma homenagem à esta mãe.


Alan Parker nasceu em 1944 em Islington, Reino Unido, mas fez a maioria de seus filmes nos Estados Unidos.


MÚSICA DE JOHN WILLIAMS

John Williams nasceu em 1932 em Floral Park, New York, EUA. É um compositor.  

LIVRO: HANNS & RUDOLF - O judeu-alemão e a caçada ao Kommandant de Auschwitz - THOMAS HARDING


Harding, Thomas. Rocco, 2014
Tradução: Ângela Lobo
302 páginas
Título Original: Hanns and Rudolf - the german jew and the hunt for the kommandant of Auschwitz

Thomas Harding comparece ao velório de seu tio-avô Hanns e durante a leitura do elogio fúnebre, uma retrospectiva da vida do falecido, ouve pela primeira vez que Hanns foi o responsável pela busca e prisão de Rudolf Hoss, o Kommandant de Auschwitz. Surpreendido pela revelação decide empreender a busca  desta história, documentos, relatos, para poder reconstruir esta fato da história de sua família.

O livro começa nos falando da infância de Hanns que tinha um irmão gêmeo Paul em Berlim e de sua predileção por pregar peças nos outros nos termos de um Pimentinha ou Max und Moritz. Viviam uma vida feliz, uma família judia que respeitava sua religião mas também eram seculares. O pai Alfred era médico e tinha uma excelente posição na sociedade. Já a infância de Rudolf foi triste e solitária, sua mãe vivia ocupada com seus afazeres e o pai era fanático e intolerante em termos religiosos. Ele não tinha com quem brincar, uma vez foi sequestrado por ciganos, mas graças a um fazendeiro que o reconheceu foi salvo. Após ter se confessado a um padre que contou o segredo confessional ao seu pai e sendo castigado por isto perdeu a vontade de seguir a vocação de ser padre.

A juventude deles é relatada, sendo que Hanns teve que fugir para Londres com sua família, uma vez que o nacional-socialismo estava crescendo na Alemanha e quando o nome de seu pai apareceu na lista dos próximos a serem presos a decisão foi tomada. Alfred que estava em Londres neste momento não mais retornou, e todos foram uma após outro conseguindo chegar à Inglaterra. Já Rudolf se alistará e participará da Primeira Guerra Mundial. Ao retornar encontrou tudo mudado, sua mãe havia falecido, seu tio e tutor havia enviado suas irmãs para um convento e vendido a casa da família e dado fim a todos os pertences pessoais de Rudolf. Ele então se juntou ao Freikorps que eram unidade paramilitares independentes do controle do governo de homens armados que seguiam doutrinas de nacionalismo e disciplina. Foi neste grupo que ele teve um contato real com a violência e brutalidade, muito maior do que durante a guerra, e onde se jurava lealdade incondicional a uma causa e principalmente a um líder. Quando Martin Bormann assassinou um considerado traidor Rudolf assumiu a autoria para proteger seu amigo e ao contrário de sua expectativa acabou preso e ficou 04 anos na cadeia. Quando saiu ele quis voltar para o campo, seguir seu sonho, cuidar de terras e animais. Através da Liga dos Artamanen foi para a Pomerânia trabalhar numa fazenda onde conheceu Hedwig e com quem se casou. Seu supervisor sugeriu a SS que mantivessem um estábulo para cavalos na Pomerânia, e Rudolf amava os cavalos e poderia cuidar disto, só que teria que se filiar à SS e assim foi. Começa seu caminho que irá trilhar dentro do nazismo até chegar a comandante do campo de Auschwitz.

O que chama a atenção no livro, além do relato biográfico de Hanns e Rudolf que nos conta paralelamente a história de tudo que ocorreu naqueles anos, são duas coisas: a primeira é a versão de um líder nazista que foi responsável pela morte de mais de três milhões de pessoas, de como ele não tinha emoções em relação à isto, era uma ordem e tinha que ser cumprida da melhor forma, com eficácia, este era seu papel. A ideia de que o responsável é apenas aquele que dá a ordem, no caso Himmler. A necessidade de agradar ao líder, de obedecer, de não discutir uma ordem. Percebe-se que a maioria dos que se envolveram nisto tudo seguia este padrão, a obediência cega. E sequer era por medo de represálias ou ser morto, eles eram cegos, literalmente, tinham que obedecer por que era assim. E ao mesmo tempo vemos um pai carinhoso, que ama seus filhos, que se preocupa com seus filhos, que tem um coração, é humano. Um psicólogo e um psiquiatra avaliram Rudolf após sua prisão, e ambos chegaram ao quadro de apático.

De outro lado, a segunda questão relevante do livro que raramente é falada é sobre o legado dos descendentes destes criminosos, seus filhos, netos. Eles precisaram apagar tudo que houve antes de durante a guerra, desaparecer literalmente, não podiam falar de sua infância, de seus pais, de nada. Uma das filhas de Rudolf mudou até o nome, seus filhos nada sabem de seu passado. Seu neto decidiu ir atrás da história, e ficou horrorizado, chegando a dizer que se soubesse onde estava enterrado iria até o túmulo do avô para urinar em cima. Os que sobreviveram carregam um fardo pesado e precisaram aprender a se calar, esquecer o que foram, de onde vêm e isto é algo terrível também. Que culpa pode ter uma criança que vivia com seus pais numa villa ao lado de Auschwitz? Ter que negar seu nome, o nome do pai.

A questão da obediência cega, imposta muitas vezes desde a infância aos filhos, não permitir que questionem algo, ou exponham seu desejo. A hiper valorização da disciplina e lealdada ao líder. O livro nos leva muito além da guerra e do holocausto, levanta questões psicológicas e atuais. A negação, a falta de remorso, a crença absoluta de ter feito o correto, de ser necessário tudo aquilo. E admitir apenas que o erro foi admitir a morte nos campos, que isto atraiu o ódio do mundo para a Alemanha.

Não se pode esquecer tudo isto, não apenas o horror que foi, mas principalmente é necessário compreender o lado psico-social que leva à isto, somente assim será possível evitar que isto continue se repetindo, como ocorre.
E uma coisa que chama muito a atenção é o fato de que a maioria deles precisava de um pai, e Hitler ou o chefe ao qual respondiam ocupava este lugar.


Rudolf Hoss nasceu em 1900 em Baden-Baden, na Alemanha e faleceu em 1947 em Birkenau-Auschwitz, na Polônia por enforcamento após ser julgado por seus crimes de guerra.

Alexander Howard Harvey, mais conhecido como Hanns nasceu em 1917 em Berlim e faleceu em 2006 em Londres.

Thomas Harding nasceu em 1968 e estudou Antropologia e Ciência Política na Westminster School.