domingo, 9 de março de 2014

FILME: IMPÉRIO DO SOL - 1987



Direção: Steven Spielberg - 1987 
Duração: 152 min 
Título original: Empire of the sun

Baseado no romance semi-autobiográfico de J.G. Ballard

Como estou lendo um livro de Ballard acabei me interessando por este filme que é baseado na vida do autor, em sua experiência durante a segunda guerra mundial.

James Graham (Christian Bale) vive em Xangai com seus pais na colônia Britânica quando os japoneses invadem a cidade. É o ano de 1941 durante a Segunda Guerra Mundial. Ele irá se perder de seus pais durante a fuga de terá que enfrentar a guerra e o campo de prisioneiros japonês sozinho, tendo que usar de meios a artimanhas para sobreviver até a libertação e reencontro com seus pais.



No início do filme Jim é um menino mimado, filho de pais ricos, colonizadores num país onde se colocavam à parte dos nativos. Os chineses lhes sorriam, mas percebia-se ali o ódio latente ao colonizador. Quando os japoneses invadem o garoto acostumado a ter todas suas vontades realizadas começa a ver outra realidade. Ele vive numa ilusão que lhe foi dada pela vida que tinha, ao ponto de não considerar o perigo e o drama do momento em que fugiam e por isto, ao se abaixar para pegar seu aviãozinho de brinquedo ele se perde de sua mãe.

Nos primeiros momentos ele ainda acredita  ser superior, filho de pai importante, dono de uma fábrica de tecidos, diz a todos que serão bem recompensados por seu pai se o ajudarem, até que ele terá que ver que a realidade é outra. Já não há ninguém para protegê-lo, nem tem importância quem você é ou conhece.



Ele será obrigado a crescer e bem rápido diante da dureza e dos perigos da guerra e sofrerá as consequências deste amadurecimento forçado e o fim de suas ilusões infantis que é bem representado no filme através da metáfora de lançar sua mala no rio, a mala onde estavam seus recortes, suas lembranças de uma infância feliz e num mundo onde nada lhe faltava e onde ele podia tudo.

Jim vai para um campo de prisioneiros e ali conhecerá Basie (John Malkovich) que o ajuda, mas também o explora. O Dr. Rawlins (Nigel Havers) que é o médico do Campo que tenta fazer com que Jim mantenha algum contato com livros e a Senhora Victor (Miranda Richardson) que será a única mulher com quem ele convive dos 11 aos 14 anos. 

Ao final do filme Jim é outro, seu olhar, a dor que carrega, as marcas no rosto, por tudo que viveu e passou. Mas foi valente e soube sobreviver em tudo isto, e provavelmente por ter uma sustentação interna de amor e segurança que lhe foi oferecida na infância. O reencontro com sua mãe é a cena mais bela do filme, o reconhecimento dela tocando-a até lhe dar o abraço pelo qual ele tanto ansiou.



Steven Spielberg nasceu em 1946 em Cincinnati, EUA. 




James Grahan Ballard 

LIVRO: EU, UM OUTRO - IMRE KERTÉSZ



Kertész, Imre. Editora Planeta do Brasil , 2007
Tradução: Sandra Nagy
173 páginas
Título original: Valaki Más. A változás Krónikája

Eu, um outro é uma reflexão sobre quem sou eu que Kertész desenvolve ao longo destas páginas após terem se passado 40 anos desde que sobreviveu a Auschwitz.

Ele narra seu cotidiano, suas viagens ao mesmo tempo que analisa quem é ele agora, após tudo que viveu e ao que sobreviveu. É um constante perder-se para se reencontrar, mas sempre um outro.

Carregamos um passado que se atualiza, mas também vivemos novas experiências, conhecemos lugares e pessoas, e vamos nos transformando no decorrer da vida. Mesmo as experiências mais amargas, duras, tristes nos transformam em um outro quando depois de vivermos o luto, a passagem, a vida nos acena novamente e nos chama para continuar a viver.

A vida é uma história de mortes, e isto é fato, morrer para algo, mas continuar vivo para outras coisas. A felicidade como idílio não existe, mas os momentos felizes sim. E apesar de toda a dor que Kertész carrega em si mesmo ele também consegue ver a vida pulsando e construir um sentido para si mesmo.


Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste. Foi deportado para Auschwitz e Buchenwald. Ganhou o prêmio nobel de literatura em 2002.

sábado, 8 de março de 2014

FILME: O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA - 2006


Direção: Kevin MacDonald - 2006 
Duração: 122 min. 
Título Original: The last king of Scotland 
Roteiro: Peter Morgan e Jeremy Brock 
País: Reino Unido

Baseado no livro de Giles Foden

A história sobre Idi Amim Dada ditador de Uganda de 1971 à 1979 é baseada em fatos históricos e verídicos, mas é relatada por um médico fictício.

Nicholas Carrigan (James McAvoy) acaba de se formar médico, mas ao invés de ficar na Escócia e seguir a carreira ao lado do pai decide que vai para outro lugar. Roda o globo terrestre com a decisão de onde parasse seria o local para onde iria. Primeiramente para no Canadá, mas ele resolve rodar novamente e cai em Uganda, na África.

O país acaba de sofrer um golpe de estado e Amim (Forest Whitaker)  assumiu o poder. Inicialmente é ovacionado pelo povo que o recebe de braços abertos. Nicholas está em um lugar no interior trabalhando com outro médico quando Idi Amim vai fazer uma visita ao local e sofre um acidente machucando a mão e é socorrido pelo jovem médico. Após isto o ditador o convida para ser seu médico pessoal e ele apesar de relutante acaba aceitando e se vê sendo eleito conselheiro pessoal do presidente.



A juventude e a vontade de viver novas experiências deixam Nicholas cego no início. Acredita que Uganda tem um bom presidente e que está se libertando do jugo dos britânicos, os quais o médico como escocês não aprecia muito, e por isto se recusa a ajudá-los com informações. Mas aos poucos ele irá percebendo que nem tudo é flores, e que o ditador está eliminando qualquer um que se oponha a ele, e também é um tanto quanto insano e infantil. Quando percebe que deve ir embora é impedido e tem seu passaporte confiscado. Ele está retido ali.

O pior virá quando Nicholas se envolver com uma das esposas de Amim, o que levará a ela à morte e ele sofrerá o castigo ancestral de ser pendurado pela pele para que a maldade saia de seu corpo. Isto ocorre no aeroporto enquanto reféns de um sequestro estão ali. Um avião está para decolar levando parte dos reféns e com a ajuda do outro médico ele consegue embarcar e fugir para poder falar ao mundo o que está acontecendo ali.

O filme mostra um lado mais humano de Amim, deixando para o final do filme o sanguinário ditador que ele foi. Durante seu regime é estimado que ele tenha matado em torno de 300 mil a 500 mil pessoas. Exilou-se na Arábia Saudita e faleceu em 2003.


Kevin MasDonald nasceu em 1967 em Glasgow, Escócia, Reino Unido.

Trilha sonora de Alex Heffes

Alex Heffes nasceu em 1971 em Beaconsfield, Buckinghamshire, Inglaterra. É um compositor

FILME: HOTEL RWANDA - 2004


Direção: Terry George - 2004 
Duração: 121 min
Roteiro: Terry George e Keir Pearson
País: Reino Unido 

O filme é sobre a guerra civil em Ruanda e sobre a história real de  Paul Rusesabagina, gerente de um hotel que acolheu no Hotel mais de 1200 pessoas salvando-lhes a vida no genocídio de 1994.

O Hotel Mille Collines ficava em Kigali, capital de Ruanda e era de propriedade da empresa belga Sabena.

Paul (Don Cheadle) é gerente do Hotel e é da etnia Hutu casado com Tatiane (Sophie Okonedo) que é tutsi. Esta diferença foi criada pelos belgas durante a colonização do país diferenciando os habitantes através de detalhes como o tamanho das narinas, por exemplo, criando assim dois grupos e dando cargos e poderes a um deles o que geraria o ódio do outro grupo e resultaria nesta guerra civil que começa logo após a assinatura de um acordo de paz e o assassinato do presidente de Ruanda em um atentado. A única maneira de diferenciar as duas etnias era através de seus documentos.

Os hutus iniciam o genocídio matando todos os tsunis que encontram que eles chamavam de baratas e principalmente as crianças para evitar que se propagassem. Paul inicialmente tenta proteger sua família, mas ao ver que foi abandonado por todos que lhe diziam ele ser um igual aos ocidentais, passa a acolher todos que procuram proteção e ajuda no hotel.



O filme é triste, chocante, e nos faz pensar no que leva o ser humano a tanta crueldade, a sentir tanto ódio do outro. Apenas um pequeno grupo da Onu permanece no país, todos os outros se retiram e nenhum país tem interesse em ajudar, como se diz no filme: esta guerra não lhes rende votos.

Finalmente com a ajuda da Onu eles conseguem atravessar a linha entre os hutus e os rebeldes tsunis e de lá partem para a Tanzânia. Atualmente Paul e sua família e suas duas sobrinhas que perderam seus pais no genocídio vivem na Bélgica.




O conflito durou cem dias e deixou atrás de si aproximadamente milhão de mortos, e o mundo virou as costas, não fez nada para impedir.


Paul Rusesabagina


Terry George nasceu em 1952 em Belfast, Irlanda do Norte,  Reino Unido. 

LIVRO: O CORPO EM QUE NASCI - GUADALUPE NETTEL



Nettel, Guadalupe. Rocco, 2013
Tradução: Ronaldo Bressane
222 páginas
Título original: El cuerpo en que nací

Um livro autobiográfico escrito pela mexicana Guadalupe Nettel. Ela nasceu com um problema no seu olho direito, uma mancha de nascimento em cima da córnea do olho. Inicialmente seus pais farão de tudo, mas ela não pode ser operada enquanto não crescer, então terá que fazer exercícios com seu olho usando um tampão o que para ela é um suplício, mas que enfrenta sem nunca ter tido a ideia de retirá-lo assim que ficasse fora de vista de seus pais.

Nettel irá nos contar sua infância e sua adolescência com seus pais e seu irmão. Anos setenta em plena liberação sexual onde se experimentava de tudo tanto no campo sexual, ou fumar maconha e a liberdade dentro de um regime de ditadura política. Seus pais acabam separando-se e ela ficará com a mãe junto com o irmão. Irão morar na França onde se sentirá uma outsider e depois retornam ao México onde finalmente sua mãe decidirá por tentar a cirurgia para retirar a mancha do olho, o que não será possível uma vez que a catarata que se formou grudou na retina tornando a cirurgia extremamente arriscada.

É neste momento que finalmente Nettel poderá se assumir com sua diferença e aceitar o corpo em que nasceu como seu, com suas alteridades.

O livro é belo, questiona sem mágoa ou acusações o que é ser diferente, seja no corpo ou na nacionalidade, nos costumes, na língua. Ela olha para os outros com suas limitações e diferenças as indicando, mas em momento algum há preconceito ou racismo nestas suas observações. E acaba questionando o que é ser normal? Se compara a Gregor Samsa numa alusão à Metamorfose de Kafka, em sua crítica de ter que atender aos outros e ao que os outros esperam dela.

O relato todo se passa em sessões com sua psicanalista que em momento algum se pronuncia, apenas ouve. Um longo processo de análise que a leva a assumir seu corpo com suas particularidades, mas também a ela mesmo com sua alteridade.

Guadalupe Nettel nasceu em 1973 na Cidade do México, viveu em Paris, Barcelona e Canadá.

segunda-feira, 3 de março de 2014

LIVRO: A MULHER TRÊMULA ou uma história dos meus nervos - SIRI HUSTVEDT



Hustvedt, Siri. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Celso Nogueira
204 páginas
Título original: The Shaking woman - Or a history of my nerves

Dois anos e meio após a morte de seu pai a escritora Siri Hustvedt discursou em homenagem à seu pai em sua cidade natal no campus da Faculdade St. Olaf em Minnesota. Durante seu discurso ela sofreu uma crise, começou a tremer, do pescoço para baixo, mas sua fala permaneceu inalterada o que lhe permitiu terminar o pronunciamento.

Este episódio não será o único, vindo a se repetir o que fará com que Siri inicie uma busca para tentar compreender o que lhe ocorria. Compreendo-a bem, esta necessidade intelectual de entender, se não levar à cura pelo menos sei o que se passa comigo. Isto a leva a um percurso tanto em médicos, psiquiatras e psicanalistas como também uma busca intelectual através de livros e pesquisas sobre o tema.

É sobre este percurso que ela nos fala no livro e sobre tudo que aprendeu. Ela irá buscar tanto nas teorias psicanalíticas como também na neurociência uma explicação, indo além, levantando questões sobre a mente/cérebro, estudando casos de outros doentes, participando de encontros e palestras, e sendo voluntária num hospital psiquiátrico dando aulas de redação para os internados.

Ela sofria há anos de enxaqueca e apesar do receio busca uma resposta para o caso de ser epiléptica, mas também estuda a histeria. Ao final ela acabará aceitando que as enxaquecas como as tremedeiras são ela mesma, ela é a mulher trêmula, ou seja, a tremedeira não é algo externo que a acomete, como uma invasão.

Siri não se deixará convencer por apenas uma explicação como se fosse a verdade, ela sempre será crítica, avaliando e não se deixando levar por um conformismo.

O mais importante é a percepção de que não podemos separar o corpo da mente, nem nos ater apenas a uma ciência ou explicação, somos muito mais do que isto.

Siri Hustvedt nasceu em 1955 em Northfield no Minnesota, Estados Unidos. De família norueguesa, licenciou-se em História na Faculdade de Olaf e é doutora em Literatura Inglesa pela Universidade de Columbia. É casada com o também escritor Paul Auster.

domingo, 2 de março de 2014

FILME: EU, PIERRE RIVIÈRE, QUE DEGOLEI MINHA MÃE, MINHA IRMÃ E MEU IRMÃO - 1976



Direção: René Allio - 1976 
Duração: 124 min 
Título original: Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma mère, ma soeur et mon frère. 
País; França 

Baseado no livro de Michael Foucault com o mesmo título

As relações entre a psiquiatria e a justiça penal.

Em 1835 em Aunay no interior da França - Normandie, um jovem camponês, Pierre Rivière assassinou sua mãe grávida de 7 meses, sua irmã de 18 anos e seu irmão de 7 anos a golpes de foice degolando-os. O que o teria levado a cometer tão horrível crime que chocou a França?

A reconstrução do episódio filmado no mesmo local com a participação de camponeses locais, é realista e impactante.

Pierre representando por Claude Hébert,  cometeu o crime e pensa em se entregar e receber a gloria com isto por ter livrado seu pai, mas acaba fugindo pela floresta até ser preso. Na prisão ele pede papel para escrever sua história que começa com Eu, Pierre Rivière, que degolei minhã mãe,minha irmã e meu irmão....

Uma parte do filme vai ser o relato de Pierre, mostrando segundo o que ele escreve o que aconteceu. Paralelamente haverá os interrogatórios e as testemunhas que serão chamadas para falar de Pierre. A história chama a atenção dos principais magistrados e médicos entre eles Esquirol, mas só tomará a dimensão atual após ser encontrado por Michael Foucault este manuscrito escrito pelo jovem que vemos no filme.

O relato de Pierre conta que ele odeia sua mãe por ela humilhar seu pai. É uma mulher briguenta que se desentende muito com a mãe e com o marido, vive comprando e gerando dívidas para serem pagas pelo marido, está sempre num vai e vem da casa que herdou dos pais para a casa do marido, acusa-o de roubá-la, de levar seus filhos, inclusive de um que morreu que ela alega se pudesse estar ao seu lado não teria morrido. O pai é um homem de bem, mas é fraco, acaba sempre fazendo as vontades da mulher e paga todas as suas dívidas. Pierre acredita que todos debocham dele, que estão ao lado da mãe, que a justiça protege as mulheres e que elas sempre ganham mesmo estando erradas. Ele tem dificuldades com as mulheres, e não consegue se relacionar com as moças da vila onde mora. Acaba sendo um solitário. O interessante é que enquanto assistimos ao seu relato ele está de cabeça erguida, acredita estar fazendo o bem e protegendo ao pai.

Os relatos dos moradores falam de um Pierre que olhava sempre para baixo ou de soslaio, pratica maldades horríveis com animais como pássaros e sapos, trata mal o cavalo da família, tem opinião forte e não aceita ser contrariado, se comporta de forma estranha, foge das pessoas, principalmente das mulheres. Não há relatos sobre sua mãe ou seu pai, sobre como eram. Eles haviam acabado de se separar legalmente quando ocorreu o triplo assassinato.

Seria ele um alienado ou teria cometido um assassinato frio? É condenado mas tem sua pena comutada ficando em prisão perpétua. Acabará se matando enforcado.

Foi a primeira vez que a justiça se uniu à medicina, à ciência para tentar desvendar um crime.


Assista um trecho



René Allio nasceu em 1924 em Marseille, França e faleceu em 1995 em Paris. 

FILME: WITTGENSTEIN - 1993



Direção: Derek Jarman - 1993 
Duração: 75 min
País: Reino Unido 

Usando a forma de teatro o filme conta a vida do filósofo Ludwig Wittgenstein, nascido em Viena em 1889 vai para a Inglaterra estudar. Em Cambridge conhece Bertrand Russel que o considera um dos maiores filósofos do momento. Wittgenstein (Karl Johnson) é temperamental, não gosta de ser contrariado, deseja a perfeição e é homossexual numa época onde isto não era bem aceito.

Após lutar na primeira guerra mundial ele retorna como professor e se envolve com um aluno que é amante de seu amigo John Maynard Keynes.

Wittgenstein escreveu o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas, sendo este último publicado postumamente. É considerado o pai da filosofia analítica e pertenceu ao círculo de Viena. Um dos seus principais interesses era a linguagem seus usos e limitações.

O filme não é suficiente nem para falar da vida do filósofo e menos ainda para abarcar sua filosofia da qual nos é oferecido algumas frases, mas é sempre um bom início a este grande filósofo.

Recomendo principalmente para quem se interessa por filosofia.


Derek Jarman nasceu em 1942 em Northwood, Reino Unido e faleceu em 1994 em Londres.

Musica de Jan Latham-Koenig - Brahms - Intermezzo in a major op. 119 nº 1

Jan Latham-Koenig nasceu em 1953 na Inglaterra e é um maestro.

Ludwig Wittgenstein nasceu em 1889 em Viena, Áustria e faleceu em 1951 em Cambridge, Inglaterra.

sábado, 1 de março de 2014

FILME: UMA DAMA EM PARIS - 2012



Direção: Ilmar Raag - 2012
Duração: 94 min
Título original: Une Estonienne à Paris 
País: França - Estônia - Bélgica 

Enquanto estava lendo As preces são imutáveis este filme não me saia da cabeça, então após terminar o livro resolvi assisti-lo.

Anne (Laine Mägi) deixou seu trabalho na casa de idosos para cuidar de sua mãe até sua morte. Seus filhos tem sua vida e ela está só agora quando recebe uma proposta de trabalho em Paris para cuidar de uma estoniana que emigrou para lá há muitos anos. Ela aceita e deixa a Estônia rumo à França.

Aconteceu que Frida (Jeanne Moreau) não é uma pessoa fácil e seu único interesse é Stéphane (Patrick Pineau) que foi seu amante durante anos, mas que agora quer seguir com sua vida e cuidar do café que recebeu de presente de Frida, sem ter que se preocupar com ela ou com seus anseios de ainda serem amantes.

Frida é uma mulher que foi muito bonita e viveu como desejava e agora enfrenta a velhice. Stéphane é bem  mais novo do que ela e apesar da amizade que sente por ela não a vê mais como uma mulher e isto dói em Frida que tem que aceitar seu envelhecimento e perda de seu poder de sedução sobre ele. Anne sempre viveu para os outros, e ir para Paris é como um sonho, ela caminha pelas ruas e olha as vitrines, as roupas tão diferentes das que ela usa, a liberdade de poder cuidar finalmente de si mesma.

Mas, se para Stéphane, Frida não é mais desejável isto não quer dizer que com a idade ela não sinta mais desejo. Ela ainda tenta atrair a atenção dele com chantagens, como a tentativa de se matar, mas que se de fato quisesse teria levado a termo. E guarda na memória os bons momentos com ele desejando revivê-los. Apesar de cuidar dela ele às vezes é cruel lhe lembrando que acabou, que agora ela precisa de alguém que cuide dela porque ela não consegue mais fazê-lo sozinha, e na sua tentativa de lhe mostrar que ainda é capaz de ir até o Café e desejar surpreendê-lo ele se utiliza do momento para novamente a devolver à dura realidade de que ele não a quer mais.

Anne tenta lhe dar uma vida social convidando alguns estonianos para irem tomar um chá o que acaba mal, pois após 50 anos do ocorrido eles ainda guardam a mágoa de que ela dormiu com um deles o que acabou com um casamento.

Mas Frida descobre Anne, e se no começo a repudia depois se afeiçoa à ela, e juntas elas deixarão sua solidão amarga e difícil para tentarem viver, se sentirem belas e sedutoras, tão sedutoras como é Paris que atrai a todos com sua beleza e fascínio jovens e idosos.




Ilmar Raag nasceu em 1968 em Kuressaare, Estônia. 

LIVRO: AS PRECES SÃO IMUTÁVEIS - TUNA KIREMITÇI



Kiremitçi, Tuna. Sá Editora, 2010
Tradução: Marco Syarayama de Pinto
182 páginas
Título original: Dualar Kalicidir

Rosella é uma senhora com oitenta e oito anos que está doente e vive só com sua gata Charlote e Zelda que cuida da casa e dela. Faz sessenta anos que vive numa cidade européia, mas após a morte de seu marido Aldo ela sente vontade de falar turco com alguém e para isto coloca um anúncio num jornal procurando alguém para conversar em turco. Pelin vê o anúncio e se apresenta.

Rosella lhe diz que tem medo de esquecer a língua turca, pois a maior parte de suas lembranças estão nesta língua e ela teme que ao esquecer a língua ela também perca suas recordações. No início é algo meio formal, mas aos poucos as duas vão se soltando e conversam sobre suas vidas.

Rosella tem a percepção de que a velhice a leva a viver no mundo dos outros, todos os que se conheceu na juventude já morreram, e ela conclui que viver numa época estranha é muito pior do que viver numa cidade estranha, e por isto se vive muito mais nitidamente as lembranças, mesmo que as criando e colorindo, elas são mais fortes que o presente, por que não há mais futuro e a saudade é muito forte e só se pode sentir esta privação com o coração, não com o intelecto.

Ambas tem suas dores e dificuldades, Rosella teve uma vida intensa, refugiou-se em Istambul fugindo da Segunda Guerra com sua filha Tânia deixando seu marido na Europa, ele não conseguiu mais partir. Pelin sofre por sua mãe ter deixado a ela e ao seu pai para partir com outro homem. Ambas sofreram por amor e aos poucos o relato de Rosella vai desvendando o que fica desapercebido muitas vezes para quem é mais jovem e ainda não tem a vivência e sabedoria dos mais velhos, mas o relato de Pelin traz vida novamente para a velha senhora, ensinando novas palavras, e ao final a constatação de que muda o tempo, muda os lugares mas os dramas são iguais e por isto mesmo mudam os deuses mas as preces são imutáveis.

Tuna Kiremitçi nasceu em 1973 em Eskisehir. É um escritor, músico e cineasta turco. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: EM BUSCA DE SENTIDO - VIKTOR FRANKL



Frankl, Viktor. Editora Vozes, 2009
Publicação: 1946
Tradução: Walter Schlupp e Carlos Aveline
186 páginas
Título Original: Ein Psycholog erlebt das kozentrationslager

Neste livro o psiquiatra Viktor Frankl fala que aquele que passou por uma experiência traumática sabe compreendê-la de uma forma que aquele que não passou não consegue, apesar de não possuir o distanciamento exigido pela ciência e de que ocorrem distorções.

Em função de sua experiência e vivência em campos de concentração na segunda guerra ele questiona o que mantém o ser humano vivo, o que o faz viver? e costuma perguntar a seus pacientes que passam por sofrimentos difíceis por que ele não opta pelo suicídio?

O livro descreve o método psicoterapeuta de Frankl para encontrar uma razão para viver. Na primeira parte ele fala de suas experiências no campo de concentração e na segunda introduz a logoterapia.

Ele vai desviar de Freud e a sexualidade, apesar de sua admiração por ele, e penso que o faça pois viveu algo onde a sexualidade quase que desaparece, não havia nada sexual nos campos como acontece nos quartéis, com soldados em guerra, ou qualquer outra situação de reclusão ou aglomeração. Talvez seja o único lugar onde o sexo não pode diminuir a morte. Não há onde colocar uma libido. Mas há porém uma pulsão de vida que ainda prevalece nos que conseguem sobreviver a tudo que enfrentam.

Quando vivemos momentos que nos colocam diante da morte o sexo e a comida são formas de lidar com isto, mas nos campos justamente nem uma coisa nem outra, então eles sonhavam com comida e ao acordar enfrentavam o horror da realidade. Então Frankl questiona isto, o que mantém o ser humano vivo, sem a pulsão sexual e agressiva, onde ele busca forças? Quando a fome devora o próprio corpo transformando-o num esqueleto, quando o frio congela os dedos que caem ou são retirados com uma pinça? quantos aguentaram e como? por que? O que salvou os sobreviventes? Podiam se suicidar nas cercas elétricas como  muitos fizeram.

São estas perguntas e respostas que Frankl busca, o sentido para viver, o por que viver?

Mas eu me pergunto até que ponto isto é possível? sobreviver sim, continuar vivo sim, e realmente deve haver algo muito poderoso que permite isto em face a tamanhas atrocidades e dores, fome, frio e doenças, mas será que o psiquismo consegue elaborar todos estes traumas? como ficou o psiquismo dos que sobreviveram? Muitos se suicidaram depois, outros escrevem para tentar exorcizar.

Muitos não aguentaram não serem ouvidos, ninguém queria saber de tudo isto, principalmente depois da guerra, queriam comemorar, viver, foi uma época de gozo da vida. Quantos sobreviventes não se sentiram párias? um excluído? Muitos se casaram entre si, logo após a libertação e seguiram com a vida, mas a herança psíquica está nos filhos e quantas gerações serão necessárias para que isto desapareça?

No campo de concentração todos estavam na mesma situação, mas depois da libertação, enfrentar o olhar de nojo, pena do outro? ao invés de ser visto como um herói, que conseguiu sobreviver?

O que Viktor Frankl nos mostra é como buscar um sentido para a vida quando se passa pelo extremo da dor e da humilhação. Não penso que todos sejam capazes, mas para aqueles que conseguiram achar um sentido, aqueles que se dedicaram também ao outro no meio de tudo isto dando um sentido a si próprio no meio de tudo, é possível. O que te faz viver? um filho? um desejo que você acredita realizar? um sonho? as recordações que te sustentam?

Não é fácil quando se vive o que viveram os presos de campos de concentração, mas vários conseguiram não morrer ali. E não foi apenas a sorte, de não ser escolhido na seleção para a morte, muitos nem foram para as câmaras de gás, morreram antes ou se mataram.

Viktor transformou o maior sofrimento de sua vida, inimaginável para quem não o viveu, na logoterapia, transformou o trauma em algo que pode ajudar muitas pessoas, e isto sim, eu acredito seja uma forma de curar um trauma, transformá-lo em algo.


Viktor Frankl nasceu em 1905 em Viena, Áustria e faleceu em em 1997 com 92 anos na mesma cidade. Fundador da logoterapia que explora o sentido existencial do ser humano. Ficou preso nos campos de concentração por 13 anos, perdeu seus pais, seu irmão e sua esposa grávida mortos pelos nazistas.

Assista a entrevista com Viktor Frankl para saber mais:


LIVRO: QUANDO ÉRAMOS ÓRFÃOS - KAZUO ISHIGURO


Ishiguro, Kazuo. Companhia das Letras, 2000
Tradução: José Marcos Macedo
393 páginas
Título Original: When we were orphans

A história é narrada por Christopher Banks quando se encontra na Inglaterra pós-guerra em retrospectiva sobre sua vida. Ele é um famoso detetive que desvendou vários casos que ficaram famosos, porém o mais importante para ele,o desaparecimento de seus pais em Xangai antes da Segunda Guerra, ele foi procrastinando até finalmente tomar a decisão de voltar e resolver também este caso.

A maior parte da narrativa é em Xangai, iniciando com as recordações de Christopher sobre sua infância na Colônia Internacional onde vivia e sua amizade com Akira, um garoto japonês que era seu vizinho. Quando seu pai desapareceu misteriosamente ambos brincavam de ser o inspetor Kung, o responsável pela investigação, e resolviam o mistério. O que não se esperava é que sua mãe também desapareceria.

Após o desaparecimento de seus pais Christopher é levado para a Inglaterra e criado por sua tia.

A força dos registros da infância transparecem o tempo todo no livro. Primeiro Christopher escolhe como profissão ser detetive, mas reluta em ir atrás do mais importante para ele até que finalmente o faz. Volta à Xangai e começa a investigar e é neste momento que todo o trauma da perda de seus pais passa a atuar.

Xangai está cercada pelos japoneses, e quando ele encontra um soldado japonês ferido nos escombros do cortiço onde imagina estarem seus pais ele vê nele Akira. O soldado percebendo que seria sua chance de sobreviver e não ser morto pelos chineses entra no jogo e o leva até onde ele quer ir, a casa indicada pelo inspetor Kung como sendo a única que ele não revistou na época do desaparecimento de seus pais, porém ela está destruída também.

Xangai no tempo de sua infância era dominada pelo comércio do ópio, e sua mãe e o chamado Tio Philip, eram contra isto, e faziam campanha para acabar com o tráfico. Agora Christopher quer se encontrar com o Cobra amarela, que supõe saber o paradeiro de seus pais. Ao final ele terá grandes surpresas quando descobrir finalmente o que aconteceu.

Por mais que Christopher fosse um renomado e excelente detetive quando se trata de si próprio a coisa já não é tão simples, lhe falta objetividade e distanciamento, ele é envolvido em suas emoções e memórias que nem sempre são exatas, se fixam no tempo, faltam pedaços e são registradas segundo a ótica de uma criança, o que lhe dificulta enxergar a realidade do que investiga. Ele parece voltar no tempo quando brincava com Akira de detetive, ignora inclusive que o japonês está seriamente ferido, não percebe que não é Akira, uma vez que em sua mente ele teria que resolver o mistério junto com seu amigo, só assim o conseguiria.

Além da questão do ópio e do poder, o livro passa levemente pela questão dos costumes, e do amor patológico, onde um ego ferido é capaz de vingança.

Quando carregamos um trauma de infância, acabamos passando a vida dirigindo nossas energias psíquicas para isto, na tentativa de solucionar revivemos e buscamos a resposta, como os órfãos de pais desaparecidos, um vazio que se cria. Christopher e Jennifer, a criança que perdeu seus pais e ele adota, retribuindo à vida o que sua tia fez por ele,  passam a vida tentando compreender, e ao fim o que buscam é a paz, o viver um pouco e com pequenos prazeres possíveis.

Kazuo Ishiguro nasceu em 1954 em Nagasaki no Japão, mas emigrou com sua família para a Inglaterra quando tinha seis anos.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

FILME: FLORES DE AÇO - 1989



Direção: Herbert Ross - 1989 
Duração: 104 min 
Título original: Steel Magnolias 
Roteiro: Robert Harling
País: Estados Unidos 

Seis mulheres que são amigas e suas dificuldades, dores, alegrias, dúvidas, se apoiam mutuamente e formam um grupo ímpar.



Shelby (Julia Roberts) vai se casar, mas ela é diabética e não pode ter filhos. Sua mãe M'Lynn (Sally Field) está atarefada com todos os preparativos e também preocupada com o fato dela não poder ter filhos reforçando isto para eles, mas Shelby acabara engravidando e levará isto adiante.
Todas acabam indo ao salão de Truvy (Dolly Parton) para se arrumarem para o casamento, mas isto já faz parte de sua rotina também, esta ida ao cabeleireiro. Para ajudá-la Truvy acaba de contratar Annelle (Daryl Hannah) que acaba de chegar ao lugar e não é conhecida de ninguém. Ouiser (Shirley MacLaine) é a mais rabugenta de todas, com seu cachorro seu maior prazer é atormentar o marido de M'Lynn, e tem também Clairee (Olympia Dukakis). 

O enredo gira mais em torno de Shelby e sua dominadora mãe M'Lynn que não está acostumada a ser contrariada, mas no momento mais difícil ela será amparada por suas amigas.

Nada supera a lealdade que une estas seis mulheres seja nas alegrias ou nas piores horas. Um filme sobre a amizade, e com um elenco único trabalhando juntas.


Herbert Ross nasceu em 1927 no Brooklyn, New York e faleceu em 2001 na mesma cidade. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

FILME: A JOVEM RAINHA VITÓRIA - 2009


Direção: Jean-Marc Vallée - 2009
Duração: 105 min 
Título original: The young Victoria 
País: Reino Unido 

Ganhou o Oscar de melhor figurino. 

Sobre o início do reinado da Rainha Vitória, quando casou-se com seu grande amor Albert. Ele morreu  jovem com 42 anos de tifo. Vitória se fechou e manteve o luto até morrer aos 81 anos.



Vitória (Emily Blunt) é jovem, sua mãe (Miranda Richardson) é dominadora e tem um companheiro John Conroy (Mark Strong) que teme que ela ao atingir a maioridade o afaste do poder, mas Vitória se recusa a entregar a regência à sua mãe quando seu tio Willian IV está morrendo.



Muitos interesses estão em jogo e há vários pretendentes à sua mão, e um deles é Albert (Rupert Friend), príncipe da Bélgica, que vai até a Inglaterra a pedido de seu tio. Também é cortejada pelo primeiro ministro Lorde Melbourne (Paul Bettany), mas acabara se casando com seu grande amor Albert e formarão um belo casal apaixonado. Porém Vitória foi criada para obedecer, e quando é coroada assumirá o trono e também a autonomia, mas por não ter preparo para isto cometerá alguns erros que a farão ser mal vista. Seu marido é mais sábio do que ela, mas ela relutará em escutá-lo por temer que esteja agindo em prol de seu tio, o que não ocorre, pois ele por amor a ela não se tornou o elo entre seu tio e a Inglaterra.



As intrigas, os medos, o poder, mas sobretudo o amor que une Vitória e Albert, que é lendário devido ao luto que ela assumiu e nunca deixou.


Jean-Marc Vallée nasceu em 1963 em Montreal, Canadá.

Trilha Sonora - IIan Eshkeri 

FILME: O LOBO DA ESTEPE - 1974


Direção: Fred Haines - 1974 
Duração: 108 min 
Título original: Steppenwolf 

Adapatação do livro O Lobo da Estepe de Hermann Hess

Um filme estranho, surreal, sensações estranhas ao vê-lo, mas retrata a dualidade, a fragmentação de Harry Haller (Max Von Sydow) que é ainda maior que dois lados.É literalmente um mergulho em si mesmo.

A questão é o lado doméstico e o lado selvagem e como os que o percebem sofrem com ele. Somos seres sociais, civilizados, mas temos um lobo dentro de nós que arreganha os dentes. Mas o mais difícil do que controlar este lobo com seus dentes afiados no social é lutar com ele dentro de nós. Queremos ser aceitos, amados, mas o lobo age para que isto não aconteça, porém por outro lado ele quer preservar o que somos e desejamos. E o conflito é que ao sermos bonzinhos nos odiamos, buscando ser amado pelo outro, mas se rosnamos também nos odiamos, porque o outro não gosta e não somos amados. E ao perceber isto geralmente a pessoa se torna um solitário, um lobo da estepe.

Uma crítica ao mundo burguês, ao socialmente aceito, Harry um intelectual de família burguesa não aceita tudo isto, e parte em busca de si mesmo, mesmo que para isto precise fazer uma viagem muito louca.

Veja um trecho:



Fred Haines nasceu em 1936 em Los Angeles, EUA e faleceu em 2008.