terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: TRISTANA - UMA PAIXÃO MÓRBIDA - 1970


Direção: Luis Buñuel - 1970 
Duração: 95 min 
Título original: Tristana una pasion morbosa 
Roteiro: Luis Buñuel e Julio Alejandro
País: Espanha 

Baseado em romance homônimo de Benito Pérez Galdós

Trist(Ana) - triste Ana, um filme que pode ser olhado pelo viés do desejo e do abuso.

Tristana (Catherine Deneuve)  é uma orfã que é entregue aos cuidados de Dom Lope (Fernando Rey). Dom Lope é como um pai, mas é também um homem que não nega seus desejos e acaba tornando sua pupila sua amante.

Um sociedade hipócrita, moralista, católica onde um beijo na rua é um atentado ao pudor. Lope mantém Tristana em casa onde ela sufoca, vai à missa para poder respirar. Sai escondida e um dia conhece um pintor italiano Horácio (Franco Nero) com quem irá fugir, mas retorna dois anos depois doente. É levada a seu pedido para a casa de Lope. Tem sua perna amputada e está amarga e rancorosa, com ódio. Dom Lope dizia que a mulher correta era a que ficava em casa com a perna quebrada.

Tristana acusa Horácio de tê-la levado para lá, que um homem que amasse sua mulher não a levaria para outro. Ele disse que aguardaria até ela se curar, mas ele partiu após sua amputação. Ela se casa com Dom Lope, o padre estava certo, era uma forma de aplacar sua culpa e ser olhada de outra forma pela sociedade. Só que isto não acabou com seu rancor.

Tristana não conseguiu lidar com seu desejo inconsciente, ela desejou Dom Lope, mas não aceitava isto. No início do filme o sonho que se dá com os meninos, o despertar da sexualidade, ela meio que se defendendo, porque tem que ser assim, mas não efetivamente, o jogo da adolescência, do deixar tocar e afastar, eles sobem uma escada nesta brincadeira e quando chegam em cima Tristana vê a cabeça de Dom Lope no badalo do sino. Assustada acorda.

Por outro lado Dom Lope ocupa o lugar de pai, há um incesto aí pois ocupa simbolicamente este lugar apesar de não ser seu pai. Ela se deixa levar por ele, não resiste, entre o asco e o desejo, ela o quer mas não suporta isto.

Este ódio que se volta contra si mesma por ter permitido algo que não se suporta mas se deseja ao mesmo tempo ou contra quem o provoca.  Se ele tivesse se comportado como um pai ela poderia tê-lo amado. Na psicanálise desejamos o pai, mas ele castra a filha levando-a a desejar um outro homem, mas continua a amá-la com carinho paternal, ele não pode ser o objeto de desejo dela que é transferido para outro, e Tristana não o transferiu, apesar de tentar com Horácio, mas ela tem que ficar doente para retornar e ter sua perna amputada para não poder ir embora. Só matando ela vai se livrar disto, vai aplacar seu desejo, simbolicamente ou de fato. Ela não o mata, mas o deixa morrer fingindo ter solicitado socorro médico.


Luis Buñuel nasceu em 1900 em Calanda, Espanha e faleceu em 1983 na Cidade do México, México. Trabalhou com Salvador Dalí . Estudou com os Jesuítas em Saragoça e em 1917 foi para Madri onde conheceu Federico Garcia Lorca e Dalí, depois formou-se em Filosofia e Letras em 1924. Seu filme "Um cão Andaluz" é um marco do cinema surrealista. Com a Guerra Civil na Espanha mudou-se para os Estados Unidos e depois foi para o México naturalizando-se em 1949. Morreu aos 83 anos vítima de câncer. 

FILME: HOLY MOTORS - 2012



Direção: Leos Carax - 2012 
Duração: 110 min 
País: França - Alemanha

Indicado no Festival de Cannes 2012 - longa metragem


Um filme instigante que abre mil possibilidades de interpretação nos mostrando que nunca temos o todo, há sempre novas possibilidades para interpretar, associar, falar.

Um dia na vida de Oscar (Denis Lavant) cujo trabalho seria o de representar, mas na realidade não há platéia nem câmaras conduzido por Paris em uma limousine dirigida por Céline (Edith Scob).

No filme Show de Truman apenas um não sabe que tudo aquilo não é real, são todos atores e que seu mundo é uma fantasia, ficção.... mas no fundo não é assim? E em Holy Motors, são todos atores? apenas um? o que é real? quando ele não usa máscaras e disfarces? E não estamos sempre representando?

Uma metáfora da subjetividade moderna. Descontinuidade, impossibilidade de dar sentido à algo que no instante seguinte já é outra coisa, contingências. Que sentido se pode dar a uma vida se no instante seguinte tudo pode mudar?

Ele segue por Paris dentro da limousine, tem os scripts na mão de cada compromisso do dia, são nove.

Um executivo, uma velha que se lamenta que ninguém a ama, mas mesmo assim ela vive, um louco que corre pelos esgotos de Paris e sai no cemitério. Nas lápides está escrito: acesse meu site..... Uma modelo posa para um fotógrafo (que também é ele) e o louco a rapta. A modelo não reage, faz apenas o que ele ordena, olhar perdido, parado, as unhas dos dois se parecem. Qual é mais louco? alienado? Ele me remete à Quasímodo neste instante, o corcunda de Notre Dame.
Um pai que vai buscar a filha e ela mente para ele que descobre. Pergunta se mentiria de novo e ela diz que sim. Vai me castigar? sim! Qual será meu castigo? Ser você mesma! Ele mata um banqueiro que é ele mesmo. Morre como velho nos braços da sobrinha, mata um outro que depois ele transforma em si mesmo. Encontra um velho amor. Um escafandrista que faz amor com outra num aquário sem água e sem retirar suas roupas e por fim vai para casa onde está sua esposa e duas filhas - três macacos.
Céline guarda a limousine na garagem junto com muitas outras. Ela veste uma máscara e liga para casa avisando: estou indo! E as limousines começam a conversar, estão preocupadas em serem descartadas e ir para o ferro velho.



Eis o nosso mundo, o mundo das máscaras, fantasias, fetiches, solidão e virtual. Quem espera do filme uma história linear se decepcionará.

As máscaras que usamos, dependendo de onde estejamos vamos nos comportar e agir de determinada forma, mas isto são os lugares que ocupamos, diferente de quando vestimos uma máscara para enganar a si mesmo, e talvez por isto ele mate a si próprio no filme, ou seja o fotógrafo e também o objeto da foto.

A impossibilidade de captarmos tudo no filme, nossos limites, nossas faltas, seremos tocados por aquilo que nos fala mais alto, mais de perto onde nos identificamos ou projetamos algo, onde nos sentirmos incomodados.



A única coisa que é constante é o cigarro e me leva a pensar nos vícios, que não podem sere abandonados independentes do que ocorre ao redor, irão se repetir, e são necessários.

O filme é a comédia humana moderna. Esta é minha interpretação de um filme que permitirá tantas interpretações quanto o número de pessoas que o assistirem.

Leo Carax nasceu em 1960 em Suresnes, Haust-de-Seine, França.

Cena com acordion 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

LIVRO: MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES - GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Márquez, Gabriel García.17ª ed. Record, 2007
Tradução: Eric Nepomuceno
127 páginas
Título original: Memoria de mis putas tristes.

Ao completar 90 anos um cronista e crítico musical decide comemorar seu aniversário ao lado de uma jovem virgem, e para isto liga para sua conhecida Rosa Cabarcas, dona de um bordel que não via há muitos anos.

Conhecido como sábio e professor, aposentado ainda escreve crônicas dominicais. Vive sozinho na casa que foi de seus pais, dorme na cama que foi de sua mãe, nunca se casou, nunca amou uma mulher, mas sempre as teve, todas sempre pagas para suas noites de amor.

Agora ele irá passar sua noite de aniversário ao lado de uma jovem virgem que ele irá chamar de Delgadina e o inesperado acontece, ele se apaixona pela primeira vez e irá cometer todas as loucuras de amor que temeu sua vida toda. Irá lhe dar presentes, entre estes uma bicicleta que ele não resistirá a experimentar andando com ela e cantando, comprará flores, irá decorar o ninho de amor para que fique mais aconchegante, irá minar sua amada, mas não irá deflorá-la. Se contentará em olhá-la, tocar seu corpo, beijar seu corpo e dormir ao seu lado indo embora sempre antes das cinco horas da manhã.

E viverá pela primeira vez tudo que o amor pode proporcionar, seu pensamento estará constantemente no ser amado, a imaginará ao seu lado, sentirá sua presença, seu cheiro, a tal ponto que teme olhar a realidade e perder a imagem que ama. Terá que se haver com o ciúme, o desespero, a ansiedade da espera, o temor de perdê-la.

Na redação irão lhe fazer uma pequena festa surpresa e ele ganhará um gato, também velho, um ser estranho para ele que sempre viveu sozinho, e tão ranzinza quanto ele, tão solitário quanto ele. Ele que pretendia se demitir continuará escrevendo suas crônicas, mas agora para surpresa de todos, serão crônicas de amor.

Um livro que nos fala de uma vida de solidão, de um homem que nunca conheceu o amor mas irá descobri-lo na velhice quando todos esperariam que isto não acontecesse mais, até mesmo ele. O milagre da vida, do amor, e do desejo de viver. Nunca é tarde para amar, e talvez amar aos 90 anos seja muito mais belo e próximo de um amor verdadeiro do que quando se é mais jovem.


Gabriel García Márquez nasceu em 1927 em Aracataca na Colômbia. Prêmio Nobel em 1982 foi o criador do realismo mágico na literatura latino-americana.
Após eu postar o livro Gabriel García Márquez faleceu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, México.

FILME: PHILOMENA - 2013


Direção: Stephen Frears - 2013
Duração: 98 min
País: Reino Unido 

Baseado em fatos reais ocorridos na Irlanda nos anos 50 e no livro escrito pelo jornalista Martin Sixmith - The lost child of Philomena Lee ( o filho perdido de Philomena Lee) 

Philomena Lee ( Judi Dench) uma enfermeira aposentada procura por seu filho Anthony que lhe foi tomado e entregue para adoção a um casal americano pelas freiras de um convento na Irlanda, em troca de altas somas em dinheiro, ou falando mais objetivamente, eram vendidos.

Moças que engravidavam fora do casamento se tornavam vergonha para as famílias e encaminhadas ao convento que as colocava para expiarem o seu pecado de haver se entregue ao amor e ao sexo. Eram exploradas nos trabalhos mais pesados como a lavanderia, só podiam ver seus filhos uma hora por dia, e não eram comunicadas quando as crianças eram adotadas. Além disto não podiam deixar o Convento a menos que pagassem uma alta soma pelo "acolhimento" ou trabalhassem um certo número de anos.

Philomena só sairá depois de cumprir estes anos. Uma das freiras mais caridosa tirou uma foto de seu filho e era a única coisa que lhe restou dele. Ela terá outros filhos, mas nunca se esquecerá deste. Tentará inúmeras vezes obter informações no Convento mas será sempre ludibriada. Manteve este segredo por 50 anos e finalmente o contará a sua filha que travará contato com um jornalista que passa por um momento difícil em sua carreira, Martin Sixmith (Steve Coogan) e lhe pedirá para ajudar nesta busca.

Duas pessoas tão diferentes, ele cínico, ateu, ela apesar de tudo não perdeu sua fé, e acredita realmente que cometeu um pecado, adora romances com final feliz, mas ela não é tão simplória assim o que se revelará no final.

Juntos eles irão descobrir o paradeiro do filho dela que passou a se chamar Michel mas infelizmente já morreu. Será através de seu companheiro que ela irá descobrir que ele está enterrado no Convento que lhe negou a história de seu filho e também negou a este a de sua mãe, uma vez que ele foi a sua procura lá.

O filme denuncia os crimes  praticados por estes conventos católicos que retiravam as crianças de suas mães solteiras obrigando-as a assinar a doação da criança, queimando depois todos os documentos que comprovariam a adoção, mas mantendo o da entrega da criança para adoção. Este "comércio" duraria até os anos 60.

O moralismo, as freiras que aderem ao celibato e o exigem de outras mulheres considerando um pecado o sexo pelo qual elas devem pagar. O parto de Philomena foi terrível, a criança não estava em posição e a frieza da freira em dizer que ela estava pagando por seu pecado.

Philomena foi recebida pelo Papa Francisco e continua lutando para que outras mães que tiveram seus filhos retirados delas nestes conventos onde eram encaminhadas pelas suas famílias para evitar a vergonha, para que consigam reencontrar seus filhos.

Um belo filme.

Philomena Lee e Martin Sixmith 


Stephen Frears nasceu em 1941 em Leicester, Reino Unido.

Trilha Sonora - Alexandre Desplat 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO: A ONDA - SUSAN CASEY



Casey, Susan. Zahar, 2010
Tradução: Ivo Korytowski
314 páginas

Você sabia que a cada semana se perdem dois navios no mar? Impressionante! As notícias sobre navios que afundam em tempestades, desaparecem em questão de minutos com toda sua tripulação são raras, ao contrário de um avião que se sofre um acidente enche as manchetes de jornais.

Justo num momento em que percebemos as mudanças climáticas que vem ocorrendo, no Brasil a onda de calor, na América do Norte o inverno extremamente rigoroso e na Europa as inundações e ouvimos os meteorologistas dizerem que não sabem prever quando irá terminar, chover, melhorar este livro se torna de leitura imprescindível.

Fui atraída para ele por causa da Onda. Sempre fui fascinada por ondas gigantes, um misto de terror e fascínio, mas ler este livro é descobrir muito mais do que sobre ondas, é ler sobre nosso planeta, sobre a natureza e sobre os oceanos e suas ondas inimagináveis e que pensávamos serem lendas, ou algo que só poderia ocorrer muito muito raramente. Mas a verdade é que estas ondas de 20 metros no mínimo ocorrem diariamente e a cada dia mais e mais vezes, destruindo navios imensos em questão de minutos, e elas em geral não são previsíveis, fogem ao padrão linear dos modelos dos quais se utiliza a ciência, é algo para os físicos e o padrão de ondas, ou seja, a física quântica. As ondas são ondas mas são também partículas.

Susan Casey, uma jornalista premiada, parte em busca de compreender estas ondas. Ela irá buscar informações com aqueles que lidam com elas, que trabalham com elas e com aqueles que as enfrentam. Inicia seu percurso com aqueles que obviamente todos nós sabemos serem literalmente apaixonados por elas e estão sempre atrás delas, os surfistas de ondas gigantes, mas também falará com cientistas e capitães de navios.

O livro é gostoso de ler, não é um livro científico, apesar de estar repleto de informações científicas, mas ele nos ensina a respeitar a natureza, e a compreender que nunca a dominaremos e que o melhor a se fazer é respeitá-la e acima de tudo ter muita humildade diante dela, e principalmente diante de uma onda gigante.

Um dos relatos mais impressionantes é sobre a Baía de Lituya no Alaska onde ocorreu uma onda de 530 metros em 09 de julho de 1958 e houve sobreviventes, caso contrário, talvez até hoje os cientistas estariam tentando compreender o que ocorreu ali que foi capaz de arrancar o solo e deixar a rocha nua e destruir toda a orla de árvores.

Nunca foi tão importante ler um livro como este e compreender que a natureza tem vida própria e não há nada que o homem possa fazer para controlá-la, é impossível deter um tsunami, uma onda gigante, um terremoto, mesmo que tenhamos sorte de prevê-lo.




Susan Casey nasceu em Toronto, Canadá, em 1962. É uma escritora canadense. 

FILME: NA NATUREZA SELVAGEM - 2007



Direção: Sean Penn - 2007 
Duração: 148 min
Título original: Into the wild 

Adaptação do livro de não ficção de Jon Krakauer sobre a vida de Christopher McCandless. 


Assisti a este filme já faz um tempo, mas ainda não havia colocado aqui no Blog, mas na esteira do livro A Onda, não podia deixar de falar deste filme.

Christopher (Emile Hirsch) é um jovem revoltado com a sociedade que considera hipócrita, consumista e doente. Além disto ele vive em confronto com seus pais, o que seria normal se não fosse que além desta rebeldia da adolescência  houvesse também um segredo que envolve seu nascimento.

Os pais são formados e modelados pela sociedade na qual vivem de acordo com os valores vigentes, ou seja, status, sucesso, dinheiro, estudos e o comportamento que deve sempre ser o de acordo com o lugar e momento. Até se formar Chris atendeu a estes desejos, mas depois disto ele resolve seguir sua vida, indo viajar sem dar notícias. Sua revolta com o sistema é tanta que ele chega a queimar dinheiro, não o quer.

Seu objetivo: o Alaska. A primeira coisa que faz é trocar de nome: Alex Supertramp. Acredita que com isto pode renegar sua origem. Ele anda pelos Estados Unidos, conhece pessoas, aprende muito até que chega ao Alaska após dois anos na estrada.



Os filhos gostam de julgar os pais, mas não admitem ser julgados por eles. Ele não aceita o fato de ter nascido fora do casamento enquanto seu pai era casado com outra mulher, e seus pais também consideram isto vergonhoso e escondem este fato. Ele renega sua família mas está constantemente se encaixando em algum lugar de filho durante sua jornada que depois abandona novamente. Não percebe isto, como ele busca um pai e uma mãe, ainda quer ser o filho de alguém. Ao mesmo tempo apesar de sua jovem idade ele se afasta do sexo, ele não quer.

No filme ele vai passando pelas fases: infância, adolescência e assim vai até chegar ao Alaska e seu ônibus mágico, que ao meu ver também é uma metáfora de um útero.

Mas o Alaska é um local selvagem, distante da civilização, ao atravessar o rio congelado e deixar ali uma touca como uma marca, como João e Maria, ele entra na natureza. Tudo irá correr bem até ele achar que é o momento de voltar e se deparar com o rio descongelado.



A segurança e a auto-confiança que despreza imprevistos e contingências, que não olha corretamente a diferença entre a natureza e a cultura. Talvez ele devesse ter enfrentado o deserto antes de ir para o Alaska, mas ali ele teve um "pai" que o protegeu, que sabia dos perigos. Ao longo de sua caminhada houve vários sinais que ele desprezou, o carro que foi abandonado devido a inundação que ocorreu no local pois ele ignorou as placas de avisos sobre enchentes. Ele queria viver sem regras, mas isto não é possível. Ele desafia a lei quando desce as corredeiras do rio adquirindo uma confiança perigosa. Há coisas que podemos transgredir, mas outras não, pelo menos não sem o devido preparo e consciente que sempre há um preço a pagar.

Vai para o Alaska no final do inverno. Solidão, silêncio, ninguém para falar, não há outros humanos ali, somente a natureza. A cena do alce, quando ele percebe pela primeira vez que não pode fazer tudo sozinho. Percebe sua solidão e decide partir, mas o cenário mudou. O rio agora é uma corrente forte, e ele age como sempre fez, andando como se o buraco devesse sair de sua frente, ele entra no rio, mas desta vez percebe que não será tão fácil, consegue se salvar e retorna ao ônibus.



A falta de preparo, de conhecimentos, de experiência. Ele esqueceu que os rios descongelam, e quando procura pelos animais para caçar, esqueceu ou ignorava que os animais migram, se acasalam, e que os ursos hibernam e acordam. E quando as coisas não são mais como ele queria ele se entrega. Por que não tentou descer o rio pela margem para ver se havia outro local onde seria possível atravessar? Por não querer se afastar da touca referência? Só neste momento ele vai ler o livro sobre plantas comestíveis. Começa a sentir fome, e lendo o livro ele percebe que é preciso nomear as coisas, com seus verdadeiros nomes.  Então renasce o Chris e para morrer.

A câmara nos mostra o rio, um pouco além, está calmo. Ele não conseguiu pensar além e não havia outro para fazê-lo ou pensar junto.

Precisamos romper com os pais em algum momento, adentrar nossa vida adulta, fazer escolhas, atender ao seu desejo, mas isto requer responsabilidade e humildade. Ele queria a liberdade, mas não tinha maturidade para isto e quando as consequências surgiram ele se perdeu. Ele não era o Alex imaginário, era o Chris e era com este que ele tinha que se haver. A iluminação final que sente, é quase o desamparo. Precisa se agarrar a algo. Ele aprende tarde demais que a liberdade não é externa, é interna.

Por outro lado também aprendemos e muito com ele. Como engessamos nossas vidas, como é bom poder nadar no rio, acampar a céu aberto, rir, cantar, andar por aí, falar com pessoas, ter empregos temporários, que é possível viver fora do sistema, mas nunca isolados.Ele também modificou as vidas das pessoas com quem conviveu dando um novo alento às suas vidas.

Me entristece ver os sonhos dele, seu desejo de liberdade, acabarem assim, mas talvez a morte seja a grande liberdade e por isto ele sorriu ao morrer.

Ele foi encontrado duas semanas após sua morte.

Christopher McCandless 

Sean Penn nasceu em 1960 em Santa Mônica, EUA.

Trilha Sonora
Canções Originais: Rise, Guaranteed
Música composta por Kaki King, Michael Brook, Eddie Vedder

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

LIVRO: UM SÉCULO DE SABEDORIA - CAROLINE STOESSINGER


Stoessinger, Caroline. Seoman, 2013
Tradução: Martha Argel e Humberto Moura Neto
215 páginas

A vida de Alice Herz-Sommer, um século de vida. Ela tem atualmente 110 anos.

Alice nasceu em Praga em 1903, teve uma infância feliz. Conheceu Franz Kafka por quem tinha um imenso carinho e o chamava de Tio Franz,  Max Brod que escreveria a biografia de Kafka e foi responsável pela publicação de sua obra, que Kafka queria destruir, além de através das amizades de sua mãe ter conhecido Gustav Mahler, Sigmund Freud e Rainer Maria Rilke.

Porém seu mundo iria mudar radicalmente com a ascensão de Hitler ao poder. Sua família era judia e Alice seria deportada junto com seu marido e filho para Theresienstadt. Suas duas irmãs, sendo que uma era gêmea de Alice conseguiram ir para a Palestina, mas Alice ficou para cuidar da mãe que também morreu no campo de concentração. Na época venderam a maior parte de suas propriedades para possibilitar a ida das irmãs. Os britânicos cobravam uma taxa de desembarque que equivale atualmente a US$ 100 mil para cada pessoa que entrasse na Palestina.

Alice e seu filho Rafi sobreviveram ao holocausto e retornaram à Praga onde encontraram seu apartamento ocupado por outras pessoas, o que ocorreu com muitos judeus que conseguiram sobreviver. Depois ela se mudará para a Palestina para ficar próxima às suas irmãs e onde será amiga de Golda Meir.

Alice é uma grande pianista, sua vida foi dedicada ao filho e à música, e foi isto que a salvou. No campo de concentração de Teresin ou Theresienstadt como era chamado pelos alemães ela continuou ensinando piano e até dando concertos, pois este campo era usado pelos nazistas como propaganda para ser apresentado ao mundo como um lugar muito bom onde os judeus eram bem tratados e estavam bem. Era aí que a Cruz Vermelha fez suas visitas de inspeção.

Seu filho também se tornou um músico, tocava violoncelo e como morava em Londres, Alice acabou se mudando para lá, mas sempre manteve sua independência vivendo sozinha e dando aulas de piano. O maior desafio de Alice foi quando seu filho faleceu prematuramente. Muitos temeram por ela e pensaram que não iria se recuperar, mas um dia ela voltou a tocar, devagar, e aos poucos foi retomando sua vida.

Alice também nos ensina sobre a velhice " Você não pode ver meu eu verdadeiro dentro desta pele enrugada, a vida que há em minhas emoções. O que enxerga é só a aparência externa de uma mulher muito velha." Aos 83 anos ela teve um câncer de mama, fez a cirurgia que o médico achava até desnecessário em função de sua idade, e continua entre nós mais de 20 anos depois. Em Londres foi estudar filosofia na Universidade da Terceira Idade.

Ela é uma fortaleza, um exemplo de vida, passou pelo século XX todo, sobreviveu a muitas perdas, ao holocausto e ao câncer e sempre se manteve otimista e sorridente. Rir é a melhor cura para a dor.

Como ela fez isto? vivendo para a música, a música a salvou. Se mantendo sempre ocupada e independente.  "Aprecie as tarefas simples, elas ajudam a transpor os maiores desafios da vida". Vive em Londres até hoje.








 Caroline Stoessinger com Alice. Caroline é uma pianista e vive em New York e apesar de já haver escrito e produzido roteiros para programas de TV sobre música este é seu primeiro livro.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FILME: CRIME E CASTIGO - 1998



Direção: Joseph Sargent - 1998
Duração: 120 min 
Título original: Crime and Punishmnet 
Roteiro: David Stevens 
País: Estados Unidos

Baseado no livro de Fiódor Dostoiévski 

Rússia, 1856. A miséria imensa em contraste com o luxo. A mulher mal remunerada naquilo que podia fazer. O assédio dos homens sobre as mulheres pobres que dependem do emprego. O pai e os irmãos são os responsáveis pelas mulheres. Muitos filhos.

Rodya Raskolnikov (Patrick Dempsey) é um professor, culto, brilhante que pertence a um grupo de anarquistas e comete um atentado contra o Czar mas não o acerta. É liberado, mas suspenso de suas funções na Universidade. Vive em dificuldades e quando sua irmã Dounia (Lili Horvath)  perde o emprego por causa do assédio do marido da patroa a situação fica difícil. Para resolver esta situação sua irmã aceita o pedido de casamento de um homem rico que não ama, e ele para tentar impedir que sua irmã se case e seja infeliz acaba cometendo um crime.

Ele sempre resolvia seus problemas de dinheiro penhorando algo com sua agiota que sempre tratava a quem a procurava com desprezo e vivia às custas do infortúnio dos outros. E será a ela que ele matará para roubar-lhe o dinheiro, mas é surpreendido pela irmã da agiota e terá que matá-la também cometendo um duplo homicídio.

Será esta segunda morte que irá atormentá-lo com a culpa. Ele considerava a agiota má e cruel com os outros e por isto matá-la é um bem para todos, mas não sua irmã.

No dia do assassinato assim que chega em casa recebe uma intimação da polícia. Como ele sabe o que fez e a culpa pesa, ele tem medo, mas no fim era por causa dos aluguéis atrasados.

A polícia começa a investigar o crime e o investigador Porfiry (Ben Kingsley) logo descobre que foi ele, mas não tem provas. Quando a consciência pesa fica escrito no rosto, e o investigador era extremamente perspicaz. Inicia-se um jogo de gato e rato, o inspetor não tem pressa, observa e espera que o criminoso confesse.

Enquanto isto Rodya se consola com Sônia (Julie Delpy) , uma jovem que precisa se prostituir para comer. O tempo passa e a culpa aumenta, ele não consegue mais ter paz, não dorme direito, fica doente, sua vida vira um inferno até que finalmente ele confessa à Sônia que irá convencê-lo a se entregar.

Sua paz só poderá retornar se ele pagar pelo que fez. Sua redenção e renascimento só se dará com o castigo, após confessar e arcar com as consequências de seu ato.

O filme retrata o inferno da culpa. Alguns assassinos não sentem culpa e por isto não está escrito em seu rosto sua aflição e inferno interior, mas Rodya não é um assassino assim, ele agiu pelo desespero, e depois teve que arcar com isto. Sua saída era se auto-castigar e por isto chega a ficar doente. Se analisarmos bem sua culpa se inicia com o atentado, pois se não o comete não teria perdido seu posto na Universidade e poderia ter tido melhores condições financeiras. E ele não soube lidar com isto, levando-o ao assassinato por dinheiro.

A ironia do filme é que o dinheiro do crime nunca foi usado. O dinheiro apareceu por outros caminhos.

Joseph Sargent nasceu em 1925 em Jersey City, New Jersey, EUA. 

FILME: A ÚLTIMA ESTAÇÃO - 2009



Direção: Michael Hoffman - 2009 
Duração: 112 min 
Título original: The last station ~
Roteiro: Michael Hoffman 
País: Estados Unidos 

Baseado no romance biográfico homônimo de Jay Parini. 


O filme fala dos últimos anos de Tolstói, em 1910. Leon Tolstói (Christopher Plummer) , o grande escritor russo vive em sua propriedade Yasnaya Polyana, no entanto ele rejeita a propriedade privada e defende o pacifismo.
Sua esposa Sofya Andreyevna (Helen Mirren) se opõe ao movimento que cresce e transforma Tolstói em um santo vivo, o movimento mundial Tolstoiano que é dirigido pelo grande amigo de Tolstói,  Vladimir Chertkov (Paul Giamatti). É ele quem entrevista o candidato a secretário do escritor Valentin Bulgakov (James McAvoy) que se tornará também escritor. A intenção de Chertkov e que Valentin seja uma ponte entre ele e Tolstói, uma vez que está impedido de vê-lo.



Sofya não aceita que o marido se dedique ao movimento, e suspeita que ele tenha assinado um testamento cedendo todos os direitos autorais de suas obras a eles. Ela vai lutar para que isto não aconteça, porém Tolstói fugirá dela, acompanhado de sua filha e Chertkov e durante esta fuga contrairá pneumonia vindo a falecer.



Sofya era da aristocracia, e com certeza visava seu patrimônio e de seus filhos, mas o que choca é a forma como a afastam de seu marido que a amava apesar disto e ela à ele. Estavam juntos há 48 anos e tiveram 13 filhos. Ela é afastada de sua vida por ele que acredita que deva se dedicar à sua causa e pela sua filha e o amigo do marido, a ponto de não permitirem que ela o veja quando está em seu leito de morte, apesar dela ter ido até lá. O que eles não queriam era que sua presença destruísse  o ícone que fizeram dele

Quando ela lutava, brigava e falava o que sentia a tratavam como louca e ele acaba assinando o testamento após relutar muito por causa de Sofya e foge. Após sua morte a justiça restituiu os direitos autorais à ela.

Sofya pertencia ao seu mundo, e não poderia concordar em doar tudo aos pobres.  Por outro lado as obras eram de Tolstói, ele as escreveu e lhe pertenciam, tinha o direito de fazer com elas o que desejava, e ele desejava torná-las de domínio público, pois acreditava tê-las escrito para o povo e não para fazer fortuna.

Não havia o certo e o errado, cada um tinha seus motivos e que estavam de acordo com a época e situação em que viviam e que respondiam às suas crenças.

Michael Hoffman nasceu em 1956 no Havaí, EUA.

Trilha sonora de Sergey Yevtushenko

FILME: MARCAS DA GUERRA - 2005




Direção: Lajos Koltai - 2005 
Duração: 140 min 
Título original: Sorstalanság 
País: Alemanha 

Baseado na autobiografia Sem Destino de Imre Kertész 

Gyorgy  (Marcell Nagay) vive uma infância e pré-adolescência feliz com sua família até que estoura a Segunda Guerra Mundial. Ele é judeu e será deportado para um campo de concentração onde apesar de tudo tentará ainda sorrir e encontrar razões para viver. Será auxiliado por outro judeu nesta travessia dolorosa, com muita fome e assistindo às atrocidades que se comentem neste lugar que o marcará para sempre, porém Gyorgy consegue apesar de tudo manter a fé da vida e sonhar com a volta para Budapeste, sua cidade natal.



Este filme tem um outro lado do Holocausto, onde nos mostra não apenas o sofrimento, mas a luta pela vida, seja de uma forma ignóbil quando judeus presos vendem comida aos outros, seja pela solidariedade e ajuda que oferecem um ao outro. Após a libertação ele retorna para sua cidade onde já não encontra sua família, mas irá encontrar amigos que o acolherão.

"Você pode fechar os olhos, pode virar o rosto, mas jamais esquecerá" 

Lajos Koltai nasceu em 1946 em Budapeste, Hungria. 

LIVRO: LIQUIDAÇÃO - IMRE KERTÉSZ


Kertész, Imre. Companhia das Letras, 2005
Tradução: Paulo Schiller
106 páginas

Um livro pequeno mas que é grande, Liquidação - seria possível mesmo liquidar algo como o holocausto? e tudo que ele deixa de marcas, traços e herança? Existe a superação? ou somente é possível a transformação?

O ponto central do livro é que o homem tem o mal em si e que sem a civilização e a cultura ele mostra do que é capaz. " O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. (...) Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro mal. "

B. nasceu em Auschwitz e sobreviveu, o que já é algo quase impossível. Judit não conheceu o campo de concentração, nasceu depois, mas traz em si a herança psíquica da família que passou por lá, seu pai, calado, distante. O livro fala do pós-guerra, de quem sobreviveu e de quem nasceu depois e das possibilidades de viver com esta herança. A questão é que vivem numa outra ditadura neste momento, em Budapeste, e em uma entrevista à Folha de São Paulo Kertész dirá que "numa ditadura totalitária só se sobrevive quando se segue a lógica do absurdo." Após a Segunda Guerra muitos países ficaram atrás da Cortina de Ferro em regimes ditatoriais dando continuidade ao caos e violência.


B. que traz em sua coxa a marca do campo uma vez que bebês eram tatuados na coxa porque o ante-braço era curto demais para o número opõe resistência a se livrar disto tudo, é como um gozar na dor, que lhe dá uma certa satisfação.  Judit tenta ultrapassar esta resistência e transformar sua vida.

O livro é sobre uma peça que B. deixa após seus suicídio que é lido pelo editor Amargo que também é o protagonista da peça,  buscando compreender porque ele teria se suicidado. Quais seriam as razões morais e filosóficas deste ato? Seria o momento em que B. se cansa de buscar outras prisões quando acaba a resistência e se abrem outros mundos diante dele. Ele não pode, precisa viver dentro de Auschwitz que está entranhado nele, como quando os médicos provam os venenos para conhecerem seus efeitos. Somente se vencesse isto, se desvendasse o enigma Auschwitz ele poderia se libertar.

Judit por outro lado perceberá que nada foi por acaso, que se casou com B. para viver Auschwitz e tentar compreender. Um dia ela se dá conta que desistiu de resistir, ou seja, que se deu por satisfeita. Ela abre mão do gozo na dor. E o instinto de viver desperta novamente nela.

A diferença é que B. passou pelo campo de concentração e ela não. Ela não tem imagens e seu corpo não registrou isto, como a marca em B. em sua coxa. Visita o local e não consegue compreender, nestas alturas o campo já foi transformado num local "turístico" de visitações onde os batedores de carteira se aproveitam da emoção das pessoas para roubar-lhes a carteira. Onde é impossível fazer uma visita em silêncio e se está ao lado de pessoas que vieram de outros locais e não tem ideia do que se passou ali. Ela não consegue registrar Auschwitz e não compreende mais B.

Para os que viveram isto, como o autor do livro, não é possível deixar de resistir e esquecer o que se passou. Tenta-se viver , é um sobrevivente.

A leitura é difícil, não se sabe quando é a peça, quando é Amargo o protagonista do livro, são pedaços, cacos, e aos poucos me senti sendo sufocada pela leitura, mas é justamente isto o que é brilhante na escrita de Kertész, ele nos prende com arrame farpado.













Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste - Hungria.
Foi deportado em 1944 para Auschwitz e Buchenwald sendo libertado
em 1945 pelas tropas norte-americanas. Foi o único sobrevivente de
sua família.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

FILME: HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO - 2008



Direção: Philippe Claudel - 2008
Duração: 116 min
Título original: Il ya longtemps que je t'aime
País: França 


Uma mulher, Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas) sai da prisão após 15 anos reclusa. Sua irmã Léa (Elsa Zylberstein) a acolhe e a leva para sua casa, onde mora com o marido, as duas filhas adotivas e o sogro.

O marido demonstra restrições considerando o que ela fez, mas isto só saberemos mais adiante no filme. Sua irmã Léa não se recorda de muitas coisas do que ocorreu e seus pais riscaram Juliette de suas vidas, como se ela nunca tivesse existido e nunca mais falaram dela, fazendo ao mesmo tempo uma lavagem cerebral em Léa. Ela foi proscrita e agora tenta se reintegrar à sociedade e também a sua família.

Todos temem usar as palavras, mesmo aqueles que estão envolvidos em sua reintegração, como a assistência social, evitam falar. A irmã e o marido também não falam no assunto. Ela está e não está ali, uma ausência, fechada em si, onde em seu interior se desenrola toda tensão e o drama que sofre.

Num jantar, uma brincadeira, sobre a misteriosa Juliette, ela fala a verdade, que esteve presa. Por incrível que pareça, ninguém acredita e riem, dizendo que foi uma boa resposta, somente Michel (Laurent Grévill) nota que é a verdade o que ela disse.

Lentamente ela vai sendo reintegrada à família, primeiro pelas crianças e em seguida pelo avô que não fala após ter sofrido um AVC. A mãe está internada, e quando vão visitá-la ao ficar sozinha com Juliette ela a reconhece e abraça, mas assim que Léa volta ela expulsa as duas.

A irmã vai descobrir a verdade e quando Juliette fala a primeira vez para a irmã, ambas se abraçam e choram. Michel chega e pergunta se está ali e ela responde: sim, eu estou aqui! e olha para a irmã e diz: eu estou aqui.

Ela retorna de seu inferno e está ali agora, presente, pronta para viver novamente.


Philippe Claudel nasceu em 1962 em Dombasle-sur-Meurthe, França. É professor de Literatura na Universidade de Nancy.

Trilha Sonora de Jean-Louis Aubert

Jaen-Louis Aubert nasceu em 1955 em Natua, Ain, França. É um guitarrista, compositor e cantor. 

FILME: HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR - 2007


Direção: Doris Dörrie - 2007 
Duração: 126 min. 
Título original: Kischblüten-Hanami 
Roteiro: Doris Dörrie 
País: Alemanha 

Trudi (Hannelore Elsner) e seu marido Rudi (Elma Wepper) vivem sozinhos, seus filhos se foram para uma cidade maior, Berlim e um para Tókio. Quando Trudi descobre que seu marido tem uma doença grave sugere que eles visitem o filho em Tókio, mas diante das desculpas de Rudi sugere então visitar os filhos em Berlim. Ao chegarem logo percebem que os filhos os consideram um incômodo, não tem tempo para eles, e os deixam sós. Então resolvem passar uns dias no mar Báltico e subitamente quem morre é Trudi.



O maior sonho que ela tinha era visitar o Japão, não só para rever seu filho, mas principalmente para ver o Monte Fuji, e sempre quis ir com Rudi que por sua vez só desejava ficar em casa, sossegado, tomando sua cerveja. Após sua morte Rudi ao se ver sozinho, sendo considerado como um fardo para os filhos decide então realizar o sonho dela e parte para o Japão, numa tentativa tardia de remediar o que não havia feito antes e assim aliviar seu sentimento de culpa e remorso.

Além disto ela era fascinada pelo butô uma dança que surgiu no pós-guerra. Rudi chega a Tókio e vai ficar com o filho, mas novamente este é muito ocupado, tem sua vida e se sente incomodado com a presença do pai. Rudi então começa a se aventurar pelas ruas de Tókio até que conhece num parque uma dançarina de butô. Ele sempre veste por baixo de sua roupa a blusa de lã de Trudi, como se desta forma a levasse junto para ver os lugares que ela tanto desejou conhecer.



Junto com Yu (Aya Irizuki), a dançarina de butô,  irá até o Monte Fuji.



O filme retrata bem o mundo moderno, onde os filhos não tem tempo para seus pais, os netos não conhecem os avós, e todos consideram a velhice um fardo, um problema. Por outro lado, os dois levavam uma vida parada, numa vila pequena, onde nada acontecia, e Rudi estava acomodado nesta vida, ignorando os anseios de sua mulher que desejava mais do que isto. Esta viagem será uma grande descoberta para Rudi, mostrando que mesmo na velhice é possível realizar sonhos.


Doris Dörrie nasceu em 1955 em Hanover, Alemanha.


Trilha sonora de Claus Bantzer

Claus Bantzer nasceu em 1942 em Marburg, Alemanha. É um compositor alemão

Assista a uma apresentação da dança Butô.
"O Butoh existe para que cada ser descubra um caminho de evolução espiritual e criativa através da expressividade de sua alma." Kazuo Ohno

FILME: BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA - 2002


Direção:  Sijie Dai  - 2002 
Duração: 110 min 
Título original: Balzac et la petite tailleuse chinoise
País: China 

Baseado no livro autobiográfico escrito pelo diretor do filme.

Durante a Revolução Cultural na China de Mao,  nos anos 70, dois jovens amigos Luo (Kun Chen) e Ma (Ye Liu) são levados para as montanhas numa comunidade agrícola para serem reeducados. Lá irão conhecer a neta (Zhou Xun) de um costureiro famoso na região e ambos se apaixonam por ela.

Luo e Ma são considerados inimigos do povo porque seus pais eram dentista e médico, o que é considerado ser da burguesia e reacionário. Ma consegue levar seu violino e acaba podendo ficar com ele porque alega que Mozart compunha para o presidente Mao. Como os camponeses não tem nenhum conhecimento cultural e menos ainda de música aceitam esta explicação, mas o livros que tinham são todos queimados.

Acabam descobrindo que outro companheiro conhecido como quatro olhos devido aos óculos esconde um baú cheio de livros proibidos com autores como Balzac, Tolstói, Flaubert e Victor Hugo. Conseguem encontrar o baú e se apoderam dos livros proibidos.

Através da leitura, principalmente de Balzac, os três irão amadurecer, crescer e abrir novos horizontes, dentro deste contexto totalmente limitador. Uma obra transformadora e singela. O filme nos traz belos visuais também.

Sijie Dai nasceu em 1954 na China. Aprendeu a profissão de alfaiate com seu pai. O governo de Mao o enviou  para reeducação na zona rural de Sichuan de 1971 a 1974. Quando voltou estudou História da Arte na Universidade. Em 1984 foi para a França com uma bolsa. Foi neste país que ele adquiriu a paixão pelo cinema. Vive em Paris e escreve em Francês. 


sábado, 8 de fevereiro de 2014

FILME: O CAPITAL - 2012


Direção: Costa-Gavras - 2012 
Duração: 114 min 
Título original: Le capital 
País: França 

Baseado no livro de Stéphane Osmont 

Um filme sobre o capitalismo e de como somos escravos do dinheiro. É tudo um jogo, mas de dinheiro, o resto não conta. É tirar dos pobres para dar aos ricos.

Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) assume a presidência de um grande banco temporariamente e aí começa o jogo pelo poder, ele irá manipular e jogar para ser o presidente efetivo. Convida aos funcionários do banco à responder um questionário sobre os outros unicamente para poder demitir alegando ser uma empresa democrata e que busca a felicidade dos funcionários, se livrando desta forma dos sindicatos e das ações sociais do governo.

Do que o ser humano é capaz por poder e dinheiro. No final Marc dirá que tudo continuará assim até que eles mesmos se explodam. Um retrato frio do que se passa neste mundo dos negócios.

É como um jogo de xadrez, morrem os peões para poder dar o xeque mate, as jogadas decisivas estão na base, no início.

O título do filme também é ambíguo, Capital é dinheiro mas também é o título do livro de Karl Marx.

Konstantinos Gavras, mais conhecido por Costa-Gravas nasceu em 1933 em Iraia, Grécia. Naturalizou-se francês. Estudou literatura na Sorbonne em Paris. Adepto do cinema político e ficção social.