domingo, 17 de agosto de 2014

ROTEIRO DE LEITURA - O LIVRO DE PRAGA - SÉRGIO SANT'ANNA

Retomo os roteiros de leitura acompanhando o autor em suas andanças por Praga


Começamos pelo museu Kampa onde nosso personagem visitou a exposição de Andy Warhol e irá ouvir um concerto privado com Béatrice.


ANDY WARHOL nasceu em 1928 em Pitssburgh, Pensilvania, EUA e faleceu em 1987 em New York. Seus pais eram imigrantes do norte da Eslováquia. É um artista gráfico. 



Será também neste rio que margeia o museu que o corpo da suicida Giorgya será encontrado. 



Antonio foi assistir um concerto no Smetana Hall onde se executou o poema sinfônico O Moldávia de Bedrich Smetana , onde se descreve o curso do Rio Moldávia, também conhecido como Vltava, que tem 430 km de extensão.


Smetana Hall 


Ouça: O Moldávia-Bedrich Smetana 

Após assistir a este concerto...



Antonio Fernandes atravessará a Ponte Carlos com suas estátuas e será aí que ele viverá um delírio com a estátua de  Francisca.




Aqui estamos no Ta Fantastika Black Light Theatre - teatro de luzes e sombras onde Antonio assistiu ao espetáculo Aspects of Alice que leva a comprar a boneca Gertrudes com quem terá uma experiência única durante a noite em seu quarto no Hotel.


Não poderia faltar Kafka no livro de Sant'Anna, então ele vive algo inusitado sendo levado para ver o corpo tatuado de uma mulher com um texto inédito do grande escritor.

FILME: MILLENNIUM: OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES - 2011



Direção:David Fincher - 2012 
Duração: 158 min 
Título original: The Girl with the dragon tattoo 

Adaptação do romance Mäm som hatar Kvinnor de Stieg Larsson. 

Mikael (Daniel Craig) é um jornalista investigativo que está passando por um processo onde é acusado de calúnia e de publicar matérias sobre as quais não tem provas. É chamado após uma criteriosa investigação sobre ele feita por Lisbeth (Rooney Mara) uma investigadora particular, hacker e anti-social, para descobrir o que aconteceu há 36 anos atrás com Harriet Vanger (Moa Garpendal) que desapareceu numa ilha no norte da Suécia sem deixar vestígios. Todos acreditam que ela está morta, mas seu corpo nunca foi encontrado e seu tio Henrik (Christopher Plummer) não se conforma. A revista para a qual Mikael trabalha com cuja diretora tem um caso não está passando por um bom momento também, então ele resolve aceitar a proposta feita por Henrik e se muda para uma cabana na ilha para tentar solucionar o mistério. Irá contar mais adiante com a ajuda de Lisbeth.

Um filme de suspense, com alguns clichês, mas que traz um outro lado que é justamente a questão do título do filme, homens que abusam de mulheres estuprando-as e matando, além da questão do incesto e nazismo. 

Lisbeth é uma mulher jovem mas que é anti-social, gótica, estranha, que tem um tutor do Estado por ser considerada incapaz de gerir a própria vida devido um ato quando tinha 12 anos, porém será que os tutores são sempre bons? ou eles também abusam de seus tutelados? Famílias com questões vergonhosas, que se odeiam, não falam um com o outro, abusos. Tudo isto faz parte do enredo do filme. 

Martin (Stellan Skarsgard) é irmão de Harriet e também mora na ilha, o pai deles morreu afogado no rio, temos também outro irmão de Henrik que é um nazista e mantém em sua casa fotos da época. 

Aos poucos Mikael irá juntar os pedaços deste mistério. 

David Fincher nasceu em 1962 em Denver, Colorado, EUA. 

sábado, 16 de agosto de 2014

FILME: QUARTETO - 2012


Direção: Dustin Hoffman - 2012 
Duração: 98 min 
Título Original: Quartet 

Em uma grande casa no meio de um parque belíssimo vivem vários idosos que são músicos e cantores aposentados. Eles passam o tempo lembrando os bons tempos, mas também continuam tocando e cantando. Todos os anos eles realizam uma festa com apresentações para arrecadar fundos para manter a casa. Cissy (Pauline Collins), Reggie (Tom Courtenay) e Wilfred (Billy Connolly) vivem lá e estão ensaiando para a apresentação. 

É quando chega uma nova moradora que ninguém sabe quem é. Trata-se de Jean (Maggie Smith), ex-esposa de Reggie que de início não fica nada satisfeito em vê-la ali. Mas logo os três pensam em reviver o quarteto que interpretou Rigoletto, porém Jean se recusa. 

O filme toca em temas da velhice, a perda da memória, as doenças, o corpo que já não é o mesmo. Novamente vemos pessoas mais jovens tratando idosos como se fossem débeis, o que não são, mas ali, os moradores tem respostas na ponta da língua. Chega a ser deprimente ver Wil ter que pedir a médica que cuida do local para poder ir jantar fora com os outros três afim de convencer Jean a cantar, ela impõe até horário que só é estendido após uma pequena chantagem feita por Wil. Este tipo de comportamento tão comum em nossa sociedade é algo que precisa mudar, idosos não são dementes, eles tem limitações naturais de sua idade, mas muitos ali são lúcidos e portanto capazes de escolhas. 

O encontro de Reggie e Jean trará a tona também velhas mágoas e será uma oportunidade de mudar isto. No fim ela aceita cantar, principalmente quando vê que sua concorrente na ópera irá cantar, como bom ser humano e como uma prima-dona, ela não irá permitir que ela brilhe mais do que ela. 

Um filme bonito, uma comédia dramática. 

Dustin Hoffman nasceu em 1937 em Los Angeles, Califórnia, EUA. 

FILME: PÃO DA FELICIDADE - 2012


Direção: Yukiko Mishima - 2012
Duração: 114 min
Título original: Shiawase no pan 

Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. De uma delicadeza, sensibilidade e de uma beleza estética ímpar, onde o cuidado com os mínimos detalhes, cores, visuais é extremo ao ponto de quase se sentir o cheiro e o sabor do pão.

Rie (Harada Tomoyo) e Sang (Oizumi Yo) mudam-se de Tóquio para o Lago Toya em Hokkaido e abrem um café com pousada. Ele faz pães com muito amor e um mais bonito e aparentemente saboroso que o outro, ela prepara o café moendo os grãos num moedor manual e cozinha as refeições. As estações passam, e a cada uma alguém vem para ficar na pousada e temos sua história e de como o prazer de comer um simples pão com um café maravilhoso pode fazer a diferença.





O filme nos mostra uma globalização do Japão, mas também nos traz o antigo, tudo preservado junto neste local acolhedor. Vemos um japonês tocando acordeon, uma mulher que tem uma loja e que tem um ouvido muito bom, pois sempre está pronto e embrulhado o que a pessoa pensa comprar em sua loja, o pão é assado no forno a lenha, o café moído em um moedor manual, as panelas são lindas, os detalhes da louça, dos enfeites, tudo de um extremo bom gosto, mas simples.





A generosidade e o que é feito com paixão é o que acolhe e transmite calor humano aos que buscam um pouco de aconchego. O pão é um alimento básico e simples, mas é justamente sua simplicidade que oferece às pessoas a possibilidade de perceber que é nas coisas simples que está o prazer.

Recomendo.


Yukiko Mishima 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

FILME: AMOROSA SOLEDAD - 2008



Direção: Martin Carranza e Victoria Galardi - 2008
Duração: 82 min

Soledad (Inés Efron) acaba de ser deixada pelo noivo e está sofrendo com isto. Ela toma uma decisão de passar pelo menos três anos sozinha sem se envolver novamente, tem medo de sofrer e diz que precisa deste tempo, mas logo logo ela vai descobrir que viver sozinho e estar sozinho não é a mesma coisa e não é tão simples assim, ainda mais para uma mulher instável, um tanto neurótica e principalmente hipocondríaca, pois ela está sempre sentindo dor no peito, dor no ombro, enjoos, ou seja, remete para seu corpo o que sua alma sente. 

Ela é toda atrapalhada vivendo sozinha, o vaso sanitário entope e ela ao invés de chamar um encanador após tentar desentupi-lo sem sucesso opta por transformar o vaso numa mesinha com um cactus e uma vela em cima. Fecha a porta e esquece a chave dentro, não consegue abrir o fecho do vestido e dorme com ele até poder pedir ajuda ao porteiro no dia seguinte. 

Ela chora a toa em momentos onde não deveria e tenta ser forte na questão da perda de seu noivo. Tem outras manias, como pedir para colocar o tomate do sanduíche separado num saco plástico que tira da bolsa e entrega a garçonete. 

Mas mesmo assim o filme é gostosinho, principalmente se o olharmos por este lado desta mania por doença da Soledad. Ela compra um aparelho de pressão e diz que é bonito (para usar no pulso como se falasse de uma pulseira) e acha o termômetro na vitrine mais bonito que o que ela comprou uma semana antes. Vive indo ao plantão médico por alguma coisa que sente, fica apavorada quando sua mãe vai colocar silicone nos seios em um local que ela acha impróprio e sem estrutura, afinal não tem ambulância nenhuma ali, quando cuida da filha da vizinha inventa um jogo com sintomas de doenças que a menina tem que adivinhar.  E finalmente parece que aprova seu novo namorado por ele morar bem ao lado de um belo hospital. 

Ricardo Darín faz uma aparição relâmpago como o pai de Soledad, nada que se possa incluir seu nome no elenco. 



Martin Carranza e Victoria Galardi 

FILME: SOB O SOL DA TOSCANA - 2003



Direção: Audrey Wells - 2003 
Duração: 112 min
Título original: Under the Tuscan Sun 


Baseado no livro homônimo de Frances Mayes 

Frances Mayes ( Diane Lane) é uma escritora que acaba de se divorciar após descobrir que seu marido tem outra e passa por toda a dor que isto provoca. Suas duas melhores amigas lhe dão de presente uma viagem para a Toscana que ambas iam fazer com um grupo gay porque uma delas, Patti (Sandra Oh) está grávida. 

Frances após relutar acaba aceitando e viaja. Ela acaba se encantando com a Toscana e num impulso compra uma casa antiga em Cortona na província de Arezzo, chamada de Bramasole. A casa está quase que abandonada e ela então resolve reformá-la. Mas continua triste apesar de viver num lugar onde as pessoas parecem preferir a alegria do que a tristeza,mesmo diante da dor. Seu sonho é ter uma família, ter para quem cozinhar. 

Aos poucos seus desejos se realizarão, não da forma como ela imaginava, mas ela volta a sorrir e no final encontrará sua joaninha, ou seja, um novo amor. 

As paisagens são muito bonitas e a casa é belíssima com seu jardim, pelo menos eu gosto muito. Só me pergunto se estes contos de fadas realmente acontecem, ou se acontecem somente para algumas pessoas. Uma coisa é certa, é justamente quando ela desiste de procurar um amor é que ele aparece. Mas a vida nem sempre é assim, pelo menos não para todos, mas ter a coragem de mudar de país, comprar uma casa num lugar onde não se conhece ninguém e não se fala a língua, talvez já seja o que faz a diferença para algumas pessoas que acabam tendo recomeços de vidas após uma dor forte tão bonitas assim. 

De qualquer maneira a vida de Frances é um exemplo de como viver, sem ficar remoendo as dores do passado e encontrando prazer em pequenas coisas como cozinhar, arrumar uma casa e decorá-la, cuidar de um jardim. 


Audrey Wells nasceu em 1960 em San Francisco, Califórnia, USA 

Frances Mayes e Diane Lane 

Bramasole 


Detalhes da casa que encantam 


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILME: VICKY CRISTINA BARCELONA - 2008


Direção: Woody Allen - 2008
Duração: 96 min

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas íntimas americanas que viajam para Barcelona para passar três meses de férias em casa de amigos de Vicky. Apesar do forte elo de amizade elas tem visões opostas sobre a vida e o amor. Vicky estuda a cultura catalã para seu mestrado e Cristina busca algo na vida, ela só sabe o que não quer. Enquanto Vicky está prestes a se casar, Cristina busca o amor e acaba de rodar um curta sobre como é difícil definir o amor. 

Numa exposição de pintura elas avistam o pintor Juan Antonio (Javier Barden) e Cristina o acha interessante. Logo ficam sabendo que ele acaba se se separar de sua mulher Maria Elena (Penélope Cruz) de forma meio violenta, ela tentou matá-lo. Mais tarde reencontram o pintor num restaurante que as convida para um fim de semana em Oviedo. Cristina se empolga de imediato, mas Vicky tenta ser racional, principalmente depois que ele inclui no convite fazer amor, mas acaba indo. A partir deste momento muitas coisas acontecerão que irão mudar estas férias e farão as duas pensar muito sobre a vida e sobre o que desejam. 

Vemos várias pessoas que tem uma vida boa, com possibilidades de viagens, prazeres, luxo, belas casas, decorações bonitas, lugares belíssimos, e ainda assim a cada uma delas falta algo. Também percebemos a questão da sexualidade, o convite inicial do pintor que inclui sexo com as duas, a amiga de Vicky que tem um amante, mas tem medo de se separar, o pai de Juan Antonio que confessa que ainda tem sonhos eróticos com a ex-mulher do filho, e por aí vai. 

Fica notório a diferença entre a América e a Espanha, e nos parece bem mais saboroso, mais quente, mais viva a Espanha, pelo menos foi o que eu senti, uma vez que entre uma vida cheia de normas, enquadrada, com casas bonitas com quadras de tênis, computadores, tecnologia e uma vida com a música que toca o corpo, vinho, belezas naturais, pintura, e casas diga-se de passagem, maravilhosas, as ruas alegres e coloridas, é claro que o filme nos passa uma Espanha bem mais colorida do que a América. Mas mesmo assim as pessoas que ali vivem estão em busca de algo que Vicky descobre também sentir. 

No fundo o que eles não sabem é viver com a falta, e isto aparece quando Maria Elena diz que ama Juan Antonio e esta a ela, mas não conseguem viver juntos porque falta algo para o equilíbrio do amor e considera Cristina como este algo. Tamponando a falta tudo funciona. Será? será que Cristina conseguirá ser a falta do outro? e ela mesma? suas faltas? 

Juan Antonio não consegue lidar com a perda, de certa maneira ele está enroscado na relação neurótica com Maria Elena, ela é impulsiva, passa ao ato de imediato, não consegue parar para pensar ou analisar algo,e ele se considera o elo entre ela e o real. Mas sem ela quem se perde é ele, precisa de alguém com ele. 

Um filme muito bom, que propõe muitas interpretações, a cada um sua maneira de ver o filme e o compreender e sentir. 

Woody Allen 

BELÍSSIMA TRILHA SONORA 


Giulia y los Tellarini - Barcelona

Paco de Lucia - Entre dos aguas

Juan Serrano - Entre Olas

Juan Serrano - Gorrion

Juan Quesada - Asturias 

FILME: BISTRÔ ROMANTIQUE - 2012


Direção: Joël Vanhoebrouck- 2012
Duração: 102 min
Título Original: Brasserie Romantiek

Pascaline (Sara De Roo) tem 40 anos e é proprietária de um pequeno restaurante mais conhecido como Brasserie na Bélgica que mantém junto ao seu irmão Angelo (Axel Daeseleire) que é o chef de cozinha. Eles possuem uma estrela no guia gastronômico. Além disto ela tem sua sobrinha que mora com ela, pois a mãe não lhe dá atenção.

É o dia dos namorados e todas as mesas estão reservadas e o cardápio neste dia é fechado e terá 05 pratos entre a entrada e a sobremesa. O filme passará por estas etapas apresentando a cada uma o prato que será servido.

As pessoas começam a chegar, mas o primeiro surpreende Pascaline, ele não está acompanhado como todos os outros, mas vem sozinho e somente para encontrá-la, trata-se de Frank (Koen de Bouw) que é um ex-namorado de Pascaline, por quem ela continua apaixonada depois de tantos anos. Ele lhe faz uma proposta que ela jamais poderia esperar. Após 20 anos sem aparecer ele está de partida para Buenos Aires naquela noite e quer que ela vá com ele.

Roos (Barbara Sarafian) chega e espera seu marido Paul que como sempre está vendendo um carro pelo celular. Durante o jantar Roos contará a ele que tem um amante.

Mia (Ruth Becquart) chega sozinha, ela explica que o marido a deixou pela sua melhor amiga, se é que se pode chamar de amiga, mas que retornou ali pois foi onde tudo começou, ele a pediu em casamento ali. Agora ela come chocolates e os vomita e pensa seriamente em se suicidar. O garçom Lesley (Wouter Hendrickx) se ocupa dela durante o jantar tentando fazer com que ela olhe a vida de outra forma.

Walter (Mathijs Scheepers) também aguarda sua convidada que ele não conhece pessoalmente, foi um contato pela internet e ela está atrasada o que o deixa extremamente tenso.

Outros casais também chegam e ocupam suas mesas, menos uma que fica vazia, não vieram nem justificaram sua ausência.

Durante o jantar iremos ver a história de cada um se desenrolar, as dificuldades no relacionamento, um casamento falido, as tentativas de arrumar alguém, as dúvidas.

Um filme sem grandes novidades, mas que é gostoso de assistir. Eu pessoalmente gostei muito foi de ouvir a língua flamenga sendo falada, pois minha família materna é dos Flandres.

Joël Vanhoebrouck nasceu em 1974 em Vivoorde, na Bélgica

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FILME: PRAGA - 2006



Direção: Ole Christian Madsen - 2006 
Duração: 92 min
Título Original: Prag 

Christoffer (Mads Mikkelsen) e sua mulher Maja (Stine Stengade) viajam para Praga para buscar o corpo do pai de Christoffer para ser enterrado na Dinamarca onde eles vivem e está o túmulo da família, para que ele fique junto de sua mãe da qual se separação há muitos anos atrás e após isto nunca mais reviu o filho. 

O casamento dos dois está em ruínas, há um distanciamento enorme entre eles, e Maja tem um amante. Mas ele também não é inocente, como aliás sempre ocorre numa relação. A maior parte do filme são diálogos, ou quase monólogos, pois um não consegue mais compreender o outro, sobre esta relação. Paralelamente Christoffer vai descobrir coisas sobre seu pai que ele não sabia e terá que lidar com aspectos culturais sobre o ritual de morte. 

Christoffer parece gozar em se auto-torturar, nenhum dos dois consegue se separar e também não conseguem expressar o que desejam, o que pensam, a raiva fica contida, a dor fica contida. Ele parece transferir para sua infância de filho abandonado todo o abandono que parece sentir no momento, mas não dá um passo para modificar tudo isto, nem aceita compreender seu pai. Ela ainda ama o marido, mas não consegue mais se aproximar dele. Há um momento de explosão de raiva e dor, em uma cena em público, onde também não ocorre um resgate para os dois. 

Aos poucos todos os segredos vem a tona, e cada vez mais se vê a desestruturação do casamento, os cacos que já havia se quebram ainda mais. 

Um filme sobre o quanto duas pessoas que vivem juntas há 14 anos podem se afastar, se desconhecer, mesmo se amando e as consequências disto. 

Ole Christian Madsen nasceu em 1966 na Dinamarca 

FILME: PÃO E TULIPAS -1999



Direção: Silvio Soldini - 1999
Duração:  114 min 
Título Original: Pane e tulipani 

Uma família italiana de Pescara participa de uma excursão de ônibus . Em uma parada eles esquecem  a mãe, nem percebem que ela não está junto e o marido ainda a xinga por ser atrapalhada e por atrasar o passeio e manda que ela fique onde está e aguarde.

Rosalba (Licia Maglietta) inicialmente faz o que lhe mandam, mas de repente muda de ideia e resolve voltar para casa, pede carona e um destes está indo para Veneza, então esta dona de casa resolve realizar um velho sonho que é conhecer esta cidade e resolve ir para lá, com a intenção de voltar no dia seguinte, mas ela perde o trem no outro dia, o que para mim é um ato falho de quem não deseja voltar ainda. E ela vai ficando, consegue um trabalho numa floricultura, um lugar para ficar na casa do garçom do restaurante, Fernando (Bruno Ganz), pois é setembro e não há vagas em hotéis ou pousadas.

E ela resolve então tirar férias da família, do marido e dos filhos. Faz novos amigos, volta a tocar acordeon, e se deixa levar pela vida e por novas descobertas. Quem não fica nada satisfeito é seu marido, principalmente por causa da casa, de suas camisas passadas que sua amante se recusa a passar. Ele então coloca um detetive atrás dela. A partir daqui melhor assistir ao filme.

Ela é deixada para trás como um objeto, ninguém percebe que ela não está ali, não faz falta de imediato a ninguém de sua família, mas passa a fazer quando percebem que as coisas que ela fazia ninguém quer fazer. Rosalba sente a liberdade, de poder fazer o que deseja, mas não sem responsabilidade, ela consegue um emprego, tem onde ficar, zela por seus novos amigos e é cuidada por eles também. Redescobre o prazer de viver, de dançar, de tocar, de simplesmente andar por Veneza. O que de início parece algo inconveniente, ficar ali esperando que alguém vá buscá-la no restaurante transforma-se em uma oportunidade de viver a vida.

Silvio Soldini nasceu em 1959 em Milão, Itália. 


Trilha sonora Giovanni Venosta 


LIVRO: SYNGUÉ SABOUR Pedra-de-paciência - ATIQ RAHIMI



Rahimi, Atiq. Estação Liberdade, 2009
147 páginas
Tradução: Flávia Nascimento
Título Original: Syngué Sabour: pièrre de patience

Ganhador do prêmio Goncourt de 2008

O livro é em homenagem a uma dupla libertação. A primeira é do autor em relação à língua, quando ao escrever em francês ele se liberta da autocensura e do pudor inconsciente ancorados nele desde a infância, e a segunda é a libertação da dor que lhe causou o assassinato da poeta afegã Nadia Anjuman, espancada até a morte por seu marido com a conivência da mãe pela acusação de ser liberal demais, e causar vergonha na família. Ela andava sem o véu.

Um livro belíssimo. É o relato de uma mulher que cuida de seu homem numa cidade do Afeganistão que levou um tiro na nuca e está em estado vegetativo. Ela ouviu de seu sogro a história da pedra-da-paciência, a Syngué sabour, onde contamos tudo que nos aflige e angustia, nossos segredos para uma pedra que acabará por explodir quando receber tristezas demais e libertará a pessoa de suas dores e tormentos. Al-Sabour é também o último nome de Deus, o paciente!

No início a mulher cuida do homem inerte, com seus olhos vidrados fixos em algum lugar, ele não tem nenhuma reação, apenas respira. Ela reza, a cada dia um dos nomes de Deus, na esperança que ele volte para ela, mas nada acontece. Do lado de fora há conflito, tiros, bombas e as chamadas do Mulá para as rezas. O bairro vai se esvaziando após os ataques, ela leva as filhas embora, mas não consegue levar ele. Está sozinha, a família do marido também a abandonou.

Aos poucos ela começa a falar, a colocar para fora suas dores, angústias, seus segredos, transforma o marido em sua Syngué sabour. Conta-lhe coisas que jamais teria contado se ele não estivesse inerte, ele a teria matado. Todo o universo feminino vem a tona, quando um homem é duro com sua mulher, uma mulher também é dura com seu homem. Por baixo do véu há muita vida, tristeza, desejos, angústias, medos. E ela vai ficando cada vez mais ousada relatando tudo que estava enterrado dentro dela e lhe causando uma dor imensa, enchendo a sua pedra até que ela exploda e a liberte.

Atiq Rahimi nasceu em 1962 em Cabul, Afeganistão. Durante a guerra nos anos 80 exilou-se na França onde vive  e hoje tem dupla nacionalidade. 

Nadia Anjuman 


LIVRO: IDIOPATIA - SAM BYERS



Byers, Sam. 1ªed.Objetiva, 2014
287 páginas
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Título Original: Idiopathy

Idiopatia - origem fim do século XVII - do latim moderno idiopathia, do grego idiopatheia, de idios "próprio, privado" + patheia "sofrimento". Sofrimento próprio

Grande surpresa, por ser um livro de estréia, um dos melhores livros que li recentemente. É brilhante. 

Um romance sobre amor, narcisismo e animais agonizantes. 

Três pessoas, Katherine, Daniel e Nathan são os protagonistas, porém a mãe de Nathan, seu pai,  Angélica e Sebastian também tem muito a nos mostrar. 

A narrativa trata do absurdo da vida moderna, suas neuroses, solidão, narcisismo extremado, máscaras. 

Os três se utilizam de máscaras para fugir ao que realmente sentem, para defender um narcisismo exagerado, onde não se quer ficar por baixo, onde a demanda de aprovação supera tudo, onde cada um foge do que é para colocar no outro o que ele imagina que o outro vê nele. 

Katherine é a ex-namorada de Daniel que atualmente vive com Angélica. Ela é manipuladora ao extremo, sempre jogando para o outro, não escuta ninguém, quer sempre ser a vencedora em qualquer tentativa de diálogo, uma vez que com ela nunca ocorre um diálogo, é impossível, ela não permite. Adora provocar os outros, deixá-los irritados, isto lhe dá prazer e a sensação de vitória. Mas é extremamente solitária, sofre com isto, porém não consegue dar um passo para mudar isto, a resistência é total. Quando tenta é pior ainda, soa falso. Tudo que o outro lhe diz ela manipula a seu favor, e chega a ser irritante os diálogos com ela, lendo eu ficava com raiva, dava vontade de mandá-la calar a boca. Ela sempre respondia com perguntas antes mesmo que o outro terminasse de falar, ou observações irônicas e sarcásticas. 

Daniel quer ser o perfeito, amado, vender uma aparência boa. Não consegue ser autêntico, ele mesmo. Está sempre pensando antes de falar no que o outro vai pensar do que ele vai dizer. Procura achar as palavras e respostas certas, pensa em todas as alternativas de respostas possíveis que o outro vai dar para se preparar antes de falar. 

Nathan, que é o considerado doente na história, ele foi internado num hospital psiquiátrico por ter tirado a própria pele, me parece entre todos o melhor, o que está menos doente nesta sociedade neurótica e moderna. Ele foi para o ato ao invés de falar, e claro, depois de uma conversa com Katherine, quando é impossível falar. É um ex-drogado, que se apaixonou por ela quando esta ainda vivia com Daniel, que era seu amigo. Os três sempre se encontravam, mas Nathan percebeu que ele era usado pelos dois. A mãe de Nathan é castradora, e quando vê que o filho arrancou sua pele, resolve escrever um livro sobre o sofrimento de uma mãe para se livrar da culpa. Fica famosa, recebe e.mails, participa de programas na TV, causa um tremendo desconforto em Nathan. A intenção materna é criar a culpa nele para retirar dela a questão. O pai não interfere, vive sua vida cotidiana. 

Angélica é a bondosa, aquela que quer ser vista como generosa e bondosa com todos, que media todos os conflitos, que acalma. E Sebastian, apaixonado por Angélica, é um ativista que está obcecado pela questão das vacas que sofrem de uma doença chamada idiopatia e que estão sendo sacrificadas. Ele adora provocar Daniel, para desta maneira chamar a atenção de Angélica. Ele sente inveja e ciúme de Daniel por ter ficado com Angélica, e a ironia do livro é ver que ele acha que uma vaca é algo que vai diferenciá-lo de Daniel aos olhos de sua amada. 

As emoções humanas são as mesmas de sempre. O que o livro deixa claro é a forma como as pessoas lidam com isto no mundo moderno. Eles não sabem se agem com total desinteresse, descrença, afastamento, ou se vão atrás de ideias, palavras, pensamentos. 

É uma sátira do mundo moderno, mas na realidade muito do que está um pouco exagerado no livro para reforçar a história acontece todos os dias. As pessoas usam máscaras para fugir de sua solidão, desesperança, fracassos e tristezas. Não sabem mais lidar com isto. Então elas atacam os outros para com isto achar que estão prevalecendo e atingir um certo gozo, ao invés de viver com prazer e satisfatoriamente com aquilo que a vida oferece de possível. 

O fato da leitura atingir a nós mesmos, nos levando a desejar mandar calar a boca, ficando exasperados em determinados momentos, com raiva até, é algo brilhante num livro, e que também nos faz refletir sobre nossas relações e como agimos com os outros. O que todos desejamos é sermos amados, mas como lutamos contra isto. 

Recomendo!

Sam Byers nasceu em 1979. 

domingo, 10 de agosto de 2014

LIVRO: A VIDA DO LIVREIRO A.J.FIKRY - GABRIELLE ZEVIN


Zevin, Gabrielle. 1ª ed. Paralela, 2014
186 páginas
Tradução: Flávia Yacubian
Título Original: The storied life of A.J.Fikry

Acho que criei uma expectativa muito grande sobre o livro. É um livro gostoso de ler, que se lê em um só dia, bom para relaxar, pelo menos foi o que fiz, li o livro em um único dia. 

A história do livreiro A.J. Fikry em uma ilha, dono da única livraria local, no início rabugento, de mal com a vida após a perda de sua esposa em um acidente que recebe a visita de Amélia, representante de livros de uma editora que entra no lugar de outro que também morreu. Seu primeiro contato não é bom, mas Amélia contorna isto.

Mas a vida de A.J. Fikry irá mudar quando encontra um bebê em sua livraria com um bilhete e resolve adotá-la. Maya irá transformar a vida do livreiro e Amelia também, pois ele se apaixona por ela. Entre tudo isto temos o roubo de um livro raro que se transformaria na aposentadoria do livreiro. 

Confesso que esperava mais do livro. Gosto muito de livros que falam de livros, mas pessoalmente prefiro  O Ano do pesamento mágico ou o Clube do livro do fim da vida, onde os livros também vem em socorro de alguém  que está passando por momentos difíceis, apesar de não serem como no caso de Fikry, seu ganha pão. Por outro lado confesso que gostaria muito de ver livrarias como esta do livro em cidades pequenas, onde houvessem clubes de leitura e um livreiro que soubesse indicar os livros de acordo com o que seus clientes buscam e precisam.

O que mais me atraiu no livro foi o local, a Ilha Alice. Adoraria viver em um lugar assim, não tão alcançável, mas não tão distante. Durante o inverno a balsa não faz a travessia. E também o prazer de estar entre livros, isto eu compreendo bem, vivo rodeada deles, em todos os locais de minha casa há livros, eles andam pela casa e me aconchegam, me acolhem, me dão serenidade e companhia. 

Talvez eu seja como A.J.Fikry quando se trata de livros. 

Gabrielle Zevin nasceu em 1974 em New York

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

LIVRO: O LIVRO DE PRAGA - Narrativas de amor e arte - SÉRGIO SANT'ANNA


Sant'Anna, Sérgio. Companhia das Letras, 2011
136 páginas

Este livro faz parte de uma coleção encomendada a vários escritores chamada "Amores Expressos" onde cada um foi para uma cidade e escreveu uma história sobre o amor. 

Sant'Anna escreveu sobre Praga, e se utiliza inclusive deste projeto em seu livro uma vez que seu personagem Antônio Fernandes é um escritor que vai para Praga escrever sobre o amor fazendo parte de um projeto privado. 

O livro divide-se em sete partes mas que formam uma sequência da permanência de Antônio em Praga e de suas vivências locais. Ele está interessado em arte, então visita uma exposição da pintura de Andy Warhol onde ouve a pianista Béatrice Kromnstadt, anda pela ponte Carlos com suas esculturas, assiste a peça teatral Aspects of Alice do Ta Fantastika Black Light Theatre - teatro de luzes e sombras, vê uma mulher com o corpo tatuado no corpo de Jana. 

A arte, a música, luzes mexem com nossos sentidos e nos criam sensações de estranhamento, de prazer ou angústia. Antônio se expressa pelo seu desejo e a sexualidade aflora. Nos perguntamos até onde é real ou imaginário o que ele vive. Um livro que traz o inconsciente a tona em experiências estéticas e eróticas. 

O desejo proibido que reaparece, mas em vivências, experiências sensoriais e oníricas. 

Sérgio Sant'Anna nasceu em 1941 no Rio de Janeiro 





quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FILME: VIVA A FRANÇA - 2013


Direção: Michaël Youn - 2013 
Duração: 94 min 
Título original: Vive la France 

Muzafar (Jose Garcia) e Feruz (Michaël Youn) são dois pastores de um pequeno país fictício chamado Taboulistão governado por um presidente que nunca conseguiu que seu país fosse conhecido e pior, seu prato principal, o tabule, teve a receita roubada pelos libaneses que ficaram com o mérito do prato. Seu filho então tem a brilhante ideia de explodir a Torre Eifel em Paris, pois assim todos ouviriam falar de seu país.

Entre os escolhidos para o treinamento estão Muzafar e Feruz e que acabam sendo os responsáveis pela missão. E lá vão os dois para a França com a recomendação que neste país não se bate em mulher.

Uma comédia que satiriza o terrorismo e faz uma critica ao regionalismo francês, onde cada região se considera como sendo dali mesmo, ignorando a França.

Logo na ida o avião é desviado de Paris e pousa na Córsega onde começa a aventura destes dois atrapalhados. Da Córsega irão para Marselha, onde lhe informam que ali não é a França, é Marselha. Conhecerão uma jornalista (Isabelle Funaro) que irá ajudá-los a chegar à Paris, passando por Toulouse e várias outras cidades e regiões da França, tudo em meio a muita confusão. A jornalista chama-se Marianne, justamente a mulher que simboliza a França e eles irão comemorar o 14 de Julho, o dia da tomada da Bastilha.

Inicialmente eles irão estranhar muitas coisas e passarão por situações que não os induz a achar a França um bom lugar, mas aos poucos serão seduzidos pela comida, pelo vinho, pelo amor e por Paris e descobrirão que viver ali é bem melhor do que o paraíso prometido por seu chefe.


Michaël Youn nasceu em 1973 em Susrenes , Hauts-de-Seine, França. 

Música Douce France de Charles Trenet - com paisagens da França