terça-feira, 19 de maio de 2015

FILME: A ILHA DO MILHARAL - 2014



Direção: George Ovashvili - 2014
Duração: 100 min
Título Original: Simindis Kundzuli
País: Cazaquistão 

A cada primavera o rio Enguri que fica entre a  Geórgia e a Abecásia leva sedimentos do Cáucaso e forma pequenas ilhas com um solo fértil que é utilizada pelos agricultores da região para o plantio de milho que estocam e vendem durante o inverno. 

Um agricultor já idoso ( Ilyas Salman) chega a uma destas pequenas ilhas, ele cava a terra, a sente nas mãos, cheira, encontra algo que limpa e guarda no bolso, e coloca um pau com um lenço amarado em sinal de escolhida. Aos poucos, lentamente, ao ritmo possível. Não vemos o filme dar um salto, pelo contrário, ele segue passo a passo a construção de uma cabana, os momentos de descanso, a continuação do trabalho, dia a dia, a medida que ele traz as coisas em seu barco. Sua neta (Mariam Buturishvili) também vai e o ajuda. A casa vai surgindo, eles pescam, cozinham, e observam a natureza e o rio. A paisagem é belíssima. Há pouquíssimas falas, o filme é o som da natureza, do rio, dos pássaros, do vento.


Diferente de As quatro voltas (já postado no blog) aqui não se trata do ciclo vida-morte, mas das questões de tempo e espaço, dos ciclos, mas da vida. A menina moça que cresce ao mesmo tempo que o milho, que descobre seu corpo, mas ainda tem sua boneca. O filme vai lento, no tempo do milho que cresce. Aqui eles estão à mercê de uma força maior, a natureza, que criou a ilha, mas também a pode destruir, a natureza que se em dados momentos é calma e de uma beleza infinita pode de um momento para outro se enfurecer e trazer um espetáculo que mesmo não deixando bons traços é fascinante.


A pequena ilha formada no meio do rio é uma terra de ninguém, sugestivo diante do quadro local onde há patrulhas constantes no rio e disputas territoriais. Um soldado de um dos lados é ferido e o velho o socorre e cuida dele até que ele possa ir embora.




Ultimamente tenho visto alguns filmes que trabalham com poucas falas e os acho fantásticos. Vivemos num mundo onde somos absorvidos e sufocados pelo excesso de comunicação. Este silêncio da natureza, que não é silêncio, são muitos sons diferentes, mas que perdemos a capacidade de ouvir por estarmos ligados em outras questões nos traz de volta um pouco à consciência do quanto somos efêmeros, assim como esta pequena ilha, podemos ser férteis, criar, crescer, mas estamos à mercê de forças maiores, de contingências, da natureza e da vida. Por mais que nos dediquemos, que nos esforcemos, sejamos bons, a natureza age dentro do real, nunca é madrasta, mas tampouco recompensa ou protege como o ser humano gostaria de esperar dela, como ilusoriamente espera de uma força maior.

George Ovashvilli nasceu em 1963 em Mtscheta, Geórgia

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: ELA VAI - 2013


Direção: Emmanuelle Bercot - 2013
Duração:  116 min 
Título original: Elle s'en va 
País: França 

Bettie (Catherine Deneuve) tem um pequeno restaurante e vive com sua mãe (Claude Gensac). Ela tem um caso com um homem casado que após muitas promessas que largaria da esposa ele realmente o faz, mas para ficar com uma mulher bem mais jovem. Bettie fica perturbada com isto e larga tudo saindo de carro pela estrada. 

Um dos primeiros encontros dela é com um senhor bem velho, e ali ela se confronta com a velhice e a solidão, o homem nunca se casara e tiveram uma namorada quando jovem que morreu, ele então ficou celibatário cuidando de uma fazenda. De alguma maneira isto afeta Bettie, que teve um grande amor quando jovem e foi eleita miss Bretanha, um depto. da França, e ao ir para o concurso miss França sofre um acidente onde este homem morre. Ela se casou, teve uma filha, Muriel (Camille Dalmais) da qual é distanciada, no fundo não amou o pai dela que acabou morrendo numa cena senão irônica, literalmente trágica, uma vez que ele se engasgou no restaurante onde jantava com sua amante e o médico que o foi socorrer era o marido da mulher, mas também amante de Bettie.



Aos poucos rodando pela estrada ela vai vivendo experiências, situações, até que a filha lhe pede que leve o neto Charly para seu avô, pois ela precisa viajar para um novo emprego. Bettie o faz, e começa uma nova relação com este garoto, do qual também nunca se aproximou, carente de amor e de uma família que se ame.

No início do filme vemos Bettie andando de costas, até o momento em que ela se vira, o rosto ainda muito bonito, mas neste momento focam uma foto de Deneuve jovem, sendo que hoje ela tem mais de 70 anos, e o filme justamente também gira em torno disto, da jovem candidata a miss, de uma beleza estonteante à mulher madura, mas já envelhecida, que se confronta com este estágio da vida. É preciso continuar a viver e querer continuar a ser jovem é perda de tempo, é preciso assumir o que se é e viver este momento. 

Emmanuelle Bercot nasceu em 1967 em Paris, França

FILME: ELE TIROU SUA PELE POR MIM - 2014



Direção: Ben Aston - 2014
Duração: 11 min
Título Original: He took his skin off for me
País: Reino Unido 

Este curta-metragem é o trabalho de conclusão de curso do diretor Ben Aston para a faculdade London Film School. O trabalho durou dois anos, foi feito através de financiamento coletivo, e não há nenhum efeito digital, todo o corpo com os músculos expostos foi criado com próteses e tinta, foram exatamente 1.152 pedaços de músculos falsos. Foi baseado no conto de Mary Hummer. 

Um homem (Sebastian Armesto) decide tirar toda sua pele para atender ao desejo de sua mulher que o quer assim. Porém logo logo eles irão descobrir que isto não foi bom, as consequências alteram a vida e a relação dos dois. O sangue que fica pela casa toda, a reação dos outros, a perda dos clientes em seu trabalho, até atingir a relação amorosa de ambos.  

É um alerta sobre atender ao desejo do outro, sobre o estar apaixonado e fazer o que o outro quer para agradá-lo e de como isto não irá garantir que este outro o ame, mesmo diante de algo tão surpreendente, drástico, como tirar sua pele. o esta A-MANDO de outro que o descaracteriza por completo. 

O filme é impressionante, extremamente curto, mas não precisa mais. Já diz tudo. 

Ben Aston 

FILME: LES PETITS RUISSEAUX - 2010



Direção: Pascal Rabaté - 2010
Duração: 91 min
Título em português: Os pequenos riachos (tradução minha) 
País: França 

Baseado na história em quadrinhos do próprio diretor. 

Émile (Daniel Prévost) vive sozinho e leva uma vida tranquila. Vai pescar com seu amigo Edmond (Philippe Nahon), encontra seus amigos num bar onde cada um conta suas histórias, e cuida de suas plantas. Tudo segue tranquilo, e ele continua cultuando sua esposa morta, vivendo de lembranças. Até o dia em que descobre que seu amigo Edmond ao contrário dele tem encontros com mulheres, e mais ele se dedica à pintura de mulheres nuas, dança, ri, leva a vida de uma forma bem mais animada.


Alguns dias depois ele é surpreendido com a morte de Edmond, e no enterro ele encontra Lucie (Bulle Ogier), a última namorada do amigo morto. A partir daí Émile começa a rever sua vida, seu desejo reacende, e ela começa a ver todas as mulheres nuas, na rua, no mercado, onde ele esteja. Tem alguns encontros com Lucie, mas não consegue ir adiante devido a lembrança de seu amigo. Então ele se decide a recuperar um pouco da vida e parte em seu mini caro - Mini Comtesse - primeiramente ele volta a casa de sua infância para encontrar ali um grupo de jovens adeptos de uma vida simples que estão morando na casa. Fica com eles dois dias, e acaba tendo um encontro amoroso com uma das jovens. Ao voltar para casa, um desses "acasos" da vida, ele sofre um acidente e conhece então Lyse (Hélène Vincent) que foi a causadora do acidente e o visita no hospital. 

A partir deste momento sua vida é retomada.


O filme retrata a vida na velhice onde já não pensa que algo pode acontecer e se acaba levando a vida com conformismo, saudosismo e metodicamente, até que algo venha mudar isto e mostre que mesmo com setenta anos é possível viver, encontrar pessoas, amar, desejar, rir, viajar, dançar entre outras coisas. O filho de Edmond achava seu pai um devasso, queima suas pinturas e Émile consegue salvar dois quadros que ele fazia reproduzindo mulheres da Playboy e usando além da tinta lã, fios para imitar os pelos púbicos. Já o filho de Émile fica muito contente com o fato do pai ter encontrado alguém e ao ver os quadros se diverte. O filme também serve de alerta na forma como os mais jovens enxergar e julgam a velhice, o que acaba levando muitos a seguir estas ditas normas sociais onde o velho tem que ser velho em tudo, e não apenas no corpo que envelhece. 

Pascal Rabaté nasceu em 1961 na França


A mini-comtesse. 

FILME: AS QUATRO VOLTAS - 2010


Direção: Michelangelo Frammartino - 2010
Duração: 88 min
Título Original: Le Quattro volte
País: Itália - Alemanha - Suíça 

Uma vila medieval na Calábria, Itália onde as tradições são mantidas e há o pastoreio das cabras. Também produzem carvão de forma artesanal. 

Um filme para se sentir, pois não há falas, mas os sons da vila, das pessoas, dos animais e da natureza. É uma experiência única e para cada um é diferente.


Começa com um velho (Giuseppe Fuda) que pastoreia suas cabras junto com um cachorro. O dia a dia monótono dele, repetitivo, mas é um momento em que nos damos conta que também fazemos isto, em outro lugar, em outro tempo e contexto, mas repetimos diariamente as mesmas coisas da mesma forma. E o tempo passa, as estações mudam, os anos avançam, a vida se vai. O velho morre sozinho e somente o cachorro pode avisar a todos e o faz de forma brilhante e inteligente no dia da encenação da Paixão de Cristo. O enterro e a pedra que fecha o túmulo, ficamos do lado de dentro do túmulo, escuridão, alguns míseros sons.


As cabras, e no ritmo da vida se um  morre outro nasce, e nasce um cabritinho. Acompanhamos as cabras, o crescimento dos pequenos, até o dia em que este que nasceu se perde, e acaba se abrigando embaixo de uma imensa árvore. Novamente a escuridão e os sons.


Árvore imensa, majestosa. As estações passam, e quis que ela fosse a escolhida para a festa daquele ano,  assistimos sua derrubada, é levada para a vila, sobem nela, quem consegue ganha o prêmio. É derrubada, em seu topo vários presentes. Fim de festa, ela é serrada e levada para a carvoaria.





Vemos como se produz carvão artesanalmente. E a árvore imensa, agora tocos de madeira, é colocada por primeiro, e finalmente a escuridão novamente. Fim de mais um ciclo.



E tudo se repete na vila, o pequeno caminhão que já passava no tempo do velho sobe novamente a rua, carregado de carvão para vender ao povo. Vemos a fumaça saindo da chaminé. 

Tudo sempre se reorganiza, nada para, morrem uns mas a vida continua, nascem outros, e a vida continua. Voltas e mais voltas e tudo recomeça e tudo termina, e recomeça. O que vemos é a natureza, incluindo o ser humano, o que vemos é a vida como ela é, sem enfeites ou eufemismos, ela segue. Mesmo que a religião se faça presente, ela se faz como ritual, como parte da vida, esta vida que segue, e não como ordenadora da vida. E o homem também é formado de sais, é um mineral, que retorna à terra. O filme homenageia o ciclo da vida em suas quatro manifestações: humana, animal, vegetal e animal, e estão todos interligados. 

Belíssimo!

Veja o trailer: 




Michelangelo Frammartino nasceu em 1968 em Milão, Itália

LIVRO: PRAZERES ILIMITADOS - FERNANDO MUNIZ



Muniz, Fernando. 1ª ed. Nova Fronteira, 2015 
191 páginas

Um livro muito interessante sobre o que seria o prazer. Ele faz um percurso histórico pela filosofia desde os gregos até os dias atuais sobre a forma como o prazer era visto. A visão grega, a visão do cristianismo, da modernidade até os dias atuais. 

O que o autor alega é que não sabemos mais o que é prazer. Tornou-se algo que supostamente é óbvio, sem que nos questionemos sobre do que realmente se trata, e acabamos chamando de prazer a compulsividade e a voracidade. 

Os gregos viam no prazer algo ético, algo que transformava a vida em algo belo e bom. Com o Cristianismo o prazer passa a ser algo a ser excluído e no lugar entra a dor. A dor é que purifica e transforma o homem em bom. Já na modernidade temos uma busca do prazer através dos psicodélicos, das drogas até chegarmos ao mundo atual com sua compulsão e falta de consciência levados como uma manada movida pela mídia, pela propaganda, e ao contrário do que acreditamos não fazemos escolhas, elas já estão feitas, apenas nos iludimos que temos livre arbítrio. Ele levanta a questão da submissão voluntária como uma das principais questões do mundo atual. 

Há uma comparação entre uma igreja gótica e um shopping center que é muito interessante. O jogo de luzes, o labirinto, a parada do tempo e limitação do espaço, e como tudo isto funciona em nosso inconsciente

Apenas uma ressalva, quando ele fala da psicanálise e se baseia apenas em um momento de Freud com o uso da cocaína que depois ele abandonou. Primeiro que isto foi uma fase, e a outra crítica que faço  é que ele generaliza a psicanálise para Freud. Isto seria o mesmo que generalizar a filosofia para Platão. E a visão que a psicanálise tem sobre a questão do prazer é muito mais ampla do que sugere o livro. 

Fernando Muniz é professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, mestre e doutor em Filosofia pela UFRJ, com pós-doutorado pela Universidade Brown nos Estados Unidos.


FILME: TERRAFERMA -2012


Direção: Emanuele Crialese - 2012
Duração: 89 min
País: Itália - França 


Filme atualíssimo sobre a questão da entrada de refugiados na Europa, em especial na Itália, assunto que vem sendo notícia quase que diariamente nos noticiários, divulgando o drama destes refugiados que chegam da África fugindo das guerras civis e da fome,  sendo que muitos morrem no mar e da posição cada vez mais restritiva da Europa em recebê-los ou socorrê-los. 

O filme se passa numa ilha que sobrevive da pesca, mas principalmente do turismo, uma vez que a atividade pesqueira está em declínio. Mas a comunidade dos pescadores tem suas leis próprias, e principalmente a de nunca abandonar ninguém no mar. Com as novas leis restritivas eles entram em choque, uma vez que se sentem entre duas situações, ou obedecem ao que acreditam e sempre fizeram ou cumprem a lei, pois do contrário sofrem as punições. 


Filippo (Filippo Pucillo) acompanha seu avô Ernesto (Mimmo Cuticchio) que insiste em manter a tradição pescando no mar, sendo que a maioria ou vendeu seus barcos ou os utilizam para passeios turísticos como Nino (Giuseppe Fiorello), filho de Ernesto e tio de Filippo, cujo pai morreu no mar e de quem era o barco que eles usam para pescar. Um dia eles avistam uma pequena embarcação lotada de pessoas, refugiados. O avô avisa a polícia costeira, porém recolhe a bordo vários que estavam no mar, entre eles uma mulher etíope grávida , Sara (Timnit T.) e seu filho. Como isto é ilegal eles a levam para a casa de Filippo e sua mãe Giulietta (Donatella Finocchiaro) é quem faz o parto da menina que nasce.




As consequências deste ato virão, uma vez que a polícia descobre que alguns deles foram recolhidos pelo pesqueiro e no dia em que eles estão saindo para levar alguns turistas para passear são abordados pela polícia que confisca o barco. 

Há um conflito moral, principalmente para Filippo entre seguir o que fazem os ancestrais e os mais velhos da ilha ou respeitar a lei. Ele vê os efeitos de desrespeitar a lei que recaem sobre seu avô, o medo de sua mãe de serem descobertos. Sara relata para Giulietta que o bebê é fruto de estupro que ocorria na frente do menino. Que levaram dois anos para chegar à ilha. Em um dado momento Filippo está no mar com uma garota, e ao ver os refugiados se aproximarem de seu barco ele tenta ir embora, precisa bater com os remos nas mãos deles para poder ir embora. É uma cena triste, difícil, pois de um lado temos seres humanos que irão morrer afogados e de outro a lei que manda não socorrer. 

Já Nino se preocupa com o turismo, é seu ganha pão, e diz a todos que ali não há refugiados, o que os turistas não desejam ver uma vez que foram para a ilha para descansar e ver belas paisagens, se divertir. Mas tudo muda no dia em que vários náufragos chegam à praia mais mortos do que vivos.  Os moradores estão divididos entre manter tudo em ordem por causa do turismo e a comunidade dos pescadores que tem um código de ética e de humanidade que os leva a socorrer estas pessoas que estão no mar. 

Apesar do filme não se aprofundar muito ele nos dá uma pequena ideia do drama dos refugiados que chegam à Europa pelo mar. Também nos deixa uma lição de ética e moral, afinal, o que fazer? socorrer seres humanos famintos, sedentos, em desespero ou não? ou seguir a lei que determina que não é para recolhê-los? A polícia o faz e os leva de volta de onde vieram. 

Há outra questão que não aparece no filme, mas se nos aprofundarmos um pouco mais na história veremos a responsabilidade da Europa nas guerras civis da África, sejam por causa da colonização, ou das divisões territoriais que elaboraram, ou seja pela manutenção de grupos militares ou até mesmo ditadores em função de interesses econômicos. A fome que existe em vários destes países, a falta de perspectiva, a violência, à qual o ocidente fecha os olhos. É cada um por si. 

O diretor Crialese decidiu fazer este filme após ler a história de uma africana que foi um dos cinco sobreviventes de um barco lotado que passou 21 dias à deriva no mar sem ajuda antes de chegar a Lampedusa, na Itália. "Fiquei hipnotizado pelo rosto dela, por sua expressão. Ela tinha acabado de passar pelo inferno, três semanas em alto mar, com pessoas que os viam, se aproximavam e jogavam água e então os abandonava novamente. E ela parecia ter chegado ao paraíso." disse Crialese. 

É Sara quem representa esta mulher no filme. O filme é uma denúncia à repressão da imigração ilegal. O que vale mais? o Estado, sua fronteira e leis ou a vida humana? O planeta Terra pertence a todos, mas as fronteiras e as leis foram criadas pelo homem. A situação é delicada com certeza e envolve muito mais do que o humanitarismo, mas com certeza não é deixando morrer as pessoas que isto se resolve.

Emanuele Crialese nasceu em 1965 em Roma, Itália. 

domingo, 17 de maio de 2015

FILME: O FIO DE ARIANE - Uma fantasia de Robert Guédiguian - 2014


Direção: Robert Guédiguian - 2014
Duração: 92 min
Título original: Au fil d'Ariane 
País: França 

O filme é um sonho mas sem se desprover de lógica apesar de cenas oníricas como uma tartaruga falante. Mas quem já não conversou com animais? e lhes colocou uma resposta sendo dada? 

É o dia do aniversário de Ariane (Ariane Ascaride), ela está em sua moderna casa preparando um bolo enquanto chegam flores e o telefone não para com sua família e amigos lhe desejando um Feliz Aniversário, porém todos eles alegam que infelizmente estão impossibilitados de comparecerem para lhe dar os parabéns pessoalmente.

Assisti o filme na véspera do meu aniversário, já me preparando para justamente passá-lo sozinha. Porém como no filme isto acabou não acontecendo. Mas voltando a Ariane, quando ela percebe que ninguém virá ela deixa o bolo com as velas acesas e sai, decide comemorar sozinha seu aniversário. Na ponte levadiça enquanto espera a passagem de um navio acaba conversando com um jovem que se oferece para levá-la até um lugar muito bom para comer, o restaurante Café L'Olympique onde diariamente vão excursões de idosos para comer. Quando decide ir embora tem que chamar um táxi pois o rapaz da moto saiu com uma garota. Ela não sabe direito o endereço de onde deixou o carro, mas no caminho vê seu carro sendo guinchado, eles voltam, vão atrás mas quando chegam ao local o portão é fechado na cara dela. Bom ela saca dinheiro para pagar o taxista ( Jean-Pierre Darrousin) e neste momento é roubada por dois que passam numa moto. O taxista a leva de volta ao Café. 

Ariane vive a realização de seus desejos, ela se reencontra. Ao relembrar seus sonhos que foram apagados ou deixados de lado diante do dia a dia de sua vida de casada, mãe de dois filhos, ela revive. E o que nos mostra o filme é que temos que manter a capacidade de sonhar, de desejar, e que mesmo que não seja possível realizar os desejos na realidade ainda assim podemos sonhar. Ao final Ariane terá que retornar, como no mito, ela segue seu fio de volta a sua realidade. Acorda quando tocam a campainha e eis que chegam todos para lhe fazer uma surpresa após enganá-la dizendo que não poderiam ir.





Robert Guédiguian nasceu em 1953 em Marselha, França. É casado com Ariane Ascaride.

Musica cantada no filme por Ariane - Comme on fait son lit. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A VIAGEM VERTICAL - ENRIQUE VILA-MATAS


Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014
252 páginas
Tradução: Laura Janina Hosiasson
Título Original: El viaje vertical

País: Espanha 

Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou. 

Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.

Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.

É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.


Enrique Vila-Matas nasceu em 1948 em Barcelona, Espanha

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

LIVRO: A FÊNIX ISLAMISTA - O Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio - LORETTA NAPOLEONI


Napoleoni, Loretta. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
154 páginas
Tradução: Milton Chaves de Almeida
Título Original: The Islamist Phoenix: the Islamic State and the redrawing of the middle east

O livro de Napoleoni é um grande alerta. De forma acessível, mesmo para os que não entendem muito de políticas e de geopolítica e menos ainda da situação no Oriente Médio, ela nos fornece um panorama sobre o que acontece por lá e de como as coisas funcionam, mas acima de tudo é um alerta para o descaso e a cegueira ocidental e sua maneira de tratar do assunto. 

O Estado Islâmico está crescendo. Ele adentra territórios desestabilizados, que estão no caos e para a população acaba sendo a única maneira de encontrar um pouco de ordem em meio a tantas guerras, obviamente desde que se converta ao islã. Por outro lado ao contrário de outros grupos terroristas o EI faz pleno uso da tecnologia virtual para se auto-divulgar e desta forma conseguir novos adeptos além de infligir o terror e o medo através de seus atos afetando psicologicamente as pessoas.

O EI quer recriar o Califado e refazer as antigas fronteiras que a colonização européia desfez. O povo da região se sente humilhado com isto e assim o Califado é um sonho de todos. A questão é que o EI não é um grupo retrógrado, pelo contrário, é moderno e tem plena compreensão da situação local. Eles sabem como manipular a opinião pública e acabam fazendo uso da tecnologia para isto, da mesma forma que o governo dos Estados Unidos utilizou para justificar a invasão do Iraque, e o mais importante é o alerta para como as pessoas acabam acreditando nisto sem parar um segundo para pensar no que está sendo dito. 

O que diferencia o EI de todos os outros grupos é que ele está conseguindo formar um Estado, não reconhecido, mas aceito pelo povo, e eles sabem que as pessoas precisam estar contentes, e para isto eles investem no social, fornecendo água, energia, alimentos, ajudando o comércio, nestas regiões onde tudo estava um caos. A imposição da xaria é algo que as pessoas no lugar aceitam, e com exceção dos xiitas que eles querem exterminar eles oferecem a chance para os que moram no local de se converterem e serem aceitos, ou cair fora. 

Fica claro pela leitura do livro que foi a colonização europeia assim como as guerras e invasões dos Estados Unidos que propiciaram o terreno fértil para que o EI surgisse e se mantivesse. Com a compreensão moderna dos dirigentes do EI, diferente de um Talibã ou Al Qaeda, e evitando toda forma de corrupção interna como ocorreu na OLP, eles deixam de ser apenas um grupo terrorista como a mídia do Ocidente costuma apresentá-los e se tornam muito mais perigosos do que imaginamos. Eles querem construir um Estado e tem uma visão moderna disto. 


Loretta Napoleoni nasceu em 1955 em Roma, Itália.É jornalista e analista política.

FILME: AMOR SEM FRONTEIRAS - 2003


Direção: Martin Campbell - 2003
Duração: 127 min
Título original: Beyond borders
País: Estados Unidos - Alemanha 


O filme fala sobre a luta dos que buscam ajudar aos refugiados nos países em guerra ou que passam por situações de fome e doenças. 

Sarah (Angelina Jolie) conhece Nick (Clive Owen) numa recepção em homenagem ao seu sogro, pai de Henry (Linus Roache) com quem é casada. Ele está sendo homenageado por suas doações a pessoas necessitadas. Nick irrompe no meio da comemoração para expor a realidade da África que está bem longe daquele mundo de luxo e sofisticação onde vivem Sarah e o marido. Nick vem acompanhado de uma criança e lhe jogam uma banana. Eles acabam presos e a criança foge sendo encontrada morta no dia seguinte. Tudo isto afeta Sarah que se dispõe a ajudar Nick.



Ela parte para a Etiópia com um carregamento de medicamentos e comida e começa a descobrir a realidade disto tudo. A corrupção, as negociações para que algo consiga chegar ao campo, ela verá cenas terríveis de morte e fome e isto faz com que mude de vida e passe a trabalhar nas Nações Unidas.



O filme nos mostra além da Etiópia e a fome, o Camboja e depois a Chechênia. Paralelamente vemos o desenrolar da vida de Sarah junto ao marido, um casamento que vai se acabando.

Martin Campbell nasceu em 1943 em Hastings, Nova Zelândia. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

FILME: VA, VIS ET DEVIENS - 2005


Direção: Radu Mihaileanu - 2005 
Duração: 143 min 
Título em português: Um herói do nosso tempo
País: Israel - França 

Ganhador de nove prêmios e teve outras seis indicações. No Festival de Berlim ganhou três prêmios. Na França ganhou o César de melhor roteiro. 

Filme em co-produção - França, Bélgica, Israel e Itália. 

Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. Chorei, ri e torci. 

O título em português não é ruim, mas a tradução do título seria: Vá, viva e venha a ser. 

O filme inicia com um narrador que nos fala sobre acontecimentos recentes mas que poucos conhecem. Vemos fotos reais ao fundo enquanto ele introduz a história dos judeus etíopes negros, os falashas que segundo a tradição são descendentes do Rei Salomão e da Rainha de Sabá. Milhares saíram da Etiópia a pé e buscaram refugio no Sudão, um país muçulmano apegado as regras rígidas da sharia. No trajeto até ali morreram em torno de 4 mil pessoas de fome, doenças, assassinados, torturados. Em 1985 o governo de Israel com a ajuda dos Estados Unidos organizou uma operação para retirá-los que foi efetuada pelo Mossad, a polícia secreta de Israel com aviões. Eles conseguiram retirar em torno de 8 mil pessoas levando-os para Jerusalém. Tudo isto nos lembra o êxodo dos judeus do Egito até a terra santa, e a operação recebeu o nome de Moisés.



Após a contextualização histórica o filme começa num campo de refugiados. Uma mulher acaba de perder seu filho de 09 anos, é Hana (Mimi Abonesh Kebede), ele morre em seus braços de fome. Naquela noite há um avião, e Hana é uma das escolhidas para ir. Vemos então uma mãe (Meskie Shibru Sivan) que acorda seu filho e ordena que ele vá. Ele não quer ir, não quer deixar sua mãe, mas ela é taxativa - Vá, viva e venha a ser!


Ele então vai com Hana. Na hora do embarque eles perguntam que garoto é aquele se seu filho morreu naquela manhã, mas o médico a socorre e diz que não, que ele conseguiu salvar a criança. Ele embaca com Hana rumo a Jerusalém. A questão é que este menino não é judeu, é cristão, mas terá que se passar por um judeu. Adota o nome do filho morto de Hana, Salomão - Schlomo (Moshe Agazai). O filme irá acompanhar a vida dele até a vida adulta, já nos anos 2000.


É tocante, é belo, é triste, mas é um hino à vida, exatamente o que sua mãe lhe desejou - Vá, viva e venha a ser!, mas ele nunca esquecerá sua mãe, e sempre olhará para a lua, sempre se direciona para o sul onde fica o Sudão, tem um olhar profundamente triste, de dor. Um dia ele sai do lugar onde está acolhido e se encaminha em direção ao Sul, e todos decidem que ele não pode ficar ali, mas é o psicólogo que diz: ele vai para o Sul, onde está sua mãe. Resolvem então que ele tem que ir para adoção. 

Ele será adotado por um casal Yaël (Yaël Abecassis) e Yoram (Roschdy Zem) que já tem dois filhos. Há uma cena onde Yaël é comunicada pela escola que terá que encontrar outra para o menino porque os pais tem medo que Schlomo transmita doenças aos seus filhos. Ela reage, fala o que precisa ser dito e beija, abraça, lambe o menino mostrando que é um ser humano, uma criança e que não oferece nenhum perigo.

Se apaixonará por Sara (Roni Hadar) e ela por ele e ambos terão que enfrentar o preconceito da família dela.



O filme além de mostrar a vida de Schlomo tem como pano de fundo a história de Israel também, como atentados suicidas em Jerusalém, o medo dos ataques com bombas venenosas, a assinatura dos Acordos de Oslo com Bill Clinton entre Yasser Araft e Yitzhak Rabin em 1993, e o assassinato deste último. 

O final do filme é extremamente emocionante, dolorido e belíssimo. 

Schlomo teve que viver sua vida carregando o segredo de sua origem, de sua família, usando o nome de um garoto morto com 09 anos no campo de refugiados. Ele terá que mentir, aprender sobre o judaísmo, tudo isto para viver. Enfrentará o preconceito racista entre os judeus. Até o dia que vai se abrir e dizer a verdade, então saberemos mais sobre sua história e da culpa que ele também carregava, achando que havia sido castigado pela mãe. Somente então ele vai perceber que ela o mandou embora por amor, para lhe salvar a vida. Mas apesar da dor, da separação, das lembranças traumáticas Schlomo irá aos poucos vivendo e finalmente ele poderá vir a ser, ele mesmo. 

É triste vermos que o preconceito, o racismo está no humano, inclusive no meio de um povo que foi um dos mais vitimados por isto, que também teve que fugir, adotar nomes falsos, teve que se converter forçosamente ao cristianismo para salvar a vida, e infelizmente o que vemos é que tudo se repete, mesmo entre aqueles que sofreram a mesma coisa. 

A trilha sonora é belíssima. 


Radu Mhaileanu nasceu em 1958 em Bucareste, Romênia. É judeu e está radicado na França 

Trilha sonora: Armand Amar


Every Time

Toda vez que você diz adeus
Quebra meu coração um pouco
E, para cada vez que eu fiz você chorar
Você sabe que eu morro um pouco
Porque eu te amo...
Eu te amo como o trovão ama o 
relâmpago...
Como o vento ama a chuva

Toda vez que você diz adeus
Eu vejo o amor é...
Eu vejo o amor é uma força e uma 
fraqueza
E, para cada vez que eu fiz você chorar
Eu sinto a ternura
E o amor que há entre nós

Oh quando você andando 
na sombra do vale
Oh eu vou estar andando a seu lado
Para tirar a escuridão longe

segunda-feira, 27 de abril de 2015

FILME: A DIFÍCIL ARTE DE AMAR - 1986



Direção: Mike Nichols - 1986
Duração: 108 min
Título Original: Heartburn
País: Estados Unidos 

Após assistir a Villa Amalia este filme parece vim complementar com a outra faceta feminina diante uma infidelidade.

Rachel (Meryl Streep) conhece Mark (Jack Nicholson) em uma festa e logo eles estarão casados apesar de Rachel não acreditar no casamento alegando que nunca dá certo. Mas após estar casada ela logo se acomoda na situação deixando seu trabalho de escritora de matérias culinárias para ser uma perfeita dona de casa, esposa e mãe de sua filha. Tudo parece perfeito, ela engravida de um segundo filho e é então que descobre que Mark está tendo um caso. 

Ela parte com a filha para a casa de seu pai. Mas esta decisão não é definitiva para ela que espera que Mark venha atrás dela, que se arrependa, que lhe diga que a ama. Aqui temos o primeiro ponto divergente com o filme Villa Amalia onde Ann após descobrir a traição e seu marido lhe dizer que a ama não aceita mais isto pois perdeu todo o sentido para ela. 

Rachel volta com o marido, nasceu mais uma filha, porém ela não vai demorar a descobrir que ele não deixou a outra mulher, levando-a a uma nova separação. 

Rachel assumiu um lugar de mulher de Mark, dA mulher de Mark, deixando para trás o que ela era, inclusive sua certeza de que casamentos não dão certo e aceitando se casar com ele. Se transformou na esposa e depois em mãe. Passou a cuidar de uma casa, cozinhar e ser mãe. Mark chega um momento que não suporta mais esta vida, ele que sempre foi o solteirão. Não é que não ame Rachel, mas ele não consegue viver neste cotidiano de um casamento.

O filme Villa Amalia é muito mais profundo e nos fala muito mais da subjetividade de uma mulher diante da perda do amor, da infidelidade, do lugar da mulher. Aqui Rachel ainda sonha com o amor, acredita que ao sair de casa ele vera que a ama e o quanto ela faz falta e com isto irá restabelecer o pacto ilusório. Mas Rachel irá descobrir que isto é impossível. Ao voltar ela nunca mais confiará nele, e passa a se angustiar, olhando os bolsos das roupas, sentindo o cheiro a procura da prova do suposto crime. Ele também não vai abrir mão do que deseja, mesmo que queira a família. 

Há um momento no filme que Mark diz a Rachel o lugar que ela está ocupando: - Se não estamos na casa de minha mãe porque você fala comigo como se fosse minha mãe. Este não é o lugar de mulher que Ann ocupa em Villa Amalia. 

Mike Nichols nasceu em 1931 em Berlim, Alemanha e faleceu em 2014 em Manhattan, Nova Iorque, EUA