quarta-feira, 11 de junho de 2014

FILME: O PASSADO - 2013


Direção:Asghar Fharadi - 2013
Duração: 130 min

Título original: Le passé
País: França - Irã 

Indicado para o Festival de Cannes 2013 como longa-metragem

Ahmad (Ali Mosaffa) , um iraniano, retorna à França após 04 anos a pedido de sua ex-mulher Marie (Bérénice Bejo) para oficializar o divórcio e rever as duas filhas dela de um relacionamento anterior. Logo ao chegar ele vê um menino na casa de Marie e descobre que ela vive com alguém, Samir (Tahar Rahim), um árabe cuja esposa está em coma num hospital devido a uma tentativa de suicídio.

Lucie (Pauline Burlet) a filha mais velha de Marie não aceita esta relação e vive fora de casa chegando muito tarde todas as noites. Marie pede à Ahmad que converse com ela. Aos poucos vamos vendo o drama familiar se desenrolando.

Cada um vê a história pelo seu ponto de vista, mas há muitas suposições na história na busca pela verdade que é sempre fugidia. O passado se impõe no presente e ameaça o futuro.

Marie está estressada, de certa forma deseja se vingar de Ahmad por tê-la deixado. Samir vive entre Marie e sua mulher em coma. Os filhos sofrem as consequências de tudo isto. Ahmad parece um mediador de tudo isto, mas porque aceita este papel? porque não vai embora? Mas é Ahmad que aos poucos vai desvendando e desvelando a cada um, menos a si mesmo, ficamos sem saber muito dele.

Marie não reservou um hotel para Ahmad e ele fica na casa dela. Aos poucos vão retornando coisas mal resolvidas entre os dois e ao mesmo tempo ela o envolve na situação atual. A filha Lucie no início se parece como uma filha adolescente que não aceita que sua mãe se relacione com outro homem que não aquele que ela gostaria, mas não é tão simples, depois a vemos acusar a mãe de ser culpada pela tentativa de suicídio da mãe de Fouad, e finalmente descobrimos que ela carrega um segredo e muita culpa. Fouad o filho de Samir sofre por sua mãe haver tentado o suicídio e parecer uma morta agora, e ao mesmo tempo ele está deslocado mas buscando carinho e amor o que encontra em Lea, a outra filha de Marie, já que não tem muita atenção de Marie envolta em suas questões e sem paciência e seu pai, com a chegada de Ahmad está incomodado.

Um filme que mostra a humanidade de cada um dos personagens, suas dores, raivas, ciúmes, dúvidas, vinganças. Estamos sempre pensando no outro dentro da nossa visão, e muitas vezes a verdade para o outro é muito diferente da nossa.



Asghar Farhadi nasceu em 1972 em Khomeini-Shahar, Irã. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

FILME: O MARIDO DA CABELEIREIRA - 1990


Direção: Patrice Leconte - 1990 
Duração: 82 min 
Título original: Le mari de la coiffeuse 


Ganhou o César de melhor filme


Qual o traço que nos marca e que iremos procurar sempre ao nos apaixonarmos?

Antoine (Jean Rochefort) quando criança viu uma cabeleireira com os seios a mostra, e isto o marcou, fazendo com que adorasse ir cortar os cabelos, ia mais até do que necessário. Já adulto se apaixona por Mathilde (Anna Galiena), também cabeleireira.

O objeto perdido e o traço do amor, que permanece e aparece em toda busca amorosa. O filme irá falar da descoberta da sexualidade, do erotismo, da velhice e da morte. O que faz uma mulher quando descobre o real, quando se dá conta que o traço que carrega e que faz com que o outro se apaixone nada tem a ver com ela em si mesma? mas que é algo que ficou marcado em algum momento da infância?

Vale a pena assistir.


Patrice Leconte nasceu em 1947 em Paris, França 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

FILME: EU, MAMÃE E OS MENINOS - LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE - 2013


Direção: Guillaume Gallienne - 2013 
Duração: 85 min
Título original: Les garçons et Guillaume, à table. 

Após rir muito pela comédia, que me lembra bem a Comédia Humana, vejo o filme como algo extremamente sério. Um filme brilhante que se utiliza do humor, há melhor cura? para tratar de um tema difícil, a mãe e a identidade sexual do filho, de forma sensível.

A mãe de Guillaume costumava chamar seus filhos para ir à mesa dizendo: Les garços et Guillaume, à table. Os meninos e Guillaume, à mesa. Esta é a frase que marcou sua primeira infância.

Guillaume (Guillaume Gallienne) é tratado pela mãe (interpretada também por ele) como uma menina, e ele acredita ser uma menina. Ela é autoritária, mas o ama, e ele mais ainda. Nem a intervenção do pai (André Marcon) é capaz de mudar algo. Partindo da forma como a mãe chamava os filhos ele passa a ver que é diferente "dos meninos", portanto, deve ser uma menina. Seus irmãos faziam coisas diferentes dele, nas férias viajavam com o pai, e ele não ia porque não gostava de nada do que eles faziam, segundo a mãe, e Guillaume acredita nisto tudo. Seu problema é convencer o pai que é uma menina.

Ele passa a maior parte do filme buscando se afirmar como uma menina, nunca lhe passou pela cabeça ser um homossexual até o dia que sua mãe lhe diz isto. A partir daí ele começa a se questionar, ele diz: eu não sou um homossexual, sou uma menina e por isto gosto de meninos. Mas como é do sexo masculino terá que ir para o exército. Não será aceito e o médico o aconselha a procurar um psicanalista. Ele vai à vários, conversa com suas tias, avó, numa busca de se constituir, de sua identidade. Finalmente começará a compreender e seu primeiro passo é vencer seu maior medo, o de cavalos, o que fará. Então irá a uma reunião só de mulheres, e é quando ouve a frase oposta, As meninas e Guillaume, à mesa.

Durante toda sua vida havia sido tratado como homossexual, pela mãe, pelo seu pai e seus irmãos, pelos colegas do internato, até que neste momento alguém o identifica como homem, como alguém diferente das meninas.

E nesta reunião ele conhece Amandine, e se apaixona. Agora terá que se confrontar com a mãe, que durante o filme todo lhe aparece em visões, fazendo as escolhas por ele, incentivando ou desaconselhando-o a fazer algo. É a cena mais linda do filme, quando ele diz que há duas coisas que ele precisa lhe dizer, e a primeira é que ele não é homossexual e sim heterossexual. O diz informando que irá escrever uma peça de teatro sobre uma família que criou seu filho menino como se fosse um homossexual. A mãe o questiona, pergunta pela prova de que ele seja realmente heterossexual. Sim, se toda a família o via assim, ou todos são idiotas ou ele tem que ter uma prova. Então ele compreende. O medo dela de que ele amasse outra mulher, de que deixasse aquele lugar da menina que ela desejava. A segunda coisa a dizer é que ele e Amandine irão se casar, e a mãe em seu grand finalle diz: com quem?

O bebê nasce sem ter nenhuma noção de que é menino ou menina, isto lhe vai ser passado, vai ser constituído. Começa pelo nome, pelo o que lhe dirão, a educação que lhe darão, até o momento onde a criança descobre que há diferença sexual em seu corpo, o menino é diferente da menina. Mas a maior formação desta identidade vem pela linguagem e pela identificação com um dos pais. E é aí que Guillaume se identifica com a mãe, quer ser como ela, tão bonita, tão inteligente. A mãe já tinha dois filhos e desejava uma menina e ele se identifica a este desejo e o atende, é  o seu fantasma. E a mãe aceita isto. É uma fantasia tão forte que ele não percebe que não é uma menina, só o faz quando a mãe o chama de homossexual.

A Interpretação de Guillaume nos dois papéis é fantástica, a ponto de demorarmos para perceber que é o mesmo ator. Um filme que vale a pena assistir, seja para rir muito, seja para compreender o papel que uma família tem na construção da identidade de uma pessoa.

A música final é ótima. Recomendo.


Guillaume Gallienne nasceu em 1972 em Neuilly-Sur-Seine, França.

Trilha sonora de Marie-Jeanne Serrero. 

FILME: DIVÃ - 2009


Direção: José Alvarenga Jr. - 2009
Duração: 93 min

Baseado no livro homônimo de Martha Medeiros

Mercedes (Lilia Cabral) está com 42 anos, é casa com Gustavo (José Mayer) e tem dois filhos. Tudo parece estar bem, mas ela resolve procurar um psicanalista, Dr. Lopes,  e fazer uma análise pois acha que sua vida está completa demais, perfeita demais.

Nada melhor do que uma análise para desmontar isto, e é o que ocorre. Aos poucos ela vai começar a questionar tudo e ver sua vida ir mudando. Ela vai descobrir muito sobre si mesma, seus desejos, irá fazer loucuras, e também chorar. Viverá experiências novas, questionará a rotina de sua vida, a monotonia que é seu casamento.

Mercedes vai descobrir que pode resolver suas questões sozinha, fazer suas escolhas, vai compreender os motivos destas escolhas, de suas frustrações, mas também vai saber viver o prazer e ter satisfações. Irá se libertar e aprender a conhecer seu inconsciente e a si mesma.


José Alvarenga Jr. nasceu em 1960 no Rio de Janeiro

FILME: O FILHO DA NOIVA - 2001


Direção: Juan José Campanella - 2001 
Duração: 123 min
Título original: El hijo de la novia

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) tem 42 anos e cuida do restaurante que foi de seu pai, vive sozinho, e sempre correndo, totalmente estressado. Tem uma ex-mulher que lhe cobra maior atenção para a filha e sua namorada Naty (Natalia Verbeke) que lhe solicita atenção e companhia. Sua mãe está internada, está perdendo a memória, está com Alzheimer, e ele raramente a visita. Seu pai Nino (Hector Alterio) o visita no restaurante e está com uma idéia que Rafael reluta em aceitar, ele quer realizar o sonho de Norma (Norma Aleandro) de se casar na igreja.

Com toda esta correria ele acaba tendo um enfarte. É o momento para repensar toda sua vida e ele acaba aceitando a ideia do pai sobre o casamento.

O filme nos mostra um Rafael cheio de conflitos e angústias. Ele não consegue se relacionar com as pessoas, tem dificuldade com tudo que seja íntimo, e mergulha no trabalho no restaurante, mas mesmo ali, nem tudo corre tão bem assim. Ele foge da mãe, não vai visitá-la e somente depois de muita insistência de seu pai acaba indo. Se depara com a fragilidade dela, já não é sua mãe da infância, onipotente. A morte, os conflitos não resolvidos emergem.

Vemos um Rafael ainda infantil, que aos poucos vai atravessando a dor do crescimento, da separação, de aceitar que é um ser único, solitário mas que depende dos outros. A cena quando ele pensa em vender o restaurante, e que seu pai lhe diz que foi a vida deles, mas que ele, Rafael, tem que ter a sua vida.

O casamento esbarra em dificuldades, sua mãe tem Alzheimer, não está de posse de suas faculdades mentais, mas Rafael acaba resolvendo isto, e encenam o casamento com a ajuda de um amigo.

Um filme sobre o crescimento, sobre a separação do infantil rumo para a maturidade, sobre a separação que todos nós devemos fazer dos pais simbolicamente, rompendo com o que nos ilude na infância, as fantasias, o Zorro de Rafael.


Juan José Campanella nasceu em 1959 em Buenos Aires, Argentina. 

FILME: PAIXÕES QUE ALUCINAM - 1963



Direção: Samuel Fuller - 1963
Duração: 101 min
Título original: Shock Corridor 
Filme Preto e Branco

Johnny Barrett (Peter Breck) é um jornalista que pretende ganhar um prêmio, o Pullitzer,  se conseguir descobrir quem foi o assassino de um crime que ocorreu dentro de um hospício. Para descobrir isto ele resolve se infiltrar no hospício como um doente. Se prepara, tem a ajuda de um psiquiatra.

Sua namorada Cathy (Constance Towers) é contra isto tudo, mas ele insiste e se interna. O psiquiatra que o orienta o fará se apresentar como um caso de alguém que alimenta uma paixão incestuosa por sua irmã, que no caso é Cathy quem representa este papel, indo até uma delegacia e prestando queixa contra seu "irmão". Após isto ele será internado.

No começo tudo parece dar certo, mas a convivência com outros que estão doentes e toda sua ansiedade em resolver o caso irá interferir em seu plano, e quando finalmente ele consegue saber quem foi o assassino já é tarde demais para ele, que alucina e nem consegue se lembrar do nome. Receberá tratamento de Dr. Cristo, o diretor do Hospital, inclusive eletrochoques e mergulhará na insanidade para desespero de Cathy.


Samuel Fuller nasceu em 1912 em Worcester, Massachusetts, EUA e faleceu em 1997 em Los Angeles, EUA. 

LIVRO: O SEGREDO DO ORATÓRIO - LUIZE VALENTE


Valente, Luize. Record, 2012.
317 páginas

Depois de assistir ao documentário A Estrela Oculta do Sertão de Luize Valente e Elaine Eiger fui atrás do livro para ler.

Luize transpôs para o livro o documentário, mas em forma de romance. É a história de Ioná, uma médica paraibana que vai em busca de suas origens no sertão nordestino depois que descobre que é descendente de cristãos novos.
Ioná é apaixonada por Daniel, um judeu ortodoxo e conhece Ana, uma jornalista que está no Recife acompanhando a professora Ethel que é uma especialista em Inquisição Portuguesa. Aí começa a aventura do livro pelo sertão, São Paulo e indo até Nova Iorque.

Encontramos no livro tudo que foi mostrado no documentário e um pouco mais. É muito interessante vermos que não apenas os judeus conversos, mas os brasileiros cristãos acabam adquirindo muito desta herança, seja como superstições que tenham, sejam nos ditos populares. Eu sempre gostei de descobri de onde vem os ditos, onde surgiram e porque. Neste livro descobri de onde vem o "pensando na morte da bezerra".

O livro traça o panorama desde a fuga dos conversos, sua vinda para o Brasil e depois sua nova dispersão, sendo que vários partiram com os holandeses, e destes uma nau acabou em Nova Iorque. Trata dos costumes e tradições mantidas, mas diferente do documentário, aqui a Tia Ioná sabe o que está fazendo e porque, e é esta herança que ela precisa passar para sua sobrinha-neta.

Apesar do romance ser uma ficção ele trata de um fato histórico e real e que ocorreu com muitos que são descendentes de cristãos novos.


Luize Valente 

domingo, 8 de junho de 2014

FILME: O MÉDICO ALEMÃO - 2013


Direção: Lucía Puenzo - 2013 
Duração: 93 min
Título original: Wakolda 

Baseado em fatos reais.

Após a queda do Terceiro Reich muitos nazistas fugiram para a América do Sul. A região de Bariloche era um reduto de fugitivos nazistas.

1960 - A família de Lilith (Florencia Bado) está indo para Bariloche para cuidar da Hospedaria que os pais de sua mãe deixaram. Um médico, Helmut Gregor (Alex Brendemühl), pede para seguir atrás deles em caravana para atravessar o deserto da Patagônia e depois quando chega à Bariloche se torna o primeiro hóspede deles. Aos poucos ele ganha a confiança de Lilith e de sua mãe Eva (Natalia Oeiro).

Ele observa a menina que tem doze anos e um corpo de oito anos, conversa com sua mãe e lhe diz que está no momento certo para um tratamento de crescimento. O pai é contra, e não simpatiza com o hóspede. Lilith entra para uma escola alemã, e começa a sofrer um bullying por ser menor que todos. Os meninos dão zero para seu corpo quando passa para ir à piscina. As meninas a chamam de nanica. Em função do sofrimento da filha a mãe aceita o tratamento, mas não conta ao pai. Ela está grávida, e ele começa a lhe dar vitaminas e depois passa a cuidar dela ao descobrir que ela espera gêmeos.

Para conquistar a confiança do pai Enzo (Diego Peretti) ele irá investir em suas bonecas que ele fazia artesanalmente, transformando-as em bonecas arianas, com olhos azuis e cabelos loiros e produzidas em massa. Lilith começa a sentir dores em seu corpo e ter febre, o médico diz que é normal. Na volta da viagem que fazem para ver a produção das bonecas os gêmeos nasceram e o pai já está furioso pois descobriu que sua filha vinha sendo tratada pelo médico.

A partir daí vemos o verdadeiro Helmut, que é o fugitivo nazista Josef Mengele , conhecido por suas experiências genéticas com prisioneiros em Auschwitz, conhecido como Anjo da Morte. Ele não era um médico que tratava de pessoas, mas um experimentador, louco, que usava os seres humanos para suas experiências, e que gostava muitos de gêmeos, deixando sempre um para controle de sua experiência no outro.

Eva ainda confia nele, o pai não, mas é neste momento que Eichmann é preso em Buenos Aires e Mengele tem que fugir, a fotógrafa Nora, que é uma agente de Israel é quem descobre com quem eles estão lidando. É tarde, Mengele foge, Nora será assassinada dois dias depois e a família de Enzo arcou com as consequências.

Mengele fugiu para o Paraguai e depois veio para o Brasil passando por várias cidades e vindo a falecer em uma praia de Bertioga por afogamento.

É interessante ver um paralelo entre a criação de bonecas de Enzo e as experiências de Mengele, só que Enzo está lidando com um objeto e não vidas humanas. Ele quer que a boneca tenha um coração que bata, e de certa maneira desta forma se tornar única. E esta é uma lição do filme, se aceitar, como somos. Para uma criança/adolescente é difícil enfrentar as gozações dos colegas que são cruéis, chamando de nanica, ou de gorda, ou de dois olhos e assim vai. É neste momento que os pais tem que dar suporte para isto, o que o pai de Lilith fez, mas sua mãe quis mudar o que Lilith era.

Eva vê em Helmut a lembrança de sua infância, do alemão, da escola, de sua família, ela confia nele, e foi seu maior erro. Ele não tem humanidade nenhuma, atende unicamente ao seu desejo de criar um ser puro, perfeito, corrigir defeitos, testar geneticamente possibilidades de mudanças, para criar o super homem, que era o ideal de Hitler.

Os cadernos de Mengele com as anotações sobre a família são perturbadores, causam mal estar, e ele seguiu fazendo suas experiências, nunca foi preso.



Josef Mengele 

Lucía Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina 

sábado, 7 de junho de 2014

FILME: PEQUENAS HISTÓRIAS - 2008


Direção: Helvécio Ratton - 2008 
Duração: 79 min

Numa varanda de uma casa do interior uma mulher (Marieta Severo) costura uma toalha feita de retalhos coloridos com os personagens de várias histórias que ela nos conta a medida que vai aumentando um ponto no trabalho. São histórias infantis ou locais principalmente de Minas Gerais.

São elas: o marido da mãe d'água, Procissão das almas, um natal feliz e a história de Zé Burraldo.

O marido da mãe d'água é sobre Tiburcio um pescador que encontra Iara a mãe d'água. A Procissão das almas é sobre um menino que vive ligado na internet e de repente é escolhido para ser o novo coroinha da Igreja, não querendo decepcionar a mãe, lá vai ele aprender, mas o que houve o deixa aterrorizado. Já um natal feliz é sobre um papai noel que mesmo não tendo nada acaba fazendo a alegria de um garoto pobre e finalmente o Zé Burraldo, que o nome já o diga, mais burro impossível, mas um sujeito de bom coração e seu burro.

A cada história se dá um ponto, e se tece a vida. Um belo filme não só sobre nossos contos, artesanato, mas também de como a vida vai se tecendo desta forma, e a cada vez que recontamos a história também aumentamos um ponto. É considerado um filme infantil, mas que qualquer adulto vai se deliciar.

Elenco: Patrícia Pilar, Maurício Tizumba, Gero Camilo, Paulo José, Miguel de Oliveira,Constantin de Tugny.

A criação da toalha bordada é de Betânia Santos.
A História de Zé Burraldo é inspirado no conto de Ricardo Azevedo.

Tem o site do filme: http://www.pequenashistorias.com.br/



Helvécio Ratton nasceu em 1944 em Divinópolis, Minas Gerais

DOCUMENTÁRIO: RAÍZES DO BRASIL - Uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda - 2003


Direção: Nelson Pereira dos Santos - 2003 
Duração: 148 min 

Cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda

O filme se divide em duas partes. Na primeira vemos o universo afetivo do historiador. Seus sete filhos, sua esposa Maria Amélia, seus netos. Os locais onde viveu, e seu escritório, um lugar sagrado onde ninguém entrava, mas a porta estava sempre aberta. Há o relato de como ele era um apaixonado por livros, e paixão com toda sua força, capaz de fazer loucuras para ter os livros, como deixar de pagar  o aluguel, ter a ajuda da empregada para pegar os livros pela cozinha e voltar para entrar pela porta da frente, deixando a todos mais tranquilos, pois não havia comprado livros. Engraçado, pois eu durante um tempo fiz exatamente a mesma coisa contando com a ajuda da Maria que trabalhava em casa que levava os livros e os deixava em minha janela do quarto. Assim minha família não os via. Só que minha biblioteca é extremamente modesta ao lado da de Sérgio que no final tinha dez mil volumes, mas poderia ter chego a quarenta mil volumes não fosse o fato dele fazer doações e dar de presente os livros.

Na segunda parte temos o cenário histórico do Brasil onde ele viveu e as falas de seu livro Raízes do Brasil lidos por filhos e netos. Fala-se de seus amigos, da boêmia, de seus cargos em instituições, viagens, da alegria que sempre o acompanhava. Era um homem muito sério na intelectualidade, mas com muito bom humor e divertido. Esta parte é uma cronologia de sua vida intelectual e pessoal, e como pano de fundo temos os acontecimentos históricos do Brasil.

Sérgio nasceu em São Paulo em 1902. Foi jornalista, escritor, historiador, sociólogo. Um grande leitor e também escrevia  e nestes momentos algo se apossava dele, como uma febre. Casou-se com Maria Amélia (Memélia) e teve sete filhos, entre eles Chico Buarque e Miúcha. Faleceu em 1982 em São Paulo. Viveu também uma parte de sua vida no Rio de Janeiro. Era carinhosamente chamado de Papyoto pelos filhos e família.

Nelson Pereira dos Santos em 1928 em São Paulo, Capital. Considerado um dos maiores cineastas brasileiros.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FILME: CAFUNDÓ - 2005


Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti - 2005 
Duração: 102 min

Baseado na história real de João Camargo, um ex-escravo que viveu em Sorocaba -SP no fim do século XIX  e inicio do XX, era um preto velho milagreiro, mas apesar de sua simplicidade era muito complexo. 

João Camargo (Lázaro Ramos)  é um escravo liberto que tem sede de viver, mas o fim da escravidão não traz prosperidade para os negros, e ele terá que passar por trabalhos pesados, irá para a guerra, lutará para sobreviver, mas encanta-se com a cidade, suas cores, sua alegria, suas festas e mulheres. Leva sua mãe para viver junto a outros negros e volta, conhece Rosario (Leona Cavalli) e se casa com ela, mas ela não se acostuma a vida simples de João. Em uma ida à cidade eles dão de encontro com o que chamam de Peste, mas é a febre amarela. João corre ver sua mãe, mas ela está morrendo. Na volta encontra Rosario com outro homem. Ele a expulsa, passa a beber, perde o rumo de sua vida.

Um dia após beber muito ele cai, e tem uma visão com o padre da cidade, que lhe diz que ele tem uma missão, a de curar as pessoas. João já havia tido visões antes, até mesmo Rosario parece algo misterioso. Ele ouvia vozes. A partir deste momento sua vida toma outro rumo, ele se volta para a espiritualidade, constrói uma igreja para Nosso Senhor do Bonfim, mas acolhe nela todos os santos, mas também entidades da Umbanda, espíritos, e até mesmo símbolos judaicos. Ele acredita que pode curar e passa a fazê-lo. Claro ,irá enfrentar o desagrado da igreja católica e dos que são racistas e não gostam destes rituais, ou do espiritismo.

O filme retrata o sincretismo religioso do Brasil, onde o povo se apega a todos os santos e também às oferendas, rezas, poções, óleos, ervas. A parede da igreja está coberta de ex-votos, mas também de pedidos. Mostra que naquela época havia uma divisão entre a religião dos brancos e a dos negros, há santos para ambos, e há locais no Brasil onde haviam igrejas católicas para negros e outra para os brancos. Além do contraste entre o bem e o mal, a todo momento surgem cenas que se referem a isto, como a mulher que foge com seu amante e ele correndo atrás com um chicote e a aparição de uma igreja.

O Brasil se formou com os índios, afros e portugueses, e há também aparições no filme de um índio, mas o forte é mesmo a mistura que se concretiza de todas as crenças num povo de fé.

João de Camargo teve uma vida difícil, primeiro em uma senzala como escravo, depois se deparou com um mundo que não conhecia e que o encanta. Era ingênuo, simples, não conseguia usar as botas da farda de soldado, preferia andar descalço. Não sabia ler, tinha que sobreviver. Apaixona-se e é traído, perde a mãe, e entra em depressão e cai no alcoolismo. Ouvia vozes, tem visões, e acredita nelas. A força da crença e da fé.

Cafundó significa um lugar de difícil acesso, um mundo além, longe, o fim do mundo como diz o menino no filme . Um lugar imaginário.Existiu um lugar no Estado de São Paulo que se chamou Cafundó, que era uma comunidade de negros libertos. Eles receberam esta terra para morar, desde que não saíssem de lá. Foram enviados para o Cafundó, onde quase não se vai. A expressão popular nos cafundós de judas é para se referir a um lugar perdido, muito longe, difícil de se chegar. Mas o cafundó também pode estar dentro de si mesmo, um lugar perdido que pode proporcionar experiências místicas, iluminações. No filme o Cafundó é a África, pelo tipo de casas construídas, os rituais, é a mãe.

A mãe de João era uma curandeira, ela conhecia os segredos das ervas e rezas. O interessante é que ela coloca pedras na cruz do menino Alfredinho, o que seria um costume judaico.Um filme que nos mostra a imensa riqueza do Brasil em termos de cultura, rituais, crenças, e da nossa capacidade de crença e fé, e de como mesmo diante de situações difíceis sempre há uma maneira de se falar com o divino, não importa a via que se use. João adere ao sincretismo afro-indigena-católico-judaico. Tornou-se após sua morte com 84 anos uma lenda. Seu enterro foi um dos mais concorridos de Sorocaba.

O filme foi rodado em quatro cidades do Paraná em torno de Ponta Grossa.



Clóvis Bueno nasceu em 1940 em Santos, Brasil








Paulo Betti nasceu em 1952 numa zona rural de Rafard, interior do Estado de São Paulo, Brasil. Mudou-se ainda durante a infância para Sorocaba. 

LIVRO: TODAS AS CORES DO MUNDO - GIOVANNI MONTANARO


Montanaro, Giovanni. 1ª ed. Objetiva, 2014
142 páginas
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
Título Original: Tutti i colori del mondo.

Gheel é uma pequena cidade no Norte da Bélgica que tem uma característica que a diferencia de todas as outras, ela acolhe em suas casas os loucos que levam uma vida muito diferente do que se fossem internados em manicômios ou hospícios. Esta história se passa no século XIX em 1881, é uma ficção, apesar de que os trechos das Cartas de Vincent Van Gogh estão em seu livro de Cartas para Théo e ele realmente cita a cidade.

Montanaro então imagina um período da vida de Van Gogh que o teria levado a se tornar um pintor, o que ele não foi logo de início, só passando a pintar mais tarde em sua vida. Como o pintor também era uma pessoa difícil, nunca constituiu uma família, tinha muitas dificuldades em relacionamentos humanos, vivia buscando algo que não encontrava e acabou se suicidando, nada como a passagem por Gheel, esta cidade que costuma acolher os loucos, como o ponto de início para sua arte.

Lá vive Teresa Sem Sonhos, este é seu nome, ela nasceu de uma mãe louca que ali vivia, não sabiam quem era seu pai, e ela foi acolhida por duas famílias, sendo que a segunda a declarou como louca para poder receber a ajuda do Estado que era concedido a cada família que abrigava um doente. Porém, Teresa não era louca. Sonhava em se casar com Icarus, que estudava os mineiros para escrever um livro, até a chegada de um estranho à vila, alguém chamado Vincent.

Teresa irá se apaixonar por Van Gogh e os poucos dias que passará ao lado dele modificará para sempre sua vida, mas também mostrará a ele o mundo das cores. Anos depois, Teresa irá escrever ao Senhor Van Gogh numa tentativa de colocar ordem no caos onde vive.

Um belo livro sobre almas aprisionadas, seja a de Vincent ou a de Teresa, ou de muitos que buscam algo e não encontram, ou como diz Vincent, são sem pátria, não sabem onde viver para estar bem. De pessoas que não seguem as normas sociais, que almejam mais para suas vidas, mas se defrontarão com o preconceito, com aqueles que querem colocar as coisas nos seus lugares, mas de acordo com o que eles acreditam, tolhendo a liberdade do outro e demonstrando a intolerância com tudo e todos que se diferenciem do que eles consideram ser o normal.

Giovanni Montanaro nasceu em 1983 em Veneza, Itália. 



Gheel se tornou uma vila que acolhia aos loucos devido uma lenda sobre Santa Dimphna. Uma filha de um rei irlandês que precisou fugir de seu pai após a morte de sua mãe. O rei era muito apaixonado pela esposa, e viu na filha a mulher que perdeu, quis casar com ela, mesmo sendo incesto, mas Dimphna não quis e fugiu, foi se esconder em Gheel onde o rei a encontrou. Ela preferiu a morte ao incesto. Como ela enfrentou seu pai e o seu desejo diabólico passou a ser uma Santa que protegia os loucos. A loucura era considerada uma possessão e o rei foi considerado como possuído pelo diabo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

FILME: A MONTANHA MÁGICA - 1982



Direção: Hans W. Geissendörfer - 1982 
Duração: 153 min. 
Título original: Der Zauberberg 
País: Alemanha 

Baseado no romance homônimo de Thomas Mann 

Não é tarefa fácil filmar um livro tão denso e repleto de diálogos como A Montanha Mágica. Realmente, apesar do filme conseguir condensar o livro com suas principais passagens, ainda assim a riqueza dos diálogos, do amadurecimento de Hans Castorp não é captado em sua plenitude no filme, o que não faz com que o mesmo tenha menos mérito e deve ser assistido.



Hans Castorp (Christoph Eichhorn) é um jovem que acaba de se formar em engenharia e antes de assumir seu novo posto vai visitar seu primo que está internado em um sanatório em Davos. Joachim (Alexander Ziemben) tem tuberculose e está em tratamento, já em recuperação e não vê o momento de poder voltar para a Alemanha e ser um oficial no exército. Castorp vai para ficar três semanas, mas irá ficar sete anos.



No filme sentimos a falta dos diálogos entre os dois primos, que são muito enriquecedores, seus passeios pela montanha e pela vila. Castorp irá conhecer Settembrini (Flavio Bucci) um humanista e idealista que muito lhe ensinará, mas não será apenas ele, temos também Naphta (Charles Aznavour) um jesuíta revolucionário e Peperkorn (Rod Steiger).

Ele adoecerá, e conhecerá o amor, apaixonando-se por Clawdia Chauchat (Marie France Pisier), a sexualidade, verá a morte de frente, mas ao mesmo tempo ele se isola do mundo ali. Aos poucos ele formará seus próprios pontos de vista e terá uma nova percepção do tempo, de sua passagem, muito diferente do que se estivesse na cidade onde vivia. Afinal o que é o tempo lá em cima? o sentimos passar? ou não?

Os diversos personagens encarnam as várias ideologias do momento, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial e as psicologias do ser humano deste contexto. Por outro lado há um questionamento sobre o que é a doença, sobre o corpo e a somatização. De como muitas vezes desejamos esta doença, o que ela pode nos trazer que não percebemos ou não queremos admitir.

No final estoura a primeira guerra, todos devem deixar o sanatório, exceto os muito doentes.

Para quem já leu o livro é interessante ver o livro no filme, os lugares, os personagens, tudo que imaginamos e criamos na mente durante a leitura. Para quem ainda não leu o livro o melhor é lê-lo para ter acesso a todos os diálogos que são riquíssimos e que no filme seria muito longo e difícil de colocar.



Hans W. Geissendorfer  nasceu em 1941 em Augsburg, é um diretor alemão

domingo, 1 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: A ESTRELA OCULTA DO SERTÃO - 2005



Direção: Elaine Eiger e Luize Valente - 2005 
Duração: 85 min 

O documentário conta com a participação da historiadora da USP Anita Novinsky especialista em inquisição no Brasil, de Paulo Valadares, genealogista e de Nathan Wachtel, antropólogo do Collège de France.

A ideia de realizar o documentário surgiu quando as diretoras leram um artigo no jornal sobre um rabino americano que estivera numa vila chamada Venha Ver que tem menos de 800 habitantes e se situa no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O rabino constatou que a população local mantinha costumes que não eram cristãos, mas que eram notadamente judaicos, apesar de já terem caído em desuso no judaísmo. Esta constatação revelou que ali moravam descendentes de cristãos-novos conhecidos como marranos.

Durante a perseguição pela inquisição inicialmente na Espanha promovida pelos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão e depois com a instituição do santo ofício em Portugal, muitos judeus foram forçados a se converterem ao cristianismo. Em Portugal no tempo de Dom Manuel sequestravam seus filhos para serem criados por cristãos, o que obrigava aos judeus a se converterem. Isto foi antes da conquista do Brasil.

Quando ocorreu a conquista do Brasil pelos portugueses muitos cristãos novos vieram para cá, e mais tarde com a invasão holandesa também, uma vez que muitos judeus convertidos fugiram depois para os países baixos. Há documentação sobre isto até o fim da inquisição, depois mais nada. Eles se dispersaram pelo país, mas o maior núcleo é no Nordeste.

O documentário nos mostra Luciano Oliveira, um médico da Paraíba que busca suas origens, e também João Medeiros, um engenheiro aposentado de Natal e Odmar Braga um policial negro de Pernambuco. O que aproxima estes três é o fato de serem descendentes de cristãos novos. Os três nasceram de famílias nordestinas no sertão que são cristãs, mas tem costumes e práticas judaicas.

Venha Ver é uma pequena vila onde praticamente todos são parentes. Os casamentos ocorrem entre primos e tios e sobrinhas, caracterizando a endogamia. Uma visita ao cemitério é um encontro com todos os parentes mortos, ali é a avó, lá a tia, aqui o primo, mais adiante o avô. Quando alguém morre lava-se o corpo, cortam-se as unhas a noite, e o corpo é envolvido na mortalha costurada ali mesmo com pontos largos e soltos. Usam o caixão para transportar o morto até o túmulo, mas são enterrados diretamente na terra. É necessário jogar fora as águas da casa quando alguém falece.

A maneira de varrer uma casa, não comer carne de porco, a maneira que se sacrifica o animal para comer, como é feito o corte do pescoço da galinha e o sangue que tem que ser tirado, uma vez que o sangue representa a vida e não se come a vida. Colocar pedras nas cruzes em túmulos, todos costumes judaicos.

Mas e Dona Cabocla que tem um altar com 26 santos? uma cruz na porta, mas também mantém todos estes costumes? E o padre de Seridó extremamente católico mas que se apresenta como um judeu da diáspora?

Nenhum deles tem lembrança de uma ancestralidade judaica, só sabem o que fazem. A herança psíquica, o que se faz inconscientemente sem saber por que o faz. Minha mãe fazia, minha avó fazia, isto vai se perpetuando. O Oratório, algo cristão mas que tem um símbolo judaico. Rezar para os santos, mas também para a lua nova. Por que ninguém se questiona por que faz aquilo? por que está enraizado, está no inconsciente, e se faz e nem se percebe que se faz. E em uma comunidade onde todos são parentes e agem igual, não há como perceber também estas diferenças, de como um cristão enterra um morto da forma como eles o fazem. Eles se espelham entre si.

Aos poucos, pessoas como Luciano passam a se questionar, e ir em busca destas raízes, querem ser reconhecidos como judeus, uma questão de identidade, já para outros são questões históricas e para Dona Cabocla é algo inconsciente.

Luciano vai em busca e se confronta com o judaísmo ortodoxo e percebe que não basta ser descendente. Primeiro, a descendência se dá pelo lado materno. Depois a questão dos judeus convertidos é delicada, os judeus não aceitam o retorno, muitos dizem que tem que morrer judeu. É preciso se converter para ser judeu, não apenas retornar. Na época quando ocorreu a perseguição na Península Ibérica não se aceitava que os judeus se convertessem ao cristianismo, mesmo que isto significasse sua vida ou de sua família, era considerado uma traição pelos judeus.
A questão é sobre ter que se converter, mas a conversão é para quem não é judeu se tornar um. O que Luciano busca é o retorno, é o reconhecimento de suas raízes. A conversão para ele seria como negar todo o passado, ser considerado como um judeu convertido, que inicia neste momento sua história judaica.

Novamente vemos aí questões de fé, preconceito, tolerância, aceitação. Para Luciano é importante o reconhecimento do outro, para Dona Cabocla basta ser o que ela é.

Uma ressalva para a belíssima canção cantada por Fabiane Araujo - Hatikvah no final do documentário.

Um documentário importante que revela sobre o Brasil, sua formação e sua constituição, trazendo a tona as origens de muitas práticas que são inconscientes.


Hatikvah - Esperança - Hino Nacional de Israel.

Elaine Eiger nasceu em São Paulo
Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro 

DOCUMENTÁRIO: OS CADERNOS SECRETOS DE NUREMBERG - 2006



Direção: Jean-Charles Deniau - 2006 
Duração: 52 min 

Baseado nos cadernos de Leon Goldensohn 

Leon Goldensohn foi o psiquiatra americano que acompanhou os criminosos nazistas durante o julgamento de Nuremberg. Ele tinha na época 34 anos e era judeu. Visitava diariamente os presos e conseguiu que falassem. O Documentário relata as entrevistas realizadas com Hermann Göring, Rudolf Höss, Hans Frank e Julius Streicher possibilitando pela primeira vez uma visão do psiquismo e da mente destes criminosos.

Quando o julgamento terminou Goldensohn voltou para a América, após sua morte sua esposa não se deu conta da importância destas anotações e os cadernos se dispersaram sendo recuperados novamente somente em 2004 quando vieram à luz. A Companhia das letras editou o livro com as entrevistas.

É impressionante a constatação de que não há culpa nem arrependimento. Como pode? A primeira questão é que não podemos olhar para estes criminosos como monstros com problemas mentais, loucos, mas sim, como um ser humano como todos nós somos. Eles não são uma aberração fora de tudo, pelo contrário, o mais chocante e preocupante é que são pessoas como as outras, e isto nos leva a pensar que não basta eliminar estes e descobrir quais são as características do monstro para que não haja repetição da barbárie, isto pode se repetir a qualquer momento em qualquer lugar.

Mas a compreensão do que leva um ser humano comum a agir desta forma é o que pode mudar algo e ajudar a evitar repetições.

Como é possível que um povo que vem da terra de Goethe, Nietzsche, Schopenhauer, Thomas Mann entre tantos outros, grandes músicos, filósofos, escritores, cientistas, produziram esta monstruosidade?

Todos eram bons pais, maridos, vinham de famílias comuns, alguns tinham nível superior, e todos fizeram o teste de QI e foram considerados de inteligência superior. Então como foi possível? Como é possível que um  homem ou mulher seja um ser amoroso com sua família, filhos e se transforme num monstro cruel, assassino com outros?

Poderia se falar em esquizofrenia? Não é o caso deles. Todos nós temos o bom e o mau dentro de si mesmo e há sempre um gatilho para detonar este lado cruel, mau, mas o casos destes criminosos parece ainda ser mais complexo, a impressão que se tem é que eles aboliram a fronteira entre o bem e o mal. Não é uma questão de ter os dois e eles atuarem em algum momento conforme o contexto, mas sim, uma simultaneidade dos dois, não há fronteira dividindo, estão juntos atuando ao mesmo tempo. Estamos acostumados a pensar em opostos, mas ali é o simultâneo.

Um outro ponto que chama muito a atenção é a obediência cega e a necessidade do ideal de perfeição. Era uma necessidade eliminar os judeus e temos que fazê-lo de forma eficaz, era meu trabalho. Como pode um pai que chega em casa e abraça, brinca com seus filhos, mandar crianças para a morte? Era seu trabalho e precisava ser bem feito.

Não há moral neste trabalho, não há perguntas, simplesmente se cumpre a ordem e se fica satisfeito se foi eficaz. Como pode um ser humano chegar a isto? Eles eram funcionais com um supereu que ditava o ideal de perfeição sem moral, sem perguntas, faça e bem feito. Por outro lado eram egocêntricos, como Göring, vaidoso, narciso, que a tudo transformava num espetáculo para se promover, inclusive o julgamento.

Os outros são levados a agradar ao líder, desejam seu reconhecimento, desejam o elogio, como qualquer criança o faz em relação ao seu pai, ou sua mãe. Hitler era um pai.

O anti-semitismo não foi criado pelo nazismo, sua história retorna ao passado. Todo outro é um estranho, assusta, se transforma num bode expiatório para todos os males que afligem. Sempre há a tendência de expulsar o estranho, segregá-lo. A grande dificuldade de conviver com o diferente que leva  ao desprezo do outro, condenando sua cultura e modo de ser.

Os nazistas se consideravam puros, uma raça superior, queriam purificar o território deles incluindo os conquistados. Formados numa obediência servil, disciplina, humilhados pela perda da Primeira Guerra, o sistema patriarcal desmoronado, e desejando agradar ao imenso pai que os salvava, lhes restituía a honra, o lugar, eles não sentem culpa pelo o que fizeram, pelo contrário, acreditam que estavam certos.

O que se percebe ao longo das entrevistas é a racionalização do crime. Obviamente que os presos também tinham em mente salvar suas vidas, mas é notório  a falta de remorso ou culpa, a alegação de que cumpriam ordens, e que eles pessoalmente nunca assassinaram ninguém, eram outros que faziam isto, mas eles assinaram as ordens. Muitos alegavam que não sabiam do que acontecia, que não sabiam do extermínio. Ainda hoje há pessoas que alegam que tudo isto foi uma invenção dos que venceram a guerra. A força da negação que chega ao delírio.



Leon Goldensohn 

Jean-Charles Deniau é francês