segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FILME: HEMINGWAY & GELLHORN - 2012


Direção: Philip Kaufman - 2012
Duração: 155 min 
Roteiro: Barbara Turner e Jerry Stahl
País: Estados Unidos 

Gosto dos filmes biográficos.

Este como já nos diz o título é sobre Hemingway e Martha Gellhorn que foi correspondente de guerra. 
Ela é uma mulher de vanguarda, audaciosa, independente, ele é narciso, machista e alcoólatra, e um grande escritor, reconhecido e admirado.


O filme faz um merecido elogio à Gellhorn (Nicole Kidman) , que é pouco conhecida  pelo seu trabalho. 
Os dois se conhecem num bar e se aproximam quando estão cobrindo a Guerra Civil Espanhola,  apaixonam-se  e se casam após o divórcio dele de Pauline, sua segunda esposa. Passam poucos anos juntos e irão também se divorciar, ele ainda terá mais um casamento. Acabará se suicidando. 
Ele não consegue lidar com a independência dela, seu sucesso, no fundo a inveja e lhe toma o lugar em uma das guerras onde ela desejava ir para cobrir o conflito. É a gota d'água para ela que vai embora.



Ela foi uma das maiores correspondentes de guerra do Século XX, cobriu os principais conflitos. Seu casamento com Hemingway (Clive Owen)  é apenas um pequeno pedaço desta vida fantástica. 

Assista ao trailer em inglês





Philip Kaufman nasceu em 1936 em Chicago, EUA.

Trilha Sonora de Javier Navarette

Javier Navarette nasceu em 1956 em Teruel, Espanha. É compositor

FILME: EM UM MUNDO MELHOR - 2010



Direção: Sussane Bier - 2010
Duração: 113 min 
Título Original: Haevnen
Roteiro: Sussane Bier e Anders Thomas Jensen
País: Suécia - Dinamarca

Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Golden Globe Award

Um filme excelente que permite várias leituras e sobre vários temas.

Talvez o nome do filme seja significativo sobre se referir à Dinamarca, supostamente um país de primeiro mundo, de bem estar social, superior até, mas que se mostrará que não é quando se trata do humano, pois se há algo que é universal é o ser humano. O contexto pode ser outro, mas ao final os sentimentos, as paixões, o ódio, a raiva, o amor, estão presentes em todos.
O ponto forte do filme é mostrar como respondemos ao mal e suas raízes na infância.
Anton (Mikael Persbrandt) é um médico e está na África no meio dos confrontos e da guerra local, onde a população é aterrorizada por um bando armado que comete vários estupros para se divertir e depois apostam se o filho gerado na violência será menino ou menina, e para ver quem ganhou capturam a vítima e lhe abrem o ventre.Cabe a Anton tentar salvar suas vidas.


Enquanto isto sua família está na Dinamarca e seu filho mais velho Elias (Markus Ryggard) enfrenta uma situação difícil na escola de Bulling. O chamam de cara de rato, sueco que ali é pejorativo devido à história da Dinamarca, Suécia e Noruega, até que chega à cidade um garoto, Christian (William Johnk Nielsen) ,  que acaba de perder a mãe e vai morar na casa da avó. Este irá defender Elias de seus agressores e irão se tornar amigos.



Anton  volta para casa para um tempo de descanso.



Ele e sua esposa são chamados na escola, a mãe tenta defender seu filho e acusa a escola de não tomar providências em relação ao bulling. O pai tenta amenizar as coisas.
Num passeio com os filhos e Christian, Anton é agredido pelo pai de outra criança quando tenta acalmar os ânimos de uma briga de criança. Ele não revida e tenta ensinar aos filhos e ao amigo que cada um pode ter sua escolha, ser violento gera violência e que o mundo pode ser um lugar melhor. Depois ele retorna em busca deste pai, o provoca, mas na esperança que ele peça desculpas, o que este não faz, e novamente ele se vai com os meninos sem ter dado uma resposta ao outro. E aí está a questão. Por mais errado que seja, o pai do outro menino deu uma resposta à violência, e Anton não. Para os meninos, ele foi humilhado. Eles não tem a percepção de Anton, que estaria sendo melhor que o outro, e isto por que a cultura e o social colocam desta forma, é o que se espera. E esta ação de Anton irá ter consequências.



Ele volta para a África e se vê numa situação extremamente complicada. O chefe do bando está ferido, entre a vida e a morte e o levam até ele. E agora? Ele acabará agindo de acordo com a ética médica e salvará a vida do monstro. A população local ficará revoltada.
Quando o chefe se recupera ele vai até a tenda onde Anton está tentando salvar a vida de mais uma jovem, e debocha, ri, então ele reage e o joga para o povo lhe dar o que merece, ele é linchado.
E eu fico com a pergunta: ele não estaria lavando as mãos como Pilatos durante todo o filme? tentando conter uma agressividade que todos nós temos? para dar um exemplo ao filho, por acreditar num mundo melhor, ele acaba sendo de certa forma omisso. Ao ser agredido pelo pai do outro garoto, ele não precisa revidar da mesma maneira, mas uma resposta é necessária, e por que não chamar a polícia como disse Christian? esta seria uma maneira de ensinar a dar uma resposta sem revidar na mesma moeda e teria tranquilizado os garotos.
No caso do bulling, se ele tivesse agido com firmeza, apoiado sua esposa, e exigido da escola uma ação, colocando nela sua parte de responsabilidade?
Christian também tem seus problemas, seu pai está sofrendo a perda da esposa, o menino pensa que poderia ter salvo a mãe, falta diálogo, falta verbalizar o que sentem.
O filme nos mostra que muitas vezes as boas intenções nos levam a omissão, ao calar, e que nem sempre isto leva a um mundo melhor. Que o mundo é feito de coisas boas e de coisas ruins, que o mau existe, e que a agressividade também faz parte de nós, e que mesmo num mundo melhor ainda teremos que lidar com isto e que é necessário uma resposta melhor a estas situações.



Ainda resta muito a se falar sobre este filme, mas não damos conta de tudo, portanto o que escrevo aqui é o que me marcou, o que o filme deixou em mim.

Assista ao trailer




Sussane Bier nasceu em 1960 em Copenhagen, Dinamarca. 

Curiosidade: O título do filme é Haevnen em Dinamarquês, e significa Vingança. 

FILME: O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN - 2001



Direção: Jean-Pierre Jeunet - 2001
Duração: 122 min
Título Original: Le fabuleux destin d'Amélie Poulain
País: França  

Um filme singelo, maravilhoso.

A criança solitária que cresce numa cidade do interior e depois vai para Paris. A dificuldades que sente, a falta de um amor de ser amada.



Nos mostra o lado imaginário de uma criança que cresce sozinha, e me identifiquei muito, pois sou filha única. O mundo se transforma naquilo que ela imagina, as pequenas vinganças, a criatividade, a solidão.
No fim ela encontra o amor, mas será necessário um outro para que a empurre a agir, vencer sua timidez e o medo.



Amélie (Audrey Tautou) deixa seu pai e vai para Paris onde trabalha como garçonete. Um dia encontra uma caixa no banheiro de sua casa e resolver devolver ao seu dono. Pensando que era do antigo morador da casa conhece Dominique (Maurice Bénichou). Diante de sua alegria ela percebe como é bom ajudar aos outros e decide ajudar outras pessoas.

Lindo! e divertido, ri muito em várias cenas.

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Jean-Pierre Jeunet nasceu em 1953 em Roanne, França.

Trilha Sonora Alexandre Desplat 

FILME: MENOS QUE NADA - 2012



Direção: Carlos Gerbase - 2012
Duração: 105 min 

Baseado no conto "O diário de Redegonda" do médico e escritor austríaco Arthur Schnitzler e a leitura do ensaio de Freud "Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen" foi essencial para o final do filme. 

Dante (Felipe Kannenberg) está internado, psicótico, tem surtos e delírios. Uma psiquiatra Dra. Paula (Branca Messina) se interessa por ele e o escolhe para sua tese. Levanta sua vida, tenta descobrir o quê houve com ele.



Quando pequeno tem uma amiguinha, dá-lhe um beijo no rosto. Sua mãe viu e o faz prometer que nunca mais fará isto , que é pecado. Ele então vai falar com ela para dizer que não pode mais vê-la, mas a menina pede um último beijo em troca de seu chapéu que oferece como lembrança. Ele lhe dá um beijinho. Quando chega em casa, sua mãe está morta.
É o começo. Culpa! matou a mãe com o ato pecaminoso. O pai é distante. Ele enterra o chapéu no cemitério, onde sepultam sua mãe.
Transforma-se num adulto tímido, fechado, anti-social, mas que gosta muito de arqueologia. Acompanha um grupo que faz pesquisas e acaba reencontrando a menina do chapéu que está casada com um homem violento, e que fez uma descoberta no terreno onde estão montando uma pousada de fósseis. Ela mostra para Dante que se interessa.
Ele vai acabar se envolvendo com uma arqueóloga famosa que quer os fósseis para sua pesquisa.


Não se sabe ao certo o que ocorreu e quem fala a verdade, se ele ou a arqueóloga que era movida pela ambição.
A psiquiatra com os fatos recolhidos, depoimentos aos poucos fará com que Dante consiga melhorar, mas até certo ponto, não sendo possível fazer com que ele volte a uma vida social.
Ela irá fazer a apresentação de seu trabalho e citará Freud: o delírio é uma forma de cura!

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Carlos Gervase nasceu em 1959 em Porto Alegre 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: COMÉDIA EM TOM MENOR - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Luiz A. de Araújo
117 páginas

Peguei este livro hoje e me deitei na rede, e não saí dali enquanto não terminei.

Keilson nos conta uma história para falar do que ele mesmo viveu quando precisou se esconder dos nazistas na Holanda e foi acolhido por um casal em Delft e também como uma homenagem as estas pessoas que foram muitas que correram o risco, mas não recuaram em salvar uma vida, uma pessoa.
A história de Wim e Marie que esconderam Nico em sua casa é singela pela sua simplicidade, mas tremendamente profunda pelo o que aborda. Somente quando o casal, por um desfecho tragicômico, se vê na mesma situação daquele que esconderam, é que conseguem realmente compreender aquele inquilino estranho que ficou em sua casa por um ano.
O que significa ter que deixar para trás tudo o que se tem em questão de minutos e não olhar para trás, mas levar consigo todas as lembranças e hábitos que não podem mais se repetir? A esperança que parece diminuir a cada dia que passa de um dia poder voltar, o o sentimento meio sem sentido, quase nulo, estranho, quando se fica sabendo que pode voltar? Sempre imaginamos ser de euforia, mas quando ocorre, não é assim.
Se sentir um peso, um intruso numa casa alheia, mas ao mesmo tempo ser imensamente grato, mas sem deixar de se sentir um nada. " Representava seu aniquilamento humano, ainda que - talvez lhe salvasse a pele." É como nos sentimos quando vivemos da ajuda da compaixão alheia.
E quanto àquele que acolhe, que mesmo que o faça por compaixão e justiça, não deixa de sentir que está salvando uma vida, e que isto será revelado quando a guerra acabar, e os três saírem juntos para comemorar e todos irão compreender na hora, e isto não acontece? Eis uma decepção humana como diz o autor.
O que Keilson nos mostra não é o pavor da fuga, mas se há o medo de ser encontrado, também há todo o tédio de viver ali, a solidão da solidão como ele diz, e tudo o mais que é humano.

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados.

LIVRO: UMA MULHER EM BERLIM - Diário dos últimos dias de guerra 20/04/1945 a 22/01/1945 - ANÔNIMA


Editora Record - 2008
Tradução: Renato Zwick
288 páginas
Título original: Eine Frau in Berlin

Condição da mulher na Alemanha pós-guerra.- 20 de abril a 22 de junho de 1945

Final da segunda guerra, os russos estão na Alemanha. O livro é escrito por uma jornalista que prefere ficar anônima, sobre os traumas da guerra, estupros coletivos e a prostituição como forma de sobrevivência. É um relato marcante, triste, trágico da situação das mulheres e de como elas tiveram que agir no final da guerra, entregando as mais jovens para os homens para se protegerem e terem alimentos. Da mesma forma, muitas para poderem comer, dar de comer aos filhos, parentes e amigos também se prostituíram. É um lado da guerra que é pouco comentado, ou até mesmo sabido por quem não estava lá. Apesar do trágico, é um belíssimo livro sobre a realidade cruel da situação da mulher no fim da segunda guerra e tantas outras guerras.

O livro foi adaptado para o Cinema em 2008 com direção de Max Faberbock.

Segundo pesquisas os russos teriam violentado em torno de 100 mil mulheres no final da Segunda Guerra e 10 mil delas se suicidaram pelo temor e humilhação do estupro. É um assunto tabu que começa a vir à tona.

Quando este livro foi publicado na Alemanha em 1954 a reação foi considerar isto um ultraje à mulher alemã. Que isto não ocorreu e que ou ela havia exagerado ou ela sim, provocou os soldados russos. As mulheres queriam esquecer e o silêncio permitia viver mais facilmente. Os homens também não queriam saber disto, pois ao voltarem da guerra tinham muita dificuldade em aceitar o que aconteceu com suas mulheres, mães e irmãs.

A questão sobre a vingança dos russos sobre os alemães pelas atrocidades cometidas com seu povo e suas famílias existe, mas não é apenas isto, há outros fatores que levaram ao estupro, além de ser um butim de guerra. O problema é o silêncio que se fez e os traumas que permaneceram e que passam por herança psíquica aos filhos.

Atualmente atribui-se a Marta Hiller, uma jornalista, a autoria do livro.


LIVRO: A INFÂNCIA DE JESUS - J.M. COETZEE



COETZEE, J.M. Companhia das letras, 1ª Ed. 2013
Tradução: José Rubens Siqueira
304 páginas. 

A SOCIEDADE IDEAL, ETERNA UTOPIA.

Uma sociedade ideal, Novilla, onde as pessoas não tem mais desejos, pulsões, tudo é controlado, não há emoções, não há sexualidade, nem erotismo. Só há uma língua, o espanhol que todos devem aprender. Quando se chega ao local é preciso esquecer tudo, você não tem mais história ou passado. É um local para recomeçar tudo, e sem ter que sofrer. As pessoas são renomeadas, recebem uma moradia e um emprego. Chegam ali os recém nomeados: Simon um homem de meia idade e David um menino.

Uma sociedade perfeita, mas onde nada acontece. Tudo é previsto, não há sentimentos, paixões, sem conflitos. Lendo é que se percebe o quanto seria monótono uma vida assim, sem sabor, sem sal. As pessoas sonham com uma vida assim, onde não se sofre, onde não haja conflitos, mas isto seria deixar de viver.
Uma única língua, me lembra a tentativa com o Esperanto, mas que não funciona, pois uma língua traz em si toda uma cultura e um jeito de falar e de se expressar. Ao se colocar uma única língua se limita as trocas, e a sociedade não muda.

A alimentação é suficiente, mas de poucas opções, sem o prazer da comida, os sabores. As moradias são bem parecidas, poucos móveis, pouca roupa, tudo é regulado. Estamos diante da apatia.

É contra tudo isto que Simon e David irão se rebelar e lutar contra. Simon pensa em comidas, fica atônito diante da frieza das mulheres, não compreende que as pessoas não queiram fazer nada para melhorar ou mudar algo. Ele já não sabe o que fazer, como se comportar e aos poucos vai até se acomodando, mas não David.

E é aí que talvez vamos ter uma boa nova! Além de paralelos que surgem rapidamente com a vida de Jesus durante toda a obra. É Davi que vai questionar e não aceitar a ordem das coisas, ele quer mudanças.

Então talvez compreendamos que recomeçar tudo de novo é justamente fugir do conhecido e fazer algo diferente dos outros. É enfrentar a vida com todos seus sabores e dissabores.

Esta sociedade também me lembra muito os modelos totalitários e o livro 1984. Da maneira que o mundo se conduz hoje, sem ao menos perceber, estamos ficando cada vez mais iguais, pois consumimos exatamente as mesmas coisas, só compramos o que está em evidência ou é ofertado pelo marketing e pela mídia, nos comportamos como esperam que o façamos do contrário somos excluídos, não é de bom tom, não é politicamente correto. A cegueira vai tomando conta, e fico muito assustada a cada vez que vejo uma fila se formando na noite anterior diante de shoppings para comprar o mais novo lançamento tecnológico que será vendido no dia seguinte. A cada vez que me criticam por que meu celular é do modelo antigo, apesar de funcionar muito bem ainda, e que vou ter que trocar quando não puder mais usar pois não será mais compatível com a tecnologia atual, ou seja, sou obrigada a fazê-lo. A cada vez que entro numa livraria e nunca encontro um livro que não esteja na lista dos mais vendidos e tenho que recorrer ao sebo e as pessoas me olham de forma estranha por estar procurando este tipo de livro e não aqueles de auto ajuda ou os últimos lançamentos.

A história se passa no mundo atual, mas é como termos um novo messias que venha nos ensinar a ver as coisas de outra forma, por que por incrível que pareça, ainda precisamos de um messias, um líder, ou da mídia, só que o primeiro tenta nos fazer enxergar, enquanto que os outros tentam nos fazer viver em Novilla.



J.M. Coetzee é um escritor sul-africano. Nasceu em 1940 na Cidade do Cabo e recebeu o Nobel de Literatura em 2003.

FILME: SONATA DE OUTONO - 1978




Direção: Ingmar Bergman - 1978
Duração: 99 min
Título original: Höstsonaten 
Roteiro: Ingmar Bergman 
País: Suécia 

Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Prêmio Globo de Ouro. 

Produção Suécia, Alemanha e França. 

A relação entre mãe e filha

De uma lado a filha Eva (Liv Ullmann), do outro a mãe Charlote (Ingrid Bergman), duas brilhantes interpretações.



A mãe vai visitar a filha no interior da Noruega onde ela vive com o marido após muitos anos sem se verem. O que era para ser um reencontro feliz transforma-se num confronto entre mãe e filha a respeito de seus conflitos, raivas, dores, cobranças.

Ao chegar Charlote descobre que sua outra filha doente que ela acreditava internada também está ali, Eva a trouxe para morar ali.

Charlote é espaçosa, fala muito, decide tudo e Eva é tímida, retraída, difícil de ser satisfeita. A mãe é uma pianista famosa, e Eva tenta tocar algo para a mãe. O rosto, a expressão que Ingrid Bergman coloca no rosto é algo impagável, não há palavras para expressar. O confronto se torna inevitável, Eva deixa todo seu ódio pela mãe aparecer e o fala. Ela se apega a sua verdade, ao que a mãe é para ela, seus efeitos. Não consegue olhar para a mãe, de certa maneira fala como a criança que não conseguia ver a mãe como uma mulher que também tem suas questões, que também pode ser frágil por baixo de tanta segurança.


Seu desejo de fusão com a mãe se reflete na relação que Eva mantém com seu filho morto, que está sempre ali e nunca se separam. Ela não permite que o filho morra.
Tudo é culpa da mãe, até a doença de Helena, a acusa de só ter olhos para si mesma.
Charlote tenta se defender, explicar, pedir perdão. Se recorda de sua mãe, fala de sua incapacidade de amar, de seus medos.
Eva julga, acusa dentro das suas certezas, não "perdoa" a mãe, exceto no final, quando a mãe vai embora novamente.
Charlote vive a solidão, sempre viajando, é famosa, mas não se satisfaz. É uma busca constante de algo que ela não sabe o que é. Nenhum lugar está bom. Talvez seja devido a divisão que sofre entre a carreira e a família.
Eva é ressentida em relação a sua mãe por seu pai, e ela tem certeza sobre o pai e a relação que ele tinha com a mãe, o que na verdade não pode saber. O que ela sabe é o que sentiu, o que introjetou, mas que não quer dizer que foi assim para os dois.
A mãe interna que Eva tem dentro de si não é uma mãe amorosa que cuidou dela. Ela não teve este modelo com o qual se identificar.
Se por um lado um filho não pode odiar a mãe, esta também não pode odiar o filho, mas o que o filme nos mostra e o que é a realidade tão difícil de ser aceita é que o amor e o ódio são faces da mesma moeda, onde um está com certeza tem o outro, do contrário é a indiferença. E mesmo sendo mãe ou filha, há sempre a alteridade de cada um, portanto o que Eva tem certeza de ser assim, não é para Charlote, nem para o pai dela. E esta mãe que Eva odeia, e que acha culpada pelo estado de Helena, é amada por esta filha que é desprezada, ou melhor, afastada pela falta de coragem da mãe de enfrentar isto.



Mas Charlote pede perdão à Eva, que só depois consegue pedir o mesmo, lhe escrevendo uma carta. Que este momento difícil e dolorido possa então abrir novas possibilidades para todos.



Vale ler o roteiro também onde é possível acompanhar o confronto com mais vagar, mas o filme tem que ser visto, pois as expressões faciais não podem ser descritas.

Assista ao trailer:







Ingmar Bergman nasceu em 1918 em Uppsala e faleceu em 2007 em Farö, Suécia. Seus temas são a existência, a solidão, a fé, a mortalidade. Para Bergman filmar é encontrar respostas. 



Frédéric Chopin 

FILME: AMOR - 2012




Direção: Michael Haneke - 2012 
Duração: 124 min
Título original: Amour 
País- França - Áustria - Alemanha 

Venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2012 e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012. 


Um dos mais belos filmes que já vi sobre o Amor.

Apesar de ser um filme duro, um soco no estômago como disseram alguns, ele realmente mostra o que é amar, sem os disfarces da ilusão, do erotismo, dos véus. Ele retira os véus e é isto que choca.



Quando se envelhece vem a doença, a deterioração do corpo e em alguns casos da mente da pessoa que você mais ama. Os véus são retirados e você se vê diante de uma pessoa que mostra seu corpo nu, cru, sem fantasias. O que mais pode ser o amor neste momento? um pacto, uma aliança?

Quando Anne (Emmanuelle Riva) adoece Georges (Jean-Louis Trintignant)  poderia tê-la internado, como todos sugeriam, inclusive a filha, mas não, ele fica ao seu lado e cumpre com o que lhe prometeu.

Reduzida ao corpo e suas necessidades, comida, mas também evacuar, urinar, voltando a ser uma criança totalmente dependente, um bebê, mas que não tem futuro como este, a cada dia que passa é a deterioração que se acentua e não o crescimento. Ela deixa atrás de si uma vida, uma história, era pianista, dava aulas.



Ele fica no vazio rodeado das lembranças, da música, dos livros, quadros. E são estas lembranças que o mantém, que fazem que aguente. Mas o tempo passa.



Ela havia dito em um momento no início do filme: há uma imensa diferença entre a imaginação e a realidade, e o que ele vivia além da realidade era o real. Aquela mulher que ele amou, onde está ela? o corpo que ele amou, com o qual fez amor, onde está?

A filha  Eva (Isabelle Huppert) não compreende, acha que o pai está louco de fazer isto. Não percebe o gesto de amor. Talvez se incomode por sentir culpa por não cuidar ela da mãe, por não estar ali, mas ela não consegue, não consegue olhar para aquela mulher onde não vê sua mãe, a que era. Até ele, seu pai, lhe dizer isto, e ela desistir de tentar interferir.



Já não é mais o amor romântico que desejamos e que é construído, mas o real. E aí temos o amor real. Ambos sofrem muito, e não é o felizes para sempre! São aqueles que atravessam as tempestades juntos com um pacto, que sabem o que é o amor, que pode ver o outro em seus piores momentos e se sustenta ali, pelo amor, sem gritar por um outro, por ajuda que virá se colocar em seu lugar, permitindo fugir. Ele atende ao desejo dela, lhe dá o que não tem, até chegar a exaustão.



Ele a mata, como ela desejaria. A cena do tapa é por desespero e amor, e o rosto dela é de quem tem consciência ainda de sua degradação. É triste, é terrível esta cena, onde o amor se mostra pelo seu lado mais forte, real e terrível. Ele a mata por que não suportava que a vissem assim, ela gritava sem parar dor... dor... dor! Esta dor não era física. Ela teria se matado se pudesse.

A cena do pombo, quando ele captura o pombo com o cobertor para depois soltá-lo, apenas para ter algo a contar em sua carta que escreve. Foi a cena mais bela que vi até hoje sobre a solidão.

Um filme forte, mas belo, belíssimo. O belo nem sempre é o bonito que desejamos, mas faz parte da vida.

Assista ao trailer em francês com legendas em inglês






Michael Haneke nasceu em 1942 em Munique, Alemanha. Estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena. É considerado um cineasta Austríaco. 

FILME: UM MÉTODO PERIGOSO - 2011


Direção: David Cronenberg - 2011
Duração: 99 min 
Título original: A Dangerous Method 
Roteiro: Christopher Hampton 
País: Canadá



Baseado no livro homônimo de John Kerr e na peça de teatro The Talking cure de Christopher Hampton. 


Já falei sobre a biografia de Sabina que li, agora retomo o filme que foi feito baseado num momento de sua vida que é mais conhecido, sua relação com Jung e Freud.

Sabina (Keira Knightley) sofre crises histéricas e é internada na Suíça onde um jovem se interessa por seu caso pensando em ser a oportunidade perfeita para aplicar o que vinha aprendendo com Freud (Viggo Mortensen) . É Carl Jung (Michael Fassbender).



Sabina tem uma questão com o pai, que para bater nela como castigo e repreensão a fazia tirar sua roupa, e isto a excita tremendamente, só que ela não pode aceitar isto, e com isto só terá prazer com a humilhação e apanhando. Ela precisa se humilhar e se punir.Sabina admite que gostou e se sentiu excitada em apanhar do pai, o corpo da criança é erógeno e a lembrança recalcada do prazer irá se tornar erótico mais tarde, mas é cortado pela culpa e pela vergonha, pela moral.  Jung irá curá-la desta questão.

Sabina então irá se interessar pela psicanálise, e decidirá ser médica tendo o apoio de Jung para isto. Irá também se analisar com Freud que neste momento tem em Jung seu sucessor.
Freud e Jung irão se desentender como é conhecido e se afastarão. Freud está preocupado com o futuro da psicanálise e não aceita pensamentos diferentes neste momento e Jung dirá que ele se porta como um pai diante de seus discípulos e os trata como pacientes infantilizados. Freud por seu lado dirá que Jung quer ser como Deus, e o mundo é o que é.



O filme foca mais este momento e principalmente a relação entre Sabina e Jung que se tornou um escândalo para a psicanálise. Eles se apaixonam, mas não irão ficar juntos. Sabina irá se tornar uma freudiana, mas sempre irá apoiar Jung. Ela se casa, terá duas filhas, mas acabará vivendo mais distante do marido do que com ele, até se separarem. Enfrentará muitas dificuldades tanto por causa da guerra, da Revolução Russa como por ser mulher. Acabará esquecida como psicanalista sendo resgatada somente após serem encontrados seus textos e diário.

Sabina foi assassinada em 1942 junto com suas duas filhas na Rússia pelos nazistas.

A questão de que também os profissionais precisam de ajuda aparece no filme e fica mais evidente com Otto Gross (Vincent Cassel) que defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir seus desejos.



Assista ao trailer


David Cronemberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá

Trilha sonora de Howard Shore

Howard Shore 

FILME: CISNE NEGRO - 2010



Direção: Darren Aronofsky - 2010
Duração: 108 min
Título original: Black Swan 
Roteiro: Andres Heinz - Mark Heyman - John J. McLaughlin 
País: Estados Unidos 

Ganhou o Oscar 2010 de melhor atriz, melhor diretor e melhor filme. 
Natalie Portman venceu o globo de ouro como melhor atriz.


O Filme é baseado no balé dramático O lago dos cisnes do compositor russo Tchaikovsky composto de quatro atos.

Belíssimo!

Uma mãe (Barbara Hershey) transfere para sua filha seu desejo que não se realizou, a trata como uma menina, doce e meiga e sempre repete isto: - Menina meiga! Um quarto com bichos de pelúcia, um grande coelho rosa. Só que esta menina já é praticamente uma mulher.
Nina (Natalie Portman) odeia e ama a mãe, dependência, não consegue ser ela mesma.
O amor e o ódio, o cisne branco e o negro, a ambivalência, a boazinha e a selvagem.
Ausência de pai, que imponha a separação da mãe e a lei do desejo. Ela é esquizofrênica, tem alucinações.
Uma parte dela tem que ser perfeita, doce, não relaxa, não curte a vida, não sabe seduzir, a menina meiga. Ela se mutila, se agride, autodestruição.
Não pode ter um homem, isto acabaria com o desejo da mãe, não pode ser mulher. Se masturba e vê a mãe na poltrona dormindo. Alucinação?
O outro lado deseja, quer seduzir, quer viver, mas ela o considera mau, tem que destruí-lo e voltar a ser a menina meiga.


Ela é uma bailarina, e o professor de dança Thomas Leroy (Vincent Cassel)  irá escolher quem irá interpretar o cisne negro e o branco para substituir Beth (Winona Ryder) que está se aposentado. Ela é escolhida para ser o branco, mas ela quer ser o negro também. Irá iniciar uma competição entre ela e outra bailarina Lilly (Mila Kunis), mas por mais que o professor quisesse que fosse ela, ao dançar ela não é um cisne negro, é correta e certinha demais, doce demais.



O filme mostra claramente o conflito dentro dela entre estes dois lados, que todos nós temos, mas que ela não consegue viver por que sua mãe a quer doce e meiga, e ela atende ao desejo do outro. Até que ela se transforma no mais belo cisne negro que já se viu, e dança maravilhosamente, fazendo com que sua mãe atinja seu desejo através dela, mas ela não o suporta, e terá que matar o cisne negro, seu lado negro. E também por que o que restaria dela depois de atender ao desejo do outro? nada!





Assista o trailer




Darren Aronofsky nasceu em 1969 em Nova York, EUA em uma família judia conservadora e sua irmã é bailarina. Graduou-se em Antropologia Social e Cinema em Harvard.

Música Clint Mansell 

Pyotr Ilyich Tchaikovsky - O lago dos cisnes 

LIVRO: CADERNOS DE LANZAROTE - VOL. I - JOSÉ SARAMAGO


Saramago, José. Companhia das Letras, 1997
672 páginas

Gosto muito de Saramago, e quando aprecio um escritor gosto de saber mais sobre ele, como foi sua vida, onde viveu, qual o contexto histórico e social em que esteve inserido.
Cadernos de Lanzarote são como um diário de Saramago, contam seu dia a dia de trabalho, viagens, encontros e suas opiniões políticas, literárias e culturais. Ele não se aprofunda em sua vida pessoal e íntima, apesar de fazer alguns comentários referentes. 
O interessante é ver como nasce um livro, sua trajetória, e ter a percepção que escrever não é fácil, às vezes leva muito tempo para se colocar no papel ou no computador o que depois lemos em tão pouco tempo. 
A vida cansativa, muitas viagens para divulgar os livros, convites que não param de chegar, e ele já tem certa idade, não tem mais o vigor da juventude. 
Estes cadernos são escrito quando ele já vive em Lanzarote nas Ilhas Canárias, de onde vem o título. Estas ilhas possuem uma beleza árida, vulcânica que mudam dia a dia. Uma grande mágoa de Saramago é ter sido melhor acolhido pela Espanha do que por seu país, Portugal
Li este livro lentamente, quase que no ritmo que ele foi escrito, um pouco a cada dia. 

José Saramago nasceu em 1922 em Azinhaga - Portugal e faleceu em 2010 em Tías - Espanha. 
Recebeu o Nobel de Literatura em 1998 e o Prêmio Camões em 1995.