sábado, 7 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: RAÍZES DO BRASIL - Uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda - 2003


Direção: Nelson Pereira dos Santos - 2003 
Duração: 148 min 

Cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda

O filme se divide em duas partes. Na primeira vemos o universo afetivo do historiador. Seus sete filhos, sua esposa Maria Amélia, seus netos. Os locais onde viveu, e seu escritório, um lugar sagrado onde ninguém entrava, mas a porta estava sempre aberta. Há o relato de como ele era um apaixonado por livros, e paixão com toda sua força, capaz de fazer loucuras para ter os livros, como deixar de pagar  o aluguel, ter a ajuda da empregada para pegar os livros pela cozinha e voltar para entrar pela porta da frente, deixando a todos mais tranquilos, pois não havia comprado livros. Engraçado, pois eu durante um tempo fiz exatamente a mesma coisa contando com a ajuda da Maria que trabalhava em casa que levava os livros e os deixava em minha janela do quarto. Assim minha família não os via. Só que minha biblioteca é extremamente modesta ao lado da de Sérgio que no final tinha dez mil volumes, mas poderia ter chego a quarenta mil volumes não fosse o fato dele fazer doações e dar de presente os livros.

Na segunda parte temos o cenário histórico do Brasil onde ele viveu e as falas de seu livro Raízes do Brasil lidos por filhos e netos. Fala-se de seus amigos, da boêmia, de seus cargos em instituições, viagens, da alegria que sempre o acompanhava. Era um homem muito sério na intelectualidade, mas com muito bom humor e divertido. Esta parte é uma cronologia de sua vida intelectual e pessoal, e como pano de fundo temos os acontecimentos históricos do Brasil.

Sérgio nasceu em São Paulo em 1902. Foi jornalista, escritor, historiador, sociólogo. Um grande leitor e também escrevia  e nestes momentos algo se apossava dele, como uma febre. Casou-se com Maria Amélia (Memélia) e teve sete filhos, entre eles Chico Buarque e Miúcha. Faleceu em 1982 em São Paulo. Viveu também uma parte de sua vida no Rio de Janeiro. Era carinhosamente chamado de Papyoto pelos filhos e família.

Nelson Pereira dos Santos em 1928 em São Paulo, Capital. Considerado um dos maiores cineastas brasileiros.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FILME: CAFUNDÓ - 2005


Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti - 2005 
Duração: 102 min

Baseado na história real de João Camargo, um ex-escravo que viveu em Sorocaba -SP no fim do século XIX  e inicio do XX, era um preto velho milagreiro, mas apesar de sua simplicidade era muito complexo. 

João Camargo (Lázaro Ramos)  é um escravo liberto que tem sede de viver, mas o fim da escravidão não traz prosperidade para os negros, e ele terá que passar por trabalhos pesados, irá para a guerra, lutará para sobreviver, mas encanta-se com a cidade, suas cores, sua alegria, suas festas e mulheres. Leva sua mãe para viver junto a outros negros e volta, conhece Rosario (Leona Cavalli) e se casa com ela, mas ela não se acostuma a vida simples de João. Em uma ida à cidade eles dão de encontro com o que chamam de Peste, mas é a febre amarela. João corre ver sua mãe, mas ela está morrendo. Na volta encontra Rosario com outro homem. Ele a expulsa, passa a beber, perde o rumo de sua vida.

Um dia após beber muito ele cai, e tem uma visão com o padre da cidade, que lhe diz que ele tem uma missão, a de curar as pessoas. João já havia tido visões antes, até mesmo Rosario parece algo misterioso. Ele ouvia vozes. A partir deste momento sua vida toma outro rumo, ele se volta para a espiritualidade, constrói uma igreja para Nosso Senhor do Bonfim, mas acolhe nela todos os santos, mas também entidades da Umbanda, espíritos, e até mesmo símbolos judaicos. Ele acredita que pode curar e passa a fazê-lo. Claro ,irá enfrentar o desagrado da igreja católica e dos que são racistas e não gostam destes rituais, ou do espiritismo.

O filme retrata o sincretismo religioso do Brasil, onde o povo se apega a todos os santos e também às oferendas, rezas, poções, óleos, ervas. A parede da igreja está coberta de ex-votos, mas também de pedidos. Mostra que naquela época havia uma divisão entre a religião dos brancos e a dos negros, há santos para ambos, e há locais no Brasil onde haviam igrejas católicas para negros e outra para os brancos. Além do contraste entre o bem e o mal, a todo momento surgem cenas que se referem a isto, como a mulher que foge com seu amante e ele correndo atrás com um chicote e a aparição de uma igreja.

O Brasil se formou com os índios, afros e portugueses, e há também aparições no filme de um índio, mas o forte é mesmo a mistura que se concretiza de todas as crenças num povo de fé.

João de Camargo teve uma vida difícil, primeiro em uma senzala como escravo, depois se deparou com um mundo que não conhecia e que o encanta. Era ingênuo, simples, não conseguia usar as botas da farda de soldado, preferia andar descalço. Não sabia ler, tinha que sobreviver. Apaixona-se e é traído, perde a mãe, e entra em depressão e cai no alcoolismo. Ouvia vozes, tem visões, e acredita nelas. A força da crença e da fé.

Cafundó significa um lugar de difícil acesso, um mundo além, longe, o fim do mundo como diz o menino no filme . Um lugar imaginário.Existiu um lugar no Estado de São Paulo que se chamou Cafundó, que era uma comunidade de negros libertos. Eles receberam esta terra para morar, desde que não saíssem de lá. Foram enviados para o Cafundó, onde quase não se vai. A expressão popular nos cafundós de judas é para se referir a um lugar perdido, muito longe, difícil de se chegar. Mas o cafundó também pode estar dentro de si mesmo, um lugar perdido que pode proporcionar experiências místicas, iluminações. No filme o Cafundó é a África, pelo tipo de casas construídas, os rituais, é a mãe.

A mãe de João era uma curandeira, ela conhecia os segredos das ervas e rezas. O interessante é que ela coloca pedras na cruz do menino Alfredinho, o que seria um costume judaico.Um filme que nos mostra a imensa riqueza do Brasil em termos de cultura, rituais, crenças, e da nossa capacidade de crença e fé, e de como mesmo diante de situações difíceis sempre há uma maneira de se falar com o divino, não importa a via que se use. João adere ao sincretismo afro-indigena-católico-judaico. Tornou-se após sua morte com 84 anos uma lenda. Seu enterro foi um dos mais concorridos de Sorocaba.

O filme foi rodado em quatro cidades do Paraná em torno de Ponta Grossa.



Clóvis Bueno nasceu em 1940 em Santos, Brasil








Paulo Betti nasceu em 1952 numa zona rural de Rafard, interior do Estado de São Paulo, Brasil. Mudou-se ainda durante a infância para Sorocaba. 

LIVRO: TODAS AS CORES DO MUNDO - GIOVANNI MONTANARO


Montanaro, Giovanni. 1ª ed. Objetiva, 2014
142 páginas
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
Título Original: Tutti i colori del mondo.

Gheel é uma pequena cidade no Norte da Bélgica que tem uma característica que a diferencia de todas as outras, ela acolhe em suas casas os loucos que levam uma vida muito diferente do que se fossem internados em manicômios ou hospícios. Esta história se passa no século XIX em 1881, é uma ficção, apesar de que os trechos das Cartas de Vincent Van Gogh estão em seu livro de Cartas para Théo e ele realmente cita a cidade.

Montanaro então imagina um período da vida de Van Gogh que o teria levado a se tornar um pintor, o que ele não foi logo de início, só passando a pintar mais tarde em sua vida. Como o pintor também era uma pessoa difícil, nunca constituiu uma família, tinha muitas dificuldades em relacionamentos humanos, vivia buscando algo que não encontrava e acabou se suicidando, nada como a passagem por Gheel, esta cidade que costuma acolher os loucos, como o ponto de início para sua arte.

Lá vive Teresa Sem Sonhos, este é seu nome, ela nasceu de uma mãe louca que ali vivia, não sabiam quem era seu pai, e ela foi acolhida por duas famílias, sendo que a segunda a declarou como louca para poder receber a ajuda do Estado que era concedido a cada família que abrigava um doente. Porém, Teresa não era louca. Sonhava em se casar com Icarus, que estudava os mineiros para escrever um livro, até a chegada de um estranho à vila, alguém chamado Vincent.

Teresa irá se apaixonar por Van Gogh e os poucos dias que passará ao lado dele modificará para sempre sua vida, mas também mostrará a ele o mundo das cores. Anos depois, Teresa irá escrever ao Senhor Van Gogh numa tentativa de colocar ordem no caos onde vive.

Um belo livro sobre almas aprisionadas, seja a de Vincent ou a de Teresa, ou de muitos que buscam algo e não encontram, ou como diz Vincent, são sem pátria, não sabem onde viver para estar bem. De pessoas que não seguem as normas sociais, que almejam mais para suas vidas, mas se defrontarão com o preconceito, com aqueles que querem colocar as coisas nos seus lugares, mas de acordo com o que eles acreditam, tolhendo a liberdade do outro e demonstrando a intolerância com tudo e todos que se diferenciem do que eles consideram ser o normal.

Giovanni Montanaro nasceu em 1983 em Veneza, Itália. 



Gheel se tornou uma vila que acolhia aos loucos devido uma lenda sobre Santa Dimphna. Uma filha de um rei irlandês que precisou fugir de seu pai após a morte de sua mãe. O rei era muito apaixonado pela esposa, e viu na filha a mulher que perdeu, quis casar com ela, mesmo sendo incesto, mas Dimphna não quis e fugiu, foi se esconder em Gheel onde o rei a encontrou. Ela preferiu a morte ao incesto. Como ela enfrentou seu pai e o seu desejo diabólico passou a ser uma Santa que protegia os loucos. A loucura era considerada uma possessão e o rei foi considerado como possuído pelo diabo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

FILME: A MONTANHA MÁGICA - 1982



Direção: Hans W. Geissendörfer - 1982 
Duração: 153 min. 
Título original: Der Zauberberg 
País: Alemanha 

Baseado no romance homônimo de Thomas Mann 

Não é tarefa fácil filmar um livro tão denso e repleto de diálogos como A Montanha Mágica. Realmente, apesar do filme conseguir condensar o livro com suas principais passagens, ainda assim a riqueza dos diálogos, do amadurecimento de Hans Castorp não é captado em sua plenitude no filme, o que não faz com que o mesmo tenha menos mérito e deve ser assistido.



Hans Castorp (Christoph Eichhorn) é um jovem que acaba de se formar em engenharia e antes de assumir seu novo posto vai visitar seu primo que está internado em um sanatório em Davos. Joachim (Alexander Ziemben) tem tuberculose e está em tratamento, já em recuperação e não vê o momento de poder voltar para a Alemanha e ser um oficial no exército. Castorp vai para ficar três semanas, mas irá ficar sete anos.



No filme sentimos a falta dos diálogos entre os dois primos, que são muito enriquecedores, seus passeios pela montanha e pela vila. Castorp irá conhecer Settembrini (Flavio Bucci) um humanista e idealista que muito lhe ensinará, mas não será apenas ele, temos também Naphta (Charles Aznavour) um jesuíta revolucionário e Peperkorn (Rod Steiger).

Ele adoecerá, e conhecerá o amor, apaixonando-se por Clawdia Chauchat (Marie France Pisier), a sexualidade, verá a morte de frente, mas ao mesmo tempo ele se isola do mundo ali. Aos poucos ele formará seus próprios pontos de vista e terá uma nova percepção do tempo, de sua passagem, muito diferente do que se estivesse na cidade onde vivia. Afinal o que é o tempo lá em cima? o sentimos passar? ou não?

Os diversos personagens encarnam as várias ideologias do momento, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial e as psicologias do ser humano deste contexto. Por outro lado há um questionamento sobre o que é a doença, sobre o corpo e a somatização. De como muitas vezes desejamos esta doença, o que ela pode nos trazer que não percebemos ou não queremos admitir.

No final estoura a primeira guerra, todos devem deixar o sanatório, exceto os muito doentes.

Para quem já leu o livro é interessante ver o livro no filme, os lugares, os personagens, tudo que imaginamos e criamos na mente durante a leitura. Para quem ainda não leu o livro o melhor é lê-lo para ter acesso a todos os diálogos que são riquíssimos e que no filme seria muito longo e difícil de colocar.



Hans W. Geissendorfer  nasceu em 1941 em Augsburg, é um diretor alemão

domingo, 1 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: A ESTRELA OCULTA DO SERTÃO - 2005



Direção: Elaine Eiger e Luize Valente - 2005 
Duração: 85 min 

O documentário conta com a participação da historiadora da USP Anita Novinsky especialista em inquisição no Brasil, de Paulo Valadares, genealogista e de Nathan Wachtel, antropólogo do Collège de France.

A ideia de realizar o documentário surgiu quando as diretoras leram um artigo no jornal sobre um rabino americano que estivera numa vila chamada Venha Ver que tem menos de 800 habitantes e se situa no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O rabino constatou que a população local mantinha costumes que não eram cristãos, mas que eram notadamente judaicos, apesar de já terem caído em desuso no judaísmo. Esta constatação revelou que ali moravam descendentes de cristãos-novos conhecidos como marranos.

Durante a perseguição pela inquisição inicialmente na Espanha promovida pelos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão e depois com a instituição do santo ofício em Portugal, muitos judeus foram forçados a se converterem ao cristianismo. Em Portugal no tempo de Dom Manuel sequestravam seus filhos para serem criados por cristãos, o que obrigava aos judeus a se converterem. Isto foi antes da conquista do Brasil.

Quando ocorreu a conquista do Brasil pelos portugueses muitos cristãos novos vieram para cá, e mais tarde com a invasão holandesa também, uma vez que muitos judeus convertidos fugiram depois para os países baixos. Há documentação sobre isto até o fim da inquisição, depois mais nada. Eles se dispersaram pelo país, mas o maior núcleo é no Nordeste.

O documentário nos mostra Luciano Oliveira, um médico da Paraíba que busca suas origens, e também João Medeiros, um engenheiro aposentado de Natal e Odmar Braga um policial negro de Pernambuco. O que aproxima estes três é o fato de serem descendentes de cristãos novos. Os três nasceram de famílias nordestinas no sertão que são cristãs, mas tem costumes e práticas judaicas.

Venha Ver é uma pequena vila onde praticamente todos são parentes. Os casamentos ocorrem entre primos e tios e sobrinhas, caracterizando a endogamia. Uma visita ao cemitério é um encontro com todos os parentes mortos, ali é a avó, lá a tia, aqui o primo, mais adiante o avô. Quando alguém morre lava-se o corpo, cortam-se as unhas a noite, e o corpo é envolvido na mortalha costurada ali mesmo com pontos largos e soltos. Usam o caixão para transportar o morto até o túmulo, mas são enterrados diretamente na terra. É necessário jogar fora as águas da casa quando alguém falece.

A maneira de varrer uma casa, não comer carne de porco, a maneira que se sacrifica o animal para comer, como é feito o corte do pescoço da galinha e o sangue que tem que ser tirado, uma vez que o sangue representa a vida e não se come a vida. Colocar pedras nas cruzes em túmulos, todos costumes judaicos.

Mas e Dona Cabocla que tem um altar com 26 santos? uma cruz na porta, mas também mantém todos estes costumes? E o padre de Seridó extremamente católico mas que se apresenta como um judeu da diáspora?

Nenhum deles tem lembrança de uma ancestralidade judaica, só sabem o que fazem. A herança psíquica, o que se faz inconscientemente sem saber por que o faz. Minha mãe fazia, minha avó fazia, isto vai se perpetuando. O Oratório, algo cristão mas que tem um símbolo judaico. Rezar para os santos, mas também para a lua nova. Por que ninguém se questiona por que faz aquilo? por que está enraizado, está no inconsciente, e se faz e nem se percebe que se faz. E em uma comunidade onde todos são parentes e agem igual, não há como perceber também estas diferenças, de como um cristão enterra um morto da forma como eles o fazem. Eles se espelham entre si.

Aos poucos, pessoas como Luciano passam a se questionar, e ir em busca destas raízes, querem ser reconhecidos como judeus, uma questão de identidade, já para outros são questões históricas e para Dona Cabocla é algo inconsciente.

Luciano vai em busca e se confronta com o judaísmo ortodoxo e percebe que não basta ser descendente. Primeiro, a descendência se dá pelo lado materno. Depois a questão dos judeus convertidos é delicada, os judeus não aceitam o retorno, muitos dizem que tem que morrer judeu. É preciso se converter para ser judeu, não apenas retornar. Na época quando ocorreu a perseguição na Península Ibérica não se aceitava que os judeus se convertessem ao cristianismo, mesmo que isto significasse sua vida ou de sua família, era considerado uma traição pelos judeus.
A questão é sobre ter que se converter, mas a conversão é para quem não é judeu se tornar um. O que Luciano busca é o retorno, é o reconhecimento de suas raízes. A conversão para ele seria como negar todo o passado, ser considerado como um judeu convertido, que inicia neste momento sua história judaica.

Novamente vemos aí questões de fé, preconceito, tolerância, aceitação. Para Luciano é importante o reconhecimento do outro, para Dona Cabocla basta ser o que ela é.

Uma ressalva para a belíssima canção cantada por Fabiane Araujo - Hatikvah no final do documentário.

Um documentário importante que revela sobre o Brasil, sua formação e sua constituição, trazendo a tona as origens de muitas práticas que são inconscientes.


Hatikvah - Esperança - Hino Nacional de Israel.

Elaine Eiger nasceu em São Paulo
Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro 

DOCUMENTÁRIO: OS CADERNOS SECRETOS DE NUREMBERG - 2006



Direção: Jean-Charles Deniau - 2006 
Duração: 52 min 

Baseado nos cadernos de Leon Goldensohn 

Leon Goldensohn foi o psiquiatra americano que acompanhou os criminosos nazistas durante o julgamento de Nuremberg. Ele tinha na época 34 anos e era judeu. Visitava diariamente os presos e conseguiu que falassem. O Documentário relata as entrevistas realizadas com Hermann Göring, Rudolf Höss, Hans Frank e Julius Streicher possibilitando pela primeira vez uma visão do psiquismo e da mente destes criminosos.

Quando o julgamento terminou Goldensohn voltou para a América, após sua morte sua esposa não se deu conta da importância destas anotações e os cadernos se dispersaram sendo recuperados novamente somente em 2004 quando vieram à luz. A Companhia das letras editou o livro com as entrevistas.

É impressionante a constatação de que não há culpa nem arrependimento. Como pode? A primeira questão é que não podemos olhar para estes criminosos como monstros com problemas mentais, loucos, mas sim, como um ser humano como todos nós somos. Eles não são uma aberração fora de tudo, pelo contrário, o mais chocante e preocupante é que são pessoas como as outras, e isto nos leva a pensar que não basta eliminar estes e descobrir quais são as características do monstro para que não haja repetição da barbárie, isto pode se repetir a qualquer momento em qualquer lugar.

Mas a compreensão do que leva um ser humano comum a agir desta forma é o que pode mudar algo e ajudar a evitar repetições.

Como é possível que um povo que vem da terra de Goethe, Nietzsche, Schopenhauer, Thomas Mann entre tantos outros, grandes músicos, filósofos, escritores, cientistas, produziram esta monstruosidade?

Todos eram bons pais, maridos, vinham de famílias comuns, alguns tinham nível superior, e todos fizeram o teste de QI e foram considerados de inteligência superior. Então como foi possível? Como é possível que um  homem ou mulher seja um ser amoroso com sua família, filhos e se transforme num monstro cruel, assassino com outros?

Poderia se falar em esquizofrenia? Não é o caso deles. Todos nós temos o bom e o mau dentro de si mesmo e há sempre um gatilho para detonar este lado cruel, mau, mas o casos destes criminosos parece ainda ser mais complexo, a impressão que se tem é que eles aboliram a fronteira entre o bem e o mal. Não é uma questão de ter os dois e eles atuarem em algum momento conforme o contexto, mas sim, uma simultaneidade dos dois, não há fronteira dividindo, estão juntos atuando ao mesmo tempo. Estamos acostumados a pensar em opostos, mas ali é o simultâneo.

Um outro ponto que chama muito a atenção é a obediência cega e a necessidade do ideal de perfeição. Era uma necessidade eliminar os judeus e temos que fazê-lo de forma eficaz, era meu trabalho. Como pode um pai que chega em casa e abraça, brinca com seus filhos, mandar crianças para a morte? Era seu trabalho e precisava ser bem feito.

Não há moral neste trabalho, não há perguntas, simplesmente se cumpre a ordem e se fica satisfeito se foi eficaz. Como pode um ser humano chegar a isto? Eles eram funcionais com um supereu que ditava o ideal de perfeição sem moral, sem perguntas, faça e bem feito. Por outro lado eram egocêntricos, como Göring, vaidoso, narciso, que a tudo transformava num espetáculo para se promover, inclusive o julgamento.

Os outros são levados a agradar ao líder, desejam seu reconhecimento, desejam o elogio, como qualquer criança o faz em relação ao seu pai, ou sua mãe. Hitler era um pai.

O anti-semitismo não foi criado pelo nazismo, sua história retorna ao passado. Todo outro é um estranho, assusta, se transforma num bode expiatório para todos os males que afligem. Sempre há a tendência de expulsar o estranho, segregá-lo. A grande dificuldade de conviver com o diferente que leva  ao desprezo do outro, condenando sua cultura e modo de ser.

Os nazistas se consideravam puros, uma raça superior, queriam purificar o território deles incluindo os conquistados. Formados numa obediência servil, disciplina, humilhados pela perda da Primeira Guerra, o sistema patriarcal desmoronado, e desejando agradar ao imenso pai que os salvava, lhes restituía a honra, o lugar, eles não sentem culpa pelo o que fizeram, pelo contrário, acreditam que estavam certos.

O que se percebe ao longo das entrevistas é a racionalização do crime. Obviamente que os presos também tinham em mente salvar suas vidas, mas é notório  a falta de remorso ou culpa, a alegação de que cumpriam ordens, e que eles pessoalmente nunca assassinaram ninguém, eram outros que faziam isto, mas eles assinaram as ordens. Muitos alegavam que não sabiam do que acontecia, que não sabiam do extermínio. Ainda hoje há pessoas que alegam que tudo isto foi uma invenção dos que venceram a guerra. A força da negação que chega ao delírio.



Leon Goldensohn 

Jean-Charles Deniau é francês

quarta-feira, 28 de maio de 2014

FILME: O IMPOSSÍVEL - 2012



Direção: Juan Antonio Bayona - 2012 
Duração: 113 min 
Título original: The impossible  / Lo imposible 
Autora: María Belon 
País: Espanha 

Baseado em fatos reais

26 de dezembro de 2004 o tsunami atinge a costa Asiática. Maria (Naomi Watss), Henry (Ewan MacGregor) e seus três filhos passam o Natal num resort na Tailândia. Na manhã seguinte estão todos na piscina quando um tsunami devastador atinge a costa.





A família se separa, uns não sabem dos outros. Maria e seu filho Lucas (Tom Holland) estão juntos, lutam para sobreviver, são arrastados pelas águas até que conseguem subir numa árvore. Encontram o pequeno Daniel e o levam junto. Maria está muito ferida. O socorro chega de forma precária, ela é arrastada pela ilha, não há macas ou padiolas, até chegar a um lugar onde arrancam uma porta para levá-la ao hospital. Os dois pensam que o pai e os dois menores estão mortos.



Maria é socorrida, Lucas a pedido de sua mãe procura ajudar aos outros, todos estão desnorteados, perdidos, procurando pelos seus familiares. Quando ele volta para perto da mãe para contar que havia ajudado um menino a encontrar o pai ela não está mais lá. Uma enfermeira o leva, sua mãe morreu enquanto ele estava fora. Sua dor e desamparo é imensa.

O local está devastado, mas seu pai e seus irmãos não estão mortos. O pai os encontrou e agora procura por Maria e Lucas. Enquanto isto Lucas descobre que sua mãe não morreu, ela havia sido levada para uma cirurgia. Finalmente o pai vai ao hospital onde eles estão, mas não os encontra. É Lucas que encontra seus irmãos e então finalmente o pai.



A mãe se salva, passa por nova cirurgia e finalmente eles vão embora. O impossível aconteceu, todos estão ali, juntos.

O filme traz cenas doloridas, o desamparo, o medo, a dor, o inferno que é um local após um desastre destas proporções. Os que perderam sua família, filhos, mulher, marido. Um retrato do que ocorreu ali, depois do tsunami.

Lucas amadureceu, passou por coisas difíceis, o garoto do início do filme que não queria falar com os irmãos menores, que dizia não ter medo, aprendeu o que é o medo. Quando ele conta para sua mãe que viu Daniel, e que ele estava nos braços de alguém que deveria ser seu pai, ela diz que o ama muito e que está muito orgulhosa dele. Lucas finalmente chora, liberta todo o medo que sentiu, o garoto que ele ainda é.

Uma experiência que trouxe lições a todos, de valorizar o que realmente é importante, e não a obsessão que Henry tinha com sua casa, emprego, ele aprendeu que o mais importante é sua família.


Juan Antonio Bayona nasceu em 1965 em Barcelona, Espanha.

Trilha sonora de Fernando Velázquez

Fernando Velázquez nasceu em 1976 em Bilbao, Espanha. É um compositor espanhol. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

FILME: DESONRA - 2008


Direção: Steve Jacobs  - 2008
Duração: 120 min. 

Título Original: Disgrace
País: Austrália  

Baseado no livro homônimo de J. M. Coetzee 

O título original é Desgraça. África do Sul, na Cidade do Cabo o professor David Lurie (John Malkovich) leva uma vida solitária, dando aulas sobre poesia numa universidade e tendo encontros sexuais com garotas de programa, até o dia em que ela lhe diz que não irá mais encontrá-lo.

David então se aproxima de uma aluna Melanie (Antoinette Engel) e usando de seu lugar de professor, com sua influência acaba a levando para a cama. Não se trata de um estrupo, mas também não é algo que agrada à garota, até que seu pai ao saber de tudo o denuncia à Universidade. David não se defende, continua usando de seu cinismo e se declara culpado.

Ele então parte ao encontro de sua filha Lucy (Jessica Haines) que vive numa fazenda isolada e acaba de ser abandonada por sua companheira. Eles serão violentamente atacados por três negros da região, um deles ateará fogo em David, enquanto sua filha é violentada.



Enquanto esta na Cidade do Cabo a atitude de David ainda era a de um colonizador, se considerando melhor, porém quando ele chega à fazenda desolada da filha, encontrará outro mundo, onde são os negros que dominam a sua terra.

Lucy nada fará para punir seus agressores o que deixa o pai consternado, ele não consegue aceitar isto, e também não consegue compreender o comportamento da filha. Ela deseja ficar ali, mas para isto precisa viver em paz com a comunidade, e aceita se casar com Petrus que vive ali e lhe dá quase tudo, ficando apenas com sua casa. Ela está grávida do estupro e ele vai assumir a criança que é filho de um parente seu e que também está vivendo ali.



David não compreende tudo isto. Ele quer justiça, quer que ela vá embora, e em momento algum associa o que ocorreu com sua filha com o que ele fez com a aluna na Universidade, até que após uma conversa com a filha que lhe diz que os homens são assim, sentem ódio das mulheres e precisam humilha-la, ter o poder sobre ela, ele procura a família de Melanie e pede perdão.

A questão está nos impulsos, naquilo que alguns não conseguem controlar, ou seja, a pulsão sexual, o desejo. David se declara um servo de Eros para a universidade. Só que ele não é o único que sofre disto, que também deseja e que não mede os limites para atingir o que deseja. Seja usando de persuasão e intimidação como David ou pela violência como os três jovens que os atacaram. Não é pela aparência de civilidade que a natureza do abuso se modifica, no fundo é a mesma coisa. A única diferença é que David sabe que deseja e age para isto, enquanto os jovens agem por impulso, pelo ódio, mas também pelo desejo. Quando o garoto olha pela janela para ver Lucy nua, esta é uma atitude típica de adolescentes. Mas David é mais sutil, ele diz que a mulher bonita tem que ser generosa e partilhar com todos esta sua beleza.

A pergunta que mais nos fazemos é por que Lucy age assim? ela é uma européia, sua mãe está na Holanda, mas ela se submete a lei e cultura local, a ponto de aceitar o estupro e dar todos seus bens ao estuprador para ter paz. Por que ela não o denunciou? por que ela o protege quando seu pai lhe dá uma surra e ainda corre até ele perguntando se está machucado? enquanto ele grita que vai matar a todos eles? Por que não vai embora?

O filme não mostra muito do que aconteceu com Lucy antes, nem o que ela realmente pensa. Mas eu fico pensando até que ponto o fato de ser filha de um homem que age como um estuprador polido e educado e acha isto normal, como seu lado Eros que ele não tem intenção nenhuma de deter, a leva a agir desta forma e não conseguir reagir? É como se em seu inconsciente estivesse atacando o pai? Ela prefere gerar o filho deste estupro, como um desejo inconsciente?

A questão dos cachorros sacrificados, talvez o único lugar que David consegue dar um pouco de amor, e por que sabe que não ficará dependente disto, uma vez que o cachorro vai morrer. Nem mesmo aquele que ele adota por um tempo, ele consegue se dedicar à ele, e acaba desistindo dele e o entregando ao sacrifício. O oposto de Eros é Tânatos, é a morte. Ou será uma metáfora que explicita o que ocorre com os que se aproximam de David? serão sacrificados ao seu amor, eros? aos seus impulsos que não consegue controlar? Ele acaricia, mas sabe que vão ser sacrificados, pelo amor, não é um castigo.

David cita Byron, e diz que a loucura não está na cabeça, mas no coração. Até onde se vai para curar um coração doente assim?

Talvez Lucy saiba que ele só se preocupa com ela e quer vingança por que no fundo ele se sente ultrajado em sua honra, e ao mesmo tempo confrontado consigo mesmo, o que o leva a pedir o perdão à família de Melanie, mas sinceramente, não consegui me convencer de que ele fez isto por realmente estar arrependido, mas pelo contrário, como se isto fosse uma maneira de tentar evitar mais desgraças.




Steve Jacobs nasceu em 1967 na Austrália

domingo, 25 de maio de 2014

FILME: O LEITOR - 2008



Direção: Stephen  Daldry - 2008
Duração: 127 min 
Título original: The reader 
País: Reino Unido 

Baseado no livro homônimo de Bernhard Schlink

1958, Michael Berg (David Kross) mora em Neustadt e tem 15 anos. Ele passa mal e uma mulher o ajuda. Eles começam a ter um caso, é o primeiro amor de Michael e a descoberta de sua sexualidade até que a mulher que se chama Hanna Schmitz (Kate Winslet) desaparece. Ele não a verá mais até que um dia vai assistir um julgamento com sua turma da faculdade de direito como parte de um seminário orientado pelo professor Rohl (Bruno Ganz), um sobrevivente dos campos de concentração e a encontra no banco dos réus.

O filme se passa entre o momento atual e as lembranças de Michael Berg (Ralph Fiennes) já adulto que se divorciou e tem uma filha.

As lembranças de seu primeiro amor são singelas, ela pede que ele leia para ela o que ele faz, lendo a Odisséia de Homero ou a Dama e o cachorrinho de Anton Checkhov entre outros,  fazem um passeio de bicicleta  e passam as tardes juntos.



Hanna e outras mulheres são acusadas de terem deixado morrer trezentas mulheres judias presas em uma igreja durante um incêndio. Ela era funcionária da Siemens e será guarda de campos de concentração. No julgamento ela dirá a verdade, enquanto as outras acusadas negam tudo e com isto conquista a inimizade de suas cúmplices que a acusam de ser a chefe e de ter redigido o relatório. Confrontada pelo juiz ela nega, diz que todas tomaram a decisão juntas para não correr o risco que os prisioneiros fugissem, era responsabilidade delas, mas ele pede que ela prove isto, quer ver sua letra e lhe dá um bloco de  papel para escrever. Ela titubeia e diz ao juiz que foi ela, que não precisa escrever. Sua condenação é maior do que as outras que pegam 04 anos de cadeia e ela a prisão perpétua.

Duas testemunhas que sobreviveram confirmam que todas participavam da seleção das que iriam voltar para Auschwitz, o que significava a morte. Ilana Mater (Alexandra Maria Lara-jovem e Lena Olin) escreveu um livro sobre como ela e a mãe sobreviveram a marcha da morte e ela testemunha que Hanna parecia ser mais humana que as outras, escolhia de forma diferente as dez que mandaria para a câmara de gás e depois levava as que ficavam para dormir com ela, levando todos a pensar que se tratava de homossexualismo, mas não era, ela pedia que elas lessem para ela.

Neste momento Michael descobre o grande segredo de Hanna, ela era analfabeta, não sabia ler nem escrever, portanto não foi ela quem redigiu o relatório, afirmando isto por sentir vergonha de não saber escrever.

Michael nunca mais teve nenhum contato pessoal com ela, mas passa a gravar livros e lhe enviar na prisão, e foi desta forma que Hanna aprendeu a ler, ouvindo e acompanhando com o livro. Ela começa a enviar cartas para ele, mas nunca tem uma resposta, até que finalmente consegue a redução de sua pena e vai ser libertada. A supervisora da prisão entra em contato com Michael, ela não tem ninguém e pode ser um problema para ela entrar no mundo novamente. Ele a ajuda, arruma um emprego e um lugar para morar e finalmente vai vê-la, porém quando ele volta para buscá-la recebe a notícia de seu suicídio.

Michael havia perguntado se ela pensava no passado, não sobre eles como ela diz, mas sobre o que fez, e ela diz que não adiantaria nada, os mortos estão mortos. Mas ela deixa uma lata de chá com algum dinheiro e uma conta no banco e pede que seja entregue para Ilana Mater para que faça com isto o que achar melhor. Michael cumpre seu desejo, mas Ilana não aceita o dinheiro pois isto poderia parecer uma espécie de perdão, mas gosta da ideia dele de entregar o dinheiro para uma instituição de analfabetos. Ela fica com a lata de chá, tinha uma igual quando criança que lhe foi roubada no campo de concentração.

Foi para ela que Michael falou pela primeira vez de seu amor por Hanna e depois ele toma a decisão de contar para sua filha.

Ele a amou a vida toda, sofreu por ela, não conseguiu ter outro amor igual, que substituísse este ou fosse maior.

Houve muitas mulheres que foram nazistas e cometeram atrocidades, crueldades. Nota-se que Hanna não compreende o que fez de errado, ela cumpriu as ordens, e era o que era correto naquela época, mesmo que se tratasse de assassinato, estava dentro da ordem do Estado Nazista. Michael sofreu com isto, talvez desejasse que ela se arrependesse, mas ela não o faz. Ela não se esquiva do que fez no tribunal, nem mesmo mente para se salvar da condenação como os outros, ela assume e não vê nada de errado nisto.



Stephen Daldry nasceu em 1961 em Dorset, Inglaterra. 

FILME: LORE - 2012


Direção: Cate Shortland - 2012
Duração: 109 min  
País: Alemanha - Austrália - Irlanda - Reino Unido

Baseado no livro de Rachel Seiffert - A Câmara Escura - Revelação comovente de uma dolorosa herança nazista. - The dark room. 


1945, a Alemanha é derrotada. Um oficial nazista tem que fugir às pressas e leva sua família para a Floresta Negra, a mulher e seus cinco filhos, entre eles um bebê. Lore (Saskia Rosendahl) é a fiha mais velha e quando sua mãe se entrega a incumbe de levar seus irmãos para a casa da avó em Hamburgo.



Será um longo trajeto em meio as zonas ocupadas. Lore terá que procurar comida e locais para passar a noite. No caminho vê jornais com fotos do holocausto e de seu pai. Hitler se suicidou.

Ela encontrará Thomas (Kai Malina), um judeu que escapou com vida e que irá ajudá-la, mas ainda assim ela terá todos seus preconceitos sua ideologia nazista impedindo que se aproxime ou acredite nele. Para isto terá que vencer toda a educação e ideologia que recebeu em sua formação e será se defrontando com todas as dificuldades durante o percurso que lentamente ela perceberá que os judeus não eram sujos ou mentirosos como sempre acreditou.

Os alemães no filme não demonstram compaixão nem mesmo por crianças, para conseguir comida ela tem que ter algo para oferecer, dinheiro ou jóias que sua mãe lhe deu para a fuga. É sempre pedido algo em troca, até mesmo o corpo, mas nada é gratuito e com generosidade, exceto Thomas que divide com ela o que conseguiu e ainda assim há uma cena que me repugna, mas que é compreensível pela sua formação, quando ele traz comida e ela o afasta, separando a ela e seus irmãos dele para comer.

Os alemães não acreditam nas fotos do holocausto, dizem que é montagem, que são atores, que é obra dos americanos, que nunca o Führer faria isto. A sacralização deste líder como um pai, que não comete erros e que ama a todos seus filhos alemães como se fosse Deus.

Finalmente conseguem chegar a casa da avó graças a ajuda de Thomas que num determinado momento tem que ir embora, pois seus documentos desapareceram. A avó os recebe, dá comida, tomam banho, e uma boa cama. Quando um dos gêmeos pega o pão com a mão recebe uma dura reprimenda da avó, onde aprendeu estes modos? ela é dura, enérgica, autoritária. Diz que seus pais não estavam errados, que Hitler não estava errado, que seus pais não fizeram nada de errado. É neste momento que Lore rompe com toda esta farsa, ideologia fanática. Ela pega o pão com a mão, derruba a água na mesa e a puxa para a mão para beber para total indignação da avó que a manda se retirar imediatamente, o que ela faz de muito bom grado.



Toda esta educação, disciplina e obediência que levam a não pensar, a aceitar tudo como certo e correto, sem avaliar nada. Estas crianças foram educadas para considerar os judeus sujos, mentirosos, ladrões, indesejáveis. Mas foi um judeu quem ajudou Lore, não foi nenhum alemão.

A Lore do início do filme, em sua bela casa, belas roupas, ainda uma criança que acredita em tudo que lhe dizem vai ter que através deste percurso difícil crescer e se tornar uma mulher no final do filme que consegue ver com seus próprios olhos.

O filme tem dois belos momentos simbólicos, logo no início a irmã de Lore brinca de amarelinha, indo do inferno para o céu, e depois quando Lore enterra a foto de seu pai, a do jornal e a que tinham.



Cate Shortland nasceu em 1968 em Temora, New Shouth Wales, Austrália.

Trilha sonora de Max Richter

Max Richter nasceu em 1966 em Hamelin. É um compositor germânico naturalizado na Grã-Bretanha. 

sábado, 24 de maio de 2014

FILME: ANONYMA - UMA MULHER EM BERLIN - 2008



Direção: Max Färberböck - 2008 
Duração: 131 min. 
Título original: Anonyma eine frau in Berlin
País: Alemanha 

Baseado no livro homônimo de autoria desconhecida. Baseado em fatos reais. 

Já postei sobre o livro no Blog que li alguns anos atrás. Em 1945 Berlim cai sob os russos, Hitler se suicida, o fim da guerra se aproxima. A cidade está destruída.

Uma jornalista (Nina Hoss) e várias outras mulheres e alguns homens alemães estão encurralados ali. A maioria  é fascista. A jornalista irá escrever em seu diário todos os eventos ocorridos.

Os soldados russos iniciam uma série de estupros, não há ninguém para proteger as mulheres. É o butim da guerra. A Jornalista decide então que nada nem ninguém irá conseguir magoá-la, e opta então por ter um protetor, o que muitas mulheres irão fazer, pois assim se tornam proibidas para os outros soldados, são protegidas e recebem comida. É a sobrevivência.



Mas serão mulheres marcadas por toda sua vida. Deverão se calar, pois quem irá querê-las depois? Entre elas até riem, se divertem sobre os homens, e a pergunta que sempre se fazem: Quantos? Quantas vezes?

Ela será a protegida do major russo Andreij Rybkin (Evgeniy Sidikhin) que perdeu sua esposa na guerra, foi enforcada pelos alemães. Os russos falam das atrocidades cometidas pelos alemães, eles não provocaram esta guerra, tiveram que defender seu país e suas famílias. Alguns perderam tudo.



A Alemanha se rende, é o fim da guerra, restam os destroços. O marido da jornalista retorna, mas não aceita o que ocorreu, diz ter nojo dela. Outro marido se mata.

Os homens tem traumas de guerra, mas são compreendidos pelos seus pares, mas as mulheres que sofreram os estupros são estigmatizadas, condenadas, são prostitutas e ficarão com esta marca para sempre.

Quando o livro foi publicado em 1959 foi um escândalo, muitos disseram que era um insulto às mulheres alemãs. Novamente a negação. Ela proibiu que o livro fosse reeditado, o que só ocorreu após sua morte em 2003, hoje sabe-se que a autoria é de Marta Hiller.

Estima-se que dois milhões de mulheres tenham sido estupradas na Alemanha após a guerra. O silêncio se impôs pois do contrário seriam renegadas pela sociedade, não se casariam, não seriam respeitadas, seus maridos não iriam querer ficar com elas, como ocorreu no filme. O estupro é uma forma de humilhação e poder sobre o derrotado, mas o que não se leva em conta é o trauma que a vítima carrega para sempre. Enquanto outras atrocidades são estudadas e acompanhadas, o estupro é um assunto tabu, seja na guerra ou não.
Muitas mulheres se suicidaram ou cogitaram fazê-lo, algumas engravidaram e tiveram filhos que foram apelidados de "moleque russo" pela sociedade, criando mais um trauma, desta vez para o filho. Marcas, marcados como gado.

O grande mérito deste filme é trazer a tona este assunto e possibilitar que se dê a devida atenção ao trauma que estas mulheres sofreram e sofrem.

Não se trata aqui de falar sobre o fato de que eram alemãs e fascistas. Muitas mulheres alemãs nazistas cometeram atrocidades, e os judeus também ficaram marcados para sempre. Os soldados alemães mataram crianças e mulheres, e isto é dito no filme. Mas, trata-se de falar de algo que ocorreu e que também tem suas consequências, e nem todas as alemãs eram nazistas, ou cometeram atrocidades, apenas acreditaram num homem que lhes prometeu um futuro glorioso e que no fim se suicidou deixando seu povo com o que sobrou desta guerra e suas consequências.


Max Färberböck nasceu em 1950 em Degerndorf, Münsing, Baviera na Alemanha.

Trilha sonora de Zbigniew Preisner 

Zbigniew Preisner nasceu em 1955 em Bielsko-Biala, Polônia. É um compositor. Estudou história e filosofia em Cracóvia. 

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios - NORBERT & STEPHAM LEBERT


Lebert, Norbert & Stephan. Record, 2004
206 páginas
Tradução: Kristina Michahelles


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho