quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: MUCIZE - 2014


Direção: Mahsun Kirmizigül - 2014
Duração: 136 min
País de origem: Turquia 

Baseado em fatos reais. 

Belíssimo filme, poético, paisagem deslumbrante. Em tempos onde o que mais vemos é violência, conflitos, insegurança, doenças, um filme como este é uma dádiva. 

Um professor (Talat Bulut) na Turquia é transferido para uma aldeia. Sua esposa se recusa a acompanha-lo. Ele então parte, primeiro de trem, depois de ônibus até o ponto final. Mas ali não tem nada, então o motorista lhe explica que atrás daquela montanha que ele aponta, há outra, e depois fica a aldeia. O professor então parte e chegando à aldeia é inicialmente recebido por vários homens que lhe apontam um rifle, até descobrirem que é o professor. 

Após ser recebido com alegria, o professor descobre que ali não tem nenhuma escola. Eles então vão à cidade para pedir a construção da mesma, o que não é possível. Na ida eles encontram os bandidos das montanhas, um grupo armado, mas que não é violento, eles são os leões da montanha. O professor então decide que tem que voltar para tristeza do chefe da aldeia que o acompanhou. A noite é difícil, o professor pensa nas crianças que ficaram tão felizes com sua chegada. Ele então toma uma decisão e liga para sua esposa dizendo que foi sequestrado pelos bandidos da montanha e que ela precisa lhe enviar uma soma urgente, o que ela acaba fazendo. De posse do dinheiro para a construção da escola eles compram o material e retornam. Os bandidos da montanha chegam para ajudar na construção. 

Na aldeia vive Aziz (Mert Turak) , que é filho do chefe da aldeia. Ele tem problemas, não consegue falar, não anda direito, seu corpo é torto, ele baba. Seu único amigo é seu cavalo que está sempre com ele. O professor se interessa por ele, e quando percebe que Aziz tem interesse na escola o convida para participar. É o primeiro passo na direção de uma recuperação dele. 

Os casamentos são acertados entre as famílias, é a mãe, mulher do chefe da aldeia que faz a escolha, mas tem todo um ritual para isto. E quando ela parte o filho corre em sua direção para expor seu desejo. O primeiro deseja uma mulher com dentes bonitos e uma silhueta fina. Os outros riem, e dizem que no fim será a escolha da mãe que prevalecerá. E a esposa não tem dentes bonitos. O segundo pede olhos azuis, e a esposa é estrábica. 

Um dos filhos do chefe da aldeia vive nas montanhas pois cometeu um assassinato para defender a honra de seu pai. Faz 10 anos e sua esposa e filho já não aguentam isto e lhe pedem para se entregar, o que ele acaba fazendo. No dia do julgamento os homens da aldeia estão presentes e na saída na calçada um homem tira uma arma mirando outro, o chefe da aldeia impede que o tiro acerte e o homem lhe fica eternamente grato. Tenta lhe retribuir e a única forma que encontra é dar sua filha (Seda Tosun) em casamento para o único filho solteiro dele, ou seja, Aziz. 

Não vou continuar pois é um filme que precisa ser experienciado, eu me deixei levar por ele. 

O filme é maravilhoso, daqueles filmes que te faz rir, chorar, torcer. Não há tragédias, mas tem tristezas, não tem violência, mas tem atos criminosos, ele retrata a vida, sem extremos. Apesar de haver a presença da religião, o milagre (mucize é milagre) que se opera no filme não vem de Deus, é terreno mesmo. Um filme que fala do amor e do que ele pode fazer pelo ser humano, de sua força, desde que seja uma doação, não uma cobrança ou troca. 

Rituais, roupas lindas, montanhas, a velhice, os jovens e as crianças. As mulheres, sua união, mas também sua maledicência. 

Recomendo! 

Veja o trailer:





O ritual do pedido do filho à mãe sobre sua esposa



Mahsum Kirmizigül nasceu em 1969 em Diarbaquir, Turquia

FILME: REPÓRTERES DE GUERRA - 2010



Direção: Steven Silver - 2010
Duração: 106 min
Título Original: The bang bang club
País de Origem: Canadá e África do Sul 

Baseado no livro The Bang Bang Club escrito por Marinovich e João Silva. 

Um filme que nos mostra a realidade dos repórteres de guerra. Baseado em fatos reais, é a história de um grupo conhecido como Bang Bang Club, formado por Greg Marinovich (Ryan Phillipe), João Silva ( Neels Van Jaarsveld), Kevin Carter (Taylor Kitsch) e Ken Oosterbroek (Frank Rautenbach). 

O grupo se formou na África do Sul, juntos para maior segurança, mas também unidos pela amizade, eles arriscam suas vidas para contar ao mundo toda a violência, brutalidade, fome, horrores que acontecem ao nosso redor. São as primeiras eleições livres da África do Sul após o fim do regime de Apartheid e a violência étnica impera. Greg ganhou um Pulitzer por suas fotos do confronto, mas o preço que pagaram foi muito alto. 

Foto de Greg Marinovich que ganhou o Pulitzer em 1991, um assassinato brutal cometido por apoiadores do Congresso Nacional Africano a um homem que acreditavam ser um espião do Partido da Liberdade Inkatha. 

Estes repórteres são obcecados por tirar suas fotos, mas o preço emocional, psíquico, psicológico que pagam é extremamente alto. Eles tiram fotos, mas não interveem, não fazem nada. 

Greg Marinovich 

A noite eles tentam se divertir, bebem, mulheres, tentam apagar as imagens, mas não é possível. A questão ética se impõe, a consciência cobra seu preço. Eles reagem dizendo que tiram as fotos para que elas sejam divulgadas e desta forma algo aconteça para mudar. Mas não é o que acontece. 

Kevin Carter se drogava para suportar. Ao ser afastado do conflito na África partindo para o Sudão, ele tira uma das fotos mais famosas no mundo, mas que foi o seu fim. Ele suicidou-se um tempo depois por não suportar as perguntas, ele foi cobrado por não ter feito nada pela menina, exceto espantar o abutre. E somado a isto ainda houve a morte de Ken Oosterbroek. 

Foto de Kevin Carter que ganhou o Pulitzer

Ken Oosterbroek foi atingido por um tiro durante as últimas manifestações antes da eleição. Ele morreu no local. Gren também foi atingido, mas sobreviveu. 

Ken Oosterbroek 

João da Silva continuou fotografando, em outubro de 2010 ficou gravemente ferido num acidente com uma mina no sul do Afeganistão e teve suas duas pernas amputadas, mas ele voltou a fotografar.

João da Silva 

Steven Silver 

LIVRO - ARROZ DE PALMA - FRANCISCO AZEVEDO



Azevedo, Francisco. 12ª ed. Record, 2013
362 páginas

Família é prato difícil de preparar!

E como, e todos nós temos que prepará-lo. Um belo livro sobre a família, com tudo que ela contém, amores, apoios, desavenças, ciúmes, inveja, arrogância, humildade, acordos, desacordos, e muito mais. 

Tudo começa em Portugal no ano de 1908 numa aldeia chamada Viana do Castelo. Os pais de Antonio, José Custódio e Maria Romana, se casam e ao sair da igreja recebem a tradicional chuva de arroz. Palma, irmã de Antonio ao ver todo aquele arroz no chão resolve recolhê-lo e o oferece como presente aos noivos com os seguintes dizeres:

" Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido na pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma "

José Custódio, orgulhoso, se sente ofendido, mas Maria Romana vê nisto um belo gesto de amor e guarda o arroz, arroz este que permeará a vida desta família por muitos anos, até o aniversário de 88 anos de Antonio, ou melhor, dois infinitos

Vamos acompanhar toda a trajetória desta família. A vinda para o Brasil, o nascimento dos filhos, a partida deles para outras cidades, os casamentos, o nascimento dos netos. Mas é Antonio quem  nos conta a história, é do ponto de vista dele que acompanhamos tudo, e também a história do arroz. 

Um belíssimo livro sobre família, sem ser piegas, sem ser romântico, sem ser só desavenças, mas tendo tudo isto, porque família é assim, família é um prato difícil de preparar!

Francisco Azevedo nasceu em 1951 no Rio de Janeiro 

LIVRO: O DISCÍPULO DA MADRUGADA - PE. FÁBIO DE MELO



Pe. Fábio de Melo. Editora Planeta, 2013
184 páginas

O Pe. Fábio de Melo escreve esta ficção em forma de romance para dar conta de expressar o que compreendeu sobre o Velho Testamento e a vinda de Jesus. 

O meu interesse pelo livro não é religioso, porém ele tem uma mensagem muito interessante para questões de posicionamento perante a vida e principalmente sobre a questão do trair-se a si mesmo, quando somos subjugados pela sociedade e acabamos não fazendo aquilo que realmente gostaríamos de fazer. O percurso do discípulo da madrugada é justamente se libertar deste social que impera em sua vida, sem precisar renegar suas origens judias e nem ao texto sagrado, mas retirando dele uma nova visão e interpretação. 

E este é o ensinamento que o livro traz, conseguir extrair uma nova visão de sua vida e valores, sem se renegar, mas também sem se trair. Ele também nos fala do medo, das projeções que fazemos, do pavor que temos daquilo que está em nós, mas que não conseguimos aceitar. 

Através de uma história, podemos aprender um pouco mais sobre si mesmo. 


Pe. Fábio de Melo nasceu em 1971 em Formiga, Minas Gerais

domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ILHA - OSTROV - 2006


Direção: Pavel Lungin - 2006
Duração: 112 min
Título Original: Ostrov 
País de origem: Rússia 

1942, Segunda Guerra Mundial uma embarcação soviética que carrega carvão é capturada pelos nazistas. Um jovem marinheiro em pânico acaba atirando em seu amigo por ordem do inimigo, a seguir a embarcação explode, mas não sem antes o jovem marinheiro comemorar por estar vivo. 
Em seguida vemos monges que socorrem um jovem numa pequena praia, é o marinheiro. 

1976 - uma ilha no Mar Branco da antiga União Soviética, um monastério de monges ortodoxos. Várias pessoas aguardam, desejam falar com um velho monge, Anatoly (Pyotr Nikolayevich Mamonov), conhecido por seu poder de cura e visões. É um velho estranho, ele vive afastado dos outros numa cabana onde se aquece com fogo abastecido de carvão que ele vai buscar diariamente, enquanto os outros vivem em outras cabanas com aquecimento. São pequenas ilhas ligadas por pontes de madeira. Se chamam de irmãos e são chamados por pai. O pai Filaret (Viktor Sukhorukov) é o abade. Ele se dedica a pintar a iconografia ortodoxa. 

Anatoly nunca cumpre as regras do monastério o que deixa o pai Iov (Dmitri Dyushev) indignado, mas não há o que ele possa fazer, pois até mesmo o abade aceita Anatoly como é. Agora porque este velho monge é assim tão estranho? Pela culpa que carrega, pelo remorso, por não conseguir esquecer sequer um dia o que fez por medo em sua juventude, atirar em Tikhon (Yuri Kuznetsov). Ele buscou refúgio no monastério e com Deus para tentar aplacar sua culpa, mas não conseguiu. Talvez apenas um milagre posso fazer isto e ele possa então morrer em paz. 

É um filme sobre a culpa e o peso de carregar isto por toda uma vida, por não conseguir se libertar de seu passado. 




Pavel Lungin nasceu em 1949 em Moscou, Rússia.

FILME: A ÚLTIMA RONDA DE WALLER - 1989


Direção: Christian Wagner - 1989
Duração: 95 min
Título Original: Wallers Letzter  gang
País de origem: Alemanha 

Waller (Rolf Illig)  passou sua vida trabalhando para a Estrada de ferro fazendo a ronda nos trilhos, e mesmo estando desativada ele continua diariamente percorrendo os trilhos, mas agora ele terá que deixar de fazer isto pois a Ferrovia não quer mais que ele continue. 

Ele parte para sua última ronda e a medida que avança vai se lembrando de sua vida, a cada estação, em certos locais, uma vez que aqueles trilhos são como os trilhos de sua vida, o passado e o presente, sempre os trilhos, mas como ele, a estrada de ferro também foi envelhecendo, sem uso, se no começo ainda está preservada depois ela se enche de capim, pontes estão caídas, até que se chega a um ponto onde não há mais nem os trilhos. 

Suas lembranças aparecem em preto e branco, desde sua infância, quando começou a trabalhar na ferrovia (Herbert Knaup) a morte de seu amigo na guerra, seu amor por Angelika (Crescentia Dünber) com quem teve uma filha, Rosina (Sibylle Canonica), a morte de Angelika no parto, e a dor que ele carregou por toda sua vida por isto. Sua luta para ficar com a filha e criá-la. A medida que caminha as lembranças lhe vem até que chega ao fim dos trilhos. 

Como a vida as coisas também mudam, e se por um lado pode-se se falar em progresso, de outro é a velhice que surge e deixa atrás de si os trilhos percorridos na vida. 

Um filme contemplativo, melancólico, mas que ao mesmo tempo demonstra a riqueza da vida. 




Christian Wagner nasceu em 1959 na Alemanha

sábado, 30 de maio de 2015

FILME: CARTEIROS NAS MONTANHAS - 1999


Direção: Jianqi Huo - 1999
Duração: 88 min 
Título Original: Nashan naren nagou 
País de origem: China 

Baseado no conto homônimo de Peng Jianming. 

Filme belíssimo.

Um homem (Ten Rujun) foi carteiro durante anos nas comunidades rurais nas montanhas da China e chegou o momento de se aposentar. Ele então entrega seu trabalho para o filho (Ye Liu), mas acaba acompanhando-o em sua primeira viagem que seria a última do pai. 

Durante a caminhada ambos vão pensando, o filho no que ele sentia quando criança e seu pai estava sempre ausente, o  pai sobre a saudade que ele sentia. A mais bela cena que toca a alma é quando o filho carrega o pai nas costas para atravessar um rio. É o momento da inversão, onde o filho passa a carregar o pai e se torna homem, enquanto o pai percebe isto e ao mesmo tempo sua velhice. 

As paisagens são lindas. Filmado em Suining County e Dao County, no sudoeste e sul do Hunan e uma parte do filme se passa em uma aldeia do povo Dong, incluindo um festival à noite com uma dança lusheng. 

Além do pai e do filho segue junto o cão fiel da família, um pastor que conhece o caminho e participa da entrega avisando com seus latidos que o correio chegou, pegando no ar uma carta que voou com o vento, chamando com os latidos o rapaz que joga uma corda. 

Aos poucos o filho descobre que o trabalho não se limita a entregar cartas, mas há toda uma relação de afetos entre os aldeões e o carteiro. Ele questiona algumas coisas que o pai mantém e são tradicionais, como por exemplo, porque não pegar o ônibus nos trechos que não tem ninguém, por outro lado o pai também aprende com seu filho. 

Vale a pena assistir.





Jianqi Hou nasceu em 1958 em Pequi, República Popular da China 

TEATRO: SEMO POLACO NON SEMO FRACO


Direção: Juscelino Zilio

Uma comédia inspirada na cultura polonesa, da qual descende o autor (Gláucio Karas) contada por Isidório Duppa, um agricultor solteirão que se envolve com Keith Lua, uma garota de programa. Como a relação acaba não dando muito certo ela vai embora, mas ele recebe a conta pelo programa de 14 dias. Ao dizer que não vai pagar é ameaçado por Trambolhão e Isidório saiu pelo mundo contando sua história. 

Já sua irmã, Flortcha Duppa, está tentando a vida na cidade e acaba conhecendo Trambolhão por quem se apaixona. 

Elenco: Ademar Volpi, Ana Paula Machado, Edy Nascimento, Gláucio karas e William Barbier. 

Produção: EnCena Produções Artísticas. 

Veja alguns momentos:



sexta-feira, 29 de maio de 2015

FILME: UM DOCE OLHAR - 2010


Direção: Semih Kaplanoglu - 2010
Duração: 103 min
Título Original: Bal 
País de origem: Turquia 

Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2010.

Yusuf (Bora Altas) vive com seu pai Yakup (Erdal Besikçioglu) e sua mãe Zehra (Tülin Özen) numa região montanhosa da Turquia. Seu pai é apicultor e ensina o filho a ler para que ele possa melhorar na escola. o menino tem dificuldade de pronunciar as palavras, exceto quando fala baixinho com o pai. Com a mãe ele fala muito pouco. É reservado, está sempre sozinho ou com o pai, não brinca com as outras crianças. Mas seu olhar fala, diz tudo. O maior desejo de Yasuf é ganhar a condecoração de boa leitura que o professor oferece aos alunos quando eles lêem. 

Yusuf sempre acompanha o pai e o ajuda, porém quando as abelhas diminuem ele tem que partir para mais longe e ele não pode ir junto. O que era previsto para demorar uns dois dias começa a demorar e mãe e filho ficam sem notícias de Yakup o que os preocupa. Começam a procurar sem sucesso até que a mãe vai a uma delegacia pedir ajuda. 

É um filme de poucas palavras, contemplativo, lento, com as paisagens da floresta, das montanhas, o tempo, o clima, a vida simples destes montanheses. Praticamente não há trilha sonora, apenas os sons da natureza, da chuva, dos passos, do vento.

O ator infantil Bora Altas é excepcional. Sua expressão de sofrimento ao ler, de ciúme ao pensar que o pai deu o veleiro que fez ao primo, de orgulho ao ajudar o pai, e acima de tudo seu olhar. Quando a mãe chora pelo desaparecimento do marido, ele que nunca gostou de leite, bebe o copo todo e olha para a mãe. Singelamente ele deseja que ela fique contente, que pare de chorar. O olhar dele neste momento é maravilhoso. 


Semih Kaplanoglu nasceu em 1963 em Esmirna, Turquia

FILME: ELA NÃO CHORA, ELA CANTA - 2011


Direção: Philippe de Pierpont - 2011
Duração: 78 min 
Título Original: Elle ne pleure pas, elle chante
País de origem: Bélgica e Luxemburgo

Adaptação da autobiografia de Amélie Sarn 

Excelente filme sobre o abuso sexual infantil, no caso incesto, e suas consequências, traumas, e de como as pessoas reagem à isto.

Laura (Erika Sainte) fica sabendo que seu pai sofreu um acidente e está em coma no hospital. Ela então revolve voltar e vai visitá-lo. É o momento do acerto de contas ou até mesmo de se vingar.

Laura sofreu abuso sexual na infância por parte de seu pai e sofre com as consequências disto. Ela tem dificuldade de se relacionar, de amar, em sua sexualidade. Carrega a dor e o ódio. Quando vê seu pai em coma começa a falar com ele, sobre tudo o que sente e o que pensa dele, ela revive o que ele fazia com ela, lembra de suas palavras - de ele a amava e que nunca lhe faria mal. Ela sentia medo, deixava e ficava quieta pois achava que ele iria deixar de ama-la se não se submetesse. Agora ela sabe que ele fazia isto para fazer com que ficasse quieta. Ela lhe diz que não acredita que ele não esteja escutando, que esteja em coma, que ele sempre faz de conta, finge. 

Ela deixou sua casa e foi morar sozinha num apartamento, tem um namorado, aliás teve vários que sempre terminam. A relação dela com o rapaz é estranha, ela o chama a noite e o manda embora de manhã. É como se repetisse tudo de novo, durante a noite. Ele gosta dela, mas não compreende o comportamento dela. 

Sua mãe fica feliz por ela ter voltado, seu irmão também. Ele tem dois filhos e em um dia onde Laura fica com as crianças e menina começa a cantar uma música que fala de cama, ela se assusta, faz algumas perguntas à menina, mas percebe que ela está projetando na criança o que ela passou. Que seu irmão não precisa ser como seu pai. 

A mãe tenta se reaproximar, e vai visitá-la pela primeira vez em seu apartamento. É o momento do confronto das duas. A mãe reage pela negação, dizendo que Laura inventa histórias, imagina, e que seu pai está lutando entre a vida e a morte e ela é uma egoísta como sempre, pois só pensa nela. Ela vai embora, diz que a filha a enoja. 

Laure decide então contar tudo ao irmão que nunca soube de nada. Ele a acolhe, pergunta porque ela nunca lhe falou nada, mas a criança abusada nunca fala, mesmo depois de adulta é muito difícil falar. Mas o ato de contar ao irmão a liberta, e também de alguma maneira a faz se sentir vingada do pai, pois agora ele pode viver, uma vez que nunca mais poderá fingir ou fazer de conta. 

O filme retrata bem as consequências do abuso na infância, o silêncio, a culpa, a dor, o ódio. A reação da mãe que infelizmente é o de muitas mães que acabam negando tudo, dizendo que a filha inventou tudo, que não conseguem aceitar que seu marido, o homem que amam faz isto, e que com isto pioram a situação da criança ou da filha mesmo adulta. 

Philippe de Pierpont 

terça-feira, 26 de maio de 2015

DOCUMENTÁRIO: CONGO RIVER - 2006


Direção: Thierry Michel - 2006
Duração: 116 min

Produção Franco-belga

Seguindo os passos do explorador Stanley o documentário segue da foz do rio à fonte. Percorrendo seus 4.371 km passando pelos lugares que são os testemunhos da história tumultuosa do país, desde a colonização belga até os dias atuais e a guerra civil com o terror dos estupros perpetuados contra as mulheres. Seguindo a margem do rio vamos encontrando este povo e sua história, suas alegrias e sofrimentos, as festas, os rituais, os dramas que fazem parte da vida dos pescadores, comerciantes, viajantes, militares, rebeldes, crianças-soldados, os mai-mai, as mulheres violentadas. Um povo que busca recomeçar e recuperar sua dignidade. 

Este rio é o principal meio de comunicação e locomoção da República Democrática do Congo uma vez que devido as guerras civis a floresta se apossou novamente das estradas e cobriu os trilhos dos trens, herança do tempo da colonização belga. A medida que avançamos pelo rio, inicialmente a bordo de uma barcaça que leva o povo, animais, carga, todos alojados em cima de um pontilhão, cada um armando uma cobertura de plástico, lona, cozinhando ali, dormindo ali, vamos também tendo uma retrospectiva do período da colonização, seja em imagens em preto e branco ou através das ruínas do que ficou ali abandonado, como uma universidade botânica, palácios, barcos. Seguimos pelo rio de Kinshasa até Mbandaka por 1700 km, depois é preciso fazer um trecho por terra pois o rio se torna rápido demais e com pedras e cachoeiras, para então chegar a Kisangani e lugares devastados pelos longos anos de guerras. 

Pessoalmente não tinha muito conhecimento sobre o país exceto pelas notícias de violência contra as mulheres e sobre a colonização belga. É interessante ver a influência da catequização cristã dos colonizadores misturado aos rituais locais, até mesmo uma missa em uma igreja rezada por um bispo onde ele invoca a todos para abandonarem seus antigos rituais, no final o que vemos é uma canção ao som de tambores e o ritmo de dança tipicamente africano. 

Sobre a guerra o herói Mai Mais encontra na bíblia as justificações para tudo que fez, e eles acreditam que estão protegidos pela água para lutar, e citam a bíblia sobre isto, mas são capazes de imensa crueldade, como violentar crianças, mulheres, não por necessidade ou prazer, mas para destruir. 

É sempre interessante e instrutivo conhecer outros povos e sua cultura. Vemos apesar de tudo pelo que este povo passou uma alegria, principalmente eles adoram dançar e cantar. Lembrei-me do livro O Sagrado e o feminino de Cathérine Clément, já postado aqui no blog, sobre a questão das cerimônias religiosas, mesmo cristãs, e que as mulheres entram em transe. No filme vemos isto. Há tristeza também, crianças pequenas trabalhando, a falta de ajuda externa que faz com que este povo ele mesmo tente recuperar seu país da forma mais arcaica, braçal, mas acreditando nisto. 

É a história de um povo e de seu país, para os quais o Rio Congo é de suma importância. 

Thierry Michel nasceu em 1952 em Charleroi, Bélgica. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

FILME: O GOSTO DOS OUTROS - 2000



Direção: Agnès Jaoui - 2000 
Duração: 111min
Título Original: Le goût des autres
País: França 


O gosto do outro, o desejo do outro, a opinião do outro, a crença do outro, a visão do outro, cada um tem a sua, cada um tem seu quadro de referências e sua cultura, formação, e história. E não se mexe nisto sem fazer histórias. 

Temos vários personagens no filme. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um empresário que tem pouca cultura.Um bom sujeito, simples, mas que ao assistir uma apresentação de teatro onde sua sobrinha atuava, ele se apaixona pelo texto de "Bérenice" e também pela atriz, que por sinal é Clara (Anne Alvaro) a professora de inglês que ele havia dispensado e que agora chama de volta apenas para poder entrar em contato com ela. Ele irá tentar se integrar ao grupo de Clara, um grupo artístico, mas sem sucesso.

A esposa de Castella é Angélique (Christiane Millet), uma pessoa que ama os animais, mas que é incapaz de respeitar o gosto do outro impondo o seu e criticando o alheio. A irmã de Castella, Béatrice (Brigitte Catillon) está montando um apartamento e Clara não aceita nada do que esta deseja para sua própria casa, e quando Castella compra um quadro de um pintor do grupo de Clara, que ele realmente gostou e o coloca na sala, ela vai tirá-lo de lá. 

Castella tem guarda-costas e motorista. Bruno (Alain Chabat) atende mais Angélique, e tem uma namorada nos Estados Unidos. Ele reencontra Manie (Agnès Jaoui) que trabalha no café ao lado do teatro. Franck (Gérard Lavin) tem suas questões em relação ao antigo emprego, e acaba se envolvendo também com Manie que é independente e faz sempre o que deseja. 

Todos os personagens em algum momento experimentam o gosto do outro, o desejo do outro, seja se submetendo, seja o fazendo ser suportado pelo outro, seja o impondo. Em um momento se diz - o mais difícil é depender do desejo dos outros. Sim, em alguns momentos ficamos à mercê do outro. 

No filme a questão do gosto é apenas um pretexto para os conflitos maiores, mais profundos como a incapacidade de aceitar o outro e seus pontos de vista singulares. Se no começo todos ainda tentam manter as relações de forma artificial, ou seja, mantendo a aparência e a hipocrisia social, aos poucos tudo isto se desmonta. 

Castella assumirá que não entende nada de arte, mas gosta daquela pintura, apenas por gostar, e dirá a sua mulher que ela nunca lhe permitiu um gosto seu. Esta por sua vez procura Béatrice para desabafar e se vê diante do apartamento redecorado ao gosto dela, afinal quem vai morar ali não é Angélique. Clara terá que rever seus conceitos e maneira de olhar os outros e ser mais aberta e humilde. Manie mantém seu espaço e escolhas. O final é magistral com Bruno tocando com um grupo e adivinhem qual é a música? - Non, je ne regrette rien! de Piaf. (Não, eu não me arrependo de nada). 

Assista ao final do filme com Bruno tocando


Agnès Jaoui

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: UM HOMEM QUE GRITA - 2010


Direção: Mahamat-Saleh Haroun - 2010
Duração: 90 min
Título Original: Un Homme qui crie

País de origem: Chade

Ganhou o Prêmio do Jurí em Cannes. 

Adam (Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação e há 30 anos trabalha na piscina de um hotel de luxo na capital do Chade - Djamena, na África. O hotel acaba de ser comprado por chineses e a administração começa a agir de uma maneira diferente, onde antes contava os laços, o tempo, a dedicação, agora é uma questão prática. Primeiro é o cozinheiro que é demitido, ele que sempre cozinhou com amor, e não seguindo cardápios ou receitas sofisticadas. E Adam tem que ceder o lugar ao seu filho Abdel (Diouc Koma) e assumir o lugar de porteiro, uma situação que o fere e incomoda, pois ele considera um declínio social, ele que acreditava que seu lugar de guardião da piscina era um direito divino, principalmente por merecimento pois ele foi campeão de natação e é chamado por todos de campeão. 

O país está passando por uma guerra civil, com rebeldes ameaçando o governo, e a população precisa ajudar o governo, com dinheiro ou enviando seus filhos para lutar pelo país. Adam não tem o dinheiro e passa a viver o dilema de enviar seu filho para a guerra, sendo que é pressionado pelo líder do bairro que acaba lhe dando três dias para decidir. 

Um paralelo entre a vida de Adam e do país, que vai aos poucos perdendo toda sua beleza, tudo aquilo em que se acredita, seus rituais, suas tradições. Adam acaba entregando o filho e passa a sofrer com sua consciência, mas não conta a ninguém o que fez. Ele reassume o lugar na piscina até o dia em que a guerra chega mais perto e todos começam a fugir. A namorada de Abdel havia procurado a família, está grávida. E somente à ela Adam acaba contando o que fez. Ele então parte para buscar o filho. 

Os conflitos de Adam começam no dia que é "expulso" da piscina, seu paraíso. Até ali ele está indiferente à guerra, aos aviões que lhe passam por cima da cabeça. Ao falar com o cozinheiro demitido eles reconhecem que "nosso problema é que colocamos nosso destino na mão de Deus". Começa o desabrochar político de Adam. 

O filme é africano, e portanto não tem um enfoque ocidental. Apesar da questão do destino nas mãos de Deus ser uma referência à catequização imposta, eles não jogam a culpa sobre os colonizadores franceses. Para eles é o homem quem é o responsável por sua vida. 

O Chade vive em guerras civis e pobreza perene, mas segundo o diretor Haroum seu povo sabe que a guerra não é um ato de cima, mas uma criação dos homens.


Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Abéché, Chade. Vive na França desde 1982.

FILME: SOBRE AMIGOS , AMOR E VINHOS - 2013


Direção: Éric Lavaine - 2013
Duração: 97 min
Título Original: Barbecue
País: França 

Festival Varilux cinema francês 2015

Antoine (Lambert Wilson) sempre procurou levar uma vida boa. Fazia exercícios, não fumava, comia alimentos saudáveis, mas eis que de repente durante uma corrida com os amigos ele sofre um ataque cardíaco. Quando recebe alta o médico lhe recomenda fazer exatamente o que já vinha fazendo, o que o leva a pensar que a questão não era esta, mas talvez outra, e conclui que fazer tudo isto mas não levar uma vida boa de prazer não o protegeria de um ataque cardíaco. O médico lhe recomendou de tomar cuidado, ora é exatamente isto que sempre fez, tomar cuidado com tudo, alimentação, corpo, sua família, seu trabalho, e em agradar aos amigos e a todos. Mas isto o deixava feliz? 

Ele tem um grupo de amigos que sempre se encontram, e nas férias saem juntos. Mas neste ano um deles, Laurent (Lionel Abelanski) está com problemas financeiros, então os amigos resolvem lhe dizer que irão para outro lugar, uma bela casa que lhes foi cedida por uma conhecida. E como sempre lá estão eles todos reunidos, mesmo tendo que lidar com a questão da separação de Baptiste (Franck Dubosc) e Olivia (Florence Foresti) que apesar do combinado dela ir passar as últimas duas semanas enquanto ele iria nas duas primeiras, ela aparece já na primeira. 

A convivência que antes sempre fora levada de uma forma a agradar a todos começa a deixar Antoine irritado, e ele acaba dizendo aos outros o que pensa deles, como para seu amigo Yves (Guillaume de Tonquédec) que não suporta mais suas piadas e sua mania de mapas e localizações. Pergunta a Jean-Michel (Jérôme Commandeur) o que ele faz ali se é solteiro e ali são todos casais, e assim ele vai de um por um falando o que pensa. E assim rompe o trato amigável que existia. É quando está prestes a falar para Laurent que a casa é alugada que ele sofre um novo ataque. 

Não foi grave, mas é o momento de uma reflexão, de reavaliar sua vida e seu  modo de agir. 

O filme não é extraordinário, bem simplista até, mas assim mesmo vale a pena ser visto para que possamos sempre nos atentar no quanto é difícil as relações humanas, e que tentar agradar ao outro não é fácil, e às vezes é falso nos levando um dia a estourar o que só piora as coisas. Como diz Antoine no filme, fechar a cara é fácil, agora reverter isto nem sempre é fácil. 

Éric Lavaine 

FILME: PARFUMS D'ALGER - 2013



Direção: Rachid Benhadj
Duração: 108 min
País: Algéria 

É a história de Karima (Monica Guerritore) uma fotógrafa algeriana que vive em Paris e acaba de ter seu trabalho premiado. Desde que ela saiu da Argélia para escapar a tirania e violência do pai ela nunca mais retornou, mas recebe um telefonema da mãe falando sobre seu irmão, que aderiu a um grupo terrorista e está preso, condenado a morte. Ela então retorna ao seu país depois de 20 anos.

Neste retorno ela será então confrontada ao seu passado, aliás como se diz no filme, do qual nunca podemos escapar. Irá se recordando de sua infância, do seu irmão, de como se davam bem, mas também de toda violência sofrida vindo de seu pai. Aos poucos ela vai se reconciliar com sua família e acima de tudo consigo mesma. 

É um retorno as suas origens, suas raízes, e mesmo tendo vivido durante 20 anos em Paris, lutado por sua liberdade e independência ela irá se sensibilizar com a situação das mulheres na Argélia e sua falta de liberdade. Enfrentará seu passado em relação ao pai, mas terá que também aceitar que seu irmão não é mais aquele menino doce e fraterno que ela conhecia, sua realidade é outra agora e o que ele fez é terrível. Ela vai se apropriar de sua memória, mas acima de tudo dela mesma, do que ela é. 

Não temos como nos libertar das origens, podemos viver em outros lugares e desfrutar de uma liberdade do entorno, mas em nós vive algo que faz parte da infância, a família e um país onde nascemos com sua história,cultura e o social. O que Karima consegue fazer é um retorno a tudo isto e se reconstituir, conciliando seu lado de origem e também incluindo sua liberdade e independência. Ela vai ter que curar suas feridas que não estavam cicatrizadas como ela pensava ter feito ao não pensar no passado, e depois atar os fios de sua vida. 

Ao deixar a Argélia ela pensa esquecer tudo. Ninguém sabe nada sobre esta parte de sua vida, ela não fala nada sobre isto, nem mesmo ao homem com quem vive há 05 anos. Nunca mais falou a língua e não se interessou pelo o que ocorreu em seu país enquanto esteve fora. Ela terá que resgatar tudo isto para deixar de ser uma estrangeira em seu próprio país e se apropriar de sua identidade. 

O filme tem cenas locais muito bonitas, principalmente o jardim no começo do filme com suas árvores centenárias. 
Mohamed Rachid Benhadj nasceu em 1949 em Argel, Argélia.