sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: GENITRIX - FRANÇOIS MAURIAC



Mauriac, François. Editora Globo, 1987
Tradução: Célia Gambini
94 páginas

MÃE

O eterno conflito mãe-filho-filha. Quando uma mãe se apossa do desejo do filho e lhe impõe o que deve ser sua vida, o que vemos do outro lado é uma vida destruída, sem rumo, sem vigor, sem desejo.Mas o que pode doer mais do que ter um vislumbre do que poderia ter sido a vida se não fosse assim?


François Mauriac nasceu em 1885 na cidade de Bordeaux, França e faleceu em 1970 em Paris. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1952. É o maior representante do romance psicológico na França. 



LIVRO: DEIXE-ME IR, MÃE - HELGA SCHNEIDER



Schneider, Helga. Editora Berlendis & Vertecchia, 2001
Tradução: Liliana Laganá
136 páginas.



Quando se tem uma mãe que foi uma das que esteve nos campos de concentração como supervisora, e que acredita no fundo do coração que estava certa, e não se arrepende em momento algum do que fez, e do outro lado, uma filha que acredita na humanidade e não aceita que uma pessoa possa fazer o que a sua mãe fez, não há outro jeito do que pedir que a mãe a deixe ir, porque, apesar de tudo, de todas as monstruosidades que a mãe cometeu, ela ainda vacila, deseja estar com a mãe, chega a ter vontade de perdoar, mas ela não pode, não pode porque a mãe não se arrepende e acredita no que fez.

Um livro corajoso, de uma filha que foi abandonada junto com o irmão e seu pai por uma mãe que acreditava mais em sua missão e dever junto ao III Reich.

Helga Schneider nasceu em 1937 em Steimberg, na época território Alemão, tendo se naturalizado Italiana. Sua mãe foi primeiramente para Ravensbrück como recruta da SS e depois para Auschwitz-Birkenau, abandonando a seu marido e dois filhos. Além deste livro sobre o reencontro com sua mãe escreveu outros livros. 

LIVRO: A PESTE - ALBERT CAMUS



Camus, Albert. Record, 2009 - 18ª Edição
Título Original: La Peste
Tradução: Valerie Rumjanek Chaves
218 páginas.

A PESTE - UMA DOENÇA OU UM SISTEMA DE VIDA?

A peste no livro é uma doença, mas também uma metáfora do que é a vida quando nos sentimos ou estamos inconscientemente presos a um sistema, a um espaço, temos medo mas desejamos a liberdade, queremos fugir, ir embora, mas não conseguimos.

O livro tem como epígrafe uma frase de Daniel Defoe: " É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro quanto representar qualquer coisa que existe realmente por alguma coisa que não existe."

Nunca aceitamos uma calamidade, algo que interrompa o cotidiano, nossos hábitos, que interfira no nosso dia a dia. Queremos fugir, não ver. Recusamos, queremos o bom, ou pelo menos o cotidiano, que não se altere. Mas o ruim também existe, não há como escapar.

Diante da tragédia, da calamidade, do exílio, que pode ocorrer mesmo sem ter a cidade fechada uma vez que nos exilamos na dor, nos afastamos dos outros. Vem a nostalgia, o passado, mas que dói, por tudo que houve e que não houve e não conseguimos imaginar o futuro, pois não sabemos quanto tempo vai durar a peste.

Uma alegoria à Segunda Guerra Mundial, mas também uma forma de falar de si mesmo diante das tragédias e contingências da vida.

Camus nasceu em 1913 em Mondovi (atualmente Dréan) Argélia e faleceu em 1960 em Villeblevin vítima de um acidente de carro. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Além de um grande escritor  foi também jornalista e esteve engajado na Resistência Francesa.


LIVRO: SONATA DE OUTONO - ROTEIRO DO FILME DE INGMAR BERGMAN



Bergman, Ingmar. Nórdica, 2ª ed. 1978
127 páginas

MÃE E FILHA

Belíssimo relato sobre o confronto entre uma mãe e uma filha, onde se diz tudo que nunca se pensaria dizer. Ambos os lados, surgem a nossa frente a mãe que também é uma mulher e teve uma mãe, e a filha, que presa à mãe, não consegue viver sua vida. É cruel, mas necessário.

Recomendo assistir ao filme também. No filme as expressões faciais são irreproduzíveis no livro, porém, as falar no livro podem ser melhor assimiladas.


Ingmar Bergman 

LIVRO: A SOMA DOS DIAS - Memórias - ISABEL ALLENDE




Allende, Isabel. Bertrand Brasil (Grupo Record), 2008
Tradução: Ernani Ssó
378 páginas


Allende fala de sua vida neste livro, uma continuação de "Paula". Fala de suas dúvidas, tristezas, se mostra sem constrangimentos, seu lado super mãe protetora em excesso, fala com humor de suas mazelas e dificuldades, de seu amor por Willie e por toda sua tribo. Um livro gostoso de ler, que nos coloca frente a uma vida rica e generosa.


Isabel Allende nasceu em 1942 em Lima, Peru, mas logo em seguida sua família retornou ao Chile. Atualmente vive nos Estados Unidos. É sobrinha de Salvador Allende

LIVRO: MEMÓRIA DE ELEFANTE - ANTÓNIO LOBO ANTUNES




Antunes, António Lobo. Objetiva, 2006
198 páginas


UM DIA PARA ENCONTRAR UMA VIDA

Um psiquiatra ao retornar de Angola, e ao ter seu casamento desfeito, passa a se questionar e tentar se compreender. Quem sou eu?
O livro todo se passam num único dia, começando pelo hospital psiquiátrico onde trabalha, almoço com um amigo, a tarde em busca de explicações, e termina a noite com um encontro com outra pessoa que também luta contra a sua deterioração. O grande medo que sente é de amar e ser amado, não consegue se dar, não consegue lutar pelo amor que sente pela mulher, relembra fatos da infância, das marcas que uma mãe deixa no filho, ou melhor, de como ele recebe o que vem dela.
Ao conseguir se dar àquela mulher que está lutando contra sua velhice, ele reencontra uma possibilidade de viver, mas de forma comum, como sempre esperaram dele, sendo um adulto, e não mais a criança assustada que tinha medo de dormir no escuro.
O livro é escrito quase que totalmente em metáforas, para expressar o que sente e o que pensa, chega a ser um pouco árido em alguns momentos e requer uma certa dose de cultura literária e histórica, para a compreensão das metáforas.

António Lobo Antunes nasceu em 1942 na cidade de Lisboa, Portugal. É formado em medicina e se especializou em psiquiatria

LIVRO: OS AMANHÃS - HAFID AGGOUNE



Aggoune, Hafid. Rocco, 2005
Tradução: Maria Angela Villela
123 pagínas


AS RAÍZES DO PASSADO ESTÃO NO AMANHÃ

1942, Pierre vê seu primeiro amor ser levada pelos nazistas e ela não voltará. Sua última visão e de seu calcanhar no estribo do carro. Ele deixa de existir. Durante 59 anos permanecerá calado, sem conseguir gritar sua dor, sua raiva, seu medo, sem conseguir dizer sobre isto. Viverá na esperança da volta de Margot.
2001 - 11 de Setembro, com a morte de outro interno no asilo onde se encontra, ele volta, retorna à vida, e perceberá que é a morte que nos faz viver.

Um belíssimo relato, de um renascer, um retorno à vida, da tentativa de escrever sobre o que viveu naquele dia longínquo, e que ficou inesquecível, mas também inefável, uma tentativa de gritar pela escrita.

"É por causa da morte, é sempre por causa da morte, que em todo lugar, em todas as épocas, para cada um de nós, acontece e não acontece, porque não há nada a que se apegar, não há nada, e o vazio ronda o vazio e nessa vida é preciso aprender a viver com esse vazio, aprender a preenchê-lo com a vida, aprender a ver por trás das imagens, aprender a não perder o prazer, mesmo sob as bombas, os escarros, as injurias, as traições, os exílios, as deportações, os silêncios, os gritos e todas as faltas, aprender a dançar nos braços sem corpo do nada, aprender a ter orgulho de si, a amar a si mesmo, a amar o outro porque cada qual é um estranho, porque ninguém se parece com ninguém, aprender a amar esta vida, e este mundo que recomeça todos os dias, porque nós somos frágeis."

Lindo! a dor do existir em palavras.

RECOMENDO.


Hafid Aggoune nasceu em 1973 em Saint-Étienne, França. Estudou letras e História da arte em Lyon

LIVRO: A HUMILHAÇÃO - PHILIP ROTH



Roth, Philip. Companhia das Letras, 2010
Tradução: Paulo Henriques Britto
104 páginas.

O PALCO DA VIDA

Simon Axler é um ator que não consegue mais representar. Passa por uma crise e se interna numa clínica psiquiátrica ao perceber que pensa em suicídio. Depois ele se isola em sua casa, afastado de todos, quando recebe uma visita inusitada de uma mulher quarentona que ele viu nascer.
Ambos estão em crise, ele por estar só, fora abandonado pela esposa durante sua crise, não ter mais seu trabalho, e ela, por ter sofrido uma decepção amorosa e não conseguir enfrentar isto sozinha, apesar de todos dizerem que ela é muito independente, e só faz o que quer, mas no fundo, não consegue enfrentar a vida sozinha.
Começam uma relação, que não tem nada para que seja bom, uma vez que ambos estão resolvendo suas carências, e não buscando um amor ou um companheiro. Roth explora o que realmente leva muitas vezes um ser humano buscar uma relação com o outro. Ambos não conseguem enfrentar suas questões e precisam representar para si mesmos que são fortes, livres, independentes, e claro, isto acaba virando pó.


Philip Roth nasceu em 1933 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos.

LIVRO: TREM NOTURNO PARA LISBOA - PASCAL MERCIER




Mercier, Pascal. Record, 2013
Tradução: Kristina Michahelles
462 páginas.

País: Suíça 

UMA LONGA VIAGEM PARA DENTRO DE SI

Há um momento na vida que nos questionamos: quem somos? somos felizes? o que fizemos de nossa vida?.
Quando nos confrontamos com a morte que se aproxima, e com tudo que realizamos e não realizamos. O  Livro é uma viagem através de um personagem por Lisboa feito por um professor de Berna que encontra o livro escrito por Prado após viver uma experiência que desperta estas perguntas.
Um belíssimo mergulho na alma humana, no lado mais escuro, mas também no que há de belo em cada um de nós. Como somos marcados pelos nossos pais em nossos desejos e em nossas escolhas nos retirando nossas próprias opções de vida.
Um confronto consigo mesmo.

Gregorius desistiu de uma grande mudança em sua vida quando jovem e passa a ter uma vida linear, era professor, estudos, livros. Algo despertou nele, um som, uma palavra, e acionou o desejo. É a tentativa de "mudar" uma escolha do passado que determinou sua vida e excluiu outras possibilidades que agora ele tenta resgatar.

Fica a dica do filme que apesar de menos denso, se perde muito do que está escrito no livro de Prado, vale a pena ser visto.

Pascal Mercier é um pseudônimo de Peter Bieri, um escritor e filósofo suíço. Nasceu em 1944 na cidade de Berna. 

LIVRO: MARCAS DE NASCENÇA - NANCY HUSTON





Huston, Nancy. L&PM Editores, 2007
Tradução: Llana Heineberg
272 páginas
Prêmio Femina

"UM ADULTO NADA MAIS É DO QUE UMA CRIANÇA QUE SOFREU"

O livro retrata 04 gerações dividido em 04 capítulos que retrocedem narrando a infância de cada um quanto tinha 06 anos, no seu contexto histórico e social. A bisavó, a avó, o filho e o neto, iniciando com Sol, o neto, em 2004 e finalizando com a bisavó no fim da Segunda guerra. Ao terminar o livro senti vontade de lê-lo ao contrário, o que também seria possível.
Eles tem uma marca de nascença, porém as marcas são muito mais profundas e além do biológico, dos laços sanguíneos, deixando claro como estas marcas, traumas, questionamentos, dúvidas, ficam no inconsciente de uma família.
Huston nos mostra a infância como realmente ela é, sem a tão propalada inocência infantil, mas ao contrário, com a crueldade infantil que marca, o édipo, o ódio ao irmão(ã), o onipotência, típicas da infância. Os medos, as dúvidas, a descoberta da sexualidade, a falta de entendimento, as suposições que marcam, a experiência escolar, as descobertas, as discussões familiares, as alegrias, os traumas. Retrata como se forma o adulto através da criança, e deixa claro que nunca saímos da infância, como diria Manoel de Barros que chama suas memórias de infância, inclusive a velhice. A força das palavras e gestos que ficam, a força da mãe, como se grava na criança, a violência psíquica.
Vê-se claramente o inconsciente atuando, regendo uma vida, intemporal, sem idade, a eterna criança que ali está no adulto e que irá se transmitir ao outro, ao filho.
Um belo livro.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos. 

LIVRO: RELATO DE UM CERTO ORIENTE - MILTON HATOUM



Hatoum, Milton. Companhia das Letras - Selo Companhia de Bolso - 2008
152 páginas.

REENCONTRO COM SUAS RAÍZES

Uma mulher que não é nomeada retorna ao local de sua infância - Manaus - quando sua mãe adotiva, Emilie, falece e começa a se recordar de sua infância, que será narrada por ela mas, também por outros personagens que ali se encontram devido ao mesmo motivo e que irão se recordar de Emilie e de suas vidas naquela época.
O livro também trabalha com antíteses, como a cidade e a floresta, a vida e a morte, mas o mais impressionante é a aproximação que se faz entre duas religiões, a católica e a muçulmana, através do casamento de Emilie e seu marido também não nomeado. O Oriente vive no meio da floresta Amazônica, na cidade de Manaus, um certo Oriente com cara de Brasil, onde as diferenças conseguem conviver, mesmo com seus atritos.


Milton Hatoum nasceu em 1952 na cidade de Manaus - Amazonas.

LIVRO: O CORONEL CHABERT - HONORÉ DE BALZAC



Balzac, Honoré de.Companhia das Letras, 2013
Tradução: Eduardo Brandão
88 Páginas

Este livro acompanha Os Enamoramentos de Javier Marías.

MORTOS QUE REVIVEM

Li o livro como complemento ao livro de Javier Marías "Os Enamoramentos", mas vale ser lido por ele mesmo. É uma brilhante percepção do medo que temos que os mortos revivam, voltem e nos atormentem, só que no livro, o morto não estava morto, foi considerado morto e com isto a vida de todos que faziam parte do mundo do morto se altera após a passagem do luto, seguindo seu curso, o que normalmente acontece com todos que perdem alguém.
Mas, o coronel retorna e está vivo, só que retorna para um mundo onde ele não existe mais, está morto para os outros e para a lei. Aí começa seu drama, a tentativa de voltar à vida, e tudo que terá que enfrentar para isto. Por outro lado, há o choque nos que o consideravam morto, que ao se deparar com o "fantasma" que retorna, não gostam disto.
É uma situação que pode ser real como a descrita no livro, mas também pode ser lida como uma metáfora sobre o medo que temos dos mortos que podem voltar e atrapalhar nossa vida, interferir, e mudar o que já está novamente ordenado, e justamente por isto, cumprimos os rituais para deixá-los onde estão e em paz, e como no livro, tudo se fará para mantê-los em seu lugar, o sepulcro.

Honoré de Balzac nasceu em 1799 em Tours, França e faleceu em 1850 em Paris. Um dos maiores escritores da literatura, tem uma aguda percepção psicológica. Escreveu a Comédia Humana que consiste em 95 romances. 

LIVRO: TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


Agualusa, José Eduardo. Editora Foz, 2012
176 páginas


Guerra Civil em Angola, independência de Portugal. Ludo, após o desaparecimento da irmã e do cunhado, ergue uma parede e se enclausura no apartamento com seu cachorro Fantasma, de onde sairá 30 anos depois. Ela tem medo, não confia na humanidade devido uma tragédia em sua infância.
Somente quando ela se perdoa pode novamente sair ao mundo e ser reconhecida e também reconhecer, e pede perdão a si mesma, à criança que ficou parada  em uma curva na infância.
Mas, apesar do seu isolamento, ao seu redor coisas acontecem, e sem que ela saiba ou queira isto, acaba fazendo parte de todas elas.

Há uma cena simbólica belíssima com o espelho, onde atrás dela há sempre o estranho e seu duplo introjetado, e a troca dos espelhos na casa irá permitir que ela abra a porta para a vida, livrando-se deste invasor. Ela diz então: Teria sido tão fácil abrir a porta! Mas ela só o faz quando já está velha, quase cega, e pessoalmente me pergunto se ela o teria feito antes, teria sido capaz? Ludo tenta se isolar do outro, tem muito medo do outro, porém quando abre a porta, as histórias, coisas que aconteceram no mundo convergem para sua porta, e então no que é possível, se esclarecem.

LIVRO: BANDEIRAS PÁLIDAS - MICHAEL ONDAATJE




Ondaatje, Michael. Companhia das Letras, 2000

Tradução: Paulo Henriques Britto
352 páginas.

DUAS CULTURAS EM SI 

Terminei de ler o Livro Bandeiras Pálidas de Michael Ondaatje. Inicialmente me decepcionei por um fator pessoal. Esperava mais do livro no sentido de um reencontro com sua identidade conforme é dito na resenha do livro. Anil realmente mergulha na cultura de sua infância, porém o tempo todo sente-se a dificuldade que ela tem em compreender aquela guerra civil e como as pessoas agem.

Ela relembra e revive momentos de sua infância, mas não consegue se libertar de sua formação acadêmica e da busca da verdade, mesmo que esta verdade possa causar um caos. É o pensamento científico que domina.Ela quer provar que encontrou algo que possa ser usado contra o governo e seus crimes, mas ela não está nem em Londres nem nos Estados Unidos, e sim no Sri Lanka, e lá isto não é o desejado, e a insistência disto provoca mais mortes.
É aí que me decepciono com a resenha, uma vez que ela é incapaz de perceber a diferença entre sua formação no exterior e o que é a cultura e a vivência naquele país onde nasceu. Além disto há a questão do nome dela, que não é o seu de infância, o que demonstra que ela já não aceitava muito bem quem era desde pequena, desejando o nome do irmão, e com isto um lugar masculino.
Ela tem dificuldades em relacionamentos, e tem crises de fúria, defendendo sua independência, mas com isto não considerando o outro.
Há uma grande diferença num mundo que está em guerra para aquele que não está, e me parece que ela tem dificuldade em perceber isto, uma vez que insiste na verdade, mesmo que isto traga consequências trágicas.

Michael Ondaatje nasceu em 1943 em Colombo, Sri Lanka, e se naturalizou canadense em 1962.

LIVRO : OS ENAMORAMENTOS - JAVIER MARÍAS




Marías, Javier. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Eduardo Brandão
344 páginas.

Interessante que os personagens são Javier e Marías, como se fossem o lado masculino e feminino do autor.

O autor nos conduz através de uma única voz, a de María, nos labirintos de uma pessoa enamorada por outro. O que podemos imaginar, deduzir, conjecturar sobre o outro, sem nunca saber a verdade sobre o outro ou como este outro nos vê. São os desejos, as ilusões, a racionalidade, o que se espera apesar de não poder esperar. Pouco espaço a outra voz, e quando isto se faz é María quem conta, e existe também a possibilidade dele estar mentindo para ela.
O livro dialoga com outros livros, principalmente com "O Coronel Chabert" de Balzac que acompanha o livro. "revela passo a passo as armadilhas de toda ficção. O desejo íntimo de acreditar naquilo que é narrado, bem como o impulso de preencher com a própria fantasia o que se ignora.".
Estamos sempre fazendo isto, mesmo quando o outro nos fala, o captamos com a nossa subjetividade. Sempre faltará algo, há sempre um resto em qualquer diálogo. O livro lembrou-me um pouco Machado de Assis - Dom Casmurro, onde a dúvida permanece e não sabemos pelo autor se Capitu traiu ou não.
Javier Marías, através de sua personagem María, nos leva ao encontro do que é mais real em um enamoramento, aquilo que realmente pensamos ou desejamos, chegando ao cruel, que se faz através de palavras ou de atos. Quando amamos outro que ama outro, no fundo desejamos eliminar este outro, alguns o fazem, outros só o falam, e isto remete ao inconsciente infantil, onde desejamos a morte do irmão(ã), ou do genitor que concorre conosco por aquele a quem desejamos, e isto se mantém, repetindo em nossas vidas, seja em pensamento ou em ato. os Enamoramentos é uma descrição do real de se estar apaixonado.

Javier Marías Franco nasceu em 1951 em Madrid, Espanha. É formado em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid. Considerado um dos mais importantes escritores vivos da lingua castelhana.