quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FILME: ATRÁS DA PORTA - 2012


Direção: István Szabó - 2012
Duração: 97 min
Título Original: The door

Baseado no livro de Magda Szabó (não tem parentesco com o diretor) 

Magda ( Martina Gedeck ) é uma escritora casada que vive na Hungria, ela e o marido acabam de se mudar para uma casa onde ela pretende se dedicar totalmente à escrita. Para isto procura por Emerenc ( Helen Mirren) e a contrata para cuidar da casa. Porém, a relação entre as duas ultrapassa o profissional. 



Emerenc vive numa casa onde não abre a porta para ninguém, nem mesmo para seus parentes que costuma receber no jardim. Isto desperta a curiosidade de todos. Além disto ela tem uma bela porcelana que usa nestes encontros e também para levar quitutes que faz para Magda e seu marido. Emerenc é temida pelos outros por ter muitas vezes um comportamento agressivo. Ela carrega traumas de guerra que se refletem em muitas de suas atitudes e comportamentos. É uma pessoa estranha, mas como ela mesma o diz, uma estranheza que nunca prejudicou ninguém. 



Aos poucos ela passa a confiar em Magda e a gostar muito dela, e vai lhe contando sua história e um dia devido um temporal dos quais Emerenc foge com muito medo, ela permite que ela entre em sua casa desde que jure que nunca contará a ninguém o porque de manter sua porta sempre fechada. Quando Emerenc adoece Magda se verá numa situação extrema, trair a confiança dela e lhe salvar a vida, ou respeitar o desejo dela de morrer sozinha dentro de sua casa. Emerenc não tem medo da morte, e diz "que é preciso aprender a matar. Deus mata!". 

A questão do limite de até onde podemos interferir na vida ou morte do outro. A questão do mistério que se cria em torno de uma pessoa que decide manter uma privacidade absoluta, que não abre a porta para ninguém entrar em sua casa. Até onde podemos ultrapassar estes limites do outro? mesmo diante de um caso como doença? São questões que o filme nos coloca. 


István Szabó nasceu em 1938 em Budapeste, Hungria 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

FILME: UMA LONGA VIAGEM - 2013


Direção: Jonathan Teplitzky - 2013
Duração: 116 min
Tíítulo Original: The Railway Man

Adaptação da autobiografia de mesmo nome de Eric Lomax.

Um excelente filme. Conta a história real de Eric Lomax (Jeremy Irvine/Colin Firth) que durante a Segunda Guerra Mundial foi capturado pelos japoneses em Cingapura e obrigado a fazer trabalhos forçados na construção da ferrovia da Birmânia. 

Eric sobrevive e volta para a Inglaterra, porém o que se enfoca aqui é como ele está e seus amigos anos depois do fim da guerra, onde os traumas ainda atuam e o silêncio os perpetua. 

O grupo de soldados ao qual Eric pertencia eram engenheiros e por isto foram escolhidos para a construção da Ferrovia, mas foram poupados dos piores trabalhos, porque eles eram necessários devido seu conhecimento. Só que eles desejam fugir, e também constroem um rádio receptor para ouvir as notícias. Quando os japoneses apreendem o rádio começa o inferno deles. Eric se entregará como o responsável e será o que mais sofrerá nas mãos dos japoneses sendo torturado pelo Kempeitai - a polícia militar do Exército Imperial Japonês.


Anos depois Eric conhece Patti (Nicole Kidman) e se apaixona, eles se casam, porém ela logo descobrirá que há algo terrível com ele, que sofre de pesadelos, se ausenta, se torna agressivo. Patti procura Finlay ( Stellan Skarsgard) conhecido como tio, do grupo dos ex-combatentes que se reúne todas as semanas. Ele lhe conta sobre a história de Eric, porém ninguém sabe o que aconteceu quando ele foi levado por Nagase (Tanroh Ishida/Hiroyuki Sanada) para um quarto e também lhe fala que o torturador de Eric está vivo e lhe mostra um jornal. 

A história de Eric é importante no sentido de mostrar e falar dos traumas pós-guerra, onde não há heróis, não há triunfo, mas marcas que não se apagam e destroem vidas. Como diz Finlay - Não podemos amar, Não podemos dormir. Quando Patti lhe fala que Eric precisa falar sobre o que ocorreu no quarto ele responde: há coisas que são tão vergonhosas, humilhantes que não tenho certeza se alguma vez poderemos falar sobre elas, especialmente para que alguém que se ama. 

Ao saber que seu torturador está vivo Eric diz que não irá atrás, agora é um homem casado, mas Finlay lhe mostra que ele está punindo sua esposa com a maneira de tratá-la. Eric diz que durante anos ficou imaginando que tinha encontrado ele, fazendo ele implorar, gritar, me alimentei adormecendo sob esses sons. Após o suicídio de Finlay ele se decide a ir atrás de Nagase que agora trabalha como guia de turismo no museu sobre a estrada de ferro e a guerra. 

O encontro dos dois a sós coloca em palavras o que ambos sentiram e passaram. Eric entrará no quarto onde foi torturado e se recordará de tudo, irá interrogar seu agressor da mesma forma como foi feito com ele. Mas a questão aqui é que a guerra é algo que desvia as pessoas de sua conduta normal, é algo fora do contexto e que leva cada um a acreditar em algo, em seu país, e a ver o outro como um inimigo. Nagase também poderá falar para Eric tudo que sentiu e porque está ali trabalhando no museu, ele se culpa, sente remorsos e tenta com isto uma reconciliação.



É interessante pensar que as guerras acabam, e os países se reconciliam, mas são os que estiveram na guerra, os que sofreram suas consequências, os que acreditaram num causa que carregam os traumas psíquicos disto e irão transmiti-los aos seus descendentes. Geralmente há uma negação no pós-guerra, ninguém quer falar dela, querem esquecer, e isto produz um recalcamento que irá explodir a frente com o retorno de tudo, transformando isto num círculo sem fim. O que aconteceu com Eric e Nagase é um exemplo de força e coragem, onde dois homens enfrentam suas culpas e seus traumas, sua dor, sua vergonha e humilhação, e se redimem um diante do outro, justamente a vítima e o agressor, ali se transformam em homens, em seres humanos dignos. 

Eric diz que nunca falou sobre o que aconteceu, porque ninguém acreditaria. Nagase responde que eles também não. Mas ali, os dois podiam falar e ambos conheciam a verdade. Eric perdoou seu torturador, Nagase se redimiu, e ambos se tornaram amigos até a morte. Isto foi possível porque o que muitos não conseguem ver é que o agressor em determinadas circunstâncias é um ser humano que em outra situação jamais faria o que fez. Esta é a tragédia da guerra. Obviamente há os criminosos de guerra, os que tomaram as decisões, e há aqueles como os nazistas que acreditavam que fizeram o certo e em momento algum se arrependeram ou tinham remorsos. Mas quando há a possibilidade do confronto entre o agressor e a vítima  e o primeiro sabe que errou, carrega uma culpa, um remorso, reconhece o que fez, e se arrepende, aqui temos uma oportunidade de colocar em palavras todo o ódio, a dor, a vingança e a culpa, e isto muda tudo. 

Eric carregou as palavras dos japoneses que lhes disseram que não eram homens, eram covardes, pois eles teriam se matado para preservar sua honra ao invés de se entregarem. Aqui há uma questão cultural também, mas claro que estes soldados britânicos foram marcados por estas palavras, porém, Nagase também não se matou quando os americanos os capturaram, e reconhece que Eric suportou o que ele nunca suportaria, que ele jamais se rendeu. 

Jonathan Teplitzky nasceu em Sidney, Austrália. 

Eric Lomax e Nagase

Eric Lomax
Nagase
Patti Lomax 

domingo, 14 de dezembro de 2014

FILME: MORTE NO AMOR - 2008



Direção: Boaz Yakin - 2008
Duração: 97 min 

Título original: Death in love 

O Filme tem algumas cenas fortes, e no começo é confuso, porém deve ser visto não como uma sequência, pois trata-se de mostrar a herança psíquica nos filhos de pessoas que passaram pelo horror dos campos de concentração. 

Uma mulher judia (Jacqueline Bisset) que esteve presa num campo de concentração é mãe de dois filhos (Josh Lucas e Lukas Haas), ambos problemáticos e com questões sérias, como o mais mais jovem que não consegue se afastar de casa, é totalmente dependente e se agarra à mãe, tem problemas de alimentação e é autodestrutivo, inclusive fisicamente. O mais velho tem questões sexuais e de amor. 

A Mãe quando jovem foi deixada para trás por seus pais que fugiram. A oportunidade para fugir era apenas para dois, e o pai decide que é a esposa e a filha, mas a esposa se nega a ir sem ele, e então deixam a filha, que acabara presa num campo de concentração. Ela é uma das escolhidas para participar do programa de experiências médicas, e as cenas do filme são chocantes. Ela está aterrorizada enquanto caminha para a sala onde o médico a espera, e quando entra ela sorri para ele que lhe pergunta porque está sorrindo ao que responde que nunca viu um homem tão bonito. 

O médico se envolve com ela e a coloca sob sua proteção. Ela se apaixona por ele, mas aqui temos uma questão que é a do amor ao agressor, a introjeção do mesmo, o que é muito bem mostrado no filme O porteiro da Noite que já postei no blog. Não é um amor, é doença. Mas ela nunca mais o esquecerá. 

Anos depois quando seus filhos estão adultos vemos que ela continua tendo crises sérias, ela ficou marcada e traumatizada, e toda esta herança psíquica passou para seus dois filhos. O filho mais velho gosta do sexo violento, com sadomasoquismo, mas está perdido em sua vida, diz que na verdade não temos nada para dar ao outro, no que ele tem razão, mas não consegue construir nada também. Ele não consegue amar. Nenhum deles consegue amar, a começar pela mãe que se ilude ao pensar que sempre esteve apaixonada por seu agressor. Ela nunca se libertou do horror que viveu, e para sobreviver se entregou a isto sem mesmo se dar conta. O nazista também se envolve, e está atras dela, ambos não conseguem sair desta relação patológica. 

O filme O porteiro da Noite é melhor, mas neste aqui temos algo além, que é o que se passa aos filhos, que ignoram esta parte da história da mãe, mas mesmo assim sofrem as consequências. 

Para muitos o filme pode parecer confuso, chato, com excesso de cenas de sexo, e sem muito sentido. Mas se levarmos em conta o trauma de um campo de concentração e das marcas que ele deixa, e de como isto reflete na vida da pessoa e de seus descendentes, o filme nos surge de outra forma. É preciso levar em conta o inconsciente, e a sexualidade, a pele e o corpo. A mãe passa pelas experiências do médico, mesmo se tornando a "amante" dele, o que ele lhe dá em troca é comida e roupas, mas ela não passa de mais um objeto de experiências dele assim mesmo. Ela também viu o que se passava ali, os gritos, o medo. Ela foi abandonada pelos pais, e depois o médico quando foge na chegada dos russos. Experiências com o corpo e sexo, é isto que ela viveu no campo, e ficou marcada, mesmo que achando que está apaixonada, devido a introjeção do agressor. Não fosse assim, o que seriam as crises que ela tem e que aparecem durante o filme? A marca está no corpo, assim como seu número no campo, onde não tem nome, nem mesmo para o médico que a chama pelo número. 

Ele vai e volta no tempo, muda de cenários e situações, como se fossem as marcas, os traços do inconsciente. 

Boaz Yakin nasceu em 1966 em New York, EUA 

FILME: O CLUBE DE LEITURA DE JANE AUSTEN - 2007


Direção: Robin Swicord - 2007
Duração: 106 min
Título Original: The Jane Austen Book Club

Adaptação do romance homônimo de Karen Joy Fowler

Um filme para relaxar. Cinco mulheres e um homem se encontram para falar sobre os livros de Jane Austen. Cada um deles tem suas questões pessoais e se utilizam da leitura para tentar encontrar respostas ou soluções para seus problemas. Bernadete (Kathy Baker)  é quem funda o clube de leitura após conhecer Prudie (Emily Blunt), uma professora de francês que se decepciona quando o marido Dean (Marc Blucas) lhe avisa que não irão mais a Paris, mas que ele ficará fora alguns dias devido um jogo. 
Jocelyn (Maria Bello)  é uma criadora de cachorros e acaba de perder seu fiel companheiro, o cachorro, para o qual faz um enterro. Sylvia (Amy Brenneman) fica com ela neste momento delicado, e seu marido Daniel (Jimmy Smits) vai embora. Eles tem uma filha, Allegra (Maggie Grace) que é homossexual. Passado uns dias Daniel avisa à Sylvia que quer se separar porque se apaixonou por outra mulher. Allegra retorna para casa. 
Jocelyn conhece Grigg (Hugh Dancy) e o convida para o clube da leitura pensando que ele pode se interessar por Sylvia, mas ele se apaixona por ela. 

Aos poucos, a cada livro lido, a cada encontro vamos vendo as coisas se acertarem, e cada um encontrar uma forma de ser feliz. 

Filme fraco, as passagens sobre os livros são rápidas, mescladas pelas questões pessoais, que também são pouco desenvolvidas, mas serve como introdução a escritora Jane Austen e não deixa de ser uma ideia boa, esta de forma um clube de leitura para discutir além dos livros as questões pessoais baseado no que se leu no livro. 
Robin Swicord nasceu em 1952 em Columbia, Carolina do Sul, EUA. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

PERFIL: MULHERES - AUNG SAN SUU KYI



Aung San Suu Kyi nasceu em 19 de junho de 1945 em Rangum, Birmânia/ Mianmar. Seu pai Aung San, herói da independência do país que era uma colônia Britânica, foi assassinado um pouco antes da independência, quando ela tinha dois anos.

Suu Kyi com a foto de seu pai ao fundo

Suu foi para a Inglaterra quando jovem para estudar e conheceu o Prof. Michael Aris em Oxford, especialista sobre os povos do Tibete, Butão e do Himalaia, com quem se casou e teve dois filhos, Alexander e Kim. 

Suu e Michael 

Suu vivia em Oxford até em 1988 receber um telefonema sobre sua mãe que sofreu um AVC. Ela então volta ao seu país de origem que passava justamente por grandes manifestações do estudantes em prol da democracia e que foram massacrados pelo governo militar que assumiu o governo após um golpe. O General Ne Win estava no poder há 26 anos. Suu transforma-se no bastião da independência pois é filha do herói Aung San e ela adere ao movimento falando ao público sobre a democracia e os direitos humanos, mas sempre de forma pacífica. Suu é uma grande admiradora de Gandhi. 


Ne Win renuncia mas isto não diminuiu em nada o massacre, os protestos são brutalmente reprimidos. Uma junta militar assume e é formando um novo partido de oposição o LND - Liga Nacional pela Democracia, que Suu apoia incondicionalmente. Ela percorre o país falando a todos, quando retorna sua mãe acaba de morrer. É quando ela teve que tomar uma decisão, e decide ficar no país. Teve todo o apoio de seu marido e filhos, apesar do sofrimento da separação, uma vez que os militares lhes tiraram os vistos de permanência no país.

O povo exige eleições. Em 1989 Suu é presa pela primeira vez para que não possa participar das eleições, porém seu partido ganha a maior parte das cadeiras e a junta militar se recusa a reconhecer os vencedores que são presos.

Em 1990 o Parlamento Europeu lhe concede o prêmio Sakharov de liberdade de pensamento e em 1991 ganha o Nobel da Paz que foi recebido por seu marido e filhos, uma vez que Suu estava em prisão domiciliar em seu país. Em 1995 lhe concedem liberdade como demonstração de democratização, mas isto durará pouco. Em 1995 concedem o visto para Michael e seus filhos a visitarem, será a última vez que verá seu marido. Em 27 de março de 1999 ele morreu de câncer sem revê-la. Foi uma decisão difícil, os militares acreditavam que ela iria para a Inglaterra ver o marido e não concederam o visto para ele vir, mas ela não recuou, sabia que se fosse nunca mais lhe permitiriam entrar no país.

O regime queria chegar as eleições de 2010 sem entraves. Suu era a resistência pacífica, mas firme. Ela tinha uma força de aço. O mundo todo se movimentava para conseguir sua libertação. Em 19 de junho de 2010 ela completou 65 anos ainda em prisão. Nesta ocasião o presidente americano Barack Obama fez um apelo ao governo para que a libertassem.

Ela foi finalmente libertada em 13 de novembro de 2010. Em 2011 encontrou-se com o presidente Thein Sein que iniciou o processo de abertura do país e libertação dos presos políticos. Em 2012 ela foi eleita para a câmara baixa do parlamento birmanês. Porém a luta pela democracia continua.

Michael Aris em Oxford 


Uma mulher admirável, afetuosa mas firme como o aço, que nunca teve medo.

Referências: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aung_San_Suu_Kyi

Ela escreveu o livro: Viver sem medo e outros ensaios que pretendo ler e postar aqui no Blob. Já postei o filme Além da Liberdade que é sobre ela, e há também o filme Muito além de Rangun de John Boorman, que não é especificamente sobre Suu, mas onde ela aparece e fala de seu país.

domingo, 7 de dezembro de 2014

FILME: ALÉM DA LIBERDADE - 2011


Direção: Luc Besson - 2011 
Duração: 132 min
Título Original: The Lady 

Uma cinebiografia de Aung San Suu Kyi 

País: Birmânia - Mianmar  

Suu Kyi (Michele Yeoh) é filha de um herói da independência da Birmânia (hoje Mianmar) que foi assassinado quando ela tinha dois anos. Quando jovem foi morar na Inglaterra e se casou com Michael Aris (David Thewlis) , um professor de história tibetana , do Butão e sobre os povos do Himalaia. Tiveram dois filhos Kim (Jonathan Raggett) e Alex (Jonathan Woodhouse).

Quando sua mãe tem um derrame Suu volta à Birmânia que passa por um momento de massacres de estudantes que lutam pela democracia.O país é uma ditadura militar e Suu é a candidata ideal para enfrentar os militares. Ela adere à causa e a luta e para isto permanece no país após a morte de sua mãe e só não foi assassinada porque os militares não queriam outro mártir, caso de seu pai.

Suu passará 21 anos em prisão domiciliar, sofrerá muita pressão psicológica, mas ela tem fibra de aço apesar de toda doçura que possui com seus familiares e amigos e de ser uma pacifista. Ela terá o apoio de seu marido e filhos que farão tudo para ajudá-la. Em 1991 ela ganhou o prêmio Nobel da Paz e não podendo irá recebê-lo seus filhos e marido a representaram. Em 1998 Michael recebeu o diagnóstico de um câncer e não verá nunca mais sua esposa, pois os militares não liberaram seu visto, querem forçar Suu a ir ao encontro do marido e com isto nunca mais deixá-la entrar no país. A última vez que ela viu seu marido foi no natal de 1995. Somente em 2010 ela será finalmente libertada.



Ela permaneceu em seu país como uma resistência pacífica e encorajando a busca pela democracia e dos direitos humanos.

Uma mulher forte, determinada, que não tinha medo. Precisou fazer escolhas difíceis como no caso do marido doente que ela não reviu e dos seus filhos que cresceram longe dela. É preciso acreditar numa causa e amar seu povo e país de uma forma que vai muito além do que conhecemos por amor. O apoio de seu marido me emocionou e me mostrou o quanto ele a amava, a ponto de compreender que amar não é ter alguém, mas deixar este alguém ser.



Mianmar é um país de uma riqueza cultural imensa, as cenas do filme quando ela vai para o interior do país são belíssimas e nos mostram a cultura, os rituais, as roupas, rituais, a natureza e um povo pacífico.

Uma mulher admirável e de uma força e convicção que é rara.



Luc Besson nasceu em 1959 em Paris, França 

Suu Kyi 
com Michael Aris
Na entrega do Nobel - Michael e os dois filhos Kim e Alex 

PROJETO MULHERES

Em uma homenagem a todas as mulheres, frágeis ou fortes, submissas ou emancipadas, as grandes lutadoras, as que fizeram diferença e mudaram situações e culturas, as que sofreram, as que enlouqueceram, as que se suicidaram, as que ganharam prêmios e foram reconhecidas, as que sonham e nunca conseguiram atingir seu desejo, as que estavam por trás de alguém mas que fizeram toda a diferença, as que foram grandes pensadoras mas sufocadas pelo machismo e uma sociedade patriarcal, as que pagaram um preço alto para poderem ser elas mesmas, as que deram o exemplo que muitas puderam seguir, as grandes guerreiras que lutaram por uma causa ou para defender seu país, as mulheres que inventaram, que fizeram ciência, arte, música, escreveram, dançaram, interpretaram, militaram, foram políticas, filosofas, mas também, apesar de toda a história de submissão e patriarcalismo encontramos mulheres cruéis e dominadoras em toda a história, determinadas, temíveis. 

Nunca se poderia falar de todas, mas escolhi algumas para buscar sua história e o que produziram, fizeram, o que nos deixaram. Algumas escolhi por admiração própria e outras porque tem histórias fortes e interessantes. Não me coloco um tempo para isto, mas vou aos poucos adentrar em suas vidas pelos livros, filmes, exposições, mostras, teatro, música e ir postando aqui no Blog.

Infelizmente no Brasil há uma grande carência de traduções de obras existentes em outras línguas, muitas mulheres são desconhecidas aqui. Isto também acontece em outros países como a Inglaterra, França e Estados Unidos onde poderíamos encontrar o maior número de obras, mas quando se trata de autores de países da África, América latina, Oriente, não há tradução. Acabo de ver quantas escritoras temos na América Latina, no México, no Oriente, mas não há quase nada traduzido, disponível  ou mesmo acessível, mesmo com a Internet. 

Sejam bem vindos, mulheres e homens, pois a questão não é o gênero, mas sim a humanidade! 

FILME: A CAÇA - 2012




Direção: Thomas Vinterberg - 2012
Duração: 115 min
Título Original: Jagten

Um filme que nos coloca numa posição de termos que imaginar a situação sem estarmos cientes de que Lucas não fez nada, que nos provoca a capacidade de termos empatia.Nunca devemos julgar baseados em nossos preconceitos, mas antes, dar ao outro a possibilidade de falar e se defender. 

Quem não assistiu seria melhor não ler, uma vez que vou falar do filme na íntegra. 

Lucas (Mads Mikkelsen) está passando por um momento difícil com sua ex-esposa que não lhe dá muito acesso ao filho Marcus, mas por outro lado está reconstruindo sua vida. Conseguiu um lugar de professor em uma creche e se interessou por uma mulher com quem começa um relacionamento. Tem seus amigos do grupo de caçadores. Vive numa pequena cidade pacata próximo a natureza.

Ele é o único homem na creche e as crianças gostam dele, costumam se esconder para lhe pregar sustos quando ele está chegando e ele adere à brincadeira. Como professor lhe cabe também levar as crianças ao banheiro, limpá-las e por isto muitas vezes ele fica sozinho com elas, como as professoras mulheres. 

Tudo está se encaminhando, ele está conseguindo o que deseja, que seu filho Marcus venha passar uns tempos com ele, até o dia que Klara, a filha de seu melhor amigo Theo (Thomas Bo Larsen) aparece, ela está sozinha, meio perdida. Lucas então a acompanha até em casa. Ela tem uma mania, andar pelas listras que vê na calçada. Klara é uma linda menininha, mas que não recebe muita atenção de seus pais, aparece sempre sozinha, e ela tem um irmão adolescente que lhe mostra num tablet um homem com o pênis ereto. Ela fica meio sem compreender direito isto, mas de alguma maneira isto a marca. 

Ela se afeiçoa à Lucas e gosta muito da cachorra dele, Fanny, e faz um coração para lhe dar de presente e no meio de uma brincadeira na creche ela se lança sobre ele e lhe dá um beijinho nos lábios. Lucas lhe diz que estes beijinhos são só para papai e mamãe e quando ele recebe o presente o devolve à Klara dizendo que ela poderia dá-lo à outra pessoa. Lucas agiu corretamente, mas Klara se ressentiu, se sentiu novamente rejeitada, e em sua tristeza no final do dia quando a diretora da creche Grethe (Susse Wold) a vê no escuro ela acaba lhe dizendo que não ama Lucas, que ele tem um pipi. A diretora ri e lhe diz, sim como seu pai e irmão e todos os homens, mas Klara responde, mas o dele é duro... como um pau. O que seu irmão havia dito no dia que lhe mostrou a cena no tablet. 

A partir disto a diretora ficará inquieta, o que é absolutamente correto. Ela fala para Lucas que uma das crianças o acusou de abuso, mas não diz quem, não o que foi, não lhe dando nenhuma oportunidade de compreender, se explicar e se defender. Ela o manda para casa enquanto procedem as investigações. Grethe então chama em auxílio um homem, que me parece ser um psicólogo, e aí ocorre o erro, porque ao falar com Klara e não obter respostas, as que ele queria ouvir, ele coloca palavras na boca da criança fazendo perguntas que induziram a criança a responder. Isto ao meu ver não é o melhor procedimento. 

Os adultos acreditam que a criança não mente, e aí temos uma ilusão pois crianças mentem sim. Ver a criança como a inocência pura, ignorando a sexualidade que ela possui, e que ela não é cruel é o desejo do adulto que se esquece, que recalca sua própria infância. Klara ao se sentir rejeitada usou de algo que ela sabia de alguma forma que era errado, mas ao mesmo tempo sem saber exatamente o que era. É como a criança que ouve um palavrão e o repete e é repreendida pelos pais que o falaram, dizendo que ela não pode falar. Por outro lado, quando uma criança diz algo assim é óbvio que o adulto vai ficar extremamente preocupado e terá que fazer algo. Em quem acreditar? o que faríamos no lugar de Grethe? da mãe de Klara? do pai de Klara? 

Quando Klara diz que Lucas não fez nada ninguém a escuta, acreditam que ela recalcou, que esqueceu e que se trata de uma reação da criança ao ocorrido, o que realmente pode acontecer. 

A partir do veredicto do psicólogo Grethe chama os pais de Klara, conta para sua mãe o que aconteceu e depois alerta a todos os pais para ficarem atentos aos sintomas do abuso sexual em seus filhos. A paranoia se instala e apesar do filme não mostrar podemos imaginar os pais pressionando os filhos por respostas, o que as leva a dizer coisas que eles acreditam ser sintomas do abuso. Não sabemos se elas repetem o que os pais pensam, o que seus amiguinhos dizem ou o que, mas apesar da evidência da mentira quando a polícia vai à casa de Lucas e descobre que não há nenhum porão que todas as crianças descreveram como o local do abuso, ninguém muda seu discernimento sobre tudo. 

A vida de Lucas é destruída, ele é agredido por todos, seu filho também, matam seu cachorro, a namorada fica em dúvida e ele a manda embora. Até a véspera do natal quando Lucas vai à missa na igreja e na frente de todos diz ao pai de Klara para olhar em seus olhos e ver o que está ali. 

Após um ano, meio que sem explicações de como ocorreu a reaceitação de Lucas na sociedade local, todos aparecem felizes para o dia que Marcus fará a passagem da fase de garoto para homem, ou seja, o dia que ele recebe sua licença para caçar e ganha do pai uma espingarda. No dia seguinte eles vão caçar e Lucas escapa por pouco de um tiro que foi para ele, ou ele supõe que foi para ele, uma vez que ao olhar novamente não há ninguém. Ele é a caça, e não o caçador, o que demonstra que nada ficará bem como se supõe quando todos se abraçam e estão felizes. Há certas coisas pelas quais passamos na vida que não se apagam tão facilmente. 

Por outro lado uma comunidade que valoriza a morte, matar animais, caçar, e considera isto o ritual de passagem para a fase adulta para o homem, tem que ser uma sociedade agressiva, portanto as agressões que Lucas sofreu no decorrer do filme dos moradores não são algo estranho  para eles.

Olhando mais ainda para o filme percebemos que a pedofilia e o incesto movem o inconsciente das pessoas, e isto provoca uma reação exagerada, violenta, uma vez que é uma reação à uma tentação que todos carregam de seu édipo. A pequena Klara reage a rejeição de sua demanda de amor com ódio, o que a leva à vingança. Muitos dirão que crianças não fazem isto, mas fazem, não são tão inocentes como a sociedade gostaria de crer. A comunidade se vira contra ele, vemos uma histeria coletiva onde ninguém em momento algum pergunta à Lucas sua versão dos fatos. Nem adiantaria, não iriam acreditar nele. 

Thomas Vinterberg nasceu em 1969 em Copenhagen, Dinamarca 

sábado, 6 de dezembro de 2014

PERFIL- MULHERES - ALFONSINA STORNI



Alfonsina Storni nasceu em 29 de maio de 1892 em Sala Capriasca, Suíça e faleceu em 25 de outubro de 1938 em Mar Del Plata, Argentina. 

Alfonsina nasceu na Suíça, mas filha de pais argentinos que retornam em 1896 para San Juan na Argentina. Em 1901 muda-se para Rosário. Ela passou por muitas dificuldades financeiras e para ganhar o sustento trabalhou como costureira, operária, atriz e professora. 

Suas poesias são uma forma de libertar-se da opressão e da sociedade patriarcal. Ela defende que as mulheres deviam liberar o que traziam dentro de si, reprimidas que eram pela sociedade e mostrar a todos o que sentiam e o que desejavam. 

Em 1935 descobre que tem um câncer de mama e em 1937 o suicídio de seu amigo Horacio Quiroga a abalou muito. Em 1938 suicidou-se andando para dentro do mar, tinha 46 anos e teve seu corpo resgatado no dia 25 de outubro. Antes disto ela havia enviado a um jornal o soneto "Voy a dormir". Mercedes Sosa a homenageia cantando "Alfonsina y el mar" composto por Ariel Ramírez e Félix Luna. 

Há um monumento na praia La Perla feito pelo escultor argentino Luis Perlotti. 

Ouça a canção Alfonsina y el mar: 


Ouça: Voy a dormir: 

Assista: Diário de Alfonsina - últimos dias



Assisti também a Peça Vestida de Mar - postado no blog. 

PERFIL: MULHERES - ADÉLIA PRADO



Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de Dezembro de 1935 em Divinópolis, Minas Gerais. É uma poetisa, filosofa, contista e professora. É ligada ao Modernismo.

Uma das minhas poetisas preferidas. Gosto muito de seu livro Bagagem. Ela sempre se encanta, busca o inusitado no dia a dia, tem algo de lúdico e do inconsciente em sua poesia. 

Ela escreveu seus primeiros versos quando sua mãe faleceu. 

"Não quero faca, nem queijo. Quero a fome." 

É na falta de que se cria algo, é estando com fome que se pode desejar e fazer algo. 

Em 1994 fez uma depressão, procurou a ajuda de um psiquiatra, mas diz que este tempo árido lhe fez bem. 

" O que se passou? uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo,a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez."

Tenho vários livros dela, mas vou reler Bagagem e Solte os cachorros para falar aqui. E lerei o Manuscritos de Felipa sobre o sofrimento de uma mulher. Depois retorno ao perfil. 

PERFIL: - MULHERES - AGUSTINA BESSA-LUÍS


Agustina Bessa-Luís é o pseudónimo literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa. Ela nasceu em 15 de outubro de 1922 em  Vila Meã, Amarante. 

É uma escritora portuguesa. Em 2004 aos 81 anos recebeu o prêmio Camões. Possui uma produção extensa em literatura, teatro, literatura infantil. Desde julho de 2006 ela se retirou da vida pública por razões de saúde e deixou de escrever. 

Para falar dela aqui no blog lerei os dois livros que tenho: A Sibila e O Mosteiro. A Sibila foi publicado em 1954 e foi o livro que a consagrou. Também vou postar a adaptação para o cinema de O Convento e Ronda da Noite. Após estas leituras e ver estes filmes retorno a este perfil. 






sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: CLOSET LAND - 1991



Direção: Radha Bharadwaj - 1991
Duração: 89 min
Título original: Closet Land (Terra de Armários)

Um filme sobre a tortura

Um filme com apenas dois atores, ela uma escritora de histórias infantis (Madeleine Stowe), ele o grande inquisidor e torturador (Alan Rickman). 

Ela é presa a noite e levada com os olhos vendados para um lugar desconhecido para ser interrogada. É acusada de ocultar na sua escrita de histórias infantis recados para subversivos ao governo. Quem a vigia durante um ano e a prende é o governo. 

Durante o filme todo assistimos a uma pressão psicológica imensa sobre a escritora que não se rende, sua mente é mais forte. Passam então a tentar dobrar seu corpo, destruir o corpo para atingir a  mente, mas também não conseguem. Ela tem algo poderoso, sua mente e sua imaginação que a retira dali nos piores momentos e lhe permite manter a sanidade. 

O que possibilitou isto foi um fato trágico de sua infância que ocorria num armário quando ele se utilizava de sua imaginação para poder escapar. Durante o filme nas falas de seu torturador percebemos sinais de algo havia ocorrido em sua infância, naquilo que gravaram de suas conversas com sua mãe antes de sua morte, na questão de sua sexualidade. 

O que mais choca no filme é que sabemos que isto ocorre, e o pior, não são aqueles que a sociedade considera como bandidos, mas trata-se do governo, aquele escolhido por suas futuras vítimas. A parte que mais toca é quando ela fala sobre o quanto somos cegos e nos recusamos a ver e compreender. Aceitamos as explicações sem sentido para alguém que subitamente desapareceu e isto basta. Ela sabe que a sociedade que está lá fora nada fará em relação ao seu desaparecimento, está condenada a viver reclusa naquele antro de loucos, sim, loucos, porque a obsessão, a paranoia do governo é inacreditável, e muito bem representada pelo inquisidor que no mínimo é alguém muito doente para se propor a fazer o que faz, ele mesmo teve sua mente atingida e sofreu uma lavagem cerebral.

O que vemos é a forma como uma mente pode ser atingida e também o emocional de uma pessoa, principalmente quando ela está vendada e só escuta, podendo ser ludibriada, enganada pelos sons, imitações, e como isto se reflete em seu interior. O que ela sente é o que pode imaginar daqueles sons, independentes de serem reais ou não. 

O filme choca por sua verdade e realidade. Mas fingimos que isto não acontece. 

Radha Bharadwaj nasceu na Índia. 

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FILME: DE OLHOS BEM FECHADOS - 1999


Direção: Stanley Kubrick - 1999
Duração: 159 min
Título original: Eyes Wide Shut

Baseado no livro "Romance do sonho" de Arthur Schnitzler

Alice (Nicole Kidman) e Bill (Tom Cruise) são casados e tem uma filha de 7 anos. Vivem uma vida tranquila e se amam, até o dia em que Alice instigada talvez por ter sido cortejada numa festa por um homem e ter visto seu marido com duas belas mulheres inicia uma conversa provocadora com ele sobre o que ele sente em relação à mulheres, se sente desejo sexual por elas, inclusive em seu consultório, uma vez que ele é médico, o que ele nega alegando que por ter uma mulher que ama e com quem é casado isto não lhe passa pela cabeça, e quando ela o provoca mais sobre ela, ele lhe diz que confia nela. Algo neste momento faz com que Alice lhe confidencie que um ano atrás se sentiu muito atraída por um homem com quem trocou apenas um olhar e que se este homem a quisesse ela teria abandonado tudo, ele, sua filha e ficado com ele, nem que fosse para apenas uma noite de sexo. 

Bill leva um choque, algo dentro dele se desloca, mas no mesmo momento ele é chamado porque um de seus pacientes acaba de falecer. Ele sai para a rua e começa a imaginar a cena de Alice com este oficial da marinha transando, e isto não lhe sai mais da mente. Após sair do apartamento do falecido ele vaga pelas ruas desnorteado, e começa uma jornada desconexa para ele, totalmente diferente do que ele já viveu ou conheceu levando-o a contato com um mundo sexual que ele desconhecia, como prostitutas, uma mansão onde se realizam orgias, um pai que explora a filha sexualmente. 

Alice tem um sonho onde está nua no meio de muitos homens e o oficial da marinha faz sexo com ela e depois ela faz com muitos homens. 

O que aflora em Alice é o desejo recalcado, aquele inconsciente, das fantasias, que apesar de trazer um desejo não é algo que se faça, até porque somos coibidos pela educação, pela moral, pelo amor, pela sociedade, mas isto não impede que imaginemos algo, que fantasiemos. O porque dela contar ao marido pode ter várias respostas. Já Bill sofre um choque psíquico e com isto desnorteia, passa a agir de forma desconexa e busca algo para compreender tudo isto, só que no caso dele no real. 

Somente quando ele conta para Alice tudo que fez e ela ou ouve e eles conversam é que podem retomar sua vida de antes. Interessante ver neste filme os três conceitos de Lacan - O real, o imaginário e o simbólico. Os três estão sempre implicados um com o outro, mas é o simbólico que consegue dar conta de estabelecer uma realidade viável, é através da palavra que o real e o imaginário se tornam compreensíveis. 

Os sonhos podem ser tão fortes, assim como o imaginário, a ponto de não conseguirmos lidar com eles acordados. Os sonhos sempre trazem o que temos de mais oculto, recalcado, mas que mesmo assim somos nós, e talvez o mais verdadeiro de nós. Os sonhos são reais, não é algo para não se levar em conta como se fosse algo apenas sem sentido. E nossa imaginação produz efeitos. O que não conseguimos lidar é o Real, que é possível acessar justamente pelos sonhos e simbolizar. 

Stanley Kubrick nasceu em 1928 em Manhattan, New York, EUA e faleceu em 1999 em St Albans, Reino Unido.