sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DE UMA VIÚVA - JOYCE CAROL OATES



Oates, Joyce Carol. Objetiva, 2013 - Selo Alfaguara
Tradução: Débora Landsberg
453 páginas
Título original: A Widow's Story

Joyce Smith, esposa de Raymond Smith, casados por 47 anos, uma vida, e de repente, ela está viúva, sem esperar por isto apesar de ter havido o que ela supos serem sinais que isto iria ocorrer, mas não era previsível. Ela retorna de uma viagem e Ray está com uma gripe forte, ela o leva para o Hospital de Princeton que é o mais perto, pneumonia, ele fica internado, mas melhora, e já há a previsão para a alta quando ele sucumbe a uma infecção secundária e vem a falecer.

Choque, culpa, vazio, raiva, solidão, perder o sentido de viver, os sintomas do luto, tudo que vivemos nestes momentos de perda Oates irá nos relatar com franqueza neste livro. Toda sua dor, sua desorientação, as noites insones, a falta de energia, os amigos, as burocracias necessárias neste momento. Ela está exaurida, sofrendo, mas tem que continuar a vida.

Para quem passa uma vida ao lado de outra se ver de repente só é algo que desorienta totalmente ao que fica, ele não compreende, não sabe o que fazer, e irá a todo momento pensar: Ray faria isto, Ray faria aquilo, ele diria isto ou aquilo, o fantasma ronda, fica ali. O desejo de morrer junto, do suicídio, que Oates nos relata sob a forma de um basilisco que a persegue, aquele espécie de lagarto que zomba dela. Todo lugar onde se vai há dor e culpa: na última vez que estive aqui Ray estava junto, é estranho estar ali sem ele, ou, nunca estive aqui sem Ray, é horrível pensar que ele nunca conhecerá aquele lugar, pior ainda se ele desejava conhecer e agora não pode mais.

Ouvir condolências, ouvir as pessoas falando dele, dizendo que sentem muito, é horrível, mas se não ouvir também será horrível. Ficar em casa é ruim, mas não estar em casa também. Tudo na casa o recorda, onde compraram um quadro, a música que costumavam ouvir, ele estaria sentado ali, mas não está mais.

Sua culpa, ela se acusa de não ter feito mais, de não ter levado Ray para outro hospital, e pior, de ter sido ela a levá-lo àquele, e vê sua culpa projetada nos gatos que a estranham e se afastam como se eles soubessem que foi por culpa dela que Ray não está mais ali.

Um relato pungente sobre como realmente se sente uma pessoa de luto, o processo de separação daquele que perdemos, a parte que ele leva com ele e que não recuperamos mais, e teremos que construir algo novo no lugar. Até chegar um tempo em que as coisas se ajeitam, a separação ocorre, e a pessoa que perdemos poderá morrer, mas será sempre lembrada e amada.

Me chamou a atenção as questões culturais também, de como nos Estados Unidos após o falecimento de uma pessoa ela recebeu inúmeras cartas de condolências e presentes como flores, cestas de comida, de sucos, e como se desesperava com tudo isto. E depois ter que responder a todas estas cartas. E no caso de Oates a dificuldade que ela tinha de ouvir as pessoas falarem do marido, perguntarem dele ou falarem de sua perda, sendo que muitas vezes as pessoas anseiam por isto, por serem acolhidas, o que mostra que cada um tem sua forma de viver o luto.

Uma bela homenagem ao seu marido e a si mesma, assumindo sua dor e todas as dificuldades e desorientações, culpas e raivas que se sente no hora da perda de alguém que amamos muito, e de como aos poucos ela irá voltar a vida. Sofra por Ray, ele merece. Não só ele merece, ela também, pois é necessário viver o luto, chorar, sofrer, passar por ele para poder continuar depois.

Joyce e Raymond

Joyce Carol nasceu em 1938 em Lockport, New Your, EUA

quinta-feira, 24 de abril de 2014

FILME - JANE EYRE - 2011



Direção: Cary Fukunaga - 2011
Duração: 120 min 
Roteiro: Moira Buffini
País: Estados Unidos - Reino Unido 

Versão mais atual baseado no livro homônimo de Charlotte Brontë. 

Jane Eyre (Mia Wasikowska) é uma jovem órfã que ao procurar sua independência e esquecer os fatos tristes de sua vida consegue um emprego de governanta no castelo de Mr. Rochester (Michael Fassbender), que é um tanto perturbado e primitivo. Irão se apaixonar e ele a pedirá em casamento o que será aceito, porém no dia do casamento Jane irá descobrir que ele já é casado e que sua primeira mulher ainda vive, e no Castelo, enclausurada por estar louca. Ela foge dali, desesperada e sem rumo. Após alguns dias caminhando assim irá encontrar uma casa onde será acolhida por um rapaz e suas irmãs.

Ela recomeça sua vida nesta nova casa até o dia em que recebe a notícia que um tio lhe deixou uma herança tornando-a rica. O rapaz que a acolheu lhe propõe casamento, mas ela deseja antes de aceitar ver mais uma vez o homem que tanto amou, e retorna ao Castelo para encontrá-lo praticamente demolido por um incêndio, mas Rochester está vivo porém cego. Sua primeira esposa ateou fogo e se suicidou pulando pela janela. Ele está livre.

Nos flashbacks de sua vida antes de chegar ao Castelo de Mr. Rochester, Jane (Amélia Clarkson) era uma órfã que vivia coms seu tio materno. Sua tia Sarah (Sally Hawkins) não gosta dela e é muito cruel com a criança, além de seus filhos também o serem. Ela acaba sendo enviada para um colégio de moças. Somente depois é que irá para o Castelo, onde a Sra. Fairfax (Judi Dench) é a governanta.

Destaco Amélia Clarkson que fez Jane quando criança, está brilhante no papel.


Cary Fukunaga nasceu em 1977 em Oakland , Califórnia, EUA.


Trilha sonora de Dario Marianelli

Dario Marianelli nasceu em 1963 em Pisa, Itália. É um compositor 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: UM SKINHEAD NO DIVÃ - 1992



Direção: Suzanne Osten e Niklas Radström - 1992 
Duração: 83 min
Título original: Tala! Det är sa mörkt // Speak up! it's so dark 
País: Suécia 


O filme é uma reflexão sobre a onda neonazista que assola a Europa nos anos 90.


Jacob (Etienne Glaser) é um psicanalista judeu cuja família morreu em Auchswitz, sendo que ele e a mãe conseguiram sobreviver por fugirem para a Suécia. Sören (Simon Norrthon) é um jovem skinhead que Jacob socorre após uma manifestação. Ele resolve então oferecer sua escuta ao jovem.

As sessões entre os dois se transforma numa reflexão sobre os aspectos políticos e psicológicos do racismo. Aos poucos vai se delineando os aspectos do indivíduo que adere aos grupos, e este aspecto ao meu ver é o brilhante do filme, pois em grupo somos capazes de fazer coisas que jamais faríamos sozinhos, e analisar o grupo é diferente das motivações pessoais.

Vamos descobrindo como era o pai e mãe deste jovem que sente tanto ódio. A mãe é super protetora e se nega a enxergar o óbvio, diz que os cartazes nazistas no quarto do filho são apenas decoração. O pai é ausente e violento, e dentro de seu individualismo diz que os problemas do filho são dele, mas durante a infância deste sempre abusou de sua força com o garoto. O grupo ao qual ele pertence que são mostrados entre as sessões, são todos bêbados, violentos, sem nenhuma razão de ser. Sörer admira o nazismo, afirma que Auschwitz é uma invenção dos judeus e a compara com Hollywood. Ao invés de namorar, ele direciona seu desejo sexual para o ódio e a violência. Sua mãe em nada ajuda para que ele se interesse por mulheres, pois prefere ter o filho com ela, ou deseja que volte a ser assim.

O psicanalista também se confronta com suas questões, ele é um imigrante, que fez da Suécia seu lar, mas é judeu e apesar de possuir a cidadania, não nasceu ali. Ele também sentiu muito medo quando criança, é um sobrevivente. Mas ele não teme o confronto com o jovem, e se propõe a compreender a alguém que age como os que mataram sua família. Para isto além das sessões ele irá também adentrando o universo de Sören.

Jacob diz que por baixo do ódio está a dor, e embaixo desta o medo.

Há um medo que se generaliza, de um lado eles tem medo dos emigrantes, que se apossem de seu país, os consideram culpados por todos os problemas que ocorrem, e estes temem os ataques dos Skinheads. E ao invés de considerá-los uns loucos que precisam ser combatidos o que Jacob se propõe é a compreender o porque disto, e para isto apesar do medo não irá demonstrá-lo e não se deixará intimidar mesmo diante das ameaças do outro. E este ponto é importante, pois como dirá Sören no filme, eles precisam do medo do outro para serem fortes e poderem agir.



Niklas Radstrom nasceu em 1953 em Estocolmo, Suécia. 

Suzanne Osten nasceu em 1944 em Estocolmo, Suécia. 

FILME: A CASA DOS ESPÍRITOS - 1993



Direção: Bille August - 1993
Duração: 145 min 
Título original: The house of the spirits 
Roteiro: Bille August e Isabel Allende 
País: Estados Unidos - Dinamarca 

Baseado no livro homônimo de Isabel Allende. 

O filme nos conta a história da família Trueba no século XX no Chile. Um dos meus filmes preferidos. Esteban Trueba (Jeremy Irons) é um homem rude, que encontra um lugar onde construir sua fazenda. Em sua solidão ele acaba estuprando uma índia do local , Transito (Maria Conchita Alonso) o que lhe trará consequências no futuro. Sua irmã Férula (Glenn Close) sempre se sentiu rejeitada e ressentida por não ter podido se casar e viver sua vida, tendo que cuidar de sua mãe portadora de uma obesidade mórbida. Esteban ao notar que precisa constituir uma família fica noivo de uma linda jovem que tem uma irmã pequena Clara que sabe no momento em que vê Esteban que ele será seu marido.

Clara tem visões, ela consegue prever o futuro e prevê a morte de sua irmã o que a faz sentir-se culpada depois levando-a a fazer um pacto de silêncio e não falar mais o que deixa seus pais (Vanessa Redgrave como a mãe) e  muito preocupados. Esteban então resolve pedir a mão de Clara que já está crescida (Meryl Streep) o que ela aceita de bom grado, uma vez que já havia previsto isto, e a partir deste momento ela volta a falar. Eles terão uma filha - Blanca (Winona Ryder).

Clara simpatiza com a irmã de Esteban e quando a mães deles morre ela a leva para morar com eles o que não irá agradar a seu marido levando-o a expulsar Férula da propriedade. Clara lentamente irá se afastando do marido até morrer.

A segunda parte do filme nos traz a história do Chile e do golpe militar e as perseguições políticas. Blanca tem um namorado (Antonio Banderas) que é perseguido. Esteban apoiou os militares, mas assim que tomaram o poder ele é relegado ao ostracismo, e começa a envelhecer sozinho em sua mansão. É quando Blanca é presa pelos militares e levada à interrogatório feito pelo então filho do estupro que deseja se vingar. Neste momento seu pai terá que fazer de tudo para salvá-la dos porões da ditadura e apesar de sempre ter sido contra a amizade de infância de sua filha com o homem que hoje é seu namorado ele também o irá ajudar a escapar.

Um filme belíssimo que nos conta uma linda história de amor, mas também nos relata a história do Chile, das ditaduras da América-Latina.

Recomendo

Bille August

Trilha Sonora de Hans Zimmer


Hans Zimmer nasceu em 1957 em Frankfurt, Alemanha. É compositor.

FILME: PRINCESA MARIA - Princesse Marie - 2004



Direção: Benoît Jacquot - 2004
Duração: 190 min 
Título original: Princesse Marie 
País: França 

O filme retrata a relação da Princesa Marie Bonaparte com Sigmund Freud e como ela ajudou para que a família de Freud pudesse fugir de Viena durante a Segunda Guerra e durante seu exílio em Londres.

A Princesa Marie (Catherine Deneuve) é sobrinha-neta de Napoleão e casada com o príncipe Jorge da Grécia. Devido a sua frigidez ela se consultou com Freud (Heinz Bennent). Tornam-se amigos e quando é preciso fugir dos nazistas será ela quem ajudará financeiramente, politicamente e acolherá Freud e sua família em Londres. Ela também será uma referência para Anna Freud (Anne Bennent). 

A Princesa Marie foi a primeira psicanalista francesa e uma das poucas analisadas por Freud. Usará sua fortuna para divulgar a psicanálise na França e fez parte do grupo fundador da Associação Psicanalítica na França.



Benoît Jacquot nasceu em 1947 em Paris, França.

FILME: O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR - 2004



Direção: Charles Dance - 2004 
Duração: 113 min 
Título original: Ladies in Lavender 
Roteiro: Charles Dance 
País: Reino Unido 

Um filme belo sobre o desejo e o amor. 1936 - em uma pequena vila de Cornwell norte da Inglaterra duas irmãs que vivem juntas Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith) ao passearem pela praia após uma tempestade encontram um jovem desfalecido. Elas o levam para casa e cuidam dele.

Esta relação de cuidado irá despertar coisas adormecidas, o amor e o desejo, e ambas começam a rivalizar para conquistar o amor do jovem Andrea (Daniel Brühl) . Há cenas hilárias como a da torta de sardinhas e os comentários sarcásticos da outra irmã apenas para desfavorecer a outra perante o jovem.

O jovem que inicialmente havia perdido a memória aos poucos se lembra que é um violinista em busca de sucesso. Conhece uma jovem (Natascha McElhone) que passa uma temporada na região e que quer promovê-lo. Ele fica em dúvida se deve permanecer ali ou seguir sua carreira. Acaba optando pela carreira.

Aos poucos as irmãs terão que retomar sua vida rotineira e feliz de antes, mas este episódio ficará em suas lembranças como um doce momento e uma vivência de que o amor e o desejo não tem idade.


Charles Dance nasceu em 1946 em Redditch, Worcestershire, Inglaterra. 



Trilha sonora de Joshua Bell

Joshua Bell nasceu em 1967 em Bloomington, Indiana, EUA. É um violinista. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

LIVRO: MIL DIAS EM VENEZA - MARLENA DE BLASI


De Blasi, Marlena. Sextante, 2010
Tradução: Fernanda Abreu
232 paginas

Marlena mora nos Estados Unidos, é uma chef de cozinha e viaja para escrever artigos sobre culinária em vários locais. Ela sempre resistiu à Veneza sem saber bem porque, mas um dia ela vai e sente a força atrativa da cidade. Sem saber, um homem, Fernando a viu rapidamente de perfil e nunca a esqueceu. Tempos depois os dois irão se conhecer e será o início de uma bela história de amor, daquelas que surgem após experiências que não deram certo e é o momento de encontrar um companheiro.

O livro relata este encontro de Marlena com Veneza e com Fernando, com quem se casará deixando para trás sua vida anterior e recomeçando tudo. Mas para ele também será um recomeço pois até agora ele viveu de acordo com o que esperavam dele e não o que desejava.

É interessante ver como Marlena vai aos poucos assimilando a cultura italiana e as diferenças que surgem na maneira de ser italiano e ser americano, mas ela se entregará ao invés de resistir, e acabará uma italiana. O livro traz dicas sobre locais para se visitar e viver em Veneza e também as receitas das comidas deliciosas que ela prepara.

Ler um livro como este oferece maior percepção do que um guia de turismo sobre Veneza, gosto de leituras assim para conhecer os locais e como as pessoas vivem ali.

Marlena e Fernando 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

LIVRO: INFIEL - a história de uma mulher que desafiou o islã - AYAAN HIRSI ALI


Ali,Ayaan Hirsi. Companhia das Letras, 2007
Tradução: Luiz A. de Araújo
496 páginas
Título original: Infidel - my life

Ayaan escreveu esta autobiografia para falar de sua infância na África num mundo muçulmano e depois sobre sua fuga para o Ocidente onde passa por uma transformação em seu modo de ver a vida, fazendo uma análise lúcida e objetiva do que a religião traz para a vida de uma pessoa quando ela impõe a maneira de viver,pensar e agir como regras a serem seguidas, pois do contrário é o inferno.

Acompanhamos Ayaan por todo seu percurso de vida até seu exílio nos Estados Unidos, após a morte de seu amigo e cineasta Theo Van Gogh, morto na Holanda por um fanático, por ter feito o filme Submissão, sobre as mulheres no Islã, junto com Ayaan, quando deixam um recado em seu peito espetado com uma faca que ela seria a próxima. A comoção gerada na Holanda por este ato e as consequências de um relativismo e tolerância com uma outra cultura em um país livre, levam a cassação da cidadania holandesa dela, porém, com o apoio de seus colegas no parlamento, será revogado, e ela consegue obter o visto americano.

Há algum tempo venho me questionando sobre o relativismo. Até que ponto devemos ou não aceitar certos atos em nome da cultura? e do respeito a outro povo? quando estes atos e comportamentos são violentos, causam a morte e a mutilação de outros? Por mais que a extirpação do clitóris seja considerado cultural e praticado por várias culturas, é correto fechar os olhos à isto em nome do respeito à cultura? Não seria o respeito ao ser humano mais importante? A dor, o trauma, a falta de higiene que causa infecções que podem matar estas crianças, e a mutilação não são coisas para serem relativizadas. E sempre procuro me fazer uma pergunta: este ato traz algo de bom para todos? ou alguém está sofrendo ali?

Ayaan é criada e educada num mundo islâmico seguindo todas as suas regras, ou seja, como mulher, passou pela extirpação do clitóris, foi obrigada a casar com um homem que não conhecia, devia total obediência ao pai e depois ao marido, sem liberdade, sem poder pensar, sem escolha. Ela mesma o diz, teve sorte, muita sorte, conseguiu fugir para a Holanda logo após seu casamento enquanto esperava o visto para o Canadá na Alemanha para ir viver com o marido, conseguiu a cidadania holandesa, estudou, se formou, foi deputada, posição que lhe permitiu lutar cada vez mais pelos direitos das mulheres e por sua liberdade.

Ela irá lutar para que as mulheres não sejam mais espancadas, o que é um direito do marido no islã, para que moças e mulheres não sejam mais mortas em caso de desonrar a família, também um direito pelo islã, para que possam escolher seus companheiros, trabalhar, estudar. Não é  fácil, as muçulmanas tem medo, e mais, elas acreditam que está correto, acreditam que se agirem diferente serão punidas e irão para o inferno.

Ao ler este livro mergulhei num mundo diferente do meu de uma forma que um livro didático ou acadêmico não o permitiria, vivi o dia a dia de Ayaan, na Somália, na Etiópia, no Quênia, suas angústias, dores, os espancamentos a que era sujeita pela mãe, e até pelo professor do Alcorão que a surrou ao ponto de lhe causar uma fratura no cérebro. A morte de sua irmã, que não aguentou todos os traumas que trazia em si, e termina doente mentalmente. Aprendi a olhar este mundo e o meu de outra forma.

Acompanhei todo o processo extremamente difícil de passar do aceitar, do fatalismo, do não pensar para uma posição de raciocínio, de acreditar que se pode escolher e mudar sua vida.

"Estava empreendendo a missão psicológica de aceitar viver sem Deus, o que significava aceitar dar sentido próprio à minha vida." (...) Comportar-me bem por temor ao inferno; não ter ética pessoal."

Um livro que vale a pena ler, tanto pela história de vida de Ayaan como para conhecer um pouco mais este mundo diferente do nosso, onde sem radicalismo também há seres humanos e sua maneira de viver e ver a vida, apesar de que concordo com a autora, há coisas que são necessárias mudar. Ela teve a coragem de enfrentar o Islã e por isto foi ameaçada de morte, mas como ela mesma diz, ela nasceu num país onde a ameaça de morte é constante, seja por espancamentos, seja porque a família mata para manter sua honra, seja por doenças, pela pobreza e falta de alimentos e higiene, seja pelas guerras.

É interessante também pelo lado da cultura, da questão dos nomes, dos clãs, hábitos, comidas,  destes países, que apesar de quase tudo estar baseado na religião, ainda assim há os resquícios tribais e as diferenças locais, que infelizmente também acabaram sendo motivos para guerras entre clãs e tribos.

Não posso deixar de observar o quanto é triste ver algumas culturas mutilarem suas mulheres em função do homem e do erótico. No Islã temos a mutilação genital e encobrimento da mulher para não excitar o homem, e garantir a virgindade da moça, já na China havia o enfaixamento dos pés, que era um processo de anos extremamente doloroso, que começava aos dois anos, pois pés enfaixados provocavam um andar que era erótico e atraia os homens, e isto era bom.



Ayaan Hirsi Ali, nascida Magan, nasceu em Mogadíscio em 1969 na Somália, refugiou-se na Holanda em 1992 onde foi eleita deputada em 2003. Ameaçada de morte abandonou a Europa e vive atualmente nos Estados Unidos. Foi nomeada pela revista Times em 2005 uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. É uma das fundadoras da Organização de direitos das Mulheres - AHA Foundation.





segunda-feira, 31 de março de 2014

LIVRO: OS LADRÕES DE CISNE - ELIZABETH KOSTOVA


Kostova, Elizabeth. Intrínseca, 2011
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
536 páginas
Título original: The swan thieves

Andrew Marlow é um psiquiatra de meia idade que é reconhecido por fazer falar até mesmo as pedras, mas quando ele aceita tratar de Robert Oliver verá que nem sempre é assim.

Robert havia tentado atacar uma obra de arte - Leda, na National Gallery em Washington, mas foi impedido pelo guarda do museu sendo preso. Sua justificativa é que havia feito isto por ela.

Diante da negativa de seu paciente em falar Marlow decide investigar indo contra sua ética profissional e procura pelas pessoas com quem Robert conviveu, sua ex-mulher, sua namorada após o divórcio, na tentativa de desvendar a mente de seu paciente e descobrir porque ele fez aquilo.

Aos poucos ele irá descobrir que seu paciente sofre de uma obsessão por uma mulher que já está morta, ele a ama e passa seus dias pintando seu rosto ou a retratando em diversas situações. Ele também possui um maço de cartas antigas escritas por esta mulher que foi uma pintora no século XIX próxima dos impressionistas, Béatrice de Clerval.

Um livro que nos fala destes pintores e da arte, de artistas, mas que também busca compreender a mente do artista além da obsessão que Robert tem por esta pintora em especial.  Marlow desvendará a mente de seu paciente e o que lhe ocorreu, mas para isto terá que ir também ao México e à França, juntando aos poucos as peças deste imenso quebra-cabeça até descobrir por que Béatrice parou de pintar já que possuiu um dom maravilhoso e pintava quadros extremamente vivos e juntar tudo isto com o ato de Robert no museu.

Quem eram os ladrões de Cisne? e porque tentaram roubá-lo? Ao descobrir esta resposta ele compreende finalmente o que levou Robert a tentar destruir uma obra de arte no museu.

Um livro gostoso de ler, que abrange um mistério, mas também penetra na mente do artista, nos levando a um passeio pela arte.


Elizabeth Kostova nasceu em 1964 em New London, Connecticut. É uma romancista.Fez pós-graduação em Yale e é mestre em Belas-artes pela Universidade de Michigan, onde recebeu o prêmio Hopwood.

quinta-feira, 27 de março de 2014

FILME: PALAVRA E UTOPIA - 2000



Direção: Manoel de Oliveira - 2000
Duração: 133 min 
Roteiro: Manoel de Oliveira
País: Portugal 

Uma cineobiografia sobre o Padre Antônio Vieira.

Pe. Antônio Vieira nasceu em 1608 e veio para o Brasil em 1614. Ficou famoso pelos seus sermões. Ordenado jesuíta seus sermões denunciavam as injustiças principalmente a causa dos índios e dos negros. No ano de 1663 enfrentará o tribunal da Inquisição em Coimbra. É amigo pessoal de Dom João IV e será vítima de intrigas na corte tendo que se refugiar em Roma onde conquistará a confiança do Papa. Será o confessor da Rainha Cristina da Suécia. Retorna à Portugal e será obrigado por Dom Pedro II a passar o restante de sua vida no Brasil.



Lima Duarte representará o Pe. Vieira  na última parte de sua vida. O uso da palavra para defender os índios, negros e judeus através de seus sermões, o aspecto político de Vieira.



Manoel de Oliveira nasceu em 1908 em Porto, Portugal.
Faleceu em 02 de abril de 2015 em Porto.  

FILME: ECLIPSE DE UMA PAIXÃO - 1995


Direção: Agnieszka Holland - 1995 
Duração: 111 min 
Título original: Total Eclipse 
Roteiro: Christopher Hampton 
País: Reino Unido 

Baseado em cartas e poemas o filme reconta a história de dois poetas franceses do século XIX - Paul Verlaine (David Thewlis)  e Arthur Rimbaud (Leonardo DiCaprio).



Após a morte de Rimbaud sua irmã Isabelle (Dominique Blanc)  procura por Verlaine e lhe pede os manuscritos dos poemas do irmão para que sejam queimados. Verlaine então irá se recordar da história que viveu com o poeta desde que o conheceu em 1871 quando após receber um poema enviado por ele ficou impressionado e o convida à sua cada onde vive com sua esposa Mathilde que está grávida (Romane Bohringer). Rimbaud ainda adolescente não tem um mínimo de boas maneiras e Verlaine será seduzido por este espírito rebelde e livre. É o início de uma relação de amor violenta entre os dois que terminará com Verlaine dando um tiro na mão de Rimbaud e sendo acusado de tentativa de assassinato e sodomia é condenado e preso.

Após ser libertado Verlaine reencontra Rimbaud na Alemanha, mas este último irá embora e viajará pelo mundo indo para Abissínia (Antiga Etiópia). Devido um ferimento no joelho mal curado resultara num tumor no joelho e o obrigará a retornar à França onde terá a perna amputada, porém já é tarde, a metástase se espalha e ele morrerá aos 37 anos. Sua irmã afirma que ele se arrependeu e se confessou à um padre e por isto quer destruir os manuscritos de seus poemas imorais. Verlaine finge que irá devolvê-los e enviá-los para ela.

DiCaprio está brilhante como Rimbaud. São atuações corajosas e cruas, o relacionamento dos dois poetas, visceral, homossexual, numa época onde isto era crime. O desespero da esposa de Verlaine, a paixão deste por Rimbaud que o leva a largar tudo, e a rebeldia deste último e sua poesia que até hoje influencia escritores. Um belo filme.


Agnieszka Holland nasceu em 1948 em Varsóvia, Polônia. Trabalha nos EUA. 

Trilha Sonora de JAN A.P. KACZMAREK 

Jan A.P. Kaczmarek é um compositor polonês que nasceu em 1953 em Konin. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

FILME: CAPTIVE - EM NOME DE DEUS - 2012



Direção: Brillante Mendoza - 2012 
Duração: 120 min 
Título original: Captive 
País: Filipinas 

Baseado em fatos reais ocorridos em 2001 no brutal sequestro de missionários e turistas nas Filipinas.

O sequestro num Resort nas Filipinas pelo grupo separatista Abu Sayyaf que exigiam a independência da Ilha Mindanao, em 2001. A história é contada por Thérèse Bourgoin (Isabelle Huppert), uma francesa que trabalhava para uma organização humanitária nas Filipinas e é sequestrada por engano junto com outros estrangeiros.



O filme aborda questões que são sempre difíceis de compreender, como o refém que simpatiza com o sequestrador, outro que aceita se converter ao islã acreditando com isto estar mais protegido junto aos sequestradores, o estupro de uma delas que teve o marido morto pelo grupo, a libertação dos que pagaram o resgate, e após mais de um ano a inquietude dos que ficam por ninguém fazer nada por eles.



Thérèse enfrentará os sequestradores quando sua amiga morre para poder enterrá-la, e quando ocorre o estupro e a decisão de que ela deve casar com o agressor. Vemos os raptores culpabilizando o governo por não libertarem os reféns, e Thérèse tentando convencer uma das moças sequestradas que se interessa pelo seu captor que ele é mau, sendo que ela não o vê assim.

O exército das Filipinas tenta várias vezes o resgate, mas é um fracasso porque acabam atirando também nos reféns, e alguns morreram assim. Ao final numa operação maior resgatam os poucos que restam, mas ainda assim morrem reféns durante a ação. O sequestro acabou sendo um fiasco para os sequestradores.


Brillante Mendoza nasceu em 1960 em San Fernando City, Filipinas. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

LIVRO: SEM MEDO DE FALAR - Relato de uma vítima de pedofilia - MARCELO RIBEIRO



Ribeiro, Marcelo. Paralela, 2014 - 1ª edição
197 páginas

Um relato corajoso e franco sobre o que é ser uma vítima de abuso sexual infantil e de como o pedófilo costuma assediar, aliciar, seduzir sua vítima passando despercebido de todos. Todos os pais deveriam ler este livro, todos nós devemos ler este livro.

Marcelo relata a dor, o trauma que sofreu, trauma este que não é apenas a sua integridade física que foi abusada, mas também moral e psicológico. Os efeitos que atuam e que não são percebidos, o que é passado ao outro sem que a vítima tenha percepção, desencadeando uma cadeia muito maior de afetados. Ele também demonstra como um pedófilo, termo psicológico, e que trata de uma pessoa que está doente, que tem sérios problemas e distúrbios também, de comportamento moral, sexual, e afetivo.

É de extrema importância que livros assim sejam escritos, divulgados, pois se trata de um crime que se repete, mais comum que a maioria das pessoas imagina ou supõe, e que infelizmente prescreve, o que não deveria acontecer, uma vez que uma vítima de trauma de abuso sexual na infância levará anos para conseguir falar, se falar, enquanto que seu agressor continua com seus abusos com novas vítimas.

Por que a criança não fala? ele tenta responder a questão que é extremamente difícil, pois nem o abusado sabe direito, mas o mais evidente é o medo, a vergonha, e o fato de que de alguma forma sabe que aquilo não é certo, mas ainda não tem conhecimento sobre o sexual. Marcelo vai além, ele fala sobre a questão da repulsa/atração, não como duas coisas opostas, mas que ocorrem simultaneamente, e isto é de difícil compreensão uma vez que vivemos numa sociedade que aprende a falar e pensar através dos opostos, dos contrários e que divide as coisas, como o bem e o mal, o amor e o ódio, a atração e a repulsa, o fascínio e o nojo. Acontece que estes pares são muito mais que o verso da mesma moeda, eles podem ocorrer juntos, ao mesmo tempo, e isto reflete no corpo, na mente, sem obter resposta, criando angústia.

A resposta da sociedade e dos outros, quando a vítima fala, geralmente não acreditam, ou acham que é um desabafo, ou pior, a mulher é acusada e o homem é tratado como maricas. E eis aí mais um motivo de vergonha para a vítima e uma forma de isentar o culpado que se sente poderoso e seguro.

Muitos pensam que é um trauma que após falar, desabafar passa, tem que tocar a vida, mas nada mais longe da realidade da vítima, é todo um processo, quando é possível atingir uma cura. A vítima precisa de muito amor, confiança, acolhimento, para poder transformar isto. E mais ainda para poder compreender o agressor, o que não significa que o isenta, ao contrário, é o momento que o responsabiliza. Como isto geralmente ocorre muitos anos depois do abuso, a lei não permite que seja denunciado, e mais, a lei exige o flagrante, e isto é impossível em quase todos os casos.

Os pais devem ler, estar atentos, perceber, a criança apresenta mudanças de comportamento, se afasta dos outros, está aterrorizada com o fato de alguém descobrir, assustada, e o agressor geralmente está muito perto, faz parte da família, da escola, da vizinhança. Geralmente alguém que a criança respeita, admira, sente afeto por ela.

Marcelo foi vítima do abuso por um maestro ,  o abusador geralmente é alguém respeitado na sociedade, e justamente por isto, isento de críticas, e caso a criança consiga falar será desacreditada, e será a palavra dela e a de alguém que é querido por todos.

Recomendo a leitura.

LIVRO: NÃO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO TERMINE - Meus anos de cativeiro na selva colombiana - INGRID BETANCOURT


Betancourt, Ingrid. Companhia das Letras, 2010
Tradução: vários tradutores
553 páginas
Título original: Même le silence a une fin.

Durante a campanha eleitoral para a presidência da Colômbia de 2002, Ingrid Betancourt, então candidata, foi sequestrada pelas FARC junto com sua comitiva. Era o dia 23 de fevereiro de 2002. Ela só será libertada pelo exército colombiano em uma operação montada que enganou os guerrilheiros em 02 de Julho de 2008. O livro relata estes seis anos e meio de cativeiro.

Um relato lúcido, objetivo que trata mais de sua introspecção frente a todas as dificuldades que passou e que não foram poucas. Humilhações, ofensas, fome, doenças, a psicologia do agressor, o comportamento dos outros reféns.

No início as suas dificuldades quando se viu num mundo totalmente oposto ao que estava acostumada, e sem o poder que estava acostumada a exercer. Era uma mulher orgulhosa, segura, determinada e autoritária, que intimidava os outros, e agora aos poucos ela irá aprender a obedecer e se calar, mas o que mais me impressiona é sua capacidade de não perder a dignidade diante de uma situação onde normalmente a vítima acaba se submetendo por medo para não sofrer represálias, e Ingrid em momento algum demonstra este medo e não se deixa levar pela psicologia do opressor que pretende culpabilizá-la pelas represálias. Em um momento ela diz que é seu direito tentar fugir e recuperar sua liberdade e é função do captor tentar mantê-la presa.

Este modo de agir muitas vezes incomoda seus companheiros, seja pela inveja por ela obter o que deseja, ou seja pelas represálias que atingem a todos. Eles a consideram egoísta, arrogante. Porém Ingrid também reconhece sua mesquinhez em vários momentos, onde irá lutar por um espaço melhor, pelo prato de comida ou a fatia maior de uma torta. Como julgá-los? não devemos, cada um por si lutando por sua vida e esperando a libertação.

O livro nos mostra a face do ser humano quando está em condições limites, aprisionado, humilhado, com medo, sem recursos, sem sua família, tendo que viver na selva, em meio a sujeira, frio, umidade, animais e insetos terríveis como formigas, carrapatos, e outros que queimam como ácido, sofrendo de doenças sem remédios e recursos, sem ter sua intimidade preservada, tendo que fazer suas necessidades diante de todos, e as mulheres sem absorventes higiênicos, sem alimentação adequada baseada principalmente em arroz, além de suportar a opressão, o uso do poder por parte de seus captores. Cada um reage diferente, uns tentam se aproximar do agressor, ser simpáticos com eles querendo com isto garantir o seu, outros se afastam e se calam, se isolam, outros simpatizam e se afeiçoam ao agressor, e alguns fazem como Ingrid. Não há o que dizer, cada um se defende como pode de acordo com aquilo que é.

Do outro lado vemos uma guerrilha composta de jovens e crianças, imaturos ainda por um lado mas embrutecidos por outro. O prazer que eles obtém em usar o poder para humilhar àqueles que consideram seus opressores na vida e que os obrigaram a estar ali, é a ideologia que opera considerando os burgueses os culpados por tudo. Não que eles tenham um vida boa, muitas das mulheres aderiram para escapar à prostituição, preferem ter que estar com alguns guerrilheiros ou ser a namorada de um deles, do que se prostituir com todos, e ali pelo menos elas tem proteção e não passam fome.

Sem analisar a situação em que todos se encontram podemos ter a tendência a ver o pior do ser humano, quando aqueles que estão na mesma situação ao invés de se unirem são os primeiros a delatar o outro, a reclamar quando, por exemplo, Ingrid foi levada numa rede numa mudança de local, por estar com malária e incapacitada de andar e seus companheiros a acusavam de estar fingindo. O olhar de satisfação dos que a recebiam diante de mais uma fuga frustrada, porém a própria Ingrid consegue compreender isto, como se sente o que fica diante daquele que conseguiu a liberdade de volta. Só que ele não tenta, não se arrisca, mas irá sofrer as represálias junto em várias ocasiões.

As tentativas de fuga, que desespero, por mais que se tenha planejado, pensado, na hora o medo se apodera da pessoa. Um medo que tanto paralisa como serve de impulso. Quando eram pegos novamente, todo o sofrimento, a violência, humilhação e que os raptores diziam ser culpa dela, se não tivesse tentado fugir... Mas quem não iria querer fugir? Eles se colocam como se fossem bons e que ela se rebelou, e no entanto esquecem que são eles os agressores.

Por outro lado entre os guerrilheiros também vemos o lado bom deles, são jovens, brincam, dançam, muitas vezes eles ajudam aos reféns, mostram um lado mais humano, mas estão constantemente sob vigilância também, entre eles também há os delatores, a competição. O agressor não é o monstro, ele também tem seu lado bom. E do lado dos reféns também há cooperação, há ajuda, como quando um deles sofre um infarto e o outro lhe cede a aspirina que foi negada pelas FARC, ou o desespero de Ingrid para socorrer seu amigo diabético. As palavras que trocam, e também os momentos em que riem.


Recomendo a leitura, é uma lição de vida, um mergulho no ser humano.


Ingrid Betancourt em seu cativeiro e após a libertação.

Ingrid nasceu em 1961 em Bogotá na Colômbia. Viveu boa parte de sua juventude em Paris onde estudou ciências políticas no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Vive atualmente em Oxford onde faz doutorado em Teologia. Ela pediu uma indenização ao governo da Colômbia e tem sido muito criticada por isto, assim como sua partida para a França logo após a libertação.    

domingo, 23 de março de 2014

LIVRO: O SILÊNCIO DO ALGOZ - FRANÇOIS BIZOT



Bizot, François. Companhia das Letras, 2014 - 1ª ed.
Tradução: Hugo Mader
210 páginas
Título original: Le silence du bourreau

Face a face com um torturador do Khmer Vermelho.

François Bizot, etnógolo francês, foi sequestrado pelo Khmer Vermelho no Camboja em 1971. Foi o único ocidental a sair com vida das temidas prisões do Khmer Vermelho, apesar de ter sido condenado à morte. O feito se deu graças ao seu carcereiro conhecido como Deuch, um jovem intelectual que falava francês e que criou um laço com seu prisioneiro durante os três meses de cativeiro.

Bizot saiu, deixando seus dois companheiros e auxiliares lá, Lay e Son que seriam mortos. Somente anos depois Bizot descobrirá que Deuch era o responsável por torturar e matar mais de 40 mil prisioneiros políticos do regime de Pol Pot, e que ficou conhecido como o algoz de Tuol Sleng, a prisão e centro de execução e atualmente um museu do genocídio.

Em 2009 Bizot foi convocado a testemunhar contra Deuch nos processos do Khmer Vermelho.

O livro é o relato do questionamento de Bizot sobre sua relação com o algoz e principalmente saber como um homem comum pode se transformar em um algoz. Ele chama a atenção de todos sobre um fato que Hannah Arendt já havia trazido a tona durante o julgamento de Eichmann, o fato da humanidade do monstro, o que é muito difícil de ser aceito, uma vez que temos que aceitar que todos nós carregamos em si este lado, e que não se trata de uma aberração, algo à parte, mas de algo muito humano, e isto assusta, cria pânico, aterroriza. Como lidar com algo que não é perceptível facilmente, com o fato de que qualquer pessoa pode vir a ser este algoz? Que ele não pode ser identificado por ser diferente de todos os outros?

Esta constatação não leva ao perdão, mas à compreensão de que é fato que a grande maioria dos monstros da história, os algozes, tem outro lado, são pais de família amorosos, bons maridos, e que acreditam estar fazendo o certo, o que devem fazer, como qualquer outro em seus deveres profissionais. Eles não demonstram remorsos, não pedem desculpas.

Bizot talvez seja levado a esta lucidez mais rapidamente por ter cometido um ato de crueldade anos antes e que carrega em si, e com isto percebe que foi capaz também de ser cruel com um ser indefeso e que confiava nele, o amava. O algoz está diante de vítimas que são seres humanos, mas que não lhe dizem respeito. Em geral há sempre uma ideologia, uma crença que o livra da culpabilidade, além da desumanização da pessoa no cativeiro, transformando-o num objeto, que é mais fácil eliminar sem culpa.

Mas quando se tece uma relação entre o algoz e a vítima, não há desumanização e talvez tenha sido isto que levou Deuch a conseguir a libertação de Bizot. Ele não poderia matá-lo. Além de ter se convencido que a vítima era inocente e que dizia a verdade, não era um espião. Mas, o que leva a vítima a estabelecer o laço com o carrasco, a simpatizar com ele? o que chamamos de Síndrome de Estocolmo?

Bizot desenvolve no livro esta análise, de como o medo pode nos levar à isto, de como o fato de inconscientemente vermos no algoz algo que temos em nós nos leva a nos identificarmos com ele. A vítima se liga ao algoz e muitas vezes passa a defendê-lo e até se recusar a depor contra ele. E foi justamente isto, ao ser convocado para depor contra aquele que lhe salvou a vida, que levou Bizot a esta análise profunda.

Um livro que nos leva a encarrar que o bem e o mau não são separados, não são duas coisas distintas, mas convivem juntos em cada um de nós. O silêncio do algoz que está em nós e não se manifesta devido a máscara imposta pela sociedade que com a educação e para a psicanálise o supereu, controla nossas pulsões, mas nada garante que não possa surgir e atuar, está ali.


François Bizot nasceu em 1940 em Nancy na França. É um antropólogo especialista em Budismo do Sudeste Asiático, diretor da École Pratique des Hautes Études e catedrático da Sorbonne. Chegou ao Camboja em 1965.


Deuch durante o julgamento.