domingo, 14 de dezembro de 2014

FILME: O CLUBE DE LEITURA DE JANE AUSTEN - 2007


Direção: Robin Swicord - 2007
Duração: 106 min
Título Original: The Jane Austen Book Club

Adaptação do romance homônimo de Karen Joy Fowler

Um filme para relaxar. Cinco mulheres e um homem se encontram para falar sobre os livros de Jane Austen. Cada um deles tem suas questões pessoais e se utilizam da leitura para tentar encontrar respostas ou soluções para seus problemas. Bernadete (Kathy Baker)  é quem funda o clube de leitura após conhecer Prudie (Emily Blunt), uma professora de francês que se decepciona quando o marido Dean (Marc Blucas) lhe avisa que não irão mais a Paris, mas que ele ficará fora alguns dias devido um jogo. 
Jocelyn (Maria Bello)  é uma criadora de cachorros e acaba de perder seu fiel companheiro, o cachorro, para o qual faz um enterro. Sylvia (Amy Brenneman) fica com ela neste momento delicado, e seu marido Daniel (Jimmy Smits) vai embora. Eles tem uma filha, Allegra (Maggie Grace) que é homossexual. Passado uns dias Daniel avisa à Sylvia que quer se separar porque se apaixonou por outra mulher. Allegra retorna para casa. 
Jocelyn conhece Grigg (Hugh Dancy) e o convida para o clube da leitura pensando que ele pode se interessar por Sylvia, mas ele se apaixona por ela. 

Aos poucos, a cada livro lido, a cada encontro vamos vendo as coisas se acertarem, e cada um encontrar uma forma de ser feliz. 

Filme fraco, as passagens sobre os livros são rápidas, mescladas pelas questões pessoais, que também são pouco desenvolvidas, mas serve como introdução a escritora Jane Austen e não deixa de ser uma ideia boa, esta de forma um clube de leitura para discutir além dos livros as questões pessoais baseado no que se leu no livro. 
Robin Swicord nasceu em 1952 em Columbia, Carolina do Sul, EUA. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

PERFIL: MULHERES - AUNG SAN SUU KYI



Aung San Suu Kyi nasceu em 19 de junho de 1945 em Rangum, Birmânia/ Mianmar. Seu pai Aung San, herói da independência do país que era uma colônia Britânica, foi assassinado um pouco antes da independência, quando ela tinha dois anos.

Suu Kyi com a foto de seu pai ao fundo

Suu foi para a Inglaterra quando jovem para estudar e conheceu o Prof. Michael Aris em Oxford, especialista sobre os povos do Tibete, Butão e do Himalaia, com quem se casou e teve dois filhos, Alexander e Kim. 

Suu e Michael 

Suu vivia em Oxford até em 1988 receber um telefonema sobre sua mãe que sofreu um AVC. Ela então volta ao seu país de origem que passava justamente por grandes manifestações do estudantes em prol da democracia e que foram massacrados pelo governo militar que assumiu o governo após um golpe. O General Ne Win estava no poder há 26 anos. Suu transforma-se no bastião da independência pois é filha do herói Aung San e ela adere ao movimento falando ao público sobre a democracia e os direitos humanos, mas sempre de forma pacífica. Suu é uma grande admiradora de Gandhi. 


Ne Win renuncia mas isto não diminuiu em nada o massacre, os protestos são brutalmente reprimidos. Uma junta militar assume e é formando um novo partido de oposição o LND - Liga Nacional pela Democracia, que Suu apoia incondicionalmente. Ela percorre o país falando a todos, quando retorna sua mãe acaba de morrer. É quando ela teve que tomar uma decisão, e decide ficar no país. Teve todo o apoio de seu marido e filhos, apesar do sofrimento da separação, uma vez que os militares lhes tiraram os vistos de permanência no país.

O povo exige eleições. Em 1989 Suu é presa pela primeira vez para que não possa participar das eleições, porém seu partido ganha a maior parte das cadeiras e a junta militar se recusa a reconhecer os vencedores que são presos.

Em 1990 o Parlamento Europeu lhe concede o prêmio Sakharov de liberdade de pensamento e em 1991 ganha o Nobel da Paz que foi recebido por seu marido e filhos, uma vez que Suu estava em prisão domiciliar em seu país. Em 1995 lhe concedem liberdade como demonstração de democratização, mas isto durará pouco. Em 1995 concedem o visto para Michael e seus filhos a visitarem, será a última vez que verá seu marido. Em 27 de março de 1999 ele morreu de câncer sem revê-la. Foi uma decisão difícil, os militares acreditavam que ela iria para a Inglaterra ver o marido e não concederam o visto para ele vir, mas ela não recuou, sabia que se fosse nunca mais lhe permitiriam entrar no país.

O regime queria chegar as eleições de 2010 sem entraves. Suu era a resistência pacífica, mas firme. Ela tinha uma força de aço. O mundo todo se movimentava para conseguir sua libertação. Em 19 de junho de 2010 ela completou 65 anos ainda em prisão. Nesta ocasião o presidente americano Barack Obama fez um apelo ao governo para que a libertassem.

Ela foi finalmente libertada em 13 de novembro de 2010. Em 2011 encontrou-se com o presidente Thein Sein que iniciou o processo de abertura do país e libertação dos presos políticos. Em 2012 ela foi eleita para a câmara baixa do parlamento birmanês. Porém a luta pela democracia continua.

Michael Aris em Oxford 


Uma mulher admirável, afetuosa mas firme como o aço, que nunca teve medo.

Referências: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aung_San_Suu_Kyi

Ela escreveu o livro: Viver sem medo e outros ensaios que pretendo ler e postar aqui no Blob. Já postei o filme Além da Liberdade que é sobre ela, e há também o filme Muito além de Rangun de John Boorman, que não é especificamente sobre Suu, mas onde ela aparece e fala de seu país.

domingo, 7 de dezembro de 2014

FILME: ALÉM DA LIBERDADE - 2011


Direção: Luc Besson - 2011 
Duração: 132 min
Título Original: The Lady 

Uma cinebiografia de Aung San Suu Kyi 

País: Birmânia - Mianmar  

Suu Kyi (Michele Yeoh) é filha de um herói da independência da Birmânia (hoje Mianmar) que foi assassinado quando ela tinha dois anos. Quando jovem foi morar na Inglaterra e se casou com Michael Aris (David Thewlis) , um professor de história tibetana , do Butão e sobre os povos do Himalaia. Tiveram dois filhos Kim (Jonathan Raggett) e Alex (Jonathan Woodhouse).

Quando sua mãe tem um derrame Suu volta à Birmânia que passa por um momento de massacres de estudantes que lutam pela democracia.O país é uma ditadura militar e Suu é a candidata ideal para enfrentar os militares. Ela adere à causa e a luta e para isto permanece no país após a morte de sua mãe e só não foi assassinada porque os militares não queriam outro mártir, caso de seu pai.

Suu passará 21 anos em prisão domiciliar, sofrerá muita pressão psicológica, mas ela tem fibra de aço apesar de toda doçura que possui com seus familiares e amigos e de ser uma pacifista. Ela terá o apoio de seu marido e filhos que farão tudo para ajudá-la. Em 1991 ela ganhou o prêmio Nobel da Paz e não podendo irá recebê-lo seus filhos e marido a representaram. Em 1998 Michael recebeu o diagnóstico de um câncer e não verá nunca mais sua esposa, pois os militares não liberaram seu visto, querem forçar Suu a ir ao encontro do marido e com isto nunca mais deixá-la entrar no país. A última vez que ela viu seu marido foi no natal de 1995. Somente em 2010 ela será finalmente libertada.



Ela permaneceu em seu país como uma resistência pacífica e encorajando a busca pela democracia e dos direitos humanos.

Uma mulher forte, determinada, que não tinha medo. Precisou fazer escolhas difíceis como no caso do marido doente que ela não reviu e dos seus filhos que cresceram longe dela. É preciso acreditar numa causa e amar seu povo e país de uma forma que vai muito além do que conhecemos por amor. O apoio de seu marido me emocionou e me mostrou o quanto ele a amava, a ponto de compreender que amar não é ter alguém, mas deixar este alguém ser.



Mianmar é um país de uma riqueza cultural imensa, as cenas do filme quando ela vai para o interior do país são belíssimas e nos mostram a cultura, os rituais, as roupas, rituais, a natureza e um povo pacífico.

Uma mulher admirável e de uma força e convicção que é rara.



Luc Besson nasceu em 1959 em Paris, França 

Suu Kyi 
com Michael Aris
Na entrega do Nobel - Michael e os dois filhos Kim e Alex 

PROJETO MULHERES

Em uma homenagem a todas as mulheres, frágeis ou fortes, submissas ou emancipadas, as grandes lutadoras, as que fizeram diferença e mudaram situações e culturas, as que sofreram, as que enlouqueceram, as que se suicidaram, as que ganharam prêmios e foram reconhecidas, as que sonham e nunca conseguiram atingir seu desejo, as que estavam por trás de alguém mas que fizeram toda a diferença, as que foram grandes pensadoras mas sufocadas pelo machismo e uma sociedade patriarcal, as que pagaram um preço alto para poderem ser elas mesmas, as que deram o exemplo que muitas puderam seguir, as grandes guerreiras que lutaram por uma causa ou para defender seu país, as mulheres que inventaram, que fizeram ciência, arte, música, escreveram, dançaram, interpretaram, militaram, foram políticas, filosofas, mas também, apesar de toda a história de submissão e patriarcalismo encontramos mulheres cruéis e dominadoras em toda a história, determinadas, temíveis. 

Nunca se poderia falar de todas, mas escolhi algumas para buscar sua história e o que produziram, fizeram, o que nos deixaram. Algumas escolhi por admiração própria e outras porque tem histórias fortes e interessantes. Não me coloco um tempo para isto, mas vou aos poucos adentrar em suas vidas pelos livros, filmes, exposições, mostras, teatro, música e ir postando aqui no Blog.

Infelizmente no Brasil há uma grande carência de traduções de obras existentes em outras línguas, muitas mulheres são desconhecidas aqui. Isto também acontece em outros países como a Inglaterra, França e Estados Unidos onde poderíamos encontrar o maior número de obras, mas quando se trata de autores de países da África, América latina, Oriente, não há tradução. Acabo de ver quantas escritoras temos na América Latina, no México, no Oriente, mas não há quase nada traduzido, disponível  ou mesmo acessível, mesmo com a Internet. 

Sejam bem vindos, mulheres e homens, pois a questão não é o gênero, mas sim a humanidade! 

FILME: A CAÇA - 2012




Direção: Thomas Vinterberg - 2012
Duração: 115 min
Título Original: Jagten

Um filme que nos coloca numa posição de termos que imaginar a situação sem estarmos cientes de que Lucas não fez nada, que nos provoca a capacidade de termos empatia.Nunca devemos julgar baseados em nossos preconceitos, mas antes, dar ao outro a possibilidade de falar e se defender. 

Quem não assistiu seria melhor não ler, uma vez que vou falar do filme na íntegra. 

Lucas (Mads Mikkelsen) está passando por um momento difícil com sua ex-esposa que não lhe dá muito acesso ao filho Marcus, mas por outro lado está reconstruindo sua vida. Conseguiu um lugar de professor em uma creche e se interessou por uma mulher com quem começa um relacionamento. Tem seus amigos do grupo de caçadores. Vive numa pequena cidade pacata próximo a natureza.

Ele é o único homem na creche e as crianças gostam dele, costumam se esconder para lhe pregar sustos quando ele está chegando e ele adere à brincadeira. Como professor lhe cabe também levar as crianças ao banheiro, limpá-las e por isto muitas vezes ele fica sozinho com elas, como as professoras mulheres. 

Tudo está se encaminhando, ele está conseguindo o que deseja, que seu filho Marcus venha passar uns tempos com ele, até o dia que Klara, a filha de seu melhor amigo Theo (Thomas Bo Larsen) aparece, ela está sozinha, meio perdida. Lucas então a acompanha até em casa. Ela tem uma mania, andar pelas listras que vê na calçada. Klara é uma linda menininha, mas que não recebe muita atenção de seus pais, aparece sempre sozinha, e ela tem um irmão adolescente que lhe mostra num tablet um homem com o pênis ereto. Ela fica meio sem compreender direito isto, mas de alguma maneira isto a marca. 

Ela se afeiçoa à Lucas e gosta muito da cachorra dele, Fanny, e faz um coração para lhe dar de presente e no meio de uma brincadeira na creche ela se lança sobre ele e lhe dá um beijinho nos lábios. Lucas lhe diz que estes beijinhos são só para papai e mamãe e quando ele recebe o presente o devolve à Klara dizendo que ela poderia dá-lo à outra pessoa. Lucas agiu corretamente, mas Klara se ressentiu, se sentiu novamente rejeitada, e em sua tristeza no final do dia quando a diretora da creche Grethe (Susse Wold) a vê no escuro ela acaba lhe dizendo que não ama Lucas, que ele tem um pipi. A diretora ri e lhe diz, sim como seu pai e irmão e todos os homens, mas Klara responde, mas o dele é duro... como um pau. O que seu irmão havia dito no dia que lhe mostrou a cena no tablet. 

A partir disto a diretora ficará inquieta, o que é absolutamente correto. Ela fala para Lucas que uma das crianças o acusou de abuso, mas não diz quem, não o que foi, não lhe dando nenhuma oportunidade de compreender, se explicar e se defender. Ela o manda para casa enquanto procedem as investigações. Grethe então chama em auxílio um homem, que me parece ser um psicólogo, e aí ocorre o erro, porque ao falar com Klara e não obter respostas, as que ele queria ouvir, ele coloca palavras na boca da criança fazendo perguntas que induziram a criança a responder. Isto ao meu ver não é o melhor procedimento. 

Os adultos acreditam que a criança não mente, e aí temos uma ilusão pois crianças mentem sim. Ver a criança como a inocência pura, ignorando a sexualidade que ela possui, e que ela não é cruel é o desejo do adulto que se esquece, que recalca sua própria infância. Klara ao se sentir rejeitada usou de algo que ela sabia de alguma forma que era errado, mas ao mesmo tempo sem saber exatamente o que era. É como a criança que ouve um palavrão e o repete e é repreendida pelos pais que o falaram, dizendo que ela não pode falar. Por outro lado, quando uma criança diz algo assim é óbvio que o adulto vai ficar extremamente preocupado e terá que fazer algo. Em quem acreditar? o que faríamos no lugar de Grethe? da mãe de Klara? do pai de Klara? 

Quando Klara diz que Lucas não fez nada ninguém a escuta, acreditam que ela recalcou, que esqueceu e que se trata de uma reação da criança ao ocorrido, o que realmente pode acontecer. 

A partir do veredicto do psicólogo Grethe chama os pais de Klara, conta para sua mãe o que aconteceu e depois alerta a todos os pais para ficarem atentos aos sintomas do abuso sexual em seus filhos. A paranoia se instala e apesar do filme não mostrar podemos imaginar os pais pressionando os filhos por respostas, o que as leva a dizer coisas que eles acreditam ser sintomas do abuso. Não sabemos se elas repetem o que os pais pensam, o que seus amiguinhos dizem ou o que, mas apesar da evidência da mentira quando a polícia vai à casa de Lucas e descobre que não há nenhum porão que todas as crianças descreveram como o local do abuso, ninguém muda seu discernimento sobre tudo. 

A vida de Lucas é destruída, ele é agredido por todos, seu filho também, matam seu cachorro, a namorada fica em dúvida e ele a manda embora. Até a véspera do natal quando Lucas vai à missa na igreja e na frente de todos diz ao pai de Klara para olhar em seus olhos e ver o que está ali. 

Após um ano, meio que sem explicações de como ocorreu a reaceitação de Lucas na sociedade local, todos aparecem felizes para o dia que Marcus fará a passagem da fase de garoto para homem, ou seja, o dia que ele recebe sua licença para caçar e ganha do pai uma espingarda. No dia seguinte eles vão caçar e Lucas escapa por pouco de um tiro que foi para ele, ou ele supõe que foi para ele, uma vez que ao olhar novamente não há ninguém. Ele é a caça, e não o caçador, o que demonstra que nada ficará bem como se supõe quando todos se abraçam e estão felizes. Há certas coisas pelas quais passamos na vida que não se apagam tão facilmente. 

Por outro lado uma comunidade que valoriza a morte, matar animais, caçar, e considera isto o ritual de passagem para a fase adulta para o homem, tem que ser uma sociedade agressiva, portanto as agressões que Lucas sofreu no decorrer do filme dos moradores não são algo estranho  para eles.

Olhando mais ainda para o filme percebemos que a pedofilia e o incesto movem o inconsciente das pessoas, e isto provoca uma reação exagerada, violenta, uma vez que é uma reação à uma tentação que todos carregam de seu édipo. A pequena Klara reage a rejeição de sua demanda de amor com ódio, o que a leva à vingança. Muitos dirão que crianças não fazem isto, mas fazem, não são tão inocentes como a sociedade gostaria de crer. A comunidade se vira contra ele, vemos uma histeria coletiva onde ninguém em momento algum pergunta à Lucas sua versão dos fatos. Nem adiantaria, não iriam acreditar nele. 

Thomas Vinterberg nasceu em 1969 em Copenhagen, Dinamarca 

sábado, 6 de dezembro de 2014

PERFIL- MULHERES - ALFONSINA STORNI



Alfonsina Storni nasceu em 29 de maio de 1892 em Sala Capriasca, Suíça e faleceu em 25 de outubro de 1938 em Mar Del Plata, Argentina. 

Alfonsina nasceu na Suíça, mas filha de pais argentinos que retornam em 1896 para San Juan na Argentina. Em 1901 muda-se para Rosário. Ela passou por muitas dificuldades financeiras e para ganhar o sustento trabalhou como costureira, operária, atriz e professora. 

Suas poesias são uma forma de libertar-se da opressão e da sociedade patriarcal. Ela defende que as mulheres deviam liberar o que traziam dentro de si, reprimidas que eram pela sociedade e mostrar a todos o que sentiam e o que desejavam. 

Em 1935 descobre que tem um câncer de mama e em 1937 o suicídio de seu amigo Horacio Quiroga a abalou muito. Em 1938 suicidou-se andando para dentro do mar, tinha 46 anos e teve seu corpo resgatado no dia 25 de outubro. Antes disto ela havia enviado a um jornal o soneto "Voy a dormir". Mercedes Sosa a homenageia cantando "Alfonsina y el mar" composto por Ariel Ramírez e Félix Luna. 

Há um monumento na praia La Perla feito pelo escultor argentino Luis Perlotti. 

Ouça a canção Alfonsina y el mar: 


Ouça: Voy a dormir: 

Assista: Diário de Alfonsina - últimos dias



Assisti também a Peça Vestida de Mar - postado no blog. 

PERFIL: MULHERES - ADÉLIA PRADO



Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de Dezembro de 1935 em Divinópolis, Minas Gerais. É uma poetisa, filosofa, contista e professora. É ligada ao Modernismo.

Uma das minhas poetisas preferidas. Gosto muito de seu livro Bagagem. Ela sempre se encanta, busca o inusitado no dia a dia, tem algo de lúdico e do inconsciente em sua poesia. 

Ela escreveu seus primeiros versos quando sua mãe faleceu. 

"Não quero faca, nem queijo. Quero a fome." 

É na falta de que se cria algo, é estando com fome que se pode desejar e fazer algo. 

Em 1994 fez uma depressão, procurou a ajuda de um psiquiatra, mas diz que este tempo árido lhe fez bem. 

" O que se passou? uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo,a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez."

Tenho vários livros dela, mas vou reler Bagagem e Solte os cachorros para falar aqui. E lerei o Manuscritos de Felipa sobre o sofrimento de uma mulher. Depois retorno ao perfil. 

PERFIL: - MULHERES - AGUSTINA BESSA-LUÍS


Agustina Bessa-Luís é o pseudónimo literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa. Ela nasceu em 15 de outubro de 1922 em  Vila Meã, Amarante. 

É uma escritora portuguesa. Em 2004 aos 81 anos recebeu o prêmio Camões. Possui uma produção extensa em literatura, teatro, literatura infantil. Desde julho de 2006 ela se retirou da vida pública por razões de saúde e deixou de escrever. 

Para falar dela aqui no blog lerei os dois livros que tenho: A Sibila e O Mosteiro. A Sibila foi publicado em 1954 e foi o livro que a consagrou. Também vou postar a adaptação para o cinema de O Convento e Ronda da Noite. Após estas leituras e ver estes filmes retorno a este perfil. 






sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: CLOSET LAND - 1991



Direção: Radha Bharadwaj - 1991
Duração: 89 min
Título original: Closet Land (Terra de Armários)

Um filme sobre a tortura

Um filme com apenas dois atores, ela uma escritora de histórias infantis (Madeleine Stowe), ele o grande inquisidor e torturador (Alan Rickman). 

Ela é presa a noite e levada com os olhos vendados para um lugar desconhecido para ser interrogada. É acusada de ocultar na sua escrita de histórias infantis recados para subversivos ao governo. Quem a vigia durante um ano e a prende é o governo. 

Durante o filme todo assistimos a uma pressão psicológica imensa sobre a escritora que não se rende, sua mente é mais forte. Passam então a tentar dobrar seu corpo, destruir o corpo para atingir a  mente, mas também não conseguem. Ela tem algo poderoso, sua mente e sua imaginação que a retira dali nos piores momentos e lhe permite manter a sanidade. 

O que possibilitou isto foi um fato trágico de sua infância que ocorria num armário quando ele se utilizava de sua imaginação para poder escapar. Durante o filme nas falas de seu torturador percebemos sinais de algo havia ocorrido em sua infância, naquilo que gravaram de suas conversas com sua mãe antes de sua morte, na questão de sua sexualidade. 

O que mais choca no filme é que sabemos que isto ocorre, e o pior, não são aqueles que a sociedade considera como bandidos, mas trata-se do governo, aquele escolhido por suas futuras vítimas. A parte que mais toca é quando ela fala sobre o quanto somos cegos e nos recusamos a ver e compreender. Aceitamos as explicações sem sentido para alguém que subitamente desapareceu e isto basta. Ela sabe que a sociedade que está lá fora nada fará em relação ao seu desaparecimento, está condenada a viver reclusa naquele antro de loucos, sim, loucos, porque a obsessão, a paranoia do governo é inacreditável, e muito bem representada pelo inquisidor que no mínimo é alguém muito doente para se propor a fazer o que faz, ele mesmo teve sua mente atingida e sofreu uma lavagem cerebral.

O que vemos é a forma como uma mente pode ser atingida e também o emocional de uma pessoa, principalmente quando ela está vendada e só escuta, podendo ser ludibriada, enganada pelos sons, imitações, e como isto se reflete em seu interior. O que ela sente é o que pode imaginar daqueles sons, independentes de serem reais ou não. 

O filme choca por sua verdade e realidade. Mas fingimos que isto não acontece. 

Radha Bharadwaj nasceu na Índia. 

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FILME: DE OLHOS BEM FECHADOS - 1999


Direção: Stanley Kubrick - 1999
Duração: 159 min
Título original: Eyes Wide Shut

Baseado no livro "Romance do sonho" de Arthur Schnitzler

Alice (Nicole Kidman) e Bill (Tom Cruise) são casados e tem uma filha de 7 anos. Vivem uma vida tranquila e se amam, até o dia em que Alice instigada talvez por ter sido cortejada numa festa por um homem e ter visto seu marido com duas belas mulheres inicia uma conversa provocadora com ele sobre o que ele sente em relação à mulheres, se sente desejo sexual por elas, inclusive em seu consultório, uma vez que ele é médico, o que ele nega alegando que por ter uma mulher que ama e com quem é casado isto não lhe passa pela cabeça, e quando ela o provoca mais sobre ela, ele lhe diz que confia nela. Algo neste momento faz com que Alice lhe confidencie que um ano atrás se sentiu muito atraída por um homem com quem trocou apenas um olhar e que se este homem a quisesse ela teria abandonado tudo, ele, sua filha e ficado com ele, nem que fosse para apenas uma noite de sexo. 

Bill leva um choque, algo dentro dele se desloca, mas no mesmo momento ele é chamado porque um de seus pacientes acaba de falecer. Ele sai para a rua e começa a imaginar a cena de Alice com este oficial da marinha transando, e isto não lhe sai mais da mente. Após sair do apartamento do falecido ele vaga pelas ruas desnorteado, e começa uma jornada desconexa para ele, totalmente diferente do que ele já viveu ou conheceu levando-o a contato com um mundo sexual que ele desconhecia, como prostitutas, uma mansão onde se realizam orgias, um pai que explora a filha sexualmente. 

Alice tem um sonho onde está nua no meio de muitos homens e o oficial da marinha faz sexo com ela e depois ela faz com muitos homens. 

O que aflora em Alice é o desejo recalcado, aquele inconsciente, das fantasias, que apesar de trazer um desejo não é algo que se faça, até porque somos coibidos pela educação, pela moral, pelo amor, pela sociedade, mas isto não impede que imaginemos algo, que fantasiemos. O porque dela contar ao marido pode ter várias respostas. Já Bill sofre um choque psíquico e com isto desnorteia, passa a agir de forma desconexa e busca algo para compreender tudo isto, só que no caso dele no real. 

Somente quando ele conta para Alice tudo que fez e ela ou ouve e eles conversam é que podem retomar sua vida de antes. Interessante ver neste filme os três conceitos de Lacan - O real, o imaginário e o simbólico. Os três estão sempre implicados um com o outro, mas é o simbólico que consegue dar conta de estabelecer uma realidade viável, é através da palavra que o real e o imaginário se tornam compreensíveis. 

Os sonhos podem ser tão fortes, assim como o imaginário, a ponto de não conseguirmos lidar com eles acordados. Os sonhos sempre trazem o que temos de mais oculto, recalcado, mas que mesmo assim somos nós, e talvez o mais verdadeiro de nós. Os sonhos são reais, não é algo para não se levar em conta como se fosse algo apenas sem sentido. E nossa imaginação produz efeitos. O que não conseguimos lidar é o Real, que é possível acessar justamente pelos sonhos e simbolizar. 

Stanley Kubrick nasceu em 1928 em Manhattan, New York, EUA e faleceu em 1999 em St Albans, Reino Unido. 

domingo, 30 de novembro de 2014

FILME: CRIAÇÃO - 2009


Direção: Jon Amiel - 2009
Duração: 108 min
Título original: Creation

Cinebiografia sobre Charles Darwin - baseado na biografia de Darwin escrita por Randal Keynes - A caixa de Annie -  que era tataraneto de Darwin. 

O filme é parte biográfico e parte ficcional. Trata-se do período após seu retorno à Inglaterra quando se vê as voltas da escrita do seu livro "A origem das espécies". Nesta fase Darwin enfrenta crises de ansiedade e tem transtornos alimentares, além de carregar uma imensa culpa pela morte de sua filha Annie, a mais velha, e a que era mais próxima do pai, inclusive em ideias. 

Darwin (Paul Bettany) é casado com Ema (Jennifer Connelly) e vive numa casa rural na Inglaterra. O filme inicia quando ele já está sofrendo de transtornos alimentares e não consegue escrever seu livro, ao mesmo tempo que nos remete ao passado quando sua filha Annie ainda vivia. Darwin sempre vê o fantasma da filha com quem conversa. 

Ema é muito religiosa e um dos grandes conflitos de Darwin é justamente ter desmontado a criação conforme nos conta a Bíblia. Em sua viagem e pesquisas ele percebe que tudo evolui e sobrevive o mais forte, além de que caracteres que se tornam inúteis tendem a desaparecer na espécie. Ele vai perdendo a fé e deixa de acreditar em Deus, mas sabe bem a repercussão que seu livro pode ter, não apenas um escândalo, mas ele será um divisor, provocará uma ruptura, e que fazer quando as pessoas perceberam que estão sós no mundo sem um Deus que lhes dê um sentido e as proteja? 

Mas em minha opinião o que mais acomete Darwin é a morte de sua filha que ele acredita que sua esposa o culpa. Quando ele sofre um colapso após saber que outro cientista está chegando às mesmas conclusões que ele,  finalmente parte em busca de ajuda em uma cura pela água, no mesmo lugar onde sua filha foi levada por ele e onde faleceu. Darwin terá que enfrentar seus fantasmas. Ele nunca aceitou a morte dela, e o médico fazendo às vezes de um precursor de psicanalista o irá interrogar e confrontar com suas questões e lhe dirá que sem fé, e isto não depende de Deus, mas que sem fé a água nunca poderá curá-lo. Será nesta viagem que Darwin irá aceitar a morte de sua filha e ao retornar para casa ele finalmente falará sobre isto com Ema e se surpreenderá ao ouvi-la dizer que ela se culpou e não à ele. Finalmente o que os separava é removido, assim como em relação aos seus filhos que ansiavam pelo amor do pai como Annie tivera antes. 

Ele então escreverá o livro e dará a Ema para ler e lhe dirá que ela pode fazer o que achar o certo. No dia seguinte ele pensa que ela está queimando o livro, mas ao contrário, ela o havia preparado para ser levado pelo correio até a editora. Ela se tornou sua cúmplice neste livro que naquela época foi devastador, tanto que se diz até hoje que houve três grandes rupturas na forma de ver o mundo, quando Copérnico disse que a terra girava ao torno do sol e não era o centro de tudo, quando Darwin disse que descendemos dos macacos e quando Freud disse que não somos senhores em nossa própria casa, pois o inconsciente rege. 

Jon Amiel nasceu em 1948 em Londres - Inglaterra - Reino Unido

FILME: COMER BEBER E VIVER - 1994



Direção: Ang Lee - 1994
Duração: 123 min
Título Original: Yin Shi nan nu

País de Origem: Taiwan

Um pai viúvo que é chef de cozinha, Chu (Sihung Lung) e suas três filhas - Jia-Jen, Jia-Chien e Jia-Ning. Ele apesar de cozinhar muito bem perdeu o paladar, não sente mais nada ao provar a comida. Aos domingos ele prepara um jantar onde reúne a família, o que nem sempre agrada à filhas. Uma delas desejava ser como o pai, cozinheira, mas ele a afastou da cozinha a enviando para a faculdade, pois dizia que não queria sua filha numa cozinha gordurenta. 

As relações entre eles não é as mais afetuosas, os conflitos familiares estão latentes, e mesmo com todo o amor e dedicação com que Chun prepara a comida, isto não os aproxima. Aos poucos as coisas vão se destrinchando, algumas verdades vem a tona. O eterno problema de pensar que se sabe o que o outro pensa e quando se fala descobre-se que é exatamente o contrário. 

O que mais encanta no filme é a arte gastronômica de Chun, que esconde em suas belas criações na cozinha tudo que sente por dentro. Somente no dia em que ele finalmente revela seu segredo é que acaba recuperando o paladar, e por coincidência justo num dia em que sua filha que ele não queria ver cozinheira prepara o jantar para ambos. 

Pode ser no ocidente ou no oriente as relações familiares são sempre complicadas e na falta de um diálogo as pessoas se ressentem e se afastam. Mas o amor pode aproximar as pessoas. 

Ang Lee 

FILME: O SEGREDO DOS SEUS OLHOS - 2010



Direção: Juan José Campanella - 2010
Duração: 129 min
Título Original: El secreto de sus ojos

País de Origem: Argentina

Benjamín Espósito (Ricardo Darín) se aposenta após trabalhar a vida todo no Tribunal Penal em Buenos Aires. Para preencher seu tempo ele começa a escrever um romance sobre um fato verídico que se passou 25 anos antes, quando em 1974 foi encarregado de investigar um violento estupro seguido de assassinato de uma bela mulher, Liliana Calotto (Carla Quevedo) casada há um ano com Ricardo Morales (Pablo Rago). 

O filme se passa entre digressões entre o presente e o passado e aos poucos vamos conhecendo toda a trama do que ocorreu naqueles anos. Somos então apresentados à Irene (Soledad Villamil), que iniciava sua carreira jurídica e à Sandoval (Guillermo Francella), assistente de Espósito que sofre de alcoolismo, mas é brilhante em solucionar casos. Este é o enredo policial do filme. 

Espósito é apaixonado por Irene, mas nunca ousa lhe dizer nada e ao investigar o caso de Liliana se envolve cada vez mais com a vida da vítima, pelo marido apaixonado, que alega não desejar a morte do assassino, mas sim, que ele passe a vida toda preso e tenha que se haver com o nada. Logo no início do filme Espósito anota num papel "Temo", ao acordar. Ao escrever sobre a investigação ele procura Irene para lhe falar sobre isto, sobre tudo que aconteceu naqueles tempos, sobre o que nunca mais falaram. 

A escrita de Espósito é uma história real com fatos, mas nas entrelinhas deste romance há todo o aspecto psicológico dele, de tudo que se passou dentro de ele e que nunca foi expressado. Após solucionarem o caso e prenderem o assassino, a Argentina entra num momento político difícil, e um desafeto de Espósito libertará o assassino e o colocará numa posição dentro do executivo do país, e a justiça nada poderá fazer. Agora todos correm risco de vida. Espósito irá embora e deixará para trás Irene, mas levará consigo um amor represado dentro de si, pelo simples motivo que ele teme amar. E é isto que o fascina em Morales, o amor que ele sente por Liliana e como pode ter vivido 25 anos sozinho, no nada? 

Sandoval irá dizer num momento que há algo que nunca podemos nos livrar, podemos mudar de rosto, de religião, de emprego,de casa, mas a paixão, esta permanece, e é assim que eles chegam ao assassino. Como viver com uma paixão assim? como Morales sem  Liliana, como Espósito sem Irene? Como preencher uma vida e lhe construir um sentido com este imenso vazio dentro de si? 

Tudo o que não se diz o olhar expressa, e é brilhante a atuação dos olhares no filme, que falam mais que qualquer palavras. Ambos sabem do amor que nutrem um pelo outro, mas estão ali, a espera que algo aconteça, um milagre talvez? Também será pelo olhar que Espósito através de fotografias irá descobrir o assassino de Liliana. Dizem que os olhos são o espelho da alma, mas o que eles com certeza fazem é falar, os olhos falam, e deletam nossos segredos. 

Já Ricardo tem um olhar perdido, um olhar de quem não pode mais realizar o que deseja, mas que acalenta a vingança. Ele quer encontrar o assassino que lhe tirou o grande amor de sua vida. Seu olhar de amor é um olhar de puro amor, mas sem objeto palpável, ela já não existe. Ricardo não pode mais amar porque a morte se interpôs, mas Espósito pode, não é a morte que o impede, é o temor, o medo. 

Durante o filme várias vezes há a questão da máquina de escrever que falha na letra "A", justo a letra que falta, a letra que impede Espósito de escrever o seu amor, o Temo em Te A Mo. 

Morales ficará no passado, preenchendo o vazio com o nada, nem mesmo falando, já Espósito consegue encontrar a letra que falta e a falar. 
Juan José Campanella 

sábado, 29 de novembro de 2014

FILME: UMA NOVA CHANCE PARA AMAR - 2013


Direção: Arie Posin - 2013 
Duração: 92 min 
Título Original: The face of love 

O Luto patológico 

Durante uma viagem de férias ao México Nikki (Annette Bening) perde seu marido Garret  (Ed Harris) que morre afogado. Sua única filha sai de casa na mesma época para viver com o namorado. A vida de Nikki perde todo o sentido e exceto pela companhia de Roger (Robin Williams) em sua última participação no cinema antes de sua morte neste ano, que também é viúvo e vai nadar na piscina de Nikki e costumam fazer algumas refeições juntos, ela vive das lembranças de seu marido. 

Até que um dia ela resolve voltar a visitar um museu, local onde ia muito com Garret que gostava de arte, e lá vê um homem extremamente parecido com seu falecido marido. Nikki passa a segui-lo até que consegue se aproximar e eles iniciam um relacionamento. A questão é que Nikki não esqueceu Garret, e não consegue abrir espaços para novos relacionamentos, e vê em Tom o marido que morreu e não a pessoa que está diante de si. Ela o leva aos mesmos lugares onde costumava ir, numa tentativa de manter o marido vivo. 

Quando perdemos alguém muito próximo a sensação é de que algo nosso foi junto, e por isto é necessário o luto para que ocorra a separação, para que o desejo se desligue deste objeto e possa se voltar para outros. Nikki não se separou de Garret, seu desejo continuou ligado à ele, ela não está disponível para amar Tom. É a Garret que ela vê e ama. Ela permanece fixada no passado, o psiquismo se cristaliza e idealiza a pessoa que partiu, e acaba introjetando este objeto ao invés de se separar dele e com isto poder continuar a viver e ter possibilidades de novos objetos amorosos ou outros atrativos na vida. 

Ela não aceitou a morte dele, não a enfrenta. Guarda tudo que era dele em caixas e mantém uma foto dos três, ela, o marido e a filha. Normalmente quando alguém morre guardamos algumas lembranças, mas nos desfazemos da maior parte das coisas, doando, vendendo, dando de presente aos outros. 

Nikki é melancólica, ela busca o passado, quer se livrar da dor e manter a ilusão de que nada disto tudo aconteceu. Há uma cena na praia com Tom onde ela lhe fala como se fosse Garret dando a compreender que nada daquilo aconteceu, que graças a Deus ele está vivo. E no entanto, é Tom quem está ali. 

Ela não consegue pintar e Tom lhe diz que pintar e seu olhar, olhar para algo, a percepção do que se vê, e então isto se expressa na tela. Nikki não consegue olhar para fora, está presa dentro de si, até que após conseguir se libertar ela pode novamente olhar e se expressar. 

Gostei muito do quadro de Tom que ele nomeia - A face do amor. Interessante porque ele olhar pela janela para Nikki na piscina, mas ao mesmo tempo há o seu reflexo no vidro. A face do amor é sempre o que buscamos no outro, aquilo que nos completa, que nos falta, o que não deixa de ser uma ilusão também, mas que possibilita muitas vezes criar, como fez Tom, e como fará Nikki depois. 

Um belo filme sobre o luto, a melancolia, e do quanto é necessário viver este momento com toda sua dor para depois se separar e continuar a viver, sem nunca esquecer ou deixar de amar quem partiu, mas podendo abrir espaço em seu desejo e em sua vida para outras coisas.

Infelizmente o filme deixa a desejar quanto à recuperação de Nikki, em qual momento ela rompe com seu passado e consegue finalmente seguir sua vida? A última cena antes é ela dizendo a Tom que o ama, e depois passa um ano e a vemos sendo capaz de seguir sua vida. 

Arie Posin nasceu em Israel