domingo, 12 de outubro de 2014

FILME: SAMSARA - 2001


Direção: Pan Nalin - 2001 
Duração: 145 min 

Primeiro filme do meu projeto um tour pelo Mundo.
País: Índia 

Tashi (Shawn Ku) é um jovem monge tibetano que retorna ao mosteiro após passar mais de 03 anos em meditação numa gruta. No caminho de volta ele lê numa pedra: "como impedir que uma gota d'água seque ao sol?".
Tashi retoma sua vida no mosteiro onde está seu cão que o aguardou. A vida destes monges é meditativa, mas eles tem muita alegria, falam, riem, e tem seus rituais que são belíssimos. Numa destas apresentações Tashi vê o seio de uma mulher que amamenta e isto o desnorteia. O Rinpochey pede que o levem à cerimônia da colheita para que respire um pouco de ar. Muitas crianças são levadas para lá pelos pais aos cinco anos de idade para se tornarem monges, mas vê-se que comportam-se como crianças, com toda alegria.




Na cerimônia da colheita ele vê Pema (Christy Chung) por quem se apaixona. Retornando ao mosteiro ele começa a sentir o desejo, se masturba, e Apo (Sherab Sangey) lhe dirá que é preciso escolher. Tashi argumenta que ele foi uma das crianças que desde os 5 anos está na vida de monge, que ele não conhece a outra, e que Sidarta viveu uma vida mundana até os 29 anos, e que talvez ele tenha alcançado a iluminação por ter vivido esta vida antes. Ele parte.

Se casa com Pema e eles tem um filho. Tashi passa a viver como um homem comum, trabalha na colheita, mas aos poucos ele vai descobrir que o mundo tem trapaças, que os pobres são os mais fracos, que os ricos dominam e fazem o que querem, descobrirá a vingança, a violência, e que o desejo é algo que não se sacia. É um aprendizado, "tudo que você contatar é um lugar para praticar o caminho.".

Mas Tashi não vai suportar o real, e então parte de noite para voltar ao Mosteiro após receber uma carta de Apo que acaba de morrer lhe dizendo que numa próxima vida quem sabe ele poderá lhe responder se o que vale mais são mil desejos satisfeitos ou apenas um conquistado. No rio onde se banha ele olhará no espelho que está quebrado, numa alegoria de que somos cindidos, e não absolutos, há muitas opções, e ele agora experimentou a vida no mosteiro e a vida mundana, e isto não se apaga mais.

Pema irá atrás dele e lhe contará a história da esposa de Sidarta e de seu filho, porém Tashi não recua, e ela parte, mas antes lhe entrega o amuleto da boa viagem. Neste momento Tashi descobre a dor, o sentir a dor. Neste momento ele encontra a pedra que viu quando retornava ao mosteiro após sua reclusão na gruta e a virará e terá a resposta à pergunta.

Esta cena com Pema lhe falando é brilhante, ela nos fala do homem e da mulher de uma maneira que todos nós podemos compreender. A resposta da pedra, Pema a havia dado antes num ensinamento para as crianças. Um galho na água do rio onde irá parar? impossível de saber, mas há várias possibilidades, mas para alcançar o fim do rio terá que passar pelas pedras, a correnteza, o redemoinho, a cachoeira, um oceano de obstáculos e a incerteza de chegar lá.

O filme tem paisagens belíssimas e fico fascinada pela diversidade de culturas. Há passagens como o casamento tibetano, o ritual no mosteiro, as músicas, que me encantaram. Antes de abandonar a vida no mosteiro, Tashi irá até um local nas montanhas e verá desenhos eróticos, de uma estética da vida e morte que fiquei impressionada. Sim, o sexo é o antídoto da morte, é vida, dá a vida.



Samsara significa para o budismo tibetano a repetição do nascimento/morte até que se adquira a sabedoria e se torne iluminado.
Pan Nalin nasceu em Gujarate, Índia. Vive entre a França e a Índia. 

sábado, 11 de outubro de 2014

FILME: INEVITÁVEL - 2013


Direção: Jorge Algora - 2013 
Duração: 95 min 
Título original: Inevitable 

Baseado numa peça de teatro de Mario Diament

Nas ruas de Santiago de Compostela uma mulher caminha com lágrimas nos olhos. Na mesma rua caminha um homem e que quando a vê algo nele se anuncia. Ela também, mas ao invés dele lhe oferecer o lenço e ela olhar para ele, nada disto acontece e cada um segue seu caminho, mas aquele momento ficará para sempre na vida dos dois.

Há coisas na vida que são inevitáveis, como o amor, a morte, as crises pelas quais passamos, os encontros e desencontros, os acasos que nunca são por acaso fazendo parecer que o destino trama seus fios, e mesmo que leve anos esses fios se cruzam novamente. E há coisas que sempre retornam, como o verdadeiro amor.

Fábian (Darío Grandinetti) é um executivo de um banco casado com Mariela (Carolina Peleritti) com quem tem uma filha. Logo no início vemos um mundo capitalista onde o presidente do banco diz que ali eles são como um galinheiro, que os que estão mais alto no poleiro sujam os que estão embaixo. Um dos executivos é chamado após a reunião à sala do presidente, ele e Fábian se conhecem há 20 anos, mas nunca foram amigos, antes de ir ele pede para falar com Fábian que lhe diz que depois falariam e sai da sala, neste momento ele sofre um ataque do coração e morre ali mesmo diante de todos.

Fábian é o escolhido para falar no enterro representando o banco, depois ele está sentando num banco no parque e chega um senhor cego (Federico Luppi) que ele reconhece como um escritor famoso e começam a conversar. A partir destes fatos Fábian começa a questionar sua vida, se é feliz, se é o que sonhou ser. Sua vida em casa é fria, todos são distantes, reúnem-se à mesa, mas mal falam uns com os outros e estão sempre apressados.

No consultório Mariela é confrontada por uma paciente (Mabel Rivera) o que a acorda para sua vida também. Então ela propõe ao marido fazerem uma viagem juntos para a Europa.

Fábian não irá, pois ele acaba de conhecer Alícia (Antonella Costa) uma escultora por quem irá se apaixonar perdidamente a ponto de se tornar obcessivo. Já Alícia em momento algum se apaixonou por ele, mas em troca do cheque pelo quadro diz que lhe deu sexo, o que pode ter um preço alto a pagar.

O final é inesperado, mas nada que fuja ao humano quando temos emoções e da loucura que muitas vezes a vida produz em nós. Eu fico me perguntando, independentemente do final, se um momento não pode valer muito mais do que uma vida inteira que é vivida mecanicamente e sob controle, como aquele momento que vemos logo no início do filme. Por outro lado, podemos ficar presos a estes momentos e impossibilitados de seguir em frente e viver intensamente outras coisas, ou será porque nossa vida não é intensa que ficamos presos?



Jorge Algora nasceu em 1963 em Madrid, Espanha

FILMES E LIVROS POR PAÍS DE ORIGEM

PROPUS-ME UM PROJETO ONDE LEREI UM LIVRO E ASSISTIREI UM FILME POR PAÍS, FAZENDO ASSIM UM TOUR PELO MUNDO.

O CRITÉRIO QUE USO PARA DETERMINAR O PAÍS É O LOCAL DE NASCIMENTO DO AUTOR E DO DIRETOR. NO CASO DE EU NÃO ENCONTRAR NADA TENTAREI ENTÃO UM LIVRO OU FILME QUE FALE SOBRE O PAÍS OU DE ALGUÉM DO PAÍS.

CONTINUAREI A LER E ASSISTIR FILME FORA DESTE PROJETO PARA O QUAL ME COLOQUEI O PRAZO DE 12 ANOS PARA SE CONCRETIZAR.

ESPERO QUE GOSTEM!

NO FINAL DA COLUNA DA DIREITA VOCÊS ENCONTRARÃO OS LIVROS E FILMES QUE JÁ SELECIONEI PARA ESTE PROJETO.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: MAR ADENTRO - 2005


Direção: Alejandro Amenábar - 2005
Duração: 125 min

Baseado em fatos reais, na vida de Ramón Sampedro

Ramón (Javier Bardem) era um jovem cheio de vida que trabalhava como mecânico em navios e assim andava pelo mundo todo até o dia em que ao pular de uma pedra para o mar bate com a cabeça na areia por não haver calculado o recuo do mar o que lhe causa uma lesão no pescoço tornando-o tetraplégico.



O filme inicia quando ele já está assim há mais de 26 anos e está lutando na  justiça espanhola para conseguir o direito ao que chama de uma morte digna, ou seja, a eutanásia ou suicídio assistido, uma vez que não pode se matar ele mesmo, e considera sua vida indigna e sem felicidade.

No começo ele era atendido por sua mãe, mas após a morte dela é sua cunhada Manuela (Mabel Rivera) quem assume seus cuidados, e Ramón sente-se muito mal dependendo dos outros, e considera seu corpo como uma prisão.



Gené (Clara Segura) faz parte de uma associação que luta pela liberdade das pessoas e ajuda Ramón, e possibilita o encontro dele com Júlia (Bélen Rueda) uma advogada que sofre de uma doença degenerativa e que se identifica com ele se dispondo a ajudá-lo e levar o caso aos tribunais. Ao mesmo tempo ele conhece Rosa (Lola Dueñas) que após vê-lo na TV o procura e acaba se apaixonando por ele, pois é o único homem que foi bom para ela.

Júlia o ajudará a publicar seu livro - Cartas do Inferno - e fará um trato com ele que ao lhe trazer o primeiro exemplar ambos se matarão, mas isto não ocorre, pois o marido de Julia a reterá perto dele. Então será Rosa quem ajudará Ramón. Ele gravará um vídeo onde isenta todos seus amigos que o ajudaram e se suicida.

Ramón não aceitou sua condição, mas era um homem vibrante, que sabia fazer uso de sua imaginação de uma forma que muitos de nós jamais conseguiria. Dono de um humor que muitas vezes era negro, mas ele sabia ouvir e movimentava a vida ao seu redor. Um padre (Josep Maria Pou) que também é tetraplégico o procura e tenta convencê-lo a viver, mas este não é o discurso que teria acesso à Ramón.



Quando penso no filme Os Intocáveis que também retrata um fato real há uma imensa diferença de como lidar com a mesma situação entre os dois casos, mas cada um tem sua história e sua capacidade de sofrer os reveses da vida. Ramón se recusava a usar a cadeira de rodas o que obviamente limitou sua vida à cama. Mas ele desenvolveu um mecanismo que chamava de seu computador através do qual conseguia escrever usando a boca.

Não é fácil, 26 anos sem poder se mover, dependendo de outros para todas as suas necessidades. Os sentimentos que se geram diante desta situação são difíceis, mas cabe a cada um que passa por esta situação aprender a lidar com isto ou preferir a morte como no caso de Ramón.

Na Espanha não se considera o suicídio um crime, mas a eutanásia sim. Considero a eutanásia uma forma de ajudar as pessoas que estão com doenças terminais, sofrendo, com dores, e que irão morrer de qualquer maneira só que um pouco mais adiante. A pessoa tem o direito ao suicídio, pode escolher se deseja ou não viver, como Ramón diz: viver é um direito, não é uma obrigação.

Não estou levando em conta aqui nenhum aspecto religioso ou espiritual que condenaria o suicídio ou a eutanásia, mas lembro que prolongar uma vida com aparelhos também é ir contra os desígnios de Deus, e não é a vontade de Deus que se construa estas máquinas, isto é do ser humano com sua inteligência capaz de criar isto.

Julia no final do filme está em uma cadeira de rodas, perdeu os movimentos das pernas e já não se lembra de quase nada, está caminhando para um estado vegetativo, e isto é vida? Alguns dirão que são as provas pelas quais temos que passar e quando acreditamos nisto, sim, é necessário passar, mas há aqueles que não acreditam, e respeito as escolhas de cada um.

Há aqueles que enfrentam as adversidades com mais facilidade do que outros, há aqueles que aceitam o que lhes acontece e tratam de dar outro rumo a sua vida dentro destas condições limitadas por um lado, mas que podem abrir outros campos se a pessoa se dispuser a descobri-las.

Muitos se suicidam de forma inconsciente, quando aceleram um carro a alta velocidade e sofrem um acidente, quando arriscam a vida para vencer desafios que se impõem, ou até mesmo quando atravessam uma rua e não olham e são atropelados, mas nada disto é considerado suicídio, pois não foi consciente. Ramón está lúcido, é inteligente, e deseja morrer. Na minha opinião ele tem este direito. Para ele é a única saída que ele encontrou que é digna, para outros pode ser outra.

Alejandro Amenábar nasceu em 1972 em Santiago, no Chile. 

Veja um vídeo com Ramón Sampedro 


FILME: KLIMT - 2006


Direção: Raoul Ruiz - 2006
Duração: 130 min 


1918 - Gustav Klimt (John Malkovich) está internado quase à morte e recebe a visita de seu amigo Egon Schiele (Nikolai Kinsky). A partir deste momento temos uma retrospectiva da vida de Klimt desde a Exposição Universal de 1900 em Paris onde é elogiado e recebe um prêmio, enquanto que em sua terra natal, Viena, não ocorre o mesmo.

O filme trabalha com a realidade e a imaginação, retrata o que Klimt vê e pinta, através da vida fragmentada do artista, com hiatos, nos mostra as nuances, o dourado, o nu, e as mudanças que Klimt viveu e pintou. É a Europa do século XIX, a liberdade sexual e moral que aparecem em suas telas eróticas, mas que contradizem a arte oficial que além do mais é anti-semita.



Uma vida voltada para a arte, as mulheres, o amor. Teve inúmeros filhos com várias mulheres. Sua musa e modelo preferida Emilie Floger (Veronica Verres) por quem tem um amor estranho, ele não se relaciona sexualmente com ela. Serena Lederer (Sandra Ceccarelli) que também está no filme foi retratada por ele.

Aqui no blog já falei de Gustav Klimt no livro A Dama Dourada retrato de Adele Bloch-Bauer que também foi retratada por Klimt.

Raoul Ruiz nasceu em 1941 em Puerto Montt, Chile e faleceu em 2011 em Paris, França

Gustav Klimt nasceu em 1862 em Baumgarten, Áustria e faleceu em 1918 em Viena. 

FILME: DEUS NÃO ESTÁ MORTO - 2014



Direção: Harold Cronk - 2014 
Duração: 113 min
Título Original: God's not dead


 Josh (Shane Harper) vai para a faculdade e se defronta com o professor Radisson (Kevin Sorbo) que não acredita em Deus. No primeiro dia de aula Radisson pede aos alunos que escrevam numa folha Deus está morto e assinem, mas Josh não consegue fazer isto e aceita o desafio de provar que Deus existe perante a classe que será o júri. Paralelamente há outras histórias acontecendo que também se remetem ao cristianismo.

O filme é uma glorificação do cristianismo, deixando de considerar as outras religiões como se a cristã fosse a única detentora da verdade. Aliás o filme todo reproduz isto, todos são donos de uma verdade e não consideram o outro. Mas não vou falar do filme pelo viés da crença em Deus, mas sim do ser humano e dos argumentos humanos.

Josh acredita que Deus quer que alguém o defenda, só isto já é um tanto de arrogância, supor que Deus deseja isto, porque quem quer fazer isto é Josh, e de qualquer maneira  não vejo porque Deus precisaria de defesa. Quem tem que se defender é Josh, ele quer defender sua verdade, o que ele acredita, mas precisa transferir a um outro este desejo, não pode simplesmente assumir que é ele quem quer provar algo para si mesmo e para os outros.

O professor de filosofia tem um ego exacerbado, é narcisista e faz uso do poder do lugar que ocupa para intimidar. Contradiz totalmente a filosofia que é justamente a liberdade de pensar de cada um. A filosofia argumenta, discute e coloca vários pontos de vista, apesar do desejo de uma verdade absoluta a própria filosofia demonstra através de seus filósofos que se contradizem que isto não existe.

A namorada de Josh quer atender ao seu desejo e não respeita em momento algum o desejo de Josh, que é provar que sua crença é verdadeira e que Deus está vivo. Ela chega a terminar com ele usando isto como uma arma para demovê-lo. Os outros personagens também demonstram isto, como o namorado da jornalista que está com câncer, que só visa a sua vida perfeita, ou melhor, supostamente perfeita. A namorada de Radisson que se alimenta da aprovação dele para ser sentir alguém com valor, ao invés de gerá-la em si mesma. Ela apenas transfere para Jesus a mesma aprovação.

O professor é intransigente, também quer que os outros acreditem no mesmo que ele, além da arrogância intelectual que o filme mostra. Apesar da academia ser um tanto arrogante intelectualmente, o fato é que nem todos são assim.

O debate ocorrem em 03 sessões de 20min. Josh ao invés de se utilizar dos filósofos, o que seria melhor num curso de filosofia, se utiliza da ciência.Quando Nietzsche disse que Deus estava morto ele referia-se à cultura. Durante a apresentação ele fala sobre o moralismo, que sem Deus não haveria moral, e não concordo com isto, os budistas são morais. Por que temos que temer algo para sermos morais? A moral vem da cultura, da palavra.

A questão é a visão de Deus como um grande Outro, assim como os pais, o Estado, a sociedade. Deus não tira nada de ninguém, não concordo com esta posição. A religião não é uma doença, mas uma sustentação que torna possível viver para alguns.

Não sou contra a religião, ela faz parte do nosso viver para muitos, mas o filme é uma glorificação do cristianismo, onde uma muçulmana troca sua religião, onde um japonês passa a ser cristão, mas se Deus existe ele está em todas as religiões. O professor Radisson odeia Deus, por que pensa que ele levou sua mãe quando ele era criança, e eis aí um efeito nefasto da crença. Radisson não é ateu, muito pelo contrário, como se diz no filme, não se pode odiar alguém que não existe.

Quando ele sofre o acidente e está à morte Radisson aceita Jesus pelo medo da morte. A jovem com câncer também o faz pela solidão e pelo medo. O mais saudável é quando se faz isto por amor, por desejo, mas não se transfere para Deus seus desejos. Na vida nada é por acaso, inclusive as dores, tristezas, obstáculos e a morte é algo da qual ninguém escapa.

Eu pessoalmente não gosto de nada que se impõe pelo medo, pelo desejo do outro ou Outro e o que mais vi no filme foi isto, a imposição do desejo do outro. Josh sai como vencedor, ele leva a palavra de Jesus, toca o coração dos outro, e a impressão que dá é que ele estava com a verdade, mas a verdade existe? a absoluta? ou a cada um a sua verdade? Quando aceitamos isto podemos amar ao outro com todas as suas diferenças e alteridades. E não é isto que se vê no filme, onde os que pensavam diferente são os perdedores, como uma alegoria ao castigo divino.

E finalizando, quando os alunos aceitam a imposição do professor também não estão respeitando a si mesmos, e apenas agindo em seu próprio interesse, ou seja, passar no curso, e o fazem pela imposição da autoridade. A posição do professor é errada, ele não respeita em momento algum a liberdade de crença e do pensar que a filosofia defende.

Harold Cronk nasceu em 1974 em Reed City, Michigan, EUA 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FILME: MAHLER UMA PAIXÃO VIOLENTA - 1974

Direção: Ken Russell - 1974 
Duração: 115 min 
Título Original: Mahler 

Gustav Mahler foi uma maestro e compositor judeu austríaco. O filme se passa com Mahler (Robert Powell) durante uma viagem de trem retornando à Viena com sua esposa Alma (Georgina Hale).

Durante a viagem ambos se recordam do passado. Desde a infância de Mahler e seus traumas e dificuldades da infância que refletirão em suas criações mais tarde e também na sua maneira de ser, até o momento atual, assim como Alma relembra seu início de casamento com Gustav e do quanto precisou abrir mão de seus sonhos e desejos para atender ao marido e todas as suas idiossincrasias para compor.

Mahler queria captar a natureza, mas tinha que ser o silêncio dela, e Alma tinha que calar o que havia em torno, tirando os sinos das vacas, impedindo a banda de tocar, o pastor de tocar a flauta, e ainda houve do marido que não conseguiu calar as gralhas. Ele nunca valorizou as composições dela alegando que não queria que ela sofresse o que ele sofreu na sua carreira.

Ele tenta expressar em suas músicas tudo que se passa nele mesmo, é uma viagem onírica, ele sonha e compõe, é como se fosse seu inconsciente atuando na composição. Quando ele compõe a música das crianças mortas é como se ele sentisse que algo iria ocorrer, mas não tinha palavras para isto, e de fato, coincidência ou não, uma de suas filhas morreu em seguida.

Na viagem ambos tentam compreender onde foi parar o amor que os unia. Alma tem um pretendente que a aguarda, e Mahler lhe dá a liberdade de escolha dizendo que sempre se deve fazer tudo por amor, pelo coração, não pelo dever, e se recorda de tudo que fez por dever.

Os tormentos psicológicos de Mahler, a relação conturbada com Alma, que o levou inclusive a se consultar com Freud, o que não aparece no filme, sua conversão ao catolicismo, são fragmentos de sua vida que aparece no filme mas que nos dão uma boa visão de sua vida.


Ken Russell nasceu em 1927 em Southampton, Reino Unido e faleceu em 2011 em Londres. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

LIVRO: HOTEL DO LAGO - ANITA BROOKNER


Brookner, Anita. Rocco, 1986
163 páginas
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Título Original: Hotel du Lac

Edith é um escritora que escreve sob um pseudônimo romances de amor. Ela vive sozinha em Londres e tem um romance com David que é casado e alguns amigos, além de seu editor com quem as vezes sai para almoçar. Mas ela comete um erro imperdoável segundo seus amigos que a isolam e enviam para o Hotel do Lago na Suíça.

O Hotel nesta época do ano já tem poucos hóspedes, a temporada está acabando, e na maioria são mulheres desacompanhadas, cada uma com sua história. É um Hotel reconhecido por sua sobriedade e por se manter na tradição não aderindo as muitas novidades que a hotelaria vem utilizando.

Edith inicialmente se mantém distante e observando, aos poucos começa a interagir com os hóspedes, mas mesmo assim, é tudo muito superficial, o que não a impede de criar uma história para cada um, e de perceber o quanto ela acredita em seus romances e no que escreve, apesar das tentativas de seu editor para que ela se modernize, ao invés de acreditar tanto no amor romântico.

A sua estada no Hotel aos poucos a fará repensar muitas coisas, observar o feminino em suas manifestações e de aos poucos compreender o quanto estas pessoas vivem da aparência e não uma vida real. Um consumismo exagerado, manter o status social, e não se sentir ridículo perante os outros, mas quem são estes outros? são importantes? A própria Edith sempre deixou que os outros comandassem sua vida e a repreendessem, a ponto de decidirem que ela devia exilar-se.

Este crescimento permitirá que finalmente Edith tome uma decisão por si mesma e lhe desmanchará as ilusões que mascaram a vida e as pessoas.

Anita Brookner nascem em 1928 em Herne Hill, no Reino Unido.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DOCUMENTÁRIO: GOOGLE E O CÉREBRO DO MUNDO - 2013





Direção: Ben Lewis -2013
Duração: 89min 
Título original: Google and the world brain 

Trata-se de um documentário sobre a digitalização de todos os livros do mundo, projeto do Google para disponibilizar na internet o acesso a todos os livros que existem nas bibliotecas. A questão que se levanta é se isto é bom e para quem é bom?

Em 2002 a Google deu início a este ambicioso projeto que sempre foi um sonho da humanidade, começando pela Biblioteca de Alexandria, mas apesar de sua alegação de estar fazendo um bem para todos há muitos que não concordam com isto, uma vez que a Google não é uma ONG e sim uma empresa comercial. Além disto há toda a questão dos direitos autorais,e os escritores e editoras entraram com processos na justiça contra o projeto.

O documentário faz referência ao "Cérebro do mundo" de HG Wells que previu isto em 1937, e a google criou o google books. Vemos vários pontos de vista e entrevistas sobre o projeto e também sobre a ação que ocorreu em New York onde o juiz Chin considerou o projeto "injusto, inadequado e irracional."

Não sou a favor de monopólios, porém foi o Google que tornou esta digitalização em grandes quantidades possível com sua tecnologia. Como toda vez que surge algo novo e diferente sempre haverá os que serão contra e a favor, mas uma coisa é certa, a tecnologia e o virtual já não é o futuro, é o presente. O que precisa é encontrar outras formas de remunerar os escritores, como também os músicos, os atores, pois não se trata apenas de livros, mas de música e filmes que a internet disponibiliza e torna acessível a todos. Por que para aquele que está num grande centro é fácil ter acesso,mas e os que não estão nestes locais? E também em muitos países a cultura tem um preço elevado considerado em relação ao salário que se recebe. Também há a questão da preservação das obras, pois o papel sofre um desgaste natural, além de outros perigos,como por exemplo, governos radicais que queimam livros ou acidentes como terremotos, incêndios, inundações.

A internet tem possibilitado outras coisas, como por exemplo, músicos, cantores ou escritores que antes jamais teriam acesso ou poderiam publicar um livro ou ter sua música conhecida pois o crivo das gravadoras e editoras impedia isto. Hoje isto mudou, todos podem colocar um vídeo na internet ou publicar um livro, e com isto ter ou não seu talento reconhecido. E outro ponto, a disponibilização das obras esgotadas que não conseguimos mais encontrar nem em sebos. Neste ponto as editoras também se preocupam apenas com seu lucro e não com a divulgação do conhecimento, reeditando apenas os livros vendáveis e em certas quantidades.

Recentemente vi a história de uma senhora idosa que tem dificuldades de se locomover e não tem quem a leve dizer que a possibilidade de ter acesso pela internet a várias opções culturais mudou sua vida. Isto também deve ser pensado. Eu pessoalmente ainda gosto muito do livro impresso, gosto de levá-lo comigo, de cheirá-lo, virar páginas, mas não deixo de pensar naqueles que moram em locais onde não há livrarias ou há apenas uma que nunca possuirá todos os títulos que uma mega livraria possui. Há o aspecto ecológico, livros são feitos de papel e papel é feito de madeira - árvores.

Os direitos autorais devem ser respeitados, mas uma obra de arte é feita para o público e tem que estar acessível ao maior número possível de pessoas, de qualquer poder aquisitivo. Volto a repetir, o que é necessário é encontrar novas formas de remunerar os criadores, até porque eles vivem disto e senão ganharem seu sustento irão parar de produzir também. Como as editoras, como os provedores, como os que investem em tecnologia.

É fantástico poder ter acesso a um livro que está lá num mosteiro na Espanha que de outra forma muitos não teriam, mas também é fantástico essas pessoas que escrevem, compõem, tem ideias, criam algo, e elas devem ser incentivadas, reconhecidas e ganhar sua vida com isto. É fantástico estas pessoas que desenvolvem tecnologias com as quais não podíamos nem sonhar há 30 anos atrás. Quando eu era criança o computador era algo inimaginável, e pense então o que era um tablet, um notebook, um micro em casa.

Quanto a privacidade infelizmente é um preço que estamos pagando, hoje quando se instala um telefone em casa passamos a receber chamadas de vários fornecedores com os quais nunca tivemos contato. É irritante, concordo, ainda mais que é repetitivo, mesmo se dizendo Não. Este é outro ponto que precisa ser melhor avaliado e tem que surgir novas regras para isto. A lei sempre vem depois dos fatos.

O diálogo existe para isto, por isto este documentário é importante, ele mostra vários pontos de vistas, e nos deixa a opção de pensar a respeito.


Ben Lewis

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FILME: LIÇÕES DE VIDA - 2006


Direção: Jeremy Brock - 2006
Duração: 99 min
Título original: Driving Lessons

Ben (Rupert Grint) vive com seus pais em Londres e é muito retraído. Sua mãe (Laura Linney)  é uma imensa sombra sobre ele e extremamente religiosa, ela "devora" o filho mantendo-o preso à ela com chantagens emocionais e se utilizando da religião e Deus. O pai, como normalmente ocorre com uma mulher assim, que visa apenas seu desejo e não o dos outros, é quieto e não consegue intervir, apesar de compreender o filho.

Mas as coisas mudarão quando Ben incentivado pela mãe procura um trabalho e acaba indo trabalhar para Evie (Julie Walters) , uma atriz aposentada que é extrovertida, fala palavrões, adora seu jardim, e vive citando Shakespeare.

Quando Evie decide ir acampar e a mãe de Ben não permite ela apronta, e fingindo engolir a chave do carro acaba forçando o garoto a passar a noite ali. Em seguida ela lhe diz que tem uma doença terminal e que deseja ir a Edimburgo para um recital, talvez o último de sua vida, o que comove Ben que decide levá-la. Para o garoto que foi reprovado na direção ao bater o carro no exame e que tinha aulas com sua mãe, ele de repente se vê ao volante dirigindo em estradas.

Este ato de dirigir o carro é uma perfeita metáfora com o que acontece com sua vida a partir de agora, ou seja, ele começa a tomar a direção dela, o que antes era impedido pela mãe que a tudo domina e determina.

O filme retrata a passagem da adolescência para a maturidade, o corte com a mãe e a conquista da autonomia. Porém são muitos os que nunca conseguem dar este passo e ficam para sempre presos na culpa, na chantagem, e sem a luz do sol encoberto pela sombra da mãe. É necessário coragem para romper, o que não significa não amar a mãe. Ben rompe, mas ele está lá ao lado dela no hospital, mesmo magoado com o fato dela ter deixado seu pai por outro homem e colocar isto como uma decisão de Deus, o que é um absurdo mínimo.

Ao final é bonito ver o reencontro de Ben com o pai e poder ouvi-lo dizer que não era um covarde, mas ele tem valores que tentou manter, mas apesar disto ele também soube romper, uma vez que a decisão do divórcio partiu dele.
Jeremy Brock nasceu em 1959 em Bruxelas, Bélgica. 

FILME: VIAGEM A DARJEELING - 2007


Direção: Wes Anderson - 2007 
Duração: 91 min
Titulo Original: The Darjeeling Limited 

Três irmãos se encontram após um ano sem se falarem,desde a morte do pai, para fazer uma viagem a Darjeeling juntos numa tentativa de se reaproximarem, mas também de encontrarem a mãe.

Francis (Owen Wilson) é quem toma as rédeas do encontro que considera como uma jornada espiritual, ele também é controlador e sente ciúmes de seu irmão Peter(Adrien Brody)  por estar com as coisas do pai. Este por sua vez enfrenta uma situação complicada, pois Alice sua mulher está grávida e ele não deseja ser pai. Jack (Jason Schwartzman) tem problemas com sua namorada e controla seus recados na secretária eletrônica.

Francis está machucado no rosto, ele sofreu um acidente com sua moto. Os três desconfiam um do outro, mas o desejo de se aproximarem é latente, para isto ficam contando segredos um ao outro, mas pedindo que não conte para o que não ouviu,o que obviamente acaba acontecendo.



Durante a viagem surgirão situações inusitadas,como Peter comprando uma serpente extremamente venenosa que escapa no trem, uma briga de Francis e Peter com Jack usando spray de pimenta para separá-los acaba resultando na expulsão do trio do trem. É neste momento que talvez o que Francis chamou de jornada espiritual ou de autoconhecimento tem um início, ou pelo menos resulta em algo para eles.



Em sua caminhada eles vêem três garotos em apuros num rio e pulam na água para salvá-los, porém Peter não consegue salvar o seu. Este episódio irá aproximar os irmãos e também será uma experiência para Peter que não estava aceitando ser pai ver outro pai chorar seu filho morto, e ao mesmo tempo pegar nos braços um bebê. Durante o enterro os três se lembram do enterro do pai e de que a mãe não foi.

Então partem em busca da mãe (Anjelica Huston), mesmo tendo sido avisados de que não era para ir, pois ela estava muito ocupada e havia a ameaça de um tigre nas redondezas do mosteiro onde ela se encontra. São três garotos neste momento querendo sua mãe, mas terão que enfrentar a realidade, que cresceram e ela também tem seus desejos.
Wes Anderson nasceu em 1969 em Houston, Texas, EUA

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FILME: CHOCOLATE - 2000


Direção: Lasse Hallström - 2000
Duração: 121 min
Título Original: Chocolat

Vianne Rocher (Juliette Binoche) e sua filha de seis anos Anouk chegam a uma pequena cidade da França onde o povo segue os desejos do Conde Reynaud (Alfred Molina) que preza a moralidade e a igreja fazendo com que todos ali se comportem de forma prevista e que não destoe disto.

Vianne aluga uma antiga confeitaria de Armande (Judi Dench) e abre uma chocolateria na quaresma o que deixa a todos indignados. Mas ela também é mãe solteira e o Conde se aproveita disto tudo para desmoraliza-la e fazer com que vá embora.




Os chocolates que Vianne prepara são especiais, ela conhece segredos e se utiliza de uma roda onde pede às pessoas para dizer o que vêem quando ela gira para então baseada no imaginário de cada um saber qual o chocolate preferido daquela pessoa.



Desta forma ela conquista algumas amizades, mas principalmente de Josephine (Lena Olin) que é considerada louca por todos na cidade que já não suporta o marido Serge (Peter Stormare)que a agride. Ela foge e pede refúgio à Vianne que a acolhe o que irá mudar sua vida. Outros também se encantam com os chocolates e pelas transformações que isto lhes traz em suas vidas, mas o Conde não desiste e como detém o poder na cidade obriga o padre a fazer sermões inflamados contra a chocolateira.

Mas mal sabe ele que ainda estava por vir o pior, chega à cidade que fica a beira de um rio vários nômades que viajam em seus barcos, cujo líder é Roux (Johnny Deep). O conde então lança uma campanha para que eles partam deixando claro que não são bem vindos.



O que ele não esperava é que aos poucos Vianne irá conquistando as pessoas, inclusive as mais próximas a ele, e isto trará grandes mudanças na cidade.

Os preconceitos e o medo das mudanças, o estranho e o estrangeiro, o pecado, e um conde tirano que gosta de comandar a tudo e a todos, eis os ingredientes, mas quando se acrescenta chocolate, pimenta, nozes e outros itens nesta mistura algo acontece, e o prazer de viver aparece mudando as pessoas, ou melhor, libertando o que há de melhor dentro delas e com isto permitindo que possam sentir prazer sem culpa, possam mudar suas vidas, possam construir algo.
Lasse Hallström nasceu em 1946 em Estocolmo, Suécia. 

FILME: A ÚLTIMA GRANDE LIÇÃO - 1999


Direção: Mick Jackson - 1999
Duração: 89 min 
Título Original: Twesdays with Morrie 

Hoje assisti ao filme sobre o livro que postei esta semana. Fiquei emocionada ao assistir.

Morrie Schwartz (Jack Lemmon) sofre de uma doença fatal e Mitch Albom (Hank Azaria) que foi seu aluno e atualmente leva uma vida apressada, sem tempo para nada, quando o vê na TV lembra-se da promessa que lhe fez quando se formou, de sempre manter contato. Ele então resolve procurar seu professor, ou melhor, treinador, como ele o chama.

Deste encontro nasce o livro A última grande lição, onde Morrie irá falar de que aprender a morrer é aprender a viver, e sobre família, amor, medos, casamento. Mitch namora Janine (Wendy Moniz), mas não consegue se decidir a assumir um compromisso com ela apesar de amá-la, por ter medo de se entregar.

O livro é ótimo e o filme emociona. São verdades que temos muita dificuldade de colocar em prática, sempre ocupados com o dia a dia, com ganhar dinheiro, com possuir coisas, esquecemos que a vida é muito mais do que isto, e que ser feliz não depende destas coisas.

Também sou envolvida por este sistema que nos rodeia e muitas vezes fico pensando em como sair disto tudo, mas aos poucos venho conseguindo fazer isto, dar mais valor a coisas que tem menos valor perante a sociedade que vivemos, mas que são mais importantes para a vida. O medo, nossa grande inimigo, que se transforma num obstáculo para tantas coisas, mas vale a pena se deixar levar pelo medo? o que levamos da vida? este medo nos protege da morte? Morrie aconselha e ter um passarinho no ombro que nos lembre diariamente que vamos morrer. Assim podemos olhar a vida com outros olhos.

Estamos saturados de livros e filmes de auto-ajuda, mas este se diferencia, até porque Morrie não é um adepto de auto-ajuda, mas sim da vida e do viver. E suas lições são sobre o que é possível.


Mick Jackson nasceu em 1943 em Grays, Reino Unido 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

FILME: LOURDES - 2009


Direção: Jessica Hausner - 2009
Duração: 96min 

Lourdes é um santuário na França nos Pireneus onde a Nossa Senhora apareceu para Bernadete na gruta. As peregrinações ao local são constantes em busca de uma cura milagrosa e também de conforto espiritual.

Christine (Sylvie Testud) é jovem e  sofre de uma doença degenerativa e participa de viagens organizadas pelos obreiros da Cruz de Malta e voluntários. Desta vez ela vai para Lourdes. Não consegue se mover, utiliza uma cadeira de rodas e depende dos outros para tudo, comer, beber, se locomover, vestir. Ela não consegue nem mover as mãos. Nesta viagem ela reencontra um rapaz da Cruz de Malta (Bruno Todeschini) que conheceu em outra viagem, para Roma. Christine está sob os cuidados de uma voluntária, Maria (Léa Seydoux) que também se interessa pelo mesmo rapaz da Cruz de Malta.




Acompanhamos o olhar de Christine por Lourdes, ela fala muito pouco e não é devota, apenas participa de tudo. Ela gostaria de ter uma vida "normal" e olha para os que podem andar, comer sozinhos com uma certa inveja. Sempre que a olham ou falam com ela dá um pequeno sorriso. Ela também será ajudada por Madame Hartl (Gilette Barbier) que não está ali em busca de uma cura, mas para preencher o vazio de sua vida, a solidão e por isto deseja ser útil e passa a cuidar de Christine e a rezar por sua cura.

O grupo com o qual Christine viaja é liderado por Cécile (Elina Lowensohn) que é metódica e séria. Ela diz que ali não se cura o corpo, mas sim a alma.

Em um dado momento Christine conseguirá mover suas mãos e os braços até levantar-se e andar. Esta cura surtirá inveja dos que não foram curados e questões sobre porque ela e não um outro. Ela terá que ser avaliada por uma junta médica que lhe dirá que esta recuperação pode não ser permanente, que pode ocorrer em sua doença. Mas Christine está feliz, ela pode então acompanhar o grupo ao passeio externo do qual estava excluída por ser cadeirante, e passa a ter uma esperança com o jovem da Cruz de Malta, com o qual dançará na festa de despedida. Mas ali ela cairá, e apesar de se levantar e ficar parada um pouco, assim que o jovem se vai, ela se senta novamente na cadeira de rodas e se deixa levar por Madame  Hartl.

O filme nos mostra o que é Lourdes ou qualquer outro santuário onde as pessoas movidas pelo desespero, pela doença, pela solidão vão em busca de um milagre. Mas Deus escolhe os que cura, e seus desígnios são insondáveis. Por que justamente Christine que nem devota é? A esperança de todos ali é encontrar a felicidade, mas esquecem que ela é efêmera e vai e volta. Buscam algo que na verdade está dentro de cada um, a liberdade, mas a maioria fica presa a uma cadeira de rodas ou a uma muleta.

Vemos as pessoas no filme que falam em Deus, rezam, esperam, mas também estão invejando, comentando, falando do outro, criticando, competindo. Sentem raiva e ciúmes. Então temos o palco do ser humano diante dos olhos. Eles não crêem com a fé, eles perguntam o que devem fazer para obter um milagre, para ter sucesso. Então acreditam que aquele que mais rezou, mais pediu é que deveria ser beneficiado com o milagre, como a menina na cadeira de rodas cuja mãe vai todos os anos à Lourdes em busca da cura, e não compreendem que Christine que foi ali para poder sair de casa, viajar é quem recebe a cura. Por outro lado Christine sabe que esta cura pode não durar.

Pessoalmente ainda vou um pouco mais longe, saindo da questão religiosa e da fé, Christine que fala tão pouco durante o filme vai á confissão e diz ao padre que sente raiva, diz o que deseja, e a palavra também tem o poder da cura. Além disto há o desejo e o amor, ela gostaria de poder estar ao lado do rapaz, de ser "normal" acreditando que assim poderia conquistá-lo, como vê Maria fazendo. Esta por sua vez ao perceber o interesse dos dois se afasta de Christine, não lhe dando mais a atenção devida, na hora de se alimentar ou a deixando parada num local na cadeira e indo embora.

Christine traz a força de dentro de si mesma para se levantar, do divino que tem em si, ela não espera uma cura de fora, e talvez esta seja a diferença.

Jessica Hausner nasceu em 1962 em Viena - Áustria 

LIVRO: A CAMINHADA - ou o homem sem passado - ROBERTO NICOLATO


Nicolato, Roberto. 1ª ed. Blanche, 2013
112 páginas

Eu procurava um livro sobre o Caminho Andino, mas estava difícil encontrar algo que não fosse turismo, mas sim uma experiência vivida neste caminho e então deparei com este livro escrito por um professor que atualmente vive em Curitiba - PR.

O livro descreve a experiência  e caminhada pela Bolívia e Peru terminando com a trilha Inca e Machu Picchu de Júlio Saboia. É um livro diferente e do qual gostei muito. Há toda uma experiência do inconsciente nesta jornada em busca de seu passado e da resolução de suas questões atuais. É um crescimento, uma busca de si mesmo se libertando do desejo do Outro e se constituindo como sujeito.

Ele durante sua jornada terá a companhia de Glória, Lídia e Daniel, além do guia Juan. Não vou fazer comentários aqui para não tirar a interpretação de cada um que ler o livro.

Ele parte por Corumbá com o trem da morte, visita o sítio arqueológico de Tiahuanaco na Bolívia, Puno, Cusco, o lago Titicaca, mas será na trilha andina que ele finalmente se encontrará consigo mesmo.

Também me encantei com o fato dele falar sobre um seminário, e não sei explicar porque havia algo de familiar, até que podemos identificá-lo, é Caraça, em Minas Gerais, também um local sagrado.

Um pequeno livro encantador, que nos ensina muito e nos mostra como o inconsciente atua. Apesar de ser ficção, é real, uma vez que a vida é um romance ficcional que cada um de nós escreve e vive.