segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LIVRO: SYNGUÉ SABOUR Pedra-de-paciência - ATIQ RAHIMI



Rahimi, Atiq. Estação Liberdade, 2009
147 páginas
Tradução: Flávia Nascimento
Título Original: Syngué Sabour: pièrre de patience

Ganhador do prêmio Goncourt de 2008

O livro é em homenagem a uma dupla libertação. A primeira é do autor em relação à língua, quando ao escrever em francês ele se liberta da autocensura e do pudor inconsciente ancorados nele desde a infância, e a segunda é a libertação da dor que lhe causou o assassinato da poeta afegã Nadia Anjuman, espancada até a morte por seu marido com a conivência da mãe pela acusação de ser liberal demais, e causar vergonha na família. Ela andava sem o véu.

Um livro belíssimo. É o relato de uma mulher que cuida de seu homem numa cidade do Afeganistão que levou um tiro na nuca e está em estado vegetativo. Ela ouviu de seu sogro a história da pedra-da-paciência, a Syngué sabour, onde contamos tudo que nos aflige e angustia, nossos segredos para uma pedra que acabará por explodir quando receber tristezas demais e libertará a pessoa de suas dores e tormentos. Al-Sabour é também o último nome de Deus, o paciente!

No início a mulher cuida do homem inerte, com seus olhos vidrados fixos em algum lugar, ele não tem nenhuma reação, apenas respira. Ela reza, a cada dia um dos nomes de Deus, na esperança que ele volte para ela, mas nada acontece. Do lado de fora há conflito, tiros, bombas e as chamadas do Mulá para as rezas. O bairro vai se esvaziando após os ataques, ela leva as filhas embora, mas não consegue levar ele. Está sozinha, a família do marido também a abandonou.

Aos poucos ela começa a falar, a colocar para fora suas dores, angústias, seus segredos, transforma o marido em sua Syngué sabour. Conta-lhe coisas que jamais teria contado se ele não estivesse inerte, ele a teria matado. Todo o universo feminino vem a tona, quando um homem é duro com sua mulher, uma mulher também é dura com seu homem. Por baixo do véu há muita vida, tristeza, desejos, angústias, medos. E ela vai ficando cada vez mais ousada relatando tudo que estava enterrado dentro dela e lhe causando uma dor imensa, enchendo a sua pedra até que ela exploda e a liberte.

Atiq Rahimi nasceu em 1962 em Cabul, Afeganistão. Durante a guerra nos anos 80 exilou-se na França onde vive  e hoje tem dupla nacionalidade. 

Nadia Anjuman 


LIVRO: IDIOPATIA - SAM BYERS



Byers, Sam. 1ªed.Objetiva, 2014
287 páginas
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Título Original: Idiopathy

Idiopatia - origem fim do século XVII - do latim moderno idiopathia, do grego idiopatheia, de idios "próprio, privado" + patheia "sofrimento". Sofrimento próprio

Grande surpresa, por ser um livro de estréia, um dos melhores livros que li recentemente. É brilhante. 

Um romance sobre amor, narcisismo e animais agonizantes. 

Três pessoas, Katherine, Daniel e Nathan são os protagonistas, porém a mãe de Nathan, seu pai,  Angélica e Sebastian também tem muito a nos mostrar. 

A narrativa trata do absurdo da vida moderna, suas neuroses, solidão, narcisismo extremado, máscaras. 

Os três se utilizam de máscaras para fugir ao que realmente sentem, para defender um narcisismo exagerado, onde não se quer ficar por baixo, onde a demanda de aprovação supera tudo, onde cada um foge do que é para colocar no outro o que ele imagina que o outro vê nele. 

Katherine é a ex-namorada de Daniel que atualmente vive com Angélica. Ela é manipuladora ao extremo, sempre jogando para o outro, não escuta ninguém, quer sempre ser a vencedora em qualquer tentativa de diálogo, uma vez que com ela nunca ocorre um diálogo, é impossível, ela não permite. Adora provocar os outros, deixá-los irritados, isto lhe dá prazer e a sensação de vitória. Mas é extremamente solitária, sofre com isto, porém não consegue dar um passo para mudar isto, a resistência é total. Quando tenta é pior ainda, soa falso. Tudo que o outro lhe diz ela manipula a seu favor, e chega a ser irritante os diálogos com ela, lendo eu ficava com raiva, dava vontade de mandá-la calar a boca. Ela sempre respondia com perguntas antes mesmo que o outro terminasse de falar, ou observações irônicas e sarcásticas. 

Daniel quer ser o perfeito, amado, vender uma aparência boa. Não consegue ser autêntico, ele mesmo. Está sempre pensando antes de falar no que o outro vai pensar do que ele vai dizer. Procura achar as palavras e respostas certas, pensa em todas as alternativas de respostas possíveis que o outro vai dar para se preparar antes de falar. 

Nathan, que é o considerado doente na história, ele foi internado num hospital psiquiátrico por ter tirado a própria pele, me parece entre todos o melhor, o que está menos doente nesta sociedade neurótica e moderna. Ele foi para o ato ao invés de falar, e claro, depois de uma conversa com Katherine, quando é impossível falar. É um ex-drogado, que se apaixonou por ela quando esta ainda vivia com Daniel, que era seu amigo. Os três sempre se encontravam, mas Nathan percebeu que ele era usado pelos dois. A mãe de Nathan é castradora, e quando vê que o filho arrancou sua pele, resolve escrever um livro sobre o sofrimento de uma mãe para se livrar da culpa. Fica famosa, recebe e.mails, participa de programas na TV, causa um tremendo desconforto em Nathan. A intenção materna é criar a culpa nele para retirar dela a questão. O pai não interfere, vive sua vida cotidiana. 

Angélica é a bondosa, aquela que quer ser vista como generosa e bondosa com todos, que media todos os conflitos, que acalma. E Sebastian, apaixonado por Angélica, é um ativista que está obcecado pela questão das vacas que sofrem de uma doença chamada idiopatia e que estão sendo sacrificadas. Ele adora provocar Daniel, para desta maneira chamar a atenção de Angélica. Ele sente inveja e ciúme de Daniel por ter ficado com Angélica, e a ironia do livro é ver que ele acha que uma vaca é algo que vai diferenciá-lo de Daniel aos olhos de sua amada. 

As emoções humanas são as mesmas de sempre. O que o livro deixa claro é a forma como as pessoas lidam com isto no mundo moderno. Eles não sabem se agem com total desinteresse, descrença, afastamento, ou se vão atrás de ideias, palavras, pensamentos. 

É uma sátira do mundo moderno, mas na realidade muito do que está um pouco exagerado no livro para reforçar a história acontece todos os dias. As pessoas usam máscaras para fugir de sua solidão, desesperança, fracassos e tristezas. Não sabem mais lidar com isto. Então elas atacam os outros para com isto achar que estão prevalecendo e atingir um certo gozo, ao invés de viver com prazer e satisfatoriamente com aquilo que a vida oferece de possível. 

O fato da leitura atingir a nós mesmos, nos levando a desejar mandar calar a boca, ficando exasperados em determinados momentos, com raiva até, é algo brilhante num livro, e que também nos faz refletir sobre nossas relações e como agimos com os outros. O que todos desejamos é sermos amados, mas como lutamos contra isto. 

Recomendo!

Sam Byers nasceu em 1979. 

domingo, 10 de agosto de 2014

LIVRO: A VIDA DO LIVREIRO A.J.FIKRY - GABRIELLE ZEVIN


Zevin, Gabrielle. 1ª ed. Paralela, 2014
186 páginas
Tradução: Flávia Yacubian
Título Original: The storied life of A.J.Fikry

Acho que criei uma expectativa muito grande sobre o livro. É um livro gostoso de ler, que se lê em um só dia, bom para relaxar, pelo menos foi o que fiz, li o livro em um único dia. 

A história do livreiro A.J. Fikry em uma ilha, dono da única livraria local, no início rabugento, de mal com a vida após a perda de sua esposa em um acidente que recebe a visita de Amélia, representante de livros de uma editora que entra no lugar de outro que também morreu. Seu primeiro contato não é bom, mas Amélia contorna isto.

Mas a vida de A.J. Fikry irá mudar quando encontra um bebê em sua livraria com um bilhete e resolve adotá-la. Maya irá transformar a vida do livreiro e Amelia também, pois ele se apaixona por ela. Entre tudo isto temos o roubo de um livro raro que se transformaria na aposentadoria do livreiro. 

Confesso que esperava mais do livro. Gosto muito de livros que falam de livros, mas pessoalmente prefiro  O Ano do pesamento mágico ou o Clube do livro do fim da vida, onde os livros também vem em socorro de alguém  que está passando por momentos difíceis, apesar de não serem como no caso de Fikry, seu ganha pão. Por outro lado confesso que gostaria muito de ver livrarias como esta do livro em cidades pequenas, onde houvessem clubes de leitura e um livreiro que soubesse indicar os livros de acordo com o que seus clientes buscam e precisam.

O que mais me atraiu no livro foi o local, a Ilha Alice. Adoraria viver em um lugar assim, não tão alcançável, mas não tão distante. Durante o inverno a balsa não faz a travessia. E também o prazer de estar entre livros, isto eu compreendo bem, vivo rodeada deles, em todos os locais de minha casa há livros, eles andam pela casa e me aconchegam, me acolhem, me dão serenidade e companhia. 

Talvez eu seja como A.J.Fikry quando se trata de livros. 

Gabrielle Zevin nasceu em 1974 em New York

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

LIVRO: O LIVRO DE PRAGA - Narrativas de amor e arte - SÉRGIO SANT'ANNA


Sant'Anna, Sérgio. Companhia das Letras, 2011
136 páginas

Este livro faz parte de uma coleção encomendada a vários escritores chamada "Amores Expressos" onde cada um foi para uma cidade e escreveu uma história sobre o amor. 

Sant'Anna escreveu sobre Praga, e se utiliza inclusive deste projeto em seu livro uma vez que seu personagem Antônio Fernandes é um escritor que vai para Praga escrever sobre o amor fazendo parte de um projeto privado. 

O livro divide-se em sete partes mas que formam uma sequência da permanência de Antônio em Praga e de suas vivências locais. Ele está interessado em arte, então visita uma exposição da pintura de Andy Warhol onde ouve a pianista Béatrice Kromnstadt, anda pela ponte Carlos com suas esculturas, assiste a peça teatral Aspects of Alice do Ta Fantastika Black Light Theatre - teatro de luzes e sombras, vê uma mulher com o corpo tatuado no corpo de Jana. 

A arte, a música, luzes mexem com nossos sentidos e nos criam sensações de estranhamento, de prazer ou angústia. Antônio se expressa pelo seu desejo e a sexualidade aflora. Nos perguntamos até onde é real ou imaginário o que ele vive. Um livro que traz o inconsciente a tona em experiências estéticas e eróticas. 

O desejo proibido que reaparece, mas em vivências, experiências sensoriais e oníricas. 

Sérgio Sant'Anna nasceu em 1941 no Rio de Janeiro 





quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FILME: VIVA A FRANÇA - 2013


Direção: Michaël Youn - 2013 
Duração: 94 min 
Título original: Vive la France 

Muzafar (Jose Garcia) e Feruz (Michaël Youn) são dois pastores de um pequeno país fictício chamado Taboulistão governado por um presidente que nunca conseguiu que seu país fosse conhecido e pior, seu prato principal, o tabule, teve a receita roubada pelos libaneses que ficaram com o mérito do prato. Seu filho então tem a brilhante ideia de explodir a Torre Eifel em Paris, pois assim todos ouviriam falar de seu país.

Entre os escolhidos para o treinamento estão Muzafar e Feruz e que acabam sendo os responsáveis pela missão. E lá vão os dois para a França com a recomendação que neste país não se bate em mulher.

Uma comédia que satiriza o terrorismo e faz uma critica ao regionalismo francês, onde cada região se considera como sendo dali mesmo, ignorando a França.

Logo na ida o avião é desviado de Paris e pousa na Córsega onde começa a aventura destes dois atrapalhados. Da Córsega irão para Marselha, onde lhe informam que ali não é a França, é Marselha. Conhecerão uma jornalista (Isabelle Funaro) que irá ajudá-los a chegar à Paris, passando por Toulouse e várias outras cidades e regiões da França, tudo em meio a muita confusão. A jornalista chama-se Marianne, justamente a mulher que simboliza a França e eles irão comemorar o 14 de Julho, o dia da tomada da Bastilha.

Inicialmente eles irão estranhar muitas coisas e passarão por situações que não os induz a achar a França um bom lugar, mas aos poucos serão seduzidos pela comida, pelo vinho, pelo amor e por Paris e descobrirão que viver ali é bem melhor do que o paraíso prometido por seu chefe.


Michaël Youn nasceu em 1973 em Susrenes , Hauts-de-Seine, França. 

Música Douce France de Charles Trenet - com paisagens da França

FILME: FILHOS DA NATUREZA - 1991


Direção: Friörik Pór Friöriksson - 1991
Duração: 82 min
Título original: Börn Náttúrunnar

País: Islândia 


Um filme para refletir sobre a velhice, a solidão e a morte.

Thorgeir (Gísli Alldórsson) é um homem idoso, vive sozinho num local isolado da Islândia e logo no início sentimos sua solidão por seus atos. Ele então decide partir e vai ao encontro de sua filha que vive na capital em Reijavic, porém a recepção não é o que podemos chamar de agradável. O marido apesar de o receber bem no primeiro dia depois mal fala com ele, mas o pior é a neta que grita com ele e o despreza.Ele está tão só ali como estava em sua casa.  Sua filha sugere então que ele vá viver em uma casa de idosos.



Lá ele encontra Stella (Sigridur Hagalín), uma velha conhecida da infância que ele vê assim que chega sendo arrastada pelas enfermeiras pois havia tentado fugir. Stella quer voltar ao local da infância e deseja ser enterrada lá.

A vida na casa de idosos não é ruim, mas o que sempre me chama a atenção é como tratam os idosos, como se eles não pudessem mais fazer escolhas, tomar decisões, vivem como se fossem loucos ou doentes, sem liberdade. A velhice não é sinal de demência, então porque não podem sair? ir a um cinema? fazer compras, visitar pessoas? fazer escolhas? São tratados como crianças ou até pior que isto, uma vez que a criança tem o futuro a sua frente, mas o idoso vive seus últimos momentos de uma vida onde ele já teve escolha e cuidou daqueles que hoje são adultos e os tratam assim. Há uma cena onde servem chá e a moça pergunta à filha se era leite ou açúcar para ele, como se ele fosse incapaz de escolher e ter gostos e desejos, incapaz de falar e responder.

Thorgeir percebe que no cemitério tem um portão aberto e vê um carro parado na rua. Resolve então fugir com Stella e voltar ao local da infância.







O filme tem um lado que poderia ser chamado de fantástico, mas estamos na Islândia, a terra dos Elfos. O carro quando é perseguido pela polícia desaparece na neblina, é visto em vários locais do país e reaparece sozinho no mesmo local de onde foi levado. A magia que acompanha a vida daqueles que acreditam que ela pode ser muito mais do que o materialismo e a objetividade que se impõem os adultos.

Bruno Ganz faz uma aparição no filme como um anjo.

Friörik Pór Friöriksson nasceu em 1953 em  Reykjavík, Islândia. 

FILME: GLÓRIA - 2013


Direção: Sebastián Lelio - 2013 
Duração: 110 min 

Gloria (Paulina García) tem 58 anos, vive em Santiago, é divorciada e seus dois filhos já saíram de casa. Para evitar a solidão noturna vai à bailes de terceira idade onde conhece pessoas e homens. Um dia ela conhece Rodolfo (Sergio Hernández) por quem se apaixona.

Gloria é uma mulher moderna que está só. Independente financeiramente, trabalha, tem seu carro, apartamento, vive em uma cidade grande, mas está só e tenta driblar esta solidão. Rodolfo diz que se separou e que tenta construir uma nova vida para ele.

Os dois saem, fazem amor, mas ele não a apresenta à sua família dizendo que elas (mulher e duas filhas de 27 e 31 anos) nunca compreenderiam. Gloria ao contrário o leva ao aniversário de seu filho onde está toda sua família, inclusive seu ex-marido. Aos poucos ela vai percebendo que as coisas não irão muito bem. As filhas sempre ligam para Rodolfo, seu celular nunca para e ele diz que elas dependem dele. Exatamente o oposto da família de Gloria onde todos são independentes, até demais, pois quando sua filha vai embora ela prefere que a mãe não a acompanhe até o embarque evitando assim a despedida emocionada que ocorreria.

Um dia Rodolfo leva Gloria para Vina del mar e assim que chegam ao hotel o celular dele toca e a partir daí Gloria verá que as coisas podem ser diferentes do que ela imaginava.

Gloria é uma mulher madura, que vive o cotidiano, dias bons, dias ruins, às vezes ela está contente, outras não. Ela não é nem bonita, nem feia, não esconde sua idade nem quem é, mas procura viver da melhor forma que lhe é possível. É uma história de vida sem tragédias nem atos fortes.

Ela se apaixona, mas mesmo assim não abre mão de sua vida, não se entrega totalmente. Diferente da mulher de Rodolfo, ela não é dependente nem do amor, nem do homem. Ele estranha isto.

Uma mulher que não procura um homem, mas quando encontra um está aberta a isto, ela não é amargurada, não é depressiva, mas como todo ser humano tem bons e maus momentos. Um filme que foca nas coisas simples de uma vida e nas questões que surgem no dia a dia.

Sebastián Lelio nasceu em 1974 em Santiago, Chile. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FILME: COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE - 1992


Direção: Alfonso Arau - 1992 
Duração: 150min 

Baseado no romance homônino de Laura Esquivel 

Um filme belíssimo e que nos traz um retrato do feminino dos mais belos e completos.

Logo no início vemos a sobrinha-neta de Tita na cozinha com o livro de receitas que foi dela, e que irá nos narrar esta história.

Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho onde vive sua família no México quando sua mãe Elena (Regina Torné) estava cortando cebolas. . Seu pai logo a seguir morre de um ataque do coração ao saber que talvez ela não seja sua filha legítima. Segundo a tradição da família a filha caçula não se casará pois deverá permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Eis o destino de Tita.

Tita é alimentada por Nacha (Ada Carrasco) na cozinha e ali ela cresce e brinca entre cheiros e temperos. Suas irmãs são totalmente diferentes, Gertrudis (Claudette Maillé) irá embora e se tornará uma revolucionária, já Rosaura (Yareli Arizmendi) se casará com o grande amor de Tita, Pedro (Marco Leonardi) por determinação de sua mãe Elena, uma vez que Tita não pode se casar. Porém Pedro só se casa com Rosaura para poder ficar perto de Tita.



Tita é uma cozinheira excelente, aprendeu com Nacha os segredos e também a sentir com seu olfato ou paladar se a comida está boa. A cozinha é um local de muito trabalho, mas também de criatividade, talento, paciência.



Mama Elena é uma representante do mundo patriarcal, assim como sua filha Rosaura, Tita, Nacha e Gertrudis nos apresentam um lado muito mais feminino, sensual, do prazer, sem tantas preocupações com a aparência, o pudor, a decência, elas vivem muito mais, apesar de confinadas à cozinha e ao rancho, Tita sente muito mais prazer na vida do que sua mãe. Ela luta para manter sua individualidade e criatividade.

O Filme vai se desenrolando por capítulos como no livro. No primeiro temos o mundo doméstico e a opressão de Mama Elena. Tita resiste tecendo uma colcha. No segundo é o casamento de Rosaura e Mama Elena ordena que Tita ajude na preparação do banquete e que não chore. Porém enquanto prepara a cobertura do bolo ela chora e suas lágrimas caem na mistura. Todos que comem do bolo começam a sentir uma profunda tristeza ao lembrar amores perdidos e tem acessos de vômito. Nacha também sente a falta de alguém e é encontrada morta com uma foto na mão. Mama Elena está convencida que foi Tita quem envenenou o bolo e a espanca.



No capítulo três Tita ganha flores de Pedro. Sua mãe a manda jogar fora, mas ela escuta a voz de Nacha dentro de si e prepara codornas com rosas. Se Rosaura não gosta e passa mal, Gertrudis sentiu um calor forte, a comida agiu como um afrodisíaco. Ela corre para tomar um banho e o banheiro se incendeia, é salva por um rebelde e foge com ele. Pedro também sentiu um imenso prazer ao comer. As rosas de um homem são transformadas no desejo. Do passivo para o ativo.


Na sequência nasce o filho de Pedro e Rosaura, mas ela não consegue amamentá-lo e será Tita quem fará isto. Mas Mama Elena mandará Pedro e Rosaura para longe, e o menino more de fome. Tita acusa sua mãe e quase enlouquece de dor refugiando-se no pombal. Será o Dr. Brown (Mario Iván Martinéz) que vai socorrê-la e a leva para sua casa. O silêncio cai sobre Tita, a comida da casa do médico não é boa, ela olhava suas mãos e não sabia o que fazer. O médico conta a Tita o que dizia sua avó. Que todos nós nascemos com uma caixa de fósforos dentro de nós, mas não podemos acendê-los sozinhos. O oxigênio que é o agente de combustão deve vir de outra pessoa, do amor que ela tem em si. Mas não devemos acender todos de uma só vez. Esta história se transforma numa metáfora para Tita e tudo que ela sente.

Ao receber a visita da índia que trabalha no rancho com seus caldos que ela traz Tita volta à vida. Mama Elena morre num ataque ao rancho e Tita retorna. Nasce Esperanza e que deve ter o mesmo destino de Tita, já que Rosaura não pode mais ter filhos. Mais uma vez Rosaura não pode amamentar e é Tita quem cuida da alimentação do bebê. É a festa de Reis, e Gertrudis volta ao lar para comemorar. Pedro cai na fogueira e tem queimaduras feias. Tita irá curá-lo com receitas caseiras. E finalmente chega o dia que Tita após enfrentar o fantasma de sua mãe enfrenta também Rosaura, e lhe diz que Esperanza não terá o mesmo destino que ela.

Rosaura morre de problemas digestivos, e finalmente após alguns anos temos o casamento de Esperanza e a união de Pedro e Tita, quando todos os fósforos que trazem dentro de si se acendem.

O filme todo nos fala da criatividade e da narrativa que as mulheres desenvolvem, mesmo confinadas a um pequeno espaço. O livro de receitas de Tita traz estes segredos e anotações a parte que conduzem uma mulher a se libertar. É na cozinha que se desenvolve a história, é ali que ocorrem as mudanças, é ali que as mulheres vencem a ideologia patriarcal que atua não somente na sociedade, mas dentro de casa, neste caso representado pela mama Elena e por Rosaura. A culinária é uma arte, o tecer também, e podem criar coisas novas e diferentes, mas também cuidam das feridas e da dor. Alimentam a alma.

Alfonso Arau nasceu em 1932 na Cidade do México. É casado com a escritora Laura Esquivel. 


Trilha sonora de Leo Brouwer 

Leo Brouwer nasceu em 1959 em Havana, Cuba 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

FILME: LULU, NUA E CRUA - 2013



Direção: Solveig Anspach - 2013 
Duração: 87 min
Título Original: Lulu femme nue 

Baseado na história em quadrinhos de Étienne Davodeau

Lulu (Karin Viard) deseja trabalhar fora mas é mal sucedida na entrevista de emprego. Quando sai dali ela toma a decisão de não voltar para casa. Precisa de um tempo para si mesma. Ela deixa o marido e os filhos a espera e parte sem nada planejado, seguindo em frente e vivendo o que lhe aparece.

Vai conhecendo pessoas, todas sozinhas e com suas questões com quem vai aprendendo muito também. Não se afasta muito de casa, mas já é o suficiente para quem precisa na verdade respirar e ter um tempo só para si mesma. Seu marido lhe corta o cartão do banco achando que com isto a fará voltar, uma atitude diga-se de passagem um tanto infantil, uma vez que seria o que se faria com um filho e jamais com sua mulher que é uma pessoa adulta. O problema dele eram os filhos. O celular a prende, ela diz que parece um cachorro na coleira, até que o homem que acaba de encontrar na praia o joga na água.

Mas Lulu não desiste, está só, sem dinheiro, mas prossegue em sua errância e irá encontrar pessoas que a ajudarão e com quem poderá compartilhar, o que é notório não fazia mais com seu marido. A irmã e a filha irão atrás dela e a encontrarão, mas ambas, mulheres também, parecem perceber o que se passa e talvez no fundo desejassem fazer o mesmo. Qual mulher não precisa deste espaço? de um jardim secreto? de respirar?

Irá dormir na rua, mas isto não a incomoda, até que Charles (Bouli Lanners) a acolhe. Eles viverão uma relação e Lulu redescobrira o prazer sexual que estava adormecido nela. Irá perceber que gosta disto e que seu corpo reage, e se pergunta como pode ficar tanto tempo sem isto. Mas irá embora assim que descobrir que sua filha a encontrou e está no trailer ao lado.

Mesmo sem dinheiro ela não se porta como uma vítima, simplesmente vai dando um jeito. Em uma cena ela chega a roubar uma senhora idosa que acaba de sacar dinheiro no banco para em seguida lhe devolver e pedir mil desculpas. Esta mulher a acolhe, e ambas passarão bons momentos juntas e se tornarão amigas neste percurso.

Lulu dirá que a vida não é predestinada, somos nós que a fazemos, e este é seu grande aprendizado, se deixando levar, mas ao mesmo tempo refletindo e sentindo ela amadurece e quando retorna para casa as coisas não poderão mais ser como antes.

Solveig Anspach nasceu em 1960 em Heimaey nas Ilhas Vestmann na Islãndia. Naturalizou-se francesa. 

LIVRO: HAMBRE DEL ALMA - Escritoras e o banquete de palavras - CARLA CRISTINA GARCIA



Garcia, Carla Cristina. 1ª ed. Limiar, 2007
149 páginas

Um belo livro sobre o feminino. Carla nos fala dos espaços e da criatividade. Sempre foi dito pela cultura patriarcal que a cozinha é um espaço de confinamento da mulher e o que a autora nos mostra é que pelo contrário, é um espaço de criatividade e libertação.

A escrita também é uma forma de liberdade e normalmente também se produz na casa, mas é capaz de nos levar muito longe.

A arte e a criatividade é uma forma de libertação e de possibilidade de um conhecimento que vai muito além do que podemos aprender na rua, no exterior, mas o mais importante é a união de ambos os lados. Garcia nos chama de volta ao corpo, não no sentido do culto da beleza do corpo, mas como a nossa morada, e onde sentimos, temos percepções do mundo exterior e interior, o físico e o espiritual se unem no corpo.

A Hambre del alma, a fome da alma, é algo que muitas mulheres sentem, e penso que os homens também, pois costumo ver o feminino como sendo algo que é do humano, assim como o masculino, e não separando isto, rejeitando desta forma a dicotomia cartesiana, a mente e o corpo, ou qualquer outra dupla, pois acredito no múltiplo. Somos muitos em um só.

Dentro da cultura patriarcal a mulher foi confinada ao lar e o homem ao mundo. Ele era o intelectual, o que escrevia, que criava, o ativo, e a mulher o passivo. O que Carla nos mostra neste belíssimo livro é que as coisas não foram exatamente assim, e as mulheres sempre encontraram formas de criar também, mas usaram outra linguagem.

Ela nos fala das receitas e de comida. A comida que nos alimenta, tanto o físico como a alma. A sociedade dividiu a gastronomia internacional e seus chefs de um lado e considerou a culinária caseira como sendo nutrição, dia a dia, não um arte. Mas será que é assim?

Na introdução  há uma abordagem muito interessante sobre a anorexia que viria substituir a histeria do século passado, ou seja, um protesto das mulheres contra sua situação cultural. "A anoréxica sente não ter domínio sobre o próprio corpo e almeja se tornar ditadora ou tirana desse reino só seu." O corpo da mulher é usado como uma forma de poder, de controle, o que acaba levando a compulsões como dietas, exercícios físicos até seus quadros mais graves como anorexia e bulimia. Outra faceta é a tentativa de manter seu corpo puro almejando a ascese espiritual, esquecendo que é justamente no corpo que as sensações se produzem, o amor, o prazer, aliás, este justamente é o grande vilão.

Adélia Prado é citada no livro: "Se me dessem licença de comer eu me curava, virava gente grande."

A mulher tem fome, é esfaimada. Garcia vai nos falar então de como escritoras saciaram esta fome da alma através da escrita, mas também da culinária, e da arte. Nos fala de Virginia Woolf, Laura Esquivel e Nélida Piñon. A narrativa é uma cura, e os cadernos de receitas muitas vezes trazem diários embutidos neles, observações e frases, além de toda arte, por que os grandes chefs são científicos, medem seus ingredientes, mas a mulher os coloca sentindo o sabor na boca, e ela sabe quando está pronto. A cozinha é um local de criatividade, de narração, as receitas contam histórias, a comida sociabiliza, acolhe, é amor, é nutrição para a alma. A comida une o público e o privado.

Infelizmente a modernidade afastou a mulher da cozinha,além de modismos, dietas que visam falsamente a purificar o corpo ou a alma, o que realmente importa  é comer sem culpa e com isto alimentar a alma.

Há vários filmes citados no livro como Tomates Verdes Fritos, Como água para chocolate, A festa de Babette e também livros, todos atendendo a esta fome.

O livro trata realmente de como fazer comida para a psique, de como alimentar esta alma esfomeada. Um belo livro.

Carla Cristina Garcia é mestre e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP

FILME: VIOLETTE - 2013



Direção: Martin Provost - 2013
Duração: 132 min 

Cinebiografia sobre Violette Leduc, escritora francesa. 

O filme se inicia com uma frase de Violette: " A feiura em uma mulher é um pecado mortal. Se você é linda, é olhada na rua pela sua beleza, se você é feia, é olhada na rua pela sua feiura."

Uma cinebiografia de Violette Leduc (Emmanuelle Devos), uma escritora francesa pouco conhecida. Ela sempre se sentiu muito só, bissexual com uma tendência maior pelas mulheres. Tem medo da perda e dificuldade com a recusa. Seu primeiro livro L'asphyxie ( A asfixia) é sobre sua mãe.

Sempre se sentiu abandonada, fez um aborto do qual carrega o fantasma, recusou-se a ajudar um amigo a se salvar dos alemães durante a guerra um pouco por vingança, uma vez que ele a havia abandonado, mas penso que o principal motivo foi que ela teria que se declarar grávida dele e isto a remetia ao trauma do aborto.

Conhece Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain) que a incentiva a escrever sobre sua vida após ler A Asfixia. Simone sempre declara que se deve escrever tudo e Leduc fala de si mesmo, com sinceridade, mas de forma crua e real. É uma das primeiras mulheres a escrever sobre a sexualidade feminina sem censura, sem omitir nada, o que causa desconforto e polêmica. O jornal publica que ela fala do amor como um homem.



Apaixona-se por Simone e escreve um livro sobre isto. Esta se espanta de ser objeto de tal amor, mas não recua diante de sua publicação. Para mantê-la escrevendo Simone paga uma pensão mensal como se fosse a Gallimard, editora francesa, mas ela o descobre.



Sofre uma crise nervosa, é internada, tem alucinações com os mortos, principalmente Maurice que não ajudou a se salvar (ele morreu na guerra), sente culpa. Recebe eletrochoques.

Ficou presa a sua paixão por Simone e lhe obedece, acredita nela quando lhe diz que será uma grande escritora, mas se ressente quando esta ganha o prêmio Goncourt.

Violette é presa ao seu passado, conturbada não consegue se relacionar com ninguém e isto só aumenta sua solidão e carência. Mas a escrita a salva, e que escrita, que lhe angaria a admiração de grandes escritores e intelectuais na França como Sartre, Jean Genet e Camus, mas não a faz popular. Sua consagração como escritora virá com o livro A Bastarda que foi prefaciado por Simone de Beauvoir.

Leduc se muda para a Provence no interior da França onde vive até morrer em Faucon em 28 de maio de 1972 e sua mãe oito meses depois. Escreveu vários livros depois do sucesso de A Bastarda.



Violette Leduc 

Martin Provost 

domingo, 3 de agosto de 2014

FILME: A FESTA DE BABETTE - 1987


Direção: Gabriel Axel - 1987
Duração: 102 min
Título Original: Babette's gaestebud 

Adaptação do conto de Isak Dinesen pseudônimo de  Karen Blixen do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino. 

1871 - Em uma península da Dinamarca  vivem duas irmãs, Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel)  cujo pai falecido foi um rigoroso pastor luterano, aparece uma mulher chamada Babette (Stéphane Audran) , refugiada da França, cujo marido e filho foram assassinados durante e a Comuna de Paris, pedindo asilo e abrigo. Ela bate a porta das duas irmãs que após lerem uma carta que ela traz consigo a recebem em sua casa. Esta história começa muitos anos antes.



É uma comunidade luterana, e aqui vale lembrar como nos mostrou  Max Weber em seu brilhante "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que se trata de uma religião que abole o intermediário com Deus, não há como se confessar a um padre que perdoa e lhe dá uma penitência, absolvendo-o dos seus pecados podendo reiniciar tudo, não, aqui Deus vê tudo e a melhor forma de garantir sua salvação é o trabalho e o ascetismo. Não há lugar para o prazer, para a vida mundana.



Os luteranos não se afastam totalmente da sexualidade, porém esta se limita ao casamento e á procriação. O pastor tem duas filhas jovens e muito bonitas, vários rapazes a desejam e frequentam os cultos somente para vê-las, mas não é desejo do pai vê-las casadas, são como ele diz: sua mão direita e esquerda. A vida de ambas é regida pela retidão do espírito por se separar do corpo. A comida é apenas uma forma de se manter vivo, não um prazer, é insípida, é por ser necessária.

Loewenhielm se apaixona por Martine, mas apesar dela sentir seu corpo reagindo ela o recusa. Ele é o mundo mundano, vaidoso e cheio de ilusões. É como uma interpenetração de dois mundos, que se tocam, mexem, mas recuam. Ele havia ido para a aldeia para pensar sobre si mesmo. Achille Papin um tenor chega a aldeia e se apaixona por Filippa e sua bela voz. Torna-se seu professor de canto, mas a música os aproxima demais, aproxima os corpos, e ela toma a decisão de não ter mais aulas. Ambas se sacrificam. Elas precisam manter a retidão e escapar ao pecado original, precisam de autocontrole, usam a negação de si mesmas e a austeridade para alcançar isto. Lembremos que não há confissão, não há penitência, então é o sacrifício, o controle que garante a salvação.

Babette virá com a carta de Papin, e assim ela ficará com as irmãs. Vive com elas por 14 anos até que ganha na loteira e recebe 10 mil francos. Na mesma ocasião as irmãs preparam-se para homenagear o pai que completaria 100 anos caso estivesse vivo. É então que Babette pela primeira vez pede algo às irmãs: prepara um jantar francês para este dia. No início elas relutam, mas acabam aceitando.

Neste ínterim percebemos que a comunidade começa a sofrer os conflitos dos humanos, a inveja, o ciúme, cobranças, passar a perna no outro, e tudo isto é pecado.

Quando as irmãs vêem os ingredientes para o jantar chegando elas se assustam e procuram seus irmãos de fé, estão apavoradas, com medo e culpa. Então eles fazem um pacto entre si, não falarão nada sobre a comida e a bebida durante o jantar. É uma recusa aos apelos sensuais, e a língua será usada para louvar, não para sentir os prazeres.

No dia do jantar os convidados chegam e entre eles está o general Loewenhielm que veio visitar sua tia. A mesa está posta com muito requinte e sofisticação. Babette está na cozinha, feliz, finalizando os pratos e instruindo um rapaz que serve à mesa. O cocheiro que levou o general e sua tia também está ali e poderá provar das delícias que ali estão. O jantar é servido, a francesa, um prato atrás do outro, uma bebida atrás da outra de acordo com o prato. Mas ninguém fala nada sobre tudo isto, se recusam a ver, com exceção do general que está encantado com tudo aquilo e reconhece cada bebida, cada prato, inclusive citando uma chef de cozinha num restaurante em Paris que tinha por especialidade codornas no sarcófago e que foi uma criação sua. É ignorado.



Mas aos poucos eles não resistem. Estão diante de uma arte, diante de uma revelação. Vamos notando olhos começando a brilhar, rostos ficando vermelhos, um leve sorriso, e aos poucos eles também começam a deixar de lado suas rusgas e conflitos. Estão se embriagando de corpo e alma. E é isto que o filme nos mostra, que temos apetite físico e espiritual que os dois não são excludentes, pelo contrário, se completam para tornar a vida melhor, sem que com isto estejamos pecando, para usar a linguagem da religião.

O jantar promove a união de todos, os desejos a tanto tempo reprimidos aparecem, eles perdem seu ar carrancudo e austero para sorrir, acolher um ao outro.

A comida é algo que representa a vida, é nascimento, afastando a morte. Levi-Strauss diria que ela é boa para pensar e é feita para ser compartilhada. A cozinha francesa neste filme permite despertar o lado bom, a inteligência, o amor, ao contrário da austera que bloqueia e reprime. Cozinhar é uma arte.





Por outro lado o filme também mostra a natureza na cozinha, quando vemos animais vivos e mortos, sangue, mas que após preparados se transforma em algo civilizado. A passagem da natureza para a civilização. O sonho das irmãs com o inferno e animais mortos e comida, a repressão do desejo que aparece ali.

Babette finalmente diz ás irmãs que ela era uma chef na França, no Café Anglais e que era uma artista.

Gabriel Axel nasceu em 1918 em Aarhus, Dinamarca e faleceu em 2014 em Bagsvaerd, Dinamarca

sábado, 2 de agosto de 2014

FILME: APENAS UMA CHANCE - 2013



Diretor: David Frankel - 2013
Duração: 103 min
Título original: One Chance 

Filme sobre a vida de Paul Potts o tenor que venceu o reality show  "Britain's Got Talent."

Devemos ou não ceder de um desejo? mesmo quando tudo parece indicar que não é para ser?. Neste filme o que vemos é alguém que apesar de tudo, de ser até certo ponto um azarado até sofrendo contingências a todo momento, tímido, que não tinha confiança em si mesmo, não acreditava, mas que apesar de tudo isto, ele persistiu e conseguiu seguir o seu desejo.

Paul Potts (James Corden) desde pequeno amava a ópera e sonhava em ser um tenor. Já quando fazia parte do coral da igreja ele se sobressaia com sua voz, mas justamente por isto sofria bullying de seus colegas, mas mesmo assim, ele persistia. Seu pai (Colm Meaney) odiava a ideia, mas sua mãe (Julie Walters) o apoiava.

Conhece uma jovem Julie-Ann (Alexandra Roach)  pela internet que quis conhecê-lo, ele não tinha coragem de marcar um encontro, mas seu chefe e melhor amigo faz isto por ele e então ele conhece uma jovem que irá se tornar sua esposa e grande incentivadora. Ganha um concurso e vai para Veneza estudar ópera, mas quando é sua grande chance diante de Pavarotti, que era seu ídolo, ele falha e ouve a sentença de que talvez ele nunca seja um cantor de ópera.

Ele volta para casa na Inglaterra e a partir deste momento sua vida irá sofrer vários revés inacreditáveis, a ponto de dizermos: é muito azar para uma pessoa só. Mas sua mulher está ali, firme, e sempre o apoiando. E finalmente ele irá participar de outro concurso onde será o grande vencedor, transformando-o em estrela da noite para o dia.

É um filme tragi-cômico, pois apesar de todas as dificuldades que Paul enfrentou há sempre uma dose de humor nele.

Paul está acima do peso, tem sua dentição da frente um pouco torta, sofreu bullying que lhe deixou uma marca no corpo e um trauma, tem que enfrentar seu pai que não concorda com seu sonho, sofre problemas de saúde, é atropelado, mas ele tem um grande amigo, tem sua mulher e sua mãe que nunca deixam de estar ao seu lado. O fato de ter sido reprovado por Pavorotti o marcou, e vemos o efeito de quando um ídolo, alguém que idealizamos demais nos dá um veredito ruim atuar em Paul, ele acredita que nunca será um tenor depois disto, mas sua esposa não acredita em todo este poder do tenor famoso.

Um outro ponto que chama a atenção, ele foi para uma escola famosa em Veneza, mas será através de um reality show que atingirá o sucesso. Muitas vezes por causa de um preconceito em relação a estes programas podemos deixar de atingir um desejo ou sonho, mas Paul não tem isto, ele tem medo de ser humilhado em frente ao público, e isto devido o que já havia passado em sua vida. Mas podemos ser humilhados por muitos o que não significa que devamos desistir, e por mais difícil que seja, como diz Julie: um passo atrás do outro.


David Frankel 

Paul Potts nasceu em 1970 em Kingswood, Reino Unido.

O vídeo da apresentação de Paul Potts no Reality show

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LIVRO: O QUE AS MULHERES FRANCESAS SABEM sobre amor sexo e atração - DEBRA OLLIVIER



Ollivier, Debra. Editora Academia de Inteligência, 2010
189 páginas
Tradução: Magda Lopes
Título Original: What french women know: about love, sex and other

A autora do livro é americana e foi morar na França ainda solteira, casou-se com um francês e teve dois filhos, depois retornou para os Estados Unidos.
Assim que chegou a Paris ela começou a notar as diferenças entre os dois países e principalmente interessou-se pela mulher francesa sobre a qual já tinha uma imagem dela ser sexy e diferente das americanas. Então é sobre estas diferenças que ela vai nos contar no livro.

Como disse Simone de Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher! A construção do masculino e do feminino se dá na sociedade em que se vive através do nome, da linguagem, da história, da cultura, e isto faz com que esta construção seja diferente em cada cultura. Temos ideias, crenças, fantasias que moldam isto.

O fato é que a autora começou a perceber que haviam coisas que as francesas sabiam fazer de uma forma melhor, como educar filhos, por exemplo. Há em seu relato ela preparando a sala de sua casa para a criança que vai nascer, superprotegendo, colocando protetores de tomada, nas pontas de móveis, retirando o que pode ser perigoso. Uma francesa sua amiga lhe diz que parece uma sala psiquiátrica, porque para ela uma criança precisa de limites, não de ser protegida desta maneira. Os franceses educam seus filhos para a independência e liberdade.

Sobre a velhice, a mulher francesa a aceita e vive sua idade, o sexo é algo que amam e desejam em qualquer idade, mas os homens franceses também gostam das mulheres mais velhas e as desejam. Sobre ter amantes, as instituições, sem neuras sobre o culto da beleza e do corpo, abertas a contradições e conflitos que fazem parte da vida.

No meu caso particular li o livro porque sou filha de francês e fui educada em uma comunidade francesa no Brasil, mas como vivo no Brasil acabei no conflito bi-cultural e hoje estou num processo de resgate e apropriação da minha herança. E foi incrível me reconhecer em muitas das coisas que Debra fala e então perceber que não sou um ser estranho, conseguir compreender porque há certas coisas que eu não consigo aceitar e compreender aqui no Brasil, mas é que no meu inconsciente a formação é outra. Como por exemplo, não sou preocupada com a questão da beleza, abro mão facilmente de arrumar a casa se eu desejar fazer algo que me dê prazer e mais, tenho horror a casa arrumada demais, para mim é fria, sem vida, casa precisa de uma certa bagunça que demonstra que ali vivem pessoas. Na minha casa em jantares ou almoços sempre se sentaram em pares homem-mulher, mas nunca o cônjuge. Após terminar a refeição, ninguém vai para a cozinha lavar a louça, nada de mulheres na cozinha e homens na sala. Eu também amo os homens e nunca compreendi a guerra de sexos, entre os opostos.

Lendo o livro vê-se que a autora está encantada pela mulher francesa, mas nem tudo são flores na França, também há neuras femininas por lá. Mas concordo que la joie de vivre e a art de vivre tornam a vida muito mais prazerosa e menos complicada de viver. Viva a diferença e a imperfeição!

Este livro me lembrou o filme Uma dama em Paris que já postei no blog. Duas mulheres que escolhem viver a vida.




quinta-feira, 31 de julho de 2014

FILME: E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS? - 2011


Direção: Stéphane Robelin - 2011
Duração: 96 min
Título original: Et si ont vivait tous ensemble?

Dois casais e um solteiro, todos já entrando na velhice e amigos há mais de 40 anos. Annie (Geraldine Chaplin) é casada com Jean (Guy Bedos), Jeanne (Jane Fonda) com Albert (Pierre Richard) e ambas as mulheres tiveram um caso amoroso com Claude (Claude Rich).

Cada um deles enfrenta questões com a saúde, a sexualidade, a questão de morar sozinho. Jean é quem tem a ideia de todos morarem juntos em sua casa que é grande. Inicialmente os outros são contra, querem preservar sua privacidade e individualidade, mas a medida que cada um deles enfrenta um problema de saúde isto vai mudar. Albert tem um cachorro, Oscar, só que ele é bem grande, e um dia ao levá-lo passear o cachorro que é mais forte que ele o derruba. Sua filha quer se desfazer do cachorro. Claude sofre um problema no coração, e seu filho quer vender seu apartamento e colocá-lo em uma casa de idosos. Jeanne sofre de uma doença incurável, e sabe que Albert que já começa a perder a memória não poderá ficar sozinho. Então entre uma casa de repouso e morarem juntos obviamente optaram pela segunda opção.

Mas estes cinco são unidos, e é Jean e Claude que vão buscar o cachorro de Albert no canil onde sua filha o levou. Todos eles sequestram Claude do hospital e o levam para a casa de Jean e Annie, impedindo seu filho de entrar.

Albert irá contratar um jovem, Dirk, que estuda etnologia, para levar seu cachorro passear. Jeanne o acompanha em seus passeios e ao final, quando Dirk se vê encurralado pela namorada para ir fazer seu trabalho de campo é Jeanne que propôe que ele estude a velhice na Europa e não na Austrália como ele pretendia. Ele então vai viver com os cinco.

Um retrato bem humorado da velhice com todas suas questões que nem sempre são alegres mas que fazem parte da vida. Os filhos que sempre procuram resolver o problema de uma forma que eles se sintam menos culpados e ao mesmo tempo que não lhes tire seu tempo para cuidar de alguém. É interessante como há uma visão errônea que parece acreditar que um velho não pode mais tomar suas próprias decisões, precisa ser cuidado como um bebê. Como diz Claude, eu prefiro apodrecer em meu apto. do que numa casa de idosos. É um direito dele.

Mas por outro lado o filme trata a velhice de uma forma madura, onde cada um deles não se deixa levar pela idade e suas limitações, e mais do que isto, a amizade entre eles é tocante, eles se compreendem e se apoiam mutuamente.

Stéphane Robelin