quinta-feira, 25 de setembro de 2014

FILME: PATAGÔNIA - 2011



Direção: Marc Evans - 2011
Duração: 118 min
Título original: Patagonia

Em memória de Edi Dorian Jones, fotógrafo de Chubut (1952 - 2008)

Um belo filme sobre perdas, separações e reencontros, o passado e o futuro, além das belas paisagens da Patagônia e do País de Gales.

Em 1865 um navio - Mimosa - partiu de Liverpool com destino à Argentina levando vários galeses que iam em busca de uma vida melhor e da liberdade. Este navio aportou na Patagônia onde viviam as tribos nômades do povo Tehuelche. Era um deserto estéril e inóspito, mas juntos, os galeses e os nativos sobreviveram e venceram o deserto e até hoje a colônia galesa sobrevive por lá.

Duas mulheres realizam uma jornada íntima. Cerys (Marta Lubos) já é idosa e sofre de diabetes.Seu desejo é retornar à Gales e encontrar a fazenda onde nasceu sua mãe que foi enviada para a Patagônia por estar grávida de Cerys e para evitar a vergonha teve que ser afastada. Ela nunca mais retornou e se casou com um argentino que criou Cerys com ela. Ela partirá com seu vizinho Alejandro (Nahuel Pérez Biscayart) para Gales.

A outra é Gwen (Nia Roberts) que tenta engravidar de seu companheiro, o fotógrafo Rhys (Matthew Gravelle) e descobre que não pode ter filhos. Ela então resolve partir com ele para a Patagônia Galesa onde ele pretende fazer fotos das capelas, na tentativa de recuperar o relacionamento que já está desgastado, mas lá conhecerá o guia Mateo (Matthew Rhys).

Com Cerys nos apercebemos do quanto a origem fala alto, e o desejo de encontrar suas raízes, mesmo que já se esteja idosa. Alejandro que a acompanha por seu lado faz também uma passagem rumo a liberdade, ao se separar de sua mãe e viver experiências novas num país desconhecido e onde não falam a língua. Com Gwen e Rhys vemos o desencontro e a incapacidade de falar sobre tudo isto, sendo necessário viver algo diferente, vivenciar dores e afastamentos para quem sabe assim poderem se reencontrar.

Marc Evans nasceu em 1963 em Wales

Trilha Sonora de Joseph Loduca

Edi Dorian Jones 


LIVRO: A ARTE DA PEREGRINAÇÃO - Para o viajante em busca do que lhe é sagrado - PHIL COUSINEAU



Cousineau, Phil. Ágora, 1999
259 páginas
Tradução: Luiz Carlos Lisboa

Para quem gosta de viajar em busca de algo transformador este livro é recomendado. Cousineau não nos fala de peregrinações religiosas, apesar de citá-las também, mas principalmente do que ele chama de jornada em busca do sagrado que pode ser uma viagem, uma caminhada perto de casa, uma ida à uma livraria, ou qualquer outra forma que possa nos levar ao que consideramos e sentimos como sagrado.

A viagem é como a vida, tem o antes, o começo, o meio e o retorno. São rituais de passagens como diria o antropólogo Victor Turner. Ele faz uma diferenciação entre o turismo e a peregrinação considerando que o primeiro é uma viagem segura e com conforto que acaba não trazendo grandes transformações interiores, ao contrário da peregrinação, ou como eu chamaria, uma viagem de flaneur, de viver o local, de perceber.

A peregrinação requer um preparo não apenas prático, mas também espiritual ou pela imaginação. Haverá obstáculos a enfrentar e superar, dificuldades, mas também haverá autoconhecimento e inspiração, momentos sagrados. O importante é retornar ao lar trazendo algo de novo em si mesmo, porque a viagem não é externa, mas interior, e por isto mesmo pode inclusive ser feita onde se está. É uma viagem da alma, não do ego.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O PODER DO MITO Joseph Campbell com Bill Moyers - 1988




São dois DVDs com as entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers
Duração:354 min

Joseph Campbell é um consagrado estudioso de mitos. Nestas entrevistas ele fala sobre mitos, história, religião, filosofia, psicologia, arte e cinema. As entrevistas aconteceram no Rancho Skywalker e no Brasil foram exibidas pela TV Cultura.

É notório a paixão e o prazer que Campbell sente ao falar destes assuntos, ele se encanta, ele vibra, ele nos transmite lições para a vida e sobre como viver.

1ª  Parte - A SAGA DO HERÓI 

Nesta primeira parte Campbell nos desafia a ver uma jornada heroica em nossas vidas. Não o herói inalcançável para nós, mas o herói que todos nós somos. Ele também escreveu o livro "O herói de mil faces" sobre este tema.
Quando ele nos fala dos dragões e dos cavaleiros medievais que os matavam ele traz este dragão para um dragão interior, que são os obstáculos, nossos medos, aquilo que nos impede de fazer algo, portanto todos nós temos dragões para matar. Além disto ele diferencia o dragão ocidental da idade média do dragão oriental que tem outro significado. Nesta primeira parte ele nos mostra como os mitos e as histórias nos ensinam a enfrentar os dragões.
Ele também fala da arquitetura, e isto me chamou a atenção. Antes a catedral era o edifício mais alto de uma cidade, depois passou a ser o edifício político, como o parlamento e finalmente hoje são os prédios imensos onde estão os escritórios das grandes empresas, bancos, mostrando como a arquitetura acompanha este processo de valores numa sociedade.
Irá falar também do sagrado, do que é o sagrado independentemente de uma religião. Do quanto o mito relata as passagens na vida, iniciação, separação e retorno. Precisamos nos tornar independentes e os mitos nos ajudam nisto.

Você pode assistir a esta parte no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=C_wuZnoP6NY


2ª Parte - A MENSAGEM DO MITO 

Nesta parte ele fala do que é o Mito, para que serve, e de como todas as histórias se parecem. Ele começa com o Gênesis e depois nos relata outras que também falam da criação do mundo. O mito é utilizado quando não temos palavras para falar do mistério, do que nos transcende. E sempre levando em conta a época que o mito foi criado nos explica que a cada época precisamos de novos mitos que nos orientem e que atualmente está faltando um mito e que muitas vezes as pessoas se apegam a mitos que não lhes servem para nada.

Para Campbell não se trata do sentido da vida, mas do viver, da experiência de viver. Ele considera o eterno o aqui e agora, e não algo lá na frente. Faz algumas comparações entre as religiões ocidentais e as orientais onde não existe o pecado original e sobre a serpente assim como a mulher que simbolizam a vida e por isto são os culpados de tudo. A vida é sofrer, e há uma tendência sempre em colocar a culpa no outro.

Também disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Bwm0N89EyO8


FILME: A VIAGEM DE LUCIA -2009


Direção: Stefano Pasetto - 2009
Duração: 93 min
Título Original:  Il Richiamo 

Lea (Francesca Inaudi) trabalha numa fábrica e vive com seu namorado. É alegre, extrovertida, toda atrapalhada como ela mesma diz. Seu desejo é mudar sua vida e sair desta rotina. Lucia (Sandra Ceccarelli) é casada com um médico e trabalha como comissária de bordo. Ela tenta ter um filho, mas sofre de desmaios, e acaba sofrendo um aborto. Seu médico a aconselha a não usar medicação, mas mudar sua vida.

Lucia decide então voltar a dar aulas de piano e desta forma conhece Lea e se tornam amigas próximas se envolvendo amorosamente, até o dia que Lea decide ir para a Patagônia consertar o barco de seu pai para trazê-lo à Buenos Aires, justo no momento em que os médicos resolvem internar Lucia por ela estar com um câncer. Lucia ao ouvir isto segue Lea e vai viver uma nova vida.

Entre os encontros e desencontros das duas, aos poucos ambas terão que se confrontar com suas dificuldades e tomar decisões sobre suas vidas. O filme não se aprofunda nas questões delas e acaba tratando superficialmente a estes aspectos,assim como ao câncer de Lucia. Mas acaba deixando uma mensagem através dos animais marinhos quando Lea diz que os mais fortes muitas vezes sucumbem e os mais frágeis se recuperam. Isto nos faz pensar que muitas vezes o que chamamos de força no outro não passa de uma máscara e o frágil, tão desdenhado na sociedade atual onde temos que ser fortes, buscar o sucesso e sermos felizes está muito mais preparado para enfrentar as adversidades da vida sozinho.

Stefano Passetto nasceu em 1970 em Roma, Itália 

FILME: HORAS DE MUSEU - 2013


Direção: Jem Cohen - 2013
Duração: 107 min
Título Original: Museum Hours

Um filme diferente que mexe com nossa forma de olhar o mundo e a arte. Logo no início vemos um guarda , Johann (Bobby Summer) do museu de Viena - Kunsthistorisches Museum - sentado olhando, atrás dele uma imensa porta e na frente uma sala com quadros e pessoas olhando as obras.



O foco do filme é como a arte se relaciona com o mundo externo e nós com ambos. Ao olhar um quadro de Bruegel a curadora levanta a questão do que nós vemos e do que o pintor representou ali que pode ser algo totalmente diferente, e isto mostra que a arte vive e continua se expressando e de diversas formas, ela não é estática, não permanece no tempo. De certa forma há obras que nunca saberemos compreender o que foi dito ali, mas apenas interpretar através do que nós conhecemos.



O interessante é que o filme nos mostra a Viena atual, e não aquela bela cidade histórica, mas uma Viena do dia a dia, no inverno, com seus vendedores ambulantes que vendem produtos usados nas ruas, com placas de propagandas em frente aos seus mais belos monumentos e prédios, como uma propaganda da Coca Cola em frente à Catedral, tudo está ali, misturado. Prédios, ruas, que ainda guardam a memória, mas também convivem com o mundo atual.

Mas longe de ser um documentário, pois chega ali Anne (Mary Margaret O'Hara) que veio de Montreal e se torna amiga do guarda do Museu. Ela veio porque sua prima está no hospital em coma. Não tem muito dinheiro, e os dois conseguem andar por Viena e conhecê-la sem gastar muito, o que ao meu ver acaba mostrando muito mais o que é a cidade do que se ela se ativesse apenas aos pontos turísticos.

As impressões sobre as obras de Johann são interessantes, mas o melhor é sua observação das pessoas que frequentam o museu, é um olhar sobre o outro que nos diz muito.

Um filme diferente, híbrido de ficção com documentário, excelente.


Jem Cohen nasceu em 1962 em Kabul no Afeganistão. 

FILME: AMAR BEBER E CANTAR - 2014


Direção: Alain Resnais - 2014
Duração: 108 min 
Título Original: Aimer boire et chanter 

Um grupo de teatro fica sabendo que um amigo está com câncer. A partir daí o filme gira em torno de George que não aparece em momento algum durante o filme. O filme é uma peça dentro do filme, eles ensaiam uma peça, mas o filme também se utiliza de cenários de teatro. Diferente e interessante, o que vale são os diálogos com fundos que representam onde estão os personagens. Gostei muito da forma como ele apresenta as casas com desenhos. A história se passa na Inglaterra.

Logo no início Colin (Hippolyte Girardot) que é médico recebe a notícia de um colega e não consegue se conter passando a informação a mulher Kathryn (Sabine Azéma) que logo conta para Jack (Michel Vuillemoz) que é o melhor amigo de George que fala para sua esposa Tamara (Caroline Sihol). Estes por sua vez falam com Monica (Sandrine Kiberlain) a ex-mulher de George que agora vive com Simon (André Dussollier).

Tudo gira em torno destes personagens que começam a recordar passagens de suas vidas com George e a pensar no futuro sem ele. A presença da morte faz com que todos repensem muitos aspectos de suas vidas, e todos sempre falam de George como um homem feliz e que sabia viver, ele parece o modelo que nenhum deles atingiu. O filme é um grande diálogo sobre o viver e o morrer. Tudo se passa num teatro e palco, o que é uma referência também a vida que atuamos sempre, os atores e os papéis que assumimos e da dificuldade de sair disto e poder ser o que se é realmente.

Alain Resnais filmou Amar Beber e Cantar aos 91 anos e foi seu último filme.

Alain Resnais nasceu em 1922 em Vannes na França e morreu em 2014 em Paris. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

LIVRO: MULHERES NO CAMINHO - LIGIA MARIA KNABBEN BECKER


Becker, Ligia Maria Knabben. Nova Letra, 2010
169 páginas

A Ligia é catarinense, de Brusque e hoje vive em Florianópolis. Este livro é seu relato das três vezes que fez o Caminho de Santiago de Compostela.

Ela fez o percurso aragonês , francês e de Portugal. Uma vez ela foi com amigas, o de Portugal ela foi sozinha e o último com seu marido e outros casais.

Seus relatos são sobre mulheres no caminho, alguns reais outros fictícios, mas baseados no que vivenciou. Ela nos fala das transformações, do autoconhecimento, de tirar máscaras. O caminho revela padrões que temos no nosso dia a dia, retira coisas às quais somos apegadas, mas que para a vida não faz muito sentido. Ela fala dos obstáculos, das dificuldades de se relacionar com o outro e consigo própria.

Seu percurso não foi religioso, mas de uma busca de si mesma. O caminho é feito por cada um de formas diferentes, cada pessoa busca algo, seja religioso, seja de aprendizado, seja de autoconhecimento.

Ligia deu uma entrevista para o programa Vida Inteligente sobre o livro que você pode assistir  no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=oTEizDT-Ipw




Ligia Maria Knabben Becker nasceu em Brusque- SC.É formada em Letras pela UFSC

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

LIVRO: HISTÓRIAS QUE CURAM - Conversas sábias ao pé do fogão - RACHEL NAOMI REMEN



Remen, Rachel Naomi. Ágora, 1998
277 páginas
Tradução: Laura Teixeira Motta
Título original: Kitchen table wisdom.

Rachel é médica, ela trabalha com pacientes com câncer, principalmente os terminais, através de uma terapia que os ajuda a enfrentar este momento. Mas o livro nos proporciona um ensinamento que é sábio sobre a vida, sobre como viver e não apenas sobreviver.

Um dos pontos do livro é a questão do treinamento que os médicos recebem de serem profissionais e não se envolverem emocionalmente com os pacientes. Acontece que o médico é um ser humano e ter que se conter pode levá-lo ao que a autora chama de embotamento, ou seja, ficar insensível a dor, o que não quer dizer que ele não sinta, mas justamente porque sente e tem que reprimir ele acaba assim.

A autora defende o ponto que cada doença é única para aquela pessoa e que a cura também é única. Para a medicina a doença é uma só e tem seus recursos para lidar com ela, mas as coisas são muito mais profundas do que isto, pois a doença já é um sintoma de algo que afetou aquele ser humano.

Cada um que ler o livro encontrará algo que lhe fale. Eu pessoalmente me atentei muito à questão do quanto ficamos presos ao outro e com isto deixamos de ser nós mesmos e fazer o que desejamos. Ela nos lembra que um elogio também é uma forma do outro nos julgar e não apenas a crítica como costumamos ver. E do quanto nos dedicamos a atender aos padrões que nos foram impostos na infância ou pela sociedade e o quanto isto gera infelicidade.

Rachel também nos fala sobre o sagrado, aquele lugar interno ou até mesmo externo que nos traz paz, e do quanto precisamos disto.

A força, a determinação, a integridade das pessoas que estão com câncer é algo que nos comove e nos leva a refletir muito sobre a vida.



domingo, 7 de setembro de 2014

LIVRO: UM ANO DE VIAGENS - Passeios apaixonantes pela Europa, Marrocos e Turquia - FRANCES MAYES


Mayes, Frances. Rocco, 2007.
446 páginas
Tradução: Talita Rodrigues
Título Original: A year in the world: journeys of a passionate traveller.

Mayes é conhecidíssima pelo livro e filme "Sob o sol da Toscana" (postei no blog sobre o filme), quando ela se separou e numa viagem à Itália compra Bramasole em Cortona e passa a viver por lá um tempo onde acaba conhecendo Ed, seu marido que a acompanha neste delicioso livro Um ano de Viagens.

Não se trata de sair viajando por um ano direto, mas das viagens realizadas que ela nos relata com muita sensibilidade, com um olhar estético, amoroso, e guloso, sim, porque a culinária está presente em todo o livro.

Eles irão para vários lugares na costa do Mediterrâneo, Espanha, Portugal, Marrocos, Turquia, Grécia, Escócia, Ilhas Britânicas.

O que mais apreciei é que se trata de dois flaneurs. Eles viajam conforme seu desejo os conduz, param onde algo os atrai, buscam os restaurantes típicos, locais, e não os recomendados para turistas, aliás, eles são tudo, menos turistas. Eles procuram vivenciar o local e as pessoas que ali habitam. Mayes sempre se faz a pergunta: Eu poderia viver aqui?

E isto torna o livro encantador e diferente. Não são descrições de locais turísticos, são detalhes, pinceladas, daquilo que interessou, do que atraiu o olhar, do que encantou, do que é capaz de mudar algo numa pessoa.

Eu me identifiquei muito com ela. Viaja sempre carregada de livros, o que também faço. Gosta de fotografar detalhes, uma porta, um trinco, uma varanda, uma flor, um detalhe da escultura. Não aprecia passeio prontos com tempo determinado, eu também não. Não aprecia muito guias turísticos, principalmente os que parecem recitar algo, mas sempre há exceções e encontramos excelentes guias. Odeia locais cheios onde não se consegue apreciar nada, ver nada, e somos empurrados com os outros. Prefere as ruelas, os becos, caminhar muito, olhar, cheira, provar. Compra livros, objetos para sua casa. Ed compra Cds das músicas locais. A descrição dos lugares com suas cores, as plantas, flores, as pessoas. A conversa com os habitantes.


Um livro maravilhoso sobre viagens, recomendo a leitura.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS - 2010


Direção: Werner Herzog - 2010 
Duração: 90 min
Título Original: Cave of  forgotten dreams

No sul da França foi descoberto em 1994 uma Caverna que estava fechada após um desmoronamento. É a Caverna de Chauvet em Pont D'Arc, com mais de 400 metros de extensão, 32 mil anos de existência e com pinturas rupestres de 424 espécies de animais, além das formações que ocorreram no correr dos anos, pegadas, caveiras de animais, restos de carvão, arranhados de ursos nas paredes, e uma pedra que pode ter sido um altar.

O diretor Werner Herzog conseguiu autorização para filmar na caverna respeitando todas as restrições e cuidados necessários a um patrimônio destes. Este filme talvez seja a única maneira que teremos de ter acesso a este outro mundo que está no nosso mundo.

As pinturas são impressionantes, fiquei observando e com poucos traços atingem uma perfeição da proporção do animal, parece que vejo os músculos. Há vários traços que dão a sensação de movimento, além das sombras projetadas pelo fogo ou pela luz agora. O silêncio da gruta, que infelizmente no documentário dura muito pouco, logo interrompido com sons de coração batendo e música durante a passagem das pinturas. Gostaria de estar lá e ver como é realmente sem nada disto.

De qualquer maneira o filme já nos traz uma sensação estética belíssima,mas vai além, por que não há como não se questionar sobre tudo isto. Por que pintaram? por que estes motivos? Há algum fundamento religioso? seria magia? arte? espiritual? ou nada disto?

Não há como responder a estas questões. Os cientistas podem datar, classificar os materiais, dar nomes, mas responder como era, por que fizeram as pinturas e qual seu significado, nunca poderemos saber.

Na caverna se entra no terreno do imaginário onde o tempo e o espaço não tem mais nenhum sentido.

As categorias podem mudar e a forma como compreendemos hoje um cavalo, uma mulher, um leão podem ser totalmente da forma como eles compreendiam. Pode não haver barreiras entre eles e o mundo espiritual, como nós temos. Não há como nossa mente atual captar o significado das pinturas e do que ocorria ali, captar o que são estas representações, se é que podem ser consideradas representações. Não poderiam ser o real? não pintariam o real, não pensando em representar algo, mas como uma magia que está atuando?

Tendemos a analisar tudo por nossos padrões, e que já há diferenças entre os padrões ocidentais e orientais atualmente, imagine então o que era naqueles tempos? Fiquei observando, porque só animais? e uma única mulher com cabeça de touro? onde estão os rios, árvores, plantas? por que focavam nos animais? Li uma vez que estas pinturas seriam atos mágicos vivenciando o real da caça e que surtiria um efeito simpático na caça logo após e que por isto eram feitas no escuro dentro de cavernas, para que os animais não vissem.  Novamente não há como ter certeza disto.

Mas há algo que a caverna provoca nos que lá estiveram, é a sensação de estar naquele tempo e que estão sendo observados pelos homens pré-históricos.

Um documentário muito interessante e que nos traz sensações diferentes. Não pude deixar de pensar numa metáfora com o inconsciente. Aqueles poucos traços que nos fazem ver a imagem por completo é como os traços que temos no inconsciente que adquirimos na infância e que depois regem nossa vida toda, a menos que os decifremos para podermos compreender.

A caverna tem o nome de seu descobridor.





Werner Herzog nasceu em 1942 em Munique, Alemanha

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O GRANDE SILÊNCIO - 2005


Direção: Philip Gröning - 2005 
Duração: 169 min 
Título original: Die groBe Stille 

Na verdade não se trata de um documentário, mas de um mergulho na vida e no dia a dia do Mosteiro Grande Chartreuse na França, a casa-mãe da ordem dos monges Cartuxos.

É algo que toca a alma, se deixe levar para dentro do filme, sinta, ouça os pequenos sons das folhas, da chuva, uma serra cortando madeira, uma bacia batendo na pedra. Se deixe levar pelo silêncio, pela meditação, os versos gregorianos, o arrastar dos pés pelos corredores. Se deixe levar pelas mudanças de estações, pelo som dos sinos, pela contemplação. E também pela alegria dos monges quando saem do mosteiro e entram em contato com a natureza e também brincam na neve.


São duas horas e meia que você vive dentro do Mosteiro. Não há comentários, não há explicações, não há nada que nos diga algo sobre o filme, por isto não o considero um documentário, mas uma experiência estética e espiritual.

O tempo é outro, o silêncio e os sons, os monges vivem em suas celas, os que trabalham o fazem sempre sozinhos. Eles tem momentos comunitários, no domingo e em dias festivos eles fazem a refeição juntos. Eles saem do Mosteiro para passeios e é o único momento onde os vemos falar um com os outros.

Durante 2 horas e meia submergimos no mundo contemplativo de uma vida dedicada ao amor à Deus. "E Deus me seduziu e eu me deixei seduzir". O filme é lento como a vida dos monges, um aprendizado de paciência e respeito ao tempo. Sempre dizemos que o tempo voa, mas é o mesmo tempo ali, só que ao focar nos detalhes, vivenciar cada momento, o tempo é mais lento e completo, do contrário, não o percebemos porque não é vivido. Na correria do dia a dia não notamos nada, não vemos os detalhes. Quantas vezes passamos por uma mesma rua e não vemos os detalhes de uma casa, uma bela árvore que está ali há anos?



Moro num local onde as pessoas dizem que é quieto demais, silencioso demais. As pessoas já não conseguem viver sem barulho? o que este barulho vem preencher? Não existe silêncio total na vida, há inúmeros sons, a natureza tem seus sons, nosso corpo tem sons. O silêncio se torna grande quando há falta, uma ausência, como senti durante o luto de minha mãe, mas no dia a dia eu gosto dos pequenos sons. No filme um dos mais belos sons são os sinos. Sinos relembram a minha infância.



Por duas vezes a câmera foca um avião que passa no céu. Que mundo distinto. Mas é para pensar, senão é questão de ser monge, mas que mundo é este que vivemos?  com todo o barulho, poluição visual e sonora, onde não temos um momento de silêncio, de meditação, nenhum refúgio, um jardim secreto. Quando busco um lugar para ficar só e em silêncio vou a um cemitério, e ainda assim... às vezes não é possível pois há uma avenida passando ao lado.



O mosteiro Grande Chartreuse fica em Saint-Pierre-de-Chartreuse, ao norte de Grenoble, nos Alpes. A ordem dos cartuxos foi fundada por São Bruno. Há monges e monjas, e mosteiros em vários lugares do mundo,inclusive no Brasil, em Ivorá - RS - Cartuxa de N. Sra. Medianeira.



Philip Gröning solicitou permissão para filmar dentro do Mosteiro em 1984, os monges responderam que precisavam pensar, que ainda era cedo. Levaram 16 anos para conceder a permissão. Gröning precisou filmar sozinho, sem equipe técnica e sem iluminação. Ele viveu no mosteiro por 6 meses.

Trailer:




Philip Gröning nasceu em 1959 em Düsseldorf, Alemanha. 

FILME: GORDOS - 2009


Direção: Daniel Sánchez Arévalo - 2009
Duração: 110 min
Título Original: Gordos


O filme trata de 05 pessoas com suas histórias diferentes e que são gordas. A questão na terapia que fazem não é emagrecer, mas sim, por que são gordos? o que os leva a comer compulsivamente? e mais, caso se sintam bem estando gordos não há motivos para fazer terapia.

Um belo enfoque sobre a obesidade, pois aqui não se trata de peso, mas do corpo, o corpo que somos nós, se nos sentimos bem ou não neste corpo. E geralmente a questão da obesidade está ligada a questões pessoais, como carências, culpas, tédio, contradições que não conseguimos resolver e então colocamos no lugar comer compulsivamente. O reverso da anorexia, da bulimia onde também são questões psíquicas que levam a pessoa a estas doenças.

O filme me atraiu de imediato, pois eu mesma engordei muito durante uma depressão, mas pela primeira vez estou parando para pensar no que me leva a isto. Claro que para emagrecer é preciso reduzir a comida, fazer exercícios, mas não é esta a questão do filme, que aliás nos mostra um homem magro e que faz uma campanha publicitária sobre um remédio para emagrecer e que depois ele mesmo engorda novamente. Quantos não emagrecem e engordam novamente. Por que?

Sempre me pergunto se realmente seria uma constituição física que daria o prazer de poder comer a uns e a outros não, mas algo em mim dizia: Não! Mesmo famílias obesas há algum problema ali e que não é físico, e que se transmite por herança aos descendentes.

As cinco histórias nos mostram exatamente isto, por que eles comem compulsivamente? por que eles são gordos?

O terapeuta Abel (Roberto Enríquez) conduz as sessões, ele é magro, mas isto não o exime da questão, pois justamente é um terapeuta para gordos por ele próprio ter pavor da obesidade e foi sua forma de lidar com isto. Enrique (Antonio de la Torre) é o garoto propaganda que engorda novamente. Temos o casal Sofia (Leticia Herrero) e Alex (Raúl Arévalo) que fazem parte de uma comunidade religiosa e desejam se casar. Um casal gordo com dois filhos, sendo que ela é gorda e o filho é magro e se diverte atormentando a irmã por ser gorda. E uma mulher que engorda por ser a forma que ela encontra para terminar o seu namoro, mas não assume isto.

O filme vale a pena ser visto não só pelo enfoque da obesidade, mas também para outras questões que transferimos para o corpo.

O que você limita, mas adora?
O que adora, mas reprime?
O que reprime, mas te liberta?
O que te liberta, mas você condena?
O que condena, mas ama?
O que ama, mas rejeita?

Daniel Sánchez Arévalo nasceu em 1970 em Madrid, Espanha

terça-feira, 2 de setembro de 2014

FILME: CARTAS PARA JULIETA - 2010


Direção: Gary Winick - 2010 
Duração: 105 Min 
Título Original: Letters to Juliet 

Sophie (Amanda Seyfried) é noiva de Victor (Gael García Bernal) são noivos e ele está prestes a inaugurar seu restaurante em New York. Decidem então fazer uma pré-lua de mel viajando para Verona na Itália, a cidade de Romeu e Julieta.

Porém Victor está empolgadíssimo com seu restaurante e só pensa nisto dedicando seu tempo com a culinária local e os vinhos abandonando Sophie, e resolvendo sua culpa com isto sempre jogando para ela a responsabilidade da escolha, mas deixando claro que ele gostaria de ir,mas se ela não quiser ele não vai. Sophie acaba sempre concordando com tudo e para ocupar seu tempo sai para passear por Verona, pois se cansa rapidamente das visitas culinárias do noivo.

Num destes passeios ela encontra a Casa de Julieta onde mulheres diariamente deixam cartas na parede embaixo do balcão pedindo conselhos à Julieta em seus casos de amor. Sophie é uma checadora de fatos e quando uma mulher passa recolhendo as cartas ela a segue e conhece então as secretárias de Julieta que respondem a todas as cartas deixadas. Numa ida para recolher as cartas ela acaba deslocando um tijolo da parede e ali surge uma carta muito antiga que tem em torno de 50 anos que foi escrita. Sophie então decide responder esta carta.

Alguns dias depois irrompe na sala das secretárias um jovem impetuoso e bravo, é Charlie (Chris Egan) que quer saber quem escreveu a carta, ele não aceita muito bem que sua vó, Claire (Vanessa Redgrave) esteja ali em Verona tentando fazer o que não fez há 50 anos atrás, e procura por Lorenzo (Franco Nero) seu amor da adolescência.

Sophie embarca junto nesta busca pela Itália e muitas coisas irão acontecendo neste trajeto que poderá mudar a vida de todos eles.

O filme tem paisagens belíssimas que só por isto já valem o filme.

Gary Winick nasceu em 1961 em Manhattan, New York, EUA e faleceu em 2011 na mesma cidade.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

FILME: DE ENCONTRO COM O AMOR - 2005


Direção: Brad Mirman - 2005 
Duração: 100 min 
Título Original: The Shadow dancer 

Jeremy (Joshua Jackson) vive em Londres, trabalha numa editora e deseja ser um escritor. Seu chefe o chama, está indignado com o concorrente que está editando um escritor que há tempos não escreve, então ele também precisa fazer algo assim. É quando vem a ideia do escritor Weldon Parish (Harvey Keitel) que há muitos anos não edita nada e está desaparecido na Itália onde se refugiou, para ser mais exato, na Toscana. A missão de Jeremy é encontrá-lo e convencê-lo a voltar a escrever.

Uma deliciosa comédia romântica com belíssimas paisagens.

Jeremy encontrará Weldon, mas não será nada fácil se aproximar dele, ainda mais que ele é protegido pelos moradores locais, principalmente pelo dono da pousada, pelo padre e pelo dono do bar. Aos poucos ele vai conseguir aproximar-se até que Weldon lhe dará valiosos ensinamentos de como ser um bom escritor, mas nada dele mesmo escrever, pois sofre de um bloqueio desde que sua esposa morreu num acidente. Ao mesmo tempo ele conhecerá a filha do escritor, Isabella (Claire Forlani) por quem se apaixonará. A partir daí tudo é possível de acontecer.

Um pássaro que voava muito alto um belo dia é pego por uma ventania e consegue descer, mas quebra a asa. Depois disto ele tem medo de voar até o dia que um vento muito forte o empurra para cima e então ele perde o medo e volta a voar.

Quem será o vento de quem no filme?

Trecho do filme:



Brad Mirman nasceu em 1953 na Califórnia, EUA.

Música - Quien Sera (Sway) - Dean Martin 

FILME: BELEZA ROUBADA - 1996


Direção: Bernardo Bertolucci - 1996 
Duração: 118 min
Título Original: Stealing Beauty 

Lucy (Liv Tyler) é uma bela jovem que viaja para a Itália após a morte de sua mãe para ter seu retrato pintado, reencontrar amigos e principalmente para rever o jovem em quem dera o primeiro beijo quatro anos antes.

O local onde vivem seus amigos, a Toscana, é belíssimo, a casa de pedras típica do local, as parreiras de uvas, as oliveiras. Diana (Sinéad Cusack) é casada com Guillaume (Jean Marais), são os donos da casa e ele é um artista. A casa toda está repleta de obras suas, principalmente na parte externa, esculturas em terracota, cerâmica de mulheres, crianças. Diana é uma alma generosa, mas carrega uma tristeza dentro de si. Ela cuida de Alex (Jeremy Irons) que está doente em estado terminal, mas que ganha um élan com a chegada de Lucy.

Em contraste com todos ali que curtem a vida e o sexo, Lucy busca o amor.Ela é virgem e sonha com sua primeira noite, mas tem que ser com amor e não apenas uma transa. Ao final ela descobrirá um grande segredo de sua mãe a respeito de seu nascimento.

O filme já vale só pelos cenários, as paisagens, mas a amizade de Lucy e Alex é bonita, de confiabilidade e generosa, os diálogos deles são os melhores do filme.

O despertar da sexualidade de uma forma ainda inocente, ainda a busca do amor, coisa que no mundo atual muitos desprezam e querem apenas o sexo.


Bernardo Bertolucci