quinta-feira, 10 de julho de 2014

FILME: UMA CARTA AO PAI - 2009


Direção: Johnny Remo - 2009 
Duração: 90 min
Título original: A letter to dad

Baseado em fatos reais

Dan (Thom Mathews) está prestes a se casar e percebe que há algo não resolvido em relação a si mesmo que interfere na sua relação e casamento e que precisa se libertar do passado para poder continuar sua vida e ser feliz. Resolve então escrever uma carta ao seu pai Mike (John Ashton)  falando sobre tudo que sente, do abandono na infância e de suas dores em relação à isto.

Um filme que nos mostra que não se livra do passado tão facilmente, que ele permanece ali atuando de alguma forma e que é preciso enfrentar isto para se libertar.


Johnny Remo 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

FILME: OS BELOS DIAS - 2013


Direção: Marion Vernoux 
Duração: 94 min 
Título original: Les beaux jours 

Baseado no livro Une jeune fille aux cheveux blancs (Uma jovem mulher de cabelos brancos) de Fanny Chesnel

Dunquerque - França. Caroline (Fanny Ardant) se aposenta aos 60 anos logo após perder uma de suas melhores amigas. Fica meio perdida, não sabe o que fazer de seu tempo. Pensa em várias coisas que desejaria fazer, mas não o faz. Então suas filhas lhe oferecem de presente para participar de um clube - Les Beaux Jours, que se ocupa de pessoas de meia idade com cursos, aulas, palestras, teatro. É lá que ela conhecerá Julien (Laurent Laffite) que é um professor de informática e acabará tendo um caso com ele o que renovará sua vida, dando mais prazer ao seu cotidiano.

Caroline é casada com Philippe (Patrick Chesnais) e apesar de se darem muito bem é um casamento que já enfrenta os anos de convivência. Suas filhas se preocupam com a mãe lhe impondo coisas para fazer através de sugestões e o clube. Porém Julien que tem a idade de suas filhas lhe oferece muito mais neste momento de sua vida.

Não há julgamentos morais, Julien quer uma aventura, Caroline precisa de algo que mude sua vida, e Philippe terá que rever também sua vida e seu relacionamento com a mulher. O filme retrata o desgaste da relação conjugal, a busca de algo novo quando já se passou para uma idade onde muitos desistem e não acreditam mais ser possível uma paixão, uma aventura, fazer coisas novas e diferentes.

É notório a forma como os professores e instrutores do clube, todos jovens, tratam aos que são mais velhos como eles como se falassem com crianças ao invés de se dirigir a um adulto que já viveu muito mais do que eles. Há uma visão da cultura sobre a velhice que precisa ser contestada. Os participantes do clube, homens e mulheres querem encontrar formas de combater a solidão e o tédio, não precisam ser ensinados como se fossem crianças. Caroline o percebe e o diz, mas continua indo lá por causa de Julien, mas não se deixa levar por esta forma de ver o mundo.

Caroline irá demonstrar em seu corpo, no sorriso, sua alegria e felicidade após conhecer Julien. Ela terá outro olhar, outra maneira de olhar o mundo e o que tem pela frente ainda. A vida não se encerra na aposentadoria, e o exemplo vivo disto é quando encontra uma mulher no aeroporto que diz que ela é jovem, e ela retruca dizendo que tem 60 anos, e a outra responde que tem 84 anos, e ainda quer ir para a Islândia.

Pessoalmente me emocionei com a cena onde Caroline está sentada num banco tendo uma filha de cada lado, e ela se destaca ali, é uma bela mulher, cheia de vida, tem muito mais força e presença do que as filhas, que são jovens e sendo que uma delas não aceita muito bem esta mãe sexuada e que buscar algo novo para si.

Vale a pena assistir, um belo filme que nos mostra que a vida sempre tem algo a nos oferecer se estivermos dispostos a arriscar e mudar algo.

Fanny Ardant é viúva do cineasta François Truffaut


Marion Vernoux nasceu em 1966 na França. 

Shopie Hunger - Le vent nous portera 

Trilha sonora de Quentin Sirjacq 

LIVRO: MADAME FREUD - Um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa - NICOLLE ROSEN


Rosen, Nicolle. Verus Editora , 2008
210 páginas
Tradução: Marisa Rossetto
Título original: Martha F.

Nicolle Rosen, uma psicanalista, interessa-se por Martha Freud. Afinal quem seria esta mulher que viveu ao lado de Sigmund Freud e que parece não existir, exceto pelo fato de elogios sobre a vida doméstica, assegurando à Freud o sossego necessário para criar sua grande obra.

Rosen então resolve dar a palavra à Martha, e para que ela fale precisa de um interlocutor e assim surge Mary que ela conhece no dia do sepultamento de Freud e com quem irá manter uma correspondência assídua falando sobre sua vida e o que pensava.

É um romance porém está baseado em relatos, cartas, biografias, fotos, vários livros sobre a história da psicanálise, mas obviamente que os vazios serão preenchidos por palavras que poderiam ter sido de Martha.

Penso que se trate de um livro que deveria ser lido para se compreender o que é viver à sombra de alguém com tanto reconhecimento e que estava sempre rodeado de admiradores, discípulos e ocupava o lugar do pai, mestre, e também o de homem através de todas as transferências amorosas que suscitou. E Martha? o que ela fez de sua vida? de seu desejo?

Há passagens no livro que nos faz refletir sobre esta questão de amar e se sacrificar ao objeto amado, abrindo mão daquilo que somos e desejamos. Martha era judia e seguia a tradição e rituais em sua família, mas teve que abrir mão de tudo isto porque Freud não queria isto. Nunca era consultada para as grandes decisões e sofreu com a rivalidade com sua irmã Minna e com sua filha Anna Freud. Além de ter que lidar com a mãe autoritária de Freud a quem este era totalmente dedicado.

Freud cresceu sendo o preferido, adorado, com tudo correndo conforme sua vontade e assim permaneceu tendo grande dificuldade de lidar com aqueles que não aceitavam se submeter, como foi o caso de Jung. Até mesmo suas irmãs tinham que abrir mão de seus desejos por ele,como Anna que teve que desistir de seu piano pois o incomodava.

Ele era excessivamente ciumento e possessivo, afastou de Martha todos aqueles que ele considerava como rivais, seu irmão Eli, sua mãe, seus amigos. Mas por que ela aceitou isto? O amor? para agradá-lo? para ser amada por ele?

Mas a questão é Martha, na verdade nunca saberemos o que realmente ia em seu íntimo, mas será que foi feliz? Uma mulher que aos 35 anos tem que enfrentar a decisão de abstinência sexual por parte de seu marido, uma mulher que não participava de nada de sua vida profissional onde tantas outras mulheres estavam, que não acompanhava Freud em suas viagens, que não podia emitir nenhuma opinião.

Mas por que ela aceitou tudo isto? por que não se impôs, não lutou por seu desejo? É este o questionamento no livro quando ela está sozinha após a morte de Freud aos 85 anos. Pode uma mulher ser feliz apenas por ser casada com um homem notável?

A questão é até que ponto Martha sentiu o que a maioria das mulheres sentiria hoje, ou isto não foi uma questão no tempo em que ela viveu. Mas é válido tentar dar voz a esta mulher, uma vez que ela nunca pode falar enquanto esteve viva, tentar pelo menos dar a ela um reconhecimento após ter permanecido na obscuridade por toda sua vida.

Há passagens no livro onde é perceptível a interpretação dos fatos por Nicolle Rosen, uma visão sua sobre determinado assunto ou fato, mas que também são válidos para que se processe uma reflexão.


Nicolle Rosen é psicanalista e vive em Paris. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

FILME: A VIDA É BELA - 1997


Direção: Roberto Benigni - 1997
Duração: 116 min
Título original: La vita è bella 

Ganhou três Oscar de melhor ator, melhor filme estrangeiro e melhor trilha sonora

O Filme é dedicado à memória do pai de Roberto Benigni que foi para um campo de concentração e ao relatar sua experiência procurava amenizar as coisas para que os filhos não sentissem o que ele passou.

Anos 30/40, Guido (Roberto Benigni) é um judeu que se muda do campo para a cidade. Apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi)  e se casam tendo um filho chamado Josué Guido. Esta primeira parte do filme é leve, gostosa, cômica. Guido é alegre e brincalhão e diverte a todos. Porém a segunda guerra começa.

Guido e seu filho são capturados e levados para um campo de concentração, a mãe decide ir junto, mas será separada deles. Guido então decide amenizar esta dura realidade para seu filho e lhe diz que é tudo um jogo e que quem fizer 1000 pontos levará para casa um tanque de guerra.

Com isto ele muda a realidade vivenciada para seu filho do horror para a fantasia, da realidade para um jogo. Mas para Guido é o confronto com o Real indizível e que ele leva para a fantasia dentro de um quadro de horror e total desamparo, para que tanto ele quanto seu filho possam ainda de alguma maneira viver, o que ele conseguirá para seu filho.

Fico pensando no que ocorre a um sujeito em uma situação extrema como um campo de concentração, onde tudo que ele tinha antes, onde se sentia seguro, onde havia o familiar, desaparece. Ele não tem mais nenhum poder sobre si mesmo, está totalmente à merce do outro e de sua vontade. A realidade que se transforma num real terrível. Ele perde toda a ilusão que possuía e que dá colorido à vida e se vê diante do total desamparo. Como proteger seu psiquismo disto? a si mesmo e aos que ama?

E Josué? que viveu uma fantasia, onde ao final do filme ele se ilude achando que o tanque dos aliados que libertam o campo é seu prêmio? Mas por outro lado, qual seria o efeito devastador da crueza e o real do campo para uma criança? e quantas passaram por isto.

A questão é que Josué ao crescer irá se defrontar com a história e os relatos dos campos e irá perceber que viveu uma fantasia e pensará em seu pai. Há como escapar apesar de tudo a esta herança psíquica? principalmente quando se viveu ali? Mas ele poderá transformar esta fantasia em uma maneira de dar sentido ao que não tem sentido, ou seja, a vida. Quando se escolhe viver é preciso construir esta vida, é o desejo, e não o por que?.

Podemos tirar uma lição importante do filme, de como tentar sempre construir algo simbólico em torno do real, por pior que seja.

A atriz Marisa Paredes faz o papel de mãe da Dora.

Roberto Benigni nasceu em 1952 em Castiglion, Fiorentino, Itália. 


Trilha sonora de Nicola Piovani 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

FILME: QUANDO FALA O CORAÇÃO - 1945


Direção: Alfred Hitchcock - 1945
Duração: 118 min
Título original: Spellbound 

Filme Preto e branco 

Constance (Ingrid Bergman) é uma psicanalista em uma clínica. Sua vida é toda voltada ao trabalho e aos estudos até que chega o Dr. Edwardes (Gregory Peck) que vem substituir o atual diretor Dr. Alexander Brulov (Michael Chekhov) que sofreu um colapso e apesar de estar bem novamente terá que deixar o cargo.

Todos estranham o fato de Dr. Edwardes ser bem jovem, uma vez que já publicou um livro e é reconhecido com um grande profissional, mas não será apenas isto o estranho, ele tem algo com listras em tecidos brancos e também com tudo que é branco.

Constance se apaixona por ele, mas logo notará que há algo que não vai bem e então larga tudo para se ocupar apenas dele, e tentar curá-lo.

O filme irá tratar da psicanálise pela primeira vez com destaque uma vez que será ela quem possibilitará esclarecer o mistério no filme. E esta também é uma diferença nos filmes de Hitchcock onde sempre se trata de suspense e não de um mistério, e não há fatos ou dados para desvendar o crime, é preciso que o Dr. Edwardes, ou melhor John Ballentyne, se lembre do que ele se recusa a lembrar e bloqueia em seu inconsciente. Não há como descobrir nada antes que ele fale, e isto é a psicanálise. É um quebra-cabeça não de fatos ou pistas variadas encontradas ou observadas durante o filme, e sim das palavras, lembranças, sonhos de Ballentyne.

Há uma frase do analista de Constance que diz: as mulheres são as melhores analistas, até que se apaixonem e então se tornam as melhores pacientes. No livro As mulheres de Freud a autora complementa a frase dizendo que as melhores pacientes é que são as melhores analistas.

E o sonho de Ballentyne tem as imagens oníricas criadas por Salvador Dalí.


Alfred Hitchcock nasceu em 1899 em Leytonstone, Londres, Inglaterra e faleceu em 1980 em Bel Air, Los Angeles, EUA. É considerado o mestre dos filmes de suspense

Trilha sonora de Miklos Rozsa 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILME: A NEGOCIAÇÃO - 2012


Direção: Nicholas Jarecki - 2012
Duração: 107 min
Título original: Arbitrage

Robert Miller (Richard Gere) é um milionário que está com problemas em sua empresa e a está vendendo, mas às vésperas de fechar o negócio ele envolve-se em uma acidente de carro que mata sua amante. Para não atrapalhar seu negócio e manter sua imagem ele não assume a responsabilidade e foge do local, porém um investigador Michael (Tim Roth) não o deixará em paz.

Robert é casado com Ellen (Susan Sarandon) mas tem um caso com outra mulher, a que morre no acidente. Tudo parece perfeito, perfeito demais, uma vida em família, uma bela casa, são ricos, mas tudo isto é apenas a fachada. Robert não mede esforços para manter sua imagem custe o que custar.

Filme sobre moral, o que se faria no lugar de Robert? e de Ellen? é possível condenar?

Nicholas Jarecki nasceu em 1979 em Nova York, EUA.

Trilha sonora Cliff Martinez

Cliff Martinez nasceu em 1954 no Bronx, New York, EUA. É compositor e baterista

FILME: A ANTROPÓLOGA - 2011


Direção: Zeca Pires - 2011 
Duração: 90 min 

Na Costa da Lagoa em Florianópolis, num reduto açoriano Malu (Larissa Bracher) realiza sua pesquisa de doutorado em etnobotânica. Dona Ritinha (Sandra Ouriques), uma benzedeira local inicia Malu no aprendizado de uma cultura mística que os descendentes do açorianos mantém no local.

Ao acompanhar o tratamento de Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos) , filha do médico local, Malu entrará em contato com o sobrenatural que desafiará suas crenças científicas. Malu se verá entre a razão e a imaginação, o efeito do simbólico, das crenças, e também da magia. Malu irá se enfrentar e tomará um caminho do qual não há retorno e que a transformará.

Um filme sobre crenças e seus efeitos.


Zeca Pires (José Henrique Nunes Pires ) nasceu em 1961 em Florianópolis- SC. Realizou vários documentários e curtas sempre sobre a cultura de Santa Catarina, focando principalmente nos habitantes da Ilha de Florianópolis. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

FILME: O ÚLTIMO AMOR DE MR. MORGAN - 2013


Direção: Sandra Nettelbeck - 2013
Duração: 115 min
Título original: Mr. Morgan's last love. 

Baseado no romance "La doucer assassine" de Françoise Dorner.

Matthew Morgan (Michael Caine)  mora há alguns anos em Paris, nunca aprendeu a falar francês e acaba de perder sua esposa Joan (Jane Alexander). Três anos depois ele continua a viver em Paris, solitário, triste quando conhece Pauline (Clémence Poésy) num ônibus onde ela o ajuda. Tornam-se amigos. Pauline é uma professora de dança e ele começa a ir ao local e até tenta um passos de dança. Mas um dia ele não suporta a dor da perda de Joan e tenta o suicídio.

Morgan tem dois filhos que surgem neste momento. A filha karen (Gillian Anderson) não está preocupada com o pai, e o filho Miles (Justin Kirk) num primeiro momento não aceita Pauline, imagina coisas, mas tudo isto vai mudar.

Pauline perdeu seu pai muito cedo e tenta reencontrá-lo em Mattew e este por sua vez vê nela sua esposa, nos gestos, na luz que ela traz para os lugares onde está. Ambos são solitários e apesar da grande diferença de idade se entendem, o que já não ocorre entre Mattew e seus filhos. Há mágoas, culpas.

Ele sempre foi apaixonado por Joan, sua vida era ela, e nunca conseguiu se expressar para os filhos, ser amoroso com eles o que deixou um vazio,uma falta, principalmente para o filho.

Ambos se apoiam e buscam uma razão para viver no meio da solidão. Os conflitos familiares, os problemas que surgem, o silêncio que deixa restos que precisam ser falados para que haja uma chance de mudança, de restabelecer ou construir algo novo.

Um filme sobre família e seus desencontros, a solidão e o luto. Confesso que o final não me agradou muito, uma vez que após tentar o suicídio Matthew morre, de que? e então passa a fazer falta para Pauline como Joan fazia para ele. Parece um desfecho para dar um final à ele e resolver a questão de Pauline e Miles, mas então ele vai ver o filho e promete voltar.

O belo do filme é a relação entre Matthew e Pauline, um amor platônico, mas onde há o desejo dele, muito sutil, e ela que vê nele o pai, que também não deixa de ser o primeiro objeto de desejo da filha.

Sandra Nettelbeck nasceu em 1966 em Hamburgo, Alemanha.

Trilha Sonora de Hans Zimmer 

FILME: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE - 2014


Direção: Wes Anderson - 2014
Duração: 100 min 
Título original: The grand Budapeste Hotel 

Baseado em livros de Stefan Zweig.

No período entre guerras na fictícia República de Zubrowka encontramos Gustave (Ralph Fiennes), um célebre concierge que se tornou famoso pela forma como atendia seus hóspedes, principalmente as mulheres, idosas e ricas. Zero (Tony Revolori) é contratado como mensageiro e Gustave o toma sob sua proteção fazendo dele um aliado e futuro sucessor, além de obter sua admiração incondicional.

Uma de suas hóspedes, Madame D.(Tilda Swinton) tem uma premonição ao deixar o hotel, e pouco depois ela aparece morta, deixando um quadro famoso para Gustave o que ocasiona a raiva e perseguição de seu filho Dmitri (Adrien Brody) e familiares. Gustave irá roubar o quadro, mas será acusado injustamente de homicídio e terá que provar sua inocência com a ajuda de Zero.

Quem  conta a história é Zero, ou Moustapha (F. Murray Abraham), muitos anos depois quando o Grande Hotel já está em declínio e praticamente vazio e abandonado, a um escritor (Jude Law /Tom Wilfinson) , um alter-ego de Stefan Zweig, em cujos livros o filme é baseado.

A história se passa no século XX em torno dos anos 30 e o começo do fascismo na Europa. É o fim de uma época de glamour e sofisticação o que se percebe no filme com o início do relato de Zero até o momento, onde ele conta a história.

Como trabalhei na hotelaria por anos também gostei do filme por este lado.

Wes Anderson nasceu em 1969 em Houston, Texas, EUA.

Trilha Sonora - Alexandre Desplat 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

FILME: JULIA - 1977


Direção: Fred Zinnemann - 1977 
Duração: 117 min

Baseado no relato autobiográfico Peentimento de Lilian Hellman que se baseou na vida de Muriel Gardiner, uma militante do antifascismo e dos direitos da mulher, especialista em crianças criminosas, que foi analisada por  Ruth Mack-Brunswick e se tornou também uma psicanalista para criar uma suposta amiga que se chama Julia.

Julia (Vanessa Redgrave) e Lilian Hellman (Jane Fonda) eram amigas de infância. Julia era de uma família muito rica, mas era pouco amada. Vai estudar medicina em Viena. Lilian se torna uma escritora e vive com o escritor e intelectual Dashiell Hammett (Jason Robards).

Julia irá militar contra o fascismo e acabará sendo violentamente agredida perdendo uma perna. Ficarão anos sem se ver, mas quando Lilian vai à Moscou sua amiga lhe pede um enorme favor, transportar dinheiro que será usado contra o nazismo.

O filme é a história de duas mulheres diferentes, mas que permaneceram amigas até a morte. Durante o filme Lilian irá se recordar de momentos passados juntas na infância, de seus medos, inseguranças ao lado de Julia que era determinada, corajosa. Aos poucos Lilian irá enfrentando estes medos, mas sempre permanecerá por baixo aqueles sinais originários, como numa tela de pintura onde com o passar do tempo surgem por baixo da tinta que se apaga os traços que não foram seguidos pelo pintor, mas que assim mesmo, ficaram ali.

Meryl Streep faz o papel de Anne Marie.

Fred Zinnemann nasceu em 1907 em Rzeszów, Polônia e faleceu em 1997 em Londres, Inglaterra. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

FILME: O PORTEIRO DA NOITE - 1974


Direção: Liliana Cavani - 1974
Duração: 117 min
Título original: Il portieri di notte 

Um filme que pode ser polêmico uma vez que trata de um oficial nazista que se esconde em Viena trabalhando como porteiro de um hotel e uma judia que foi presa no campo de concentração e torturada por ele. Não se trata aqui do bem e do mal, em colocar o nazista como um mostro e que deve pagar pelo o que fez e a judia vítima, mas sim, justamente quando a vítima se identifica ao agressor e o introjeta mantendo com ele uma relação de gozo, mesmo que na dor, e o agressor também participa deste gozo.

Lucia Atherton (Charllote Rampling) é uma sobrevivente de um campo de concentração, casada com um maestro que vai se apresentar em Viena. É o ano de 1957, portanto doze anos após o fim da guerra, e ela o acompanha. Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde)  é o oficial nazista que foi seu torturador e se esconde como porteiro de hotel. Os olhares se cruzam no instante em que ela o vê. Um olhar que diz muito, que marca, que revive, um traço. Aquele olhar que a viu, bem mais jovem, uma garota, nua.

Ela vai se recordando de cenas do que ocorreu no campo. Como ela poderia se negar a fazer o que ele queria? para sobreviver ela tinha que lhe obedecer, mas se a um tempo ele a torturava, a outro ele era gentil, gerando uma relação de amor-ódio. Ele um oficial, mais velho do que ela, com poder de vida e morte sobre ela.

Max também se envolveu nesta relação, ela a chama de "minha garotinha", e saiu de seu lugar de SS onde deveria torturar e matar para gozar esta relação sadomasoquista e "proteger" esta garotinha.

Além do olhar de Max ,ela está nua no campo, seu olhar a desvela, mas ele também a veste, como a uma criança, há os toques, o beijo em seu ferimento, o ato de lhe dar de comer na boca como se fosse uma criança. A vítima do abuso, do agressor sente o prazer que lhe vem dos toques originários, do olhar da mãe, e os confunde com o prazer que poderia ter numa relação normal com outro homem. Ela passa a precisar deste prazer, não de uma forma saudável, não é o desejo, é o gozo. Não se trata aqui de um prazer consentido, é algo que se rememora no corpo.

Ao se reencontrarem passam a reviver tudo isto de uma forma doentia e Lucia deixa o marido para gozar nesta dor que lhe dá prazer. Não poderia terminar bem isto. Na relação atual chega-se ao ponto de ambos serem vítimas, eles se trancam no apartamento de Max para se protegerem do grupo de nazistas que os persegue, acabam como no campo, com fome e sede. Só que bastaria ligar para a polícia, mas ninguém faz isto. Nem ele para salvá-la, nem ela para se salvar. Acabam não aguentando mais, se vestem como antes, ele com seu uniforme da SS e ela com um vestido de garota, como o que ele usou para cobri-la no campo e saem, são seguidos e mortos.

Ao olharmos o filme nos inquietamos, nos questionamos o que leva à isto? por que ela não o entrega? não o acusa? de onde esta impossibilidade? E ele? por que não faz o que o grupo ao qual pertence que elimina as testemunhas vivas costuma fazer: arquivar as testemunhas? ou seja, matá-las?

Liliana Cavani nasceu em 1993 em Carpi, Itália. Cavani realizou este filme para tentar compreender, reprojetar a relação de seus pais, sendo que o pai era facista e a mãe judia. 

LIVRO: PALAVRAS CRUZADAS Da dor à verdade - GABRIEL ROLÓN



Rolón, Gabriel. Editora Planeta, 2010
238 páginas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Título Original: Palabras Cruzadas

Em minha recente viagem à Buenos Aires entrei na El Atheneu, uma mega livraria que fica numa ópera e nas minhas andanças por ela vi o livro de Rolón. Optei por comprá-lo no Brasil em português o que facilitaria minha leitura.

Rolón é um psicanalista argentino, e neste livro ele nos relata 05 histórias de pacientes que passaram por uma análise dolorida, mas que ao final encontraram uma verdade que era a sua e puderam finalmente tentar construir uma vida mais prazerosa e de acordo com seus desejos.

Conforme acompanhamos e também ouvimos o paciente é possível ao mesmo tempo pensar em si mesmo, pois são tantas as possibilidades e muitas vezes também estamos passando por coisas parecidas, próximas, e que não sabemos nem que está ocorrendo ou o porque de estar acontecendo. A culpa, o medo, a dor, a sexualidade, o amor, a violência, o luto. E tudo isto faz parte da vida.

Gabriel Rolón nasceu em 1961 em Buenos Aires, Argentina, é um psicanalista.

sábado, 28 de junho de 2014

FILME: CLÉO DAS 5 ÀS 7 - 1962


Direção: Agnès Varda - 1962
Duração: 90 min
Preto e Branco

Cleo (Corinne Marchand) é uma cantora que está aguardando o resultado de um exame médico, e durante este tempo de espera o filme se desenrola mostrando seus pensamentos, medos, angústias enquanto anda por uma Paris dos anos 60.

O filme inicia com uma sessão de tarô em cores e depois passa para o preto e branco, fazendo uma distinção entre o que é real e imaginário, ilusório. Não apenas na consulta ao tarô, mas há outras superstições, como nunca usar nada novo numa terça-feira, um espelho que se quebra e significa morte, o número do táxi, o que aumenta sua angústia e medo dos resultados pois os sinais confirmam que será algo muito ruim e sério e mortal.

Ela anda por Paris, os cafés, cartazes nas paredes anunciam o filme Um cão Andaluz de Buñuel, vai se encontrar com uma amiga que posa para escultores e depois ao estúdio de seu namorado onde roda o curta  "Os noivos da Ponte MacDonald" com Jean-Luc Godard e Anna Karina, até que conhece Antoine (Antoine Bourseiller)  que está partindo para a Argélia como soldado.

Durante estas duas horas que ela perambula pela cidade algo se transforma nela. Cleo vivia uma vida mimada, por sua assistente, seu amante ausente, mas sempre sendo atendida em seus caprichos, mas o que fazer diante do real, da doença, contra a qual ela nada pode nem ninguém pode protegê-la? Eis sua agonia, mas que ao andar por Paris, observar, ouvir, olhar para o outro, esquecer um pouco dos espelhos e de sua imagem criada, aos poucos ela vai se transformando.

Ela inicia o processo quando deixa a casa tirando sua peruca, se vestindo de preto e indo para a rua. Ela vê a cidade como se fosse a primeira vez, as pessoas, e começa a se relacionar com elas ao invés de se manter ao abrigo, protegida. E ao final ela se sente feliz e capaz de enfrentar a doença que se confirma.

Ela se transforma através da cidade e das pessoas, que por seu lado também estão constantemente mudando no filme, são fragmentos de conversas, são vários locais, são pequenos pedaços que formam a cidade, que a constitui, como vai constituindo também Cleo.

Assista a Cleo cantando

Musicas do filme: Michel Legrand que participa do filme 



Agnès Varda nasceu em 1928 em Bruxelas, Bélgica e está radicada na França. 

MICHEL LEGRAND - MÚSICA - nasceu em 1932 em Paris é um pianista, compositor e arranjador. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

LIVRO: HITLER A TIRANIA E A PSICANÁLISE - Ensaio sobre a destruição da civilização - JEAN-GÉRARD BURSZTEIN



Bursztein, Jean-Gérard. Companhia de Freud, 1998
96 páginas
Tradução: Dulce Duque Estrada
Título Original: Hitler, la tyrannie et la psychanalyse - Essai sur la destruction de la civilisation

Um livro muito interessante com a análise sobre o nazismo e Hitler pelo viés da psicanálise nos oferecendo uma resposta ao Por que? por que o povo alemão aderiu à Hitler? por que Hitler conseguiu fazer o que fez?

Bursztein parte do laço social, o que nos une aos outros, agrupando-nos através da cultura numa civilização. Pelo viés da psicanálise somos introduzidos na Lei pelo pai que interfere na relação fusional entre mãe e filho levando-o a se separar e desistir de seu desejo pela mãe voltando-se para o mundo, para outros, e fazendo desta falta seu desejo de se mover. É a aceitação inconsciente da diferença homem e mulher e da interdição do incesto. Recalcamos então o ódio ao pai, este que impõe a lei e o transformamos no pai simbólico, o que nos rege em nossos valores, princípios e moral.

Os judeus são um povo que não se referem à um país ou uma língua, mas sim à lei, a Torá, e por isto mesmo representam este pai. A Alemanha no pós Primeira Guerra estava deprimida, e Hitler encarna o ideal de eu que o povo busca, utiliza-se do mito nacional, do povo ariano, da cultura germânica resolvendo para todos o problema que enfrentavam, nada como um pai que vem socorrer e acaba com os outros que são a ameaça.

Quando se rompe o laço social, ou seja, a lei que une os seres humanos, instala-se o que Bursztein chama de psicose social. As pessoas passam a não se importar mais com o outro, e buscam um bode expiatório para ser o responsável por todos seus problemas.

Por outro lado, Hitler é um psicótico, delira, tem visões, megalomaníaco. Ele hipnotiza o povo, fala e eles aderem, e como a psicose social elimina toda e qualquer moral, não irão contra ele. Hitler está acima da lei, está foracluído, só faz o que quer, e tudo gira em torno dele. Não há mais a lei, a civilização, apenas ele e o povo alemão.

Obviamente não foram todos os alemães que aderiram, mas a grande maioria sim, o que permitiu o que aconteceu, por que Hitler sozinho não teria conseguido fazer o que fez. Só foi possível com o apoio do povo em seu ódio ao judeu.

O racismo é sempre um ódio ao diferente. Porém o judeu é um semelhante, ele é assimilado, integrado, e no caso da Alemanha, se consideravam alemães. O que faz a diferença aqui é o significante judeu, e o que ele diz, transformando então os judeus em diferentes.

O que ocorreu com o nazismo é que temos o mito como referência delirante ( o mito do povo ariano, puro, belo e perfeito), a cultura é reduzida à mitologia e o direito é uma ideologia delirante (Hitler acima da lei, fora da lei), e eis que o laço social se rompe. A civilização se reduz à mestria e emerge um tirano. Não há mais espírito crítico, identificação simbólica.

Ao contrário de uma civilização com laço social, onde o mito é uma referência nacional e possui significantes de referência simbólica, a cultura é um discurso (na realidade vários discursos), o direito é uma autoridade legítima e a civilização anda.

Um livro que vale a pena ser lido para melhor compreensão não só do nazismo, mas de todas as tiranias, e das perversões também.


Jean-Gérard Bursztein é um psicanalista francês e doutor em filosofia. 

domingo, 15 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: HITLER ET SES DÉMONS - HITLER E SEUS DEMÔNIOS - 2013



Editor: E.P.I. Difusion - 2013 
Duração: 120 min

Este documentário que assisti em francês trata da parte referente ao ocultismo que envolveu o nazismo. Hitler se acredita o escolhido pelos mestres antigos que vivem no interior da terra para desenvolver o novo mundo, muito melhor, belo e forte do que os que haviam.

É um mergulho nos fantasmas, delírios e visões de Hitler, seu lado psicótico, mas também na sua loucura, nos incestos, em todo o pesadelo que foi a mente deste homem que infelizmente alcançou o poder e deixou atrás de si um rastro de morte e destruição. Um trauma que a civilização levará ainda muitos anos para superar.

A crença num povo antigo, seus mitos e histórias, o retorno. Himmler criará a SS baseado nisto, para criar o novo povo alemão como um super homem.

A maioria dos principais líderes nazistas tinham problemas psíquicos. Goering saiu de um hospital psiquiátrico quando foi reintegrado por Hitler, Speer tinha sonhos megalomaníacos para a arquitetura. Hitler parecia muitas vezes estar em transe durante seus discursos que inflamavam a população, que segundo Goebbels se ele mandasse que saltitassem sobre as cadeiras eles o fariam.

Os grupos que foram enviados atrás do Santo Graal, a busca pelas supostas entradas para a terra oca onde devem viver estes mestres antigos na fronteira com o Nepal e o Tibete. Uma visita à Amazônia em busca de rituais, plantas alucinógenas. Todo um lado de misticismo e ocultismo que envolveu os líderes do nazismo.