sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO DEMASIADO HUMANO - FRIEDRICH NIETZSCHE - ALÉM DO BEM E DO MAL - 1999



Documentário produzido pela BBC em 1999 dividido em 03 episódios e conta a história de três filósofos: Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre.


I- Friedrich Nietzsche - Além do bem e do mal

Nietzsche é tão importante quanto Marx, Freud e Einstein na evolução do modo como as pessoas pensam no século XX e XXI. 

Com a entrada na modernidade há o que Nietzsche chama de a morte de Deus e com isto o enfraquecimento das certezas morais e intelectuais. O que é certo e o que é errado? o que é bem e o que é mal? A igreja era o árbitro da moral, a guardiã da verdade moral. Hoje não somos mais determinados por forças exteriores, a vida é algo para ser construído e somos responsáveis por isto. A filosofia de Nietzsche não é um guia para quem pensa como ele, mas sim é um guia para quem pensa por si mesmo. Ele nos incita a pensar. 

Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken. Seu pai era pastor. No seu batizado o pai perguntou o que seria desta criança , o  bem ou o mal? Nietzsche tentará vencer esta dicotomia, relacionando o bem e o mal, para torná-los dependentes um do outro. 

Teve um infância feliz até 1847, quando estava com 05 anos e seu pai morreu. Um ano depois foi seu irmãozinho que morreu. Então ele se questiona: porque Deus punira seu pai com tanto sofrimento. Surgem as dúvidas sobre o cristianismo.

Após a morte de seu pai e irmão muda-se com a mãe e a irmã Elizabeth para Naumburg e foi enviado para o internato de Schülpforta de tradição em educação religiosa. Após estas perdas ele mudou muito, passou a buscar a solidão. 
Foi estudar teologia na Universidade de Bonn com a ideia de ser pastor. Em 1865 num domingo de Páscoa recusou-se a comungar. Neste ano abandonou sua vocação religiosa para estudar línguas como filólogo clássico. Em uma carta para sua irmã explica que há os que creem e os que buscam. 

Em 1869 foi nomeado professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. 

Havia se libertado das amarras do cristianismo e buscava algo para substituí-lo. Sem o cristianismo a dor e o sofrimento humano não fazia sentido (castigos pelos pecados). Procurou então na filosofia e encontrou em Schopenhauer, que é uma filosofia pessimista, Para escapar do sofrimento há a arte, principalmente a música diz Schopenhauer e Nietzsche encontra isto em Richard Wagner. Assistiu três vezes a ópera Tristão e Isolda e se identificou com o sofrimento deles. 

Wagner se torna um pai substituto. Na arte deste Nietzsche viu a possibilidade de um renascimento da ultura européia baseado no modelo grego clássico da tragédia. ("O nascimento da tragédia"). A música de Wagner representa o ideal pré-cristão simbolizado pelo deus grego Dionísio. A cultura dionisíaca era selvagemente enérgica, musical. Era associada à embriaguez, intoxicação, os excessos, a alegria e a mais absoluta insensibilidade à tristeza, à dor e à tragédia. 

Nietzsche sofria debilidades, era míope, contraiu sífilis apesar de nunca ter falado isto em público, aos 30 anos estava parcialmente inválido, sentia dores de cabeça fortíssimas, e ficava vários dias de cama. "Surpreendo-me o quão difícil representa viver". Sua enfermidade vai ser um ponto de mudança decisivo em sua vida. 

Em 1876 ocorre a inauguração do grande teatro de Wagner em Bayreuth. Nietzsche sai depois do primeiro ato sentindo náuseas, o que é simbólico e um sintoma físico que expressava um estado psicológico. A relação com Wagner fica tensa, ele não aceita o nacionalismo deste. Ele precisa de sua filosofia.

Deixei de ser pessimista nos piores anos de minha vida. O instinto de auto-reparação proibiu-me uma filosofia de pobreza e desalento. Afasta-se de Schopenhauer. 

O autodomínio e o autoconhecimento está no corpo. O cristianismo baniu o corpo da cultura. O físico e o psicológico tem relação com a nossa forma de pensar. A vontade de poder é o fazer-se a si próprio. 

Nietzsche libertou-se das tradições e das opiniões que não eram suas. Condena-se a uma solidão selvagem. Renuncia a seu lugar de professor na Universidade e muda-se para St. Moritz nos Alpes Suíços. Nos próximos dez anos viverá no verão nos Alpes e no inverno na Riviera francesa ou italiana. 

O super-homem é transcender-se a si mesmo, superar-se, buscar um novo caminho, mas dentro do que é humano. O Nazismo corrompeu isto por causa da irmão de Nietzsche, Elisabeth, que promovia o ideal ariano. Mas o super-homem de Nietzsche não é o homem superior, a raça superior. É o humano, a humanidade que está incluída nisto. 

Em 1888 vai viver em Turim na Itália. Em janeiro de 1889 sofre um colapso em uma rua de Turim. Foi para um sanatório e depois para a casa de sua mãe. É declarado louco e sua irmã cuida dele em Weimar. Morreu em 1900 de uma infecção pulmonar. 

Elisabeth controlou por 30 anos o legado literário do irmão e tentou promover falsamente o filósofo como um pensador nazista.

Participam do documentário:
- Ronald Hayman - Biógrafo de Nietzsche
- Leslie Chamberlain - Biógrafa de Nietzsche
- Andrea Bollinger - Arquivista
- Reg Hollingdale - Tradutor
- Will Self - Escritor
- Keith Ansell Pearson - Filosofo





quinta-feira, 13 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: JACQUES LACAN - A PSICANÁLISE REINVENTADA - 2001



Direção: Elisabeth Kapnist - 2001
Título Original: Jacques Lacan: La psychanalyse réinventée
Duração: 62 min


Escrito por Elisabeth Kapnist e Elisabeth Roudinesco


Baseado no livro: Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento de Elisabeth Roudinesco. 

Documentário francês patrocinado pelo Ministério da Cultura da França

O documentário inicia-se com Lacan chegando para um conferência em Louvain em 1972. É composto por depoimentos de vários intelectuais e psicanalistas que participaram deste momento que eles chamaram de movimento inventivo (Pontalis) e de partes com Lacan falando.

Lacan fala do estado do espelho quando o bebê se espelha no outro, o que o leva a dizer que o moi (eu) é um resultado do outro.
Ele não se situa mais no universo clássico da representação, mas no universo da pintura moderna - como Picasso em relação à pintura clássica - onde as representações estão fraturadas, fragmentadas como um nariz que se move e não se encontra no centro do rosto, e também no do Barroco. É um Freud desmedido.

Jacques Lacan nasceu no dia 13 de abril de  1941 em Paris de uma família burguesa católica. Estudando Nietzsche e Spinosa ele rejeita o catolicismo. Dirá que o uso do uniforme da escola lhe trouxe a convicção intima de que os mais violentos machucados, marcas psíquicas surgem sempre do interior da coletividade submissa a maior normalidade.

Ele irá estudar psiquiatria e se interessa pela paranoia - psicose. Freud comparou a paranoia a um sistema filosófico (por ser uma loucura coerente) e Lacan fez dela um modo de razão lógica inscrito no coração da personalidade humana. Sua tese será sobre a paranoia - o caso Aimée.
A suposição do paranoico é que qual seja a desordem das aparências tem que ter em algum lugar um real escondido do qual ele está absolutamente certo e que lhe dá seu senso, sentido, a tudo que ocorre e este real é geralmente um complô ou um crime preparado contra ele. Lacan fala da paranoia como algo que esclarece a estrutura do desejo de conhecer. Quando queremos conhecer as coisas obscuras somos necessariamente paranoicos. E isto fascina Lacan.

1932 - Aimée agride uma artista comediante - ao atacar a artista ela atacou seu ideal de eu ao qual ela se identificava mais.
1933 - Irmãs Papin - atacam o ideal de mestre que tem em si. ( as irmãs assassinaram sua patroa e a filha desta).

Sobre esta loucura feminina Lacan dirá que é um teatro da crueldade surgido desde tempos imemoriais.

Em 1934 Lacan casa-se pela primeira vez. Tem três filhos: Caroline, Thibaut e Sibille. Três anos depois de casado apaixona-se por Sylvie Bataille que está separada, mas ainda casada oficialmente com George Bataille e com quem tem uma filha - Laurence, que irá se tornar uma psicanalista. Em 1941 nasce Judith, filha de Lacan com Sylvie. Ele se casará com ela após o fim da segunda guerra.

Os Seminários eram um movimento inventivo onde todos sentiam-se participando. Após a Segunda Guerra Lacan abandona os filósofos alemães como Hegel e se volta para a estrutura simbólica da subjetividade. Apoia-se em Claude Lévi-Strauss e Roman Jakobson para fazer do inconsciente uma cadeia de significantes.

O estudo de Lévi-Strauss - As estruturas elementares do parentesco - mostra que a interdição do incesto (uma ruptura, obediência à lei) faz a passagem da natureza para a cultura. O Incesto é algo que o ser humano deseja e por isto deve ser proibido, interdito. As relações de parentesco é estrutural - determina a estrutura simbólica da sociedade,através das regras que devem ser seguidas. Regras estas que atuam no inconsciente.

Lacan também se apoia nos linguístas, como Jakobson e Ferdinand de Saussure. Quando falamos mobilizamos numa ordem absolutamente aleatória estruturas, ou seja, diferenças (de fonemas, de palavras). Estas diferenças se articulam segundo uma lógica. A cura analítica exibe esta lógica. Esta cadeia de significantes não se fecha, como uma pulseira, ela explode o fecho, e se se fecha é sobre um termo ausente.

Foi em 1953 em Roma, cidade pela qual Lacan é apaixonado (interessante que Freud também tinha uma ligação muito forte com a Itália), que ele definiu os três termos maiores - Real - Simbólico e Imaginário.
No qual o S - Simbólico é o que nos determina pelas estruturas. O R - Real - é o que escapa a simbolização (as loucuras, as pulsões, o ilimitado) e o I - Imaginário que é o lugar das ilusões do eu, mas atenção, estas ilusões existem, vivemos num mundo de ilusão, de representações.
É o Real que suscita o Imaginário e o Simbólico.

No quarto episódio Lacan fala e diz que por um tempo acreditamos que os psicanalistas sabiam alguma coisa. Mas não é mais assim. O cúmulo dos cúmulos é que eles mesmos não acreditem mais, no que eles estão errados, porque justamente eles sabem um tanto. Só que exatamente como para o inconsciente na sua verdadeira definição, eles não sabem que o sabem.

Em 1950 Lacan cria o tempo lógico na análise o que irá criar muitas controvérsias. É o tempo variável na sessão de análise, que com o corte fará o paciente perder menos tempo pronunciando palavras vazias. O tempo de uma sessão desde Freud era estabelecido em torno de 50 min. Lacan fazia sessões que duravam poucos minutos.

Em uma de suas aparições no documentário Lacan diz: A transferência é o amor. Por que amamos um ser igual? e deixa a questão no ar.

No final da vida Lacan começa a falar cada vez menos. É como se estivesse no Real. Talvez o real da morte que se aproxima. Ele dirá a morte - é do domínio da fé. Ele faleceu em 09 de setembro de 1981.

Participaram do documentário:

- Maria Belo - Psicanalista
- Jacques Derrida - Filosofo
- Christian Jambet - Filosofo
- Juliet Michell - Psicanalista
- Jean Bertrand Pontalis - Psicanalista
- Elisabeth Roudinesco - Historiadora.

Elisabeth Kapnist 

Elisabeth Roudinesco nasceu em 1944 em Paris, França 


Jacques Lacan 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: POR DENTRO DA MENTE MEDIEVAL - Conhecimento - 2008


Documentário da BBC 
Título original: Inside the Medieval MInd - Knowledge - 2008 

Sinopse da série: o especialista em Idade Média, Prof. Robert Bartlett, apresenta uma série que analisa a forma que o homem pensava durante a época medieval. Para os nossos ancestrais, o mundo parecia ser misterioso, até encantado, ver homens verdes, com cabeça de cães e seres estranhos era algo comum. O próprio mundo era um livro escrito por Deus. Mas à medida que a Idade Média aproximava-se do seu fim, ele se tornou um lugar para ser dominado e explorado. Série em 04 episódios.

São quatro episódios que no link abaixo estão juntos falando sobre o conhecimento na mente medieval.

No período que conhecemos como Idade Média, e não precisamos lembrar que se trata de uma divisão para facilitar os estudos, as ideias no Ocidente eram sufocadas pela religião, porém assim mesmo havia exploração, ciência, não condizendo com as trevas que alguns atribuem a este período.

O importante é compreender como era a visão de mundo das pessoas naquela época, muito diferente da atual. Eles tinham muitas visões de seres estranho, mas isto não é folclore, para eles era fato, verídico.

Na Catedral de Hereford existe um mapa mundi de 1300 feito sobre o couro de um bezerro onde o que vemos não é exatamente um mapa como o compreendemos hoje que nos indicaria os lugares e como fazer para ir de um lugar a outro, não era isto, este mapa mostra como eles imaginavam a terra. Jerusalém é simbolicamente o centro deste mapa, temos então 03 continentes, o oriente na parte de cima e a Europa e África na parte de baixo. Os locais são simbolizados por gravuras, como por exemplo a Rússia por um urso. Também temos neste mapa o tempo e o espaço, com imagens de Adão e Eva, da crucificação de Jesus, e também do futuro com o juízo final. O que se nota é que o natural e o sobrenatural coexistiam pacificamente.



Eles se utilizavam da lógica e da observação para ver a forma como as coisas encontram seu lugar num mundo inteiramente religioso. Para a mente medieval um fato podia ser ao mesmo tempo natural e sobrenatural, eles não faziam esta divisão. Um eclipse era ao mesmo tempo um fenômeno natural e um sinal divino.

Os bestiários é outra coisa maravilhosa daquela época. São livros escritos à mão com desenhos magníficos descrevendo a natureza, mas não como nós faríamos, pois a natureza não é vista de forma independente, e o que os seres representam é uma mensagem para o homem moral e espiritual.

Porém tem início o desencantamento do mundo. Surgem as primeiras Universidades que é talvez o maior legado da Idade Média para o conhecimento. Neste momento também temos as guerras cristãs e eles invadem Toledo na Espanha onde estavam os muçulmanos retomando-a. Toledo era um centro de artes e ciências com bibliotecas maravilhosas. Os europeus irão descobrir então Aristóteles que lhes era desconhecido e isto irá causar uma revolução intelectual, uma vez que os gregos buscam explicações para o universo que não incluem um Deus cristão que criou o mundo em sete dias. Para os gregos não houve a criação, e eles acreditam que o Universo sempre existiu e sempre vai existir. Obviamente que isto suscita uma reação cristã e é proibido ler Aristóteles sob pena de excomunhão. 

Será preciso São Tomás de Aquino para reunir tudo isto fazendo uso da razão dos gregos para explicar a revelação divina. Assim surge a Escolástica. 

Este encontro com o mundo muçulmano também trará outras informações e descobertas na ciência, na química, álgebra e principalmente os números arábicos, pois fazer somas com os números romanos não é algo fácil. 

Aos poucos se vai passando da contemplação maravilhada à consciência do domínio. O tempo que antes era medido por fatos irregulares diários, refeições, missas, marés altas e baixas, passará a ser medido de forma precisa através dos relógios mecânicos. 

Mas ainda há mais por vir. Quando entram em contato com os mongóis e a China e todo o conhecimento que este povo possuía. Marcos Polo um italiano escreverá sobre as maravilhas que viu, apesar de poucos acreditarem nele na época. E depois virá outro italiano, Cristóvão Colombo que descobrirá a América e pensará que chegou ao éden, ao paraíso. 

O interessante é notar que as indagações medievais como por exemplo sobre os anjos ocuparem um mesmo espaço ou não são as mesmas que a física quântica faz hoje. 

Sempre fui fascinada pela Idade Média, por seu imaginário, sua visão de mundo, suas construções, os livros manuscritos e os desenhos. Este documentário é muito bom e nos mostra um pouco de tudo isto. 




Robert Bartlett nasceu em 1954. É um historiador e medievalista inglês. Atualmente ocupa o cargo de Professor de História Medieval na Universidade de St. Andrews. É especialista em colonialismo medieval, culto dos santos e sobre a Inglaterra entre o século XI e XIV.

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR - UMA MULHER ATUAL - 2008



Direção: Dominique Gros - 2008 
Duração: 51 min 
Título original: Simone de Beauvoir une feme actuelle 


Documentário sobre Simone de Beauvoir com alguns apanhados de momentos de sua vida enfocando mais o período do pós-guerra, a guerra da Argélia, sua ida para os Estados Unidos, e principalmente seu livro O Segundo Sexo e sua autobiografia que ela escreveu em vários volumes.


Escolhi iniciar meu blog com Simone de Beauvoir devido sua forte influência em minha vida e formação intelectual quando eu tinha 20 e poucos anos. Li toda sua autobiografia a começar por Memórias de uma moça bem comportada onde fala de sua infância até seu encontro com Sartre e a morte de Zaza, sua melhor amiga.

O documentário fala sobre sua militância política e suas posições a favor da independência da Argélia indo contra a vontade da França o que a colocou numa posição delicada perante os franceses, mas ela não recuou, era contra o colonialismo. Também se opôs a guerra do Vietnã. Na segunda guerra ela era contra os nazistas e os colaboradores, porém não encontrou uma forma de agir contra isto, o que não ocorre mais depois quando se manifesta, assim como Sartre.

Simone escreveu O Segundo Sexo que foi um dos marcos iniciais, senão o principal, do movimento feminista defendendo a liberdade da mulher. Ela dizia que uma mulher oprimida e em casa também oprime seu marido que ao invés de estar engajado irá ficar em casa e ver televisão, alegando desta forma que era de interesses políticos a manutenção da opressão. Sua famosa frase "Não se nasce mulher, torna-se mulher" ela irá estendê-la aos homens também, dizendo com isto que não é um destino biológico, mas social e cultural e que é possível romper e construir sua própria vida.

O Documentário também falara de sua vida amorosa, e traz a tona o fato de que ela e Sartre deixaram de ter relações sexuais depois de 7/8 anos juntos, mas mantiveram uma vida sexual ativa com outras pessoas. Se por um lado Simone irá se relacionar com mulheres para oferece-las à Sartre, por outro viverá um grande amor com Nelson Algren, um escritor americano. Terá também relacionamentos amorosos com Bost e Claude Lanzmann.

São feitas leituras de suas obras, escritos, cartas, mas ela também surge no documentário falando. Pela primeira vez vi Simone com os cabelos soltos e pude perceber uma beleza que ainda não havia notado, uma vez que normalmente suas fotos ela está de turbante ou com um coque. Há uma beleza delicada em seu rosto com os cabelos soltos.

Ela sempre dizia que se devia dizer tudo, toda a verdade. Acreditava que podia encontrar a verdade, o que eu pessoalmente não acho possível. Não se constrangia para dizer ao outro tudo, mas esquecia que o outro nem sempre se sentiria bem com isto, da mesma forma que ela reconhece que o acordo que ela tinha com Sartre e que faria com que nunca se separassem havia esquecido o outro, e isto trouxe sofrimento, principalmente para Nelson Algren e para algumas mulheres na vida de Sartre.

Simone também escreveu sobre a Velhice. Quando ela se viu diante deste momento opta por então apreender tudo sobre isto e ficará chocada com o que vai ver e depois escreverá em seu livro.

Seu pior momento foi a morte de Sartre. Foi internada e muitos acreditaram que ela não sobreviveria, mas ela conseguiu e retomou a vida. A vida que quando jovem ela pensava que a tinha toda para viver, para descobrir na velhice que ela não é algo que temos, mas algo que passa.

Foi uma filosofa existencialista e foi uma grande pensadora. Escreveu romances onde se expunha de outra forma, escreveu sobre sua vida e escreveu livros sobre a Mulher, a Velhice que foram marcos iniciais em grandes mudanças que  teriam início e continua atual, pois ainda não podemos dizer que a mulher atingiu sua emancipação, e nem podemos dizer que os velhos são considerados como pessoas sábias que merecem todo o respeito, e que são capazes de decidir e também de desejar.


Assista: http://tvhumana.com/2014/05/28/selecao-humana-simone-de-beauvoir-pensadora/

Dominique Gros nasceu em 1951 na França. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

FILME: IRREVERSÍVEL - 2002


Direção: Gaspar Noé - 2002
Duração: 94 min
Título original: Irréversible

Um filme forte e que causa um grande desconforto. A violência inicial do filme com a câmera se deslocando a todo instante, a cena do estupro que é crua como nunca vi filmada.

Os deslocamento da câmera no início do filme  nos colocam no contexto, a angústia, a raiva, o ódio, a vingança, a busca pelo criminoso, Pierre (Albert Dupontel) e Marcus (Vincent Cassel)  estão perdidos, agindo no impulso, ou melhor, pela pulsão. O mundo deles mudou. Estão desesperados atrás do homem que estuprou a namorada de Marcus, ex-namora de Pierre, Alex (Monica Bellucci).

Mas o mais interessante do filme é como ele nos conta a história retornando cena após cena ao antes, mas não como normalmente se faz com um crime no início e depois a história volta lá no começo para então seguir em frente até chegar ao crime, aqui não, ela retrocede passo a passo como foi vivido, por trechos, sempre indo mais longe no antes. Não há como mudar, se repete, volta, e que angústia pensar que poderiam ter feito diferente, mas não é mais possível.

A cena do estupro é violenta, insuportável, dura em torno de 5 minutos, no real, é muito difícil de assistir.

Os personagens estão no aprés-coup, perde-se a linearidade do tempo, e isto o deslocamento da câmera nos mostra, tudo gira, em 360º, o filme retrocede sobre seus passos, nos mostra duas cenas de violência no real, e o antes que se perdeu, como diz um personagem no começo do filme e a frase se repete no final: "o tempo arruína tudo".

Não há volta, é irreversível. O trauma se instalou, não se nega, não é recalque, é ato. Há traumas que não podem ser falados, eles se repetem, eles são atos. Na análise é o que podemos chamar de uma transferência inversa onde o paciente faz o analista sentir em si mesmo o que não consegue falar, faz ele repetir o crime.
Não é possível narrar, contar a história neste filme, é através do recuo, do retrocesso no filme, das imagens, do movimento que se vê o trauma, não no linear da palavra.

O trauma não se esquece com o tempo, não é deixada para trás, o que ficou para trás é o antes que já não existe, que o tempo destruiu. A cena do estupro é terrível e ali está no tempo linear pela sua duração, mas é depois que ela se torna terrível, quando se descobre que Alex estava grávida. O choque é forte. Sentimos o mesmo ódio deles, temos vontade de matar, de destruir, e é isto que a pulsão de morte faz, destruir, se volta em torno de si mesma e destrói tudo. É um tempo próprio que a tudo destrói.

Interessante quando antes de tudo ocorrer Alex sonhar com um tunel vermelho após ela ter tido relações sexuais com seu namorado. No sonho o tunel se parte em dois. É nesta cisão, nesta ruptura entre os dois pedaços do tunel que o filme gira sem parar destruindo tudo, é naquele tempo, e não no pedaço de antes ou no pedaço do depois do tunel. Já não é possível retroceder, o "Isso" que está na cisão do tunel não há como fugir dele, não dá mais para mudar, é irreversível.

Gaspar Noé nasceu em 1963 em Buenos Aires, Argentina 

LIVRO: O INCOLOR TSUKURU TAZAKI e seus anos de peregrinação - HARUKI MURAKAMI


Murakami, Haruki. 1ªed. Obejtiva, 2014
326 págs.
Tradução: Eunice Suenaga
Título Original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão 

Tsukuru morava em Nagoia e fazia parte de uma comunidade de cinco amigos contando com ele. Os outros tinham em seus nomes uma cor, então havia Azul, Vermelho, Branca e Preta. 
Ele eram um jovem tímido, meio bobo, e estes amigos tinham uma importância imensa para ele. Havia um trato tácito entre eles de que não haveria namoros ou interesses sexuais para que desta forma não se formassem casais e com isto afetasse o grupo. Quando terminam o ensino médio todos ficam em Universidades em Nagoia, exceto Tsukuru que desde pequeno sonhava em construir estações de trem, o que aliás já trazia em seu nome Tsukuru quer dizer construir coisas, e então ele segue para Tóquio para cursar engenharia, mas todas as férias ele retorna até que no segundo ano de faculdade ao retornar nenhum de seus amigos quer falar com ele e o excluem do grupo sem dizer nada, sem explicar nada. 

Esta rejeição e exclusão será um choque e traumático para Tsukuru que durante 06 meses passará por uma crise que o modificará, mas ele consegue sobreviver, apesar que sempre carregará este peso em si mesmo, tornando-se uma pessoa que praticamente não terá amigos, e que terá namoros sempre passageiros, até o dia em que conhece Sara que irá fazer com que ele volte a Nagoia em busca de uma explicação. 

O livro nos fala de amizades e de desencontros, mas vai muito além pois nos mostrará que as coisas nem sempre são como pensamos e que vivemos sempre diante da incerteza, pois a vida muda, coisas acontecem, não podemos controlar.

Nesta volta ao passado Tsukuru passará por modificações, irá construir sua identidade fora do grupo e aprenderá a aceitar o desconhecido. Nem sempre temos as respostas para o que nos ocorre. Ele que carregava uma dor no peito aprenderá a ir desmanchando este nódulo e se abrir para a vida e para os outros, mesmo correndo o risco deste outro de repente desaparecer sem dar explicações ou não querer mais saber dele e não dizer porque.

O que Tsukuru aprende é que ele não pode mudar o outro ou fazer com que o outro lhe responda ou atenda ao seu desejo, mas que ele pode sim mudar ele mesmo, e que ao mudar ele muda o entorno, mudando a si mesmo ele pode mudar o outro em relação à ele.

Haruki Murakami nasceu em 1949 em Fushimi, Quioto, Japão. 

sábado, 8 de novembro de 2014

FILME: UM AMOR DE VIZINHA - 2014


Direção: Rob Reiner - 2014 
Duração: 90 min 
Título Original: And so it goes 

Um bom filme para relaxar no fim de semana.

Oren (Michael Douglas) é um corretor de imóveis que só pensa em si mesmo, estaciona o carro onde melhor lhe convém atrapalhando seus vizinhos, não se emociona com nada, egocêntrico e chato, que encrenca com um cachorro chegando a alvejá-lo com uma arma de paintball. Até o dia em que seu único filho aparece e lhe pede que cuide de sua filha Sarah durante o período que ele tem que cumprir uma pena na prisão.

Oren não quer aceitar, mas sua vizinha Leah (Diane Keaton) ouve tudo e acaba acolhendo a menina naquela momento, a menina e o cachorro, aquele mesmo que Oren alvejou e que seu filho encontrou e recolheu e que agora não se separa de Sarah.

A partir deste momento Oren terá que se ver com estes dois, e como não sabe o que fazer pede ajuda de Leah e em troca lhe consegue uma apresentação para mudar de emprego e poder ganhar mais.

O óbvio irá acontecer, o coração duro e egoísta de Oren irá amolecer com tudo isto e ele mudará sua forma de agir com os outros.

Rob Reiner nasceu em 1947 no Bronx, New York, EUA. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

LIVRO: GRANDE IRMÃO - LIONEL SHRIVER


Shriver, Lionel. 1ª ed. Intrínseca, 2013
336 páginas
Tradução: Vera Ribeiro
Título Original: Big Brother

Iniciei a leitura deste livro pensando em como age o psiquismo de alguém que começa a comer sem parar e engorda muito, o que o levaria à isto, mas acabei não atingindo esta expectativa o que não tira o mérito do livro que é brilhante, mas no sentido de nos mostrar como se sentem as pessoas que convivem com pessoas obesas e o que isto reflete nelas.

Pandora é a filha do meio, mas se considera a caçula em relação ao irmão, uma vez que sua irmã nasceu em um época diferente onde não compartilhou junto aos dois mais velhos de várias coisas da família. Então Edison e Pandora eram muito unidos.

Cada um seguiu seu rumo, Edison partiu cedo, aos 17 anos para tentar uma carreira de músico. Pandora foi para a faculdade e depois mais tarde conheceu seu marido com quem casou e recebendo junto os dois filhos do primeiro casamento dele que ela passa a considerar como seus. Fletcher o marido de Pandora em determinado momento vira um adepto de uma vida natureba, passando a proibir em sua casa comidas que ele considera maléficas, como por exemplo, pizza ou tortas com creme, mas adora dar uma garfada escondida nos quitutes que Pandora deixa propositalmente na bancada da cozinha quando ela faz algo assim. Ele também é obcecado por andar de bicicleta.

Pandora diante disto um dia faz um boneco que ao puxar o cordão recita tudo do jeito que seu marido fala, o que inicialmente o zanga, mas com as gargalhadas de todos ele acaba aceitando. E sem querer ela acaba descobrindo uma forma de ganhar muito dinheiro, pois aos poucos começam a chegar pedidos. Seu marido por sua vez é um marceneiro, mas faz móveis que acabam ficando muito caros e não tem mercado, então ele trabalha no porão da casa deles, mas não é o provedor do lar.

Tudo caminha desta forma até o dia que um amigo de Edison liga para Pandora pedindo ajuda em relação a ele, e esta imediatamente se propõe a recebe-lo em sua casa o que não irá agradar ao seu marido. No dia da chegada ela vai ao aeroporto buscá-lo e se surpreende diante de algo que jamais poderia imaginar, o gordo dos quais alguns passageiros falavam coisas horríveis é seu irmão.

A convivência com seu marido não será fácil o que levará Pandora a ter que tomar uma decisão.

Não posso falar mais sobre o livro pois isto tiraria o prazer de quem quiser lê-lo.

Pandora parece oscilar entre o desejo de cuidar de sua vida e deixar ao irmão a questão sobre sua obesidade e saúde, ou assumir esta responsabilidade e assim evitar a culpa que ela sente se lhe voltar as costas. Ela parece não saber encontrar uma alternativa entre estas duas situações. Ao mesmo tempo percebemos que ela tem dificuldades em aceitar seu sucesso com a empresa dizendo sempre que isto vai acabar, mas talvez no fundo o que sinta é um incomodo por ser a provedora da família enquanto seu marido faz seus móveis artesanais, mas não ganha dinheiro com isto. Ela então para amenizar isto age sem ocupar o lugar que é dela, e evita qualquer posicionamento onde ela teria que conduzir as coisas como deseja.

Ao mesmo tempo vemos no relato da história que seu irmão acabou engordando por ter perdido seu lugar no mundo do jazz e  ter se confrontado com o sucesso da irmã, que saiu até na capa de um importante revista. Pandora por outro lado não consegue sustentar isto, ela vive dizendo que não aguenta OUTRA sessão de fotos, só que ao dizer isto ela já revela seu sucesso que não consegue suportar.

A questão é:  Pandora é responsável pela obesidade de seu irmão? A meu ver não, por mais que ele tenha compensando suas frustrações que em parte ocorreram por ter perdido seu lugar no mundo musical e em parte ter perdido seu lugar como irmão mais velho o que indiretamente envolve Pandora, ela não é a responsável por isto. Mas ela não consegue lidar com a culpa que sente e isto faz o livro ser brilhante, pois ao criar uma ficção ela se expressa, expressa seus desejos, medos e culpas. Também faz uma revisão de toda sua história familiar, infância e a questão do pai que era um famoso astro da TV.

O final surpreende quando nos damos conta de como Pandora vai encontrar uma saída para seu dilema.

Lionel Shriver nasceu em 1957 em Gastonia, Carolina do Norte, EUA. É autora de Precisamos falar sobre o  Kevin que virou filme.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

FILME: VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO - 2010


Direção: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes 
Duração: 71 min 

País de origem: Brasil 

José Renato é geólogo e aceita fazer uma viagem pelo sertão do Nordeste, região semi-árida, para fazer o levantamento para a construção de um canal que sairá do único rio da região, o Rio das Almas.

Em momento algum veremos José Renato, é ele quem nos fala, conta o que está vivendo em sua vida pessoal e fala sobre a região por onde passa, até que nos damos conta que ambos se parecem, o vazio, algo seco, algo morrendo, o silêncio, tudo se repete e nada se move.

Às vezes ele precisa de gente e então se dirige para alguma cidade saindo de seu percurso. Desta forma ele vai a Juazeiro, vemos uma procissão com caminhões pau de arara, ex-votos, as casas do sertão que me encantam por sua história nas paredes, retratos da família, homenagens aos santos protetores e agradecimentos. Me chamou a atenção o colchão feito de palha e chita, uma parede onde está escrito solidão nn .

Aos poucos vamos descobrir que sua mulher amada, sua galega como ele a chama, o deixou e ele está viajando para esquecer. O que a paisagem reflete é o que ele sente dentro de si mesmo, mas ele continua, não desiste.

Sai com algumas garotas de programa e uma delas lhe diz que seu maior desejo é ter uma vida lazer. Ele pergunta o que é isto - é ficar em casa, ter filhos, ter alguém que te ame. José Renato também quer uma vida de lazer. Em um momento ele olha para os homens e se pergunta: o que estes homens fariam se fossem todos abandonados?

Ele finalmente chega à cidade de onde sairá o canal, já quase vazia, abandonada como ele. Sobe um morro e lá no topo há um monumento: Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX.

José Renato então fala que fez a viagem para se mover, para sair da paralisia, e que agora sente vontade de mergulhar na vida, como os homens que mergulham dos rochedos em Acapulco.

O interessante é que José Renato faz uma leitura de tudo que vê na paisagem e nas pessoas com o que ele mesmo está vivendo, trazendo o externo para dentro de si, mas ao mesmo tempo fazendo o movimento inverso.

O filme foi montado com as imagens filmadas ou fotografadas pelos diretores em suas viagens pelo sertão do Ceará. A voz de José Renato é de Irandhir Santos.
Karim Aïnouz nasceu em 1966 em Fortaleza, Ceará. 


Marcelo Gomes nasceu em 1963 em Recife, Pernambuco 











segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LIVRO: FRIDA KAHLO para-além da pintora - MARLI BASTOS


Bastos, Marli Miranda. Mauad X, 2010
115 páginas

Bastos faz uma análise da obra de Frida Kahlo para além da pintora pelo olhar da psicanálise.

O que se evidencia é que Frida se tornou pintora para da conta do real, o real do acidente, do seu corpo esfacelado, das suas dores. O que ela não conseguia dizer pela palavra ela pintava. Mas Frida foi além disto também, porque escrevia cartas e poesias.

Devido o acidente e diante de um corpo traumatizado que lhe restringia vários aspectos ela dá um destino a sua pulsão sexual que ao invés de se dirigir para o sexo, para o objeto sexual, se sublima e ao invés de ser recalcado se dirige para a arte.

Bastos nos faz um breve resumo da vida de Frida Kahlo, desde a infância onde sofreu com a poliomelite que lhe deixou uma perna mais fina que a outra e um pouco manca, o acidente, seu amor-paixão por Diego Rivera, sua militância política, seu amor pela cultura mexicana, e todos os casos amorosos que teve ao longo da vida. Ela não desistiu de viver após o acidente, ela não se entregou ao drama e trágico de seu estado, mas também não o negou. Ela o transpôs para a arte. Por isto os quadros de Frida Kahlo são em sua maioria autorretratos e expressões do que sentia. Ela se utiliza de cores vivas, que representam a vida, mas também a alegria do México e toda sua cultura em relação à morte. O vermelho sangue que ao mesmo tempo representa todo o sangue seja do acidente, seja dos abortos que sofreu, também é a cor da vida, a cor da paixão.

A arte nasce em torno de uma vazio, o contorna. Todo o excesso que não consegue ir a algum lugar se expressa na arte, a pulsão que poderia ficar perdida e rodopiando se canaliza para algo. A arte lhe possibilitou seguir sua vida apesar de todos os sofrimentos pelos quais passou, levando tudo que era inefável para o simbólico.

Marli Bastos é psicanalista, Mestre em psicanálise, saúde  e sociedade  pela Universidade Veiga de Almeida (UVA-RJ), é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos-SP, com especialização em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. 

LIVRO: A MULHER PERDIDA - TIM WINTON


Winton, Tim. Paz e Terra, 2009
439 páginas
Tradução: Juliana Lemos
Título original: The Riders

País: Austrália

Um livro que nos leva para as profundezas da alma, daquilo que desconhecemos de nós mesmos. Sempre achamos que conhecemos o outro que vive conosco, e mais ainda, temos certeza de nos conhecer, e de repente tudo isto muda.

Scully é um australiano que tem um bom coração, se contenta com pouco, e se esforça ao máximo para ver sua esposa Jennifer feliz. Ele não é bonito, tem uma cicatriz no rosto, é grandão, já sua esposa é muito bonita. A filha de ambos Billie compara seu pai a Quasímodo, o corcunda de Notre Dame. Ele faz todas as vontades de sua esposa, e por isto deixaram sua casa na Austrália para viver em vários lugares como Grécia, Paris, onde ele sempre trabalhava em trabalho braçais por ser ilegal e desta forma sustentar a família. Enquanto isto Jennifer tentava atingir seu ideal de eu, sonhando em ser uma artista aplaudida.

Quando finalmente decidem retornar à Austrália resolvem antes de ir embora fazer uma viagem à Irlanda, e lá Jennifer tem um pressentimento diante de um casebre de camponês e diz que é ali que serão felizes. Mais uma vez Scully atende ao seu desejo, e enquanto ela vai à Austrália com Billie para vender a casa , ele fica para reformar a casa, esperando a chegada delas para o Natal. No dia marcado ele está lá no aeroporto, feliz, mas quem surge é Billie com uma etiqueta escrita: criança desacompanhada, Jennifer não veio.

A partir daí Scully começará uma busca por vários locais para encontrá-la. Billie não dirá nada, e ele desesperado tenta encontrar sua esposa.

Scully não consegue enfrentar a realidade, e começa dando mil razões para sua mulher ter feito o que fez, nem mesmo os pequenos indícios que aparecem ao longo do livro o fazem pensar que foi abandonado. Ele fica tão obcecado que pensa que todos estão lhe escondendo algo, me lembrando aqui do médico no livro A origem do mundo, que postei recentemente.

Ele vai mergulhar no inferno. E eis que surge um Scully que também ninguém conhece, nem ele mesmo, ele vai fazer coisas que jamais se imaginaria fazendo. Será sua filha Billie de sete anos que terá que amadurecer precocemente e trazer seu pai de volta à realidade. Mas ela só o conseguirá depois que ele tiver passado por uma descida ao fundo do poço.

Jennifer não aparece ela mesma em nenhum momento no livro e vamos montando uma ideia dela através do que dizem os outros, mas é bom ficar atento, pois alguém pode realmente conhecer alguém? E o autor nos deixa sem saber qual foi realmente o motivo dela ter abandonado seu marido e sua filha.

É difícil aceitar a perda e as escolhas que o outro faz, aqui temos pai e filha tendo que aceitar o abandono por parte da esposa e da mãe, mas Billie dirá ao seu pai: você me basta! Ela aceita o real, lida com ele, apesar de também ter ficado traumatizada com isto o que se evidencia principalmente pelo seu silêncio e algumas passagens no livro onde ela pensa.

Scully em momento algum vai tratar o desaparecimento de sua mulher como um fato, o real, até mesmo procurando ajuda da polícia para encontrá-la, uma vez que ele fica sem saber nada sobre o que aconteceu.

O livro leva ambos por vários lugares como a Grécia, Itália, Paris, Holanda, mas esta descida ao inferno que Scully enfrentou poderia muito bem se passar dentro dele sem sair de onde estava.

Recomendo!

Tim Winton nasceu em 1960 em Karrinyup, Austrália. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

FILME: UMA VIDA ILUMINADA - 2005


Direção: Liev Schreiber - 2005 
Duração: 100 min 
Título Original: Everything is illuminated 

Baseado no livro de Jonathan Safran Foer. 

Jonathan (Elijah Wood) é um jovem americano que  após receber uma foto com uma corrente com a estrela de Davi decide ir até a Ucrânia atrás da mulher que salvou a vida de seu avô na Segunda Guerra Mundial. Como não fala uma palavra de ucraniano contrata um tradutor e guia, Alex (Eugene Hutz) que o acompanha junto com seu avô Alex ( Boris Leskin ) e sua cadela Sammy Davis Jr.Jr., seu cão guia, uma vez que se faz de cego.

O filme no início é leve e engraçado até, mas aos poucos, a medida que eles vão avançando pelo território da Ucrânia muitas lembranças da Segunda Guerra irão aflorar, principalmente para o avô de Alex que preferia ter esquecido tudo isto.

Jonathan tem uma estranha mania, colecionar coisas, mas sem nenhum sentido exceto as datas de quando ele coletou e que se relacionam as pessoas de sua família. Uma das peças desta coleção é um pingente que ele pegou no criado mudo de seu avô quando este faleceu. Ao olhar a foto ele reconhece o pingente no pescoço de Augustine, que seria a mulher que salvou seu avô. E também fica sabendo pela família que deveria procurar por um lugar chamado Trachembrod.

Ninguém conhece este local, mas finalmente o avô para em frente a uma plantação de girassóis e aponta uma casa e diz ao neto para ir perguntar lá. Uma senhora idosa atende Alex e após algumas tentativas ela diz para ele que ele encontrou Trachembord.



Ao entrarem na casa se deparam com muitas caixas, coleções de objetos, com datas e nomes. Como faz Jonathan. E ao lhe perguntarem se vive sozinha, diz que não e aponta para a coleção e a chama de Trachembord. Finalmente ela levara os três e o cachorro até o local onde ficava Trachembord e atualmente é sinalizada apenas por uma placa memorial com os dizeres: homenagem aos 1024 cidadãos mortos pelos nazistas em 18 de março de 1942. Então ela conta a história e o que aconteceu.



O filme é uma interação entre o passado e o presente, mas também entre alteridades, pois o avô de Alex não parece gostar muito dos judeus, e também irá surgindo no relato da história da guerra o quanto houve ucranianos anti-semitas. A cadela  que no início é violenta e parece meio insana acaba se afeiçoando a Jonathan que tem pavor de cachorros. Aos poucos o avô rabugento vai mudando, ao se confrontar com seu passado ele começa a ficar calado e taciturno, ou como diz seu neto, ele parece cada vez mais aflito.

Mas será através dos objetos que este passado irá se reconstruir, e se repetir também no presente, em ambas as coleções, aquela dos que morreram e a de Jonathan no presente. Ele tenta recuperar algo que poderia ter sido sua vida se não houvesse tido a guerra, e a senhora mantém vivo o passado através dos objetos e com isto acaba não se situando no presente, pois irá perguntar se a guerra acabou ao avô de Alex. Este por sua vez terá que finalmente se confrontar com seu passado.

No início do filme se faz uma referência ao passado como algo que deve ser enterrado e fazer parte apenas de lembranças, como memória, mas o que eles aprendem é justamente que é o passado que ilumina o presente, que tudo é iluminado pelo passado vindo de dentro para fora.

As paisagens do filme são belas, os campos, as cores, há referências ao tempo da União Soviética e a curiosidade de Alex sobre como é a América.

Liev Schreiber nasceu em 1967 em São Francisco, Califórnia, EUA

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FILME: FRIDA, NATUREZA VIVA - 1986


Direção: Paul Leduc - 1986
Duração: 108 min
Título Original: Frida, Naturaleza viva

Já havia assistido ao filme Frida de Julie Taymor de 2002 que já postei aqui no blog. Agora encontrei este que é anterior e o primeiro filme sobre a pintora mexicana Frida Kahlo.



Diferentemente do segundo filme este nos mostra fragmentos da vida de Frida nos remetendo à própria pintora que teve seu corpo fragmentado e invadido por inúmeras cirurgias após o acidente que a vitimou ainda bem jovem.

Toda sua pintura se remete a ela mesma, a sua dor e vazio que ela expressa na arte.

No filme temos Frida (Ofelia Medina) que se recorda de sua vida quando está beirando a morte. Através de seus quadros ela recorda seu grande amor por Diego Rivera (Juan José Gurrola), suas participações políticas , sua vida sentimental incluindo alguns casos com mulheres e também seu caso com Trotsky (Max Kerlow) que graças as intervenções de Diego conseguiu asilo no México e ficou na casa dos Rivera onde se encantou com a beleza e personalidade da pintora.



A solidão de Frida é profunda e o vazio de seu ventre diante do desejo de ter um filho que a leva a pintar o aborto, seu corpo mutilado, uma pessoa cindida, dividida desde a infância, pai alemão e mãe mexicana, se retrata no quadro das duas Frida(s) .

Gosto muito dos quadros de Frida, apesar da dor que está ali são vivos, coloridos, sempre com fundos de natureza, plantas ou animais. A mexicanidade de Frida que aparece na maneira como ela olha para a morte e para a dor. Uma vida que sofreu reveses desde a poliomelite que teve na infância, o acidente, sua paixão por Diego Rivera, a traição deste com a irmã da pintora, mas Frida continuou e não se entregou a uma depressão ou desistência, a dor ia para os quadros mas aquelas cores fortes ainda mostravam que estava viva.



Paul Leduc nasceu em 1942 na Cidade do México



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

FILME: AS INVASÕES BÁRBARAS - 2003


Direção: Denys Arcand - 2003 
Duração: 94 min 
Título Original: Les invasions barbares 

Rémy (Rémy Girard) está com câncer terminal. Encontra-se num hospital público no Canadá e vemos um cenário com corredores repletos de macas com pacientes. Sua ex-mulher liga para os filhos para dizer que é o fim, e pede ajuda a Sébastien (Stéphane Rousseau) que vive em Londres.

Sébastien vem com sua namorada. Num primeiro momento tem um desentendimento com o pai por querer levá-lo para os Estados Unidos onde poderia ter mais conforto e privacidade, seu pai lhe diz que ele lutou pela estatização e que agora tem que aguentar as consequências. Sébastien resolve ir embora, mas sua mãe lhe pede e recorda o quanto seu pai sempre lhe foi dedicado quando criança. Ele fica, mas resolve agir. Seu pai está só, e ele irá ligar para todos seus amigos. Também irá subornar a direção do hospital para que possa utilizar o segundo andar que está vazio e sem uso para poder acomodar seu pai ali onde seus amigos poderiam estar presentes. Para isto também terá que subornar o sindicato. Até aqui temos uma crítica a estatização onde as coisas continuam funcionando como sempre, mas sob outra máscara. Também vemos um homem que não está em boas relações com sua família, sua ex-mulher o deixou por suas traições e os filhos foram embora, cada um para seu lado. A filha também está longe, num barco no Pacífico.

Mas o filme não se prende à uma crítica social, muito pelo contrário. Os amigos virão e será neste convívio que veremos como a vida de Rémy foi boa. Ele ama a vida. O grupo se recorda de suas vidas, de todos os livros e intelectuais que leram, nos quais acreditaram, e como cada um foi passando, todas as ideologias nas quais acreditaram e que depois se mostraram tão ruins quanto o que havia antes, senão pior. Também lembrarão da revolução sexual e da vida livre que levavam buscando orgasmos e prazer no sexo. Mas será Rémy quem dirá que toda sua vida por um tempo ele dormia e sonhava que estava com uma atriz que ele tinha visto em algum filme ou na TV até o dia que ele acordou e percebeu que havia sonhado com o mar do Caribe. A velhice havia chegado.

Sébastien irá atrás de uma amiga de infância que é drogada para conseguir heroína para seu pai, pois isto o ajudaria a enfrentar a dor. A relação dela com Rémy a fará ver a vida de outra forma, pois ela não via sentindo nenhum na vida, viver para quê?

Rémy opta pela eutanásia e é um dos momentos mais tristes do filme, a despedida, mas como lhe disseram, no momento em que ele fechar os olhos outros milhões no mundo também estarão morrendo. A morte faz parte da vida.

Mas o que há de mais forte no filme é que apesar de toda esta aparente futilidade da vida, onde tudo aquilo em que acreditamos de repente de mostra horrível, onde não há sentido em nada, e no caso de Sébastien que vive no mundo atual pragmático, onde se corre a todo instante sem parar, e não se consegue desligar, até que sua amiga joga seu celular na fogueira, o que há de mais belo e válido são os laços afetivos, a família, os filhos e os amigos, aqueles com quem podemos contar na hora que precisamos. Rémy estava só e de repente se viu rodeado de pessoas. No filme isto ocorre num momento difícil, mas é bom prestar atenção e levar isto a sério, na vida o que é mais importante são os laços que nos unem uns aos outros.

Quanto ao título do filme o que penso é que todos estavam vivendo uma vida insignificante e de repente houve uma intrusão, uma invasão em suas vidas, e eles tiveram que se mexer e ir ao encontro de Rémy, e este por sua vez sofreu uma invasão em seu corpo com o câncer.

Denys Arcand nasceu em 1941 no Canadá 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LIVRO: A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA - MILAN KUNDERA



Kundera, Milan. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
134 páginas
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
Título Original: La Fête de l'insignifiance

Projeto um livro por país.
País: República Tcheca


Cinco amigos que vivem em Paris em seu cotidiano nos mostram o quanto a vida é insignificante, onde tudo se repete e não há mais individualidade. Alain chega a esta conclusão ao se dar conta que o erotismo se transferiu das coxas, bundas e seios para o umbigo que agora todas mostram, mas o que há de erótico em um umbigo? É possível distinguir uma mulher amada ou desejada pelas suas pernas, bunda ou seios, mas pelo umbigo? são todos iguais.

Charles e Calibã se divertem no trabalho organizando coquetéis onde Calibã finge ser um paquistanês. Para isto inventam uma língua, só que ninguém repara, ninguém se interessa, é um ator sem público. Ramon está interessado em uma mulher nesta festa, mas ela vai embora, e justo com quem? com o mais silencioso e apagado da festa, que parece que com seu silêncio chamou mais a atenção. Além disto ele deseja ver a exposição de Chagall, mas desiste toda vez por causa da fila. Fica irritado com isto e comenta com Alain que desde quando todos eles se interessam por Chagall? ou estariam simplesmente matando tempo devido ao tédio?

D'Ardelo acaba de receber a maravilhosa notícia de que não está com câncer, mas ao encontrar Ramon sem saber porque mente e diz que está doente. Talvez uma forma de dar alguma sentido à sua existência? Como Alain que sempre imagina como seria seus diálogos com sua mãe que o abandonou na infância e na única vez que se encontraram fixou seu olhar em seu umbigo. Um umbigo sem mãe, sem ter a quem se atar, mas que mesmo assim vai permanecer sem o corte.

Paralelamente vemos um teatro, onde Stálin se diverte apavorando seus companheiros. Ele sabe que os domina e que jamais emitiram sua própria opinião, exceto o mais tolo de todos, Kalinin que sofre de problemas de contenção de urina e precisa ir ao banheiro a todo instante,o que acaba gerando ternura em Stálin que o homenageia mudando no nome da cidade de Kant para Kaliningrado. Stálin debocha do medo  de todos que os leva a serem submissos à ele e talvez por isto goste de Kalinin que suporta até onde pode sua vontade de urinar até que molha as calças ali mesmo atendendo á sua necessidade.

Há um pequeno capítulo sobre a culpa e o eterno pedido de desculpas que vale a pena ser lido.

Um livro curto mas que diz muito. O desencanto da vida, a futilidade que reina, a insignificância de cada um de nós. O livro é um alerta. Realmente vivemos num mundo onde a futilidade, o consumismo, a mesmice é visível, porém acredito na capacidade de cada um de construir um sentido para sua vida, mesmo que seja através de um teatro, porque no fundo, a vida é um teatro, um romance de ficção que nós mesmos escrevemos.

Milan Kundera nasceu em 1929 em Brno, República Tcheca. Vive atualmente em Paris e se naturalizou francês.